quarta-feira, 26 de abril de 2023

Given To

 






I never feel more given to
than when you take from me –
when you understand the joy I feel
giving to you.

And you know my giving isn’t done
to put you in my debt,
but because I want to live the love
I feel for you.

To receive with grace
may be the greatest giving.
There’s no way I can separate
the two.

When you give to me,
I give you my receiving.
When you take from me, I feel so
given to.


Ruth Bebermeyer




Nunca me sinto mais presenteada 
Do que quando você recebe algo de mim 
Quando você compreende a alegria que sinto 
ao lhe dar algo.

E você sabe que estou dando aquilo não 
para fazer você ficar me devendo,
Mas porque quero viver o amor 
que sinto por você.

Receber algo com graciosidade 
pode ser a maior entrega.
Eu nunca conseguiria separar 
as duas. 

Quando você me dá algo, 
Eu lhe dou meu receber.
Quando você recebe algo de mim, eu me sinto tão 
presenteada.





SALVADOR SOBRAL - al llegar (feat. Jorge Drexler) - videoclip oficial

O Mito Do Minotauro

 




Minotauro,  tem origem no idioma grego, sendo a união de duas palavras: Minos e tavros, sendo que a junção das duas palavras faz com que “minotauro” signifique “Touro de Minos”. 
Por sua vez, o nome Astério, seu nome de nascimento, é traduzido como “senhor das estrelas”. Nome que ele compartilhava com o pai adotivo de Minos.

Nasceu como resultado de um caso extraconjugal da esposa de Minos, Pasífae, com um touro que tinha sido presenteado por Poseidon. 
É uma criatura da mitologia grega conhecida por ser parte humano, parte touro, possuindo uma grande ferocidade e se alimentando de seres humanos. 
Tinha o corpo humano, mas com a cabeça e uma cauda de touro. 

Ele foi aprisionado num labirinto construído por Ícaro e Dédalo a mando de Minos, rei de Creta. 
Minotauro era descrito como um ser monstruoso que devorava pessoas vivas.
O monstro foi morto por um herói grego chamado Teseu, com a ajuda de Ariadne, filha de Minos que se apaixonou por esse herói.


Nos mitos gregos, Minos após assumir o trono de Creta, passou a combater seus irmãos pelo direito de governar a ilha. Rogou então ao deus do mar, Posídon que lhe enviasse um touro branco como a neve, como um sinal de aprovação ao seu reinado.
A história do Minotauro se inicia com a disputa travada por Minos, Radamanto e Sarpedão pelo trono de Creta depois que o pai deles faleceu. Minos assumiu o trono após ter um pedido seu concedido por Poseidon, o que fez com que seus irmãos lhe cedessem o trono. 
Poseidon tinha dado um belo touro para que Minos sacrificasse em sua homenagem.

Envaidecido por tornar-se rei de Creta, Minos decidiu perseguir seus irmãos, expulsando-os de Creta e optando por não cumprir o prometido com Poseidon, o que enfureceu o deus grego. Minos não sacrificou o touro para Poseidon, devido à sua beleza, matando outro touro no seu lugar. 
A punição que Minos recebeu foi dura.
Poseidon fez Pasífae, esposa de Minos, se apaixonar pelo touro. Como forma de punir Minos, a deusa Afrodite fez com que Pasífae, esposa de Minos, se apaixonasse perdidamente pelo Touro Cretense vindo do mar.

Pasífae pediu ao arquitecto Dédalo e seu filho Ícaro, que construíssem uma vaca de madeira, o mais real possível, para que ela pudesse copular com o touro. Pasífae usou a vaca de madeira para enganar o touro dado por Poseidon, se escondeu dentro dela e teve relações sexuais com o touro. 
Dessa relação, nasceu Minotauro.
Parsífae cuidou dele durante a sua infância, porém depois ele cresceu e se tornou feroz; sendo fruto de uma união não-natural, entre homem e animal selvagem, ele não tinha qualquer fonte natural de alimento, e precisava devorar seres humanos para sobreviver. 
Minos, após aconselhar-se com o oráculo em Delfos, pediu a Dédalo que lhe construísse um gigantesco labirinto para hospedar a criatura, localizado próximo ao palácio do próprio Minos, em Cnossos.

O labirinto foi construído na cidade de Cnossos, na Grécia, no subsolo do Palácio de Minos que, todavia, foi edificado pelo arquiteto e inventor Dédalo.
Posteriormente, Minotauro foi colocado no labirinto.

Androgeu, filho de Minos, foi morto pelos atenienses, invejosos das vitórias obtidas por ele nos Jogos Panatenaicos. Já outra versão do mito afirma que Androgeu teria morrido em Maratona, atacado pelo Touro Cretense, o ex-amante taurino de sua mãe, que Egeu, rei de Atenas, tinha ordenado que ele matasse. 
A tradição mais comum conta que Minos teria então declarado guerra a Atenas para vingar a morte de seu filho, e saiu vitorioso do confronto. Cátulo, em seu relato do nascimento do Minotauro, se refere a outra versão do mito, na qual Atenas teria sido "obrigada pela praga cruel a pagar compensação pela morte de Androgeu. Egeu deve então evitar a praga causada por seu crime enviando jovens rapazes, bem como as melhores raparigas virgens solteiras, para um banquete do Minotauro, como pagamento anual. 
Minos exigia que pelo menos sete rapazes e sete donzelas atenienses, escolhidos através de sorteio, lhe fossem enviados, uma vez por ano, para serem devorados pelo Minotauro.

Quando se aproximava a data do envio do terceiro sacrifício, 3 anos depois, o jovem príncipe Teseu se ofereceu para assassinar o monstro, prometendo a seu pai, Egeu, que ordenaria que o navio que o trouxesse de volta para casa erguesse velas brancas, caso ele tivesse sido bem-sucedido na empreitada, ou velas negras, caso ele tivesse morrido. 

