domingo, 30 de abril de 2017

Mãe, Eu Quero Ir-me Embora




Mãe, eu quero ir-me embora - a vida não é nada 
daquilo que disseste quando os meus seios começaram 
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande, 
murcharam tão depressa as rosas que me deram – 
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu 
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer. 

Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão 
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos, 
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais 
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos 
os sonhos que tiveste para mim - tenho a casa vazia, 
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei 
e o que amei de verdade nunca acordou comigo. 

Mãe, eu quero ir-me embora - nenhum sorriso abre 
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca. 
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez 
não chames pelo meu nome, não me peças que fique – 
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-m 
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue 
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como 
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer. 

Mãe, eu vou-me embora - esperei a vida inteira por quem 
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta 
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem. 
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas 
essa voz, tu sabes, não é a tua - a última canção sobre 
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias 
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão 
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam 
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar. 


Maria do Rosário Pedreira




Estamos a Cair na Mediocridade Governativa




Estamos a cair na mediocridade porque estamos muito subservientes aos padrões de eficácia e da racionalidade europeia. Os tempos festivos da revolução passaram. Teriam naturalmente que passar, mas aplica-se a terapêutica da racionalização tecnocrática e isso mata o sonho. Devia haver outras vias. Vias apropriadas àquilo que somos. Não somos um País de grandes voos capitalistas. Se o quisermos ser caímos, inexoravelmente, nas garras do monopolismo. Portanto, devíamos cultivar as pequenas e médias empresas. Esta devia ser a lógica da economia portuguesa. Devia dar-se grande valor às pequenas e médias empresas e realmente deixarmo-nos de ambições que nos alcem aos grandes padrões europeus.

(...) Os partidos e os políticos têm os mesmos defeitos e algumas qualidades em comum. Evidentemente que os partidos são um defeito necessário, porque dividem, mas é uma divisão necessária para agrupar, para reunir a ideia da democracia parlamentar que temos. Agora, o erro das pessoas é adorná-los com méritos extraordinários, porque isso faz-nos cair numa partidolatria, imprópria de espíritos livres! Não penso que a nossa classe política seja pior do que a classe política de outros países. Ponhamos as coisas neste pé: as minhas exigências estéticas e éticas não tornam muito fáceis as minhas relações com a classe política. São caminhos separados. Não vamos pelo mesmo trilho. Mas a classe política é necessária. Ela existe e tem defeitos. Terá também uma ou outra qualidade.

(...) Agora, eu pergunto-me até que ponto é que hoje os Governos governam?!
Porque hoje ser-se Governo é um absurdo, na medida em que todos os Governos são governados (não me refiro aos Governos das grandes potências, mas de uma nação modesta como a nossa), são governados por um poder económico que imana de forças mundiais sem rosto. Portanto, eu não sei a quem cabe a decisão, não sei quem é que nos governa.



Natália Correia
1983



O PODER DO SILÊNCIO


Andy Lee






“Estou triste. Quem percebe isso? Estou com medo. Quem percebe isso? Você é a pessoa que percebe isso. Você não é os seus sentimentos”.

“No estado de calma e consciência, se você precisar da mente para um fim prático, ela estará presente. Na verdade a mente funciona muito bem quando a inteligência maior e real que é você se expressa através dela, como uma ferramenta.”

“Aprenda a sentir-se à vontade dentro do não-saber. A mente teme o não-saber, mas um conhecimento mais profundo que não é baseado em qualquer conceito vai emergir desse estado”.

“A mente está sempre querendo alimentar-se para continuar pensando. Ela procura alimento para sua própria identidade, para seu sentido de ser. É assim que o ego se cria e recria continuamente”.

“Você se dá conta de que esse ego é fugaz e passageiro? Quem percebe isso? É o Eu-Sou. Esse é o seu eu mais profundo, que não tem nada a ver com o passado e o futuro. Quando você se dá conta de que existe uma voz na sua cabeça que pretende ser você e não pára de falar, percebe que você vem se identificando com a corrente do pensamento. Quando percebe a existência dessa voz, você compreende que não é essa voz, mas a pessoa que a percebe. Ter liberdade é saber que você é a consciência por trás dessa voz.”

“Ao concentrar toda sua atenção ao momento presente, uma inteligência muito superior à inteligência da mente autocentrada entra no comando da sua vida. Sua ação presente se torna não só muito mais eficaz, como infinitamente mais satisfatória e gratificante”.

“Ao viver através do ego, você faz do momento presente apenas um meio para atingir um fim. Você vive em função do futuro, mas quando atingem seus objetivos eles não te satisfazem. Ou pelo menos não por muito tempo.”

“Quase todo ego tem o que podemos chamar de “identidade da vítima”. Muitas pessoas se vêem de tal forma como vítimas, que essa imagem se torna o ponto central de seu ego. Mesmo que as mágoas sejam muito “justas”, ao assumir a identidade de vítima, você cria uma prisão cujas grades são feitas de formas obsessivas de pensar. Veja o que você está fazendo com você mesmo, ou melhor: Veja o que sua mente está fazendo com você. Sinta a ligação emocional que você tem com sua história de vítima e perceba sua compulsão de pensar e falar a respeito dela. Ao perceber isso, a transformação e a liberdade virão.”

“Reclamar e reagir são as formas preferidas da mente para fortalecer o ego. O eu autocentrado precisa do conflito para fortalecer sua identidade. Ao lutar contra algo ou alguém, ele demonstra pra si mesmo que “isto sou eu” e “aquilo não sou eu”. É comum que países procurem fortalecer sua sensação de identidade coletiva colocando-se em oposição aos seus inimigos.”

“A inveja é um subproduto do ego que se sente diminuído quando algo de bom acontece com outra pessoa, ou ela possui mais, sabe mais, ou tem mais poder do que ele. A identidade do ego depende da comparação. Ela se agarra a qualquer coisa buscando o “mais”, e quando nada disso funciona, a mente fortalece seu ego considerando-se “mais” injustamente tratada pela vida, “mais” doente ou “mais” infeliz do que os outros.”

