quarta-feira, 31 de julho de 2019

TRAZ-ME UM TEMPO





Traz-me um tempo sem mistério. 
Um tempo sem mácula e límpido, 
comigo sentado na soleira 
por entre o zunido dos insetos 
e a cantilena dos homens no lagar.

Devolve-me os gestos que julgava perdidos.
Não me fales de viagens! 
De cidades onde não vivi, 
dos corpos que consumiste 
em aventuras mais ou menos frustradas, 
quando eu nem miragem era.

Cala o que me desarma, 
o que me avoluma o tédio:
a imagem desses bares onde bebias, 
nessas noites em que tropeçavas noutros 
e eu não passava de uma impossibilidade 
a fermentar numa paisagem 
antecipadamente derrotada.

Concede-me de novo esse tempo sem mistério, 
um tempo cristalino, 
um tempo de loucura e inocência, 
um tempo de desejos transparentes, 
de corpos ardentes e simples 
como só as coisas puras conseguem ter.


VICTOR OLIVEIRA MATEUS 
in, AQUILO QUE NÃO TEM NOME




O ego não sobrevive à entrega






“A aceitação e a entrega se tornam muito mais fáceis quando você percebe que todas as experiências são fugazes e se dá conta de que o mundo não pode te oferecer nada que tenha um valor permanente. Ao aceitar e entregar-se, você continua a conhecer pessoas e a se envolver em experiências e atividades, mas sem os desejos e medos do “eu” autocentrado. Você deixa de exigir que uma situação, uma pessoa, um lugar ou um fato te satisfaça ou te façam feliz. A natureza imperfeita de tudo pode ser como é. A ironia é que, quando você deixa de fazer exigências impossíveis, todas as situações, pessoas, lugares e fatos ficam satisfatórios, harmoniosos, serenos e pacíficos. Quando você deixa de resistir internamente, abre-se para a consciência livre de condicionamentos, que é infinitamente maior do que a mente humana. Essa vasta inteligência pode então se expressar através de você e ajudá-lo tanto por dentro quanto por fora. É por isso que, ao parar de resistir internamente, você costuma achar que as coisas melhoraram.
Você acha que estou lhe dizendo: “Aproveite o momento, seja feliz”? Não. Estou dizendo para você aceitar este momento tal como ele é. Isso já basta.
A aceitação e a entrega existem quando você não se pergunta mais: “Por que isso foi acontecer comigo?”. A História mostra homens e mulheres que, ao enfrentarem uma grande perda, doença, prisão ou a ameaça de morte iminente, aceitaram o que era aparentemente inaceitável e assim encontraram “a paz que vai além de toda compreensão”.”

“Há situações em que nenhuma resposta ou explicação satisfaz. Nesses momentos a vida parece perder o sentido. Ou alguém em desespero pede sua ajuda e você não sabe o que fazer ou dizer. Mas quando você aceita plenamente que não sabe, desiste de lutar contra a resposta usando o pensamento de sua mente limitada. Ao desistir, você permite que uma inteligência maior atue através de você. Até mesmo o pensamento pode se beneficiar disso, pois a inteligência maior flui para dentro dele e o inspira.”

“Às vezes entregar-se significa desistir de querer entender, e sentir-se bem com o que você não sabe. Quando você se entrega, a noção que tem de si mesmo muda. O “eu” deixa de se identificar com uma reação ou um julgamento mental e passa a ser um espaço em torno dessa reação ou desse julgamento. O “eu” não se identifica mais com a forma – o pensamento ou a emoção – e você se reconhece como algo sem forma: o espaço da consciência.”

Deixe que a Vida seja!



Eckhart Tolle
in,O Poder do Silêncio






terça-feira, 30 de julho de 2019

AS BOAZINHAS QUE ME PERDOEM





Qual é o elogio que toda mulher adora receber?
Bom, se você está com tempo, pode-se listar aqui uns 700: mulher adora que verbalizem seus atributos, sejam eles físicos ou morais. Diga que ela é uma mulher inteligente e ela irá com a sua cara. Diga que ela tem um ótimo caráter, além de um corpo que é uma provocação, e ela decorará o seu número. Fale do seu olhar, da sua pele, do seu sorriso, da sua presença de espírito, da sua aura de mistério, de como ela tem classe: ela achará você muito observador e lhe dará uma cópia da chave de casa. Mas não pense que o jogo está ganho: manter-se no cargo vai depender da sua perspicácia para encontrar novas qualidades nessa mulher poderosa, absoluta. Diga que ela cozinha melhor que a sua mãe, que ela tem uma voz que faz você pensar obscenidades, que ela é um avião no mundo dos negócios. Fale sobre sua competência, seu senso de oportunidade, seu bom gosto musical.
Agora, quer ver o mundo cair? Diga que ela é muito boazinha.

Descreva aí uma mulher boazinha.
Voz fina, roupas pastéis, calçados rentes ao chão. Aceita encomendas de doces, contribui para a igreja, cuida dos sobrinhos nos finais de semana. Disponível, serena, previsível, nunca foi vista negando um favor. Nunca teve um chilique. Nunca colocou os pés num show de rock. É queridinha. Pequeninha. Educadinha. Enfim, uma mulher boazinha.

