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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
A Supermarket in California
What thoughts I have of you tonight, Walt Whitman, for I walked down the
streets under the trees with a headache self-conscious looking at the full moon.
In my hungry fatigue, and shopping for images, I went into the neon fruit
supermarket, dreaming of your enumerations.
What peaches and what penumbras! Whole families shopping at night! Aisles
full of husbands! Wives in the avocados, babies in the tomatoes! --- and you,
Garcia Lorca, what were you doing down by the watermelons?
I saw you, Walt Whitman, childless, lonely old grubber, poking among the
meats in the refrigerator and eyeing the grocery boys.
I heard you asking questions of each: Who killed the pork chops? What price
bananas? Are you my Angel?
I wandered in and out of the brilliant stacks of cans following you, and
followed in my imagination by the store detective.
We strode down the open corridors together in our solitary fancy tasting
artichokes, possessing every frozen delicacy, and +never passing the cashier.
Where are we going, Walt Whitman? The doors close in an hour. Which way does
your beard point tonight?
(I touch your book and dream of our odyssey in the supermarket and feel
absurd.)
Will we walk all night through solitary streets? The trees add shade to
shade, lights out in the houses, we'll both be lonely.
Will we stroll dreaming of the lost America of love past blue automobiles in
driveways, home to our silent cottage?
Ah, dear father, graybeard, lonely old courage-teacher, what America did you
have when Charon quit poling his ferry and you got out on a smoking bank and
stood watching the boat disappear on the black waters of Lethe?
Allen Ginsberg
segunda-feira, 10 de setembro de 2018
Carpe Diem
Do not let the day end without having grown a bit, without being happy,
without having risen your dreams.
Do not let overcome by disappointment.
Do not let anyone you remove the right to express yourself,
which is almost a duty.
Do not forsake the yearning to make your life something special.
Be sure to believe that words and poetry it can change the world.
Whatever happens, our essence is intact.
We are beings full of passion.
Life is desert and oasis.
We breakdowns, hurts us, teaches us, makes us protagonists of our own history.
Although the wind blow against the powerful work continues:
You can make a stanza. Never stop dreaming, because in a dream, man is free.
Do not fall into the worst mistakes: the silence.
Most live in a dreadful silence. Do not resign escape.
"Issued by my screams roofs of this world," says the poet.
Rate the beauty of the simple things.
You can make beautiful poetry on little things, but we can not row against ourselves.
That transforms life into hell.
Enjoy the panic that leads you have life ahead.
Live intensely, without mediocrity.
Think that you are the future and facing the task with pride and without fear.
Learn from those who can teach you.
The experiences of those who preceded us in our "dead poets", help you walk through life.
Today's society is us "poets alive."
Do not let life pass you live without that.
Walt Whitman
sábado, 12 de maio de 2018
Carpe Diem
Eric Lafforgue
Aproveita o dia,
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.
Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda a diante.
Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida se passe sem teres vivido…
Walt Whitman
sábado, 6 de agosto de 2016
The Black Mamba - Canção de Mim Mesmo (Official Video)
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Canção de mim Mesmo 52
O gavião pintado mergulha e me acusa, ele reclama de minha tagarelice e de minha vadiagem.
Eu também não sou muito domado, eu também sou intraduzível,
Lanço no ar o meu urro bárbaro sobre os telhados do mundo.
A última sombra do dia espera por mim,
Ela arremessa minha imagem atrás das outras e,
tão verdadeira quanto qualquer coisa no agreste sombrio,
Me arrasta para o vapor e para o crepúsculo.
Eu parto como o ar, agito minhas mechas brancas sob o sol fugitivo,
Derramo minha carne em remoinhos e deixo-a à deriva em saliências rendilhadas.
Lego-me ao pó para crescer da relva que amo,
Se queres me ver novamente, procura-me grudado à sola de tuas botas.
Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
Mas hei de ser para ti boa saúde assim mesmo,
E filtrarei e darei fibra ao teu sangue.
Se não puderes me encontrar na primeira vez, mantém a esperança,
Não me achando em certo lugar, procura em outro,
Fico em alguma parte à tua espera.
in, Song of Myself
Walt Whitman
E assim termina o livro...
quarta-feira, 27 de abril de 2016
Canção de mim Mesmo 50
Há isso em mim — eu não sei o que isso é — mas sei que está em mim.