Em Creta, Ariadne, filha de Minos, apaixona-se por Teseu e ajuda-o a deslocar-se pelo labirinto, que tinha um único caminho que levava até ao seu centro. Ariadne dá-lhe um novelo de lã, que ele utiliza para marcar seu caminho de modo que ele possa retornar por ele.
Ao entrar no labirinto, foi soltando o novelo aos poucos, à medida que caminhava, para que não se perdesse. 
Teseu então procurou Minotauro no interior do labirinto e, quando ele avistou o Minotauro atacando um dos atenienses, apunhalou-o por trás com a Espada de Egeu, matando-o. Após isso Teseu resgatou os atenienses e voltou pelo caminho do fio de lã dado por sua amada e deixado durante o percurso para marcar a saída.

Na viagem de volta, no entanto, ele se esquece de erguer as velas brancas e seu pai, ao ver o navio e imaginar que Teseu estava morto, se suicida, arremessando-se no mar que desde então leva o seu nome.

Esse episódio não somente tornou Teseu um dos mais importantes heróis da Grécia,  como estreitou os laços entre as duas cidades gregas: Creta e Atenas.


Temos dois caminhos a trilhar com este mito: 
1. o desafiador, que origina inflexibilidade, mente fechada e teimosia onde o animal vence a mente (raciocínio) e nos perdemos no labirinto do Rei Minos.
2. a superação, que gera força estável e confiante, representada por Teseu, no mito mata o Minotauro através da mente e amor (equilibrados) guiado pelo novelo de lã de Ariadne (itinerário evolucional).

Estes dois caminhos estão abertos para caminharmos juntos neste mês Taurino solar. 
Quem define por onde trilharemos "sempre será" nossa consciência individual projetada no coletivo.




terça-feira, 25 de abril de 2023

Own the fact that you are different








Own it, Own the fact that you are different. 
Own that you are a deep feeler and thinker. 
Own that you’re tuned into a different frequency. 
Own the fact that you sense things others don’t. 

Own the fact that you want to talk about energy, miracles and spirituality. 
Own that you’re done having meaningless conversations. 
Own that you’re done holding yourself back.
Own that you crave freedom to feel the now. 

It’s ok that your family don’t get you.  
It’s ok that you’re friends don’t join you. 
It’s ok that the world judges you.  
It’s ok that you want to dance barefoot upon the earth and endlessly gaze at the stars. 
It’s ok that you cry over sunsets and chase moonbeams.

It’s wonderful in fact.
It’s beautiful. 

You have come a long way to be who you are. 
So own it. Own all of it. 
Love all of you. 
The world needs you to be exactly as you are. 

You hold the balance in this crazy world.



Eryka Stanton




Café Amargo





Café Amargo, da autora Siciliana Simonetta Agnello Hornby, foi publicado em 2016, é uma escrita detalhada e carregada de factos históricos. Os factos históricos, são a principal personagem, mais do que a história familiar dos Sala e dos Marra – e até mesmo mais do que o romance clandestino de Maria e Giosué.

Com uma escrita envolvente, arrebata-nos a alma, espicaça-nos o pensamento, enriquece-nos o conhecimento e faz-nos pensar na evolução da sociedade, no muito que mudou, e no outro tanto cuja semente permanece adormecida mas assustadoramente pronta a germinar de novo, como por exemplo: o preconceito perante minorias, o racismo, novos tipos de colonialismo ( o petróleo, o gás natural, geopolítica, etc), o risco de novos conflitos mundiais (com o perigo acrescido de meios bélicos ainda mais potentes e evoluídos).

Conseguimos compreender o carácter fechado e intransponível dos sicilianos e conseguimos desculpá-lo, porque a miséria, a fome, a falta de trabalho, o abuso de poder por parte dos seus conterrâneos insulares e dos continentais, aliados ao poder da máfia siciliana, endurecem qualquer um que queira uma vida justa. 
Dos Fasci sicilianos à instauração do regime, das leis raciais à Segunda Guerra Mundial, a autora transforma a história e as escolhas nada óbvias de Maria na história de um segmento decisivo da Sicília e da Itália.

A autora dedica um capítulo a descrever a história da Sicília, a que chamou:
AS 3 INDÚSTRIAS SICILIANAS

"Não realizara [Ignazio Marra] os seus dois sonhos da juventude e da idade adulta:

Dividir os terrenos feudais nacionalizados na era dos Bourbon e os que haviam sido confiscados à Igreja pelos Saboia para distribuí-los pelos camponeses, vendê-los aos empresários agrícolas e dar-lhes a possibilidade de se juntarem em cooperativas e pequenas indústrias, ou seja, modernizar-se.
Nem conseguira alfabetizar os sicilianos para formar uma classe média de operários e empreendedores, professores, funcionários públicos.
Abandonada pelo Estado desde os motins de 1866, a Sicília tornara-se uma terra de bandidos e foragidos. O voto institucional levara a uma imprevisível revolução social:
A aristocracia dos antigos feudatários havia-se associado com os antigos arrendatários mafiosos, todos sedentos de poder e de dinheiro.
A Máfia infiltrara-se na classe média e nas profissões, assumindo as características industriais da burguesia: Ordem, Previdência, Circunspeção e Respeito. Com os nobres, partilhava o monopólio da Ordem, da Violência e do Trabalho.
Os agricultores acabavam assim trucidados, pelos proprietários das terras e pelos mafiosos.

Na Sicília, temos três indústrias:

A primeira, do ponto de vista económico, os nobres e os seus antigos arrendatários juntaram-se à Indústria da Prepotência: Atividades obscuras com o objetivo de evitar a atribuição de terrenos de antigos feudos, transferidos para os municípios com o objetivo de os distribuir pelos agricultores. E também pela exploração ilegal da população através da usura, pactos agrários a seu favor e contratos de arrendamento ilegais.
A segunda indústria, controlada pela Máfia Siciliana. Os bandidos reconhecem a sua existência e a sua autoridade. Negociar com a máfia é impossível. A miséria, violência e analfabetismo aumentam, e os sicilianos continuam a emigrar em massa.
A terceira, é a Indústria da Corrupção. Compreende as concessões estatais, o voto comprado, está presente na polícia, em todas as atividades civis. Ai de quem resista ou denuncie. Não apenas a mão da máfia e do nobre, mas também a do prefeito pousa com força nos ombros de quem ousa denunciar. A pena vai do afastamento à exclusão da sociedade civil. Depois, intensifica-se com o sequestro, perseguições aos familiares e com a morte exemplar." 




