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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Trump e o Fim da História




É impressionante a quantidade de porcaria que se lê hoje na net sobre o resultado das eleições nos EUA...
Pessoas que são mais do mesmo, que só sabem destilar raiva, falar mal dos americanos e da sociedade americana... eu não gosto da sociedade americana, mas daí a destilar raiva por causa disso vai uma grande distância.
É só falar mal, sem dizerem nada de útil que se aproveite!
Pessoas que se acham tão esclarecidas, mais inteligentes do que os outros...
E depois, é sempre a mesma lengalenga... sem qualquer tipo de utilidade pública.

Deixo-vos aqui opiniões interessantes, a meu ver, sobre tudo o que aconteceu nos EUA ontem, que no fundo espelha a sociedade em que vivemos no Planeta Terra.
Isto reflecte a consciência de um povo a nível geral, e não apenas dos EUA, como tanto se fala hoje...  O Sistema está mais do que podre, e o fascismo é o regime político que melhor serve este ciclo do capitalismo, e está em marcha não só nos EUA como também na Europa.

Vejam abaixo uma série de mapas e guias que mostram detalhes da votação. http://www.bbc.com/portuguese/internacional

Ohio, Flórida e Carolina do Norte deram a vitória a Trump! 

1 - Os democratas confiaram demais na sua força no Centro-Oeste. 
Esses Estados foram reduto do partido por décadas, em parte por causa do apoio dos eleitores negros e da classe trabalhadora branca. Mas os brancos da classe trabalhadora, especialmente aqueles sem formação universitária - homens e mulheres -, abandonaram o partido democrata. Os eleitores rurais compareceram às urnas em peso e, assim como os americanos que se sentiram negligenciados pelo sistema e deixados para trás pela elite, fizeram as suas vozes serem ouvidas. 

2 -  O republicano mostrou-se à prova de balas. 
Embora tenha caído nas pesquisas após algumas polémicas, a sua aprovação parecia blindada - voltando a subir logo depois. Talvez os ataques tenham sido tão duros e rápidos que ninguém teve tempo de lhe tirar o sangue. Talvez a personalidade e o apelo de Trump fossem tão fortes, que os escândalos acabassem rebatidos. 

3 - Trump bateu em toda a gente. 
É provável que essa postura de Trump tenha provado a sua independência e status de "forasteiro", capaz de contrariar o rumo da política nos EUA. 

4 -  O reabrir da investigação sobre o uso de um servidor privado de e-mail por Hillary Clinton quando ela era secretária de Estado americana, a duas semanas das eleições, pelo director do FBI James Comey, nunca teriam sido um factor de influência se Hillary tivesse confiado nos servidores de e-mail do Departamento de Estado para as suas trocas de e-mail. Esse peso recai agora sobre seus ombros. 

5 -  Finalmente, os Instintos Apurados de Trump, em que protagonizou uma campanha nada convencional, mas mostrou que sabia mais do que os especialistas. Gastou mais em chapéus do que em pesquisas. Viajou para Estados como Wisconsin e Michigan, que os analistas diziam estar fora de alcance. Realizou comícios de massa, em vez de pedir votos de porta em porta. Todas essas decisões - e muitas outras - foram ridicularizadas em rodas de "especialistas". 
No final, as suas estratégias deram certo. 
Diziam que ele estava isolado...que não tinha como ganhar. 
É o que dá subestimar uma fera destas...



"A eleição de Donald Trump tem e terá muito que se lhe diga, mas deve ser por ora aplaudida como o triunfo da ciência política (e dos porcos). 
O conde Alexis Tocqueville publicou “Da Democracia na América” (em francês, De la Démocratie en Amérique) em 1835, uma panorâmica dos Estados Unidos dos anos 30 do século XIX, e neste texto visionário deixou escrito o modelo que leva à possibilidade da eleição de tipos como Trump num sistema político único no mundo com as suas virtudes e defeitos.
Nessa viagem de nove meses baseada no pressuposto de estudar o sistema prisional, o conde fascinou-se com o sentido de dedicação das pessoas comuns ao processo político.
Andrew Jackson era o presidente e os partidos políticos estavam num processo de mutação, deixando de ser pequenas organizações controladas por elites locais e comissões eleitorais para se tornarem corpos massivos, capazes de eleger funcionários para os níveis local, regional e nacional e criando o esteio democrático para a eleição de génios ou imbecis na mesma medida.

A lacuna do livro de Tocqueville está apenas na ausência de um estudo sobre a pobreza nas cidades e a escravatura, mas deixou pérolas de entendimento para não nos espantarmos hoje com a eleição de deuses encarnados ou trogloditas de Neandertal capazes de num curto espaço de tempo tudo fazerem para devolver o mundo à Idade da Pedra.

Em última instância, o povo é quem mais ordena e lá tal como cá, há espaço na mesma sebenta para Salazar, Eanes, Sá Carneiro, Sócrates ou ou Passos Coelho, como no solo americano nos impressionamos com o tumulto e o prazer do povo em tomar parte do governo e discutir as suas medidas, levando as mãos à cabeça (ou ao coração) diante dos perigos de ser governado por um fundamentalista acéfalo."

Tiago Salazar



"Trump ganhou. Nós perdemos. Por nós quero eu dizer os meios de comunicação social dos EUA e da Europa. Segundo as histórias que nós contámos aos leitores e uns aos outros o que acaba de acontecer era impossível.

As nossas sondagens e opiniões – incluindo as minhas – não só se enganaram redondamente como contribuiram para criar um perigoso unanimismo que fez correr uma cortina de fumo digno dos propagandistas oficiais dos estados totalitários.

Eu leio todas as semanas duas revistas conservadoras americanas – The Weekly Standard e National Review. Leio todos os dias o igualmente pro-Republicano Wall Street Journal. Em nenhum deles fui avisado que Trump poderia ganhar.

