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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Soneto à luz de velas





Velas iluminavam o ambiente
E nossos olhos brilhavam
Diante nossos corpos nus e incandescentes
Impressão que as chamas davam

Começamos um jogo de exploração
Mãos percorrendo dorso
Causando inebriante sensação
Trazendo à mente um novo universo

Olhos ardendo em desejo
Bocas entre-abertas…
Meu corpo em seus braços despejo

Rolamos pelas cobertas
Pelo mundo temos desprezo,
Pois nossas almas somente para o nosso amor estão abertas…



Simone Barbariz





terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Um no Outro





Desejo
A visão do teu corpo lânguido
Deitado sobre o leito do quarto

Vislumbro nas sombras
Que se projectam na penumbra
O erotismo de dois corpos
Que se compreendem,
Ansiando o momento do abandono
Ás linguagens idiossincráticas
Da natureza metafísica e intemporal
Do desejo.

Lábios tumescidos e ardentes
Aspiram a tez láctea que reveste
Quem és.

Cabelo seríceo cai
Sobre os teus ombros
Afagando docemente
O rosto de menina carente
Onde se ante-vê a malícia da
Feminilidade felina de um olhar.

O contorno delicadadamente decalcado
Dos teus seios
Onde me perco
Rumo à Origem do Mundo,
Onde experiencias a plétora sensorial.

E no fim,
O cheiro do teu corpo depois do amor
Enfim, eu em ti, tu em mim,
Um no outro.


Rui Amaral Mendes 






sábado, 17 de junho de 2017

Encontro





Quisera fosse um suspiro 
que me seduzisse 
inteira. 

Algo sussurrado 
aos ouvidos 
que me fizesse 
prisioneira. 

Quisera mãos 
me afagassem 
a procura do outro 
ser que há em 
mim: 
pele, pêlos, penugem, 
a tua boca 
na minha boca 
a tua língua a deslizar 
como uma serpente 
entre meus dentes. 

Suor, a transpirar 
pelos poros, 
pernas a entrelaçar 
meu corpo, 
olhos entreabertos. 

Narinas aguçadas 
a captar odores 
daqueles seres que 
se abraçam 
daquele monte de carne, 
objeto tridimensional 
esculturas móveis 
sal e beleza 
e a sensualidade, 
geografia obscena. 

Obscenas também 
nossas cabeças 
que vão da fantasia 
transformando 
signos em matérias, 
palavras soltas, 
desejos que irrompem, 
murmúrios, 
lambidos. 

Um grito transborda. 

O infinito...


Angela Schaun




domingo, 28 de maio de 2017

O Sexo e a Idade II


Picasso



Pus-vos a mão um dia sem saber
que tão robusta e certa artilharia
iria pelos anos fora ser
sinal também de lêveda alegria

amigos meus colhões quanto prazer
veio até mim em vossa companhia
a hora que tiver já de morrer
morra feliz por tanta cortesia

adeus irmãos é tempo de ceder
à dura lei que manda arrefecer
o fogo leviano em que eu ardia

camaradas leais do bem foder
o brio a fleuma cumpre agradecer
sem vós teria sido uma agonia



Fernando Assis Pacheco 
in, Respiração Assistida




sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

......................fecha os olhos



"fecha os olhos, chega-te a mim 
quero segurar a tua cabeça nas minhas mãos
quero acariciar a tua face com os meus dedos
quero tocar-te com os meus lábios 
vou beijar as tuas pálpebras, suavemente 
vou descer, na ponta do nariz repousar
enquanto te sinto respirar 
ansioso que eu desça ainda mais
depois, 
na tua boca arfante, entreaberta
vou ficar
na tua língua vou morar"



sexta-feira, 20 de março de 2015

De dia, distraído, sonho



"De dia, distraído, sonho.
Sob teu peito deixo cair as minhas mãos.
Por entre madeixas de cabelo moreno encontro os fins rosados dos teus seios frios.
Beijo-os em círculos de saliva e dentes.
Em mais ninguém encontro a projecção de um amor tão sem princípio e tão sem fim.
O meu ímpeto carnal só se versa em náusea romântica, impecável, na ideia de te possuir.
De dia, distraído, sonho.
Lavro o teu peito na ponta das minhas unhas.
Sinto-te tremer na ponta da minha língua.
Entrincheiro-me no teu calor húmido.
Provo o sabor ganho dos meus próprios dedos.
Se a minha expressão parece imperturbável e austera, nas minhas ideias percorro o teu corpo sem me cansar, redobra-se o fôlego e sinto golfadas de sangue onde quero que demores a tua boca. Ferrar os caninos gentilmente na tua coxa, rasgar-te as costas num golpe.
De dia, distraído, sonho.
Sonho conseguir envolver-te toda em mim, só na largura das minhas mãos e no alcance dos meus braços, preencher-te sem margens, sentir, nos meus extremos, as fronteiras que nos separam.
E quebrá-las.
Entrar por ti adentro e afundar-me.
Quebrar-te.
E repeti-lo assim que acordemos.
De dia, distraído, sonho."