"Café Amargo", metáfora que caracteriza o percurso pessoal de amadurecimento e afirmação da alma feminina e, da determinação, coragem e resiliência de Maria ao longo do seu percurso de vida.
Maria é uma mulher de paixões, marcada também por vários sofrimentos que engole com altivez, como se fosse uma chávena de café amargo.

A ação vai acompanhando, com detalhes, fruto de um apurado trabalho de investigação documental, três momentos distintos da história da Sicília (e de Itália):
  1. o final do Século XIX quando os grandes latifundiários começam a ver chegar ao fim o sistema económico feudal que ainda persistia na ilha; 
  2. a I Guerra Mundial e o pós-guerra, a ascensão do Regime Fascista de Benito Mussolini; 
  3. a II Guerra Mundial e os violentos bombardeamentos que deixaram um rasto de destruição na Sicília, em especial na bela cidade de Palermo.

Os Marra, Ignazio Marra casado com Titina Tummia, são uma família tradicional com modestos recursos económicos, têm quatro filhos: Maria (a protagonista), Filippo, Nicola e Roberto.
E acolheram na sua casa,
Giosuè  Sacerdoti (filho de Tonino, um Judeu de Livorno, amigo de Ignazio que faleceu numa manifestação contra os latifundiários, e que antes de morrer, pediu que este cuidasse do filho), e Maricchia e Egle Malon ( Carlin Malon, amigo intimo de Ignazio, era pai de Egle e irmão mais velho de Maricchia, morreu de cólera, e Ignazio acolheu-as em sua casa). 
Ignazio casou-se com Titina Tummia (muito mais jovem que ele e originária de uma família nobre de barões, que nunca viu com bons olhos esta união matrimonial) e vivem uma sólida relação amorosa que os faz enfrentar juntos todos os obstáculos que vão surgindo, inclusive, o facto de Ignazio, apesar de ser um excelente Advogado, ser muitas vezes ignorado por potenciais clientes devido à sua visão política socialista.

" (...) embora devesse dar prioridade à instrução dos filhos varões em relação à sua adorada filha Maria, encorajava-a a considerar-se igual a qualquer outra pessoa e a fazer-se respeitar, numa realidade em que era impensável as mulheres terem direito a voto."


Os Sala, são uma família rica e influente, proprietários de minas de Enxofre e de um vasto património, e irão ficar ligados aos Marra através do casamento entre Maria Marra e Pietro Sala, que se apaixona à primeira vista pela bela jovem que vê pela primeira vêz em casa do pai, Ignazio, quando ali se dirigiu para tratar da compra de uma propriedade.

É um romance histórico que nos traça o percurso de vida da protagonista - Maria - uma mulher forte, determinada, e que sempre lutou para conciliar da melhor forma a rígida tradição cultural da Sicília que secundariza o papel da mulher, afastando-a de questões como a cultura ou a política, com a sua mentalidade mais aberta, o seu espírito naturalmente curioso, a sua paixão pela música e pelo conhecimento em várias áreas, fruto dos princípios transmitidos pelo seu progenitor - Ignazio Marra, um Advogado socialista fiel à causa política que abraçou.

"Vivemos numa realidade em que o abismo entre ricos e pobres é inultrapassável:
O Estado é considerado inimigo, a ordem pública é mantida pela máfia através do abuso e da violência; os políticos não têm fé nem objetivos que não sejam os seus interesses económicos: vendem-se por um lugar no governo. Os pobres, explorados pelos patrões e pela máfia, passam fome, e a sua única salvação é a emigração.
Somos um povo demoníaco."


Maria é a filha mais velha de um casal siciliano que se casou por amor. 
Os seus pais sempre educaram os seus filhos na defesa da igualdade de deveres e direitos e, por isso, quando Pietro, homem bem mais velho (Maria tem apenas 15 anos e Pietro 34), herdeiro de uma família abastada, se apaixona à primeira vista por Maria e pede a sua mão em casamento, esta é quem decide se deve aceitar a sua proposta ou não. Com pouco mais do que quinze anos, entrega-se a um matrimónio que trará mais desafogo à sua família e dar-lhe-á asas para voar, crescer como mulher e como amante. 
Ao lado de Pietro aprenderá as artes da sensualidade, do sexo, do amor, e absorverá como uma esponja, tudo o que o seu marido lhe transmitir sobre a história do seu país, de cidades como Roma, Nápoles, Modena ou Milão e de artefactos que o mesmo coleciona com avidez.
Assim, primeiro guiada pela mão do seu marido e gradualmente de forma independente, uma menina nascida no final do século dezanove floresce, torna-se uma mulher que brilha por si mesma, pela sua beleza abrasadora, pelo carinho e amor que devota aos seus, pelas obras que põe em marcha e pela justiça com que lida com tudo e com todos. 
É uma protagonista que nos conquista com uma facilidade tremenda, por quem torcemos do princípio ao fim e que queremos que seja feliz sempre. Junto dos seus filhos e junto daquele que a amou desde que uma pequenina Maria lhe pegou na mão e consolou um rapazinho derrubado pela dor de ter perdido o seu pai.

Assumindo-se como mulher de pleno direito, Maria toma decisões pouco comuns para a época. Mantendo as obrigações do seu casamento, a jovem sente liberdade para explorar os verdadeiros elos que a unem a Giosuè, que considerava como um irmão mais velho. Começa assim uma ardente história de amor que percorre mais de vinte anos de aproximações, separações e encontros clandestinos, tendo como pano de fundo uma sociedade em mudança.
Maria e Giosuè, que virão a descobrir que entre ambos existe uma relação que vai bem mais além da fraternidade, viverão um amor sincero, forte, e que irá enfrentar duras provas como a distância física, as convenções sociais ( Maria é ainda uma mulher casada e mãe de família), o horror da II Guerra Mundial e o racismo e anti semitismo bem marcantes aos quais Giosuè não passará incólume porque era judeu. Apesar de ter  começado por se afirmar enquanto Militar e consultor do regime Fascista, a verdade é que tudo mudará na sua vida com o surgimento do anti-semitismo muito por contaminação do regime Nazi, com o qual o Fascismo irá compactuar.