Fomos boazinhas por séculos. 
Engolíamos tudo e fingíamos não ver nada, ceguinhas. Vivíamos no nosso mundinho, rodeadas de panelinhas e nenezinhos. A vida feminina era esse frege: bordados, paredes brancas, crucifixo em cima da cama, tudo certinho. Passamos um tempão assim, comportadinhas, enquanto íamos alimentando um desejo incontrolável de virar a mesa. Quietinhas, mas inquietas.

Até que chegou o dia em que deixamos de ser as coitadinhas.
Ninguém mais fala em namoradinhas do Brasil: somos atrizes, estrelas, profissionais.
Adolescentes não são mais brotinhos: são garotas da geração teen.
Ser chamada de patricinha é ofensa mortal.
Pitchulinha é coisa de retardada.
Quem gosta de diminutivos, definha.

Ser boazinha não tem nada a ver com ser generosa.
Ser boa é bom, ser boazinha é péssimo.
As boazinhas não têm defeitos. Não têm atitude. Conformam-se com a coadjuvância. Ph neutro. Ser chamada de boazinha, mesmo com a melhor das intenções, é o pior dos desaforos.

Mulheres bacanas, complicadas, batalhadoras, persistentes, ciumentas, apressadas, é isso que somos hoje. Merecemos adjetivos velozes, produtivos, enigmáticos.
As inhas não moram mais aqui.
Foram para o espaço, sozinhas.



Martha Medeiros



Confissão





esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama

sinto muita pena de
minha mulher

ela vai ver este
corpo
rijo e
branco

vai sacudi-lo e
talvez
sacudi-lo de novo:

“Henry!”

e Henry não vai
responder.

não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.

no entanto,
eu quero que ela
saiba
que dormir
todas as noites
a seu lado

e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas

e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora
ser ditas:

eu
te amo.



Charles Bukowski




Ludovico Einaudi - Fly (Intouchables Soundtrack)

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Do not ignore


David Uzochukwu





Do not ignore and push down the symptoms, feelings and uncomfortable edges that arise within the body. They are messengers who’s voices need to be heard, so you can understand which way to go on your healing journey. Let those messengers enter, give them space, welcome them and work with them so they can go on their way; having done the job of guiding you away from destruction. 
 ~ Brigit Anna McNeill




O Eixo Horizontal





Este Eixo, ou braço Horizontal da Cruz,
define o nosso dia-a-dia,
é muito mal vivido, muito pouco assumido,
desrespeitado pela Humanidade do Tempo presente.
Eixo onde a Extroversão, a fuga do Silêncio,
a Vida no seu mais Íntimo Sentir,
a Luz da Alma é ignorada, esquecida, apagada.
Registada algures na Psique, não como fonte de Vida,
mas como Vazio interior, Solidão e Medo da Morte.
Este Eixo Horizontal em que todos nascemos,
projecta-nos para o Mundo lá fora, 
realidade que a cada momento nos vamos confrontar.

É o Eixo Ascendente / Descendente.
Polariza duas vibrações complementares.
A energia do Signo de Carneiro,
regido por Marte, o Desejo, 
oposto á Energia da Balança, 
regido por Vénus, a Vibração do Amor.

É uma Tensão de Opostos que todos vimos,
neste Planeta de terceira Dimensão, harmonizar.
Há quem já lhe chamou 
não-Crucificação, mas Cristificação.
A Cruz destas duas dimensões de Vida sempre interage 
e Crucifica ou Cristifica cada um de nós.
Quando iluminada responde ao Sentido da Vida,
dissolve a dor de Desamor, da Solidão da Separação,
abre o Caminho da Vida, do Amor, da Unidade.


Maria Flávia de Monsaraz









domingo, 28 de julho de 2019

Para onde vai a minha vida


Marc Huybrighs






Para onde vai a minha vida, e quem a leva?
Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?

O meu destino tem um sentido e tem um jeito,
A minha vida segue uma rota e uma escala
Mas o consciente de mim é o esboço imperfeito
Daquilo que faço e sou: não me iguala

Não me compreendo nem no que, compreeendendo, faço.
Não atinjo o fim ao que faço pensando num fim.
É diferente do que é o prazer ou a dor que abraço.
Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.

Quem sou, senhor, na tua treva e no teu fumo?
Além da minha alma, que outra alma há na minha?
Por que me destes o sentimento de um rumo,
Se o rumo que busco não busco, se em mim nada caminha

Senão com um uso não meu dos meus passos, senão
Com um destino escondido de mim nos meus atos?
Para que sou consciente se a consciência é uma ilusão?
Que sou entre quê e os fatos?

Fechai-me os olhos, toldai-me a vista da alma!
Ó ilusões! Se eu nada sei de mim e da vida,
Ao menos eu goze esse nada, sem fé, mas com calma,
Ao menos durma viver, como uma praia esquecida…



FERNANDO PESSOA
in, OBRA POÉTICA DE FERNANDO PESSOA 
POESIA - I 
1902-1929






A VIDA É UM JOGO DE XADREZ






Na maior parte das vezes, quando alguém nos provoca ou testa de alguma maneira, a nossa tendência é reagir, seja atacando seja fugindo.