Angustiado e suado — calmo e tranquilo, então, meu corpo se torna,
Durmo — durmo por um longo tempo.
Não sei o que é — é algo que não tem nome — é uma palavra que jamais foi dita,
Não está em dicionário algum, expressão vocal, símbolo.
Balança sobre algo maior do que a terra em que balanço,
Para ele a criação é o amigo cujo abraço me desperta.
Talvez eu possa dizer mais. Perfis! Imploro por meus irmãos e irmãs.
Vedes, ó meus irmãos e minhas irmãs?
Não é o caos ou a morte — é a forma, a união, o plano — é a vida eterna — é a Felicidade.
in, Song of Myself
Walt Whitman
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Despedida...Passagem,
Walt Whitman
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Canção de mim Mesmo 49
E quanto a ti, Morte, e tu, amargo abraço da mortalidade, é inútil tentar me assustar.
Para o seu trabalho sem vacilo vem o parteiro
Vejo a mão do idoso pressionando, recebendo, auxiliando,
E me reclino sobre o peitoril das portas flexíveis e requintadas,
E indico a saída e indico o alívio e a fuga.
E quanto a ti, Corpo frio, penso que serás um bom adubo, mas isso não me ofende,
Sinto o perfume doce das rosas brancas que crescem,
Alcanço os lábios folhosos, alcanço os peitos polidos de melão.
E quanto a ti, Vida, reconheço-te nos restos de muitas mortes,
(Sem dúvida eu mesmo já morri umas dez mil vezes antes.)
Eu vos ouço assobiando aí, ó estrelas do Céu,
Ó sóis — ó relva dos túmulos — ó perpétuas transferências e promoções,
Se vós não dizeis nada, como eu posso dizer alguma coisa?
Do lago de águas turvas que jaz no meio da floresta outonal,
Da lua que desce as escarpas do crepúsculo murmurante,
Arremessai-vos, centelhas do dia e do anoitecer — arremessai-vos sobre os caules negros que apodrecem no esterco.
Arremessai-vos à algaravia dos galhos secos.
Subo da lua, subo da noite,
Percebo que o lampejo cadavérico são os raios do sol do meio-dia reflectidos,
E desemboco no que é estável e central, a partir de uma descendência grande ou pequena.
in, Song of Myself
Walt Whitman
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Despedida...Passagem,
Walt Whitman
domingo, 3 de abril de 2016
Canção de Mim Mesmo 48
Eu disse que a alma não é mais do que o corpo,
E disse que o corpo não é mais do que a alma,
E nada, nem Deus, é maior para um ser do que esse ser para si mesmo,
E quem quer que ande um estádio sem solidariedade caminha para seu próprio funeral vestindo sua mortalha,
E eu ou tu sem um centavo no bolso podemos comprar a nata da terra,
E vislumbrar com um olho, ou apresentar um grão na sua vagem, confundindo o conhecimento de todas as eras,
E não há negócio ou emprego em que um jovem, seguindo a carreira, não se possa tornar um herói,
E não há objecto que seja tão delicado que não possa funcionar como o centro em que se ligam todas as rodas que movem o Universo,
E digo para qualquer homem ou mulher,
Deixe que sua alma esteja tranquila e íntegra perante um milhão de universos.
E digo para a humanidade, Não tenha curiosidade sobre Deus,
Pois eu que sou curioso sobre todas as coisas não tenho curiosidade alguma sobre Deus,
(Não há uma gama de termos grande o suficiente com a qual eu possa dizer o quanto estou em Paz sobre Deus e sobre a morte.)
Ouço e observo Deus em todos os objectos e ainda assim não compreendo Deus minimamente,
Nem posso compreender quem possa haver que seja mais maravilhoso do que eu.
Por que eu deveria ver Deus melhor do que este dia?
Eu vejo algo de Deus a cada hora das vinte e quatro horas do dia, e a cada momento,
Nos rostos de homens e mulheres eu vejo Deus, e em minha própria face no espelho,
Encontro cartas de Deus espalhadas pelas ruas e todas elas estão assinadas por Ele,
E deixo-as ficar onde se encontram, pois sei que onde quer que vá,
Outras virão pontualmente para toda a eternidade.
in, Song of Myself
Walt Whitman
quarta-feira, 30 de março de 2016
Canção de Mim Mesmo 46
Sei que tenho o melhor do tempo e do espaço, que nunca foi e nunca será medido.