“O ego precisa estar em conflito com alguém ou com alguma coisa. Isso explica por que, apesar de você querer paz, alegria e amor, não consegue suportá-los por muito tempo. Você diz que quer ser feliz, mas está viciado em ser infeliz. Essa infelicidade não vem dos fatos da sua vida, mas do condicionamento da sua mente.”

“A culpa é outra maneira que o ego tem para criar uma identidade, mesmo que essa identidade seja negativa. O que você fez ou deixou de fazer foi uma manifestação da sua inconsciência na época, o que é natural da condição humana. Mas o ego personifica a situação e diz “Eu fiz tal coisa”, e assim cria uma imagem de si mesmo como ruim, falho e insuficiente. As palavras de Cristo: “Perdoai-os, Senhor, pois eles não sabem o que fazem” podem ser usadas em relação a você.”

“Este exato momento, Agora, é a única coisa no mundo que não dá pra escapar. É o único fator constante na nossa vida. Se não é possível fugir do Agora, por que não acolhê-lo e tratá-lo bem?”

“Concentrar sua atenção no Agora não é negar o que é necessário. É reconhecer o que é prioritário. Mais tarde você poderá lidar mais facilmente com o que é secundário. Concentrar-se no Agora não é dizer: “Não vou me preocupar mais com as coisas, pois só existe o Agora”. Não é isso. Veja o que é prioritário e faça do Agora seu amigo, e não seu inimigo. Reconheça-o e respeite-o.”

“Você trata o momento atual como um obstáculo que precisa ser ultrapassado? Você considera mais importante o momento futuro que quer atingir? A maioria das pessoas vive assim. Como o futuro nunca chega, a não ser como presente, essa forma de viver é inútil. Causa uma constante sensação de desconforto, tensão e insatisfação. Não respeita a vida, que é Agora.”

“Sinta a vida em seu corpo. Isso enraíza você no Agora.”

“Quando você diz sim às coisas tal qual como são, você entra em harmonia com o poder e a inteligência da própria vida. Só então pode se tornar agente de uma mudança positiva no mundo.”

“Quando você passa a dar atenção ao Agora, cria-se um estado de alerta. É como se você acordasse de um sonho, o sonho do pensamento, o sonho do passado e do futuro. É tão claro e tão simples que não sobra lugar para inventar problemas. Só este momento, tal qual como é.”

“A maioria das pessoas confunde o Agora com o que acontece no Agora. Mas o Agora é mais profundo do que o que ocorre nele. É o espaço onde tudo acontece. Não confunda o conteúdo do momento presente com o Agora. O Agora é mais profundo do que qualquer conteúdo que exista nele. O seu ser é muito maior que seus pensamentos.”

“Eu não sou os meus pensamentos. Não sou minhas emoções, minhas percepções sensoriais, nem minhas experiências. Não sou o conteúdo da minha vida. Eu sou o espaço no qual todas as coisas acontecem. Eu sou a Consciência. Sou o Agora. Sou.”

“É importante vencer ou fracassar aos olhos dos outros. É importante ter ou não ter saúde, estudar ou não estudar. É importante ser rico ou pobre – certamente isso faz muita diferença na sua vida. Isso tudo tem uma importância relativa na sua vida, mas não absoluta. Existe algo mais importante que todas essas coisas: Encontrar a essência do que você é para além dessa identidade de curta duração, que é uma noção personalizada do “eu”.”

“Sempre que houver silêncio à sua volta, ouça-o. Isso significa apenas percebê-lo. Ouvir o silêncio desperta a dimensão de calma que já existe dentro de você, porque é só através da calma que se pode perceber o silêncio. Nesses momentos você se liberta de milhares de anos de condicionamento humano coletivo.”

“Qualquer barulho perturbador pode ser tão útil quanto o silêncio. Basta abolir suas resistências interiores ao barulho, deixando-o ser como é. Essa aceitação também leva você ao reino da paz interior que é a calma.”

“A calma é o lugar onde a criatividade e as soluções dos problemas são encontradas.”

“A calma e o silêncio são a própria inteligência. A consciência básica da qual provêm todas as formas de vida. A forma de vida que você pensa que é, vem dessa consciência e é sustentada por ela”.

“Quando você olha num estado de calma para uma árvore ou uma pessoa, quem está olhando? É algo mais profundo do que você. A consciência está olhando para a sua própria criação. A Bíblia diz que Deus criou o mundo e viu que era bom. É isso que você vê quando olha num estado de calma, sem pensar em nada .”

“Você precisa saber mais coisas do que já sabe? Você acha que o mundo será salvo se tiver mais informações, se os computadores se tornarem mais rápidos ou se forem feitas mais análises intelectuais e científicas? O que a humanidade precisa hoje é de mais sabedoria pra viver. A sabedoria vem da capacidade de manter a calma e o silêncio interior. Veja e ouça apenas. Não é preciso mais nada, além disso. Manter a calma, olhando e ouvindo, ativa a inteligência real que existe dentro de você. Deixe que a calma interior oriente suas palavras e ações.”

“A maioria das pessoas passa a vida toda aprisionada nos limites dos próprios pensamentos. Nunca vai além das idéias estreitas já fabricadas. Nunca vai além do”eu ” condicionado pelo passado.”

“Se você consegue reconhecer, mesmo esporadicamente, que os pensamentos que passam por sua cabeça são meros pensamentos; Se você consegue se dar conta dos padrões que se repetem em suas ações mentais e emocionais, é sinal de que a Consciência está emergindo. Ela é o espaço onde o conteúdo da sua vida se desborda.”

“Cada pensamento quer sugar sua completa atenção. Eis um novo exercício para praticar: Não leve seus pensamentos muito a sério”.

“Pensar fragmenta a realidade, cortando-a em pequenos pedaços que são os conceitos. A mente pensante é útil e poderosa, mas torna-se muito limitador quando invade completamente sua vida, impedindo você de perceber que a mente é apenas um pequeno aspecto da Consciência que você é realmente.”

“Sempre que você mergulha em pensamentos compulsivos, está impedindo o que existe. Você está se negando a estar onde está: Aqui. Agora”.