Num jogo de xadrez fazemos o mesmo mas através das peças, certo?
Se o outro faz um cheque ao nosso Rei, respondemos a esse ataque à pessoa directamente, ou fazêmo-lo através do jogo?

Obviamente que o jogo ficaria suspenso e a violência física surgiria caso levássemos as investidas do outro directamente.
Claro que é no tabuleiro que teremos que responder ao ataque.
Ou seja, os dois Reis e os seus reinos no jogo são uma Micro representação da Macro realidade de cada jogador.

O mesmo se passa nas nossas vidas. 
Estamos permanentemente a jogar com um jogador invisível chamado Cosmos que usa a nossa realidade e as pessoas para fazer as suas jogadas. Jogadas essas que estão estudadas de acordo com a nossa história Karmica e que pretendem através dos movimentos estudados, criar respostas positivas da nossa parte e levar-nos em última análise à vitória.

Infelizmente, fazemos na vida o que seria ridículo no jogo; esquecemos que é um jogo, que o outro é apenas um peão e que apenas nos é pedido que respondamos ao seu movimento com um movimento nosso mais inteligente e estratégicamente preparado para nos salvaguardar.

Tenta então olhar para a tua realidade imaginando cavalos, bispos, rainha e rei, torres e peões em todas as pessoas à tua volta. Imagina mesmo os quadradinhos pretos e brancos no chão. Observa os movimentos dos outros como altamente estratégicos preparados pelo outro adversário (não propriamente por eles próprios!). 

A cada jogada foca-te apenas no tabuleiro e percebe a jogada inteligente que vais fazer!
Aquela que te protege e te coloque em vantagem!
Obviamente num jogo de xadrez a vitimização, a violência, os ataques directos são inúteis e apenas iriam estragar o propósito estratégico do jogo. 

Não é por acaso que o xadrez é um jogo silencioso.
Onde e com quem consegues já manter este foco?
Onde e com quem esqueceste que afinal tudo é um jogo?
A quem andas a exigir jogadas que te favoreçam apenas a ti?
Ou a quem andas a facilitar o jogo na ilusão de que te irá ajudar a ganhar o teu?

Entre a jogada de ataque e de defesa, o importante é que mantenham sempre o foco no tabuleiro sentindo a peça e o movimento do outro, pois é a partir daí que poderás responder no teu melhor.

Vera Luz



" Joga Xadrez?
Aprendi a jogar em criança, ensinado por um amigo. Ele jogava muito devagar e no seu rosto transparecia sempre uma enorme calma e compenetração perante os desafios que se iam colocando. Tinha tido uma vida bastante dura. O Xadrez ensina a ter paciência. Não há dois jogos iguais. Um jogo pode ser uma experiência satisfatória ou não satisfatória e isso não tem nada a ver com ganhar. Fazer da vitória o único objectivo é tirar das piores das derrotas apenas uma conclusão banal.
É uma noção obtusa considerar um determinado jogo de xadrez apenas por si, e à parte, considerá-lo desligado do passado e do futuro, uma noção egoísta por se pensar que aquele jogo específico é o único que interessa. Só a arrogância pode permitir tal visão das coisas. Aquilo que verdadeiramente importa é a batida e o ritmo, o vaivém repetitivo do jogo após jogo, de modo que a história acumulada possa mostrar a maneira de jogar o próximo jogo e do que é inerente às trinta e duas peças e aos sessenta e quatro quadrados e, acima de tudo, ao tabuleiro.
Há pessoas que julgam que o xadrez é sobretudo um jogo de peças. Mas não, o tabuleiro é a alma de tudo. Começa-se com metade do tabuleiro preenchida pelas peças e uma zona desocupada ao centro e à medida que se progride vão-se revelando os mistérios que encerra.
Mas só jogo após jogo."


Zia Haider Rahman
in, À Luz Do Que Sabemos




 

sábado, 27 de julho de 2019

To be anything else but me


RJ Muna




Today
I gave up
On healing my trauma 
I gave up 
On practicing the skills 
To become whole 
Today I gave up
On evolving 
Into that ever elusive 
Better version of myself 
Today I submitted 
To the wound of love 
I stopped pointing at it 
Looking at it 
Soothing it
Tweaking it 
Fixing it
Finessing it
Hiding it
Polishing it 
I stopped this game of separation
I crawled inside the wound 
And spread it open 
I decided to wear it like a gown 
I accepted my total and utter 
Failure 
To be anything else
But me


~ Maya Luna






Envelhecer





Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer...
Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes.
A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer.
E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice.


Sándor Márai
in, 'As Velas Ardem Até ao Fim'






sexta-feira, 26 de julho de 2019

The More Loving One





Looking up at the stars, I know quite well 
That, for all they care, I can go to hell, 
But on earth indifference is the least 
We have to dread from man or beast. 

