Mostrar mensagens com a etiqueta Poetas Vivos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poetas Vivos. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Julgamento






Sinto-me a ser julgado a cada dia
que me ponho de pé, sendo eu
jurado e réu, sendo eu a própria
sala, o próprio ambiente da sala
onde a cada dia se lê a condenação
que pelo meu punho pensei e escrevi.
Olho lá para fora enquanto me ataco
e defendo, pode ser um sítio qualquer,
pode ter árvores e casas, linhas
de eléctrico e grandes autocarros,
pode passar gente pobre, gente rica
em carros a brilhar de lavados, pode
passar todo o corpo da polícia a apitar,
um desfile de tanques de guerra,
trotinetas de crianças, velozes, descendo
o parque, o mesmo pedinte romeno
a desajeitar o gorro para lhe dar mais ar
de pedinte, podem passar as pessoas
todas do mundo que eu estou a olhar
para dentro, preocupado com a justiça
que um dia se há-de fazer, que um dia
hei-de fazer a mim mesmo. E sairei
depois sorridente como nos filmes,
ao cimo da escadaria, a acenar
a jornalistas, à família e a um pequeno
aglomerado de admiradores sinceros
que me seguem e me apoiam,
faça eu a porcaria que fizer.


Helder Moura Pereira





domingo, 3 de maio de 2020

BÁRBAROS





Nós é que éramos os bárbaros.
Pensando em nós é que vocês tremiam nos vossos palácios.
Era por estarem à nossa espera 
que o vosso coração batia desordenadamente.
Das nossas línguas é que vocês diziam:
talvez se componham só de consoantes, 
de frufus, sussurros e folhas secas.
Nós é que vivíamos nas florestas negras.
De nós é que tinha medo Ovídio em Tomi,
Nós é que adorávamos deuses com nomes
que vocês não conseguiam pronunciar.
Mas também nós conhecemos a solidão
e a angústia, e desejámos a poesia.


Adam Zagajewski





sexta-feira, 24 de abril de 2020

Inteligência Bruta






Regulando a inteligência um pouco abaixo
não é que perca força, mas algo se aproxima
do escuro. Talvez por haver sombras mais de perto

a vida em parte dói, em parte morre, e a atenção
começa a ser movida pelas iras. De tão forte
há crescimento de armas, golpes assustados
e aquele que persegue acaba por sangrar.

O sangue mancha tudo e excita o que era limpo
e cheirando a sangue o predador procura luras
escava o que magoa, remexendo em mais profundo.

São vastos os poderes de uma inteligência bruta
soprando grande império em devastação no mundo.


Carlos Poças Falcão




quinta-feira, 23 de abril de 2020

DEMORA





hoje seremos outros ao acordar:
da janela aberta, orquestrando nevoeiros,
escutaremos o sibilar insuspeito da penumbra
a inquietude do acorde menor
escreverá a letras de fogo a solidão das asas.

dormes um pouco mais:
um gotejar de vazio convence-te a ficar
mas nada explica esta demora
o corpo terno hibernando de mansinho
dando um indefeso descanso à sombra diligente

lá fora o dia acossado pelo medo à mercê das luzes estridentes
e aqui a tua pele espreguiça quente, beijando os lençóis descartáveis
enquanto os músculos se rendem a este crime perfeito perpetrado
a bandeira a meia-haste no palácio do sono
protege o casulo transparente em que habitas por agora

sem arrependimentos,
perdemos a tinta fresca do café,
as fotografias anónimas no túnel do marquês
e o paciente virar dos placares publicitários
amanhã vou entregar-me à deriva

deixarei de ser bicho-de-conta sem pressa
e procurarei abrigo nas paragens de autocarro



RICARDO GIL SOEIRO
in, CALIGRAPHIA DO ESPANTO





quarta-feira, 22 de abril de 2020

Males de Amor






as cordas da roupa estão lassas.
não sei porquê.
nada penduro nelas de pesado.
o que se despe
é sempre mais leve
do que o muito que se guarda.
tenho de encontrar alguém que as repare.
aproveito e verá também o chuveiro.
há muito que pinga.
como este indomável e constante dizer
em que caio
para não sufocar.
o dia está abafado
e eu assim me sinto.
meio asfixiado.
tenho de encontrar quem desbloqueie a janela.
está empenada.
tal como as articulações [ou serão os músculos?],
os dias e, tantas vezes, os sonhos.
estão cansados.
não sei se mais os primeiros, se os últimos.
e eu também.
canso-me facilmente.
a subir os dias,
a pendurar os sonhos,
a encharcar-me de memórias.
a pulsação acelera
e eu…
tenho de ver se encontro alguém que me veja isto.
já fui a uma cardiologista
mas ela confessou pouco saber de amor.