"Conhecer e admirar o que é belo contribui para o bem-estar das pessoas.
A beleza é um elemento fundamental da vida, por isso é necessário partilhá-la.
(…)
A Basília e o Coliseu desiludiram-me[Maria], são construções demasiado grandiosas para o meu gosto. Prefiro os edifícios mais pequenos.
- Nem sabes como fico contente por ouvir a tua opinião, detesto-os!
Em vez de edifícios majestosos construídos para intimidar o povo, prefiro uma joia do tamanho de uma unha, fruto de meses de trabalho.
Casaria contigo só por esse teu comentário."


Pietro Sala (um bon vivant, viciado no jogo da roleta e em cocaína, habituado a uma vida luxuosa, a gastos dispendiosos, ao convívio com a alta sociedade Europeia, a coleccionar arte, animais e plantas exóticos), e aqui surge a reflexão sobre a condição da mulher na sociedade ainda feudal da Sicília. 
Maria, que sempre sonhara formar-se e ser professora, aceita casar-se com Pietro, um homem mais velho que ela, que não ama, sentindo que, assim, libertará os pais do peso do seu sustento, sendo certo que estava disposta a trabalhar para sustentar os estudos dos irmãos e até de Giosuè (o seu melhor amigo, e que foi criado como se de mais um filho da família se tratasse).
Pietro virá a revelar um lado negro, que apenas vai sendo revelado ao longo do livro, e que, curiosamente, dará a Maria a oportunidade de se afirmar como uma mulher forte, lutadora, responsável e merecedora do afecto e apreço do sogro Vito, assumindo o papel de administradora do património dos filhos Anna, Vito e Rita, entrando na gestão directa dos negócios da família Sala, nomeadamente, das Minas de Enxofre.
Tudo isto, para evitar que Pietro, devido aos vícios que tinha, perdesse todo o património e levasse a família à ruína.

"Ao longo dos anos[Pietro]tivera aventuras com mulheres casadas e solteiras, o que não lhe agradara, mas sabia que aquelas traições aconteciam e que uma mulher sábia devia fechar os olhos àqueles deslizes, que, mais cedo ou mais tarde, acabavam.
A não ser que afetassem a união familiar, as aparências e as finanças da família.
(…)
Foste sensata em não enfrentar Pietro, minha filha.
O teu pai também teve amantes, discretamente.
Eu nunca o traí; fui sempre sua esposa, a sua mulher mais importante e a melhor.
Por isso, tolerei.
Se descobrisses que o teu marido trata as suas amantes como tuas iguais, estarias no teu direito de expulsá-lo da tua cama e de procurar outro.
Ele deixaria de ser digno de ti.
Se eu tivesse traído o teu pai, nunca lhe teria dito, teria mentido, como ele sempre fazia."


Irmãs de Pietro Sala: Giuseppina (Baronesa Tummia, por ter casado com Peppino Tummia, irmão de Titina), Sistina e Graziella, nunca aceitam Maria, que consideram inferior socialmente, e que lhes causa inveja devido ao facto de,  por ser uma pessoa bonita, inteligente, naturalmente sensível e bondosa, conquista as boas graças do Sogro - Vito Sala - e aprende até a lidar com Anna, a sogra que se encontra mentalmente doente. Estas 3 irmãs serão firmes oponentes de Maria, a qual sempre irão hostilizar e criticar abertamente, não escondendo o quanto a odeiam.

"Existem inúmeras mulheres que trabalham por necessidade, porque o seu espírito disso precisa ou – que é o melhor – para contribuir para o bem social…
Sabemos que um número crescente de mulheres tem de renunciar à alegria de formar uma família e, muitas vezes, sustentar com o trabalho a si mesmas e a outros; sabemos que muitas pessoas veem o trabalho da mulher fora do âmbito doméstico com olhos hostis, quase como  se hoje fosse possível passar sem ele nas fábricas, nas escolas e nos hospitais. Como se essas mesmas pessoas estivessem dispostas a dar pão e teto às mulheres desprovidas de meios e privadas de trabalho que não têm ninguém que as possa manter.
É necessário desenvolver um sentido de solidariedade feminina que torne mais sereno e apreciado o sacrifício e as dificuldades daquelas a que chamaria abelhas operárias, sacrifício gravíssimo para aquelas – e são muitas – que teriam dotes necessários para se tornarem abelhas-rainhas."



Especialmente marcante, duma violência extrema, é o retrato que a autora faz da vida nas Minas de Enxofre, em que relata as condições de vida desumanas a que são sujeitos os aprendizes de mineiro, que vêm mesmo a vida encurtada devido a tal facto e que nos mostra uma realidade bastante cruel que resulta de uma visão ainda feudalista da sociedade Siciliana, ainda herdeira de outras eras mais recuadas.

"A ignorância não é um pecado. Apenas se torna um pecado quando se insiste em permanecer ignorante."




quinta-feira, 20 de abril de 2023

The Age Of Capricorn

 




We have all heard of the Age of Aquarius spanning for the next 2000 years while the spring equinox is passing through the sign of Aquarius which will bring us an utopian society of brotherhood, social fairness, material equality for all and scientific advancement beyond our dreams (as are still so far from all this). But some of us want to take a peek at the far away future and unravel its secrets! 

In order to see what the age of Capricorn will bring to humanity from 4000 to 6000 AD we have to deep-dive into the occult meaning of Capricorn first—you might be surprised what we find out there! Capricorn is the most mystical, confusing and misunderstood sign. Its original ancient shape is not one of a goat. it is a half crocodile half goat but with just one horn.

