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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Volta o Outono






Um enlutado dia cai dos sinos
como teia tremente duma vaga viúva,
é uma cor, um sonho
de cerejas afundadas na terra,
é uma cauda de fumo que chega sem descanso
para mudar a cor da água e dos beijos.

Não sei se me entendem: quando lá do alto
se avizinha a noite, quando o solitário poeta
à janela ouve correr o corcel do Outono
e as folhas do medo calcado estalam nas suas artérias,
há qualquer coisa sobre o céu, como língua de boi
espesso, qualquer coisa na dúvida do céu e da atmosfera

Voltam as coisas ao lugar,
o advogado indispensável, as mãos, o óleo,
as garrafas,
todos os indícios da vida: sobretudo as camas
estão cheias dum líquido sangrento,
as pessoas depositam a confiança em sórdidos ouvidos,
os assassinos descem escadas,
e afinal não é isto, mas o velho galope,
o cavalo do velho Outono que treme e dura.

O cavalo do velho Outono tem a barbada vermelha
e a espuma do medo cobre-lhe as ventas
e o ar que o segue tem forma de oceano
e perfume de vaga podridão enterrada.

Todos os dias desce do céu uma cor de cinza
que as pombas devem repartir pela terra:
a corda que o esquecimento e as lágrimas entretecem,
o tempo adormecido longos anos dentro dos sinos,
tudo,
as velhas roupas traçadas, as mulheres que vêem chegar a neve
as papoilas negras que ninguém pode contemplar sem morrer,
tudo vem cair às mãos que levanto 
no meio da chuva.


Pablo Neruda





quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A DANÇA





Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio 
ou seta de cravos que propagam o fogo: 
amo-te como se amam certas coisas obscuras, 
secretamente, entre a sombra e a alma. 

Amo-te como a planta que não floriu e tem 
dentro de si, escondida, a luz das flores, 
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo 
o denso aroma que subiu da terra. 

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde, 
amo-te directamente sem problemas nem orgulho: 
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira, 

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és, 
tão perto que a tua mão no meu peito é minha, 
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.


PABLO NERUDA
in CEM SONETOS DE AMOR





quinta-feira, 26 de abril de 2018

Emerging



A man says yes without knowing 
how to decide even what the question is, 
and is caught up, and then is carried along 
and never again escapes from his own cocoon; 
and that’s how we are, forever falling 
into the deep well of other beings; 
and one thread wraps itself around our necks, 
another entwines a foot, and then it is impossible, 
impossible to move except in the well -
nobody can rescue us from other people. 

It seems as if we don’t know how to speak; 
it seems as if there are words which escape, 
which are missing, when have gone away and left us 
to ourselves, tangled up in snares and threads. 

And all at once, that’s it; we no longer know 
what it’s all about, but we are deep inside it, 
and now we will never see with the same eyes 
as once we did when we were children playing. 
Now these eyes are closed to us, 
now our hands emerge from different arms. 

And therefore when you sleep, you are alone in your dreaming, 
and running freely through the corridors 
of one dream only, which belongs to you. 
Oh never let them come to steal our dreams, 
never let them entwine us in our bed. 
Let us hold on to the shadows 
to see if, from our own obscurity, 
we emerge and grope along the walls, 
lie in wait for the light, to capture it, 
till, once and for all time, 
it becomes our own, the sun of every day.


Pablo Neruda
in, Weathering: Poems and Translations
Alastair Reid 







quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Te Amo





Te amo de uma forma inexplicável
De uma forma inconfessável
De uma forma contraditória

Te amo

Com meus estados de espírito que são muitos
E mudam de humor continuamente
Pelo que você sabe,

O tempo
La vida
A morte

Te amo

Com o mundo que não entendo
Con la gente que no compreende
Com a ambivalência da minha alma
Com a incoerência dos meus actos
Com a fatalidade do destino
Com a conspiração do desejo
Com a ambiguidade dos fatos

Mesmo quando te digo que não te amo, te amo
Até quando te engano, não te engano
No fundo, tenho um plano.
Pra te amar melhor

Te amo.

Sem pensar, inconscientemente,
Irresponsavelmente, involuntariamente,
por instinto
por impulso, iracionalmente
Em afeto não tenho argumentos lógicos
Nem improvisados.
Para fundamentar este amor que sinto por você,
Que surgiu misteriosamente do nada,
Que não resolveu magicamente nada
E que milagrosamente, de a pouco, com pouco já nada
Melhorou o pior de mim.

