sábado, 18 de fevereiro de 2017

Um Difuso Sentir





Ter uma ideia, um pensamento sobre o que nos aflige é estar longe dele.
Sofrer é não pensar ainda, para fora do sentir as coisas num baque na alma.
Mas pensar é ao menos ainda viver ao pé do que nos comove.
Não me é fácil pensar hoje seja sobre o que for. Como água por borracha, as coisas passam por mim e deixam-me intacto.
Que significa no fim da vida o que problematizámos na plenitude?
O que ficou foi apenas um difuso sentir com um grande encolher de ombros no meio e um manguito na consciência.


Vergílio Ferreira
in, Conta-Corrente 1



Liberdade de Busca individual





Para a maior parte dos homens (e mulheres), aquilo que eles classificam de consciência é o registo de noções, de impressões e de convicções compostas pela reflexão cerebral e pela educação.
Essas formações são tão fugitivas como o reflexo das nuvens num espelho.
Elas não nos pertencem de si, porque podem ser modificadas pelas mais diversas influências.
Nada, neste conjunto de ideias e conceitos, sobrevive à dissolução do ser físico, emocional e mental. É uma consciência que não se inscreve no nosso ser imortal.
Quantos homens e mulheres na Terra acordarão em si a Consciência real, aquela que os tornará "conscientes e responsáveis"?
É portanto necessário, para falar "conscientemente", entendermo-nos quanto às palavras, depois considerar os meios de acordar essa consciência.


In, A Abertura do Caminho
ISHA SCHWALLER DE LUBICZ



Entre os escolhidos existem duas categorias.
Primeiro, são aqueles que já não estão totalmente satisfeitos com as explicações do dogma Ocidental, e no entanto ainda estão profundamente ligados a certas observanças religiosas. Estes nunca devem ser instados a abandonar a prática de seu culto, pois o ritual e oração comunitária são um forte apoio moral, e sem eles o homem “libertado” está em algum perigo de confundir liberdade de experiência com a mera ausência de moralidade.
Em Segundo lugar, há aqueles que sentem uma necessidade imperiosa de procurar a Luz fora de proibições dogmáticas e obrigações rituais. A estes deve ser dito a verdade que os místicos Budistas ensinam a seus discípulos: Até aqui você precisava de rituais, cultos, e imagens para consolá-lo em sua vida terrena, para canalizar as suas paixões e direcionar sua mente para um mundo superior. Mas se você quiser encontrar libertação e criar em si mesmo as condições de vida eterna, você deve abandonar obrigações doutrinárias sempre que estas interferiram na liberdade de sua busca.


In, A Abertura do Caminho
ISHA SCHWALLER DE LUBICZ



Nada incentiva amoralidade egoísta mais do que a desculpa da crença cega e com a certeza do perdão, especialmente quando não se precisa nem mesmo cumprir sinceramente as condições para obter o perdão. As ideias de culpa, pecado, condenação e perdão têm apenas um valor muito relativo, a menos que olhemos para a realidade por trás delas. Faltas cometidas contra uma convenção estabelecida são uma questão para a comunidade ou a ordem social; mas no que diz respeito a pecados “reais”, qual homem pode julgar os pecados de outro, não sendo capaz de ler a sua consciência e ver seus verdadeiros motivos?
O mal que faz do homem um pecador, na realidade, não reside no acto em si, mas na ofensa contra a própria convicção da pessoa. E isso continua sendo verdade, quer ou não a condenação se justifique. Pois a convicção, a menos que seja uma construção intelectual artificial, é o produto da consciência actual do indivíduo, e em obedecendo esta, ele está obedecendo o que é verdade para ele no presente; e mesmo que o resultado seja lamentável, ele permanecerá essencialmente inocente, embora ele tenha que aguentar as consequências temporais.
Em outras palavras, a experiência vai ampliar sua consciência, sem retardar sua unificação final. Se, por outro lado, sua convicção for baseada em argumentos racionais, as infelizes consequências de erro podem iluminar sua consciência, se ele compreendê-las; se não, um escurecimento da consciência irá resultar até que ele aprenda a eliminar racionalizações de seus julgamentos.


In, A Abertura do Caminho
ISHA SCHWALLER DE LUBICZ




A falta de convicções – Isto é, de consciência vigilante – É um estado não de inocência, mas um estado de estupidez em que um homem perde tanto o seu sentido de responsabilidade quanto seu sentimento para a experiência humana.
Igualmente, a submissão cega à autoridade denominacional é uma desculpa para matar o senso de responsabilidade, e impedir o crescimento do discernimento. Pois só se aprende com o que se sofre na própria pessoa e experiências próprias dentro de si mesmo. E a única ajuda que pode ser dada são avisos sobre a justeza da finalidade e a eficácia dos meios.
Ninguém pode ser transformado pela experiência de outro.
Aquele que deseja realizar sua Unidade supra-humana deve deixar o rebanho e partir em frente para explorar seu próprio eu, e, através de si mesmo, o universo.


In, A Abertura do Caminho
ISHA SCHWALLER DE LUBICZ




..........................a complete hunger for you




Here I am back 
and still smoldering with passion, 
like wine smoking. 
Not a passion any longer for flesh, 
but a complete hunger for you, 
a devouring hunger. 


Henry Miller
in, A Literate Passion: Letters of Anaïs Nin & Henry Miller




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Nassim Haramein - Event Horizon ( LEGENDADO )

Esquece-te de Mim, Amor




Esquece-te de mim, Amor, 
das delícias que vivemos 
na penumbra daquela casa, 
Esquece-te. 
Faz por esquecer 
o momento em que chegámos, 
assim como eu esqueço 
que partiste, 
mal chegámos, 
para te esqueceres de mim, 
esquecido já 
de alguma vez 
termos chegado.


António Mega Ferreira 
in, “Os Princípios do Fim”




Ser humilde não é ser submisso!


Noell Oszvald



Às vezes, confundimos as coisas e achamos, por exemplo, que ser humilde é a mesma coisa que ser submisso. Mas não, não é, mesmo que ambas as palavras sejam frequentemente empregadas como sinônimos.