The lower-aquatic/reptile side of Capricorn is in water, while the upper is above. Actually the sanskrit name of Capricorn is Makara, which means crocodile. The lower part of this mystical animal, being in water, which symbolizes the astral world (the world of passions and feeling) represents the unregenerate side of human nature, the one which succumbs to lower desires and is at the mercy of its changeable feelings. This lower part has predatory nature like the Crocodile and only responds to the reptile brain in human (the most primitive one which controls material needs and physical desires).

So at one end of the scope it represents the really low nature of humans, the animalistic selfish one, which is swimming in the passions of the world. It is not by chance that the Devil—Satan is represented by a goat-which is Capricorn. All ancient orgies of debauchery were celebrated during Saturnalia. in the month of Capricorn.

But what about the upper part of the creature: it is actually an Unicorn! A Goat with a single horn. In esoteric tradition the Unicorn is a symbol of spiritual purity, someone who has become enlightened and has access to the third eye ( the gland situated at the level of the forehead where the horn is coming out of) instead of depicting Capricorn with 2 horns, the ancient sources described it as having one horn in the middle-2 becoming one: the consciousness of duality in which we now live, evolved into a consciousness of Oneness feeling and seeing everything as connected. 

All of a sudden, the boring Capricorn we have learned to think about, turns out to be this most mystical and complicated sign, symbol of the human soul’s transformation from its lower animalistic state of selfishness and materiality (the lower part of Capricorn) into a spiritually enlightened and more pure being, that is connected to everything, the Unicorn.

I believe, you are starting to guess what the big events of the Capricorn age will be. 
  1. The bigger part of humanity will develop the third eye, the unicorn horn. 
  2. Most humans will be born highly clairvoyant, with direct access to the universal consciousness of Cosmic Unity. 
  3. The invisible worlds and dimensions and their hierarchies of beings, will be accessible to almost everyone, it will be the normal state of consciousness for most. 

But there will be another portion of humanity, a much smaller one(according to the esoteric prophecies), who will fully submerge themselves in their passions and lower desires. They will consciously choose the other extreme of Capricorn. The most materialistic one, defying openly the Divine and wanting to harm others. This will be a way smaller group of humans, who will become so depraved and evil, regressing to almost animal like state, they will even start looking different-their baseness will deform their bodies, their self chosen lower behaviors will be depicted and recognized in their outer form, living in different enclosures and away from the purified and more evolved rest of humanity, as they will not be able to withstand their higher vibrations and energy.

This is when there will be a split between the evolved souls and the regressing souls. From the Age of Capricorn there will no longer be an opportunity for humans to pass from the lower to the higher states. For the next 2000 years of incarnations on Earth, we can still use our free will to choose whether to do good or bad, but by the age of Capricorn, our natures will have become so defined by our previous karma of either striving for purification, love and kind deeds, or of our striving consciously towards evil deeds, that it will be impossible to reverse the process. But there are so few really evil humans, many do evil acts, but mostly out of ignorance, not out of pleasure.

The number of truly dark souls that will draw towards the Evil side fully, in the age of Capricorn, will be much smaller, than the number of humans who will be naturally uplifted towards purer and enlightened consciousness. The ones who are in between, doing bad things, but mostly out of ignorance or weakness, will be helped by the rest of the evolved Unicorn branch of Humanity… the outlook is really positive for decent people! 

What will happen to the Evil souls that have separated? 
The occult prophecies say, that they will gradually stop being able to get reborn on Earth, something like an extinction will happen, even though they will be trying to continue with all the methods of the advanced science(like some “alien” races are trying to do now) but they will still become gradually a “dying race” so to speak due to the pollution of their DNA. Their souls will have to wait for the next evolutionary wave because they are given another chance to further their progress. Usually the next wave can take millions, if not billions earthy years. So indeed these souls will be in something like an infinite suspension (the lower astral realms)- by the stories of advanced seers, not a nice place!!! Imagine a state of fear and emotional turmoil, disconnection from the warmth, love and light of the Cosmos

They will one day get a chance to improve again and pass to the next level, during another evolutionary wave-on another planet.... 

It is not a one day process, it takes over 2000, when there will be no turning back. 
But this will be totally the choice of the regressive souls, they will be offered help many time from the more developed humans, but some will keep denying, till it is too late. 

Capricorn is a sign of separations and endings, as we all know from astrology, so there will be a separation of humanity in 2 distinct fractions-the highly spiritual and the extremely materialistic who want nothing to do with love, The sign is also connected to judgment, criticism and punishment for mistakes, repairing karma so to speak, this is what will surely be happening to the darker humans. 

Sounding doom and gloom enough for you, in the style of Capricorn? 

But for the majority of humans, this will be a time of rewards for their long and hard work on Earth over many lifetimes with the crown of evolution with the turning point in development. Reconnection to the spiritual worlds and becoming part of the cosmic consciousness of One. The Higher Beings will once again become visible to us, like it used to be thousands of years ago. 

Capricorn in Esoteric literature is known as the Gate of Cosmic Consciousness and also as the Gate of Death, the souls leaving the earthy realms always go through Capricorn. During its age,most of Humanity will be initiated and figuratively speaking, given a visa for the higher world and cosmic states. We will gain the ability to leave the body when we are ready to, so Death (Capricorn) will disappear-we will be in constant contact with the worlds beyond. 

In the age of Cancer (some 8000 years ago) human souls lost the connection with the higher worlds, as their natural clairvoyance got blocked and their consciousness become progressively material. It was on purpose, we needed to focus on mastering matter and the visible world for the next 10000 years. We started forgetting that we were timeless souls, that life on earth was just an extension of the higher realities. Death and the fear of death had arrived… 
That is why Cancer is the sign of the Mother, it gave birth to humanity into the material world.

Before the age of Cancer, humans were still on earth, but they were not rooted much into the material... the tangible world was more of a dream state to them, while they experienced the spiritual realms, as the true world. 

