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sexta-feira, 12 de junho de 2020

O Fruto







Subia, algo subia, ali, do chão,
quieto, no caule calmo, algo subia,
até que se fez flama em floração
clara e calou sua harmonia.

Floresceu, sem cessar, todo um verão
na árvore obstinada, noite e dia,
e se soube futura doação
diante do espaço que o acolhia.

E quando, enfim, se arredondou, oval,
na plenitude de sua alegria,
dentro da mesma casca que o encobria
volveu ao centro original.

...

E nós somos como frutos. Estamos 
suspensos lá no alto, em ramos singularmente
emaranhados, fustigados por muitos
ventos. O que possuímos é a nossa
maturidade, doçura e beleza. Mas a força
que produz tudo isso corre em um único
tronco a partir de uma raiz que se tornou
vasta e se estende por mundos em todos
nós. E, se quisermos dar testemunho da
sua força, cada um de nós tem de a utilizar
no sentido mais solitário. Quanto mais
solitário, mais solene, pungente e poderosa é
a sua comunalidade.


Rainer Maria Rilke
in,“Quatro Poemas Esparsos”





quarta-feira, 10 de junho de 2020

Virás, Hoje?






Desejaria estender tapetes de púrpura
E desejaria, em toda a região
Encher de bálsamo extraído de pichéis de ouro
As lâmpadas das flores até acima.

E que todas ardessem o tempo suficiente
Para que, cegos pelo dia vermelho,
Nos reconhecêssemos na noite pálida
E a nossa alma se transformasse em estrela.

Ó generosa, tu dás sonhos às minhas noites, 
cânticos às minhas manhãs, 
objectivos aos meus dias e 
desejos solares aos meus crepúsculos vermelhos. 
Tu dás sem fim. 
E eu ajoelho-me e estendo os braços 
para receber a tua graça. Ó generosa! 
Sou tudo aquilo que queres. 
E serei escravo ou rei conforme ralhes ou sorrias. 
Mas és tu que me fazes ser.

Isto, dir-to-ei muitas vezes, muitas vezes. 
A minha confissão amadurecerá, 
cada vez mais simples e nua. 
E o dia em que tiver conseguido torná-la 
perfeitamente simples e em que a compreendas
perfeitamente, será o primeiro dia 
do nosso Verão. Que durará mesmo para além 
dos dias do teu René.

Virás, hoje?



Rainer Maria Rilke




segunda-feira, 18 de maio de 2020

O Homem que Contempla







Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.


Rainer Maria Rilke
in,  "O Livro das Imagens"





quarta-feira, 6 de maio de 2020

Sem jamais exigir uma recompensa que possa vir do exterior





Por isso, meu caro senhor, apenas me é possível dar-lhe este conselho:
Mergulhe em si próprio e sonde as profundidades onde a sua vida brota; na sua fonte encontrará a resposta à pergunta
«Devo criar?»
Aceite essa resposta, tal como lhe é dada, sem tentar interpretá-la.
Talvez chegue à conclusão de que a arte o chama.

Nesse caso, aceite o seu destino e tome-o, com o seu peso e a sua grandeza, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir do exterior. Porque o criador deve ser todo um universo para si próprio, tudo encontrar em si próprio e na Natureza à qual toda a sua vida é devotada.


Rainer Maria Rilke
in, 'Cartas a um Jovem Poeta'





segunda-feira, 27 de abril de 2020

O Solitário







Como alguém que por mares desconhecidos viajou,
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria;
os dias cheios estão sobre as suas mesas
mas para mim a distância é puro sonho.

Penetra profundamente no meu rosto um mundo,
tão desabitado talvez como uma lua;
mas eles não deixam um único pensamento só,
e todas as suas palavras são habitadas.

As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas —:
na sua vasta pátria são feras,
aqui sustém a respiração, por vergonha.


Rainer Maria Rilke
in, "O Livro das Imagens"





quarta-feira, 22 de abril de 2020

Sempre a amante ultrapassa o amado





O destino gosta de inventar desenhos e figuras.
A sua dificuldade reside no que é complicado.
A própria vida, porém, tem a dificuldade da simplicidade. Só tem algumas coisas de uma dimensão que nos excede. O santo, declinando o destino, escolhe estas coisas por amor a Deus.