Percorro uma jornada perpétua (vinde todos ouvir!)
Meus sinais são um casaco à prova de chuva, bons sapatos e um cajado de madeira da floresta,
Nenhum amigo meu descansa em minha cadeira,
Não tenho cadeira, não tenho igreja, nem filosofia,
Não levo homem algum para o jantar, para a biblioteca, para a bolsa de valores,
Mas cada homem e cada mulher entre vós eu conduzo ao cimo de um outeiro,
Minha mão esquerda abraça-os pela cintura,
Minha mão direita aponta para as paisagens de continentes e estradas públicas.
Não eu, ninguém mais pode viajar aquela estrada em teu lugar,
Deves viajá-la com teus próprios passos.
Ela não é distante, ela está dentro do alcance,
Talvez estejas nela desde o teu nascimento e não saibas,
Talvez ela esteja em toda parte pela água e pela terra.
Põe tua mochila em teus ombros, filho amado, e eu farei o mesmo, e vamos apressar nossa jornada,
Cidades maravilhosas e nações livres tomaremos no caminho.
Se te cansares, entrega-me ambos os fardos e descansa o fôlego de tua mão em meus quadris,
E quando a hora chegar, tu hás de fazer o mesmo por mim,
Pois quando tivermos partido não repousaremos mais.
Hoje, antes do nascimento do sol, subi ao cimo de uma montanha e observei o céu povoado,
E disse para o meu espírito: Quando nos tornarmos os guardiões desses orbes e de todo o prazer e do conhecimento que neles há, estaremos, então, plenos e satisfeitos?
E meu espírito respondeu: Não, superaremos essa etapa apenas para passar adiante e ir mais além.
Estás, também, fazendo-me perguntas e eu posso ouvir-te,
Respondo que não posso responder, pois que encontres a resposta por ti mesmo.
Senta-te por um instante, filho amado,
Aqui estão alguns biscoitos para comeres e aqui algum leite para beberes,
Mas assim que dormires e te vestires com roupas limpas, eu te darei um beijo de despedida e abrirei o portão para que saias daqui.
Por tempo suficiente tens sonhado sonhos desprezíveis,
Agora, limpo a remela de teus olhos,
Deves habituar-te ao fascínio da luz e de todos os momentos de tua vida.
Por muito tempo, tu te agarraste timidamente a uma prancha na praia,
Agora quero que sejas um nadador ousado,
Para que mergulhes em alto mar, te ergas novamente, acenes para mim, grites e,
sorrindo, agites teus cabelos.
in, Song of Myself
Walt Whitman
domingo, 13 de março de 2016
Canção de Mim Mesmo 28
É isto, então, um toque? Um estremecimento que me dá uma nova identidade,
Chamas e éter a correr pelas minhas veias,
Desleal pedaço de mim alcançando e entrando pela multidão para ajudá-la,
Minha carne e meu sangue a lançar raios para derrubar o que mal difere de mim mesmo,
De todos os lados lúbricos provocadores imobilizando os meus membros.
Puxando o úbere do meu coração para obter a seiva interna,
Comportando-se licenciosamente em relação a mim, não aceitando recusa,
Despojando-me do meu melhor a pretexto de uma causa,
Desabotoando as minhas roupas, abraçando-me pela cintura nua,
Enganando a minha confusão com a calma da luz solar e das pastagens,
Sem modéstia, afastando de mim os sentidos companheiros,
Eles os subornaram em troca do toque e foram pastar à beira de mim,
Nenhuma consideração, nenhuma atenção às minhas forças exauridas ou minha raiva,
Atraíram o resto do rebanho em torno de si para desfrutar deles por um momento,
Depois, todos se uniram em pé sobre um promontório a me afligir.
As sentinelas abandonam todas as outras partes de mim,
Deixaram-me desamparado diante de um saqueador escarlate,
Todos eles vêm ao promontório para testemunhar e se unir contra mim.
Sou entregue por traidores,
Falo abertamente, perdi as minhas graças, eu e ninguém além de mim sou o maior dos traidores,
Fui o primeiro a ir ao promontório, minhas próprias mãos me carregaram até lá.
Tu, toque canalha! O que estás a fazer? Minha respiração está apertada na garganta,
Abre as tuas comportas, és demais para mim.