“Quando a mente fica entediada, quer satisfazer sua fome lendo um livro, assistindo à tevê, navegando na Internet. A alternativa é aceitar o tédio e a ansiedade e observar como é sentir-se entediado e ansioso. À medida que você se dá conta dessa sensação, surge um espaço arejado e uma calma em volta da sensação. O tédio, a ansiedade, a raiva, a tristeza e o medo não são seus. Eles são estados da mente. É por isso que vão e voltam. Nada que vai e volta é você”.

“Despertar espiritualmente é despertar do sonho do pensamento. Quando você deixa de acreditar em tudo o que pensa, você sai do pensamento e vê claramente que quem está pensando não é quem você é realmente”.

“Você não criou seu corpo nem é capaz de controlar as funções dele. Uma inteligência maior do que a mente humana encontra-se em ação. É essa inteligência que mantém tudo na natureza. Você pode se aproximar dessa inteligência percebendo sua própria energia interna. Sentindo a presença da vida dentro do seu corpo."

O ar que você respira é natureza, como também é natureza o próprio ato de respirar. Preste atenção na sua respiração e perceba que não é você quem a controla. É a respiração da natureza. Se você precisasse lembrar de respirar, morreria logo. E se tenta parar de respirar, a natureza se encarrega de manter essa respiração. Ao sentir a respiração, e ao aprender a prestar atenção nela, você se conecta à natureza da forma mais íntima e poderosa. É um ato extremamente curativo e reabastecido. Ele promove uma mudança, passando do mundo conceitual do pensamento para o mundo interior da consciência livre de condicionamentos." 

"Há um grande silêncio envolvendo toda a natureza. Esse silêncio também envolve você. Só quando mantém a calma e o silêncio em seu interior, é que você pode alcançar a região de calma e silêncio onde vivem as pedras, as plantas e os animais. Só quando o barulho de sua mente silencia, você se torna capaz de ligar-se à natureza num nível profundo, e ultrapassar a sensação de separação causada pelo excesso de pensamento."


"A natureza pode levar você à calma interior. Quando você sente a calma que a natureza te dá, e participa dela, essa calma fica permeada e enriquecida pela sua atenção. Esse é o seu retorno à natureza.”

“Todo ser humano foi condicionado a pensar e agir de determinada forma – condicionado por sua herança genética, pelas experiências da infância e pelo ambiente cultural em que vive. Tudo isso não mostra o que a pessoa é, mas como parece ser. Quando você julga alguém, confunde os modelos condicionados produzidos pela mente com o que a pessoa é. Nossos julgamentos também têm origem em padrões inconscientes e condicionados. Você dá aos outros uma identidade criada por esses padrões, e essa falsa identidade se transforma numa prisão, tanto para aqueles que você julga como pra você mesmo. Deixar de julgar não significa deixar de ver o que as pessoas fazem. Significa que você reconhece seus comportamentos como uma forma de condicionamento, que você vê e aceita tal como é. Não é a partir desses comportamentos que você constrói uma identidade para as pessoas.”

“Enquanto o ego dominar a sua vida, a maioria de seus pensamentos, emoções e ações virão do desejo e do medo. Isso fará você querer ou temer alguma coisa que possa vir da outra pessoa. O que você quer dos outros pode ser prazer, vantagem material, reconhecimento, elogio, atenção, ou fortalecimento da identidade, quando se compara achando que sabe, ou que tem, mais do que os outros. Você teme que ocorra o contrário – que o outro seja, tenha ou saiba mais do que você – e que isso possa de alguma forma diminuir a ideia que você faz de si mesmo.”

“Quando você concentra sua atenção no presente – em vez de usar o presente como um meio para atingir um fim – você ultrapassa o ego e a compulsão inconsciente de usar as pessoas como meios para valorizar-se ao se comparar com elas. Quando dá total atenção à pessoa com quem está interagindo, você elimina o passado e o futuro do relacionamento – exceto nas situações que exigem medidas práticas. Ao ficar totalmente presente com qualquer pessoa, você se desapega da identidade que criou pra ela. Essa identidade é fruto da sua interpretação de quem é a pessoa e do que ela fez no passado. O segredo dos relacionamentos é a atenção, que nada mais é do que calma alerta.”

“Se o passado de uma pessoa fosse o seu passado, se a dor dessa pessoa fosse a sua dor, se o nível de consciência dela fosse o seu, você pensaria e agiria exatamente como ela. Ao compreender isso, fica mais fácil perdoar, desenvolver a compaixão e alcançar a paz. O ego não gosta de ouvir isso, porque sem poder reagir e julgar, ele se enfraquece.”

“Quando você acolhe qualquer pessoa que entra no espaço do Agora, quando permite que ela seja como é, a pessoa começa a mudar.”

“Saber a respeito de alguém ajuda por motivos práticos. Nesse sentido não podemos prescindir de saber a respeito da pessoa com quem nos relacionamos. Mas quando essa é a única característica de uma relação, fica muito limitador e até destrutivo. Os pensamentos e conceitos criam uma barreira artificial, uma separação entre as pessoas. Suas interações não ficam presas ao ser, mas à mente. Sem as barreiras dos conceitos criados pela mente, o amor se torna naturalmente presente em todas as relações humanas."

"A maioria dos relacionamentos humanos se restringe à troca de palavras – o reino do pensamento. É fundamental trazer um pouco de silêncio e calma, sobretudo aos seus relacionamentos íntimos. Se faltar silêncio e calma, o relacionamento será dominado pela mente e correrá o risco de ser invadido por problemas e conflitos. Se há silêncio e calma, eles se tornam capazes de dominar qualquer coisa.”

“Ouvir com verdadeira atenção é outra forma de trazer calma ao relacionamento. Quando você realmente ouve o que o outro tem a dizer, a calma surge e se torna parte essencial do relacionamento. Mas ouvir com atenção é uma habilidade rara. Em geral as pessoas concentra a maior parte da sua atenção no que estão pensando. Na melhor das hipóteses ficam avaliando as palavras do outro, ou apenas usam o que o outro diz para falar de suas próprias experiências. Ou então não ouvem nada mesmo, pois estão perdidas em seus próprios pensamentos.”