Sinto-me vítima de uma conspiração – não da parte de Trump mas da parte dos media. Aquilo que aconteceu não foi a cobertura das eleições americanas, mas antes uma vasta campanha publicitária a favor de Hillary Clinton onde até revistas apolíticas como a Variety participaram.

Donald Trump foi sujeito à maior e mais violenta campanha de ataques pessoais que alguma vez vi na minha vida. Todos as principais publicações alinharam entusiasticamente. Sem recorrer a sites de extrema-direita o único site que defendia Trump foi o extraordinário Drudge Report. Foi só através dele que comecei a achar – e aqui vim dizer – que o eleitorado reage sempre mal às ordens paternalistas dadas por uma unanimidade de comentadores, jornalistas e celebridades.

A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social.

Claro que Trump não é nenhum outsider. É um bilionário que sempre fez parte da ordem estabelecida, da elite que dá as ordens e manda na economia dos EUA. É um amigo de Hillary e Bill Clinton que só se tornou ex-amigo porque lhe deu na gana ser presidente dos EUA.

Agora é. Conseguiu o que queria. Há-de voltar as costas ao eleitorado que o elegeu logo que perceba que a única coisa que esse eleitorado tinha para lhe dar já foi dado: os votos de que ele precisava para ser eleito.

Já fez o elogio de Hillary Clinton. Já disse que vai representar todos os americanos. Vai-se tornar lentamente um republicano moderado e liberal. Os oportunistas têm sempre essa vantagem da metamorfose.

Trump ganhou contra grande parte do Partido Republicano mas foi graças a ele que o Partido Republicano manteve a maioria no Senado e no Congresso. Se Trump fosse o populista aventureiro que finge ser aproveitaria para minar o sistema político vigente, tirando partido do poder político pessoal que agora tem.

Mas não fará nada disso. O Partido Republicano tem agora tudo na mão.

Trump presidirá à complacência do poder político instalado, do poder recuperado das mãos de Obama. O velho sistema político será reforçado e os beneficiários serão os de sempre: os que menos precisam.

E os media? Que vamos nós fazer? Continuar em campanha? Continuar a enganarmo-nos e a enganar quem nos lê?

Mostrarmo-nos surpreendidos e atónitos não chega. Só revela o mau trabalho que fizemos. Dizer que foi um choque, que ninguém estava à espera só aponta para o mundo ilusório onde reside a nossa própria zona de conforto.

Não é Trump que tem de dar uma reviravolta. Somos nós. Trump ganhou porque foi eleito. Nós perdemos porque fomos derrotados pelos nossos próprios preconceitos e pelo excesso de zelo com que perseguimos a vitória de Hillary Clinton.

É um dia feliz para Donald Trump e para a maioria que o elegeu. Para nós é um dia triste e, do ponto de vista profissional, pelo menos para mim, vergonhoso."


Miguel Esteves Cardoso



"Bem vindos aos primeiros instantes de Marte em Aquário em recepção mútua com Urano!!!!!!
Que é como quem diz,
Tudo pode acontecer.
Principalmente o improvável, o imprevisível, o impensável!

Desígnios insuspeitos se cumprem por vias imponderáveis,
Sabendo que daqui por poucos anos um novo ciclo político e social colectivo realmente inicia,
que esta não é senão a fase final de um ciclo que quase se fecha.

É como estar a discutir a importância de arrumar as cadeiras de uma maneira determinada no salão de festas do Titanic, enquanto este se afunda,
E esquecer o fundamental, que é: Cada fase e momento cumprem a sua função, como evolução inevitável das fases anterior, e preparação necessária das fases seguintes.

E achar que a Hillary Clinton seria 'uma boa' solução é perder de vista o essencial, que é isto: ela só seria 'boa' comparativamente ao Trump, que acabou por funcionar aqui como uma manobra de diversão (literal e metaforicamente) - o homem nasceu para viver num reality show, é pena é que foi nisso mesmo que se transformou a sociedade actual, e nesse particular, o Trump não é senão um produto, um reflexo e uma resposta inevitável à sociedade à qual corresponde.

- imagino os reptilianos senhores deste mundo a conversar entre si: como é que fazemos para a populaça eleger a Hillary acreditando que estão a fazer uma escolha, boa, e livre? Já sei, fazemo-la concorrer com um ainda pior. Se queremos que elejam o nosso candidato das 28 dioptrias, apresentamos como alternativa um cego de nascença. É o chamado 'mal menor' - aparentemente. Até ver. Mas não vão ser os cegos, nem os míopes, a ver. Esses vão é regozijar-se por não terem eleito o cego. E por ganhar o míope, o que para efeitos práticos, vai dar ao mesmo.

Mas a Clinton não ganhou. Ganhou o reality showman: psicopata, narcisista, mitómano, descarado, sobrevivente, separatista, preconceituoso, cheio da ilusão de si próprio e a querer defender-se, e à sua tribo, dos 'xenoi', dos bárbaros, dos diferentes, dos estrangeiros: é a versão moderna do homem das cavernas.

E pelos vistos ainda faz um sucesso tão grande que se torna presidente de uma grande nação moderna.

É portanto um dos sintomas da nossa 'civilização'

Se a Hillary tivesse ganho, voltaríamos todos ao sono tranquilizados. O mundo dos índios e cowboys estaria novamente em ordem, a política seguia o seu rumo de sempre, a ameaça da nossa própria psicopatia (projectada fora, sobre o Trump) teria sido afastada, o susto de pensar que um reality showman estaria à frente dos destinos da potência mundial teria passado. Não que um Reagan, que era actor, não tivesse aberto um precedente. Mas esse Trump, esse seria um escândalo inadmissível e impensável. Se a Hillary tivesse ganho, e com ela os poderes que a suportam e que ela defende, poderíamos regressar todos à indiferença, apatia, e distracção dos nossos sonos e transes.

Mas ganhou o Trump. No momento exacto em que Marte ingressou em Aquário e iniciou uma recepção mútua com Urano.

