segunda-feira, 29 de maio de 2017

A maioria dos homens aproxima-se de uma mulher com medo





A atitude depreciativa que muitos homens têm em relação às mulheres é uma tentativa inconsciente de controlar uma situação em que ele se sente em desvantagem; muitas vezes ele procura eliminar o poder da mulher, induzindo-a a agir como mãe.
Dessa maneira ele é liberto em grande escala do seu medo, pois na relação com a sua mãe quase todo o homem experimentou o aspecto positivo do amor da mulher.
Mesmo assim não está totalmente livre de apreensão, porque ao fazer com a que a mulher seja mãe dele, ao mesmo tempo torna-se criança e está portanto, em perigo de cair na sua própria infantilidade. Se isso acontece ele pode ser dominado por sua própria fraqueza, e uma vez mais deixa a mulher o poder da situação.
Consequentemente, a maioria dos homens aproxima-se de uma mulher com medo, não obstante seja um medo inconsciente, ou com a hostilidade nascida do medo ou, talvez, com uma atitude dominadora, para arrebata-la de um golpe.


in, Os Mistérios da Mulher 
M. Esther Harding




O ATOR





Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,

embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:

nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza

que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos

em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,

sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.

Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.


Eucanaã Ferraz
in, Cinemateca






Trees are sanctuaries...The Wisdom of Trees


Ali Jardine





Trees are sanctuaries.
Whoever knows how to speak to them, whoever knows how to listen to them, can learn the truth. They do not preach learning and precepts, they preach, undeterred by particulars, the ancient law of life.
Hermann Hesse



For me, trees have always been the most penetrating preachers. I revere them when they live in tribes and families, in forests and groves. And even more I revere them when they stand alone.

In their highest boughs the world rustles, their roots rest in infinity; but they do not lose themselves there, they struggle with all the force of their lives for one thing only: to fulfill themselves according to their own laws, to build up their own form, to represent themselves. Nothing is holier, nothing is more exemplary than a beautiful, strong tree.

Trees are sanctuaries. Whoever knows how to speak to them, whoever knows how to listen to them, can learn the truth. They do not preach learning and precepts, they preach, undeterred by particulars, the ancient law of life.

When we are stricken and cannot bear our lives any longer, then a tree has something to say to us: Be still! Be still! Look at me! Life is not easy, life is not difficult. Those are childish thoughts. Let God speak within you, and your thoughts will grow silent.

You are anxious because your path leads away from mother and home. But every step and every day lead you back again to the mother. Home is neither here nor there. Home is within you, or home is nowhere at all.

A longing to wander tears my heart when I hear trees rustling in the wind at evening. If one listens to them silently for a long time, this longing reveals its kernel, its meaning. It is not so much a matter of escaping from one’s suffering, though it may seem to be so. It is a longing for home, for a memory of the mother, for new metaphors for life. It leads home. Every path leads homeward, every step is birth, every step is death, every grave is mother.

So the tree rustles in the evening, when we stand uneasy before our own childish thoughts: Trees have long thoughts, long-breathing and restful, just as they have longer lives than ours. They are wiser than we are, as long as we do not listen to them.

But when we have learned how to listen to trees, then the brevity and the quickness and the childlike hastiness of our thoughts achieve an incomparable joy. Whoever has learned how to listen to trees no longer wants to be a tree. He wants to be nothing except what he is. That is home. That is happiness.



― Hermann Hesse
in, "Trees: Reflections and Poems"






Now and again, it is necessary to seclude yourself among deep mountains and hidden valleys to restore your link to the source of life. Breathe out and let yourself soar to the ends of the universe; breathe in and bring the cosmos back inside…
~Morehei Ueshiba

There’s nothing to prove, nothing to figure out, nothing to get, nothing to understand.
When we finally stop explaining to ourselves, we may discover that in silence, complete understanding is already there.

~Steve Hagen

The world is not a problem to be solved, it is a living being to which we belong. The world is part of our own self and we are a part of its suffering wholeness. Until we go to the root of our image of separateness, there can be no healing. And the deepest part of our separateness from creation lies in our forgetfulness of its sacred nature, which is also our own sacred nature.
~Llewellyn Vaughan-Lee

Empty yourself of everything. Let the mind become still. The ten thousand things rise and fall while the Self watches their return. They grow and flourish and then return to the Source. Returning to the Source is stillness, which is the way of nature.
~Lao Tsu
Tao Te Ching, Verse 16


In the woods, we return to reason and faith… Standing on the bare ground – my head bathed by the blithe air, and uplifted into infinite space – all mean egotism vanishes.
I become a transparent eye-ball; I am nothing; I see all; the currents
of the Universal Being circulate through me…

~Ralph Waldo Emerson


Be as simple as you can be; you will be astonished to see
how uncomplicated and happy your life can become.