How should we like it were stars to burn 
With a passion for us, we could not return? 
If equal affection cannot be, 
Let the more loving one be me. 

Admirer as I think I am 
Of stars that do not give a damn, 
I cannot, now I see them, say 
I missed one terribly all day. 

Were all stars to disappear or die, 
I should learn to look at an empty sky 
And feel its total dark sublime, 
Though this might take me a little time. 


W. H. Auden
in,  Homage to Clio 






Roberta Sá, António Zambujo e Yamandú Costa | "Eu Já Não Sei"

I Don’t Need You To Complete Me





There is no need to try and fill the spaces that exist within my soul.

 I suppose there comes a time when we have to release everything that we thought we ever were what we even thought Love was supposed to be and instead try on our own version for size. But, I suppose the difference is when this occurs we might not even know what that means, except that it probably tastes a lot of like adventure, like the bubbles of champagne sipped at midnight when we’re on the brink of newness.

See, I understand now that I’ve been travelling this path for some time, before I was even married I was on this journey of becoming everything that I was from the moment I first tasted the air of a hazy sunrise in the final moments of dawn; the instant where I stopped being anyone else’s and became my own.

It seems that we are always someone’s; as children we are our parent’s child, we’re someone’s friend, sibling, and then girlfriend, wife…”This is my and then insert into the blank whatever label fits”. But maybe there are those of us that are born that aren’t meant to belong to anyone. We’re free, with our wings hidden under the guise of adolescence and through time we begin to realize that we don’t fit.

Perhaps we might realize we belong to the way the moonlight grazes our bare skin on a summer eve, or maybe we’re made up of all the places we’ve yet to travel but know that we will.

Maybe there are just those of us who don’t need to be completed.

I’m not saying this is the same as a need; because we all have them, in fact we wouldn’t be human if we didn’t. It’s important to meet the physical, mental and spiritual needs of those that we Love and that we share our lives with-but that doesn’t mean that I’ll ever be anyone’s something. Rather I’ll be someone, I’ll be myself, a little bit crazy and an aubergine dream, someone between righteous and defeated, between everything and nothing…that will be me.

There is a fire in my belly that burns with the truth I’ve learned from a thousand lifetimes, and while I hope you might ignite them, pouring kerosene on them until they inspire me to take off in a new direction, that doesn’t meant I want you to complete me.

There is no need for me to forget who I am just so I might remember who you are; there is no need for me to dull myself in order for you to feel better about your own shadow.

There actually is no need for any of it; but that doesn’t mean there isn’t a desire, or perhaps even a hope.

The truth is I have no idea what I am doing. Seems ironic since I suppose I’m always making plans and dreaming bigger than my hands can hold, but that doesn’t mean that I know where any of this will lead. I have a feeling inside my soul that I am on the right track even if it looks nothing like I thought my life ever would, but that intuition and being certain of what I’m doing are two separate things.

See I suppose there was a time when I kidded myself with monotony and expectations but in truth the more I thought I knew the less I actually did and so this time I’m saying that I know nothing. Which perhaps is a uncertain reality because I do know the way the sea feels moving against my skin within the turquoise winds, and I know the way my tears feel when I’m heartbroken versus happy as they slide down the sift skin of my cheek; I know the way it feels to be inspired, to be in contact with God and know I’m fulfilling my purpose and I know the way your lips feel beneath my fingertips and the rhythmic thud of your heart against mine.

But anything else? I have no idea, but that doesn’t mean I’m winging it-it means I’m following my heart even if I have no idea what it’s thinking, or where it’s headed.

See, I need you; I need you to inspire me, to push me, to be a constant within a storm, the shelter that I seek and the Love that holds me down but that doesn’t mean you need to fill my empty parts or to fix anything about me.

My heart is hologram of what you put in, you then get back; so whatever you see, whatever you feel is what has grown from the seeds you yourself has planted, and whether they are blooming, or just starting to push through the fertile ground in expectant buds, whether the garden is full and wild, or just beginning the truth is it’s exactly how it’s supposed to be.

I am exactly how I am supposed to be.

We will change each other, if we didn’t then that would mean we wouldn’t affect one another and inspire growth but nowhere in that does that mean I am lacking already. In fact it’s only because I am so full that I have any to give to you or to this connection that blossom like snowdrops against the unexpected.

Sometimes I forget that I am pieced together with stardust and seawater, sometimes I forget that I’ve spent my life outgrowing normal and so I never do want to have that with you. But I suppose that’s the thing, whatever grows within our shadows will never be normal; whether we wake up to one another each morning, whether we make up a new paradigm of shared time and spaces each having our own home, or whether we meet more frequently in our dreams…we will never be normal, never have normal, simply because we never were to begin with.

So, please don’t complete me, instead ravage me, challenge me, or just simply Love me because the truth is that is the only thing I ever truly needed. 