De modo que o mundo todo de repente acordou e ficou alerta, atento, nervoso, sem saber o que esperar, nem imaginar o que aí vem: como se estivesse, nem que por um momento, não só vivo, mas acordado.

Urano Marte: e isto significa reviravolta inesperada.
Ser acordado de repente de um sonho, com um choque,
E só daqui por uns anos é que um ciclo novo realmente se inicia.
Só aí é que teremos a consciência da irrealidade em que vivemos!!!"


Nuno Michaels



"É muito interessante fazer a ligação entre as características da população e a forma como votam ou poderão votar: os níveis de escolaridade, por exemplo, em Massachussets, onde 38% dos cidadãos já concluíram a licenciatura, levam a que neste momento a Hillary Clinton esteve à frente nas sondagens por quase 30 pontos percentuais. Em outros estados como no Alabama, Mississipi ou Wisconsin, onde um terço dos eleitores não completaram o ensino secundário, o Trump está a ganhar.

Há uma massa silenciosa que nem por isso é insignificante. Há muita gente com razão para se revoltar.

O voto de Trump é um voto de um homem branco, mais velho, e de classe média-baixa e uma certa perspectiva eles têm razão. Tanto Democratas como Republicanos esqueceram-se da faixa mais baixa da população americana. São 45 milhões de americanos a viver abaixo do nível de pobreza, que é de mil dólares por mês por pessoa e não se faz muito com mil dólares por mês. Nenhum dos partidos se lembra deles excepto durante as eleições. O poder de compra desta gente é mais baixo hoje do que há 40 anos. Estas pessoas sentem-se marginalizadas e não querem votar num político dentro do sistema. Trump conseguiu passar a mensagem que ele é o candidato alternativo. Claro que eu não acho isto correto, ele é multimilionário, herdou a fortuna, ele não tem nada a ver com a minha ideia de alternativo.

E não é só entre os Republicanos, muitos deles recusando apoiar Trump, outros tornando pública a sua intenção de votarem em Hillary Clinton, que uma “guerra civil” pode estoirar. Não será uma guerra com armas mas durante o último ano foram vários os artigos onde se falava de um país dividido, com medo do vizinho, mesmo antes de ir a votos. Como escreveu o jornal National Post: “As pessoas falam sobre comprar armas para se protegerem de eventuais perigos. Falam de locais onde já não vão e isto é quando falam umas com as outras. Conversas casuais transformam-se em conflitos, amigos desaparecem simplesmente do Facebook uns dos outros”.

Segundo uma sondagem do Wall Street Journal quase metade dos Americanos (45%) acreditam que os Estados Unidos são “menos fantásticos” - “less great”, a palavra preferida de Trump - do que no passado. Mais de 35% acha que está tudo igual e apenas 16% considera que o país está melhor. A coesão social pode sair danificada?

É possível, sim. Conhece a metáfora da caixa de Pandora? Trump tirou a tampa da caixa de Pandora e toda aquela gente super conservadora, racista, misógina, homofóbica começou a pensar ‘já podemos falar em voz alta que não gostamos dos mexicanos, já podemos falar em voz alta que não gostamos dos judeus’. Ele deu essa oportunidade às pessoas. 
A pergunta é: depois da eleição o que é que vai acontecer àquela gente?
Vão voltar para a caixa de Pandora e algum vai fechar a tampa?
Não sei. Mas é um país extremamente polarizado no momento isso não há dúvida.

Mas o sectarismo e o isolacionismo que transpiram dos discursos de Trump não são conceitos estranhos na Europa onde Nigel Farage, no Reino Unido, ou Norbert Hofer, na Áustria, têm feito carreira sustentados pelos mesmos alicerces.

Este perigo não vai desaparecer e foi por isso que eu falei da educação.
A solução para isto tudo é educar as pessoas. 
As pessoas com uma formação superior não são tão susceptíveis mas mesmo ai, no caso dos Estados Unidos, existe um problema. 
Há uma faceta do sistema americano que os europeus não compreendem. 
Os municípios locais podem determinar uma grande parte do currículo. Há escolas, nas zonas rurais principalmente, onde nem sequer ensinam a teoria da evolução. Há alunos com 18 anos que chegam à universidade sem ouvirem nunca falar de evolução! Imagina a cabeça dessa gente.
Eu sou a favor de um currículo federal. A única solução é educar, educar, educar! 
Se todos os estados fossem como o Massachussetts não existia nunca um Trump a chegar tão longe”.


Richard Zimler


A caixa de Pandora estava aberta explicitamente desde o 11/9 com a casta globalista que o provocou através de Bush, aberta com o terror Islâmico e insegurança total que a Sra Hillary tutelou, armou e financiou, aberta com a vigilância e intromissão total nas nossas vidas para servir o império, não o dos EEUU mas o da élite financeira mundialista e grandes corporações internacionais.
A xenofobia, homofobia e o racismo emergem de facto como reacção primitiva à desestruturação rápida de valores, à diminuição de soberania dos povos e destruição de países com o patrocínio dos mesmos interesses globalista.
E é também uma oportunista manobra de diversão que nos dispersa. E distrai com a preciosa colaboração de todo mainstream mediático e "cultural" gerido pela referida élite globalista e seu suporte fundamental.
As reacções primitivas não se recomendam nem desejam.
Como os tremores de terra.
Mas podem ter a vantagem de ajustar e reverter distorções, e de reequilibrar.
O tempo o dirá!
Não haja dúvida, é na educação ou falta dela que residem quase todas as respostas.
Não esquecer que 32 milhões de americanos são analfabetos, e que 45 milhões de americanos estão a viver abaixo do nível de pobreza.
Foi para esses que Trump fez a sua campanha... para quase metade dos Americanos (45%) que acreditam que os Estados Unidos são “menos fantásticos” - “less great”, a palavra preferida de Trump na sua campanha.
Nada do que ele disse foi por acaso...o resultado está à vista!
E o facto de Hillary Clinton ter tanta merda escondida debaixo do tapete ajudou e muito!