~ Paramahansa Yogananda 




When we have learned how to listen to trees, 
then the brevity and the quickness 
and the childlike hastiness of our thoughts 
achieve an incomparable joy. 

Hermann Hesse 
in, Trees: Reflections and Poems






domingo, 28 de maio de 2017

Divergências





No trabalho, em família...não dizia nada para não entrar em conflito, e chorava sozinha.
Tinha vergonha, dificuldade em falar com a pessoa.
Hoje em dia não.
Quando fica um ruído, não ficas inteira com a pessoa.
Então, eu acho que é bom limpar.
As relações fortalecem-se quando a verdade e a sinceridade aparecem.
Eu sento e digo:
Vamos conversar?
Vamos resolver isto?
O que é que aconteceu?
Qual é o teu ponto de vista?
O meu é este.
Vamos chegar a um consenso?
Sinceridade e verdade...sempre...mas sem machucar!



Mariana Ximenes



Love is an Adventure




Love is an adventure and a conquest.
It survives and develops like the universe itself only by perpetual discovery.
The only right love is that between couples whose passion leads them both, one through the other, to a higher possession of their being.
Put your faith in the spirit which dwells between the two of you.
You have each offered yourself to the other as a boundless field of understanding, of enrichment, of mutually increased sensibility. You will meet above all by entering into and constantly sharing one another’s thoughts, affections, and dreams.
There alone, as you know, in spirit, which is arrived through flesh, you will find no disappointments, no limits.
There alone the skies are ever open for your love; there alone lies the great road ahead.


Pierre Tielhart de Chardin





O Sexo e a Idade II


Picasso



Pus-vos a mão um dia sem saber
que tão robusta e certa artilharia
iria pelos anos fora ser
sinal também de lêveda alegria

amigos meus colhões quanto prazer
veio até mim em vossa companhia
a hora que tiver já de morrer
morra feliz por tanta cortesia

adeus irmãos é tempo de ceder
à dura lei que manda arrefecer
o fogo leviano em que eu ardia

camaradas leais do bem foder
o brio a fleuma cumpre agradecer
sem vós teria sido uma agonia



Fernando Assis Pacheco 
in, Respiração Assistida




sábado, 27 de maio de 2017

A Missão de Continuar a Vida






Ninguém se pode possuir inteiramente, porque se ignora, porque somos um mistério.
Para nós mesmos.
Podemos sim, ser mais conscientes de uma determinada missão que temos no mundo.
Todos nós somos uma missão. Somos a missão de continuar a vida, aperfeiçoando-a, festejando-a e não destruindo-a como se está a fazer hoje.

Eu não tenho certezas, mas tenho convicções e uma das minhas convicções mais firmes é que nascemos para a liberdade.

E, no entanto, veja o paradoxo: 
Essa liberdade, esse caminho para a liberdade está a ser cada vez mais obscurecido por aquilo que observamos no nosso mundo de hoje.
Nós chegamos a esta coisa terrível, o chamado equilíbrio nuclear, que é o jogo de escondidas de duas disponibilidades criminosas para suprimir a humanidade.
A humanidade está hoje pronta (parece que está sempre pronta!) para pôr luto por si própria.
Isto não é uma forma humana de viver.

Esta tragédia tem que ser a sua «húbris», que é, digamos, a arrogância que desencadeia a catástrofe punitiva. E o que me perturba muito, o que me assusta, é que países que subscrevem, que proclamam os direitos humanos, possam entrar num jogo fatal destes, um jogo que se destina a suprimir o homem.



 Natália Correia




NÃO SEI, AMOR, SE TE CONSINTO





Não sei, amor, sequer, se te consinto
ou se te inventas, brilhas, adormeces
nas palavras sem carne em que te minto
a verdade intemida em que me esqueces.

Não sei, amor, se as lavas do vulcão
nos lavam, veras, ou se trocam tintas
dos olhos ao cabelo ou coração
de tudo e de ti mesma. Não que sintas 

outra coisa de mais que nos feneça;
mas só não sei, amor, se tu não sabes
que sei de certo a malha que nos teça,

o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça,
o princípio de sol que nos acabes.