Kate Rose






segunda-feira, 15 de julho de 2019

Um homem sentado no seu tempo





Está um homem sentado no seu tempo
cismando na mudança e em tantos
outros lógicos inexoráveis topos.
A pele o reveste com estrema cordura
como se manto, resguardando os vincos
de quebranto esparsos pelo corpo dentro.
Tem a mão combatente espalmada
sobre o rosto recoberto de incertezas -
ou é uma pragmática, anfíbia barbatana
tacteando o interior, seu elemento?

Eis uma máquina de produzir sistemas, 
que belo organismo em movimento.
Um engenho que, incessantemente, 
como um fio de baba vai debitando angústia. 
Ah, mas já a porção se completou, 
já ele toma a tesoura dos seus dedos 
e recolhe uma ideia arredondada 
e a acondiciona entre outras mil, 
todas densas, agudas, de morrer. 
O corpo do homem - exígua embalagem. 

Mas a máquina não pára, o fio finamente 
tecido das mais ínvias confissões 
já forma outra ideia, de configuração 
idêntica às restantes, e tão diversa, 
tão matematicamente original. 
Está um homem sentado no seu tempo, 
recebe do século as mais embravecidas 
aflições - e prossegue segregando, 
tão perfeita engrenagem de sofrer, 
sua atlética fronte tão suada. 


A. M. Pires Cabral




LUA CHEIA E ECLIPSE PARCIAL LUNAR





LUA CHEIA E ECLIPSE PARCIAL LUNAR NO GRAU 24 DE CAPRICÓRNIO
16 de Julho de 2019
Eclipses Solares(Lua Nova) no Eixo Caranguejo-Capricórnio de 2018 a 2020
- 13 de Julho de 2018 em Caranguejo
- 2 Julho de 2019 em Caranguejo
- 26 de Dezembro 2019 em Capricórnio
- 21 de Junho de 2020 em Caranguejo
Os Eclipses Lunares, são sempre 15 dias depois dos solares, na Lua Cheia.


Os eclipses funcionam como uma onda, que gira num gradual crescimento entre consciente e inconsciente... SOL e LUA...
O que temos consciência de Nós e o que não temos, esse baú velho onde fomos guardando tudo o que não podíamos mostrar, pela história evolutiva da nossa Alma, pela educação que tivemos e toda a estrutura de valores emocionais, formas de pensar e agir.
Família / Sociedade... Espelhos que fomos nos envolvendo, absorvendo como nossos, no consciente colectivo...

Este 2º Eclipse, é Lunar em capricórnio e por toda a conjuntura de profunda transformação que o momento colectivo de Gaya está a elevar no campo magnético cristalino, devolve-nos uma oportunidade de vivenciarmos, nas emoções, no corpo, na pele, para podermos evoluir dentro das experiências e não nos iludirmos. Embora a ilusão seja uma forma de aprendizado, mas com muita dor, já se foi o tempo do desenvolvimento através do sofrimento.
A proposta é desenvolvermos a visão interna verdadeira... aquela que mais dói sentir e ainda mais, sentir logo a punição.
Só neste movimento, poderemos atravessar cada Crise de evolução... no campo da prática temos as nossas experiências e as oportunidades.

Numa Crise a ser vivenciada em campos de culpa, só haverá medo, controle, ilusões, prepotências, vaidades, tristezas, ressentimentos, mágoas e por fim desistências inconscientes.
Mas se tivermos uma lanterna, uma ferramenta para a visão interna, um foco onde colocar a nossa real intenção dentro das experiências, encontraremos o ponto de equilíbrio dentro do nosso Caos interior e exterior, que cada um poderá estar a vivenciar na sua VIDA.
Essa Lanterna é Aquela voz interior Pura, que não nos condena, mas sim tenta fazer-se ouvir. Esses são os restos mortais de toda a nossa ancestralidade.
A acção é de Amor, Motivação objectiva, ou seja, que a cura destas feridas femininas, aquáticas, uterinas, sejam acolhidas em Amor... renovar as Águas... mais Cristalinas.

Nosso Ser Essência vibra bem Alto na Consciência Superior e isso não conseguimos travar, a dificuldade está em agir, falar com autoridade amorosa, ou seja, sem acusação de nada, mudando as crenças que criavam a impossibilidade de alterar a situação.
O momento é de não conter mais o Genuíno... mas buscar a nossa sabedoria. 
Não senti-la como superior (outra ilusão), não como um sensor de controle (medo), mas como um sensor que nos Guia Dentro. Por fim, ousar dar voz a toda essa autenticidade, expressá-la.

Uma crise vivida nos Planos Superiores, onde a voz mental ouve a Voz Interna, ajuda as pessoas a irem aproximando-se de uma União Maior.

