"De dia, distraído, sonho.
Sob teu peito deixo cair as minhas mãos.
Por entre madeixas de cabelo moreno encontro os fins rosados dos teus seios frios.
Beijo-os em círculos de saliva e dentes.
Em mais ninguém encontro a projecção de um amor tão sem princípio e tão sem fim.
O meu ímpeto carnal só se versa em náusea romântica, impecável, na ideia de te possuir.
De dia, distraído, sonho.
Lavro o teu peito na ponta das minhas unhas.
Sinto-te tremer na ponta da minha língua.
Entrincheiro-me no teu calor húmido.
Provo o sabor ganho dos meus próprios dedos.
Se a minha expressão parece imperturbável e austera, nas minhas ideias percorro o teu corpo sem me cansar, redobra-se o fôlego e sinto golfadas de sangue onde quero que demores a tua boca. Ferrar os caninos gentilmente na tua coxa, rasgar-te as costas num golpe.
De dia, distraído, sonho.
Sonho conseguir envolver-te toda em mim, só na largura das minhas mãos e no alcance dos meus braços, preencher-te sem margens, sentir, nos meus extremos, as fronteiras que nos separam.
E quebrá-las.
Entrar por ti adentro e afundar-me.
Quebrar-te.
E repeti-lo assim que acordemos.
De dia, distraído, sonho."
...Andavam pela casa amando-se no chão e contra as paredes.
Respiravam exaustos como se tivessem nascido da terra,de dentro das sementeiras.
Beijavam-se magoados até se magoarem mais.
Um no outro eram prisioneiros um do outro e livres libertavam-se para a vida e para o amor.
Vivendo a própria morte voltavam a andar pela casa amando-se no chão e contra as paredes.
Então era música, como se cada corpo atravessasse o outro corpo e recebesse dele nova presença, agora serena e mais pobre mas avidamente rica por essa pobreza.
A nudez corria-lhes pelas mãos e chegava aonde tudo é branco e firme.
Aquele fogo de carne era a carne do amor,era o fogo do amor,o fogo de arder amando-se e por toda a casa,contra as paredes,no chão.
Se mais não pressentissem bastaria aquela linguagem de falar tocando-se como dormem as aves.
E os olhos gastos por amor de olhar,por olhar o amor.
E no chão contra as paredes se amaram e pela casa andavam como se dentro das sementeiras respirassem.
Prisioneiros libertados, um no outro eram livres e para a vida e para o amor se beijaram magoando-se mais, até ficarem magoados.
E uma presença rica,agora nova e mais serena,avidamente recebeu a música que atravessou de um corpo a outro corpo chegando às mãos onde toda a nudez é branca e firme.
Com uma carne de fogo,incarnando o amor,incarnando o fogo,contra o chão das paredes se amaram pressentindo que andando pela casa bastaria tocarem-se para ficarem dormindo como acordam as aves...
"Primeiro a tua língua molha o meu coração,
num vagar de fera.
Estendo aurículas e ventrículos sobre a mesa,
entre os copos que desaparecem.
Não há mais ninguém no bar cheio de gente.
Abres-me agora os pulmões, um para cada lado, e sopras.
Respiras-me.
O laser das tuas palavras
rasga-me o lobo frontal do cérebro.
A tua boca abre-se e fecha-se,
fecha-se e abre-se,
avançando por dentro da minha cabeça.
As minhas cidades ruem como rios,
correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempo estilhaça-se
no fogo preso das nossas retinas.
O empregado do bar retira da mesa o nosso passado
e arruma-o na vitrina,
ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro,
abrindo e fechando as pernas das palavras,
estremecendo no suor dos olhos abraçados,
fazendo sexo
com a lava incandescente
dessa revolução imprevista a que damos o nome de amor."
"Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo ... num poço de sentidos
Quem és tu,promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas sob o frio de fevereiro?
O amor ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projetou os teus olhos no meu céu e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome ... essa última fala da última estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração. "
E como hoje é o dia do AMOR e da AMIZADE,
lembrei-me deste texto que tinha aqui guardado...
Adoro a música "Amor e Sexo" da Rita Lee e, no ano passado encontrei este texto do Arnaldo Jabor, que amei ler e partilho aqui hoje com vocês:
O AMOR DEIXA MUITO A DESEJAR
A Rita Lee fez uma música com a letra tirada de um artigo que escrevi, sobre amor e sexo.
A música é linda, estou emocionado, não mereço tão subida honra, quem sou eu, quase enxuguei uma furtiva lágrima com minha "gélida manina" por estar num disco, girando na vitrola sem parar com Rita, aquela hippie florida com consciência crítica, aquela hippie paródica, aquela mulher divinamente dividida, de noiva mutante ou de cartola e cabelo vermelho que, em 67, acabou com a caretice de Sampa e de suas lindas "minas" pálidas.