Para finalizar, recordo um post antigo sobre Trump
 americas-shadow-real-secret-of-donald-j.html








quinta-feira, 26 de maio de 2016

Ensaio sobre as cegueiras




Tenho pensado nisto diante de muitas leituras de caixas de comentários do Facebook, sem deixar a fé ou a cegueira intrometerem-se, apenas imbuído pela auto-análise dos meus próprios matizes malquistos e a cena da contemplação do outro (atento à possibilidade do Outro).
O que faz as pessoas julgarem-se umas às outras com a maior das desfaçatezes, sem saberem quase nada do seu percurso, sem se ocuparem em ler/ver nas entrelinhas, no esteio das palavras usadas ou nos gestos de um corpo que tanto diz?
Os termos de comparação das pilinhas e dos pipis (e coisa e tal) são lana caprina na complexidade de um ser humano, de quem podemos, se tanto, observar, escutar e então justamente tentar descrever a natureza do acto, aquele e nada mais, sem julgar o todo pela parte (gaga).
Um ladrão que rouba uma vez não é sempre um ladrão, pois há quem roube morto de fome e em desespero e para este a sanção é discutível, se quem vende não é tanto ou mais o que rouba.
Um bêbedo redime-se com um guronsan e um pai-nosso e nem a visão de um feio ou um mostrengo é justa que seja sumária, pois a fealdade é matéria discutível à escala do cosmos.
Até um dito canalha, um pulha ou um bandido são gente, cuja massa humana se reduz a um conjunto de células em sobressalto, onde um dia poderá assomar a beleza de uma construção notável, nascida de uma explosão criativa, ou este soçobrar numa impostura condenada ao esquecimento ou ao justo enxovalho, que é o fim último de todas as ignomínias.


Tiago Salazar


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Ensaios sobre o Amor



Fala-se no amor como a essência da vida.
O caudal das águas potáveis e correntes, fonte de energia inesgotável onde possamos saciar a nossa necessidade de consolo, que o escritor sueco Stig Dagerman, com previdência, ditou impossível de satisfazer.
Os paladinos do amor universal dizem que todo o grande amor permite a ocupação de amores fortuitos, como uma grande casa (Sanzala) repleta de quartos (ler Os Filósofos e o Amor, ed. Tinta da China).
O amor, o AMOR, porém, é coisa rara, a que a mestra do amor do eterno retorno, Hélia, disse ser tão rara como um homem se evolar pelos ares ou um analfabeto citar Cícero em correcto latim.

O que é o amor senão a raiz da própria existência onde cabe tudo, até o desamor e os sucedâneos da raiva, do ódio, e acima de todos os males, o medo.
O medo leva ao ataque como dirão o zoólogo e o etólogo avisados.

No amor há o medo da perda, pela morte ou o abandono, e muitos são os órfãos de amor do princípio ao fim, por conta de uma dor funda e antiga.
Há amores que toleram o amor fortuito, mas são amores infelizes.
O amor fortuito não é, na maior parte das vezes, amor.
Não o amor raro, que, porém, é tão vulnerável e frágil como a árvore de tronco mais robusto. Sem rega e poda nenhum amor chega a ser maduro.
Sem capacidade de chegar ao concílio de que um amor é a soma de duas partes e de todas as partes de cada um, o amor não passará de um usufruto mútuo, uma satisfação de necessidades complementares.

Ama-se melhor quando se sabe amar no amor-próprio e dele se sabe sair antes de o egoísmo tomar conta do ser e impedir a justa medida.
Ter ou Ser, são o raio de escolha.
Um raio de luz.


Tiago Salazar

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

...........................omnívoro de livros


Sótão da casa de Tiago Salazar 



Uma pilha de livros à cabeceira, aos pés da cama, no chão, em cima do travesseiro, diz o quê deste vosso amigo?
Que sou omnívoro de livros?
Que os livros são a minha rede do trapézio?
Que sem as memórias de Giacomo (na tradução de Tamen) por perto, a vida é muito menos suportável?
Ou os textos de Proudhon, Stirner, Bakunin e Kropotkin para me reavivarem a memória do lugar do Homem no universo, a par das poesias de Tagore?

A Selva, do Ferreira de Castro, também aqui dorme, para que as regras do ofício não se descurem.
O Sandokan, ali à esquina do quarto junto ao Corsário do Salgari e do Fantasma cujo anel tanto amei em puto que se tornou o meu cachucho de anelar na meia idade.

A morte cheira a esturro por tantos e todos os lados, mas tenho aqui O Livro dos Mortos dos tibetanos para me apaziguar, se a ideia de morte (antes do tempo, e é sempre uma pena) me afanica o dia.

Noites horrendas as dos que não têm o consolo dos livros ou os que não podem dizer como disse Blaise Cendrars, troco todas as minhas páginas felizes, de mão feliz, por uma noite de amor contigo.


Tiago Salazar

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

LUATY



Um homem apresta-se a morrer para denunciar um regime.
Um homem encarna (a pele e osso) a palavra coragem.
Um homem que é um Homem contra 1000 ratos que são homenzinhos.
Um homem só é Homem quando é capaz de dizer Este Sou Eu.

Angola, a Angola dos ratos e homens.

Um dia, há anos, escrevi a história de um empresário português instalado em Luanda.
Era dono de uma loja de fotografia, casado com uma angolana.
Um dia passaram uns fulanos vindos da noite e quiseram prolongar a farra.
Viram a luz da loja acesa. Entraram. Um deles de apelido Van Dunen. Um deles senhor ministro.
A mulher do empresário estava na loja. Não estava só, mas eles, os senhores ratos, não sabiam.
Havia uma empregada que viria a ser a testemunha ocular de uma ronda de violações e crime. Deixaram a mulher do empresário de vagina e ânus exangues, de pescoço partido, e partiram, como javardos saciados, de snaita recolhida.
A empregada viu tudo e contou tudo o que viu.
O marido viúvo encontrou-se comigo no Ritz e falou e chorou e jurou enfrentar o regime, fosse aonde fosse. A história (publicada n’ O Diabo) deu brado e a TVI deu continuidade mediática.
Disseram que eu estava a soldo da UNITA, a par do capanga Rogeiro.
Perseguiram-me. Ameaçaram-me. Fizeram-me esperas à porta de casa e do jornal.
Processaram-me e ao jornal por abuso de liberdade de Imprensa.
Perderam sempre, até ao Supremo Tribunal.
Nunca fui a Angola. Nunca irei a uma Angola dominada por criminosos. Está tudo dito.
Está tudo escrito e mostrado.
Tudo o que distingue um país democrático de um país tomado pela mais profunda miséria, a que distingue os homens livres dos ratos.