Estes dois eclipses levam-nos numa corrente, onde só o vazio pode estagnar a vontade de ultrapassar os bloqueios para não sentir determinadas emoções... sentimentos estagnados no tempo.
O tempo da proibição acabou, mas para tal deveremos reestruturar e assumir que somos só pequenas sementes.
Não se empoleirem no galinheiro a cantar de alto... desçam e ajudem quem estiver a pedir.
Continuem no aprendizado de receber ensinamentos de Todos. Sempre que alguém se cruza connosco tem algo para Nos conhecermos mais profundamente, ou realinhar a Verdade, sentindo o que evitamos sentir e nos leva a fugir das situações.
Estagnação...
As feridas deverão ser assumidas, sentido-As, mas numa oitava a baixo, para subirem e se alinharem numa oitava a cima...
Cada vez mais suave, embora seja uma energia maternal, a etapa de evolução é de darmos mais força Masculina, Atitude, Assertividade a cada momento e etapa das nossas experiências, aprendendo a não impôr ou a querer ser reconhecido.
SER...
Consciente de tudo o que esteja a ressuscitar nos outros, mas sentindo essa crescente compreensão silenciosa e agir ao Serviço de Todos.
Estão a desmoronar os campos de defesa interna... cada vez o espaço é mais curto... apertado.
Ou encolhemo-nos e refugiamo-nos na ilusão de estar no Plano do Amor... ou entramos em total entrega ao único foco... sentirmo-nos na totalidade, Yin e Yang... integração da Grande Lei Taoista... "O que está em cima é igual ao que está em baixo".

Permitam emergir e ter essa responsabilidade maternal para com o passado, essa compreensão que vai ampliando nova Visão das situações e como estamos totalmente interligados com a sua Criação.
Então, tempo de retornar dentro...
Para elevar a emoção a um estado puro de reconhecimento em Amor, temos que sentir onde estamos desconectados e a bloquear a expansão do nosso ser e da nossa vida.
Assim nascerão as correctas relações Humanas.

Pensemos menos, e sintamos mais.


Ruth Fairfield




Atravesso esses campos outra vez
E sabes, desta vez tenho algo a menos na bagagem
Menos pessoas, menos dramas, menos medos e menos culpas
Trago até menos sonhos, menos objectivos, menos ambições
Trago menos e tudo o que de menos trago é muito mais
Trago o coração de um guerreiro que perdeu muitas vezes
E mais do que aprender a ganhar
Esse guerreiro prefere aprender a caminhar
Como aquele que nasce no útero de um eclipse
E se contempla como aquele que sempre esteve lá
Reprimido, oprimido, por trás dos medos e das culpas escondido
Agora revelado, aprendendo a amar-se de novo
Na sombra da lua que a ocidente cresce
E na luz do sol que a oriente clama
Para que o coração do guerreiro
Seja apenas um coração que Ama!!!


Ricardo Moutinho






sábado, 13 de julho de 2019

Pecado Original





Sim, Mãe! sim, quanta vez te vi chorar..., 
Sem desistir de te fazer sofrer! 
Gozava então nem sei que atroz prazer 
De te arranhar no peito... e me arranhar. 

Mas quis lutar comigo, Mãe! lutar 
Contra esse monstro obscuro do meu ser. 
Que sonho, Mãe!: ter-me eu em meu poder, 
Talhar-me bom, feliz, simples, vulgar... 

Mãe! com que força eu vi que era impotente! 
... Porque de bem mais longe e bem mais fundo 
A culpa do meu ser a nós dois veio. 

Perdoemos um ao outro, humildemente: 
Eu, Mãe! — ter-me o teu seio dado ao mundo; 
Tu, — ter-me eu feito vida no teu seio. 


José Régio
in, 'Antologia Poética'




Evitar entrar em discussões sem serventia


Laura Zalenga



Não há quem não sinta dificuldade em conversar sobre assuntos vários, sem que seja contrariado de forma agressiva ou sarcástica. Isso tanto em rodas de amigos quanto nas redes sociais. Muitas pessoas querem defender suas opiniões a qualquer custo, qualquer mesmo, não se importando minimamente com os sentimentos alheios, ou com a fundamentação que utilizam para sustentar o que pregam.

Opinar sobre determinadas questões requer um conhecimento mínimo do assunto. O setor educacional, por exemplo, é bombardeado por recomendações e críticas de pessoas que nunca leram um texto pedagógico na vida. Lembremos o que recentes questionamentos à necessidade de vacinação provocaram, entre muitos outros exemplos de intromissão desnecessária em questões importantes. Opiniões leigas são admissíveis em conversas de botequim; na vida real e prática, podem ser um perigo.

Além disso, é preciso ter a consciência de que, quando se emitem pontos de vista, eles nunca terão unanimidade e, por isso mesmo, encontrarão discordâncias pelo caminho. A discordância é saudável, afinal, quando conhecemos outros lados, outras visões de mundo, poderemos ampliar e melhorar ainda mais nosso entendimento, reelaborando o que sentimos e como sentimos a vida. É no confronto que crescemos, deixando de lado o que não serve e abraçando o novo, o mais coerente.

No entanto, mesmo que seja difícil haver discussões sem alguma manifestação mais efusiva, pois o calor das emoções se eleva muito nessas horas, o respeito, sobretudo, deverá permanecer. Não podemos levar para o lado pessoal questões que tratam de assuntos lá de fora, tampouco deveremos nos sentir ofendidos por discordarem de nós. A forma como reagimos quando somos contrariados e a forma como o outro reage quando discorda de nós revelam a educação – e, muitas vezes, o carácter – de ambas as partes.