A música veio mesmo a calhar, pois ando com uma fome de arte, ando com saudade da beleza, ando com saudade de tudo, saudade de alguma delicadeza, paz, pois já não agüento mais ser apenas uma esponja absorvendo e comentando os bodes pretos que os políticos produzem no Brasil e o Bush lá fora. Ando meio desesperançado, mas essa canção de Rita trouxe de volta a minha mais antiga lembrança de amor. Isso mesmo: a canção me trouxe uma cena que, há mais de 50 anos, me volta sempre. Sempre achei que esse primeiro momento foi tão tênue, tão fugaz que não merecia narração. Mas, vou tentar.
Eu devia ter uns 6 anos, no máximo. Foi meu primeiro dia de aula no colégio, lá no Meier, onde minha mãe me levou, pela Rua 24 de Maio, coberta de folhas de mangueira que o vento derrubava. Fiquei sozinho, desamparado, sem pai nem mãe no colégio desconhecido. No pátio do recreio, crianças corriam. Uma bola de borracha voou em minha direção e bateu em meu peito. Olhei e vi uma menina morena, de tranças, com olhos negros, bem perto, me pedindo a bola e, nesse segundo, eu me apaixonei. Lembro-me de que seu queixo tinha um pequeno machucado, como um arranhão com mercúrio-cromo, lembro-me que ela tinha um nariz arrebitado, insolente e que, num lampejo, eu senti um tremor desconhecido, logo interrompido pelo jogo, pela bola que eu devolvi, pelos gritos e correria do recreio. Ela deve ter me olhado no fundo dos olhos por uns três segundos mas, até hoje, eu me lembro exatamente de sua expressão afogueada e vi que ela sentira também algum sinal no corpo, alguma informação do seu destino sexual de fêmea, alguma manifestação da matéria, alguma mensagem do DNA. Recordando minha impressão de menino, tenho certeza de que nossos olhos viram a mesma coisa, um no outro. Senti que eu fazia parte de um magnetismo da natureza que me envolvia, que envolvia a menina, que alguma coisa vibrava entre nós e senti que eu tinha um destino ligado àquele tipo de ser, gente que usava trança, que ria com dentes brancos e lábios vermelhos, que era diferente de mim e entendi vagamente que, sem aquela diferença, eu não me completaria. Ela voltou correndo para o jogo, vi suas pernas correndo e ela se virando com uma última olhada.
Misteriosamente, nunca mais a encontrei naquela escola. Lembro-me que me lembrei dela quando vi aquele filme Love Story, não pelo medíocre filme, mas pelo rosto de Ali McGraw, que era exatamente o rosto que vivia na minha memória. Recordo também, com estranheza, que meu sentimento infantil foi de "impossibilidade"; aquele rosto me pareceu maravilhoso e impossível de ser atingido inteiramente, foi um instante mágico ao mesmo tempo de descoberta e de perda. Escrevendo agora, percebo que aquela sensação de profundo "sentido" que tive aos 6 anos pode ter marcado minha maneira de ser e de amar pelos tempos que viriam. Senti a presença de algo belíssimo e inapreensível que, hoje, velho de guerra, arrisco dizer que talvez seja essa a marca do amor: ser impossível. Calma, pessoal, claro que o amor existe, nem eu sou um masoquista de livro, mas a marca do sublime, o momento em que o impossível parece possível, quando o impalpável fica compreensível, esse instante se repetiu no futuro por minha vida, levando-me para um trem-fantasma de alegrias e dores.
Amar é parecido com sofrer - Luís Melodia escreveu, não foi? Machado de Assis toca nisso na súbita consciência do amor entre Bentinho e Capitu:
"Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca."
Isso: felicidade e medo, a sensação de tocar por instantes um mistério sempre movente, como um fotograma que pára por um instante e logo se move na continuação do filme. Sempre senti isso em cada visão de mulheres que amei: um rosto se erguendo da areia da praia, uma mulher fingindo não me ver, mas vendo-me de costas num escritório do Rio... São momentos em que a "máquina da vida" parece se explicar, como se fosse uma lembrança do futuro, como se eu me lembrasse ali, do que iria viver.
Esses frêmitos de amor acontecem quando o "eu" cessa, por brevíssimos instantes, e deixamos o outro ser o que é em sua total solidão. Vemos um gesto frágil, um cabelo molhado, um rosto dormindo, e isso desperta em nós uma espécie de "compaixão" pelo nosso próprio desamparo, entrevisto no outro.
A cultura americana está criando um "desencantamento" insuportável na vida social. Vejam a arte tratada como algo desnecessário, sem lugar, vejam as mulheres nuas amontoadas na internet. Andamos com fome de beleza em tudo, na vida, na política, no sexo; por isso, o amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver. Todas essas tênues considerações, essas lembranças de lembranças, essa tentativa de capturar lampejos tão antigos, com risco de ser piegas, tudo isso me veio à cabeça pela emoção de me ver subitamente numa música, parceiro de Rita Lee, "lovely Rita", a mais completa tradução de São Paulo, essa cidade cheia de famintos de amor.