Luaty é um mártir por histórias como esta.


Tiago Salazar


Esta é a África que eu conheço...esta é a Angola que eu conheço.
Todos os portugueses que estão lá a viver, quando vão a Portugal dizem que é um paraíso.
Que foi o melhor que fizeram ao irem para lá.

Pois, nem todos têm estômago para lá viver e assistir a isto diariamente, em prol de ganharem dinheiro à custa da miséria dos outros.



               


Uma em cada seis crianças angolanas morre antes de completar cinco anos.
Os dados da Unicef levaram Nicholas Kristof, colunista do The New York Times, até Angola para perceber este problema, numa reportagem de opinião no jornal norte-americano.

“Este é um país repleto de petróleo, diamantes e milionários que conduzem Porsches e crianças a morrer à fome”, inicia Kristof a sua reportagem sobre a mortalidade infantil em Angola.

Para além dos números preocupantes relativos à mortalidade infantil, os dados indicam ainda que mais de um quarto das crianças está fisicamente afectado pela subnutrição e que os casos de morte materna durante o parto são de 1 em 35.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Quo Vadis, Salazar?



"O subtítulo é uma provocação à temática do exílio que levou à errância forçada desde pretos, ciganos, judeus e toda a classe de indigentes segundo as elites inquisitoriais. Houve através dos tempos exílios religiosos, políticos e agora há os fiscais porquanto não haja igualdade de direitos na chamada Europa. Pago impostos seja onde for, de forma directa ou indirecta. Prefiro apenas escolher um país de acolhimento que use os impostos em benefícios evidentes para o cidadão e não os amealhe usurariamente para tapar buracos de fraudes e crimes também de natureza fiscal, a chamada dívida pública.
Portugal tem um dos sistemas fiscais mais punitivos e menos retributivos e justos da Europa. No meu caso pessoal, e está o tema parcialmente contado neste livro, fui tolhido numa investigação e reapuramento do chamado IRS que repudio e apelido de medíocre e abusiva, e que lamentavelmente não tendo como financiar a minha/nossa defesa a não ser que cagasse milhões, me leva a viver sem apelo nem agravo uma condenação de mais de dez anos, isto com filhos menores para criar e nenhuma riqueza acumulada.
Cada um sabe de si, e eu sei de uma coisa: nunca devi um chavo a fiscos ou a quem quer que seja. E por não ter vocação de servo nem de serviçal, pese embora o facto de estar entalado e a cumprir pena pecuniária, decidi sair deste país onde voltou a imperar a usura, a prepotência e a ignomínia. Não me salvo de arrotar com uns milhares literalmente saqueados, mas posso dizer Basta!"

Tiago Salazar


Ao ler o prefácio, deparei-me com as sábias palavras de Onésimo Teotónio de Almeida:
"A escrita sai-lhe assim provocadora e desestruturante pelos intersticios da pontuação, a indagar, a procurar explicações, a querer intervir, a esmurrar, a buscar rumos ou a pincelar sonhos feitos saudade antes ainda de terem ganhado corpo".
Palavras que eu nunca saberia dizer, mas que subscrevo sem dúvida alguma.
Excelente, Tiago, como já esperava.
E a leitura prossegue...



"Há pouco esbarrei com um comentário infeliz de um senhor que falava no meu acto de exilado fiscal como uma ligeireza, um atestado de imbecilidade aos portugueses, e punha-me ao nível das 18 empresas que fazem parte do PSI-20 exilados no paraíso fiscal holandês e a viver como um lorde ou faraó das verbas não entregues aos cofres do pobre e enganado Estado.
Há reparos imediatos a fazer em abono da verdade dos factos.
A Holanda não é um paraíso fiscal como as Seychelles ou as Caimão ou grande parte dos países árabes. Pagam-se apenas impostos mais justos e cuja devolução social à comunidade é visível em coisas do usufruto comum, como dos mais belos jardins do mundo, que além de embelezar as vistas, e atrair turistas e exilados, servem a função de oxigenar e arejar o pensamento.
Não exorto a Holanda nem as suas práticas e se me movesse pela evasão fiscal legal mudava-me com a família para uma ilha dos Mares do Sul como Somerset Maugham.
A decisão, nada ligeira, de mudar de país na casa dos 40 anos, com 2 filhos menores e totalmente esbulhado e penhorado (injustamente, como irei demonstrar custe o que custar, demore o que demorar) foi a mais dura da minha vida, onde não faltam durezas de monta.
Não sou menino de papás ricos, não tenho dote, não me dediquei a nenhum trabalho com o fito do enriquecimento fiduciário e não vivi nunca acima das minhas possibilidades como é fácil de ver pelo meu historial bancário, cujo sigilo legal levantei em defesa da acusação e que foi ignorado como termo da sentença baseada em correcções de IRS por estimativa, uma semântica pusilânime, prepotente e essa sim de absurda ligeireza e desconsideração pelo indivíduo.
Ou seja, pague-se e depois logo se vê se temos (ou tem) razão.
Talvez de forma ingénua escolhi casar e ter filhos, sonhei ter uma casa de cultura feita com o lucro do meu trabalho e devolver aos meus leitores aquilo que tanto me têm dado - um espaço para estarem e partilharmos paixões literárias, musicais e da geografia.
Estava nessa etapa quando fui atropelado pelo porta-aviões da Administração Tributária, apostado em reparar à força os buracos criados por um consórcio mafioso de corruptos que se têm dedicado a estropiar quem achou poder ser proprietário de alguma coisa ganha às suas custas.
Posso falar de peito cheio (de dor também) que nesta situação sou apenas um dos vencidos-lixados pelas prepotências dos sistemas que nada fazem pelo benefício dos cidadãos, que os usam apenas de forma panfletária e friamente se estão nas tintas para a sorte e o protesto dos seus generosos contribuintes.
Neste momento, ocupo-me de uma forma algo obsessiva com a questão particular de salvar uma família com dois inocentes, tudo fazendo por cumprir com pagamentos desmedidos e no limite da bondade da comarca, e talvez de forma ingénua e romântica acredite que a minha luta por reparar as injustiças faça eco e leve à rebelião de quem passa por estas passas.
Por isso, caro senhor, vá usar a palavra ligeireza para o raio que o parta e respeite o sofrimento alheio!"