Mas que a mulher, segundo a sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, isso evoca a fatalidade de todos os laços de amor: decidida e sem destino, como um ser eterno, fica ao lado dele, que se transformará.
Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. A sua entrega quer ser sem medida: esta é a sua felicidade.
A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: exigirem-lhe que limitasse essa entrega.


Rainer Maria Rilke
in,  'As Anotações de Malte Lauridis Brigge'






quarta-feira, 11 de março de 2020

O encantador de serpentes





Quando na praça, ondeando, o encantador
toca a flauta que embala e entorpece,
às vezes ele atinge ao seu redor
alguém, em meio à turba, e o adormece,

e o faz entrar no círculo da flauta,
que quer e quer e quer e vai e volta,
até que emerja a cabeça alta
do réptil, que do seu cesto se solta,

alternando tontura e lassidão,
o que expande e tensiona e o que represa —;
basta um olhar daquele indiano, então,
para infundir no outro uma estranheza

que te mata. Como se de repente
o céu caísse. De súbito estrias
racham-te o rosto. Há especiarias
na memória boreal e a tua mente

de nada serve. Inútil, a magia.
O sol fermenta, vêm febres ferventes,
os raios têm maléfica alegria
e o veneno cintila nas serpentes.


Rainer Maria Rilke





domingo, 1 de março de 2020

Lamento De Uma Jovem





A inclinação que nos vem do passado,
quando crianças, sempre tão constante,
de sermos sós, era algo delicado;
para os demais era luta cada instante,
e cada qual tinha o seu lado,
o seu perto, o seu distante,
um chão, um cão, um quadro.

E eu ainda achava que a vida
nunca cessaria de doar,
e que é em nós mesmos nosso lar.
Não sou em mim a minha preferida?
O que é meu não há mais de ter confiança
e me entender como quando era criança?

Súbito, estou como entre alheios,
e em algo que me ultrapassa
a solidão se muda em mim,
quando, do alto dos meus seios,
meus sentimentos clamam por asas
ou por um fim.


Rainer Maria Rilke





terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O torso arcaico de Apolo


Torso de Miletus (c. 480-70 a.C.). 
Louvre, Paris.





Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

e brilha. Se não fosse assim, a curva rara
do peito não deslumbraria, nem achar
caminho poderia um sorriso e baixar
da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
pedra, um desfigurado mármore, e nem já
resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
como uma estrela; pois ali ponto não há
que não te mire. Força é mudares de vida.


Rainer Maria Rilke




sábado, 25 de janeiro de 2020

São Sebastião





Como alguém que jazesse, está de pé,
sustentado por sua grande fé.
Como mãe que amamenta, a tudo alheia,
grinalda que a si mesma se cerceia.

E as setas chegam: de espaço em espaço,
como se de seu corpo desferidas,
tremendo em suas pontas soltas de aço.
Mas ele ri, incólume, às feridas.

Num só passo a tristeza sobrevém
e em seus olhos desnudos se detém,
até que a neguem, como bagatela,
e como se poupassem com desdém
os destrutores de uma coisa bela.


Rainer Maria Rilke





sábado, 18 de janeiro de 2020

Recordação





E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
            de certo ano que passou.            


Rainer Maria Rilke
in,  "O Livro das Imagens"





terça-feira, 14 de janeiro de 2020

A Canção do Cego






Sou cego – escutem – é uma maldição,
um contrassenso, uma contradição,
não é uma doença qualquer.
Eu ponho a mão no braço da mulher,
minha mão cinzenta no seu cinza gris,
e ela só me leva para onde eu não quis.
Vocês andam, volteiam e gostam de pensar
que fazem um som diferente em seu andar,
mas estão errados: eu sozinho
vivo e vozeio o vazio.
Trago comigo um grito sem fim
e não sei se é a alma ou são as entranhas
o que grita em mim.
Já cantaram esta canção? Ninguém o saberia,
ao menos não com este acento.
Para vocês uma luz nova todo dia
vem e aquece o claro aposento.
E de olhar a olhar passa aquela energia
que induz à indulgencia e ao alento.


Rainer Maria Rilke




É Possível Estarmos Todos Errados?



Anna Egli





É possível (...) que não se tenha visto, conhecido e dito nada de real e importante?
É possível que se tenha tido milénios para olhar, reflectir e anotar e que se tenha deixado passar os milénios como uma pausa escolar, durante a qual se come fatias de pão com manteiga e uma maçã?
Sim, é possível.