Uma pessoa humilde não busca ficar no centro das atenções, não por medo ou timidez, não por se sentir inferior, mas por entender que isso não é importante, por saber que ninguém precisa estar no centro para ser centrado. E a pessoa humilde pode até abrir mão de expressar sua própria opinião, não por achar que ela não tenha valor, mas por entender que o que ela pensa, naquele momento, talvez não seja tão importante ou por perceber em certas situações que é mais prudente se calar.

Ser humilde é ser modesto e ter consciência das próprias limitações, é aceitar-se e aceitar os outros e viver de forma simples, natural e despretensiosa, sem vaidade, sem se corromper por valores estranhos e compreendendo que não é melhor que ninguém. Sim, ser humilde é principalmente isso: compreender que não se é melhor que ninguém, pois ninguém neste mundo é melhor que ninguém. Então, a pessoa humilde sabe que também o outro, qualquer outro, não é melhor que ela. E aqui está a principal diferença entre a humildade e a submissão.

A pessoa submissa não se valoriza, acredita não ter os mesmos direitos que (determinadas) outras pessoas, acha-se fraca perante aqueles que vê como mais fortes, permite ser desprezada porque ela mesma se despreza e abre muitas vezes mão de seu lugar neste mundo por se sentir inferior, por acreditar ser alguém de segunda categoria.

Enquanto a humildade é caracterizada por uma forte aceitação de si e dos demais como seres com o mesmo valor, a submissão é marcada pela rejeição de si mesmo e uma supervalorização do outro. Enquanto, então, a humildade é o gesto de amor próprio e ao próximo, a submissão é um gesto de negação de si mesmo, de alguém que não se ama e não se respeita.

Ao ter consciência das próprias limitações, a pessoa humilde sabe também onde estão os limites do outro, não permitindo que ele vá longe demais e não aceitando ser menosprezada, maltratada, humilhada por ninguém. Já a pessoa submissa não conhece esses limites ou talvez até conheça, mas não acredita ter o direito de impô-los, aceitando o menosprezo, os maus-tratos e a humilhação, submetendo-se até mesmo a um rebaixamento moral.

Portanto, está enganado quem acredita que está sendo humilde ao aceitar ser pisado por quem quer que seja, pois isso nada tem a ver com humildade. Isso é submissão.

Outra diferença entre as duas coisas é que a pessoa humilde é humilde sempre, independentemente da pessoa com quem interage. Ela será humilde ao falar com o chefe, com o prefeito, com o Presidente da República e será igualmente humilde ao falar com um empregado, com o zelador do prédio ou com o desabrigado que lhe pede esmola na rua. Novamente: ela entende que todas as pessoas (todas mesmo!) têm o mesmo valor. Já a pessoa submissa costuma se rebaixar diante daqueles que acredita que são mais fortes que ela, mas tenta humilhar alguém que acredite ser mais fraco. Ela aceitará então ser maltratada por seu chefe, mas maltratará o zelador do prédio ou qualquer um que julgue ser inferior.

Para mim, humildade é uma virtude, que devemos incentivar e alimentar. Já a submissão é um desvio, um defeito que precisamos corrigir o mais rápido possível. A humildade liberta, a submissão aprisiona.

Devemos sim nos sentir pequenos, pois somos pequenos, mas diante da criação, do universo, da vida. Mas jamais devemos nos diminuir perante qualquer outra pessoa, já que, na essência, somos todos iguais.


Gustl Rosenkranz



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

NUNCA SEREI VENCIDA





Nunca serei vencida.
Não o serei
senão à força de vencer.

Cada armadilha estendida
fechando-me cada vez mais
no amor
que acabará por ser o meu
túmulo,
acabarei a minha vida numa cela
de vitórias.

Sozinha,
a derrota encontra chaves,
abre portas.

A morte,
para atingir o fugitivo,
tem de se pôr em movimento,
perder essa fixidez
que nos faz reconhecer
que ela é o duro contrário
da vida.

Ela dá-nos o fim do cisne
atingido em pleno voo,
de Aquiles agarrado pelos cabelos
por não sabermos que sombria Razão.

Como a mulher asfixiada no vestíbulo
da sua casa de Pompeia,
a morte não faz mais do que prolongar
no outro mundo os corredores
da fuga.

A minha morte será
de pedra.

Conheço as passagens,
as curvas,
as armadilhas,
todas as minas da Fatalidade.

Não posso perder-me.

A morte,
para me matar,
terá necessidade da minha
cumplicidade.


MARGUERITE YOURCENAR
in, Fogos




Singularity – the state of being singular; Oneness






The biological system is a natural form of technology. A simple examination of the nanobiology of the macromolecular system of any cell will attest to this – enzymes and structural proteins are veritable nanomachines, linked to the information processing network of DNA and plasma membranes. Far from being a primordial or rudimentary organic technology – we are discovering more and more the level of complexity and paragon technological sophistication of living systems, which as is being discovered, even includes non-trivial quantum mechanical phenomena once thought to only be possible in the highly specialized and controlled environment of the laboratory.  
Nassim Haramein



Reciprocally, soon our technologies will become living systems – particularly through nanotechnology (which is being accomplished through reverse engineering and hybridization with biomolecules, particularly DNA) and general artificial intelligence – machine sentience. Following this parallelization of biology with technology, we can examine how humanity as a technological supraorganism is undergoing a period of punctuated speciation – an evolutionary transformation of both our inner and outer world.

Humanity possesses a unique characteristic amongst our co-inhabitants of planet Earth, in that we utilize technology to record and transmit information to progeny beyond what is naturally transmitted by the molecular genome. This is a form of technological heredity – a technigenome.
In his book, The Singularity is Near, Futurist Ray Kurzweil examines how the geometric (exponential) increase in human collective knowledge as well as the emergence of Strong Artificial Intelligence and advanced nanotechnological capabilities is seemingly leading to an inevitable point of fundamentally transforming the human species – The Kurzweilian Singularity – being nothing short of a form of technological transcendence beyond the putative limitations of the biological system.





Indeed, the human collective technigenome is undergoing punctuated evolution. This rapid adaptive radiation and expansion of our collective body of knowledge is fundamentally transforming human civilization. 