PEDRO TAMEN
in, TÁBUA DAS MATÉRIAS




SAI DAÍ, MULHER!





Um dia, você pode se dar conta de que anda contando muitas histórias para si mesma. 
De que para justificar suas escolhas, sua inércia ou suas frustrações você constrói teorias, manipula lembranças e até inventa fatos. Um dia, para seu desconforto, pode perceber que não cabe mais nas suas desculpas, que a torre na qual se encastela não a protege de nada, a não ser de viver novas experiências e, pior, que a porta esteve sempre aberta, e você é que não sai.

Nesse dia, você vai ficar assustada, sem saber para onde ir. Ótimo. Você começou a buscar a brecha no círculo.

Sabe aquela frase “É ruim, mas é bom?”

Círculos viciosos são labirintos internos com ar viciado e saídas invisíveis, feitos de conformismo, pensamentos obsessivos, dores estagnadas e desculpas esfarrapadas. São prisões, às vezes douradas e glamurosas, que vamos levantando ao nosso redor, armaduras que vestimos em nome da proteção e da estabilidade. Sim, somos mestres em boicotes, adiamentos e autocomiseração. Engendramos raciocínios sofisticados para legitimar o que fazemos e afastar o que não queremos ver, maquiando lembranças de felicidade. Adoramos justificar as derrotas e polir nossas dores, apegando-nos a elas. As dores, muitas vezes, viciam e nos fazem andar em círculos. São veneráveis desculpas. Cuidado com suas dores. Depois de bem vividas, livre-se delas.

Círculos viciosos são infernais porque encerram a eterna repetição e a impossibilidade de mudança. Como no mito, rolamos, todo dia, ladeira acima, a pedra que invariavelmente descerá ladeira abaixo.

No quesito relacionamento, a coisa é complicada.

É difícil perceber porque toda repetição dá uma ideia de segurança, mesmo que seja falsa e nociva. Empacamos em relações falidas, frustrantes. Repetimos padrões de comportamento desgastados, insistimos em velhas fórmulas e reagimos de maneira condicionada, recorrendo sempre aos mesmos expedientes e repertórios. Gastamos um tempo enorme convencendo-nos de que estamos fazendo a coisa certa, trabalhando no lugar certo ou ficando com a pessoa certa. Justificamos nossos desconfortos, desprezamos nossa intuição e desconsideramos cenas explícitas de horror ou desrespeito. Vamos nos enredando em apatia, sem-graça ou descontentamento mudo; queremos que nossos investimentos pessoais – emocionais e profissionais – deem certo, e  às vezes pagamos para ver, e pagamos caro. Vamos compondo aqui, empurrando com a barriga ali, enquanto pensamos: “É assim mesmo, uma fase, vai passar”, ou então “Detesto o que faço, mas o salário compensa”, ou ainda “Ele tá assim porque anda muito estressado, coitado”. Algumas vezes, é realmente assim mesmo, uma fase e vai passar; às vezes não.

Respeite a pulga atrás da orelha.

Fique atenta àquela inquietação sem nome, às causas da sua insónia e às somatizações: alergias, gastrites, crises asmáticas. Fique esperta com seus devaneios. Para onde vai seu pensamento quando você está indo para o trabalho, ou voltando para casa? Fique incomodada com certos silêncios: tem coisa mais triste do que aqueles casais nas mesas de restaurantes que não conversam, comem em silêncio sem se olhar e ficam aliviados quando o celular toca ou entra uma mensagem? Fique atenta às suas fantasias: sexo, beijo, intimidade, tudo é termómetro.

Chame para si o ónus das suas escolhas. A DR é com você mesma, não tem jeito. Não terceirize responsabilidades.

Temos mania de atribuir ao outro nossos fracassos e frustrações; passamos procurações de “Faça me feliz e realizada” e depois reclamamos quando as coisas não acontecem como imaginávamos. O outro é o outro e não vai salvá-la nem tapar seus buracos. O outro pode ate até ajudado a armar o laço, mas foi você quem entrou e, pior, ficou. Não atribua ao outro o que é seu. Rasgue o cartaz Vítima Procura Algoz.

Saia da fila, abra janelas, mude o canal. Permita-se dizer não, aquele não que é sim. Cometa novos erros, tenha novas manias, vícios, rotinas, mas quebre a corrente. Livre-se do eco das velhas conversas e falas previsíveis. Faça outras perguntas, busque outras respostas. Exercite o por que não? e o por que sim?