Cabe-nos, enfim, evitar entrar em discussões sem serventia, com pessoas que não ouvem ninguém além de si próprias. Nosso tempo é precioso demais para gastá-lo com o que não acrescenta, não enriquece, não leva a lugar algum. Tempo não se acha no lixo. Portanto, não existem assuntos que não podem ser discutidos, mas existem pessoas com quem não devemos discutir. Jamais.


Marcel Camargo









Fibonacci spiral


Josh Tom



Fibonacci spiral: the geometry of compression (gravity) and expansion (electro-magnetism), the two primary forces in the universe... (the "strong force" is actually quantum gravity).




sexta-feira, 12 de julho de 2019

Meu Amigo





Meu Amigo, não sou o que pareço. 
O que pareço é apenas uma vestimenta cuidadosamente tecida, 
que me protege de tuas perguntas 
e te protege da minha negligência.

            Meu Amigo, o Eu em mim mora na casa do silêncio, 
e lá dentro permanecerá para sempre, 
despercebido, inalcançável.

            Não queria que acreditasses no que digo 
nem confiasses no que faço – pois minhas palavras 
são teus próprios pensamentos em articulação e meus feitos, 
tuas próprias esperanças em ação.

            Quando dizes: “O vento sopra do leste”, 
eu digo: “Sim, sopra mesmo do leste”, 
pois não queria que soubesses 
que minha mente não mora no vento, mas no mar.

            Não podes compreender meus pensamentos, 
filhos do mar, nem eu gostaria que compreendesses. 
Gostaria de estar sozinho no mar.

            Quando é dia contigo, meu Amigo, é noite comigo. 
Contudo, mesmo assim falo do meio-dia 
que dança sobre os montes e da sombra de púrpura 
que se insinua através do vale: porque não podes ouvir 
as canções de minhas trevas 
nem ver minhas asas batendo 
contra as estrelas – e eu prefiro que não ouças nem vejas. 
Gostaria de ficar a sós com a noite.

            Quando ascendes a teu Céu, 
eu desço ao meu Inferno – mesmo então 
chamas-me através do abismo intransponível, 
“Meu Amigo, Meu Companheiro, Meu Camarada”, 
e eu te respondo: 
“Meu Amigo, Meu Companheiro, Meu Camarada” – porque 
não gostaria que visses meu Inferno. 
A chama queimaria teus olhos, 
e a fumaça encheria tuas narinas. 
E amo demais meu Inferno para querer que o visites. 
Prefiro ficar sozinho no Inferno.

            Amas a Verdade, e a Beleza, e a Retidão. 
E eu, por tua causa, 
digo que é bom e decente amar essas coisas. 
Mas, no meu coração rio-me de teu amor. 
Mas não gostaria que visses meu riso. 
Gostaria de rir sozinho.

            Meu Amigo, tu és bom e cauteloso e sábio. 
Tu és perfeito – e eu também, falo contigo sábia e cautelosamente. 
E, entretanto, sou louco. 
Porém mascaro minha loucura. 
Prefiro ser louco sozinho:

            Meu Amigo, tu não és meu Amigo, 
mas como te farei compreender? 
Meu caminho não é o teu caminho. 
Contudo juntos marchamos, 
de mãos dadas.



Khalil Gibran
in, O Louco



............................... começa no plano psíquico





O ser humano está tão obnubilado pela sua aparência exterior de homem ou de mulher que se esquece de que no alto, no plano divino, possui os dois princípios, masculino e feminino. 
Mas é preciso compreender que este “alto” não se situa a anos-luz.
No alto é também nele, é a sua parte superior.
A Iniciação é um processo psíquico no termo do qual o ser humano é capaz de se fundir com a parte complementar do seu ser. Por isso ele não sente qualquer falta, nunca se sente só. 
Não são os laços carnais que fazem com que um homem ou uma mulher se sinta menos só. 
Muitos vos dirão isso! 
Eles viveram múltiplos relacionamentos, múltiplos encontros, múltiplas experiências, mas, interiormente, vivem na solidão, no deserto.
Sim, porque é em si mesmo, no plano psíquico, no plano espiritual, que certos encontros devem começar por acontecer.
Só se encontra em baixo aquilo que primeiro se realizou em cima, no alto. 

Omraam Mikhaël Aïvanhov




Há tantas pessoas que se ligam, imprudentemente, a homens e mulheres que as afastam do mundo espiritual! Ao seu lado, elas esquecem-se de orar, de meditar, de estudar, e até perdem as suas qualidades.

Com o pretexto de que os amam, deixam-se influenciar, nem sequer se apercebem de que, em breve, serão precipitadas no abismo. Não têm nenhum discernimento, nenhum critério.

Evidentemente, eu não tenho nada contra as associações, as amizades, o amor e o casamento, mas devo prevenir-vos: não deveis contrair laços com alguém que não vos aproxima do Divino, que não vos ilumina, não vos purifica, não vos enobrece...