quinta-feira, 26 de junho de 2014

Inventa uma parede



"Inventa uma parede
onde possas encostar-me o corpo
pressionado pelo teu.
Uma parede de textura suave.
Uma parede única,
onde nos encontremos.
Inventa uma parede para o amor."

Silvia Chueire

segunda-feira, 23 de junho de 2014

contra o chão das paredes




...Andavam pela casa amando-se no chão e contra as paredes.
Respiravam exaustos como se tivessem nascido da terra,de dentro das sementeiras.
Beijavam-se magoados até se magoarem mais.
Um no outro eram prisioneiros um do outro e livres libertavam-se para a vida e para o amor.
Vivendo a própria morte voltavam a andar pela casa amando-se no chão e contra as paredes.
Então era música, como se cada corpo atravessasse o outro corpo e recebesse dele nova presença, agora serena e mais pobre mas avidamente rica por essa pobreza.
A nudez corria-lhes pelas mãos e chegava aonde tudo é branco e firme.
Aquele fogo de carne era a carne do amor,era o fogo do amor,o fogo de arder amando-se e por toda a casa,contra as paredes,no chão.
Se mais não pressentissem bastaria aquela linguagem de falar tocando-se como dormem as aves.
E os olhos gastos por amor de olhar,por olhar o amor.
E no chão contra as paredes se amaram e pela casa andavam como se dentro das sementeiras respirassem.
Prisioneiros libertados, um no outro eram livres e para a vida e para o amor se beijaram magoando-se mais, até ficarem magoados.
E uma presença rica,agora nova e mais serena,avidamente recebeu a música que atravessou de um corpo a outro corpo chegando às mãos onde toda a nudez é branca e firme.
Com uma carne de fogo,incarnando o amor,incarnando o fogo,contra o chão das paredes se amaram pressentindo que andando pela casa bastaria tocarem-se para ficarem dormindo como acordam as aves...

Joaquim Pessoa

segunda-feira, 2 de junho de 2014

...........não quero esperar



"dispo os preconceitos. 
deixo a vergonha. 
dispo-me para ti. 
passo as mãos no teu corpo. 
roço-me em ti devagar. 
as minhas pernas no meio das tuas. 
o meu joelho algures por aí. 
sinto o teu desejo. 
mostro-te a minha vontade. 
dispo-te com pressa. 
não posso esperar. 
não quero esperar. 
recebo os teus beijos. 
como-te a boca. 
saboreio os teus lábios. 
detenho-me nos teus mamilos. 
tomo-te agora com as duas mãos. 
acaricio-te. 
sinto-te pronto. 
tão pronto. 
a latejar para mim. 
poderoso. 
ignoro o calor. 
tremo e não de frio. 
é imenso o prazer que me invade. 
uma sensação tão boa. 
quero-te. 
desejo-te cada vez mais. 
não posso mesmo esperar. 
suplico-te que não demores. 
anda. 
entra em mim. 
és tu que controlas. 
dizes ainda não. 
provoco-te mais. 
desço lentamente e uso o teu corpo. 
controlo eu. és meu. 
cada pedaço que me ofereces é pouco. 
quero mais. 
faço de ti o que quero. 
cedes à minha vontade. 
primeiro devagar. 
deixando que o meu corpo te receba e se acomode ao teu. 
depois avidamente enquanto te absorvo e tu me usas. 
devoras-me sem controlo. 
e excitas-me a teu belo prazer. 
uma e outra vez. 
muitas vezes. 
sem parar. 
já não te controlo. 
já não me controlo. 
era isto que querias? 
diz-me. 
não digo o que queres. 
digo não pares. 
é uma ordem ouviste. 
abrandas. 
paras. 
no teu olhar leio os sinais que o teu corpo não diz. 
aprecio a tua forma única de me teres. 
oiço-te as palavras sussurradas 
e deixo-me embalar pelo compasso do teu corpo 
e pelo ritmo que tu ditas.

nada resta. 
nem tempo. 
nem espaço. 
nem vida lá fora. ~
só nós e esta tesão deliciosa. 
fode-me."