 Tiago Salazar

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Pionaises



- Acabo de fazer um mapa dos lugares, ou melhor, dos países, onde estive, um dia que fosse.

- Boa cena. Deixa-me cá ver se nos cruzámos.

- Deve haver uns quantos que me escapam, e nunca vou saber o nome de todos os lugares que pisei, ou as terras de ninguém.

- És um coleccionador de Mundo?

- Nem de mundos nem de nada, embora não me acreditem.
Vale o mesmo para o amor.
Sou um sensualista, um apaixonado, um idealista.
Gosto de me sentir atravessado, como gosto de me sentir tocado e abraçado com a sensação de que quem me está a tocar ou a abraçar se quer demorar em mim.
Deve ser por isso que penso nos países como gente, que nos acolhe ou enxota, onde passamos como estrangeiros ou onde nos sentimos em casa.

- És um lírico, mas fica-te bem. Eu cá sou uma viajante de toca e foge, fruto da natureza do meu trabalho, mas como sou intensa, uma tarde pode valer por um mês.

- Olhai o lírico no campo (ri-se)… pois este lírico, idiota, e essas coisas está capaz de fazer um levantamento mais significativo que é este: porque fui aonde fui ou quero ir aonde estou a pensar ir, por exemplo, aos confins do mundo.
Não vou dizer já, mas me aguardem.
No fundo o que me move e não só porque me movo, porque esta é a minha forma de ganhar a vida no sentido lato, de passar pela vida em andamento e ver quem são os bons companheiros para a Viagem.
Topas?


Tiago Salazar

sábado, 21 de junho de 2014

A Picoas


Um homem ainda jovem mas já grisalho, nos seus 42 anos digamos assim, fala ao telemóvel encostado a um canto do apeadeiro. Fala como se sussurrasse ao ouvido esquerdo de alguém, alguém que ama ou parece fazer por amar. Fala ao hemisfério direito do lado de lá, o dos amores que se querem calmos e bonitos.

Quero-te feliz e muito feliz e que seja culpa minha.
Quero-te leve e alegre e que seja culpa minha.
Quero-te com volúpia (e sem aborrecimento) e que seja culpa minha.
Quero-te segura porque os meus braços te seguram, as mãos te agarram, e que sejam as minhas.
Quero-te porque sempre te quis e não há culpas de nada.
Quero-te porque te quero, porque foste sempre tu.
Amor de longe, amor de sempre...

Por isso, e agora escuta bem, escuta bem no fundo (onde se perdoam os maiores erros de expressão).
Perdoa-me se a força do meu amor desastrado transborda e por vezes, muitas vezes, não sei que lhe faça.

Tiago Salazar
Ouvido no Metro VI

terça-feira, 15 de abril de 2014

O Copo


Há a metade vazia.
Na metade vazia caem as lágrimas e os suores frios do tempo perdido.
Caem os pensamentos das noites de amor perdidas, porque é nas noites e madrugadas que o amor melhor se faz.
Na metade vazia moram espectros de mundos obscuros, porque afinal é ali, no mundo, nos quartos de hotéis, nas estradas, nos aviões, carros e caminhos que estão as afinidades, a diástole, o sossego para contemplar o outro e o mundo.
No copo vazio está tudo o que se deixou por viver.

Há a metade cheia.
Na metade cheia estão as recordações.
Estão os poemas do êxtase, estão as cartas íntimas, está um livro de amor interminável.
Estão ostras, vinho, amor com todo o tempo para ser amor por nunca haver ali as palavras cansaço e limitado.
Estão os passeios de mão dada, as intermináveis conversas (de mão dada), conversas que não se quer que terminem.
Está o mundo e as viagens, está a coragem de ser e dizer, está a utopia da ilha do amor, afinal um lugar possível.
Estão as noites e os acordares, estão os filhos no quarto ao lado, estão os filhos a verem-se crescer, estão as noites de paz e de todos os sonhos possíveis.
Na metade cheia está a esperança do fim da dicotomia, da reforma da dualidade, da noite que conta ao dia que há maneiras de ser feliz todos os dias e de voltar sempre a casa, ao único lugar a que pode verdadeiramente chamar-se casa, onde sempre se chega cantando e rindo.

Um dia, muito mais tarde, saberemos dos porquês de todos os sacrifícios, o que restou, a que metade corresponde o cheio e o vazio.
Em duas metades de vida mergulhadas no amor.

Tiago Salazar

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Manifesto...


MANIFESTO POLÍTICO AMOROSO

A pergunta chave para este mundo apressado (digamos assim) e para quem escolheu esta vida/via do corpo inteiro é:

Pode ter-se uma carreira, uma família (e sobreviver com ela) e um amor/paixão, por anos infindos?

Que leva a outra:

Os sacrifícios, as privações e as sequelas do esforço do que mais tempo ocupa necessariamente, e onde se desatam outros amores e paixões como podem ser os ofícios (de viajante ou escritor, por exemplo), permitem chegar intacto e inteiro ao resto, e cuidar do resto, em condições ditas saudáveis e harmoniosas e frutíferas, para todos, sem que se troquem os afectos por papel ou missivas?