Since the behavior of each individual – from the structure of the belief system, worldview perspective, right down to the molecular biology – is directly influenced by the higher level dynamics of the macrosystem (civilization as a supraorganism) what it is to be human is fundamentally transforming as well. This is speciation. With selective impetus being more of a technological nature, as opposed to the supposed filters of natural selection. More specifically however, it is a change in the knowledge-base (technigenome), belief-system, and worldview of each individual – influencing the higher-level dynamics of the human collective body of knowledge, which in turn feeds back into each individual – forming the self-organizing feedback operation that is the causal genesis of this evolution. This is directed evolution – a species changing itself through its own actions. 

Although the evolution, in that sense, is being driven by consciousness – it is not exactly being done with an awareness of this inevitable outcome, aside from a few forward thinking technological and scientific aficionados – such as the transhumanists of the Kurzweilian Singularity. Almost seemingly juxtaposed to this cybernetic trans-speciation, is the very same perspective by much of the spiritual community of the transformation of humanity – just instead of being technological in nature it is envisioned as being purely consciousness-driven, by increasing transpersonal connectivity. 
However, since it is being self-driven – by our collective actions – we then have the choice of exactly what direction of transformation we want to move in. By bringing awareness to the global state of humanity, the technologically-driven introspective transformation we are experiencing, and working together – we can coordinate our actions and channel the awesome power of our exponentially expanding knowledge-base in any direction we so choose.
The question then is – where do we want to go?



“The origin of consciousness reflects our place in the universe, the nature of our existence. Did consciousness evolve from complex computations among brain neurons, as most scientists assert? Or has consciousness, in some sense, been here all along, as spiritual approaches maintain?” 
ask Hameroff and Penrose. 

"This opens a potential Pandora’s Box, but our theory accommodates both these views, suggesting consciousness derives from quantum vibrations in microtubules (protein polymers inside brain neurons), which govern neuronal and synaptic function, and also connect brain processes to self-organizing processes in the fine scale, ‘proto-conscious’ quantum structure of reality." 
Stuart Hameroff








Quem deve sentir vergonha não é o pobre mas quem cria pobreza




A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre mas quem cria pobreza.

Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.

Recordo-me que certa vez entendi comprar uma viatura em Maputo. Quando o vendedor reparou no carro que eu tinha escolhido quase lhe deu um ataque. “Mas esse, senhor Mia, o senhor necessita de uma viatura compatível”. O termo é curioso: “compatível”.

Estamos vivendo num palco de teatro e de representações: uma viatura já não é um objecto funcional. É um passaporte para um estatuto de importância, uma fonte de vaidades. O carro converteu-se num motivo de idolatria, numa espécie de santuário, numa verdadeira obsessão promocional.

Esta doença, esta religião que se podia chamar viaturolatria atacou desde o dirigente do Estado ao menino da rua. Um miúdo que não sabe ler é capaz de conhecer a marca e os detalhes todos dos modelos de viaturas. É triste que o horizonte de ambições seja tão vazio e se reduza ao brilho de uma marca de automóvel.

É urgente que as nossas escolas exaltem a humildade e a simplicidade como valores positivos.

A arrogância e o exibicionismo não são, como se pretende, emanações de alguma essência da cultura africana do poder. São emanações de quem toma a embalagem pelo conteúdo.


Mia Couto
in, “E se Obama fosse africano?”


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Perguntas difíceis...ou não





Hoje, fui lanchar com um Apolo de homem, e depois de alguma conversa e eu não me por a jeito, ele pergunta-me o que eu espero, aprecio e admiro num homem. 

Entendi o que ele queria saber mas, como queria saber a verdadeira intenção da pergunta, perguntei-lhe se ele se referia a um relacionamento com um homem em termos de amizade, ou num relacionamento amoroso.
Ele queria saber o que me cativa num homem a ponto de me entregar fisicamente e emocionalmente.

Não costumo responder a este tipo de perguntas, porque na maioria das vezes têm uma segunda intenção por trás. Mas aqui o Apolo teve a sua graça na forma como abordou a questão, e resolvi responder...

E foi mais ou menos assim:

Comecei por lhe dizer que sou uma mulher que, devido à infância que tive, tenho uma necessidade enorme, desde pequena, em ser autónoma, independente, não depender de um homem para ter a minha paz e tranquilidade na minha vida.
Estou habituada já desde cedo a pagar as minhas contas, a ir atrás do que eu quero sem me encostar a homem nenhum, seja ele pai, marido ou namorado.
E disso não posso abdicar nunca porque, estaria a ser infiel ao meu Código de Honra.
Não me rejo pela Ética e pela Moral criadas pela Sociedade.
Tenho o meu próprio Código de Honra, ao qual sou fiel e leal, antes de o ser com os outros.

E por essa razão, não procuro um homem com uma boa conta bancária, um bom carro, um bom emprego...
Aliás, não procuro nada num homem...porque não sinto o amor como uma necessidade mas sim, como um complemento, um enriquecimento, uma oportunidade de crescimento e evolução mútua...simplesmente aprecio quando algo de bom aparece no meu Caminho, que acredito que, quando acontece não é por acaso.

Então, a pergunta que não quer calar é:
O que é que esse homem pode acrescentar de positivo à minha vida, e eu à dele?

Olhei para ele e vi logo que estava a pensar em coisas materiais, mas não falava...

E eu continuei...
Não me refiro a dinheiro...dessa parte cuido eu.
O que me cativa é algo que vai muito para além disso.

Não me cativa um homem que procure a perfeição em todos os aspectos da vida, completamente dominado pelo Sistema, que não passe de mais um carneiro no meio do imenso rebanho.
Não me cativa um homem mentalmente dominado, que não questiona, que não pensa, que não sente.
Não me cativa um homem desequilibrado em termos energéticos, completamente centrado nos aspectos masculinos, racionais, objectivos e virado para o exterior.
Não me cativa um homem céptico, completamente desligado do seu Sagrado Masculino, do seu Interior Divino.
Não me cativa um homem que seja pinga-amor, mulherengo, infiel sempre que tem oportunidade, que não tem respeito por si próprio entregando-se a qualquer uma que se ponha a jeito, em troca de um momento de prazer banal e animalesco, em que demonstra uma grande falta de respeito por si próprio, falta de carácter e falta de personalidade.
Não me cativa um homem que ande cá por andar, sem objectivos na vida, sem nada que o entusiasme de verdade, sem paixão, sem ganas de viver, sem uma causa para defender.
Não me cativa um homem que se encosta aos outros para chegar a algum lado, não importa qual.
Não me cativa um homem pré-histórico, que olha para uma mulher como um objecto de prazer, como se ela fosse um ser inferior, como se ela não tivesse nada de interessante para dizer, como se estivesse ali para o servir.
Não me cativa um homem com uma vida banal, com um emprego das 9h às 19h, que vai ao futebol e à discoteca todos os fins-de-semana e que não gosta de estar sozinho.