AC

domingo, 25 de maio de 2014

Pulsar


Veste a tua pele de cordeiro
e seduz-me com a tua candura,
com o teu olhar de abandono
que sossega no meu colo,
a tua pose dissimulada de uma fraqueza ingénua
comprada numa casa de penhores.

Quero sentir a tua pele,
envolver-te nos meus braços,
beijar o teu pescoço,
deliciosamente morder-te a rigidez
dos teus seios.

E enquanto te invado o ventre
com os meus dedos esguios
carregados de saliva
vou fixar-me no teu pulsar,
no bater acelerado do coração que
bombeia esse sangue que me aquece.

Quero que te percas na minha nudez,
tomes posse do meu corpo e abuses
do meu desejo.

Faz de mim a tua sela e cavalga
sem me dares tréguas,
afunda-te como um navio sem rumo
na bravura do meu mastro real,
emparelhando gemidos entre
o sémen que desliza pelo
sal das tuas pernas.

Dá-me na boca o teu fruto maldito,
o poder de um descruzar de pernas
hipnotizando os meus lábios,
o respirar ofegante que exaltas
sob um grito de prazer que
emolduro no meu quarto,
a verdade do teu sorriso
cravado na palidez do teu rosto,
espelhado na minha retina.

Dá-me esse momento de volta
e renunciarei a mim próprio,
serei apenas adereço na tua peça
em dois actos,
que começará em romance
e terminará em tragédia.


Pedro Lima

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

sublime sedução


Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. 
Treinar-se a respirar
Florescentemente. 
Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. 
Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. 
Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. 
Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. 
Ficar na dureza
Firme. 
Conter. 
Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. 
Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.

Maria Gabriela Llansol

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Podia ser aí



Podia ser aí. Contigo. Com o teu corpo
ainda nu, ou vestido da luz que entra pelas
persianas velhas, trazendo a tremura
das folhas na trepadeira do quintal.

Podia ser de manhã, ou de madrugada,
sabendo que teria de te abraçar para que não
desses pelo frio, com o quarto ainda
húmido da noite, num fim de outono.

Podia não ter sido nunca, se não fossem
assim as coisas: a tua mão ao encontro da
minha, no tampo da mesa, como se fosse
aí que tudo se jogasse, entre duas mãos.



Nuno Júdice




domingo, 9 de fevereiro de 2014

O PODER DA IMAGINAÇÃO NO SEXO



"Primeiro a tua língua molha o meu coração, num vagar de fera.
Estendo aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre os copos que desaparecem.
Não há mais ninguém no bar cheio de gente. 
Abres-me agora os pulmões, um para cada lado, e sopras.
Respiras-me.
O laser das tuas palavras rasga-me o lobo frontal do cérebro.
A tua boca abre-se e fecha-se, fecha-se e abre-se, avançando por dentro da minha cabeça.
As minhas cidades ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo preso das nossas retinas.
O empregado do bar retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrina, ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro, abrindo e fechando as pernas das palavras, estremecendo no suor dos olhos abraçados, fazendo sexo com a lava incandescente dessa revolução imprevista a que damos o nome de amor."

Inês Pedrosa

sábado, 30 de novembro de 2013

Silabas ternurentas


Existem bocas suculentas
Lábios sedentos, atrevidos e delirantes
Línguas loucas que se enrolam e movem, lentas
Beijos carregados de saliva, quentes e palpitantes

Vozes interiores que cantam, gritam e tragam!

Existem roupas quentes
Vincadas e caídas...que se alagam.

Afagos, recurvados e impulsos
Realidades desfolhadas e permitidas
Sensibilidades nas articulações dos meus dedos e pulsos
Ardores visíveis e perfumados nas minhas garras oferecidas

Existem movimentos de rotação audazes
Salpicos de paixão, suados e quentes
Devaneios em vértice perspicazes
Que se vestem e abrigam sentindo-se carentes 


Sensações que se arqueiam, insaciáveis e interessantes
Aliciantes se descontrolam e elevam…
Melodias cadenciadas que se ouvem, distantes.

Existem ventres que se contraem
Que se enleiam e entram em convulsões no momento
Paisagens infinitas que se constroem
E rios de silabas que rompem em sedução no pensamento.