Te amo.

Te amo com um corpo que não pensa
Com um coração que não raciocina,
Com uma cabeça que não coordena

Te amo

Incompreensivelmente
Sem me perguntar por que te amo
Sem me importar por que te amo
Sem questionar por que te amo

Te amo

Simplesmente porque te amo
Eu mesmo não sei por que te amo



Pablo Neruda





sábado, 15 de julho de 2017

Te Amo






Te amo de uma manera inexplicable
De una forma inconfesable
De un modo contradictorio

Te amo

Con mis estados de ánimo que son muchos
Y cambian de humor continuamente
Por lo que ya sabes,

El tiempo
La vida
La muerte

Te amo

Con el mundo que no entiendo
Con la gente que no compreende
Con la ambivalencia de mi alma
Con la incoherencia de mis actos
Con la fatalidad del destino
Con la conspiración del desejo
Con la ambigüedad de los hechos

Aún cuando te digo que no te amo, te amo
Hasta cuando te engaño, no te engaño
En el fondo, ilevo a cabo un plan
Para amarte mejor

Te amo.

Sin reflexionar, inconscientemente,
irresponsablemente, involuntariamente,
por instinto
por impulso, iracionalmente
En afecto no tengo argumentos lógicos
ni siquiera improvisados
Para fundamentar este amor que siento por ti,
que surgió misteriosamente de la nada,
Que no ha resuelto mágicamente nada
Y que milagrosamente, de a poco, con poco ya nada
Ha mejorado lo peor de mi

Te amo.

Te amo con un cuerpo que no piensa
Con un corazón que no razona,
Con una cabeza que no coordina

Te amo

incomprensiblemente
Sin preguntarme por qué te amo
Sin importarme por qué te amo
Sin cuestionarme por qué te amo

Te amo

sencillamente porque te amo
Yo mismo no se por qué te amo




Pablo Neruda






quarta-feira, 5 de abril de 2017

Saudade




“Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…”

Pablo Neruda 





terça-feira, 27 de dezembro de 2016

SEMPRE




Do teu passado
não tenho ciúmes.

Vem com um homem
às costas,
vem com cem homens nos cabelos,
vem com mil homens entre o peito e os pés,
vem como um rio
cheio de afogados
que encontra o mar furioso,
a espuma eterna, o tempo!

Trá-los a todos
ao lugar onde te espero:
estaremos sempre sós,
estaremos sempre, tu e eu,
sozinhos sobre a terra
para começar a vida!


Pablo Neruda


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Amo-te Sem Saber Como




Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio 
ou seta de cravos que propagam o fogo: 
amo-te como se amam certas coisas obscuras, 
secretamente, entre a sombra e a alma. 

Amo-te como a planta que não floriu e tem 
dentro de si, escondida, a luz das flores, 
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo 
o denso aroma que subiu da terra. 

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde, 
amo-te directamente sem problemas nem orgulho: 
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira, 

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és, 
tão perto que a tua mão no meu peito é minha, 
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono. 


Pablo Neruda
in "Cem Sonetos de Amor"



sexta-feira, 22 de julho de 2016

.................a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas




Algum dia, 
em qualquer parte, 
em qualquer lugar, 
indefectivelmente, 
encontrar-te-ás a ti mesmo 
e essa, 
só essa, 
pode ser a mais feliz 
ou a mais amarga das tuas horas.


 | Pablo Neruda |



terça-feira, 17 de maio de 2016

Ainda te necessito...




Ainda não estou preparado para perder-te
Não estou preparado para que me deixes só.
Ainda não estou preparado para crescer
e aceitar que é natural,
para reconhecer que tudo
tem um princípio e tem um final.
Ainda não estou preparado para não te ter

e apenas te recordar
Ainda não estou preparado para não poder te olhar
ou não poder te falar.
Não estou preparado para que não me abraces
e para não poder te abraçar.
Ainda te necessito.
E ainda não estou preparado para caminhar
por este mundo perguntando-me: Porquê?
Não estou preparado hoje nem nunca o estarei.
Ainda te Necessito.


Pablo Neruda


sexta-feira, 22 de abril de 2016

.........................go back to so many places




And that's why i have to go back 
to so many places 
there to find myself 
and constantly examine myself 
with no witness but the moon 
and then whistle with joy, 
ambling over rocks and clods of earth, 
with no task but to live, 
with no family but the road. 