Foi mais ou menos por aqui que ele me interrompeu, talvez cansado de me ouvir dizer o que não me cativa num homem, e me diz que a pensar assim eu iria acabar sozinha e mal amada.

Aí, tive de por as rédeas no meu Ascendente Carneiro para não levantar o tom da conversa...

Respondi-lhe que já sou muito bem amada por mim própria.
Que estaria mal da minha vida se dependesse de um homem para ser bem amada, se é que isso é possível.
Perguntei-lhe se os homens sabem amar de verdade uma mulher.
Ele calou-se...
Acho que entendeu o recado.

Não dependo do olhar de um homem para me sentir feliz!
Não lhe dou esse poder!
Tenho tudo aqui dentro!

Por esta altura, eu já estava de esplanada montada, sem dar muita conversa.
E ele pergunta:
Mas afinal, para que precisas tu de um homem?

Eu olhei para ele, e a vontade de lhe responder não foi nenhuma mas...
Peguei no bolo que estava a comer e expliquei-lhe que eu sou como aquele bolo, bom, delicioso, com os sabores equilibrados, e que por si só não lhe falta nada, está mais do que bom, que não precisa de mais nada para ser um bom lanche.
MAS, se lhe puser uma cereja em cima fica ainda muito melhor!

Ele já estava a olhar para mim de lado...
e eu continuei...
Eu não sou uma metade, não ando à procura da minha alma gémea, da minha metade da laranja...como queiras chamar...eu já sou inteira!
Não preciso de um homem para me completar! Já sou completa!

Eu acho que ter um relacionamento amoroso com um homem é o desafio dos desafios!
Para ter um relacionamento positivo para ambos, têm de estar os dois em sintonia!
A complementarem-se um ao outro!
A servirem de espelho um ao outro, porque só assim podem evoluir juntos como seres humanos, que para mim é a única razão para cá estarmos encarnados na Terra.
A limarem arestas juntos!
A crescerem juntos!
A superarem-se juntos!
A evoluírem como pessoas e como almas!
A terem no sexo uma forma de se transcenderem, de se tocarem enquanto almas.

Por isso, para mim só faz sentido estar num Relacionamento Livre!
Nem fechado(com ciumes, controle, desconfiança, cobranças, casamento, etc) nem Aberto(relacionando-se com outras pessoas exteriores à relação).
Já os vivi e não me preenchem minimamente.

LIVRE!!!
Com compromisso, mas com total liberdade de ir embora quando entender necessário.
E isso só será possível com o meu Poeta Carroceiro!

É preciso ser um homem com uma personalidade muito forte, saber bem o que vale, ter uma boa auto-estima e um grande amor próprio para ser feliz num relacionamento assim.
Que me faça superar a mim própria, ser melhor pessoa e melhor mulher, que traga para fora de mim o que de melhor eu sou, alguém que eu admire e que me admire tal e qual como sou, sem expectativas nem idealizações, que procure a tranquilidade interior, o seu lado mais sagrado, a sua essência e me ajude a fazê-lo também, que seja sensível o suficiente para amar e entender as 3 Susanas que vivem aqui dentro de mim, mas ao mesmo tempo forte o suficiente para estar ao meu lado sem se sentir pequeno, alguém que eu respeite e admire pelo que é e que me respeite e admire pelo que eu sou. Um homem inteiro, seguro de si, que sabe o que quer. Um homem em quem eu confie de uma forma espontânea. Um homem energéticamente equilibrado.
Bicho em extinção, bem sei...mas um dia iremo-nos cruzar por aí, numa esquina qualquer...

E depois disto o silêncio imperava...
E eu pensava...mais um homem lindo de morrer, um autêntico colírio para os olhos, digno de pôr o suspirómetro nos pincaros...mas, carroceiro que dá dó...



O macro é um holograma do micro



O nosso mundo interior cria o nosso mundo exterior.
O macro é um holograma do micro.
O drama interior é igual ao drama exterior assim como o potencial interior pode ser materializado no exterior.
No 3D ou mundo fisico, o visível tem mais força que o invisível.
É então na maioria das vezes no visível que iremos ser confrontados com o estado interior em que estamos.

Exemplos:

- Não tenho dinheiro! - em que estado está a tua valorização pessoal?

- Estou sozinh@/abandonad@/rejeitad@! - onde foi que te perdeste de ti própri@?

- Estou rodead@ de pessoas más, desonestas, injustas, arrogantes e materialistas! - que sombras em ti ainda não abraçaste?

Espero que tenham percebido como fazer a correspondência.
É maravilhoso quando percebemos o quanto afinal somos tão iguais...


Vera Luz



The Sun

RECORDAMO-NOS DOS NOSSOS SONHOS




Recordamo-nos dos nossos sonhos:
não nos recordamos dos nossos sonos.

Apenas duas vezes penetrei nesses fundos
atravessados por correntes
onde os nossos sonhos
não são mais do que embarcações
de realidades submersas.

No outro dia,
bêbada de felicidade
como se fica bêbada de ar
no final de uma longa corrida,
atirei-me para a cama,
como uma nadadora
que se atira de costas,
os braços cruzados:
mergulhei num mar azul.

Encostada ao abismo
como uma nadadora que nada com prancha,
sustentada pela bóia de oxigénio
dos meus pulmões cheios de ar,
emergia desse mar grego
como uma ilha recém-nascida.

Esta noite,
bêbada de desgosto,
deixo-me cair sobre a cama
com os gestos de uma afogada
que se abandona:
cedo ao sono como à asfixia.

As correntes de recordações persistem
através do embrutecimento nocturno,
levam-me para uma espécie de lago Asfáltico.

Não há forma
de mergulhar nessa água saturada de sais,
amarga como a secreção das pálpebras.

