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terça-feira, 6 de maio de 2014

Pedro Chagas Freitas


Tenho aqui uma etiqueta dedicada a um escritor que se chama Pedro Chagas Freitas.
Um escritor do Norte, dá cursos de Escrita Criativa, que está muito na moda hoje em dia.

Mas, ultimamente, já nem o consigo ler...
E isto faz-me pensar...
Como é que houve dias em que gostei de o ler?

Ando cansada de ler o que escreve, e da maneira que escreve,  com aquela escrita a rasar o pornográfico!
E para piorar a coisa, vi aqui na net, no site da RTP2, uma entrevista que ele deu,que me deixou uma impressão muito, mas mesmo muito má...parece-me uma pessoa muito arrogante, pretensioso e vaidoso.
Como é óbvio, posso estar enganada sobre a pessoa.
Por isso estou tão pensativa em relação a mim...como é possível eu ter gostado de o ler a dada altura?

Neste momento não tenho nenhuma pachorra para o ler.
Como é que eu a certa altura gostei de o ler...confesso que foi sempre um amar/odiar...umas coisas gostava, e outras odiava...tal como me acontece com o Pedro Paixão.

Lembra-me os tempos em que andava com um certo tipo de pessoas, que só trabalhavam, saiam à noite, juntavam-se em esplanadas a contar anedotas, a rebaixar as mulheres, e nós feitas parvas ainda nos riamos à desbragada...que idiota que eu era...
Mas éramos todas umas gajas fixes:
Riamos-nos dos homens a rebaixar as mulheres, gostávamos de futebol, bebíamos e comportávamos-nos como os homens...porque é assim que eles gostam que as mulheres sejam...
Essas é que são as bacanas!

Confesso que me deu vontade de eliminar a Etiqueta que tenho aqui dele...mas, por outro lado, que se dane...
Se o fizesse, teria de eliminar muitas outras coisas, como por exemplo do Fernando pessoa, que de vez em quando também se sai com cada uma...misoginia temporária, sei lá.
Mas este será o último post aqui nesta etiqueta, com toda a certeza!

Hoje estou mesmo chateada comigo própria!!!!!!!
Mas, faz tudo parte do Caminho...

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O segredo para ter mais não é ter mais; é precisar de menos.


E saboreá-lo ainda mais.
O gajo mais feliz do mundo não é, nunca é, o gajo que tem mais coisas do mundo.
O gajo mais feliz do mundo é, é sempre, o gajo que precisa de menos coisas do mundo.
O gajo que faz de um prato de sopa um banquete, o gajo que faz de um Ti um palácio, de uma cama que geme o mais faustoso dos leitos de prazer.
O gajo mais feliz do mundo é o gajo menos precisado do mundo.
O gajo que não precisa de mais do que aquilo que tem para ter tudo aquilo que quer ter.
O segredo para a felicidade é não ter segredo nenhum.
O segredo para a felicidade é valorizar a preço de ouro o que se tem e valorizar a preço de merda aquilo que não se tem.
E é mesmo assim: o que tens é ouro e o que não tens é merda.
E é só o facto de tu quereres o que não tens que eleva o valor do que não tens a um valor, por vezes, ainda mais elevado do que aquilo que tens.
Aprende de uma vez por todas: nasceste com tudo aquilo de que precisas.
Então aproveita-o.
Aproveita-o em pleno.
Aproveita-te em pleno.
É claro que podes, e deves, querer mais.
Querer mais não é errado, nem sequer é deprimente.
Querer mais é fixe.
É querer mais que faz o mundo andar.
Quer mais.
Quer todos os dias mais.
Mas nunca te deixes ser menos só porque queres mais.
Nunca te contentes com o que tens; mas, mais ainda, nunca fiques descontente com o que não tens.
O que tens tem de nunca te deixar contentado.
Mas tem, ainda assim, de te deixar contente.

in, "O Livro dos Loucos", 
Pedro Chagas Freitas

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Porque te devo amar


Porque te devo amar,
perguntas,
e eu falo-te no barulho do vento na janela quando me apertas, a tua cabeça no mistério que fica entre os braços e os ombros, escondo os dedos no interior do teu cabelo e ouço-te respirar, pessoas como nós não procuram explicações mas sobrevivências,
Devíamos aprender a querer devagar,
arriscas,
mas entretanto já pousei os meus lábios nos teus, é insuportável o teu cheiro se não puder tocar-te, ficaríamos completos se apenas houvesse palavras, e o mais absurdo é que nem precisamos de falar, pessoas como nós não procuram a eternidade mas os sentidos,
Cada instante merece um orgasmo,
invento,
tento provar-te que os poemas são feitos de carne, nunca de versos, estranhamente não ripostas e deixas-te olhar, fico mais de uma hora só a ver-te e é tudo, peço-te que te coloques nas mais diversas posições, há-de haver um ângulo qualquer em que não seja completamente teu e o teu sorriso o quase céu, mas não o encontro, pessoas como nós não procuram a pele mas a faca,
Há uma certa dignidade na maneira como nos abandonamos,
despeço-me,
visto-me com lentidão enquanto te amo finalmente, a vida não se compadece com mais do que o que temos, podíamos tentar a hipótese de uma rotina, quem sabe a adrenalina sossegada de uma família, um beijo de manhã e outro à noite, uma cama que não fosse apenas de sexo, até conversar com outro objectivo que não o prazer, mas não sei se é amor o que não me dá tesão, pessoas como nós não procuram a paz mas o medo,
Amanhã ou outro dia qualquer ou então nunca,
declaras,
e percebo então que me deste a mais profunda declaração de amor, amanhã ou outro dia qualquer ou então nunca, e eu consinto sem hesitar, pessoas como nós não procuram promessas mas nunca se falham.