As únicas respostas que tenho, nascidas desta experiência imensa chamada Vida, são que nenhum Amor resiste, nenhuma família estreita laços saudáveis, sem estas palavras em acção e imanentes na espuma dos dias:

Cooperação
Carinho
Respeito
União
Tolerância
Humildade
Entrega incondicional
Escuta
Verdade/Sinceridade

Entrego pois ao destino e às minhas mãos fabris e febris tudo o que acredito que morra no mais simples gesto, pois é para aí que dirijo a vida, fazendo da minha ínfima vida um trabalho sobre mim de onde me nasçam todas as artes.
Entre todos e todos por um (falo de todos à face da terra) acharemos oásis de paz e prosperidade a cada dia, semana e mês que passar.

É a minha fé.
É a minha verdade.

Tiago Salazar

terça-feira, 18 de março de 2014

Hei-de amar-te mais - Tiago Salazar

                                   

Livro, "Hei-de amar-te mais"
Tiago Salazar

"O amor é uma opção laboriosa que fortifica e fragiliza, de quedas e ergueres, de humildade sobretudo. O amor universal é uma possibilidade legítima e o tribunal do justo e do moral mora no fundo de cada um."

"Quando o livro "Hei-de Amar-te Mais", um diário íntimo de um viajante demasiadas vezes solitário, nasceu para a vida (pública) duas perguntas repetiram-se. Como se vive o amor na distância, na ausência, na carência, ou porquê um livro de escrita íntima aos 40 anos quando livros assim se deixam para o post-morten ou para o dia do juízo final? Respondi assim: vive-se, vivendo, dedicando-lhe a vida na esperança ingénua (?) da harmonia e da nota-batida-frase perfeita, como se vive na esperança ingénua (?) na bondade universal dos homens como um coro de rãs devotas da ternura; porque o amor, mais ou menos grandioso, é sempre uma digna celebração do Bem e do Belo como formas de vida, com todas as contradições e erros no amar bonito (trabalho de todos os dias) que nos habitam, que me habitam. O amor é uma opção laboriosa que fortifica e fragiliza, de quedas e ergueres, de humildade sobretudo. O amor universal é uma possibilidade legítima e o tribunal do justo e do moral mora no fundo de cada um.
Falei/escrevi das entranhas do Amor, do meu amor, do enigma, dos que li e em quem me revi (Tagore, Clarice, Henry Miller, Pablo Neruda...) com todas as letras possíveis e sem qualquer "fingimento" literário.
Um amor nu e cru, e totalmente autêntico e por isso sujeito a todo o tipo de leituras."



O jornalista Tiago Salazar escreveu um livro para os filhos e para a mulher, a fadista Cristina Branco.
Ou melhor, foi escrevendo.
Hei-de amar-te mais é um diário íntimo, escrito em viagens pelo mundo fora, durante seis anos, com reflexões sobre a saudade, a partida, o desejo do regresso e a falta que nos faz aqueles que mais amamos.

domingo, 2 de março de 2014

Bom Caminho


Há dias tive a honra (e o orgulho) de apresentar o primeiro livro da viajante-escritora-peregrina Fausta Cardoso Pereira, "Bom Caminho", edição da Planeta. 

Se não tiverem paciência para me ler, entendo muito bem, mas não deixem de ler a Fausta.

*

Este é um livro corajoso, para além da experiência de que se pode dizer nem tudo são rosas na vida de um viajante; e é falso o livro e o viajante que exorte o contrário. Há o exercício físico, psicológico de superação, tanto quanto há o de viver para contar. Fausta dita logo as regras do jogo, do xadrez. Não desvenda logo, porém. Baralha, parte e dá como só fazem os mestres. Cita, com propriedade, Charles Handy, por exemplo, como poderia citar o peregrino francês Charles Baudelaire que no “Spleen de Paris” confessou sofrer de horror do domicílio como impulso para a viagem física. É sincera e pragmática falando do obstáculo do código do Trabalho como impedimento, tal como eu podia falar do Amor conjugal e paternal como grande questão para me fazer mais vezes e mais demoradamente ao caminho. Um voto de sinceridade implacável, digamos assim, de capa e espada. Segue ainda os princípios de uma grande viajante e escritora da era moderna Jan Morris de que quando viaja se limita a deixar as coisas acontecerem.

Reparem que ainda não sabemos o que a motivou, o que a move na vida. Fala do perdão e da salvação que levaram os antigos a caminhar semanas infindas, ao frio, à fome, à sede, à dor, à privação e à provação dos arquétipos religiosos. Será o masoquismo que conduz à libertação? Eu que faço parte dos viajantes hedonistas e epicuristas não me vejo a seguir estes passos, mas já o fiz, segundo os princípio do repórter de dar o corpo (e o espírito) ao manifesto como única forma plausível de viver para contar. E depois oxalá chegue a arte, enquanto se trabalha.

Um parêntesis histórico e cultural. Os árabes dizem que a arte de viajar se faz a andar e a ver. E é este um dos grandes tesouros deste livro.

Fala-se então de renúncia ao conforto como forma de recuo no tempo e de desconstrução, bela e moderna palavra de reconhecimento do que de facto precisamos para viver e sermos felizes ou pelo menos menos descontentes. Trata-se aqui de um despojamento circunstancial mas sentido.