“Ouvir com atenção é muito mais do que saber escutar. É estar alerta, abrir um espaço em que as palavras são acolhidas. As palavras se tornam então secundárias, podendo ou não fazer sentido. Bem mais importante do que aquilo que você está ouvindo é o ato de ouvir em si, o espaço de presença consciente que surge à medida que você ouve. Esse espaço é um campo unificador feito de atenção em que você encontra a outra pessoa sem as barreiras separadoras criadas pelos conceitos do pensamento. A outra pessoa deixa de ser “o outro”. Nesse espaço, você e ela se tornam uma só consciência.”

“Como é que você pode se libertar da profunda e inconsciente identificação emocional com o sofrimento, capaz de criar tanta dor em sua vida? Tome consciência da dor. Tome consciência de que você não é esse sofrimento e essa dor. Reconheça o que eles são: uma dor do passado. Tome consciência da dor em você ou no seu parceiro. Quando conseguir romper sua identificação inconsciente com essa dor do passado – quando souber que você não é a dor – quando conseguir observá-la dentro de si mesmo, deixará de alimentá-la e aos poucos ela irá se enfraquecendo.”
“O relacionamento humano pode ser um inferno, ou pode ser um grande exercício espiritual.”

“Quando você observa uma pessoa e sente muito amor por ela, ou quando contempla a beleza da natureza e algo dentro de você reage profundamente, feche os olhos um instante e sinta a essência desse amor ou dessa beleza no seu interior, inseparável do que você é, da sua verdadeira natureza. A forma externa é um reflexo temporário do que você é por dentro, na sua essência. Por isso o amor e a beleza nunca nos abandonam, embora todas as formas externas um dia acabem.”

“Quando você se apega aos objetos, quando você os usa para valorizar-se ante os outros e aos seus próprios olhos, a preocupação com os objetos pode dominar toda a sua vida. Quando se identifica com as coisas, você não as aprecia pelo que são, pois está se vendo nelas. Se você desenvolve uma apreciação pelo reino das coisas desprendidas do ego, o mundo à sua volta adquire vida de uma forma que você não é capaz sequer de imaginar com a mente”



in, O Poder do Silêncio
Eckhart Tolle







sábado, 29 de abril de 2017

Na Hora de Pôr A Mesa




na hora de pôr a mesa, éramos cinco: 
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs 
e eu. depois, a minha irmã mais velha 
casou-se. depois, a minha irmã mais nova 
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, 
na hora de pôr a mesa, somos cinco, 
menos a minha irmã mais velha que está 
na casa dela, menos a minha irmã mais 
nova que está na casa dela, menos o meu 
pai, menos a minha mãe viúva. cada um 
deles é um lugar vazio nesta mesa onde 
como sozinho. mas irão estar sempre aqui. 
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. 
enquanto um de nós estiver vivo, seremos 
sempre cinco.



José Luís Peixoto
in, A Criança em Ruínas




A Separação





Enquanto acreditarmos que precisamos de outra pessoa, causa, coisa, missão, para nos tornarmos inteiros, continuaremos a nos perder na cidade-fantasma 
de sentimentos, pensamentos e projeções. 
O universo inteiro está dentro de nós. 
A energia não se perde; 
ela transmuta para contribuir para a dança da evolução.


A finalidade de estarmos encarnados é o regresso à origem. O sussurro do futuro está no feminino. É pela energia feminina que ocorre a manifestação da forma a partir da ausência de forma, mas, para produzir manifestação física, o yin funde-se com o yang e cria o impulso que move e articula as marés cósmicas.

Só alcançaremos a fusão total com outras formas de consciência se estivermos imbuídos do poder de vida a ponto de o irradiarmos. Senão, vamos projetar ou sugar energias. Quando reforçamos nossa energia radiante, ao mesmo tempo, atraímos os outros e os tornamos livres para nos "seguirem".

A limpeza do corpo emocional de antigos hábitos negativos é o pré-requisito para o autoconhecimento. Primeiro é preciso recuperar a integridade individual para depois correr o risco de nos rendermos a uma nova energia de fusão.



in, O EGO SEM MEDO
Chris Griscom



(pro)cura-me


Raphael Guarino





Tenho saudades tuas. Só o que está ligado se pode partir, é certo. Nós estávamos ligados, como todos os bons amantes. Só o que está ligado se pode partir, repito. Tenho saudades tuas. Tenho saudades nossas e de tudo o que era nosso. O mundo era nosso. O sol nascia, o sol punha-se, e nós estávamos juntos, cá dentro, onde tudo parecia certo, onde estávamos protegidos. Cá dentro, onde apenas existíamos eu e tu, nada poderia dar para o torto. Havia gargalhadas, beijos, declarações ingénuas de amor, havia filmes noite adentro, poemas recitados, olhares escondidos e mais tarde revelados, carícias e abraços intermináveis. Cá dentro estávamos seguros. Mas o mundo acontece, também, lá fora. Ninguém se pode esconder para sempre da vida. Há os refúgios, as escapadelas, as férias, mas a vida acaba sempre por nos encontrar. Acaba por nos acontecer e, se não estivermos preparados, acaba por nos atropelar a duzentos quilómetros por hora. Acho que foi isso que nos aconteceu. Nenhum de nós estava preparado para o mundo real, onde as coisas nem sempre são como queremos. Onde todas as excepções têm regras. Não estávamos preparados para nada disso. Distâncias abismais, pessoas aleatórias a aparecerem e a desaparecerem à nossa volta, medos, dúvidas, confusões. No fundo, problemas. Até ali eles sempre nos tinham passado ao lado, como se tivéssemos um campo de forças à nossa volta que os desviava. Até ali nada nos podia separar. Era para sempre, pensávamos nós na nossa ingenuidade. Era para sempre. Só que nunca é. Nada é para sempre. Tudo dura até um dia. Viemos do pó e ao pó voltaremos, sempre ouvi dizer. Neste momento é isso que nós somos: um resto que ficou desses dias. Fomos carne na mesma carne, músculo contra músculo, pele na mesma pele. Fomos inteiros, até um dia nos estilhaçarmos em mil. Hoje somos as memórias que guardamos desses dias, dessas gargalhadas, dessas carícias, desses poemas ditos ao desbarato. Hoje somos a saudade. Somos essa noção concreta do que um dia foi abstracto. Será para sempre, um dia pensei contigo. E será para sempre o momento do teu sorriso quando te dizia que te amava. Será para sempre a arritmia que sentia quando me sorrias embriagada de amor. Serás para sempre, até um dia. Serás para sempre enquanto te procurar no meu telemóvel, nas minhas roupas e por toda a parte. Serás para sempre enquanto acreditar. Serás para sempre nesta saudade


(pro)cura-me com a carne
Dos teus lábios junto
À carne dos meus
Cura-me do veneno
Que é não ter-te
Procura-me nas tuas
Memórias, como eu
Te procuro nas minhas
E dá-me a mão devagar
Como se o tempo parasse
E nada tivesse que
Mudar


Serás para sempre até ao dia em que estas palavras estiverem gastas. Porque passaste pela minha vida e, para o bem ou para o mal, acabaste por ficar presa em mim.