Pedro Chagas Freitas

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Ama


Ama.
Lavar os dentes ao lado de quem amas.
Apalpar-lhe descaradamente o rabo.
Comer chocolates até te fartares.
Passar a noite a dizer asneiras.
Beijar sempre de língua.
Passar o dia a dizer asneiras.
Mandar o chefe bugiar.
Passar a vida a dizer asneiras.
Deixar declarações de amor escondidas pela casa.
Fazer o teu pai feliz.
Preguiçar regularmente.
Fazer a tua mãe feliz.
Atirar o despertador à parede periodicamente.
Fazer quem tu puderes feliz.
Dormir quinze ou vinte horas seguidas.
Pôr a mão de fora do vidro do carro.
Pintar o cabelo de azul ou de amarelo.
Pôr a cabeça de fora do vidro do carro.
Cantar no banho para todo o prédio ouvir.
Lamber a tampa dos iogurtes.
Correr que nem um louco na praia.
Falhar que nem um burro só porque tentas.
Praticar sexo oral com frequência.
Tentar que nem um burro só porque queres.
Mudar a decoração de casa num dia só.
Dançar quando estás feliz.
Passar horas só a cuidar de ti.
Dançar quando estás triste.
Dizer bem de quem amas.
Enfiar o dedo no nariz às escondidas.
Dizer bem de quem não amas.
Dançar enquanto estás vivo.
Guardar segredos inconfessáveis.
Experimentar posições sexuais improváveis.
Contar segredos inconfessáveis.
Masturbares-te sem qualquer culpa.
Ter segredos inconfessáveis.
Ver quanto dá o teu carro.
Dizer o que não se pode dizer.
Cagar assiduamente nas convenções sociais.
Sonhar com o que não pode acontecer.
O orgasmo sempre que puderes.
Coçar e ser coçado nas costas.
O gemido sempre que souberes.
Passar muitas horas a contar anedotas.
Adormecer todo torto no sofá.
Passar muitas horas a ouvir anedotas.
Rir que nem um desalmado.
Fazer um penteado estrambólico só porque te apetece mudar.
Rir por tudo e por nada.
Chorar a torto e a direito.
Rebolar na areia quando estás todo molhado.
Chorar porque também é um direito.
Abraçar o teu gato ou o teu cão.
Mandar a austeridade tomar no cu.
Beijar incansavelmente.
Não te levares minimamente a sério.
Dispensar quem te chateia.
Tocar um instrumento qualquer.
Perdoar quem é humano.
Desistir do que não te serve.
Lutar pelo direito à parvoíce.
Escrever um livro.
Dar prioridade ao prazer.
Ler um livro.
Nunca desistir de quem amas.
Aprender desvairadamente.
Fazer cadeirinha com quem amas.
Ensinar desvairadamente.
Perder a respiração pelo menos uma vez por dia.
Nascer pelo menos mais uma vez do que as vezes em que morreres.
Viver desvairadamente.
Te.


in, "O Livro dos Loucos"
Pedro Chagas Freitas

sábado, 18 de janeiro de 2014

Grande VERDADE!


Primeiro és louco; depois és génio.
O vencedor é aquele que consegue passar incólume por todos os estádios da humilhação.
Vencer exige sofrimento.
O que faz com que, muitas vezes, vencer não seja vitória nenhuma.
Todas as vitórias são o carimbo inapagável que atesta o sofrimento de pelo menos uma pessoa.
Se não exigiu sofrimento: então não foi uma vitória.
Se ganhaste sem sofrer: então não ganhaste nada.
Todas as vitórias dizem: “aqui jaz uma pessoa com objectivos”.
Depois de venceres estás morto.


"In Sexus Veritas" 
Pedro Chagas Freitas

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Solteirão e...Solteirinho



"O problema não é ser solteirão; o problema é ser solteirinho.
O solteirão é um gajo fixe; o solteirinho que se lixe.
O solteirão vai em frente, acredita no que aí vem, aproveita as coisas boas que ser solteiro lhe traz – e não deixa de sofrer com as coisas más que ser solteiro também lhe traz.
Mas o solteirão deixa para trás.
O solteirinho queixa para trás. O solteirinho vive para trás. O solteirinho é pequenino. O solteirinho é aquele gajo que passa a vida a pensar na vida que foi, na vida que podia ser e nunca será, na felicidade que teve e que nunca voltará a ser.
O solteirinho é um excrementozinho que se dedica a ser coitadinho.
Ele que vá para o falozinho."


in "O Livro dos Loucos"
Pedro Chagas Freitas

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Mudança



"Mudar uma vida consiste em mexer em tudo o que está mal. Mas mudar uma vida consiste, mais ainda, em mexer em tudo o que está bem.