― Pablo Neruda



terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Saberás que não te amo e que te amo



Saberás que não te amo e que te amo 
pois que de dois modos é a vida, 
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem a sua metade de frio.
Amo-te para começar a amar-te, 
para recomeçar o infinito 
e para não deixar de amar-te nunca: 
por isso não te amo ainda.
Amo-te e não te amo como se tivesse 
nas minhas mãos a chave da felicidade 
e um incerto destino infeliz.
O meu amor tem duas vidas para amar-te. 
Por isso te amo quando não te amo 
e por isso te amo quando te amo.

Pablo Neruda



domingo, 13 de dezembro de 2015

Los Ojos, la puerta del alma



No hay nada mas interesante que los ojos.
¿Ya miraste a los ojos de la otra persona?
De la persona amada y no amada.
Del amigo y del conocido.
Del jefe y del compañero de trabajo.
De un niño y un anciano.
Los ojos emiten una energía que es la misma energía del alma, 
por eso son conocidos como las ventanas del alma. 
Cuando miro en los ojos y dejo que los otros miren en mis ojos, 
estoy abriendo puertas hacia un mundo de comprensión y amor.

Pablo Neruda

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Gosto quando te calas




Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinquo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.

Pablo Neruda

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Neruda



Someday, 
somewhere - anywhere, unfailingly, 
you’ll find yourself, 
and that, and only that, 
can be the happiest or bitterest hour of your life.

Pablo Neruda

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Poema 20



Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Escrever por exemplo:
A noite está fria e tiritam, azuis, os astros à distância
Gira o vento da noite pelo céu e canta
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Eu a quis e por vezes ela também me quis
Em noites como esta, apertei-a em meus braços
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito
Ela me quis e as vezes eu também a queria
Como não ter amado seus grandes olhos fixos ?
Posso escrever os versos mais lindos esta noite
Pensar que não a tenho
Sentir que já a perdi
Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela
E cai o verso na alma como orvalho no trigo
Que importa se não pode o meu amor guardá-la ?
A noite está estrelada e ela não está comigo
Isso é tudo
A distância alguém canta. A distância
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Para tê-la mais perto meu olhar a procura
Meu coração procura-a, ela não está comigo
A mesma noite faz brancas as mesmas árvores
Já não somos os mesmos que antes havíamos sido
Já não a quero, é certo
Porém quanto a queria !
A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido
De outro. será de outro
Como antes de meus beijos
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos
Já não a quero, é certo,
Porém talvez a queira
Ah ! é tão curto o amor, tão demorado o olvido
Porque em noites como esta
Eu a apertei em meus braços,
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Mesmo que seja a última esta dor que me causa
E estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.

Pablo Neruda

segunda-feira, 23 de março de 2015

Mas tu estás aí.



"Solta-me as mãos
E deixa livre o meu coração!
Deixa que os meus dedos percorram
Os caminhos do teu corpo.
A paixão – sangue, fogo, beijos –
Incendeia-me em labaredas trémulas.
Ai, tu não sabes o que é isto!
É a tempestade dos meus sentidos
Dobrando a selva sensível dos meus nervos.
É a carne que grita, com suas línguas ardentes!
É o incêndio!
E está aqui, mulher, como um tronco intacto.
Agora que a minha vida feita de cinzas voa
Até ao teu corpo cheio, como a noite, de astros!
Deixa-me livres as mãos
E deixa livre o meu coração!
Só te desejo a ti, a ti só desejo!
Não é amor, é um desejo que se esgota e que se extingue,
É a precipitação de fúrias, aproximação do impossível.
Mas tu estás aí.
Estás para me dares tudo,
E para me dares o que tens, à terra vieste –
Como eu, para te ter
E te desejar,
E te receber!"

Pablo Neruda

sexta-feira, 13 de março de 2015

At night....



At night, I dream that you and I are two plants that grew together, roots entwined, and that you know the earth and the rain like my mouth, since we are made of earth and rain.

Pablo Neruda

terça-feira, 3 de março de 2015

Se Me Esqueceres



Quero que saibas
uma coisa.

Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.

Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.

Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.

Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.

Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.


Pablo Neruda
in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Ode ao Gato



O homem gostaria de ser peixe ou pássaro,
a serpente gostaria de ter asas,
o cão é um leão confuso...

Mas o gato quer ser somente gato,
e todo gato é um puro gato
desde o bigode ao rabo

Pablo Neruda


Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.

Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento ao rato vivo,
da noite até seus olhos de ouro.
Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de um navio.
Seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.
Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.
Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.
Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço ao gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
o seu olho tem números de puro.


Pablo Neruda