Círculos viciosos se rompem com inconformismo e o inconformismo é um vírus que faz aumentar a lucidez e a coragem. Não precisa chutar o balde, queimar a casa, virar a mesa; não precisa se separar, sair do emprego, mudar de cidade. Apenas pare de andar em círculos, como aqueles brinquedos movidos a pilha, que se repetem até esgotar a energia.

Um dia, você pode se dar conta de que está pronta para mudar, andar em outra direção. É como acordar sem febre depois de um longo período de agonia. Nesse dia você enxergará as saídas até então invisíveis, sentirá uma coragem tranquila e, sem alarde, romperá as barras que são, quase sempre, imaginárias.



Hilda Lucas




sexta-feira, 26 de maio de 2017

Cambiar un sufrimiento continuado e inútil por un dolor más inteligente





Propiciar una ruptura con la persona que te hace sufrir, así la ames, implica cambiar un sufrimiento continuado e inútil por un dolor más inteligente que se absorbe gracias a la elaboración del duelo:

“Te amo, pero te dejo. Y lo hago, no porque no te quiera, sino porque no me convienes, porque no le vienes bien a mi vida...” 

Cambiar de carril, cambiar un dolor interminable y sostenido por otro, de feliz desenlace, aunque el amor insista, te empuje y te idiotice.


Walter Riso











Narciso

“Retomaríamos aqui, ainda que de outra forma, o mito de Narciso.
A tragédia que o mito de Narciso descreve não diz respeito apenas à incapacidade de amar, ou ao amor voltado para si mesmo e que exclui o outro, mas também nos remete para a impossibilidade de alguns sujeitos terem uma vida própria, na medida em que submergem no desejo ou na dificuldade de quem cuidou deles nos momentos iniciais.
É que a mãe de Narciso, por temer que a beleza dele pudesse ofender os deuses ignora e interdita nele o que ele tem de mais particular: a sua beleza. Narciso, por sua vez, submetendo-se ao temor materno, fica cego em relação à sua própria beleza, desconhecendo o que há de mais singular em si próprio”.
Carlos Amaral Dias
in, O obscuro Fio do Desejo Fim de Século





O NARCISISMO ESTUPIDO

"Uma vez na vida (tomara que fosse só uma vez), confrontamo-nos com personagens que se atribuem a si próprio um valor que não têm, julgam-se melhores e mais capazes do que na realidade são.
E reiteradamente insistem em exibi-lo.
Quem são estas personalidades?
Que características possuem?

Trata-se do narcisismo “estúpido” como lhe chama Carlos Amaral Dias, em "Costurando as Linhas da Patologia Borderland (os estados-limite): o individuo acredita (ou quer acreditar), que não há distância, pequena que seja, entre o que é como pessoa e aquilo que gostaria de ser. Julga-se magnifico, para além das suas possibilidades, embora apresente sentimentos dramáticos de nulidade quando o outro ou a realidade não o aprovam.
Esta fusão que resulta na crença de uma autossuficiência idealizada, coloca o sujeito, segundo este autor ,“perante uma impossibilidade e uma confusão entre o eu ideal e o ideal do eu” e incapacita-o para as relações de intimidade – o outro nunca está à altura de participar no Olimpo onde o sujeito habita.
Não se precisa de mais ninguém e nem de tratar bem os outros - é sempre um narcisismo destrutivo."



“Nos casos de narcisismo destrutivo, o sujeito sente-se tão ameaçado pela existência no exterior de pessoas das quais depende, e sente tanta inveja delas, que, para manter a sua posição omnipotente de “senhor de tudo o que vê” , tem necessidade de levar a cabo uma eliminação imediata do objeto. Os aspetos patológicos do narcisismo – abordagem dos outros como meios em vista dos próprios fins, egocentrismo implacável, ausência de empatia – são todos eles, manifestações desta necessidade movida pela inveja de negar a importância do objeto”.
Jeremy Holmes



O psicanalista Alexandre Simões contextualiza o que vem a ser o narcisismo, sob a perspectiva da Psicanálise. No que tange ao narcisismo, aborda as relações do sujeito com a imagem, a identificação e o investimento. Enfatiza, ainda, a interação entre fascínio e servidão para, daí, indicar que o processo analítico caminha na contramão dos excessos do narcisismo:


                               






Ode ao Destino






Destino: desisti, regresso, aqui me tens. 

Em vão tentei quebrar o círculo mágico 
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças, 
do recolher felino das tuas unhas retracteis 
- ah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso 
esperando já sentir o próximo golpe inesperado. 