So the age of Cancer - the cosmic Mother birthed us into the material world, with an awareness of the material world only, 
while the age of Capricorn, the cosmic Father (Capricorn rules fathers) will help us climb back to immortality and access to the spiritual worlds.


in, Astrolada



terça-feira, 18 de abril de 2023

PALAVRAS SÃO JANELAS (OU SÃO PAREDES)








 Sinto-me tão condenada por suas palavras,
Tão julgada e dispensada.
Antes de ir, preciso saber: Foi isso que você quis dizer?
Antes que eu me levante em minha defesa,
Antes que eu fale com mágoa ou medo,
Antes que eu erga aquela muralha de palavras,
Responda: eu realmente ouvi isso?
Palavras são janelas ou são paredes.
Elas nos condenam ou nos libertam.
Quando eu falar e quando eu ouvir,
Que a luz do amor brilhe através de mim.
Há coisas que preciso dizer,
Coisas que significam muito para mim.
Se minhas palavras não forem claras,
Você me ajudará a me libertar?
Se pareci menosprezar você,
Se você sentiu que não me importei,
Tente escutar por entre as minhas palavras
Os sentimentos que compartilhamos.


RUTH BEBERMEYER




A Raiva





A raiva é um bom exemplo para começarmos, uma vez que é uma emoção muito forte e as pessoas, efetivamente, não gostam da presença dela por muito tempo.

O Buda disse que a raiva é como pegar uma brasa quente com a intenção de jogá-la em outra pessoa, só que quem realmente se machuca é quem atira a brasa. 

Há momentos em que é muito natural ficarmos bravos, sendo insalubre não expressarmos ou não permitirmos sentir essa emoção forte. Mas da mesma forma que é natural para a mente passar pela experiência da raiva, é bom desenvolvermos consciência sobre a real utilidade dela, nos perguntando, também, se em algum momento traz boas sensações ou, pelo contrário, sempre causa dor, tristeza e inquietude.

À medida que começamos a desenvolver a concentração mental e nos capacitamos para uma introspecção que permite contemplar o tipo de pessoa que somos, começamos a nos distanciar e a encontrar o espaço necessário para observar a raiva, em vez de sermos imediatamente tomados por ela assim que ocorre. 

Se não aprendemos a treinar a mente, uma emoção como a raiva facilmente nos controla, principalmente quando estamos distraídos. Podemos até saber que reagimos mal a certos acontecimentos, mas nos sentimos impotentes quando a raiva surge; no calor da reação a uma situação particular não há tempo para verificar de onde ela realmente veio.
Por isso, a princípio, não devemos tentar suprimir a raiva quando ela surge, mas apenas começar a reconhecê-la e observar suas fontes e características.


  • Por que certos acontecimentos parecem apertar nossos botões, enquanto outros não o fazem? 
  • O que é mesmo que nos afeta? A grosseria, por exemplo? 
  • Ou será que quando alguém age mal, nos sentimos afrontados por suas palavras ou ações? 
  • Como é que ele fez isso? Como é que ele me disse aquilo? 


Ou talvez seja porque nos sentimos impotentes em certas situações: quando o motorista do autocarro vai embora logo que conseguimos chegar na paragem; ou quando o chefe nos esquece na hora de conceder a promoção para a qual nos esforçamos tanto; quando o banco envia uma carta para informar que os juros do empréstimo vão subir; ou, ainda, quando estamos exaustos e nosso filho adolescente decide sair à noite até alta madrugada e o esperamos acordados, muito preocupados. Todos esses fatores podem ser gatilhos para a raiva.

Essa é a vida no mundo real e nem sempre segue nossos planos.
Alguns dias parece que o mundo inteiro está contra nós. 
Mas é o que fazemos com nossa raiva que faz a diferença entre apanhar a brasa quente e nos queimarmos ou permitir que ela esfrie.

Assim, se um colega de trabalho ou nosso parceiro fez algo que tornou nosso dia muito mais difícil, ficamos furiosos, podemos gritar e espernear de raiva.
Mas que resposta isso normalmente enseja?

É possível que também fiquem com raiva ou se sintam mal e envergonhados pelo que fizeram a ponto de ficarem tristes e irem embora.
Por outro lado, podemos ficar em silêncio, ainda que a raiva permaneça tão evidente que qualquer um a percebe. Seguimos segurando a brasa quente. Quando a sentirmos queimar, talvez seja mais fácil largá-la, em vez de jogá-la em alguém – só, então, será possível examiná-la e tentar articular sua existência.
Esse é o momento de nos perguntar por que sentimos a raiva e de onde ela veio. 

Talvez haja uma combinação de fatores externos e, possivelmente, condições internas também façam parte – tais como o cansaço ou exigir padrões muito perfeccionistas, querer que as coisas sejam exatamente do nosso jeito.

Encontrar um equilíbrio entre falar de forma útil e assertiva ou usar as palavras como adagas contra outra pessoa nem sempre é fácil, mas vale a pena praticar em nome de nossas próprias mentes serenas e da felicidade daqueles próximos a nós.

A princípio pode ser muito difícil controlar o temperamento, mas quando começamos a ver os resultados – a paz mental obtida, como nos damos melhor com a família, amigos e colegas e até com os estranhos na rua – fica claro que vale a pena praticar.


Algumas práticas explicadas neste livro são particularmente úteis para nos soltarmos da raiva:
Simplesmente focarmos na respiração quando sentimos a raiva queimando – essa prática pode esfriar as chamas, reduzindo os batimentos cardíacos e acalmando o corpo para acalmar a mente.
A Meditação da Apreciação nos ajuda a reestruturar a mente com uma perspectiva mais positiva perante a vida; ao nos focarmos nos pontos altos, temos mais resiliência perante os baixos e, assim, talvez fiquemos menos propensos a nos agarrar tão prontamente à raiva.
A Contemplação da Mudança também é muito útil já que, à medida que seguimos com o movimento da corrente, passamos mais ao largo dos obstáculos ou os encaramos no nosso ritmo, em vez de nos chocarmos contra as pedras.
Também é bom nos apressarmos menos durante o dia, de forma que tenhamos mais tempo e espaço para deixar a raiva esfriar.
Uma sugestão para acordarmos cedo pela manhã é fazê-lo gradualmente, cada dia alguns minutos mais cedo, em vez de tentar acordar bem mais cedo de uma só vez.
Dormir uma boa noite de sono também nos deixa revitalizados e, muitas vezes, menos agitados.
Passarmos algum tempo olhando para dentro, contemplando nossa identidade, nos ajuda a explorar a raiva de acordo com sua origem interna, em vez de meramente colocarmos rótulos nas diversas condições externas que nos “deixam” com raiva. 