Entramos agora no domínio do turismo espiritual. O que leva Fausta e viagens da sua estirpe a fazer este tipo de incursões ou excursões e a lugares de forte carga esotérica? Que estrela perseguem? Que bençãos recebem? Que força, vibração, energia se desprende da terra, do ar, do ígneo, do éter ou da imaginação a quem as viagens fazem tanto bem? A que hierarquia social (e religiosa) pertence a nossa autora? Será budista de Inverno e nudista de Verão como eu? Que procura? Não se encontra o que se procura mas o que se encontra já se sabe. Gosto particularmente do avisado mantra de sua autoria que diz "andar-pensar-ser feliz assim". E de uma confissão à mesa com um amigo de que precisava de abrandar e de encontrar espaço na cabeça. Fez-me bem ler isto e assumo que sou fã de livros de auto ajuda e cursos de mindfulness. Lidar com o silêncio é um grande desafio e com as perguntas e respostas sem outro interlocutor a não ser nós próprios. Podia falar-vos disto. De como me faz falta uma asa de amor para as viagens a quem possa dizer olhamos juntos na mesma direcção sem eufemismos e diários íntimos de angústias de viajante solitário, e como isto mexe comigo.

A certa altura parece querer provar a alguém a sua capacidade de superação. Os desafios sucedem-se como fazer mais flexões ou levantar mais peso nos halteres. Mas transgredir é a palavra de força. O Caminho também é um Descaminho de Santiago… como o deixou escrito o holandês Cees Noteboom. O meu homónimo Tiago (Maior) foi o primeiro a cruzar este caminho, 40 anos d. C. São então relatados com paixão episódios e milagres da longa História como um perto de Iria Flávia, terra de nascimento desse vulto das letras galegas, Camilo José Cela.

Entra então em cena a historiadora, pesquisadora e a tese da linha de defesa católica, uma espécie de linhas de torres para travar as investidas sarracenas. Faz sentido e de certa maneira retira a aura mística ao lugar no sentido de lhe dar uma natureza bélica.

Uma pergunta agora? A investigação foi feita antes ou depois da caminhada? De que modo esta leitura poderia tirar o espírito e a curiosidade e a descoberta do caminho? Ou trazer-lhe outras descobertas? Que seria dela se não soubesse da existência do Codex Calixtinus (parece uma bula para os calos…) o primeiro guia de viagens de Compostela, a terceira cidade santa do mundo ocidental no século XII. Um guia de peças litúrgicas e hinos que conta os 22 milagres do Santo. Convergem várias vias para peregrinos de várias origens (pág 36) até chegar ao Caminho português considerado pelo investigador Vítor Manuel Adrião o mais antigo de todos. A via religiosa e a via política cruzam-se, bem como as lendas e narrativas, como a do Matamouros ou uma ligada a Barcelos, terra natal da minha querida avó Maria José Vessadas.

Gosto muito e revejo-me nas impressões do que é a História e do seu caldo de fantasias e interpretações possíveis e imaginárias. História escrita por encomenda ou baseada em relatos de quem não viu, não sentiu, não experimentou? A dream within a dream? O terreno é pasto fértil para druidas, astrólogos, videntes, filósofos esotéricos, ocultistas, bruxos, magos, duendes, fadas ou doentes cuja fé desperta num chão sagrado (de efeito placebo) pode mover montanhas e curar doenças terminais.

Abundam por este mundo lugares de peregrinação a santos embalsamados ou de cera, tal como se vai a uma Amazónia ver os índios na demanda de um encontro antropológico de primeiro grau. Mas não serão todos os lugares passíveis da experiência do sagrado sem sairmos do lugar? Os Ara Solis, os altares do Sol não teriam mais adoradores e gente de bem com a vida se parássemos a contemplar o nosso fundo de beleza infinita, mesmo carregado de demónios, emboscadas e entes malignos que nos atiram para fora do Caminho? Nos relatos do Caminho onde se separa o lirismo de trovadores da prosa de mão séria e certa? A nossa autora prefere, e muito bem, fazer as suas releituras e questionar e questionar-se sobre o que de facto procura? Um corpo de um santo? Uma carga terrena telúrica capaz de lhe mostrar o caminho recto da fé? Uma terapia pedestre ocupacional que lhe resolva essa espécie de consolo impossível de satisfazer, esse sentimento trágico da vida de que falou ad nausea um Miguel Unamuno? Entendo que apenas lhe ocorre concluir que o mais importante é como nos pomos ao caminho, e que, em última instância, e muito democraticamente, é de todos o que o queiram percorrer. Se na Idade Média existiam 3 grandes tipos de peregrinos - os que iam de livre vontade, os que eram obrigados e os de motivações profanas - a Fausta apenas lhe interessa a superação e a viagem interior. 

A história do teólogo João Delicado e da importância dos outros talvez seja uma das chaves do livro. Fala de trocas espontâneas, simples, e de pessoas leves e bem intencionadas. Fala de que a Vida pode ser como o Caminho, este ou outro qualquer de todos os dias, em todos os lugares e através dos tempos. Seria monótono? Confiar em Deus e na Providência e no Amor e nos outros para nos alimentarem o espírito?

Cita então um livro que eu amo "The Kindness of Strangers" e a pergunta fulcral do Dalai Lama: 

Porque é que se no início e no fim da vida dependemos da bondade dos outros, no meio, não somos bondosos?

E dá um dado importante e preocupante: as crises não estão a servir para aproximar o outro, mas para aumentar os níveis de desconfiança. 

Ocuparmos-nos dos outros é ocuparmos-nos de nós lembra ainda o Lama. Uma espécie de egoísmo altruísta que tornaria a vida muito mais suportável.

Não me alongo mais e pergunto a todos. 

Achas que te purificaste e voltaste a encarrilar numa vida condigna (não materialista digamos assim) depois desta viagem?
Porque te identificaste mais com os profanos?
Que tipo de perigos experimentaste?
Alguma vez pensaste: isto é um embuste?
No que te sentes mais crescida?
E diferente?
Tens um nova visão do ser e do mundo?
Mais forte e mais frágil e mais humana?
Não se volta diferente de qualquer viagem?
Quanto tempo demora a desfazer um hábito ou mudar um padrão de pensamento?
Precisamos de sofrer? Precisaste? De quedas? Zonas de desconforto?
Devíamos fazer coisas como os islandeses sem nos preocuparmos com o Falhar, o estigma do insucesso, o arriscar?


Tiago Salazar