Flutuo como a múmia sobre o seu betume,
na apreensão de um acordar
que será no máximo uma sobrevivência.

O fluxo,
depois o refluxo do sono
fazem-me rebolar contra minha vontade
nessa praia de cambraia.

A cada momento,
os meus joelhos batem um no outro
à tua lembrança.

O frio acorda-me,
como se me tivesse deitado
ao lado de um morto.



| Marguerite Yourcenar |





terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A Doutrina Perfeita





Muitas vezes as pessoas dirigem-se a mim, dizendo: «você, que é independente». Não sou assim; continuamente devo ceder a pequenas fórmulas sofisticadas que corrompem, que dão um sentido inverso à nossa orientação, que fazem com que a transparência do coração se turve. Continuamente a nossa insegurança, o egoísmo, o espírito legalista, a mesquinhez, a vaidade, toda a espécie de circunstâncias que tomam o partido da vida como desfrute à sensação se sobrepõem à luz interior. Só a fé é independente. Só ela está para além do bem e do mal. 

Estar para além do bem e do mal aplica-se a Cristo. «Perdoa ao teu inimigo, oferece a outra face» - disse Ele. Não é um conselho para humilhados, não é um preceito para mártires. Nisso aparece Cristo mal interpretado, a ponto de o cristianismo ter sido considerado uma religião de escravos. Mas esquecemos que Cristo, como Homem, teve a experiência-limite, uma visão do inconsciente absoluto, o que quer dizer que a sua consciência foi saturada, para além do bem e do mal. Esse homem que perdoa ao seu inimigo não o faz por contrariedade do seu instinto, por reparação dos seus pecados; mas porque não pode proceder de outra maneira.

A sua natureza simplificou-se; nada o pode abalar, porque ele desesperou para sempre da sua controvérsia e, possivelmente, da sua humanidade. A agonia do Homem é isto - a sua conversão à luz interior. Qualquer doutrina que professe a luta, seja doutrina social ou religiosa, impõe-se facilmente às massas, porque a luta bloqueia a evolução profunda do homem, a qual é motivo da sua angústia. Um sábio, grande figura bíblica, disse: «A causa do temor não é outra coisa senão a renúncia aos auxílios que procedem da reflexão». Ligados todos por uma igual cadeia de trevas, os homens julgam superar os factos por meio duma acção violenta. Dispersam os seus fantasmas prodigiosos durante algum tempo, mas logo são surpreendidos por inesperados terrores. A melhoria das suas condições de trabalho, o direito ao lazer e à cultura, a protecção à saúde e à velhice, tudo isso foi uma necessidade imposta pelos factos, mas só actua como lei se for manifestado pela reflexão. A doutrina perfeita nem ofende a multidão nem se arroja a seus pés. Não é feita de belas palavras nem dum folclore de atitudes. A natureza combate pelos justos. Essa natureza é a fé.



Agustina Bessa-Luís 
in, "Contemplação Carinhosa da Angústia"






Pare de demonizar a raiva




Existem dois tipos de raiva: a reprimida e a natural.
Quando você reprime a sua raiva, ela vira violência, autoritarismo, imposição sobre as pessoas.
Quando você a expressa, ela vira conflito, crescimento.
Você quer ter poder sem raiva? Quem contou essa mentira?
Os pais fazem quando repassam a ideia de que eles podem sentir raiva, os filhos não. Quem manda são eles, os pais, e ponto. Muitas vezes cometem as maiores atrocidades contra os filhos, que não podem fazer nada. Por quê? Porque são mais fortes, têm mais raiva, podem pisar em cima da criança.

O bebé às vezes chora porque está a descarregar uma dor que ele sente, muitas vezes emocional, e chorar é bom. A criança faz pirraça, berra, chuta… Ela está a por para fora a raiva, é excesso de energia, ela precisa exteriorizar, descarregar. Antes de dormir, a criança começa a importunar porque ela tem que criar um atrito para expressar a raiva e depois relaxar. Os pais não entendem, condenam. Dizem para ela não ser selvagem.

Há um grande equívoco com a raiva. Ou não. Ou é intencional mesmo do sistema. Castravam os eunucos, tiravam suas bolas para se tornarem dóceis. Porque a raiva é muito próxima da sexualidade. Existe uma raivinha ali junto, uma coisa de bicho, selvagem. É bonito, ninguém sai dando porrada nas mulheres. A raiva reprimida é que deixa as pessoas violentas no sexo. As fantasias de machucar, de subjugar, de dominar o outro estão presentes na sexualidade por causa de tanta repressão à raiva e isto acaba virando uma distorção.

Gente sem raiva é bom para muitos porque cria-se um bando de bundas-moles. Esses bundas-moles dizem: “eu não tenho raiva, sou uma pessoa civilizada”. Isto é uma idiotice total, baita burrice. Depois, eles descarregam a raiva sobre o próprio corpo. Se você tranca a raiva, começa a ter azia, problemas de estômago, problema nas pernas, nas juntas, o corpo fica rígido, duro. É o corpo que paga o preço.

Quantas mulheres se ferraram a vida inteira por serem submissas aos homens, por não terem força, não conseguirem se bancar? Foram trucidadas em relações, ficaram dependentes, carentes, se ferraram, se foderam porque negaram a raiva.
Na nossa sociedade, menina não pode ter raiva, é feio. Basta olhar os brinquedos desenvolvidos para meninas. 99% deles são estúpidos para elas ficarem estúpidas, sem força, não desenvolverem seu poder, nada… E a maioria das brincadeiras dos meninos com espada, tiro, pular riacho, jogar futebol… Ou seja, tudo o que exercita a energia da raiva. Por isso a sociedade é totalmente dominada pelos homens. Mas se o homem desenvolve um pouco a raiva, tratam logo de reprimi-la. Ela tem que ser comprimida, comedida, para ele não ser questionador demais e não incomodar.

Um animal tem raiva. O touro bufando com o pé no chão quando se sente ameaçado. O leão urrando feroz, pulando, rugindo. O Tarzan soltava aquele berro porque tinha poder, era um grito de poder. Hoje em dia os heróis são só magnéticos, eles não têm corpo, não têm força… É só apertar um botão e jogam uma bomba nos videogames e jogos. São todos heróis bundas-moles, para todo mundo ser bunda-mole. Todos são dominados por um sistema estúpido que nos impõe o consumo de coisas desnecessárias, comidas poluídas e etc. E ninguém tem força para lutar contra tudo isso.