Repito-te: (pro)cura-me.




PEDRO RODRIGUES




sexta-feira, 28 de abril de 2017

...........................enquanto estiver, estarei inteiro




Não esperes que te diga muitas vezes o que sinto, mas quando disser te garanto que serei sincero.
Não esperes muitos romantismos da minha parte, mas tudo o que de romântico te fizer será com o coração.
Não esperes sequer que seja meigo e simpático dia sim dia sim, mas também te garanto que sempre que tiver de ser… serei.

Comigo nunca nada será uma questão de quantidade, mas de sinceridade e intensidade.
E não, também não te vou prometer que ficarei na tua vida para sempre.
Aliás, fazê-lo seria uma prova de que não devias confiar em mim.

O que te posso dizer é que enquanto estiver, seja muito ou pouco tempo, estarei inteiro.


Afonso Noite Luar





A Vida


Noell Oszvald




A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua 
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam 
quando não se espera, o atraso na preocupação 
dos teus olhos, e as nuvens que caíram 
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações 
a abrir-se para dentro e para fora 
dos sentidos que nada têm a ver com círculos, 
quadrados, rectângulos, nas linhas 
rectas e paralelas que se cruzam com as 
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos, 
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram 
e dos encontros que sempre se soube que 
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com 
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo 
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada, 
sob a luz indecisa que apenas mostra 
as paredes nuas, de manchas húmidas 
no gesso da memória;

a vida feita dos seus 
corpos obscuros e das suas palavras 
próximas.


Nuno Júdice
in, "Teoria Geral do Sentimento"








O que vou sabendo sobre as mulheres...




São as mais fantásticas criaturas do universo e nós temos a sorte de partilhar o mesmo espaço que elas. No entanto…
São umas chatas do pior e não nos deixam ver o futebol em paz. São bipolares como o caraças e nunca estão satisfeitas com nada. São mestres do disfarce: têm sempre uma máscara para quem não gostam. Têm opinião sobre tudo, mesmo quando não entendem nada do assunto. Conseguem engordar-nos de mimos ao jantar e matar-nos de problemas ao deitar – ou vice-versa. São estranhas, problemáticas, caóticas. Metem o dedo na ferida como ninguém, e se possível vão até ao osso. Têm prazer em ver-nos sofrer quando estamos doentes, ou quando teimam em nos espremer as borbulhas e os pontos negros

-Tem calma, está quase

(De sorriso sádico na cara)

- Não sejas maricas

Enquanto nós, por outro lado, nos vamos contorcendo no meio de toda aquela carnificina. Para elas somos uns piegas, uns meninos da mamã, uns mariquinhas pé de salsa. Somos um compêndio de defeitos e coisas más. Nunca estamos bem, mesmo quando estamos bem. Nunca estamos no sítio certo, mesmo quando estamos no sítio certo. Não as compreendemos, nem temos um pingo de compaixão por elas. Não lhes distinguimos o

-Não…

Quando o

-Não…

Quer dizer

-Sim!

Trocam-nos as voltas com uma facilidade sobrenatural. Acabam onde começam e começam onde acabam. Amam-nos quando somos bons e não deixam de nos amar quando somos maus. Choram de alegria e sorriem de tristeza. São estranhas. Tanto nos esmurram o peito, como se aninham no nosso ombro. Olham-nos com vontades homicidas quando nos enganamos em coisas triviais. Mutilam-nos mentalmente quando nos esquecemos de coisas banais. Para nossa sorte gostam de artigos defeituosos. Queixam-se que se danam. Berram, insultam, esbofeteiam, esperneiam. Caminham sempre no limbo entre a bonança e a tempestade. São perfeitas nos defeitos e nós pecamos por não lhes dizer que o são. Trabalham numa frequência diferente da nossa, mas procuram sempre a sintonia. Esbofeteiam, esperneiam, berram e insultam. Felizmente para nós acreditam em histórias de princesas. Infelizmente para elas, nem todos os sapos escondem um príncipe. Inventaram aquele momento em que os olhares se misturam e os lábios tremelicam, aquele momento em que no meio de beijos e abraços, faça chuva ou faça sol, solta-se um

-Amo-te

Abafado entre lágrimas e sorrisos e um silêncio apavorante.

(Na expectativa de um

-Eu também te amo)

Inventaram os amores de cinema, de telenovela e da vida real. Inventaram o amor, ou o amor foi inventado a partir delas. Felizmente para nós, gostam de artigos defeituosos. Talvez por isso se diga que todos os cães têm sorte.




Pedro Rodrigues





quinta-feira, 27 de abril de 2017

A solidão Voluntária





A solidão não é ausência de energia ou de ação como alguns pessoas pensam, mas uma abundância de  recursos selvagens interiores que a alma nos transmite. Em tempos antigos, tal como sabemos através dos escritos dos médicos-curandeiros religiosos e místicos, a solidão deliberada era não apenas paliativa mas também preventiva. Era escolhida para curar a fadiga e evitar o cansaço. Também era utilizada para se poder entrar em contacto com um oráculo, como um meio para ouvir o eu interior e pedir conselhos a um guia impossíveis de  escutar  no meio do barulho da vida quotidiana...
Se praticarmos habitualmente a solidão de forma deliberada, promovemos o nosso diálogo com a alma profunda que se aproxima de nós. E  fazemos isso não só para "estar perto " da natureza  genuína  da alma mas também, como na tradição mística desde  tempos imemoriais, para tirar dúvidas e para que a alma nos aconselhe.