Walt Whitman
in, Song of Myself
domingo, 14 de fevereiro de 2016
Canção de mim Mesmo 26
Agora nada farei além de ouvir,
Para acrescer o que ouço aos meus cantos, para deixar que os sons contribuam em sua direcção.
Eu ouço o talento dos pássaros, o alvoroço do trigo que cresce, a fofoca das chamas, os estalos dos gravetos a cozinhar as minhas refeições,
Eu ouço o som que amo, o som da voz humana,
Eu ouço todos os sons a propagarem-se juntos, combinados, fundidos ou em sequência,
Sons da cidade e sons fora da cidade, sons do dia e da noite,
Jovens faladores com os que deles gostam, a risada estridente dos trabalhadores durante as refeições,
A base irritada da amizade desfeita, os tons débeis dos doentes,
O juiz com as mãos presas à mesa, seus lábios pálidos a pronunciar uma sentença de morte,
Os altos brados dos estivadores descarregando os navios no cais, o refrão dos levantadores de âncora,
O toque dos alarmes, o grito de "fogo!", o ronco dos motores rápidos e do carro com mangueiras e tinidos premonitórios e luzes coloridas.
O apito a vapor, o rolamento sólido do comboio que está a chegar,
A marcha lenta tocada à frente da associação, a marchar dois a dois,
(Eles vão recolher alguns corpos, o topo das bandeiras drapejado com musselina negra).
Ouço o violoncelo (é o lamento do coração do rapaz),
Ouço a corneta de teclado que desliza rapidamente pelos meus ouvidos,
Ela causa uma agonia louca e doce que atravessa as minhas entranhas e o meu peito.
Ouço o coro, é a grande ópera,
Ah, isso sim é música! — isso se casa comigo.
Um tenor grande e novo como a criação me preenche,
O céu esférico da sua boca está a jorrar em mim e a realizar-me.
Ouço a soprano virtuosa (o que é este trabalho quando comparado ao dela?)
A orquestra faz-me rodopiar numa órbita mais larga que a do vôo de Urano,
Faz surgir em mim tais ardores que não imaginava possuir,
Ela faz-me navegar, mergulho meus pés descalços, eles são lambidos pelas ondas indolentes,
Sou cortado por um granizo amargo e irado, perco o fôlego,
Macerado por melíflua morfina, minha traqueia sufocada em farsas da morte,
Ao fim, solto-me uma vez mais para sentir o enigma dos enigmas,
E aquilo chamamos Ser.
Walt Whitman
in, Song of Myself
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Canção de mim Mesmo 25
Walt Whitman com 28 anos
Fascinante e tremendo, com que rapidez o nascer do sol me mataria,
Se eu pudesse agora e sempre emitir, de dentro de mim, o nascer do sol.
Também nos erguemos fascinantes e tremendos como o sol,
Encontramos o que é nosso, ó minha alma, na calmaria e no frescor da alvorada.
Minha voz persegue o que meus olhos não alcançam,
Com um giro de minha língua abarco mundos e volumes de mundos.
A fala é gémea de minha visão, ela é inigualável em sua própria medida,
Ela me provoca para sempre, ela diz sarcasticamente,
Walt, conténs o bastante, por que não te abres para o mundo?
Vem agora, não serei atormentado, concebes articulação em demasia,
Não sabes, ó discurso, como os botões sob ti se fecham?
Esperando na escuridão, protegido pela geada,
A poeira retrocedendo perante os meus gritos proféticos,
Eu sublinhando causas para equilibrá-las finalmente,
Meu conhecimento são minhas partes vivas, ele mantém a conta do significado de todas as coisas,
Felicidade (quem quer que me ouça deixe que se lance em busca dela neste dia).
Meu mérito final recuso a ti, recuso-me a entregar o que de facto sou,
Abrange os mundos, mas nunca tentes me abranger,
Preencho o que tens de mais macio e de melhor simplesmente olhando para ti.
A escrita e a fala não me provam.
Carrego a plenitude das provas e tudo o mais em minha face,
Na quietude de meus lábios o céptico desconcerta-se inteiramente.
in, Song of Myself
Walt Whitman
domingo, 17 de janeiro de 2016
Canção de mim Mesmo 24
Walt Whitman, um Cosmos, de Manhattan o filho,
Turbulento, corpulento, sensual, comendo, bebendo e reproduzindo,
Sem sentimentalismo, sem estar acima de homens e mulheres ou separado deles,
Não mais modesto do que imodesto.