A culpa é a rainha da repressão da raiva. Toda raiva reprimida vira culpa. Você reprime e fica culpado, aí sente raiva por estar culpado e se sente culpado por sentir raiva, vira num ciclo sem fim. A repressão da raiva vira depressão, não existe mais força para viver. Quer um remédio para depressão? Vá transar, ative sua raiva! Mas uma pessoa deprimida que toma remédio, não incomoda, não enche o saco, paga suas contas em dia, ganha salário, tem plano de saúde é muito mais conveniente para essa sociedade doente.

A repressão gera doenças. Imagina você comprimir um vulcão, imagina a chama lá dentro, sem poder sair. Agora se imagine segurando a própria raiva: o seu corpo treme todo, você engole, faz uma força terrível, enrijece os músculos… Imagine quanta energia você gasta para segurar. O ideal é botar pra fora! Mas no mundo moderno as pessoas não conseguem. Antes, a gente usava muito o corpo, era uma forma de gastar a raiva. Correr, pular, subir em árvores, jogar futebol. Hoje em dia não se faz mais nada com o corpo, só movimentos prontos, na academia. A repressão só triplica.

Por isso, o bom é fazer meditação. Existe uma meditação específica para expressar a raiva porque não existe outros meios pra isso na sociedade. Não tem mais lugar nem pra correr, pra andar. É tudo um grande absurdo. Aí no trânsito buzinam, berram um pro outro. Descarregam, mas nunca solucionam a questão. Você tem que limpar a raiva para poder ter a raiva da situação real. Quando você a reprime, desconta em cima de um fato pequeno dez vezes mais energia. Normalmente em cima de alguém que você julga inferior. Mas quando está diante de alguém considerado superior a você, fica de quatro, todo cagado. Isso gera uma loucura na cabeça da gente.

Raiva e violência são coisas totalmente diferentes. A violência é gerada pela repressão. Quando uma pessoa reprime, brota uma raiva sem controle e estúpida. Minha mãe me batia de uma maneira que eu nem vou te contar… E conheço muitas histórias de pais violentos com seus filhos porque sou terapeuta. A violência come solta em cima de crianças com 5, 6, 7 anos, até ficarem marcadas. E ainda dizem “cala a boca, não reage”. Uma vez eu reagi com a minha mãe e levei um bofetão na boca que me deixou rodando até hoje. Mas se eu não burlasse as leis dela, eu seria um bundão apático, como tantos. As mulheres se queixam tanto de que os homens são bundões. Mas quanto mais bundões, mais elas gostam. Ficam mal comidas, porque bundão é ruim de sexo, não tem poder, não tem força, é o que eu chamo de pau de vento. Aí ficam insatisfeitas e se queixam, se lamentam, se lamuriam. São as “Helenas” da música do Chico Buarque.

A raiva tem que ser resgatada como uma fonte de energia. As escolas deviam ensinar isso, mas elas reprimem. A escola brasileira de maneira geral é muito burra porque criam seres estúpidos. A educação no Brasil foi deixada nas mãos da religião, só que os padres são as pessoas mais reprimidas, mais doentes do planeta. Áquelas pessoas que reprimem a sexualidade, pedófilos distorcidos sexualmente, foi encarregada a educação. Sabe quando eu vou respeitar essa educação? Nunca. Eu fui educado em colégio Marista, eu sei a atrocidade que é aquilo, eu sei o absurdo que é. Os conceitos absurdos. Eu sei quanto mal fez pra minha vida esses conceitos equivocados.

Raiva é fundamental na vida de todo ser humano, da criança principalmente. As crianças têm que brigar entre elas. Elas têm que aprender a usar sua raiva e a saber exercer o seu poder. Criança que nunca brigou vira bunda-mole. Nos colégios, a violência está representada através do bullying. Dez, doze garotos se aproveitando de um coitado. Nunca é parelho. Por quê? Por causa da repressão da raiva. Vinte descarregam em cima de dois, três. Eles pagam o pato. O bullying existe por causa da repressão da raiva nas famílias. As crianças descontam a merda de suas casas em cima de outros na escola.

A raiva é um agente transformador. É essencial para nossa vida, assim como a tristeza, assim como o amor. Não existe isso de a raiva ser pior que o amor. Raiva é força. Como você pode amar sem força? Quando você ama muito uma pessoa, também é capaz de sentir uma raiva muito forte. É diretamente proporcional. Mas a raiva não é má, ela nunca foi má. Geralmente depois de uma grande briga, as pessoas conseguem se encontrar porque a relação fica limpa.

Minha raiva sempre me ajudou a conquistar meus objetivos. Ela é limpa, clara. Não é reprimida, não faço as coisas por ódio. Eu expresso muito em meditação, quando estou limpo, vem uma energia forte de raiva para eu levar a frente meus projetos. E eu faço projetos incríveis na Comunidade Osho Rachana, onde moro. Se eu estivesse cheio de raiva reprimida, ressentido, magoado com as pessoas, não teria força para fazer nada.

Muita gente me acha grosso. E eu sou, falo na lata. Eu aprendi isso com a meditação. Dias desses, tive um momento super bonito com a minha parceira, mas no dia seguinte ela ficou doente. Ela queria me ver à noite e eu disse: “não quero nem olhar pra tua cara com essa energia de doente”. Ela me mandou uma mensagem: “porra, Milan!”. Eu não respondi. Dez minutos depois ela retornou: “é, eu acho que tu tem razão”. Pra ter essa postura, tem que ter poder. Ou então eu iria lá e ficaria de “ai benzinho, o que aconteceu?”. Ela ficou doente porque quis. É poder de se bancar em várias situações. Poder discutir com uma pessoa até o fim. Poder também é se dar conta de que errou, ceder.

Poder gera humildade. Raiva é energia. Mulheres, se um homem não tem raiva, vira as costas porque é um idiota. Eu quero uma mulher que tenha raiva, porque quando ela vai transar comigo, ela vira bicho. Que coisa boa. Mas vocês não gostam disso, vocês preferem aquela trepadinha mais ou menos. Talvez nem precise tomar banho depois. A raiva é muito fundamental, é muito importante na vida de cada um de nós. Resgate sua raiva. Para reprimir você gasta muita energia, depois que solta, ganha uma quantidade enorme de vida.