O que está bem faz-te mais mal do que o que está mal.
O que está mal é meio caminho andado para chegares ao que está óptimo.
O que está mal é tão imperfeito que é meio caminho andado para chegares ao que é perfeito.
O que está mal deixa-te desconfortável, faz-te sofrer, faz-te querer mais, faz-te querer melhor, faz-te desejar a mudança: faz-te, mais ainda, operar a mudança.
O que está mal faz-te, muitas vezes, bem.

É o que está bem que te faz mal.
O que está bem faz-te acreditar que aquilo, o que está bem, está bem assim.
Mas não está.
O que está bem nunca está bem assim: nunca está bem só assim.
O que está bem dá-te a ilusão de que não podes ter mais ilusões, de que é aquela a maior ilusão a que tens direito. E isso impede-te de te vires a direito por prazeres tortos.
E nada está mais mal do que ficar saciado com o que é bom.

Viver, viver de verdade, viver como viver vale a pena, consiste em mandar bugiar o que está bem, em mandar dar banho ao cão aquilo que te deixa satisfeito sem te deixar extasiado.
Esquece a satisfação.
A satisfação é uma merda quando comparada com a euforia.
A satisfação é uma merda quando comparada com o êxtase.
Prefere o orgasmo.
Prefere o clímax.
Prefere sair do que te deixa seguro.
A segurança absoluta é uma seca absoluta.
Ousa tocar a linha vermelha.
Ousa espreitar para além da linha vermelha.
E depois avança.
Avança sem medo.
Sente o medo de perder tudo.
É a sensação de que podes perder tudo que, tantas vezes, vale por tudo.
Ousa cair para teres o prazer de te levantares, ousa sofrer para teres o prazer de vencer, amar para teres o prazer de te dar, zangar para teres o prazer de apaziguar, sangrar para teres o prazer de sarar.
Ousa recusar ser o bonzinho, o regularzinho, o modelozinho.
Prefere ser o que só está bem quando não está bem: o que só está bem quando está óptimo.
E o que só está óptimo quando está perfeito.
Recusa dar um passo atrás para dar um passo à frente; prefere dar um passo à frente para dar um salto ainda mais à frente.
Prefere saltar. Porque saltar, fixa bem isto, é a única maneira de voar sem precisar de pagar. Prefere mudar.
Porque é assim, sempre assim, que se começa uma mudança."


in "O Livro dos Loucos"
Pedro Chagas Freitas

terça-feira, 23 de julho de 2013

......corda partida


“Esticar uma corda que já está partida é a maior das seguranças. O pior que pode acontecer já aconteceu.
Haverá maior independência do que essa?

Quando já perdeste tudo o que tinhas para perder: és invencível.
Há dois tipos de invencíveis: os que ganham sempre; e os que perdem sempre.”

"In Sexus Veritas", 
Pedro Chagas Freitas

domingo, 21 de julho de 2013

Todas as relações são feitas de pedra


“Uma relação entre duas pessoas que se amam tem de se basear na capacidade de erigir um edifício. Pedra a pedra. Tijolo a tijolo.

Poucas obras de engenharia são mais complexas do que uma relação entre duas pessoas que se amam.
Nenhuma obra de engenharia é mais complexa do que uma relação entre duas pessoas que se amam.
Nada é mais exigente fisicamente do que uma relação entre duas pessoas que se amam.
Tem de haver uma entrega absoluta.
Até à última gota.
Para que cada pedra esteja no local certo.
E por vezes há que caminhar quilómetros com essa pedra às costas para a colocar no local certo.
Nem mais um centímetro à frente nem mais um centímetro atrás.

Cada pedra que constrói também pode ser cada pedra que destrói, que faz derrubar todo o edifício.

Todas as relações são feitas de pedra.
Mas está na nossa mão.
Está na mão dos dois constituintes de uma relação entre duas pessoas que se amam definir se a pedra serve para separar se a pedra serve para unir.

Todas as relações são feitas de pedra.
E é assim que construo.
É assim que pela primeira vez construo.
Estou a construir.
Digo-te cada verdade e sei que estou a colocar as pedras que nos separavam nos locais certos.
Para que o edifício cresça quando já estava quase a cair.
Para que possas depois perceber se queres construir comigo ou se queres que tudo isto que somos caia de vez.

Olho-te nos olhos e sei que choras.
Sei que choras a cada verdade que te entrego, a cada pedra que te coloco nas mãos.
Não sei se terás força para as suster, se terás força para as aguentar, para as suportar dentro de ti.
Não sei se algum de nós conseguirá levar mais longe este edifício.
Mas sei que me sinto enfim a ser eu em ti como tu sempre foste em mim.
Todas as relações são feitas de pedra.
Há que construir.
Há sempre que construir.”