João Costa





domingo, 19 de abril de 2020

A si próprio, para o seu diário





Primeiras horas da manhã; ainda não escreves
(nem tentas escrever), preguiçosamente lês apenas.
Tudo é imóvel, sossegado, cheio, como
se fosse uma prenda oferecida pela musa da lentidão,

como aquele tempo, na infância, nas férias, quando durante muito tempo
se estudava o mapa colorido antes da excursão, o mapa
que tanto prometia,

ou mesmo antes de adormecer, quando ainda não há sonhos,
mas já se pressente o sobrevir deles de várias partes do mundo,
a marcha deles, o peregrinar, o velar deles ao pé da cama do doente
(doente de vigília) e a animação entre figuras medievais

contraídas numa eterna imobilidade por cima da catedral;
as primeiras horas da manhã, o silêncio
                                                               - ainda não escreves,
ainda tanto percebes.
                                  Aproxima-se a alegria.




Adam Zagajewski
in, Sombras de Sombras





quarta-feira, 15 de abril de 2020

TENTA LOUVAR O MUNDO ESTROPIADO


İlhan Maraşlı





Tenta louvar o mundo estropiado.
Recorda os longos dias de Junho,
e os morangos selvagens, as gotas de vinho rosé.
As urtigas que metodicamente invadem
as herdades abandonadas dos exilados.
Tens que louvar o mundo estropiado.
Olhaste os iates e os barcos;
um deles preparava-se para uma longa viagem,
enquanto um esquecimento salgado aguardava os outros.
Viste os refugiados partindo para nenhures,
escutaste os carrascos a cantar alegremente.
Devias louvar o mundo estropiado.
Recorda os momentos em que estávamos juntos,
num quarto branco e as cortinas esvoaçavam.
Regressa em pensamento ao concerto onde a música explodia.
Apanhaste bolotas no parque no Outono
e o redemoinho das folhas cobria as cicatrizes da terra.
Louva o mundo estropiado,
e a pena cinzenta que um tordo perdeu,
e a luz afável que se afasta e se desvanece
e regressa de novo.


Adam Zagajewski





quinta-feira, 9 de abril de 2020

A Intimidade do Sono







Acalmam-se os ventos,
as tempestades das ideias,
a desconexão dos nortes.
Acordar é, também, a surpresa
de se ter viajado nos caminhos do sono
onde se revela a existência
de outros mundos em paralelas existências.

Deixem-me acordar devagar
neste mundo incorrecto.
Deixem-me acordar sem neuras
nesta pressa de viver até morrer.
Deixem-me o sabor nectariano
das memórias ou, então, deixem-me
o entendimento de simbólicos pesadelos
para recordar o erro.

Deixem-me a saudade
do regresso. A preparação futura
da reintegração. Deixem-me
pelo menos os orvalhos sem ácidos,
as madrugadas iniciáticas
e deixem-me o caminho
das experiências onde me resolvo
no entendimento com o eterno
que dentro de mim reside.

Deixem-me a Obra por realizar
esta busca do Ouro da palavra.
Este mistério de nos dizermos
desde que princípio.
Deixem-me o poder das falas,
da comunicação, deixem-me
sem ódios e só com o laboratório das ideias.
Deixem-me a possibilidade das trocas
e que cada câmbio seja notícia de paz.
Deixem-me acordar
dentro do meu Paraíso.


LUÍS FILIPE SARMENTO
in, A INTIMIDADE DO SONO




sexta-feira, 27 de março de 2020

Sedento


Alexander Lefler




Havia meses que não escrevia 
nem um único poema. 
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder 
e nas causas da obediência. 
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação), 
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros 
e o silêncio da noite. 
Via os girassóis a pendurarem 
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído 
passeasse por entre os jardins. 
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos 
se escondiam nas curvaturas dos muros. 
Dava longos passeios, 
sedento duma coisa só:
dum relâmpago, 
duma mudança, 
de ti. 