Desatai as fechaduras das portas!
Desatai mesmo as portas de seus batentes!
Quem quer que degrade o outro, degrada a mim,
E tudo o que é feito e dito retorna ao final para mim.
Através de mim a inspiração chega em ondas sobre ondas, através de mim a corrente e o catálogo.
Digo a senha primordial, eu dou o sinal da democracia,
Por Deus! Não aceitarei nada de que todos não possam ter sua compensação nos mesmos termos.
Através de mim muitas vozes emudecidas há muito tempo,
Vozes das gerações intermináveis de prisioneiros e escravos,
Vozes de doentes e desesperados e de ladrões e anões,
Vozes dos ciclos de preparação e crescimento,
E das linhas que se conectam aos astros, dos úteros e das coisas dos pais,
E dos direitos daqueles submetidos aos outros,
Dos deformados, dos fúteis, dos apáticos, dos tolos, dos desprezados,
Nevoeiro no ar, besouros rolando bolas de esterco.
Por mim, vozes proibidas,
Vozes de sexos e de desejos, vozes veladas e eu retiro o véu,
Vozes indecentes, por mim clarificadas e transfiguradas.
Não aperto meus dedos sobre a boca,
Cuido com delicadeza de meus intestinos, do mesmo modo com que cuido da cabeça ou do coração,
A cópula não é mais digna para mim do que a morte.
Acredito na carne e nos apetites,
A visão, a audição, o tacto são milagres, e cada parte e fragmento de mim é um milagre.
Divino eu sou por dentro e por fora e tudo o que toco ou aquilo por que sou tocado torna-se sagrado.
O cheiro dessas axilas é um perfume mais elevado do que a prece,
Esta cabeça é mais do que as igrejas, as bíblias, e todas as crenças.
Se eu cultuar algo com especial intensidade esse algo será a extensão de meu próprio corpo ou de qualquer parte dele.
Translúcido molde meu, serás tu!
Telhado e descanso que a sombra oferece, serás tu!
Arado firme e masculino, serás tu!
Qualquer coisa que vá para a minha lavoura serás tu!
Tu, meu rico sangue! Teu córrego lácteo são tiras pálidas da minha vida!
Peito que se aperta a outros peitos, serás tu!
Meu cérebro serão tuas recônditas torções!
Raiz de cálamo lavado! Temerosa narceja do lago! Ninho de ovos duplos vigiados! Serás tu!
Dança rústica misturada e indistinta de cabeça, barba, músculo, serás tu!
Gotejo de seiva de ácer, fibra de másculo trigo, serás tu!
Sol tão generoso, serás tu!
Vapor que ilumina e faz sombra em minha face, serás tu!
Regatos e orvalhos suados, sereis vós!
Ventos cujos genitais gotejam suavemente ao se roçarem contra mim, sereis vós!
Vastos campos musculares, ramos de carvalho vivo, amantes vadios em meus caminhos sinuosos, sereis vós!
Mãos que segurei, rosto que beijei, mortal que sempre toquei, sereis vós!
Tenho loucura por mim, há tanto de mim, e tudo tão saboroso,
Cada momento — aconteça o que acontecer — me enche de deleite.
Não posso dizer como meus tornozelos se torcem, nem a origem de meus menores desejos,
Nem a causa da amizade que irradio, nem a causa da amizade que recebo em troca.
Quando ando até o alpendre, paro para conjeturar sobre a realidade deste fato:
Uma planta que cresce em minha janela me satisfaz mais do que a metafísica dos livros.
Testemunhar a alvorada!
A luz débil enfraquece a sombra diáfana e imensa,
O ar tem um gosto bom para o meu paladar.
A maior parte de um mundo em movimento, em inocentes cambalhotas se erguendo silenciosamente, gotejando com frescor.
Fugindo obliquamente acima e abaixo.
Algo que não posso ver ergue seus forcados libidinosos,
Mares de fluidos brilhantes inundam o céu.
A terra pelo céu acompanhada, o fechamento diário de sua junção,
Desafio do leste erguido naquele momento sobre minha cabeça,
O insulto zombeteiro. Vê, então, se serás o Mestre!
Walt Whitman
in, Song of Myself
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
Canção de mim Mesmo 23
Interminável desdobramento de verbos de eras!