Clarissa Pinkola Estés
in, Mulheres que Correm com Lobos




SIMBOLOGIA DO LOBO




Lobo (Canis lupus) é o maior membro selvagem da família canidae. 
É um sobrevivente da Era do Gelo, originário do Pleistoceno Superior, cerca de 300 mil anos atrás.
O sequenciamento de DNA e estudos genéticos reafirmam que o lobo cinzento é ancestral do cão doméstico (Canis lupus familiaris), contudo alguns aspectos desta afirmação têm sido questionados recentemente.

Uma série de outras subespécies do lobo foram identificadas, embora o número real de subespécies ainda esteja em discussão.
Os lobos-cinzentos são tipicamente predadores ápice nos ecossistemas que ocupam.
Embora não sejam tão adaptáveis à presença humana como geralmente ocorre com as demais espécies de canídeos, os lobos desenvolveram-se em diversos ambientes, como florestas temperadas, desertos, montanhas, tundras, taigas, campos e até mesmo em algumas áreas urbanas.
O lobo-cinzento, o lobo-vermelho (Canis rufus) e o lobo-etíope (Canis simensis) são as únicas três espécies classificadas como lobos. 
Os demais lobos pertencem a subespécies.

"Lobo" originou-se do termo latino lupus, lupum.


                           


O peso e tamanho dos lobos variam muito em todo o mundo, tendendo a aumentar proporcionalmente com a latitude, como previsto pela teoria de Christian Bergmann.

Em geral, a altura, medida a partir dos ombros, varia de 60 a 95 centímetros.
O peso varia geograficamente. Em média, os lobos europeus pesam 38,5 kg; os lobos da América do Norte, 36 kg; os lobos indianos e árabes, 25 kg. Embora raros, lobos com mais de 77 kg foram encontrados no Alasca, Canadá, e na antiga União Soviética.

O lobo é sexualmente dimórfico, as fêmeas de uma população típica de lobos normalmente pesam 20% menos que os machos.
As fêmeas também têm o focinho e a fronte mais estreitos, pernas ligeiramente mais curtas e revestidas com pelos lisos, e ombros menos massivos.
Os lobos-cinzentos medem de 1,30 a 2 metros do focinho à ponta da cauda, a qual, por sua vez, representa cerca de 1/4 do comprimento total do corpo.

Os lobos são capazes de percorrer longas distâncias com uma velocidade média de 10 quilómetros por hora e são conhecidos por atingir velocidades próximas a 65 quilómetros por hora durante uma perseguição.

As garras das patas dianteiras são maiores que as das patas traseiras e possuem um quinto dedo, ausente nestas últimas. As patas do lobo cinzento são adaptadas para uma ampla variedade de terrenos, especialmente os cobertos de neve.
Existe uma fina camada de pele separando cada dedo, permitindo ao animal deslocar sobre a neve com mais facilidade em comparação às suas presas.
O tamanho relativamente grande de suas patas contribui para distribuir o peso do corpo de maneira balanceada sobre superfícies nevadas.
Pelos e unhas reforçam a aderência em superfícies escorregadias e vasos sanguíneos especiais mantêm as patas aquecidas no frio extremo.
Glândulas odoríferas localizadas entre os dedos de um lobo deixam um rastro de marcadores químicos por onde ele passa, ajudando-o a caminhar de forma eficaz por grandes extensões ao mesmo tempo que mantém os outros lobos informados do seu paradeiro.




Os lobos têm pêlos volumosos repartidos em duas camadas. 
A primeira camada é constituída por pelos resistentes que repelem água e sujeira.
A segunda camada forma uma pelagem densa, isolante à água.
O subpêlo é espalhado pelo corpo na forma de grandes tufos no final da primavera ou início do verão (com variações anuais). Um lobo, muitas vezes, esfrega-se contra objetos, como pedras e galhos, para induzir a pele a soltar os pêlos. O subpelo é geralmente cinza, independentemente da aparência do revestimento exterior.
Lobos têm pelagens distintas no inverno e no verão que se alternam na primavera e no outono.
Tanto as fêmeas quanto os machos tendem a manter seus pelos do inverno até a primavera.

A coloração da pelagem é muito variada, do cinza ao cinza-acastanhado, conforme notada pelo espectro canino para o branco, vermelho, castanho e preto. Estas cores tendem a se misturar em muitas populações, de forma que os indivíduos de coloração mista sejam os mais predominantes. Entretanto não é incomum haver um indivíduo ou mesmo uma população inteira de lobos inteiramente de uma cor (geralmente todo preto ou todo branco).
Os lobos brancos são muito mais comuns em áreas com cobertura de neve.
Lobos em processo de envelhecimento adquirem um tom acinzentado em sua pelagem.
Atribui-se, frequentemente, à coloração da pelagem do lobo uma forma funcional de camuflagem.




Lobos diferem de cães domésticos em vários aspectos. 
Anatómicamente, os lobos têm ângulos orbitais menores do que os cães (acima de 53 graus para cães, com menos de 45 graus para lobos) e uma capacidade cerebral comparativamente maior.
Patas maiores, olhos amarelados, pernas mais longas e os dentes maiores distinguem os lobos adultos de outros canídeos, especialmente cães.
Além disso, uma glândula supracaudal está presente na base da cauda dos lobos, mas não em muitos cães. 
Lobos e cães maiores possuem algumas partes da dentição idênticas. 
Os dentes caninos também são muito importantes, na medida em que detêm e subjugam a presa. Capazes de suportar até 10 000 quilopascais de pressão, os dentes de um lobo são as suas principais armas, bem como suas principais ferramentas.
Isso é aproximadamente o dobro da pressão que um cão doméstico de dimensão semelhante pode proporcionar.
A dentição dos lobos cinzentos é mais adequada para esmagar ossos comparada a de outros canídeos modernos, embora não seja tão especializada, como a encontrada em hienas. A saliva dos lobos ajuda a reduzir a infecção bacteriana em feridas e acelerar a regeneração dos tecidos.

Os lobos possuem uma audição bastante apurada, a ponto de serem capazes de ouvir a queda de folhas das árvores durante o outono.
Sua visão noturna é a mais aguçada da família dos canídeos.