É possível que, apesar das investigações e dos progressos, apesar da cultura, da religião e da filosofia, se tenha ficado na superfície da vida?
É possível que até se tenha coberto essa superfície - que, apesar de tudo, seria qualquer coisa - com um pano incrivelmente aborrecido, de tal modo que se assemelhe aos móveis da sala durante as férias de Verão?
Sim, é possível.

É possível que toda a História Universal tenha sido mal-entendida?
É possível que o passado seja falso, precisamente porque sempre se falou das suas multidões, como se dissertasse sobre uma aglomeração de pessoas, em vez de falar de uma única, em torno da qual elas estavam, porque se tratava de um desconhecido que morreu?
Sim, é possível.

É possível que se tenha julgado ser preciso recuperar o que aconteceu antes de se ter nascido?
É possível que se tivesse de lembrar a cada um que ele, de facto é proveniente de todos os antecessores, tendo ele disso conhecimento e não devendo dar ouvidos a outros que soubessem outras coisas?
Sim, é possível.

É possível que todas estas pessoas conheçam em pormenor um passado que nunca houve?
É possível que todas as realidades nada sejam para elas; que a sua vida decorra, desligada de tudo, como um relógio numa sala vazia?
Sim, é possível

É possível que nada se saiba das raparigas que, no entanto, vivem?
É possível que se diga «as mulheres», «as crianças», «os rapazes» e não se faça a mínima ideia (apesar de toda a cultura não se faça a mínima ideia) de que há muito que estas palavras não têm plural, mas apenas inúmeros singulares?
Sim, é possível.

É possível que haja gente que diga «Deus» e julgue que se trate de algo comum a todos? - E veja-se apenas dois rapazinhos de escola: um compra um canivete, e o seu vizinho compra outro tal qual no mesmo dia. E uma semana depois mostram um ao outro os dois canivetes, e acontece que eles só muito de longe se parecem - tão diferentemente evoluíram em mãos diferentes. (Ora, diz a mãe de um deles a esse respeito: vocês têm sempre por força de desgastar logo tudo!).
Ah, pois: é possível acreditar que se possa ter um Deus sem se recorrer a Ele?
Sim, é possível.

Porém, se tudo isto é possível, se tem mesmo só uma aparência de possibilidade - então, por tudo o que há no mundo, é preciso que aconteça alguma coisa. O primeiro indivíduo, o que teve estes pensamentos inquietantes, deve começar a fazer alguma coisa do que se perdeu; mesmo que seja um qualquer, certamente o menos indicado: mais nenhum há que o possa fazer.


Rainer Maria Rilke
in,  'As Anotações de Malte Lauridis Brigge'






domingo, 16 de setembro de 2018

Poesia






Poesia são dardos em forma de palavras que vão direto para a parte mais emocional do nosso cérebro. Há poemas que despertam um tsunami emotivo real e nos arrepiam, como “A Primeira Elegia”, de Rainer Maria Rilke, cujos versos dizem:


“A beleza é nada mais que o princípio do terrível,
Aquilo que somos apenas capazes de suportar,
Aquilo que admiramos porque serenamente deseja nos destruir,
Todo anjo é terrível. ”


Rilke descreveu o terror que sentimos quando adquirimos um conhecimento mais amplo, o momento em que ficamos mais conscientes de nossas limitações e da complexidade do mundo, e percebemos tudo o que não entendemos, conscientes daquilo que nunca iremos compreender. É uma possibilidade bela e sedutora, mas também muito assustadora.

A poesia tem a capacidade de enviar poderosas mensagens emocionais e ativar a reflexão, ainda que seja certo dizer que o maior prazer que sentimos ao ler um poema, como quando desfrutamos de uma obra de arte, não provém de uma reflexão profunda, mas de sensações que nós experimentamos. Na verdade, Vladimir Nabokov disse que não se deve ler com o coração ou com o cérebro, mas com o corpo.

Pesquisadores do Instituto Max Planck de Estética Empírica se propuseram a explorar mais a fundo as influências da poesia em nosso cérebro, e os resultados de seu estudo são fascinantes.


A poesia gera mais prazer, a nível cerebral, que a música.
Pesquisadores pediram a um grupo de pessoas, alguns liam poesia com frequência, para ouvir poemas lidos em voz alta. Alguns dos poemas pertenciam a conhecidos poetas alemães como Friedrich Schiller, Theodor Fontane e Otto Ernst, apesar de que foi dada a opção para os participantes escolherem algumas obras, incluindo autores como William Shakespeare, Johann Wolfgang von Goethe, Friedrich Nietzsche, Edgar Allan Poe, Paul Celan e Rilke.