Esquecer essa Nascente de amor, na qual se pode saciar a sede dia e noite, para ir beber em pequenos pântanos, em poças de água, na esperança de que se ficará preenchido, maravilhado, não é razoável!

Podeis e deveis amar todas as criaturas, mas tende atenção para só vos deixardes influenciar por aquelas que são capazes de vos ligar à Nascente Divina.

Omraam Mikhaël Aïvanhov





quinta-feira, 11 de julho de 2019

MULHERES QUE AMAM DE MENOS





Eu quero dar meu depoimento. Creio ter um problema. Se mulheres que amam demais são aquelas que sufocam seus parceiros, que não confiam neles, que investigam cada passo que eles dão e que não conseguem pensar em mais nada a não ser em fantasiosas traições, então eu preciso admitir: sou uma mulher que ama de menos.

Eu nunca abri a caixa de mensagens do celular do meu marido.

Eu nunca abri um papel que estivesse em sua carteira.

Eu nunca fico irritada se uma colega de trabalho telefona para ele.

Eu não escuto a conversa dele na extensão.

Eu não controlo o tanque de gasolina do carro dele para saber se ele andou muito ou pouco.

Eu não me importo quando ele acha outra mulher bonita, desde que ela seja realmente bonita. Se não for, é porque ele tem mau gosto.

Eu não me sinto insegura se ele não me faz declarações de amor a toda hora.

Eu não azucrino a vida dele.

Segundo o que tenho visto por aí, meu diagnóstico é lamentável: eu o amo pouco. Será?

Obsessão e descontrole são doenças sérias e merecem respeito e tratamento, mas batizar isso de "amar demais" é uma romantização e um desserviço às mulheres e aos homens. Fica implícito que amar tem medida, que amar tem limite, quando na verdade amar nunca é demais. O que existe são mulheres e homens que têm baixa autoestima, que tem níveis exagerados de insegurança e que não sabem a diferença entre amor e possessão. E têm aqueles que são apenas ciumentos e desconfiados, tornando-se chatos demais.

Mas se todo mundo concorda que uma patologia pode ser batizada de "amor demais", então eu vou fundar As Mulheres que Amam de Menos, porque, pelo visto, quem é calma, quem não invade a privacidade do outro, e quem confia na pessoa que escolheu para viver, também está doente.



Martha Medeiros


Aqui Mereço-te





O sabor do pão e da terra 
e uma luva de orvalho na mão ligeira. 
A flor fresca que respiro é branca. 
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas. 
Pertenço em cada movimento a esta terra. 
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras. 
Sorvo o silêncio visivel entre as árvores. 
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono. 
Sob as pálpebras transparentes deste dia 
o ar é o suspiro dos próprios lábios. 
Amar aqui é amar no mar, 
mas com a resistência das paredes da terra. 

A mão flui liberta tão livre como o olhar. 
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio 
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas, 
ao fogo esparso que alastra ao horizonte. 
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada. 
Tudo o que eu disser são os lábios da terra, 
o leve martelar das línguas de água, 
as feridas da seiva, o estalar das crostas, 
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra, 
o incessante alimento que percorre o meu corpo. 
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio 
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais, 
os alimentos puros, 
as espessas e nutritivas paredes do sono, 
o teu corpo com todo o vagar da sua massa, 
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar. 

Ao flexível volante trabalhado pelas seivas 
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte. 

Uma saúde nova vai nascer destes ombros. 
A lâmpada respira ao ritmo da terra. 
Sei os caminhos da água pelas veredas, 
as mãos das ervas finas embriagadas de ar, 
o silêncio donde se ergue a torre do canto. 

Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te. 

É este o reino de insectos e de jogos, 
das carícias que sabem a uma sede feliz. 
Aqui entre o poço e o muro, 
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo: 
uma infância inextinguível se alimenta 
de uma fábula que renasce em todas as idades. 
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar 
com seu brilho sedoso de erva fina 
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte. 
É aqui o eterno recanto onde a água diz 
a pura praia da infância. 
Aqui bebe e bebe longamente 
o hálito da tristeza no silêncio da vida, 
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce, 
da fundura do tempo, da lonjura permanente, 
aqui, bom dia, minha filha. 


António Ramos Rosa
in, 'A Construção do Corpo' 





Estas Tonne. Cappadocia Dust (2019)

terça-feira, 9 de julho de 2019

Corpo Ligeiro Desenhado





Talvez a linha se acenda e continue 
ondeando a página e sendo nós só a margem 
de um domínio onde fulge a inocência, 
talvez se revele a transparência inicial 
em que a luz de estar a ver seja a palavra mesma. 

Vêm figuras que se espraiam e crescem 
até serem apenas ondulada memória. 
Adensam-se outros corpos e enterram-se no fogo. 
As linhas enovelam-se num delírio exacto. 
A alegria ilumina penumbras de volumes. 

Em tensos membros lúcidos e redondos 
move-se o desenhado corpo ligeiro 
e lento. Aumenta a densidade até ao centro 
de um deus que diz o esplendor silencioso. 
Ou só o ar ondeia num planalto de vento. 


António Ramos Rosa