E o meu é o verbo do moderno, o verbo da Massa.
Um verbo de fé que nunca empaca,
Aqui, ou daqui em diante, tudo é o mesmo para mim, aceito o tempo de modo absoluto.
Só ele não tem falha, só ele a tudo circunda e tudo completa,
Essa mística e desconcertante maravilha a tudo completa.
Aceito a realidade e não ouso questioná-la,
O materialismo saturando o alfa e o ómega.
Hurra para a ciência positiva! Vida longa para a demonstração exacta!
Alcança a erva-pinheira misturada com o cedro e os galhos de lilás,
Este é o lexicógrafo, este é o químico, este fez uma gramática de antigos cartuchos,
Estes marinheiros colocam o navio por mares perigosos e desconhecidos,
Este é o geologista, este trabalha com o escalpelo e este é um matemático.
Cavalheiros, para vós sempre as primeiras honras!
Vossos fatos são úteis, mas não são o meu domínio,
Apenas cruzo com eles numa área de meu domínio.
Minhas palavras são menos que lembranças de propriedades descritas,
E são mais as lembranças da vida oculta, e de liberdade e desenredo,
E fazem pouco caso de eunucos e castrados, favorecendo homens e mulheres totalmente equipados,
E batem o gongo da revolta, e acampam com fugitivos e com aqueles que tramam e conspiram.
in, Song of Myself
Walt whitman
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Canção de Mim Mesmo 22
Tu, ó mar! Eu também me entrego a ti — adivinho o que queres dizer,
Vejo da praia teus dedos deformados que me convidam,
Creio que recusas retornar sem antes me sentir,
Precisamos juntos dar uma volta, eu me dispo, me apresso para fora da vista da terra,
Amortece-me suavemente, embala-me em encapelado adormecimento,
Espirra-me a tua humidade amorosa, eu posso recompensar-te.
Mar de estendidos elementos avultados,
Mar de respirações vastas e convulsivas,
Mar da água da vida e das sepulturas não cavadas sempre prontas,
Uivador e escavador de tempestades, caprichoso e requintado mar,
Sou um contigo, também sou de uma fase e de todas as fases.
Compartilhador do influxo e do efluxo eu, cantor do ódio e da conciliação,
Cantor dos amigos e daqueles que dormem nos braços uns dos outros.
Eu sou aquele que oferece solidariedade,
(Devo fazer a minha lista das coisas que estão dentro da casa e esquecer a casa que as sustenta?)
Não sou o poeta da bondade apenas, não rejeito a possibilidade de ser também o poeta da maldade.
Que parvoíce é essa de virtude e vício?
O mal me impele e a reforma do mal também me impele, e eu permaneço indiferente,
Meu modo de andar não é o de um crítico ou o de alguém que contesta,
Eu molho a raiz de tudo o que cresceu.
Temias alguma escrófula após a persistente gravidez?
Pensavas que as leis celestiais precisariam ser aperfeiçoadas e corrigidas?
Encontro de um lado o equilíbrio e do lado oposto um equilíbrio,
Uma doutrina maleável é tão segura quanto uma doutrina estável,
Pensamentos e feitos do presente são nosso despertar e nosso início prematuro.
Este minuto que me chega após os decilhões passados,
Não há nada melhor do que ele agora.
O que se comportou bem no passado ou se comporta bem no presente não é por isso um assombro,
O assombro é sempre e sempre que possa haver um homem mau ou infiel.
Walt Whitman
in, Song of Myself
sábado, 24 de outubro de 2015
Canção de Mim Mesmo 21
Sou o poeta do Corpo e sou o poeta da Alma,
Os prazeres do céu estão comigo e as dores do inferno estão comigo,
O primeiro eu transplanto e amplio sobre mim e o segundo traduzo em uma nova língua.
Eu sou o poeta da mulher tanto quanto o do homem,
E digo que é tão grandioso ser uma mulher como ser um homem,
E digo que não há nada maior do que ser a mãe dos homens.
Canto o canto da expansão ou do orgulho,
Já tivemos fuga e censura o suficiente,
Revelo que o tamanho é apenas o desenvolvimento.
Ultrapassaste os demais? És o Presidente?
Isso é ninharia, eles irão além desse teu feito.
Eu sou aquele que caminha com a noite que cresce brandamente,
Clamo à terra e ao mar, em parte abraçados pela noite.