Em vão tentei não conhecer-te, não notar 
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam  
                            que eu, de soslaio, e disfarçando, observava  [em bandos,                           
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros, 
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna. 

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te, 
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias; 
descendo à fé só em mim próprio, até busquei 
sentir-te imenso, exacto, magnânimo, 
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu. 

Lei universal que a sem-razão constrói, 
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses, 
soberana essência do real anterior a tudo, 
Providência, Acaso, falta de vontade minha, 
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura, 
complexos variados mais ou menos freudianos, 
contradição ridícula não superada pelo menino burguês, 
educação falhada, fraqueza de espírito, a solidão da vida, 
existirás ou não, serás tudo isso ou não, só isto ou só aquilo, 
mas desisti, regresso, aqui me tens. 

A humilhação de confessar-te em público, 
nesta época de numerosos sábios e filósofos, 
não é maior que a de viver sem ti. 
A decadência, a desgraça, a abdicação, 
os risos de ironia dos vizinhos 
nesta rua de má-nota em que todos moramos, 
não são piores, ah não, do que no dia a dia sem ti. 
É nesta mesma rua que eu ouço o amor chamar por mim, 
é nela mesma que eu vejo emprestar nações a juros, 
é nela que eu tenho empenhado os meus haveres e os dos outros, 
nela que se exibem os rostos alegres, serenos, graciosos, 
dos que preparam as catástrofes, dos que as gozam, dos que são  
É nesta mesma rua que eu [as vítimas,
ouço todos os sonhos passar desfeitos. 

Desisti, regresso, aqui me tens, 
coberto de vergonha e de maus versos, 
para continuar lutando, continuar morrendo, 
continuar perdendo-me de tudo e todos, 
mas à tua sombra nenhuma e tutelar. 




Jorge de Sena
in "Pedra Filosofal"





quinta-feira, 25 de maio de 2017

Seiscentos e Sessenta e Seis





A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas: há tempo…
Quando se vê, já é sexta-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado.
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.



Mário Quintana
in, "Esconderijos do Tempo"





Não me assusta a ideia de ficar sozinha





Verdadeiramente, não me assusta a ideia de ficar sozinha.
Porque acho que tenho trabalhado a minha companhia durante estes anos.
E sou pessoa inteira para se estar. 

Assusta-me mais, a ideia de não me vir a apaixonar outra vez, porque não há fatia de presunto Joselito, nem tinto reserva, nem saco de gomas ácidas que te dê o que te dá uma paixão.
Mas não dá para viver esperando por isso, porque o buraco alarga quando se espreita para dentro.
E nós somos o segredo de nós mesmos.
E não há vazio algum nesse amor próprio que pouco se reclama.

Estar numa relação é maravilho (quando é efectivamente maravilhoso) a cumplicidade e a partilha enriquecem os momentos e a vida ganha lustro.
Mas há campos de petróleo, salinas e minas de diamantes aqui dentro, onde pouco procuramos, quando andamos em desespero à espera que um outro, que ninguém sabe bem quem, nos salve. 

Somos tão egoístas em geral e nesse capitulo tão singular do amor, depositamos toda a generosidade num outro.
Dá mais preguiça aprender a gostar de nós que curtir o próximo. 
Não devia ser tão mais tentador viver apaixonado por nós mesmos?
Sem o narcisismo convicto dos egocêntricos, nem a altivez dos egoístas.
Aprender a gozar-nos, a descobrir na nossa companhia um vício bom e não um antídoto da solidão.

Como é que as relações hão de ser plenas, se as pessoas já entram à espera de serem completadas?
É um meio gás que só é bom para os refogados.

O vício da companhia é lixado, eu sei.
Dependente assumida de pessoas.
Não há pior droga que não saber estar sozinho.
Como se nos abandonassem numa casa assombrada, tal é o pânico da antestreia de nós mesmos. 
Mas devia ser ambição de todos. 

Esse amor-próprio que define o próprio amor, essa condição que define o sucesso da equação inteira.
Falta-nos pouco dentro de nós.
Pouco mais, que puxar pelo descobridor destemido que vai às entranhas do ser.
O que é que podemos encontrar que não seja pertença de nós mesmos?
E que se dê de caras com uma alma desmazelada!

Aproveite-se o encontro para lhe puxar o brilho.
Eu já me enfiei lá para dentro.
E não precisam de levar telefone com lanterna acesa.
Eu também achava.
Mas não é escuro.
É luz.