"In Sexus Veritas", 
Pedro Chagas Freitas

sábado, 18 de maio de 2013

PORQUE ME APETECE



"Silêncio, que se vai amar. 
Todos os amores começam assim. 
No silêncio de um olhar, no silêncio de uma mão dependente da outra, de outra mão vadia a vaguear pela cidade nocturna do teu corpo, no silêncio dos lábios trincados, trocados, massajados, abraçados e voltados a abraçar. Todos os amores são silêncio estendido. 
E todos os silêncios merecem o amor.
É fundamental mandar foder a política. 
É fundamental perceber que só o politicamente incorrecto faz feliz. 
É fundamental negar o que te é vendido e comprar apenas o que não está à venda. 
Nada do que vale a pena tem preço.
É fundamental amar o silêncio. 
Recusar quem o recusa. 
Insultar quem o maltrata. 
Exigir que o respeitem como se respeita Deus. 
E apenas quem não ama teme o silêncio. 
É fundamental decretar o silêncio. 
Guardar as palavras para o depois do orgasmo, para o depois do pecado. 
Todo o pecado te esquece as palavras.
E nenhuma palavra é tão grande que possa dizer o que nos une. 
É fundamental o silêncio entre duas pessoas que se querem falar. 
É fundamental o silêncio para que o amor se entenda. 
E “Amo-te” é uma palavra que só se diz assim:
Shiu."

Pedro Chagas Freitas

terça-feira, 7 de maio de 2013

De calças na mão



"A felicidade pode muito bem ser isto: aqui está uma boa definição de amor.
E Fifinha Proust vai, lentamente, baixando as calças do homem que ama.
Todas as calças servem para se baixar.
É quando se baixa as calças que a humildade sobe.
Ninguém é arrogante de calças na mão."

"In Sexus Veritas"
Pedro Chagas Freitas

Frágil



"Todos os sexos deviam ser usados apenas em caso de amor. 
Todos os sexos deviam vir acompanhados de uma etiqueta: 
Frágil. Usar Apenas Em Caso De Amor.
Se não é frágil: então não é amor.
E só o que é frágil tem de ter um invólucro forte, resistente, capaz de resistir a todos os trambolhões de que vai ser vítima. 
Se não te obriga a dar trambolhões: então não é amor." 

"In Sexus Veritas", de Pedro Chagas Freitas

AMA



E quando se ama, naquele exacto segundo em que se ama, tem de se acreditar que é para sempre. 
Mais: tem de se ter a certeza de que é para sempre. 
Amar, mesmo que por segundos, mesmo que por instantes, é para sempre. 
E é isso, essa sensação de segundos ou de minutos ou de dias ou de horas ou de anos ou meses, que é para sempre. 
Ama. 
Ama por inteiro. 
Ama sem nada pelo meio. 
Ama, ama, ama, ama. Ama. 
Porque é só por aquilo que te faz perder a respiração que vale a pena respirar.

in "EU SOU DEUS"

Abraçar um Amor



"É de mãos atrás das costas que se abraça um amor.
Para deixá-lo entrar, para o saber a entrar-me. É de mãos atrás das costas que te vou abraçar. Sem que a pele interfira no que não cabe em corpos.
É de mãos atrás das costas que se abraça um amor.
Como te hei-de abraçar se já me sinto abraçada? O que se faz a um corpo quando até o corpo está a mais?
Há amores tão grandes que nenhum corpo os merece


"In Sexus Veritas", de Pedro Chagas Freitas


Pousou as mãos nas costas arqueadas mas não a deixou descansar.
E ela guardou cada impulso que lhe chegou ao coração enquanto a mão dele descia.
Devagar.

Anónimo

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A mulher inteligente



Sou doente pela mulher inteligente.
Sou fanático pela mulher inteligente. Sou viciado na inteligência da mulher inteligente. Preciso dela, exijo-a a toda a hora, persigo-a como um cão com fome persegue o osso. Sou obcecado pela mulher inteligente. A mulher inteligente é a criação suprema de Deus. A mulher inteligente é o próprio Deus. A mulher inteligente, suspeito, deve ser mesmo uma forma superior do próprio Deus. Até Deus tem inveja da mulher inteligente. Meu Deus.

A mulher inteligente despreza o que a mulher não-inteligente ama.
A mulher inteligente não quer saber da conta bancária, não quer saber da marca do carro, da maquilhagem na cara. A mulher inteligente veste Prada a cada vez que fala, a cada vez que pensa. A mulher inteligente faz do que é um estilo, do que defende uma lei, do que parece uma moda. A mulher inteligente faz do tesão um estado de alma. A mulher inteligente dá-me tesão. Mmmm.

Partilhar a vida com uma mulher inteligente é a única forma de partilha possível.
Só com ela consigo partilhar, só a ela consigo dizer tudo o que sinto, tudo o que sou. Só ela saberá como eu sei – e depois de pensar um pouco saberá muito melhor do que eu sei – aquilo que eu quero dizer com aquilo que eu estou a dizer. Sim: a mulher inteligente sabe mais do seu homem do que alguma vez o próprio homem saberá. E só um homem burro se sente inferiorizado com uma mulher inteligente. Viver com uma mulher inteligente é um milagre que só mentes pequenas não gozam à grande. Viver com uma mulher inteligente é um privilégio que muito poucos estão à altura de degustar. Não é qualquer um que está à altura de rastejar e de ser rastejado. Viver com uma mulher inteligente não é uma humilhação – é uma diversão, uma animação, um verdadeiro vulcão. E é só dentro de um vulcão que a temperatura aquece. Ai.