O acasalamento ocorre, geralmente, entre os meses de Janeiro e Abril. 
Quanto maior a latitude, mais tarde ocorre.
Uma alcateia produz, em média, uma única ninhada, salvo nos casos em que os reprodutores machos se relacionam com uma ou mais fêmeas subordinadas. Durante a época de acasalamento, os animais reprodutores tornam-se muito carinhosos uns com os outros, antecipando o ciclo de ovulação da fêmea. A tensão aumenta à medida que os lobos maduros da alcateia se sentem instados a acasalar. Durante este período, os membros do casal líder de reprodução, denominados de macho e fêmea alfa, podem se ver forçados a dissuadir que outros lobos se acasalem com eles.
Incestos raramente ocorrem, embora a pressão por endogamia seja um problema para os lobos em Saskatchewan e Isle Royale.

Quando a fêmea reprodutora entra no cio (que ocorre uma vez por ano e dura de 5 a 14 dias), ela e o seu companheiro passam um longo tempo em reclusão. Feromonas na urina da fêmea e o inchaço da sua vulva são sinais percebidos pelo macho de que ela está no cio. A fêmea é receptiva nos primeiros dias de estro, período durante o qual ela lança o revestimento do útero. Mas quando ela começa a ovular novamente, ocorre o acasalamento com o parceiro.

O período de gestação varia de 60 a 63 dias.
Os filhotes, que pesam cerca de 0,5 kg ao nascerem, são cegos, surdos e completamente dependentes de suas mães. O tamanho médio da ninhada é de 5 a 6 crias.

Os filhotes residem na toca e permanecem lá por dois meses.
A toca geralmente fica em terreno alto perto de uma fonte de água aberta, e tem uma câmara aberta no final de um túnel subterrâneo ou encosta que pode ter até alguns metros de comprimento. Durante este tempo, os filhotes tornam-se mais independentes e começam a explorar a área imediatamente ao redor da toca.
Com cerca de cinco semanas de idade, afastam-se gradualmente do local de nascimento até um quilómetro de distância.
A taxa de crescimento dos lobos é mais lenta do que a dos coiotes e cães selvagens.

Após dois meses, os filhotes inquietos são levados para um local de encontro, onde podem permanecer em segurança quando a maioria dos adultos saem para caçar. Um ou dois adultos ficam para trás para garantir a segurança dos filhotes.
Depois de mais algumas semanas, caso se demonstrem capazes, é permitido aos filhotes juntarem-se aos adultos na caçada, e eles têm prioridade sobre qualquer animal caçado.
Tomar parte das caçadas é uma maneira de permitir ao filhotes a prática dos rituais de dominação/submissão, que serão essenciais para a sua futura sobrevivência na alcateia.

Os filhotes participam apenas como observadores da caçada até atingirem cerca de oito meses de idade, quando se tornam maduros o suficiente para uma participação ativa.


Os lobos geralmente atingem a maturidade sexual após dois ou três anos, idade em que muitos deles são obrigados a abandonar os seus locais de nascimento e a procurar companheiros e territórios próprios.

Os Lobos que atingem a maturidade vivem geralmente de seis a dez anos na natureza, enquanto que, em cativeiro, eles podem atingir até o dobro da idade.

As elevadas taxas de mortalidade refletem a baixa expectativa de vida dos lobos. 
As crias podem morrer pela escassez de alimento ou pela ação de predadores, como ursos, tigres, lobos adultos ou outros animais selvagens. 
As principais causas de mortalidade de lobos são a caça, os acidentes envolvendo veículos e os ferimentos ocorridos durante o ataque a suas presas.
Apesar de lobos adultos poderem, ocasionalmente, ser mortos por outros predadores, os grupos de lobos rivais são muitas vezes os inimigos mais perigosos, excetuando-se os seres humanos.




SIMBOLOGIA

O lado negativo do lobo assombrou mentalidades da antiguidade.
Na mitologia greco-latina, a loba de mormoliceu, ama de leite de Aqueronte, era usada para assustar as crianças.
O conto europeu do Capuchinho Vermelho também nos deixa o legado de temer o "lobo mau", fazendo-nos crer que não há outro lobo senão o mau.
Hades, o senhor dos infernos, utiliza uma capa de pele de lobo. 
O deus da morte dos etruscos é representado com orelhas de lobo.
Nos tempos negros em que se sacrificavam humanos a Zeus por melhores colheitas, o deus assumia a forma lupina....
Enquanto os bruxos e bruxas se transformavam em lobos para irem aos sabás, na Espanha o lobo era conhecido como montaria dos feiticeiros.

Na mitologia nórdica, Fenrir é o lobo gigante,um dos mais implacáveis inimigos dos deuses.
Na mitologia egípcia, Anúbis é chamado de Impu,"aquele que tem a forma de um cão selvagem"
Em cinópolis é venerado como o deus dos infernos.

Da mesma forma, os algonquinos e a tribo mazi (povos indígenas do sul do canadá) vêem o lobo como uma criatura intermediária entre a natureza divina e humana, senhor do reino dos mortos no ocidente.

O lobo nas lendas e credos populares do ocidente é uma praga maligna que destrói rebanhos e quando tocado pela magia, um vetor da licantropia ( suas vítimas transforman-se em ferozes bestas na Lua Cheia, os lobisomens)

O lobo e a sua goela negra é o símbolo do fim, da passagem e dos perigos.

Para os muçulmanos, ele é um dos obstáculos no seu caminho para meca, podendo assumir a forma bestial e monstruosa da besta do apocalipse.

Mas será que o lobo é tão mau?
A verdade é que o lobo representa a nossa ligação com a natureza e a magia. 
Vivendo na floresta, ele despertava o medo de se cruzar a linha entre o conhecido e o desconhecido, representado tanto pela vida e morte como pelo físico e espiritual.
Para a China, a estrela Sírius é o lobo celeste, guardião do palácio celeste (ursa maior).
No Japão ele é invocado para guardar locais.

O simbolismo da proteção também surge na loba de Rómulo e Remo, que também remete à fecundidade.

Na Sibéria,Turquia, Anatólia, a loba é invocada para dar fecundidade às mulheres. 