Isabel Saldanha





...........................o histórico de um caso de insanidade





Ninguém tem o número exato porque não foram mantidos registos, mas acredita-se que ao longo de 300 anos, entre 3 e 5 milhões de mulheres foram torturadas e mortas pela "Santa Inquisição", uma instituição fundada pela Igreja Católica Romana para reprimir a heresia.

Esse acontecimento se equipara ao Holocausto como um dos capítulos mais sombrios da história da humanidade. 

Bastava uma mulher mostrar amor pelos animais, caminhar sozinha nos campos ou nas florestas ou colher plantas medicinais para ser considerada bruxa, torturada e condenada a morrer queimada na fogueira.

O sagrado feminino foi declarado demoníaco e toda uma dimensão desapareceu significativamente da experiência humana.

Outras culturas e religiões, como o judaísmo, o islamismo e até mesmo o budismo, também reprimiram a dimensão feminina, embora de uma maneira menos violenta.

O papel das mulheres foi reduzido a cuidar dos filhos e da propriedade masculina. 
Os homens, que negavam o feminino até dentro de si mesmos, agora comandavam o mundo, um mundo que estava em total desequilíbrio.

O resto é história, ou melhor, o histórico de um caso de insanidade.


Eckhart Tolle
in, O Despertar de Uma Nova Consciência




Quando chegavam à fogueira para serem queimadas vivas, já iam completamente destruídas...expropriadas, humilhadas, torturadas nuas, violadas pela Santa Inquisição.
E depois de tudo isto, as mulheres continuam até hoje submissas à Santa Igreja (80% da população portuguesa continua a ser devota desta monstruosidade...como é que é possível.)

No meu caso, desde nova senti que ao ser devota do Monstro Vaticano, estaria a trair as mulheres que foram torturadas, violadas e queimadas vivas...as minhas ancestrais...
Estaria a compactuar com o Monstro Predador.
Não as podemos esquecer NUNCA...principalmente nós mulheres.
Mulher que se preze não poderá nunca ser católica.
Não poderá nunca esquecer o que a Santa Igreja fez às mulheres...e de uma forma mais subtil, continua a fazer nos dias de hoje...
Estarão a trair-se a si próprias!

Mas também não podemos ficar presas a esse passado, ao que foi e é o Sistema Patriarcal!!!!!!
Temos de parar com o queixume, com o julgar e condenar o Sistema Patriarcal e os Homens, e mudar de direcção na vivência do dia-a-dia.
Curar as feridas sem medo do que iremos descobrir cá dentro e, mudar o nosso futuro e das gerações que virão através de nós.
Mas sem queixumes, sem vitimização, sem condenar, sem julgar, sem projectar...

Já dizia o Buckminster Fuller:






Igreja Católica Romana, criada pelo Homem, pelo Sistema Patriarcal, que criou o Mito da Eva e do Adão para que as mulheres ficassem submissas aos homens e "aguentassem a sua cruz até ao fim tal como Cristo aguentou a sua" como ouvi todos os dias na casa onde nasci, e na casa da minha avó materna...

As religiões enfraqueceram, diminuíram as mulheres...dividiram-nas em "Santas ou Putas"(México, 8 de Março, 1991)...sendo que as Santas são as que vivem de acordo com o que o Vaticano manda, sem questionar...e também, as que vivem de aparências, para não serem julgadas e condenadas pela comunidade católica mas, quando ninguém vê fazem o que querem e bem lhes apetece, e no Domingo de manhã estão na missa para que toda a gente as veja...
Há que manter as aparências e saber vender bem o seu peixe...
Mais vale parecer, do que ser.
Das duas, não sei qual é a pior...

Esta devoção, anulação e submissão passou de geração em geração, através do ADN Mitocondrial, da mãe da bisavó para a bisavó, da bisavó para a avó e suas irmãs, da avó para as suas filhas, das suas filhas para as suas netas... até que surgem umas "bruxas" que cortam com esse Cordão Umbilical e traçam um novo caminho, para si e para as suas filhas e as novas gerações que irão surgir...é este um dos grandes poderes das mulheres na Humanidade!

Eu já passei por várias fases...este blog retrata bem isso: 
O Budismo Zen, o Taoismo, o Paganismo e o Sagrado Feminino, o Xamanismo, e agora pelo Agnosticismo.
Tudo fez e faz parte de um processo de Metamorfose, de corte com esse Cordão Umbilical.