Estampa-te em mim, noite de seio nu — estampa-te em mim, noite magnética e nutritiva!
Noite do vento sul — noite de estrelas grandes e escassas!
Noite imóvel e ondulante — noite de verão louca e desnuda.
Sorri, ó voluptuosa terra de hálito fresco!
Terra das árvores sonolentas e líquidas!
Terra do crepúsculo finado — terra das montanhas dos topos de neblina!
Terra da vertente vítrea da lua cheia, subtilmente tingida de azul!
Terra do brilho e da escuridão que mosqueiam a maré do rio!
Terra do cinza límpido, das nuvens que são mais brilhantes e mais claras em meu nome!
Terra angulada dos grandes precipícios — terra rica em flores de macieira!
Sorria, teu amante está chegando.
Pródiga, tu me deste amor — assim sendo eu também te dou amor!
Ó amor apaixonado e indizível.
in, Song of Myself
Walt Whitman
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Canção de Mim Mesmo 20
Quem vai ali? Cheio de realizações, tosco, místico, nu;
Como extraio energia da carne que como?
O que é um homem afinal? O que sou eu? O que és tu?
Tudo o que marco como sendo meu tu deves compensar com o que é teu.
De outro modo seria perda de tempo ouvir-me.
Não lanço a lamúria da minha lamúria pelo mundo inteiro,
De que os meses são vazios e o chão é lamaçal e lixo.
Choradeira e servilismo são encontrados junto com os remédios para inválidos, a conformidade polariza-se no ordinário mais remoto.
Uso o meu chapéu como bem entender dentro ou fora de casa.
Por que eu deveria rezar? Por que deveria venerar e ser cerimonioso?
Tendo inquirido todas as camadas, analisado as minúcias, consultado os doutores e calculado com perícia,
Não encontro gordura mais doce do que aquela que se prende aos meus próprios ossos.
Em todas as pessoas vejo-me a mim mesmo, em nenhuma vejo mais do que eu sou, ou um grão de cevada a menos.
E o bem e o mal que falo de mim mesmo, eu falo delas.
Sei que sou sólido e sadio.
Para mim os objectos convergentes do universo fluem perpétuamente,
Todos são escritos para mim, e eu devo entender o que a escrita significa.
Sei que sou imortal,
Sei que a órbita do meu eu não pode ser varrida pelo compasso de um carpinteiro,
Sei que não passarei como os círculos luminosos que as crianças fazem à noite, com paus em brasa.
Sei que sou augusto.
Não perturbo o meu próprio espírito para que se defenda ou seja compreendido,
Vejo que as leis elementares nunca pedem desculpas,
(Reconheço que me comporto com um orgulho tão alto quanto o do nível com que assento a minha casa, afinal).
Existo como sou, isso me basta,
Se ninguém mais no mundo está ciente, fico satisfeito.
E se cada um e todos estiverem cientes, satisfeito fico.
Um mundo está ciente e esse é incomparavelmente o maior de todos para mim, e esse mundo sou eu mesmo,
E se venho para o que é meu, ainda hoje ou dentro de dez mil anos, ou dez milhões de anos,
Posso alegremente recebê-lo agora, ou esperá-lo com alegria igual.
Meus pés estão espigados e encaixados no granito,
Rio-me daquilo que chamas de dissolução,
E conheço a amplitude do tempo.
Walt Whitman
in, Song of Myself
sábado, 26 de setembro de 2015
Canção de Mim Mesmo 19
Esta é a refeição servida com igualdade, esta é a carne para a fome natural,
Ela serve aos maus tanto quanto aos justos, minha festa é para todos,
Não deixarei uma única pessoa desprezada ou deixada de lado,
A cortesã, o aproveitador, o ladrão são por meio desta convidados.
O escravo de lábios grossos está convidado, o que sofre de doenças venéreas está convidado;
Não haverá diferença entre eles e os demais.
Esta é a pressão de uma mão tímida, este é o aroma dos cabelos que esvoaçam,
Este é o roçar dos meus lábios nos teus, este é o murmúrio do desejo,
Esta é a profundeza e a altura distantes reflectindo o meu próprio rosto,
Esta é a meditativa fusão de mim próprio, e a saída outra vez.
Achas que tenho algum propósito obscuro?
Sim, tenho, como o têm as chuvas do quarto mês, e o tem a mica sobre as rochas.
Pensas que quero assombrar?