Milan



À primeira vez que se lê, dá uma raiva...
E depois, pensas... porque é que estou com raiva a ler isto?
Porque o texto é machista?
Mas depois, começas a analisar melhor e...
Há verdades que para nós mulheres custam a ouvir.
Se as mulheres tivessem mais raiva, não se deixavam pisar tanto pelos homens.
Não eram vítimas de tanta violência física e psicológica.
Não se deixavam ficar com homens que as maltratam, por vergonha do que os outros vão dizer, por vergonha de serem mulheres divorciadas.
Impunham os seus limites acima de tudo!

A realidade é machista!!!!!!!!
Ou as mulheres aceitam, ficam submissas, perdem o seu poder, e sofrem as consequências dessa sua escolha,
Ou, reagem, impõem limites, enfrentam, e usam a sua raiva para resgatar o seu poder.
O poder da mulher não é a sedução!!!!
A Mulher tem um poder pessoal concreto, real, que não exerce porque está submissa ao homem, à moral e à ética, da Sociedade e da Igreja.

A nossa Alma já antes de reencarnar nesta Dimensão, já foi vítima ela própria de manipulação machista, patriarcal, por esses ditos Trabalhadores da (Falsa)Luz das religiões patriarcais, em que lhe dizem que para ela evoluir tem de passar pela matéria, reencarnar na Terra, viver na Dualidade, limpar o seu karma... sofrer, passar por maus relacionamentos, famílias disfuncionais, doença, pobreza, violência...mas também amor, abundância, prosperidade, saúde e felicidade.

Nós não precisamos de evoluir porque já somos Plenas, Seres Evoluídos, Divinos!!!!!!

Já nascemos, seja qual for o género, vitimas de machismo por parte do sistema Patriarcal!!
Vítimas dos "Senhores" do Karma!!

Bora pôr cá para fora as nossas emoções, libertar a raiva reprimida, resgatar o nosso poder pessoal e libertarmo-nos de todas as crenças, para que a nossa alma possa ser livre e regressar à Fonte!!!!!!!!!
Só assim seremos verdadeiramente livres!!!!!!!


..............quando a ternura for a única regra da manhã




um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.


José Luís Peixoto
in, A Criança em Ruínas



Violência sem classe




Uma vida marcada na primeira chantagem, na primeira agressão. E que se repete, sempre. Até ao dia em que ela ou ele furam o bloqueio do silêncio imposto pelo medo, pela vergonha. Têm a coragem de se assumir como vítimas. Hoje celebra-se o Dia dos Namorados, tempos de corações vermelhos trespassados por setas de Cupido, dia de troca de rosas. Ou mensagens lamechas.
E, enfim, do comércio faturar mais do que o normal.

O Dia de S. Valentim - o santo que desafiou Cláudio, o imperador adverso ao casamento dos jovens antes de entrar no seu exército - transformou-se, também, num dia de denúncia. 
Nunca é de mais lembrar: chantagem e posse são palavras interditas numa relação a dois.

Mas a realidade amorosa, em certos casos, é dura, e os sinais surgem muito mais cedo do que seria expectável. Há crianças de 13 anos vítimas de violência no namoro. Os resultados de um inquérito desenvolvido pela UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) deixam a nu uma realidade preocupante. Por exemplo, 24 por cento dos jovens ouvidos consideram normal partilhar, nas redes sociais, fotos íntimas ou insultar. Normal, a posse; normal, o insulto. E uma percentagem menor - mas ainda muito mais jovens do que seria razoável - legitima a violência psicológica.

Um longo caminho foi, no entanto, feito. A perceção de que a violência existe é a grande conquista, embora jovens e também adultos considerem apenas como ato violento a agressão física. Nada mais perigoso. Estudos recentes, em que a UMAR e a Associação de Apoio à Vítima assumem papel fundamental na denúncia e na pedagogia, revelam algo escondido durante muitos anos. Na violência não existe classe social, e nem diminui à medida que as habilitações académicas aumentam. 

Não deixa de ser surpreendente alguém, formado e informado, independente e autónomo, permitir que o outro controle os seus passos, as suas amizades, o comprimento da saia ou a parte do corpo que fica a descoberto.
Não deixa de ser surpreendente que alguém formado e informado, independente e autónomo, seja maltratado, hospitalizado, uma, duas, três vezes... perca a conta das agressões e continue a sofrer em silêncio. 

O Dia de S. Valentim é ridículo, soa a falso. Mas continuaremos a celebrá-lo para que as vítimas daqueles que lhes deveriam dar afeto possam acordar e inverter a velha máxima: o silêncio é de ouro. O silêncio é o inimigo, o principal aliado de quem agride e humilha.
Assim, além de fomentar o negócio, o santo casamenteiro, nos novos tempos, desperta também as consciências.



Paula Ferreira




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

"estar só" e "estar sozinho"





"...por muito que pareçam similares, "estar só", e "estar sozinho", são quase opostos.

Quando se está só, sente-se uma tristeza imensa, uma falta de alguém que seja a nossa procura, o nosso objectivo de vida: uma amizade, um amor, ou uma família.
Quando se está só, pode-se viver o mais bonito dos momentos e continuamos a sentir o vazio de não ter alguém que, longe ou perto, presente ou ausente, seja a pessoa que gostávamos de partilhar aquele bocado de vida.

Estar sozinho é diferente - porque é um estado de alma transitório.
É quando se passam aqueles momentos apenas connosco, entre o jantar de amigos de ontem e o beijo de amor de amanhã.
Quando se está sozinho, especialmente quando é por opção própria, sente-se um alivio imenso de poder fazer o que se quer, como se quer, quando se quer, porque haverá sempre alguém que nos acompanha.

Para quem "está - apenas temporariamente - sozinho", mesmo no meio do vazio, sentimo-nos completos, realizados na forma como vivemos, como partilhamos, mesmo no silêncio..."



.............................fingir que está tudo bem




fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.