Para mim, TODO O SER HUMANO, está muito para lá de Homens e Mulheres, de Deuses e Deusas.
TODOS SOMOS UM, antes desta experiência na matéria no Planeta Terra.
Umas vezes vimos na forma de homens, outra de mulheres, para podermos vivenciar a dualidade da 3D...apenas isso...mas será sempre apenas uma identificação momentânea, com prazo de chegada e de partida...
Aqui na Terra, somos todos apenas personagens com prazo de validade!!!!!!
TODOS, Homens e Mulheres, temos um Sagrado Feminino e um Sagrado Masculino dentro de nós que necessita de ser equilibrado diariamente, e dessa forma integramos essa polaridade em nós.
É para isso que cá estamos neste curto espaço de tempo da nossa memória...
Nós Mulheres, não somos só Sagrado Feminino...também somos Sagrado Masculino.
O mesmo acontece com os Homens.
O caminho é CURAR ambas as energias em nós, a Feminina e a Masculina.

Quanto a nós que estamos cá como mulheres, também já fomos homens noutras vidas passadas, e na próxima vida quem sabe não viremos como homens novamente...com toda a certeza já fizemos muito mal às mulheres de gerações passadas...temos de ter isso muito presente.
Por isso é que, na minha opinião, no meu caso que estou cá como mulher durante uns anos, o importante é curar feridas, desta vida e de vidas passadas, na forma de mulher e de homem, e cortar com esse Cordão Umbilical do nosso ADN Mitocondrial, sem queixumes e sem estar presa ao passado e ao que foi...

Temos de ter consciência do passado, da nossa história, e de que com toda a certeza estivemos de ambos os lados da barricada, umas vezes como presas e outras como predadores MAS, o importante é limpar o nosso Karma sem medo, olhar a nossa Sombra olho no olho, curar as feridas desta vida e de vidas passadas e libertarmo-nos de uma vez por todas deste Demiurgo, desta Matrix que nos mantém aqui escravizados durante vidas sucessivas há muitos séculos.
Mas, para isso temos de nos livrar de religiões, de Deuses e Deusas, de Santos e Santas, de Anjos e Trabalhadores da Luz, de alimentar energeticamente entidades que são autênticos vampiros de energia, que vivem energeticamente de serem adorados em altares religiosos...

Vamos Ser LIVRES!!!!
Regressar a Casa, e não voltar mais ao planeta Terra e à 3D...
Vamos mudar de Frequência Vibratória e regressar à Fonte.




QUE O VÁCUO CÓSMICO  ESTEJA CONNOSCO























quarta-feira, 24 de maio de 2017

O nosso direito a dizer "não"





"Olá, como é que te chamas? 
Desculpa, não te conheço. Estou com os meus amigos. 
Vá lá, diz-me só como te chamas. 
Não quero mesmo falar, desculpa. 
Não? Porquê? 
Não quero... 
Anda lá, eu sei que queres! 
Não, não quero, estou ocupada. 
Achas que és boa, é?"



Ser mulher é ter de dizer "não" muitas vezes, porque um "não" raramente basta. 
Vamos naturalizando estes frequentes encontros, estes diálogos, e acabamos por encontrar as nossas próprias estratégias de defesa. Não dar demasiado nas vistas em certos ambientes, ou ter os amigos por perto para nos safar se a situação complicar.
Habituamo-nos a esta insistência desconfortável da mesma forma que a sociedade se habituou a desculpá-la. 
Porque se estou ali sozinha é porque quero conhecer alguém.
Porque se digo que não é porque me quero fazer de difícil.
Porque se te olho é porque te quero provocar, e se te provoco é porque quero alguma coisa, mesmo que diga que não.

Já não as sentimos como tal, mas são violações, de diferentes formas, com diferentes graus de agressividade.
Do tipo insistente do bar à oferta sexual que nunca pedimos ou desejámos.
Do estranho que nos toca ao amigo que nos beija sem que queiramos, ou ao sexo não consentido, mas que até aconteceu sem resistência por qualquer razão, podendo a razão ser uma bebedeira.
Conheço os contornos das histórias que encaixam nestas descrições.
São as histórias das minhas amigas, e, nalguns casos, também as minhas.

A cultura da violação não vive apenas da imagem agressiva e violenta que o termo convoca. 
O piropo que não pedimos, o assédio light, a insistência desconfortável, o gesto não consentido partem todos do mesmo princípio.
O princípio que o "não" de uma mulher vale menos que a vontade ou desejo de um homem.
E que ao homem é dado o direito de expressar essa sua vontade, mesmo que isso signifique ir contra o direito de uma mulher se sentir incomodada, de não querer ser alvo dela.