O lobo traz em si a magia e o desconhecido. 
Ao mesmo tempo, ele representa o sentido de união. 
Os lobos caçam em grupos e, como os cães, gostam de brincar. 
São fiéis, possuem um parceiro para a vida toda.

Não uivam para a lua, apenas uivam. 
Para marcar território, lamentar uma perda, pedir ajuda ou só por diversão.

O lobo possui a ferocidade quando protege. Por isso é tão temido...
Pode realmente ser uma fera assassina se o que ele guarda for ameaçado.

Sabedorias antigas nos contam que foi o lobo que nos ensinou como criar a comunidade sobre a Terra, pois os lobos têm um conhecimento intuitivo da ordem no meio do caos e eles possuem a habilidade para sobreviver à mudança, intactos.






XAMANISMO


O Lobo simboliza a inteligência, sabedoria e cura, ele partilha a sua energia com os demais.

Ele é o arquétipo do professor, precursor de novas ideias.
Ele sai, aprende e volta ao seu clã para ensinar o que aprendeu.

O Lobo quando encontra e escolhe uma parceira geralmente é para o resto da vida, é ligado à família, embora mantenha um caráter individualista e solitário. 

A energia desse animal nos ensina a buscar a nossa verdadeira matilha, nosso clã, família ou escolher um(a) companheiro(a) que possa acompanhar esse novo ciclo.

Mas também importa, acima de tudo,  isolar-se de forma que possa escutar a sua voz interior. Podendo ser um isolamento em algum Lugar de Poder, ou se não for possível esse isolamento, busca pelos ensinamentos sagrados nos quais acredita que a sua voz interior possa vir a manifestar-se com clareza.

Busca sua intuição.
Com certeza, se há algum impasse, ao invocar a energia do Lobo como Animal Sagrado, o xamã será impelido a aprender com a sua própria sabedoria, ou com a sabedoria ancestral.
Aprender a escutar sua própria intuição e voz interior.

É a medicina do ensinamento, do amor e dos relacionamento saudáveis. 

Para os nativos é o mais fiel dos guias animais.
É também o símbolo de professor da tribo.
O lobo é um explorador de rotas, precursor de novas ideias que volta para tribo para ensinar e compartilhar a medicina.

O senso do lobo é muito aguçado e a Lua é sua aliada de força.
A medicina do lobo permite o professor dentro de nós todos surgir e ajudar os filhos da Terra a compreender o Grande Mistério da vida. 
Evocar para ajudar a eliminar as nossas fraquezas e pensamentos negativos.
Para relacionamentos saudáveis familiares e amorosos, fidelidade, generosidade, união, a criança interior, visão criativa e aprender coisas novas.

Para os nativos americanos, o lobo é um símbolo espiritual poderoso.
Eles são considerados como professores "descobridores de trilhos".
A estrela do lobo era vermelha, uma cor estimada, associada com o lobo por todas as tribos. Também conhecida como Sírius, ela é a estrela mais brilhante no céu do norte.
Para a China, também a estrela Sírius é o lobo celeste, guardião do palácio celeste (Ursa Maior). Esse caráter polar se explica pelo fato de que se atribui o lobo ao Norte.
A via láctea era o caminho do lobo - a rota para o paraíso.
“Eu sou o lobo solitário, eu vago em diversos países”, diz um canto de guerra dos índios das pradarias norte-americanas.

Os índios respeitam a bravura do lobo como caçador, sua determinação e a maneira como ele se move silenciosamente pela paisagem. Eles ficam emocionados com o seu uivo, que consideram como uma conversa com o mundo espiritual.
Aliás, o lobo aparece em muitas lendas como um mensageiro, um viajante de longa distância e um guia para qualquer um que esteja buscando o mundo espiritual.
Ele traz o presságio de novas ideias.






"A Loba, a Mulher-Lobo


Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fadas da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.
Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.
Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço. Dizem que foi vista viajando para o sul, para o Monte Alban3 num carro incendiado com a janela traseira arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente com caminhoneiros até Morelia, México, ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca, com galhos de lenha de estranhos formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-lobo.
O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia dos ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.
Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montanhas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e, quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.
Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pêlos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.
La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.
E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr-do-sol, e quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar com você e lhe ensinar algo — algo da alma."


in,  Mulheres Que Correm Com Os Lobos 
Mitos e Histórias do Arquétipos da Mulher Selvagem 
Clarissa Pinkola Estés






A analista junguiana Clarissa Pinkola Estés constrói um paralelo entre os lobos e as mulheres da sociedade moderna.
Ao investigar o esmagamento da natureza instintiva feminina, Clarissa descobriu a chave da sensação de impotência da mulher moderna.

Seu livro, MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS,  é sobre as mulheres e os seus aspectos, as mulheres selvagens, seus sentimentos, sua história através dos tempos, seus instintos, ciclos e sentimentos.




Através de 19 lendas e mitos, Estés mostra como a natureza instintiva da mulher foi sendo domesticada ao longo dos tempos, num processo que punia todas aquelas que se revelavam.
Segundo a analista, a exemplo das florestas virgens e dos animais silvestres, os instintos foram devastados e os ciclos naturais femininos transformados à força em ritmos artificiais para agradar aos outros.






Mas a sua energia vital, segundo ela, pode ser restaurada por escavações "psíquico-arqueológicas" nas ruínas do mundo subterrâneo. Até ao ponto em que, emergindo das grossas camadas de condicionamento cultural, apareça a corajosa loba que vive em cada mulher.










Encontramo-nos onde fores feliz


The Monster In The Closet 
Luigi Quarta




Não me digas
que queres ter asas
se tens medo de voar

Não me digas 
que queres ter voz
se tens medo que te oiçam

Não me digas
que queres ser diferente
se tens medo da mudança

Não me digas 
que queres chegar
se tens medo de partir

Não me digas
que queres guardar
se tens medo de perder

Diz-me
que apesar do medo
vais voar, vais gritar, vais mudar, vais partir, vais guardar
mesmo que o medo
mesmo com medo
voa, menina
grita, muda, parte, guarda
Não pares.
O tempo não pede licença para avançar
Avança com ele até onde fores feliz.
Diz-me
Tens medo?
Todos temos.

Encontramo-nos lá.



| Pedro Rodrigues |