A luz do dia assombra? O pisco-ferreiro madrugador que chilreia nos bosques assombra?
Eu assombro mais do que eles?
Esta é a hora das minhas confidências.
Talvez não as faça a todos, mas a ti farei.
in, Song of Myself
Walt Whitman
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Canção de mim mesmo 16
Sou dos velhos e dos jovens, sou dos tolos e dos sábios,
Sem consideração aos outros, sempre os considerando,
Maternal tanto quanto paternal, uma criança tanto quanto um homem,
Cheio das coisas que são ásperas e cheio daquilo que é fino,
Um ente da Nação de muitas nações, indiferente às menores e às maiores,
Um sulista tanto quanto um nortista, um plantador desinteressado e hospitaleiro próximo ao Oconee eu vivo,
Um ianque atraído para os meus próprios modos, pronto para negociar, minhas são as mais ágeis juntas da terra e as mais rígidas também.
Um homem do Kentucky, caminhando pelo vale do Elkhorn em minhas perneiras de pele de veado, um homem da Louisiana ou da Geórgia.
Um barqueiro em lagos ou em baías ao longo da costa, um homem de Indiana, Wisconsin, Ohio;
Sinto-me em casa nas montanhas de neve do Canadá ou acima no mato, ou com os pescadores das terras recém-descobertas,
Sinto-me em casa na frota de navios quebra-gelos, navegando com os demais e bordejando,
Sinto-me em casa nos morros de Vermont, ou nas florestas do Maine, ou nos ranchos do Texas,
Camarada entre os californianos, camarada entre os livres do Noroeste (amando seu porte avolumado),
Camarada entre balseiros e entre carvoeiros, camarada entre todos os que acolhem, dão as boas-vindas, oferecem bebida e comida,
Um aprendiz dos mais simples, um professor dos mais pensantes,
Um noviço dando os primeiros passos, contudo experimentado em miríades de estações,
De toda cor e casta eu sou, de toda classe e religião,
Um fazendeiro, mecânico, artista, cavalheiro, navegante, quacre,
Prisioneiro, proxeneta, arruaceiro, advogado, médico, sacerdote.
Resisto a qualquer coisa melhor do que à minha própria diversidade,
Respiro o ar, mas deixo muito dele atrás de mim,
Não sou presunçoso, e ocupo o meu posto.
(A mariposa e as ovas de peixe estão em seus postos,
Os sóis brilhantes vejo e os sóis escurecidos que eu não posso ver estão em seus postos,
O palpável está em seu posto, o impalpável está em seu posto).
Walt Whitman
in, Song of Myself
sábado, 19 de setembro de 2015
Canção de Mim Mesmo 8
O pequenino dorme em seu berço,
Ergo a tela e o observo por um tempo longo, e sem alarde espanto as moscas com a mão.
O jovem e a moça de rosto rosado se viram para o lado na montanha repleta de arbustos,
Eu os perscruto olhando-os lá do alto.
O suicida está esparramado no chão, ensanguentado no quarto de dormir,
Eu testemunho o cadáver com seus húmidos cabelos e noto onde a pistola caiu.
A tagarelice das calçadas, as rodas das carroças, a lama na sola das botas, a conversa no passeio público,
O autocarro pesado, o motorista com seu polegar interrogativo, o estrépito das ferraduras no chão de granito,
Os trenós, os estalidos, as piadas gritadas, o impacto das bolas de neve,
As saudações para os favoritos do povo, a fúria das hordas inflamadas,
A agitação das cortinas da liteira, um doente carregado ao hospital,
O encontro de inimigos, a blasfémia repentina, as pancadas e a queda,
A multidão excitada, os policias com sua estrela forçando apressadamente a passagem para o centro da turba,
As rochas impassíveis que recebem e devolvem tantos ecos,
Que gemidos de empanzinados ou famintos que caem de insolação ou com espasmos,
Que exclamações de mulheres que entram subitamente em trabalho de parto e correm para suas casas dando à luz os seus bebés,
Que discurso vivo e subterrâneo está sempre aqui a vibrar, que uivos reprimidos pelo decoro,
A prisão de criminosos, desprezados, ofertas adúlteras feitas, consentimentos, rejeições com lábios convexos,
Eu os percebo ou a sua aparição ou a sua ressonância — eu chego e me vou.
Walt Whitman
in, Song of Myself
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