Telma Estêvão

sábado, 26 de outubro de 2013

EROTICAMENTE TUA…


Acende-se-me a volúpia
num pedaço de conversa,
fruto da mente perversa
e de muitos afectos,
quando os gostos predilectos se juntam.
Mata a vontade, da tua pele
incandescente, na minha!
Lambe-me a palma da mão, de mansinho,
com o olhar cravado no meu,
deliciosa, e provocadoramente sorrindo,
promessa, de tudo o que terei a seguir,
E… Irei contigo? Oh, sim irei, 
sem o encarar, um castigo
mas castigando-me a preceito,
já as tuas mãos o meu peito
se contentam. As nossas línguas se provam,
e as minhas defesas, capitulam
quando nas minhas pernas abertas,
inicias as descobertas, 
dum mundo, em que amiúde mergulhamos, 
quanto tão impregnados, um no outro ficamos
que a definição de amor reinventamos,
e não sei já quem és tu, ou sou eu. 

Maria Fátima Soares

terça-feira, 27 de agosto de 2013

.........imaginação


"antes de chegar ao corpo
o prazer passa pela mente
é a arma da imaginação
é o viver de uma fantasia 

sei que gostas de me ver
com as vestes do desejo
gostas que te provoque 
com os gestos que te mostro
o teu corpo reage
e o meu deseja
e o teu desejo
o meu prazer aumenta
mesmo sem nos termos
mesmo sem nos tocarmos 
o teu orgasmo chega
e no meu deságua"

Helena Fonseca

quarta-feira, 10 de julho de 2013

EM PRECE MUDA


no teu corpo
entranha-se a vontade
que se escapa dos meus lábios sequiosos

enquanto numa prece
sem palavras nem murmúrios
clamas o desejo do meu corpo em ti


João Carlos Esteves

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Esta noite...


"Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo ... num poço de sentidos
Quem és tu,promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas sob o frio de fevereiro?
O amor ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projetou os teus olhos no meu céu e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome ... essa última fala da última estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração. "


Fernando Pinto do Amaral

quinta-feira, 14 de março de 2013

[NOS TEUS SEIOS]



nos teus seios [redondos]
frutos maduros [apetecidos]
hipoteco os meus beijos [desvairados]
de prazeres mais a sul [permitidos]
alimento-me [sôfrego]
dos sabores a mel [de abelha]
enquanto esvoaço [estonteado]
em direcção à noite [desarrumada]
sou apenas insecto [aluado]
que descansa nos teus seios [compassivos]
túrgidos de promessas [orgásticas]
imensos de poemas [excessivos]

ANTÓNIO BARROSO CRUZ, 
in POEMAS À FLOR DA PELE

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O AMOR DEIXA MUITO A DESEJAR

                                                                                 

E como hoje é o dia do AMOR e da AMIZADE,
lembrei-me deste texto que tinha aqui guardado...
Adoro a música "Amor e Sexo" da Rita Lee e, no ano passado encontrei este texto do Arnaldo Jabor, que amei ler e partilho aqui hoje com vocês:

O AMOR DEIXA MUITO A DESEJAR

A Rita Lee fez uma música com a letra tirada de um artigo que escrevi, sobre amor e sexo.
A música é linda, estou emocionado, não mereço tão subida honra, quem sou eu, quase enxuguei uma furtiva lágrima com minha "gélida manina" por estar num disco, girando na vitrola sem parar com Rita, aquela hippie florida com consciência crítica, aquela hippie paródica, aquela mulher divinamente dividida, de noiva mutante ou de cartola e cabelo vermelho que, em 67, acabou com a caretice de Sampa e de suas lindas "minas" pálidas.

A música veio mesmo a calhar, pois ando com uma fome de arte, ando com saudade da beleza, ando com saudade de tudo, saudade de alguma delicadeza, paz, pois já não agüento mais ser apenas uma esponja absorvendo e comentando os bodes pretos que os políticos produzem no Brasil e o Bush lá fora. Ando meio desesperançado, mas essa canção de Rita trouxe de volta a minha mais antiga lembrança de amor. Isso mesmo: a canção me trouxe uma cena que, há mais de 50 anos, me volta sempre. Sempre achei que esse primeiro momento foi tão tênue, tão fugaz que não merecia narração. Mas, vou tentar.