Enquanto os voluntários escutavam os poemas, os pesquisadores registavam o ritmo cardíaco, expressões faciais e até mesmo os movimentos dos pelos sobre a pele. Além disso, quando as pessoas sentiam um arrepio, elas eram instruídas a avisar, pressionando um botão.
Curiosamente, todas as pessoas, mesmo aquelas que não tinham costume de ler poesia, relatavam calafrios em algum momento durante e leitura, 40% sentiram arrepios várias vezes. Estas são respostas similares àquelas que experimentamos quando escutamos música ou assistimos a uma cena de um filme que gera grande ressonância emocional.

No entanto, as respostas neurológicas estimuladas pela poesia eram únicas. Os dados mostraram que ao tomar contato com os poemas, partes do cérebro usualmente desativadas quando expostas ao estímulo de filmes e música foram despertadas.
Os neurocientistas descobriram que a poesia cria um estado que chamaram de “pré-relaxamento”; ou seja, que provoca uma reação de prazer gradativo a cada estrofe escutada. Na prática, ao invés da emoção nos invadir repentinamente, como quando escutamos uma canção, a poesia gera um crescendo emocional que começa até 4,5 segundos antes de sentirmos o arrepio.
Curiosamente, esses picos emocionais ocorriam especificamente em trechos dos versos, como no final das estrofes e, acima de tudo, no final da poesia. É uma descoberta muito interessante, especialmente considerando-se que 77% dos participantes que nunca tinha escutado um poema também mostraram as mesmas reações e sinais neurológicos que antecipavam os focos emocionais da leitura.

A poesia estimula a memória, facilita a introspecção e nos relaxa.
Neurocientistas da Universidade de Exeter scanearam os cérebros de um grupo de participantes enquanto liam conteúdos diferentes, desde um manual de instalação de ar-condicionado, passando por diálogos de novela, até sonetos e poemas.

Estes pesquisadores descobriram que o nosso cérebro processa a poesia de forma diferente que a prosa. É ativada uma “rede de leitura” peculiar que abraça diferentes áreas, entre elas, aquelas responsáveis pelo processamento emocional, ativadas fundamentalmente pela música.
Eles também perceberam que a poesia estimula áreas do cérebro associadas com a memória, como o córtex cingulado posterior e o lobo temporal médio, áreas que são despertadas quando estamos relaxados, ou introspectivos.

Isto demonstra que existe algo muito especial na estrutura do texto poético que gera prazer. Na verdade, a poesia é uma expressão literária muito especial que transmite sentimentos, pensamentos e ideias, praticando síntese métrica, trabalhando rimas e aliteração.



Jennifer Delgado Suárez





Rainer Maria Rilke, 1906
by George Bernard Shaw




PRIMEIRA ELEGIA DE DUÍNO


Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois o que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, que nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego quotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face – a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos – talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num voo mais comovido.

Sim, as primaveras precisavam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janela aberta,
uma viola d’amore se abandonava. Tudo isto era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vêm
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta às amantes;
ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.
Tu quase as invejas – essas abandonadas
que te pareceram tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma indefinidamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser – nascimento supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objeto amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no voo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detêm.

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fosses,
nas igrejas de Roma e Nápoles, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa…
O que pede essa voz? A ansiada libertação
da aparência de injustiça que às vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
às rosas e a outras coisas singularmente promissoras
não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos tremulas, medrosas,
não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. – Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentar Linos violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que ele abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações – que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.


Rainer Maria Rilke




“Contam que Rilke, depois dos primeiros versos que o vento lhe ditou nas altas penedias de Duíno, viveu doze anos com aquele germe, em viagens, em mudanças, em desperdícios, em guerras, até o momento de realizar, em quatro dias, como quem morre, as suas elegias perfeitas.
Não será sempre assim?
Não será a própria vida uma longa e desarrumada atividade dos bastidores para uma fugaz apoteose?”

GUSTAVO CORÇÃO
in, Lições de Abismo








segunda-feira, 23 de julho de 2018

Rosa de Rilke





Diz-me, rosa, que pensar
do que em ti mesmo habita,
do que a tua lenta essência grita
e impõe a este espaço de escrita,
dessas tuas ânsias de voar?