A mulher inteligente aquece – as outras nem aquecem nem arrefecem.
A mulher inteligente é inteligente na pele, nos lábios, nas orelhas, no nariz, no rabo. A inteligência da mulher inteligente alastra-se, contrasta-se. A mulher inteligente lambe como se lesse Dostoiévski, fornica como se citasse Proust, abraça como se tivesse descoberta a cura para a morte. E é: a cura para a morte está em abraçar como se fosse a cura, em fornicar como se fosse Proust, em lamber como se fosse Dostoiévski. A mulher inteligente faz de tudo o que faz um acto inteligente. A mulher inteligente, apesar de ser inteligente comó catano, não deixa de ser selvagem comó catano. Nada é mais selvagem do que a inteligência da mulher inteligente. A inteligência da mulher inteligente é animalesca, anárquica, sedenta, esfomeada, predadora, insaciável. Sem deixar de ser racional, organizada, consolada, vítima, realizada. A mulher inteligente é os dois lados de todo o lado. A mulher inteligente é todo o lado de todos os lados. A inteligência da mulher inteligente não tem rei nem roque – e é por isso que ela é uma rainha, uma estrela, a senhora de todas as senhoras.

 A mulher inteligente não tem um pingo de vergonha. Mesmo que seja tímida, mesmo que não mostre, de todo, a todos, aquilo que é: a mulher inteligente não tem um pingo de vergonha. É uma desavergonhada da pior espécie, uma descarada sem remédio. A mulher inteligente é a pêga preferida do seu homem – que é, claro está, o único cliente que ela admite na sua inteligência. A mulher inteligente não tem dono nem é dona – mas gosta de mandar e de ser mandada, de saltar e de ser saltada, de dançar e de ser dançada. A mulher inteligente exige ser seduzida a toda a hora – porque tudo o que ela faz, a toda a hora, é seduzir. Até um arroto de uma mulher inteligente seduz – de tão inteligente que é. A mulher inteligente seduz com tudo o que faz, a toda a hora em que o faz, de toda a maneira que o faz. E nada é mais certo do que isso: se a mulher inteligente o faz é porque era assim que tinha de ser feito. Bem feita.

in, "LIVRO DE AFORISMOS & MENTIRAS UNIVERSAIS"
Pedro Chagas Freitas

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

.................esta merda faz algum sentido?



Se sabes, e sentes, que és bom e dizes que és uma merda: então és mesmo uma merda.
E das grandes.
O mundo, se não sabes deverias saber, está programado para ajudar os coitadinhos, os fracos, os oprimidos, os deprimidos.
O mundo ajuda toda a gente, compreende toda a gente – desde que essa gente compreenda o mundo.
E compreender o mundo é muito simples: se dizes que és fraco o mundo ajuda-te, dá-te palmadinhas nas costas, diz-te “vá lá, não és tão mau assim, anima-te, vais ver que vais conseguir erguer-te.”
Se, pelo contrário, disseres, porque é essa, de facto, a tua convicção, que és bom no que fazes, que és feliz no que fazes, e que és um gajo competente e altamente talentoso, então o mundo revolta-se.
O mundo revolta-se contra ti.
Chama-te arrogante, chama-te prepotente, chama-te vaidoso, ataca-te por todos os meios. E sem meios-termos.
As maiores revoltas, os maiores ódios, são contra aqueles que se assumem bons – e não contra aqueles que se assumem maus.
Mesmo que aquele que se assuma bom seja mesmo bom, vai ser atacado; mesmo que aquele que se diga mau seja mesmo mau, vai ser protegido.

E agora diz-me: esta merda faz algum sentido?

Pedro Chagas Freitas

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Abrir as Pernas da Alma



"Não te abro as pernas da Alma só porque me abriste as pernas do corpo. 
Sou demasiado estúpido para perceber que um menos um, dá zero e que neste momento tu me deste um prazer e queres que eu te retribua com outro. 

Nunca fui muito bom a matemática, dou-me melhor com as letras."

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Ó POETA CARROCEIRO QUE VOU AMAR, ANDA CÁ E LÊ ISTO



Sou viciado em amor. Sou dependente de amor. Sou o maior dos junkies de beijos, abraços, suores, salivas, gemidos, sussurros e tudo o mais que te passe pela cabeça. Sou um desgraçado de um carinhodependente, um miserável de um cumplicidadenómano. Preciso de quem amo como quem precisa de ar para respirar, preciso de amar como quem precisa de água para beber. Preciso de comer (n)a vida dos outros para que a minha vida não me coma de cebolada. Preciso da vida dos outros, da presença dos outros: da existência, real, dos outros por dentro da minha existência. Só nela, com ela, por ela, em ela, existo. E sem ela desisto. Sou um fraco, sim. E é de lá – do mais fundo de lá - que vem a minha força.