Adam Zagajewski




sábado, 21 de março de 2020

O quadro do futuro






Havemos de ir ao futuro
Havemos de ir ao futuro
e quando lá chegarmos
hão-de estar no sofá os nossos pais
a cuidar dos sonhos que nos deram
Os nossos avós a encher de luzes a árvore de natal
Os nossos filhos, e os filhos deles
espantados e atrevidos como nós
Havemos de ir ao futuro
e quando lá chegarmos
hão-de estar todos juntos numa festa à nossa espera
mesmo os amigos que perdemos no caminho
Hão-de lá estar todos com balões de várias cores, bolo-rei
e ao fundo da sala um cartaz do tamanho da nossa idade
onde se lê: ainda bem que vieram
Havemos de ir juntos ao futuro
ou se não houver boleia para todos ao mesmo tempo
havemos de nos encontrar lá
Havemos de ir ao futuro e, no futuro, 
estará finalmente tudo, como dantes.


Filipa Leal
in, «Vem à quinta-feira»




terça-feira, 10 de março de 2020

Um Mover De Mão







se ao menos eu sentisse totalmente 
o movimento da terra em volta do sol. 
se eu pudesse conhecer o segredo 
da germinação sem roubar da terra 
a vida enorme, o rebentar largamente. 

se me fosse permitida a amplitude, 
a alegria, o agora das planícies 
em fim de tarde, e eu não mais 
precisasse de trabalhar a atenção, 
assim descalço sobre a realidade. 

promete-me que amanhã virá a lua 
e que, na imensidão da noite iluminada, 
cantaremos o mar um para o outro. 

promete-me que no fim terei existido.


Vasco Gato
in, Contra Mim Falo





sábado, 29 de fevereiro de 2020

SEM FORMA





Se houvesse só isto,
uma árvore na qual uma estrela dorme,
a catedral vazia de Chartres
e um guia impaciente
e mulheres esperando pelo comboio
e música fria como a saudade?
Se houvesse só isto,
governos alugando ministros
e ministros alugando polícias
e um anjinho
beijando os seus lábios de cera na cama
e dissidentes protestando
e manifestantes marchando
com crianças sorridentes
a música fria como a saudade
e a força que nunca dorme?
Se houvesse só isto,
as máscaras de morte dos poetas e os esqueletos
dos gigantes nas altas montanhas
e livros sobre o orgasmo dos animais
e negros bem vestidos que não
me vêm, e Keats gritando
e aqueles que estão ausentes e vestígios
tão leves como o arsénico
no cabelo de Napoleão, e máscaras imóveis
em rostos petrificados; os museus fechados
dos sonhos e a força que não quer
dormir e os símbolos maçónicos
Mozart escondido no seu Requiem,
enganando Deus desse modo: tanto por dizer,
e mulheres, que têm que viver neste momento
sem o terem pedido,
e países, livres uma vez,
descascados agora como maçãs,
e o tempo, que não cessa de mudar, e eu, eu próprio, maduro,
sem forma.


Adam Zagajewski









sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

ODE À MULTIPLICIDADE


Anh Nguyen





Não compreendo tudo e até
me alegro por o mundo — como um irrequieto
oceano — superar a minha capacidade
de entendimento do sentido da água, da chuva,
dum mergulho no Lago do Padeiro, perto
da fronteira entre a Alemanha e a Chéquia, em
Setembro de 1980; um pormenor, sem grande
importância, um profundo lago germânico.
Deixem o não-oxigenado Ego serenamente
respirar, deixem o nadador cortar a linha
do meridiano, é de noite, os mochos acordam
do sono diurno, ao longe
preguiçosamente rodam os carros. Quem alguma vez
tocou a filosofia, está perdido,
não o salvará o poema, há-de
ficar sempre um resto, um arrependimento, uma saudade
impossível de quantificar. Quem alguma vez adquiriu a noção da desvairada
corrida da poesia não vai conhecer nunca mais
o pedregoso sossego da prosa familiar,
em que cada capítulo é o ninho
duma geração. Quem alguma vez viveu não
se vai esquecer do mutável prazer das estações
do ano, até com as bardanas e as urtigas
há-de sonhar, e com as aranhas não muito
mais feias do que as andorinhas. Quem alguma vez deparou
com a ironia vai-se rir às gargalhadas
durante a conferência do profeta. Quem alguma vez
rezou com mais do que uma boca seca
há-de lembrar-se para sempre da presença dum estranho eco
proveniente de uma das paredes. Quem alguma vez
ficou calado, não vai querer falar
no momento da sobremesa, quem ficou paralisado pelo choque
do amor há-de voltar aos livros de
rosto transfigurado.
Ergues-te, ó alma singular, perante
o excesso. Dois olhos, duas mãos,
dez engenhosos dedos e
um único Ego, um gomo de laranja,
a mais jovem das irmãs. O prazer
de ouvir não estraga o prazer
de olhar, mas a embriaguez da liberdade corrompe
o sossego dos restantes e suaves sentidos.
Sossego, espesso nada, cheio de doce
sumo como as peras em Setembro.
Os breves instantes de felicidade desaparecem
sob uma avalanche de oxigénio, no Inverno a gralha-calva
solitária golpeia com o bico o branco
gelo da lagoa, noutro momento
um par de pica-paus assustados
com um machado procura para lá
da minha janela um choupo suficientemente doente.
Uma mulher ausente escreve longas
cartas e a saudade intumesce como
ópio; no museu egípcio num papiro
castanho está espalhada essa mesma
saudade, mais velha alguns milhares
de anos, inabalável e inabalada.
As cartas de amor acabam sempre
no museu. Os curiosos são mais
tenazes do que os apaixonados. O Ego
sorve o ar com avidez, a razão acorda
do sono diurno, o nadador sai
da água. Uma bela mulher faz o papel
duma mulher feliz, os homens fingem ser
mais corajosos do que realmente são,
o museu egípcio não esconde as fraquezas
humanas. Existir, oxalá se possa ainda existir,
entregando-se talvez ao poder
duma das estrelas frias. E às vezes
troçar dela, por ser fresca e escorregadia
como uma rã num charco. O poema cresce
na contradição mas não consegue recobri-la.