Quantas vezes esse ar viste
desejar pelas coisas ser aberto
ou, através de um desconcerto
mostrar-se amargo e certo.
Enquanto à tua volta ele insiste,
rosa, em ficar perto.



RAINER MARIA RILKE
in, AS ROSAS




sexta-feira, 20 de julho de 2018

Elegias de Duino






Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face – a quem furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos – talvez pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.

Sim, as primaveras precisavam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janela aberta,
uma viola d’amore se abandonava. Tudo isto era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vem
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes;
ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.
Tua quase as invejas – essas abandonadas
que te pareceram tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma infinitamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser – nascimento supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objeto amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detém.

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fosses,
nas igrejas de Roma e Nápoles, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa…
O que pede essa voz? A ansiada libertação
da aparência de injustiça que às vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
à rosas e a outras coisas singularmente promissoras
não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medroas,
não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. – Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentar Linos, violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que ele abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações – que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.




Rainer Maria Rilke
in, “ELEGIAS DE DUINO”, I e II (TRECHO)





A TRISTEZA É TAMBÉM UMA ONDA






Borgeby Gard, Fladie, Suécia 
12 de Agosto de 1904

Venho outra vez palestrar consigo, meu prezado senhor Kappus, se bem que pouco tenha a dizer-lhe que possa ajudá-lo ou ser-lhe útil. Diz-me que múltiplas e enormes tristezas cruzaram o seu caminho e que a passagem dessas tristezas bastou para o abalar. Peço-lhe que se interrogue e que veja se essas enormes tristezas não atravessaram as regiões mais profundas de si mesmo, se não modificaram muitas coisas em si, se nenhum ponto do seu ser se transformou ao contacto. Apenas são cruéis e perigosas as tristezas que passeamos na multidão para que esta lhes dê remédio e que se parecem a essas moléstia, negligentemente tratadas, que somem num momento para retornar em seguida, mais perigosas do que nunca. Estas acumulam-se em nós e também são vida, mas vida que não foi vivida, vida desprezada e como que abandonada, mas que nem por isso deixas às vezes de ser fatal. Se a nossa vista alcançasse para além dos limites do conhecimento, e mesmo para além do halo das nossas intuições, talvez acolhêssemos as nossas melancolias com mais confiança ainda do que as nossas alegrias. As tristezas são auroras novas em que o desconhecido nos visita. A alma, assustada e temerosa, cala-se, tudo se afasta, faz-se uma grande tranquilidade e o incognoscível surge em silêncio.

Quase todas as nossas tristezas, são acredito, estados de tensão que experimentamos como que tolhidos, assustados por já não nos sentirmos viver. Estamos sós com esse desconhecido que penetrou em nós, privados de tudo aquilo a que estávamos habituados a confiar-nos. Pelejamos como se lutássemos com uma corrente de que tivéssemos de suportar as ondas. A tristeza é também uma onda. O desconhecido uniu-se a nós, penetrou no âmago do nosso coração, e já nem sequer está no nosso coração, pois se mesclou com o nosso sangue e assim ignoramos o que se passou. Seria fácil fazerem-nos crer que não se passou nada. E, todavia, eis-nos transformados como uma casa pela presença de um hóspede. Não podemos dizer quem chegou, não o saberemos talvez nunca, mas muitos sinais nos indicam que foi o futuro que, deste modo, entrou em nós para se transformar na nossa substância, muito antes de tomar forma. Eis porque a solidão e o recolhimento são tão importantes quando estamos melancólicos. Esse instante aparentemente oco, esse instante de tensão que o futuro nos penetra, está infinitamente mais perto da existência do que aquele outro instante em que se nos impõe do exterior, em pleno tumulto e como que por acaso. Quanto mais silenciosos, pacientes e recolhidos formos nas nossas melancolias, de forma mais eficaz o desconhecido penetrará em nós. O desconhecido é o nosso bem. Metamorfoseia-se na carne do nosso destino, ligando-nos a este quando foge de nós para se realizar, isto é, para se projetar no cosmos. E é preciso que assim seja. É preciso – e é nisto que consiste a nossa evolução – que jamais encontremos nada que não nos pertença há já muito tempo. […]