Não acredito nas tretas que agora se vendem ao quilo em hipermercados de almas. Não acredito na tanga de que o amor não deve ser asfixiante. Não acredito na bullshit de que o amor deve ser a soma, perfeita, de dois inteiros – e não a soma, essa sim perfeita, de duas metades. Não acredito na pessegada da não-dependência de quem ama, do não precisar de quem ama. Não acredito. O amor, se não for precisar do outro como de pão para a boca, não é amor – é uma gosma qualquer, uma mistela qualquer. O amor, se não for dependência absoluta, se não for vício sem retorno, não é amor – é uma espécie de marca branca do gostar, uma espécie de contrafacção do amar. Eu sou pelas marcas de verdade. Eu sou pelo amor de verdade. Por mais que por vezes doa, por mais que por vezes custe. Mas a verdade, já se sabe, custa.

Hoje decidi escrever à mulher que amo. À mulher que ainda não sei que amo – mas que um dia vou amar. Decidi escrever-lhe para lhe dizer, antes de que ela me encontre e de que eu a encontre, aquilo que quero que ela seja – aquilo que quero que ela me seja: aquilo que exijo que ela me seja. Hoje decidi escrever à mulher que amo e dizer-lhe que, se quer ser a mulher que eu amo, tem de me amar como eu a amarei. E será assim que eu amarei: sem freio, sem parar um segundo que seja de pensar nela, sem parar um segundo que seja de a querer aqui, ao meu lado, em carne, em osso, em pele - ou então simplesmente numa chamada telefónica, numa mensagem de telemóvel, num e-mail que seja. Ouve, mulher que vou amar: se queres amar-me e fazer-me amado nesse amor de nós, ama como amar tem de ser, como amar só pode ser. E amar só pode ser sem parar, sem descanso, sem um segundo que seja de abstracção. Amar é com urgência, amar é com pressa, com pulsão. Amar com tranquilidade é gostar muito. Amar com tranquilidade é, no máximo, adorar bastante. E gostar muito e adorar bastante não chega. E gostar muito e adorar bastante não me chega. Eu sou por amar. Sem condições, sem tempo, sem escalonanento de prioridades. O amor não está sujeito a prioridades. O amor é um sujeito chamado prioridade. O amor, quando se ama, não ocupa tempo – é o tempo. Porque só assim é que chega a tempo. O amor, quando se ama, não se compadece com “tenho de fazer isto e depois venho amar-te” ou com “amanhã à noite amamo-nos”. O amor não se compadece – o amor, quando se compadece, adoece. Mirra, fica pequenino, murcha. E cai. E morre. O amor morre por falta de amor real. Essa é que é a realidade.

Não me venham com merdices.
Com merdices de que a presença do amor vai para além do corpo, que é possível amar e sentir à distância como se fosse aqui, pele na pele, olho no olho.
Não me venham, ainda, com a ideia de que o amor tem de ser saudável. Merda com isso. Merda para isso tudo. O amor não é saudável – é louvável.

O amor é um milagre. E um milagre tem de ser, todos os dias, demencialmente, apreciado.
O amor é um milagre diário – e que, para todos os dias poder ser o milagre que é, tem de receber loas e vénias e ser acarinhado e apreciado como se fosse o primeiro dos milagres.
E é: o amor é sempre o primeiro dos milagres.
Todos os dias, quando o amor continua a ser todos os dias, o amor é um milagre.
O amor tem de ser amado.

O amor não é uma empresa, não é uma reunião, não é uma associação de duas personalidades.
O amor é tudo. É saber que se é aquilo, que se vive aquilo, que se sonha e acorda aquilo. O amor é saber que só se é aquilo.
É claro que há os empregos e as carreiras e as obrigações e essas porcarias todas.
Mas tudo isso, quando se ama, são meros espaços de passagens, irrelevantes espaços vazios: oco entretenimento para o que realmente interessa.

E tu, minha mulher que amarei, tens de entender isso de uma vez por todas.
Se queres ser a mulher que eu amo, tens de precisar de mim, tens de me asfixiar de ti, tens de estar, como as minhas pernas e os meus braços, em mim: sempre em mim.

É claro que não é saudável, é claro que não é razoável, é claro que é insensato.
Mas o amor não é saudável, o amor não é razoável, o amor não é sensato.
O amor é para ser aquilo que não tem razão, aquilo que não explicação, aquilo que te tira da tua mão. O amor é para ser aquilo que te renova de ti, de um Eu que sempre foste, e que atira para um nós que nunca deixaste de ser. Depois, com o passar dos dias, se verá se ele resiste.
Depois, com o passar dos dias, se verá se ele continua a ser, todos os dias, o milagre que hoje é.