Será que somos pessoas que gostam das coisas exatamente do nosso jeito? 
Se for o caso, observarmos as situações sob diversas perspectivas pode ser de grande utilidade.
Ou será que nossas frustrações nos deixam mais suscetíveis à raiva? 
Por exemplo, podemos estar infelizes com nosso trabalho, mas, quando exploramos essa situação, podemos perceber por que estamos sempre reclamando de nossa jornada; ou se temos ansiedade em relação a nossas finanças, ficamos desproporcionalmente bravos quando nossa companheira compra um par novo de sapatos.



Gyalwa Dokhampa
in, “A Mente Serena”






sábado, 8 de abril de 2023

Carmen - Habanera (with English subtitles and better quality) l'amour est un oiseau rebelle

Não é inútil beijar as pedras









Todas as manhãs saía da solidão do bolor 
e vinha para a rua 
pintado de carne de fantasma.

E o espanto era que eu não ficasse esfarrapado nas árvores 
- nevoeiro com cabelos.

O espanto era que eu não atravessasse as paredes 
mesmo ao lado das portas.

O espanto era que eu continuasse fugidiamente real 
nos olhos dos outros.

Eu que muitas vezes chorava, muitas vezes ria, muitas vezes cantava 
- mas só para dar a ilusão de boca ao silêncio.

Eu, reflexo nas montras 
onde as mulheres de chuva me acariciavam com mãos de vidro.

Eu, corpo de fumo de um incêndio que não ardia.

Eu, a solidão das palavras.

Depois vieste tu.
Bateste à porta. Abriste a todos os alçapões.
Apagaste todos os frios. Varreste as raivas dos recantos.
E num despir de lágrimas disseste-me:
"Toma os meus olhos, são de carne mágica.
Vê-te nos meus olhos para seres real,
Abre-te nos meus olhos tão de espelho doido.
Veste-te dos meus olhos para além dos poços."

E eu pus-me a cantar a alegria do Segredo Novo.

(Não, não é inútil beijar as pedras.)


José Gomes Ferreira




Rio Profundo








Este livro é uma tentativa de esbater as diferenças entre as grandes religiões; ou como uma nova formulação de uma dicotomia antiga: “catolicismo europeu” versus “catolicismo japonês”. 
O facto de Endo ser um japonês católico, ínfima minoria, de ter estudado na Europa e de ter uma consciência aguda da rejeição da mundividência cristã no Japão fazem dele um caso singular. 
E é de ‘casos’ que “Rio Profundo” se ocupa, de uns quantos homens e de uma mulher que perderam alguma coisa, que procuram alguma coisa, que em geral não acreditam em nada, mas não estão fechados a essa possibilidade.

Romancista católico, Endo escolheu deliberadamente os lugares sagrados de uma outra religião para melhor transmitir aquela que foi a sua derradeira mensagem: a de um Deus universal que aceita todos aqueles que sofrem.

Tudo se passa nas margens do Ganges, o rio sagrado da Índia, em torno de cinco japoneses que para aí convergem numa viagem que é tanto física quanto espiritual. Assombrados pelo seu passado, todos eles enfrentam uma ampla gama de dilemas morais e vão em busca de algo que perderam. 
Entre um grupo de turistas japoneses que partiu para uma viagem à Índia, quem encontrará a paz e a regeneração da alma e do coração de que cada um tanto precisa?

Isobe ficou viúvo. Tinha um casamento convencional, um viver habitualmente sem grandes manifestações de afecto. Mas a morte da mulher, de cancro, transtorna-o, porque se apercebe do amor dela por ele, e porque ela se despediu manifestando uma surpreendente crença na reencarnação, um choque para Isobe, que só acredita no aniquilamento. 
Isobe, que chora a morte da mulher, procura um sinal da sua reencarnação.
Mitsuko, era voluntária no hospital onde estava internada a mulher de Isobe, na altura da sua morte.

Kiguchi, um sobrevivente dos horrores da guerra na selva da Birmânia, tem esperança de poder dar descanso às almas dos camaradas que viu morrer na Autoestrada da Morte. Durante a travessia da Autoestrada da Morte, apanhou Malária, e foi deixado para trás, mas o seu companheiro Tsukada ficou com ele, cuidou dele, procurou comida nas aldeias que estavam por perto. Era frequente os soldados japoneses, em desespero, suicidarem-se com granadas...Tsukada encontrou um pedaço de perna de um soldado e comeu essa carne para sobreviver. Deu a Kiguchi, dizendo-lhe que era carne de lagarto, mas Kiguchi não conseguiu comer. Sobreviveram os dois, regressaram ao Japão, deixaram de comer carne, casaram e tiveram filhos. Kiguchi, reconstruiu a sua vida, criou uma empresa de transportes. Tsukada, nunca conseguiu superar o trauma, e virou alcoólico. Acabou por morrer com cirrose no hospital, acompanhado pela mulher, Kiguchi e o Gastão, que ao lhe contar que um avião se tinha despenhado nos Andes, e que os sobreviventes que iam morrendo, diziam aos outros para comerem os seus corpos cadáveres para sobreviverem, permitiu a Tsukada morrer tranquilo horas depois.