Como poderia a nossa condição não ser difícil?
E para regressarmos à solidão, torna-se-nos cada vez mais patente que a solidão não é uma coisa que possamos aceitar ou recusar ao nosso talante. Podemos, é indubitável, enganar-nos a nós próprios e fazer de conta que não é assim. Porém, nada mais. Como seria preferível entender que somos sempre solidão e partir desta verdade! Sem dúvida, esta certeza provocar-nos-ia vertigens porque todos os horizontes familiares sumiriam, tudo nos pareceria longínquo e o longínquo recuaria até o infinito. Só um homem que, bruscamente e sem ser avisado, fosse transportado do seu quarto para o alto de uma montanha, sentiria qualquer coisa de parecido: uma insegurança sem par, um abalo tal, oriundo de uma força desconhecida, que seria quase capaz de o destruir. […] Devemos aceitar a nossa vida tão completamente quanto possível. Tudo, mesmo o inconcebível, deve tornar-se possível. No fundo, a única valentia que nos é pedida é a de fazermos face ao singular, ao maravilhoso, ao extraordinário que se nos deparar. Custou bem caro à vida que os homens, neste ponto, tivessem sido débeis.
Essa vida que chamam imaginária, esse cosmos que pretendem sobrenatural, a morte, todas estas coisas nos são, no fundo, consubstanciais, mas foram expelidas da vida por uma defesa diária, a tal ponto que os sentidos que teriam podido apreendê-las se atrofiaram. O medo do sobrenatural não empobreceu somente a existência do indivíduo, mas ainda as relações de homem para homem, subtraindo-as ao rio das possibilidades infinitas para as colocar a salvo, em qualquer ponto seguro das margens. Não é só devido à indolência que estas relações são indizìvelmente monótonas e se reproduzem sem alternativas: é também porque o homem teme as novidades que não sente à altura de enfrentar e cujo epílogo é imprevisível. Só aquele que espera tudo, que não exclui nada, nem mesmo o mistério viverá, como fazendo parte da vida, as relações de homem para homem e, indo ao mesmo tempo até à fronteira da sua própria vida. Se concebermos a vida do indivíduo como um quarto maior ou menor, torna-se evidente que quase todos aprendem apenas a conhecer um canto desse quarto, aquele local em frente da janela, aquele raio em que se movem e onde encontram uma relativa segurança. Quanto mais humana não é, porém, aquela insegurança, cheia de perigos, que leva os prisioneiros, nas histórias de Poe, a explorar com os dedos as suas horríveis masmorras, a tudo conhecer dos terrores indescritíveis que resultam dessa curiosidade! Mas nós não somos prisioneiros. Nenhum alçapão, nenhuma armadilha nos ameaça. Não temos nada a recear. Fomos colocados na vida por ser a vida o elemento que mais nos convém. Uma adaptação milenária faz com que nos pareçamos com o cosmos, a tal ponto que, se permanecêssemos calmos, mal nos distinguiríamos, por um feliz mimetismo, do que nos cerca. Não temos nenhuma razão de desconfiar do universo, porque este não nos é contrário. Se existem terrores, esses terrores são os nossos; se há abismos, são os nossos abismos; se há perigos, devemos esforçar-nos por amá-los. Se construirmos a nossa existência sobre o lema de que devemos sempre dar preferência ao mais difícil, tudo o que ainda hoje nos parece singular se tornará familiar e fiel. Como olvidar esses mitos antigos que se encontram no início da história de todos os povos, os mitos dos dragões que, no momento supremo, se transformam em princesas? Todos os dragões da nossa existência são talvez princesas que esperam ver-nos, um dia, belos e audazes. Todas as coisas assustadoras não são mais, talvez, do que coisas indefesas que esperam que as socorramos [...]

Não se observe muito. Evite tirar conclusões sumárias do que se passa em si. Abandone-se e não raciocine. Caso contrário, seria levado a censurar o seu próprio passado (sob o ângulo moral, entende-se…), porque o passado é em parte responsável do que hoje lhe acontece. […]
Se me permite, dir-lhe-ei ainda uma coisa: não acredite que sob estas palavras simples e tranquilas, que às vezes o acalmam, aquele que se esforça por reconforta-lo viva sem empecilhos. A sua existência não está isenta de penas e tristezas que o deixam muito aquém delas. Mas, se assim não fosse, nunca teria podido achar estas palavras.


Rainer Maria Rilke
in, Cartas A Um Jovem Poeta