A igualdade entre homens e mulheres teve importantes avanços nos últimos anos.
Mas há direitos que não se conquistam apenas pela via legal, e há preconceitos que permanecem e se atualizam. 
O direito à igualdade do "não" é um deles. 

No dia 25 de maio, pelo menos em Lisboa e no Porto, as mulheres sairão à rua para dizer Não à Cultura da Violação. 
Que sejamos muitas.



Mariana Mortágua




Sadhguru - O que é Deus?

Deixai que a Vida sobre Vós Repouse





Deixai que a vida sobre vós repouse 
qual como só de vós é consentida 
enquanto em vós o que não sois não ouse 

erguê-la ao nada a que regressa a vida. 
Que única seja, e uma vez mais aquela 
que nunca veio e nunca foi perdida. 

Deixai-a ser a que se não revela 
senão no ardor de não supor iguais 
seus olhos de pensá-la outra mais bela. 

Deixai-a ser a que não volta mais, 
a ansiosa, inadiável, insegura, 
a que se esquece dos sinais fatais, 

a que é do tempo a ideada formosura, 
a que se encontra se se não procura. 



Jorge de Sena
in, "As Evidências"






...................................... morrer por dentro





Às vezes 
você tem que morrer por dentro 
para levantar-se das suas próprias cinzas 
e acreditar em si mesmo 
e amar a si mesmo 
para se tornar uma nova pessoa. 


Susana Hilmer





.................................... é uma declaração pública de:





Queixume 
é uma declaração pública de falta de poder pessoal.

Julgamento 
é uma declaração pública de ignorância espiritual.

Culpa 
é uma declaração pública de irresponsabilidade Karmica.

Arrogância 
é uma declaração pública de insegurança emocional.

Medo 
é uma declaração pública de falta de fé na ordem maior.

Perfeccionismo 
é uma declaração pública de ilusão e medo.

Crítica 
é uma declaração pública de falta de amor próprio.

Vitimização 
é uma declaração pública de imaturidade.



Vera Luz




terça-feira, 23 de maio de 2017

Silêncio, silêncio…






Fechem as máquinas de falar, desandem os botões da verbosidade, façam má cara aos visitantes, despeçam os oradores oficiais, cancelem o contrato dos conferencistas.
Silêncio, silêncio…

Escondam o rosto um momento, desçam as cortinas, preguem as janelas, chorem, se quiserem, mas silêncio! Dai tempo a ouvir um anjo que passa, uma cigarra que canta, uma pedra que rola, uma flor que morre.

Também isto é sério, também isto é justo, também isto é revelação, e caridade, e inteligência.
Dai tempo a vós próprios, que sois vivos e que o podeis saber.
E silêncio.


Agustina Bessa-Luis 
in, Embaixada de Calígula





E isto era chamado de amor...





Quando ele olhou seus olhos negros, ele entendeu a parte mais importante e mais sábia da linguagem de que o mundo falava, e que todas as pessoas da Terra eram capazes de entender em seus corações. E isto era chamado de amor, uma coisa mais antiga que os homens e que o próprio deserto, e que no entanto ressurgia sempre com a mesma força onde quer que dois pares de olhos se cruzassem como se cruzaram aqueles dois pares de olhos diante de um poço.
Os lábios finalmente resolveram dar um sorriso, e aquilo era um sinal, o sinal que ele esperou sem saber durante tanto tempo em sua vida, que tinha buscado nas ovelhas e nos livros, nos cristais e no silêncio do deserto (...)
E quando estas pessoas se cruzam, e seus olhos se encontram, todo o passado e todo o futuro perdem qualquer importância, e só existe aquele momento, e aquela certeza incrível de que todas as coisas debaixo do sol foram escritas pela mesma Mão. A Mão que desperta o Amor, e que fez uma alma gémea para cada pessoa que trabalha, descansa e busca tesouros debaixo do sol.
Porque sem isto não haveria qualquer sentido para os sonhos da raça humana.


Paulo Coelho
in, Alquimista



LUA ADVERSA





Tenho fases, como a lua, 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso.
E roda a melancolia 
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém 
(tenho fases, como a lua...). 
No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua... 
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu...


CECÍLIA MEIRELES
in, VAGA MÚSICA