José Luís Peixoto
 in, A Criança em Ruínas



CONSCIÊNCIA FRACTAL






Os chacras são centros de força e consciência ativos no corpo etérico do homem da superfície, quando ele se encontra sob a lei do carma material e do livre-arbítrio. Ao transcendê-las, passa a ser regido pela lei evolutiva em seus aspectos superiores, e esses centros não mais o condicionam.

Os chacras correspondem ao ciclo planetário anterior, que foi expressão da polaridade masculina do planeta. Exceto em condições especiais, instrutores autênticos e inspirados do presente puseram mais ênfase no aprimoramento do caráter que na concentração direta sobre os chacras. Contudo, contrariando suas indicações, muitos aspirantes, ao adotar técnicas ultrapassadas, desequilibraram-se ou se perderam pela ambição.

O homem lúcido de hoje colabora nas transformações em seus corpos e em sua consciência, mas deixa que sejam conduzidas por sua mônada e pelas Hierarquias.
Tendo renunciado ao livre-arbítrio, isso é feito por meio dos centros energéticos do consciente direito, e não mais dos chacras.

O consciente direito não é como o sistema de chacras que está dentro do corpo etérico.
O consciente direito não está dentro do corpo físico, é algo mais amplo e que reúne dois ou três destes chacras.

A chave para o desenvolvimento do consciente direito é o serviço altruísta.
É você servir não a você mesmo, servir sem querer nada em troca nem sequer resultados.
Esta é a chave principal para o desenvolvimento do consciente direito.


Trigueirinho



domingo, 12 de fevereiro de 2017

Maribel Ramos La Zambra

Conversa de Peixe




Conversa algures num Oceano, entre um peixinho espiritual e um peixinho céptico:


- Sabes que existe uma coisa maravilhosa chamada Água?
* Água?? não, nunca ouvi falar... diz o outro peixe.

- É um liquido transparente, puro, maravilhoso, fluído que existe em todo o planeta.. dizem mesmo que é a Água que dá a vida a todos os seres que vivem neste planeta, e que tanto está à nossa volta como nas nuvens, nas árvores, por todo o lado.
* A sério?? E é um liquido? O que é um liquido? Como é que essa Água está em todo o lado? Tens que me mostrar para eu ver...

- Pois .. não consigo ... É invisível, não se agarra nem se vê, mas dizem que está por todo o lado e que nos rodeia o tempo todo... li até num livro que é por causa da Água que às vezes tudo na nossa vida muda. Que é ela que leva coisas velhas e trás coisas novas até nós...
* Hmmmmmm e como é que provas que esse liquido chamado Água existe? Eu gosto de coisas que se vêm como rochas, outros peixes, barcos, algas....essa coisa do invisível é muito estranha para mim!

- Realmente não te consigo mostrá-la mas gosto da ideia de que nos protege, que nos une, que nos permite viver e sermos amigos neste oceano... Grandes mestres dizem mesmo que se aprendermos a senti-la que ela nos arrasta em correntes e nos leva em grandes aventuras...
* Disparate! Eu quando quero mudar de sitio nado até lá.....Enquanto eu não vir essa Água aqui na minha barbatana, não acredito!
És mesmo palerma!
Acreditas em tudo o que te dizem....!


Vera Luz




O interior é o lado de dentro




Enquanto estamos aqui, eles estão lá. 
Reconhecer a existência dos outros 
é o passo mais essencial 
para respeitá-los.


Afirmar o interior do país e o meio rural como uma realidade folclórica, exótica, ligada exclusivamente ao passado, é um insulto. Se existe agora, neste momento, então é presente. Se há quem ande de carroça hoje, então hoje também se anda de carroça. Não é possível levar uma vida no passado, acorda-se sempre no dia em que se está. Defender que a realidade do interior não é contemporânea transporta a visão tendenciosa e preconceituosa de que o nosso tempo é intrinsecamente urbano.

Também há quem argumente que o interior já não é rural, que a sua cultura hoje é tão urbana quanto a de qualquer cidade. Há duas possibilidades que contribuem para essa ideia: ignorância ou cegueira. Ou não sabem o que estão a dizer, ouviram daqui e dali e juntaram essas peças segundo o modo como gostam de imaginar o mundo; ou estiveram lá, mas não foram capazes de ver, mediram os outros pelos seus próprios critérios, baralharam as proporções, tomaram alguma coisa por outra coisa qualquer. Acharam talvez que, por haver televisão e Internet, não existia uma forma própria de entender o mundo e a vida.

As certezas absolutas que tínhamos acerca da modernidade e do desenvolvimento trouxeram-nos aqui. Foram elas que despovoaram o interior e transformaram aqueles que lá continuam numa minoria. A discrepância é enorme: uma aldeia assinalada no mapa tem menos gente do que o prédio mediano de uma qualquer avenida. Por isso, como sempre acontece com as minorias desfavorecidas (principalmente quando nem sequer são reconhecidas como tal), os seus direitos não são defendidos, a sua cultura é posta em causa.

A ruralidade não é o estereótipo da ruralidade. As piadas com personagens do meio rural têm a mesma raiz que as piadas sobre negros, homossexuais ou loiras. A discussão acerca da sua pertinência é a mesma.

Porque temos tantos problemas com os outros, mesmo quando estão na sua vida, apenas a lutar por sobreviver? Como nos deixámos convencer que engrandecemos se inferiorizarmos os outros?

Neste preciso momento, estamos a preparar o futuro. Se é verdade, apesar de não ser a única verdade, que a ruralidade mantém relações com o passado, temos todo o interesse de aproveitar essa sensibilidade, essa experiência. Não nascemos de geração espontânea. Chegamos de algum lado, que também nos constitui. A nossa história é parte de nós, mesmo que a recusemos. Desprezar a nossa história e a nossa cultura é desprezarmo-nos a nós próprios.

Enquanto estamos aqui, eles estão lá. A nossa realidade partilha este tempo com a realidade deles. Este tempo não pertence mais a uns do que outros.

Parece-me pertinente considerar a hipótese de que o futuro desejável possa conter um pouco desse mundo. E se o interior do país e a ruralidade contiverem não apenas passado, mas também futuro?

Em todos os instantes construímos o que virá. Estamos aqui, existimos, ainda estamos a tempo.


José Luís Peixoto