Adam Zagajewski
in, Sombras de Sombras






sábado, 15 de fevereiro de 2020

Dia 284






Estou vivo. Poderei acreditar nisso? Sei apenas que me
encontro no centro das coisas. No limite das coisas. Onde
gerações de mortais têm falhado. Lanço-me na inquietação,
vou ardendo nos troncos que alimentam as fogueiras brancas
do futuro. A poesia pode levar-me a casa. Os meus joelhos,
os meus ombros, estão próximos da linguagem, do sangue
dos sentidos, da irrepetível história do universo. Surpreende-me
a alegria da lâmpada, os animais que bebem da fonte do
crepúsculo, a hesitação e o medo que se abraçam nas esquinas,
a complexidade do que é simples. Também eu tenho um
punhal na minha gaveta. É um verso de Browning, uma lâmina
dramática e fria para o frio da língua. A felicidade está doente,
o frio dos meus joelhos sabe-o, é grande a coragem dos que
ainda querem saber das coisas, dos que não se interessam
pela purificação da ignorância e do esquecimento.
Sou amante do meu próprio amor, gosto de aplaudir a vida
recolhido na minha cabana cheia de estrelas e de amigos, a
minha memória é um cristal irreverente e interminável.
No dia seguinte do dia seguinte do dia seguinte, encontrarei a
saída do labirinto e saberei finalmente se, fora de mim, existe
um segredo, um qualquer segredo que eu deveria conhecer e
não poderia nunca ter esquecido.
A minha vida escapa-me mas, na verdade, só o que eu não sei
me preocupa.



JOAQUIM PESSOA
in, ANO COMUM






segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

SE EU FOSSE A TI







Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum mas a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia
para sempre de ti, de ali, comigo.
Se eu fosse a ti amava-me.
Dizia-me que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, seu fosse a ti.


Juan Vicente Piqueras





quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Instruções para atravessar o deserto






Não fujas do que sentes. Não te escondas 
no que dizes. Não digas mentiras.
Sê a tua voz. Faz. Trabalha. Não te queixes. 
Não sofras por medo de sofrer mais.
Não mendigues jamais o que mereces.
Por exemplo, o amor. Fá-lo e tê-lo-ás.
Funda no fogo firme da su fogueira
o teu lar, o teu ofício. E agradece ao ar
que entre e saia de ti. Sê a janela
do que vive. Olha com cuidado.
Há olhares que podem envenenar o mundo.
Não deixes que apodreça o que sentes
dentro de ti. Faz exame de consciência
de vez em quando mas nunca esqueças
que é possível que sejas inocente.
Abre o teu coração couraçado 
à união do céu com o mar,
da luz com a sombra,
do canto dos grilos com o das cigarras.
Pinta de azul a alma. Troca
o que foste pelo que não serás.
Limpa a tua casa. Diz o teu abismo.
Cozinha. Convida. Canta. Dança. Abraça.
Tira o pó da tua voz. Rega as plantas.
As dos pés também, no mar, em marcha.
Não te detenhas. Diante de ti os teus passos,
as tuas pegadas de amanhã, esperam-te, chamam por ti.
Não olhes para trás. Não sejas a tua estátua
de sal. E sai de ti, do que pensas
de ti. Sai desse quarto
escuro onde escreves os poemas 
que dizem o que tens de fazer em vez de o fazer.
Põe-te a andar. Faz. Trabalha. Não te queixes.
Vira a página. Vê. Olha. Sê atento
e fica atento. Não esqueças o que vives .
Não esqueças o que acabas de viver.
Não esqueças o que acaba. Acaba. Vai
em busca de uma voz nova, longínqua.
Não fujas do que sentes. Não permitas 
que a vida se perca no vazio,
que a morte ao chegar encontre 
já feito o seu trabalho. Olha o céu 
como quem diz adeus,
como quem agradece.