Eu devia ter uns 6 anos, no máximo. Foi meu primeiro dia de aula no colégio, lá no Meier, onde minha mãe me levou, pela Rua 24 de Maio, coberta de folhas de mangueira que o vento derrubava. Fiquei sozinho, desamparado, sem pai nem mãe no colégio desconhecido. No pátio do recreio, crianças corriam. Uma bola de borracha voou em minha direção e bateu em meu peito. Olhei e vi uma menina morena, de tranças, com olhos negros, bem perto, me pedindo a bola e, nesse segundo, eu me apaixonei. Lembro-me de que seu queixo tinha um pequeno machucado, como um arranhão com mercúrio-cromo, lembro-me que ela tinha um nariz arrebitado, insolente e que, num lampejo, eu senti um tremor desconhecido, logo interrompido pelo jogo, pela bola que eu devolvi, pelos gritos e correria do recreio. Ela deve ter me olhado no fundo dos olhos por uns três segundos mas, até hoje, eu me lembro exatamente de sua expressão afogueada e vi que ela sentira também algum sinal no corpo, alguma informação do seu destino sexual de fêmea, alguma manifestação da matéria, alguma mensagem do DNA. Recordando minha impressão de menino, tenho certeza de que nossos olhos viram a mesma coisa, um no outro. Senti que eu fazia parte de um magnetismo da natureza que me envolvia, que envolvia a menina, que alguma coisa vibrava entre nós e senti que eu tinha um destino ligado àquele tipo de ser, gente que usava trança, que ria com dentes brancos e lábios vermelhos, que era diferente de mim e entendi vagamente que, sem aquela diferença, eu não me completaria. Ela voltou correndo para o jogo, vi suas pernas correndo e ela se virando com uma última olhada.

Misteriosamente, nunca mais a encontrei naquela escola. Lembro-me que me lembrei dela quando vi aquele filme Love Story, não pelo medíocre filme, mas pelo rosto de Ali McGraw, que era exatamente o rosto que vivia na minha memória. Recordo também, com estranheza, que meu sentimento infantil foi de "impossibilidade"; aquele rosto me pareceu maravilhoso e impossível de ser atingido inteiramente, foi um instante mágico ao mesmo tempo de descoberta e de perda. Escrevendo agora, percebo que aquela sensação de profundo "sentido" que tive aos 6 anos pode ter marcado minha maneira de ser e de amar pelos tempos que viriam. Senti a presença de algo belíssimo e inapreensível que, hoje, velho de guerra, arrisco dizer que talvez seja essa a marca do amor: ser impossível. Calma, pessoal, claro que o amor existe, nem eu sou um masoquista de livro, mas a marca do sublime, o momento em que o impossível parece possível, quando o impalpável fica compreensível, esse instante se repetiu no futuro por minha vida, levando-me para um trem-fantasma de alegrias e dores.

Amar é parecido com sofrer - Luís Melodia escreveu, não foi? Machado de Assis toca nisso na súbita consciência do amor entre Bentinho e Capitu:
"Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca."
Isso: felicidade e medo, a sensação de tocar por instantes um mistério sempre movente, como um fotograma que pára por um instante e logo se move na continuação do filme. Sempre senti isso em cada visão de mulheres que amei: um rosto se erguendo da areia da praia, uma mulher fingindo não me ver, mas vendo-me de costas num escritório do Rio... São momentos em que a "máquina da vida" parece se explicar, como se fosse uma lembrança do futuro, como se eu me lembrasse ali, do que iria viver.

Esses frêmitos de amor acontecem quando o "eu" cessa, por brevíssimos instantes, e deixamos o outro ser o que é em sua total solidão. Vemos um gesto frágil, um cabelo molhado, um rosto dormindo, e isso desperta em nós uma espécie de "compaixão" pelo nosso próprio desamparo, entrevisto no outro.

A cultura americana está criando um "desencantamento" insuportável na vida social. Vejam a arte tratada como algo desnecessário, sem lugar, vejam as mulheres nuas amontoadas na internet. Andamos com fome de beleza em tudo, na vida, na política, no sexo; por isso, o amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver. Todas essas tênues considerações, essas lembranças de lembranças, essa tentativa de capturar lampejos tão antigos, com risco de ser piegas, tudo isso me veio à cabeça pela emoção de me ver subitamente numa música, parceiro de Rita Lee, "lovely Rita", a mais completa tradução de São Paulo, essa cidade cheia de famintos de amor.

Arnaldo Jabor