Depois pode até matar-te por afogo, enforcar-te por ansiedade.
Mas que se dane: se isso acontecer já viveste, abençoado felizardo, o milagre de seres amor: de seres o que é, verdadeiramente, o amor.
Se isso acontecer já sentiste a felicidade vezes sem conta, aquela sensação de que se a vida acabasse logo ali já teria valido a pena.
Se isso acontecer já foste o deslumbramento de seres amor, a realização de seres amar.
Se isso acontecer, já perdeste o ar tantas vezes, já ficaste sem respiração ainda mais tantas vezes.

Ama, perde-te em amar, vive amar: sê amar.
Deixa que amar te ocupe, deixa que amar te conquiste.
Ama o abraço até à exaustão, ama o beijo até à devoção, ama o orgasmo até à comoção. Ama.
Ama como se fosse para sempre.
E quando se ama, naquele exacto segundo em que se ama, tem de se acreditar que é para sempre.

Mais: tem de se ter a certeza de que é para sempre.
Amar, mesmo que por segundos, mesmo que por instantes, é para sempre.
E é isso, essa sensação de segundos ou de minutos ou de dias ou de horas ou de anos ou meses, que é para sempre. Ama.
Ama por inteiro.
Ama sem nada pelo meio.
Ama, ama, ama, ama. Ama.
Porque é só por aquilo que te faz perder a respiração que vale a pena respirar.

in "EU SOU DEUS"
Pedro Chagas Freitas

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

CARTA AO RESSABIADO


Meats Meier

O ressabiado é o labrego do invejoso. O parolo do ciumento. O azeiteiro dos ambiciosos. O lagareiro dos egoístas. O ressabiado é o invejoso com tuning, o ciumento com faróis xénon azuis, o ambicioso com spoilers e ailerons (ler “eilerons”, por favor) à toda à volta, o egoísta com quatro abufadeiras duplas. O ressabiado é aquele gajo que tem, dentro de si, todo o combustível necessário para chegar longe e fazer algo de profícuo – mas que prefere, por ser azeiteiro e parolo e labrego, beber essa gasolina. E ficar, claro está (porque um azeiteiro bêbedo é, para além de um azeiteiro, um bêbedo), ainda mais azeiteiro e parolo e labrego. Que tristeza.

O sol, quando nasce, é para todos. E as minhas letras também. O ressabiado, porque é, parecendo que não, um ser humano como os outros, também é filho (para além de filho disso que estás a pensar e que acaba em –uta) de Deus. Toma lá então esta, meu chungoso.

É para ti, nobre ressabiado, que escrevo. Sim: para ti. Para ti que perdes tempo (e isto sim é perder tempo: atirar, literalmente, tempo ao lixo) a ter inveja da inútil, da que nada (para além de sebo) produz. Para ti que perdes tempo a querer ficar da altura dos que invejas – mas que usas, para isso, a ordinária táctica de rebaixar os outros (ao invés de preferires, como todos os que não são ressabiados sabem, a bem mais interessante táctica de quereres, tu, em ti, erguer-te). Este texto é para ti, meu grande pequerrucho – que acreditas que ser grande é estar, mesmo que por instantes, à altura dos grandes. Mas não, meu pacóvio: o grande, mesmo que por vezes esteja à tua altura, só o está nos instantes em que, como todas as pessoas, precisa de se dobrar um pouquinho para defecar. É facto: os grandes também cagam como os outros. É uma pena que tenha de ser, porque tu insistes em estar lá, no chão, a rastejar, em cima de ti. Vai-te lavar, ó saloio.

Não tenho de evitar (porque haveria de não o evitar?) dizê-lo com todas as letras: sou invejado. Sou invejado por muitas. E sobretudo por muitos. E isso nada teria de negativo se esses muitos que me invejam fizessem dessa inveja algo de interessante: se esses muitos, roídos de inveja, se roessem todos para fazer melhor do que eu. Para fazerem do que eu faço quase nada face àquilo que eles fazem. Aí sim: estariam a ser verdadeiramente invejosos; aí sim: estariam a sentir a inveja que vale a pena: a inveja saudável. A inveja que faz andar o mundo. Esses invejosos, que passam os dias a pensar como me conseguirão penetrar com toda a potência à traição e pelas costas, seriam invejosos saudáveis se passassem o tempo a quererem que fosse eu a sentir inveja deles. Do que eles são, do que eles fazem. Mas não. Não é isso que eles fazem. Ressabiados.

Lê com atenção, ó ressabiado: estas palavras (irrepreensivelmente escritas - há que dizê-lo para, desde já, começares a ficar ainda mais ressabiado) são feitas à tua medida: para me invejares como deve ser. Para me invejares com motivo, com força, com intensidade. Para me invejares com propriedade. Já que me invejas, e te ressabias com essa inveja, é bom que tenhas matéria-prima a sério. Embrulha lá mais estes argumentos.