Juan Vicente Piqueras





quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

OS AMIGOS


Venkat Reddy




Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor



José Tolentino Mendonça 
in, A Noite Abre Meus Olhos






terça-feira, 28 de janeiro de 2020

SONETO





Também eu tenho um "hobby": é viver
minuto após minuto a minha vida,
se possível do lado em que souber
que vale mais a pena ser vivida.

Já deixei de sonhar com andorinhas
e com o deus à venda nos prospectos.
Recuso-me a entrar em capelinhas
pois faço à transparência os meus projectos.

Sei bem que os incapazes me detestam
e nem os preguiçosos aguentam
comigo a funcionar a todo o gás.

Contudo, cada um vale o que vale.
Porquê ambicionar ser imortal
se nunca saberei se fui capaz?



JOAQUIM PESSOA
in, SONETOS PERVERSOS





quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Resto De Gente





Sou pedaço de vida
deitado na Sombra
de uma multidão
sou força vencida
mergulhada e perdida
em desilusão
sou dor viciada
em choro e pranto
sem poder fugir
sou no sofrimento
o espelho do tempo
sem nunca o medir

Sou um rosto secreto
e incompreendido
na palavra sim
sou um resto de gente
vergado ao silêncio
não se riam de mim
sou povo enjeitado
em nudez de encanto
carrego minha cruz
sou um fado pesado
sou compasso trinado
sou canto sem luz

Se digo o que sinto
e minto no que sou
não o faço por querer
não me disfarço
nem me escondo
no falso sentido
do que acabo por ser
se me dou e desfaço
se luto esquecido
e vivo insatisfeito
sou no cinzento tristeza
verbo conjugado
pretérito imperfeito

Sou um rio parado
sem margens sem leito
sem fundo sem foz
Uma barca sem remos
sem redes sem leme
sem velas sem nós
Sou tarde poema
de versos sem rima
lenta de se pôr
sou por entre o nevoeiro
o que desaparece
e se apaga de cor

Sou um resto de gente
o que sobra do início
o que falta para o fim
vergado ao silêncio
não se riam mais de mim


João Jacinto
in, (Re)cantos da Lua





quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

CORAGEM





É necessário ter coragem para
aceitar os próprios defeitos,
questionar os próprios atos,
assumir os erros.
Aceitar os defeitos dos outros.
Enfrentar os mais fortes.
Dar a mão a quem mais ninguém dá.
Brincar como as crianças
Brincar com as crianças
Estar do lado das crianças, quando
falham,
estão tristes,
precisam de ajuda.
Estar do lado dos perdedores,
dos fracos,
dos desprezados,
dos esquecidos,
dos feios,
dos imperfeitos.

Não é necessário ter coragem para
censurarmo-nos a nós próprios,
censurar os outros,
bater nos mais fracos,
transferir responsabilidades,
virar as costas.
deixar as crianças entregues a si próprias quando
falham,
estão tristes,
precisam de ajuda.
Estar do lado dos vencedores,
dos fortes,
dos venerados,
dos bonitos,
dos perfeitos.

É necessário ter coragem para
Amar
Amparar
Ouvir
Libertar
Agradecer
Obedecer
Dizer a verdade
Praticar a justiça.

Não é necessário ter coragem para
Ralhar
Agredir
Despachar
Culpar
Desprezar
Controlar
Subjugar
Reprimir
Mentir.



CRISTINA TORRÃO
in, A MINHA PALAVRA - ANTOLOGIA DE ESCRITOS AVULSOS