Sou um gajo feliz. Faço aquilo que quero fazer, aquilo que sempre quis fazer. E faço-o bem. Faço-o muito bem. Faço-o bem comó catano. Escrevo, ensino a escrever. Vivo, ensino a viver. Rio, ensino a rir. E sorrio e ensino a sorrir, e também canto e danço e peço a alguém que me ensine a cantar e a dançar (mesmo que não cantar nem dançar nada de jeito não me impeça de ser feliz assim: a cantar; todos os dias a dançar e a cantar: todos os dias a dançar-me e a cantar-me). Fiz dos sonhos realidade, das intenções realizações, do que os olhos olharam o que as mãos tocaram. E há mais: amo e sou amado até à pura da demência, amo e sou amado até à mais intensa das intensidades. E tenho uma família linda: de cima a baixo, de dentro a fora: linda. Absolutamente linda. Perfeitamente linda. E depois. E depois há aquilo que, tenho a certeza, te vai deixar ficar no pico do ressabiamento (até já esfrego as mãos só de imaginar a tua carita de fracassado crónico): para além disso tudo, para além de ter cérebro e escrever e ensinar a escrever e ter amor e paixão e tesão e uma família linda de dentro a fora, de cima a baixo, sou um gajo giro. Yep: um gajo atraente. Um gajo bonito. Só mais uma vez para não teres de ser internado por excesso de ressabiamento: um gajo com bom aspecto: um gajo desejável. Eu sei que era desejável não to dizer assim, de forma aberta. Eu sei que não me fica bem dizer isto – mesmo que o sinta. Mas o que fica bem que vá para o baralho. Eu atiro-te com isto, mais uma vez, à cara (a essa cara que, Deus te ajude, nunca recebeu elogios de um espelho): eu sou um gajo que recebe mais mensagens de elogio e de amor e de pulsão e de desejão por dia do que tu, algum dia, receberás na tua vida inteira. É doloroso, não é? Vá, limpa as lágrimas e anda daí para o último parágrafo. Labrego.

Hoje decidi dar-te motivos para seres ressabiado. Hoje decidi dizer-te que tens todos os fundamentos para me invejar. Tenho a vida que provavelmente queres, o talento que não tens (ou tens e preferes gastar a gastar o meu), a respiração tranquila e pacífica que não consegues ter. Tenho a plena convicção de que a minha vida vale a pena. A minha vida. Ele em ela. Ela em eu. Ela sem precisar da tua ou da de outros como tu. E é essa a verdade que tens de encarar (para transformares o ressabiamento em monumento: o teu monumento, saído de ti e não do não-outros): tens de ser pró-tu – e não, aprende lá isto por favor, o anti-outros. Tens de ser a favor de ti. Sem pensar em matar os outros para te fazeres viver. Sem precisares de apertar o pescoço dos outros para tirares o teu pescoço do cepo. Tens de ser invejoso, sim; tens de ser ciumento, sim; tens de ser ambicioso, sim; tens de ser egoísta, sim. Tens de ser essa merda toda que só é negativa se tudo isso se transformar em não fazer – ao invés de se transformar em só fazer. A inveja e o ciúme e a ambição e o egoísmo só são maus quando se lida mal com eles – quando são transformados, todos eles, em reles ressabiamento. Eu quero, e gosto, que tenhas inveja de mim. Dei-te motivos para isso – muitos e variados. Eu próprio, se estivesse no teu lugar, tinha inveja de mim. Chamava-me cabrão, dizia que eu era uma bosta e que nada tenho de especial. Mas eu, se estivesse no teu lugar, só perdia uns segundos a pensar e a dizer isso. Depois, logo a seguir a esses segundos, deixaria de dizer e pensar isso e passaria a tentar ficar eu do lado de cá: do lado que se é motivo de inveja e não invejoso. Do lado que é água que cai na fonte e não a fonte onde cai a água. Eu, se fosse invejoso, já não estava a ler este texto e a sentir-me ressabiado por não ter sido eu a escrevê-lo e a senti-lo. Eu, se fosse invejoso, já não estava ressabiado. Mas eu, se fosse tu, já não tinha motivos, sequer, para estar ressabiado. Porque eu, bem vistas as coisas, vou ser sempre eu: o cabrão que tem todos os motivos, e acabou de to esfregar na cara, para fazer da vida uma festa. Uma festa de sentidos: uma festa com todo o sentido. E tu: vais fazer fazer algo de útil com isso que sentes – ou vais preferir despejar a bílis a falar mal de mim? Pois. Temos pena. 

in "EU SOU DEUS"
Pedro Chagas Freitas

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Não acredito...



Não acredito nas tretas que agora se vendem ao quilo em hipermercados de almas.
Não acredito na tanga de que o amor não deve ser asfixiante.
Não acredito na bullshit de que o amor deve ser a soma, perfeita, de dois inteiros – e não a soma, essa sim perfeita, de duas metades.
Não acredito na pessegada da não-dependência de quem ama, do não precisar de quem ama.
Não acredito.
O amor, se não for precisar do outro como de pão para a boca, não é amor – é uma gosma qualquer, uma mistela qualquer.
O amor, se não for dependência absoluta, se não for vício sem retorno, não é amor – é uma espécie de marca branca do gostar, uma espécie de contrafacção do amar.
Eu sou pelas marcas de verdade.
Eu sou pelo amor de verdade.
Por mais que por vezes doa, por mais que por vezes custe.
Mas a verdade, já se sabe, custa.

Pedro Chagas Freitas
in "EU SOU DEUS"