A Estrada da Birmânia, foi construída entre os anos de 1939 a 1941, e unia a China à Índia e à Birmânia (atual Mianmar), com o objetivo de levar suprimentos dos Aliados da Segunda Guerra Mundial para a resistência chinesa à ocupação japonesa.
Com uma extensão de 1 154 km, cruza a parte montanhosa da Birmânia, China e Índia.
A estrada foi importante na disputa entre os ingleses e os japoneses, antes da sua entrada no conflito mundial. Ligava Lashio (norte birmanês) a Kunming (na China), e foi construída por trabalhadores chineses, com grande custo de vidas sobretudo devido a surtos de malária, nas florestas e montanhas. Tornou-se a mais famosa estrada do mundo na época, por onde passavam constantemente dezenas de veículos abastecidos de armamentos e munições para a China - o que a transformou no principal objetivo estratégico japonês na ocupação da Birmânia. 
O Japão tinha optado pela via bélica a fim de construir, na terminologia da época, uma "esfera da co-prosperidade asiática". Já tinha, em 1910, ocupado a Coreia e, após a I Guerra Mundial afasta-se da Sociedade das Nações. Aproveitando-se do Incidente da Manchúria de 1931, promove em seguida a ocupação da rica província chinesa, levando ao descrédito a organização internacional que então se tentava criar para evitar novos conflitos.
Em 1937 os japoneses levam o conflito ao restante da China, ocupando os portos e procurando interromper todas as vias externas que pudessem suprir de material bélico as tropas de Chiang Kai-shek, como ocorreu com a derrota da França em 1940, interrompendo a ligação entre Tonquim e o Iunão. 
No ano seguinte a tentativa de conquista da China passa a integrar o novo conflito mundial, com a enorme ofensiva militar japonesa a ocupar diversos países asiáticos. 
Para interrompê-lo, os ingleses lançaram um contra-ataque durante a estação seca de 1942-1943, a partir de Arakan. Os japoneses lançaram a sua última ofensiva em 1944 para deter o suprimento aos chineses, que foi detida pelo 14º Exército, formado por tropas anglo-indianas, na Batalha de Imphal-Kohima. Roosevelt, Churchill e os Chefes do Estado Maior aprovaram, em agosto de 1943, uma ofensiva ao norte birmanês, e com a chegada das monções, as tropas japonesas recuaram pela chamada Autoestrada da Morte, até finalmente serem capturados a 3 de maio de 1945.

A Guerra da Birmânia ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1941 com a invasão japonesa do país e encerrada com a vitória dos Aliados em 1945.


Numada, escritor de contos para crianças, que se separou dos animais que amava e, sobreviveu a uma doença grave, procura conforto junto da Natureza. Desde muito pequeno que era introvertído e muito tímido, e por isso não tinha amigos. Viveu a sua infância em Dalian, na Manchúria, que na altura era colonizada pelos japoneses, e que tinha sido ocupada antes pelos russos, Os seus amigos sempre foram os animais. Em Dalian, o seu melhor amigo era o seu cão, um Galgo Manchu chamado Negrito. Os pais decidiram divorciar-se, e a mãe decidiu voltar para o Japão e levaria Numada consigo. No dia da partida, Negrito correu atrás do carro até perceber que Numada o tinha abandonado. Numada nunca esqueceu o olhar de resignação e abandono de Negrito, e ali teve a sua primeira dolorosa experiência do que era uma separação.
Negrito foi o primeiro cão a ensinar-lhe que os animais podem "dialogar" com os humanos, e podem ser grandes companheiros de vida, capazes de compreender as dores de seus donos.
E foi assim que se apercebeu na universidade de que, a única forma de conseguir algo parecido na sua vida, seria através de uma literatura fabulísta, onde cães, gatos, pássaros, cabras, póneis, compreendem as tristezas das crianças. 
Já com uma carreira consolidada como escritor de livros para crianças, teve um pássaro muito raro dos trópicos, um Calau, a quem deu o nome de Pierrot (o calau fazia-o lembrar os quadros do Pierrot pintados por Rouault), e com quem teve um vinculo muito forte. Passados uns anos, Numada adoece com tuberculose, teve de ser internado no hospital, e antes de ir para o hospital, abriu a janela do escritório e libertou o Pierrot. De novo, uma situação imprevista, obrigou-o a separar-se do seu melhor amigo, o calau Pierrot.
A tuberculose piorou, teve de ser operado mas sem o sucesso desejado, e como Numada estava com muitas saudades do seu calau Pierrot, a família ofereceu-lhe um Mainá, com quem ele tinha longas conversas à noite. conversas que não conseguia ter com mais ninguém. A única hipótese de sobrevivência seria fazer uma cirurgia que tinha poucas possibilidades de sucesso. Com a enorme possibilidade de morrer durante a cirurgia, todas as noites Numada falava com o Mainá sobre o medo que tinha da morte. Foi operado pela terceira vez um mês depois... Numada, após uma paragem cardíaca, sobreviveu... e o Mainá morreu durante a cirurgia nesse mesmo momento, e Numada percebeu que o Mainá tinha dado a vida por ele. 
Antes do final da viagem à India, Numada foi a uma loja de animais comprar um Mainá, foi de carro até um Santuário de aves, e libertou o Mainá, devolvendo-lhe a liberdade como forma de gratidão. 

Mas o Ganges é também o local do reencontro de Otsu, um padre japonês rejeitado pelos seus irmãos católicos, e Mitsuko, a mulher que o seduziu nos seus tempos de estudante universitário e que o tentou arrancar à sua fé cristã,, numa aposta entre amigos.

Mitsuko, estudava Literatura Francesa na universidade, onde Otsu estudava Filosofia.
Nas aulas de Francês, andavam a ler um livro de Julien Green, em que a heroína, Moira, dada a folias, seduz um estudante puritano, Joseph, por puro gozo e desdém. Mitsuko era chamada de Moira pelos colegas de curso, e foi desafiada a fazer o mesmo a Otsu. Ela aceitou o desafio, seduziu Otsu até ele perder a virgindade com Mitsuko, e logo depois rejeitou-o. 
O prazer de se conspurcar a si mesma confundia-se com a repugnância das suas motivações.
Uns anos mais tarde, casou com  o milionário Yano, homem convencional, o oposto em tudo de Mitsuko. 
"Vou casar com este homem, para poder dominar os meus ímpetos de superioridade", 
disse ela para si, quando se conheceram.
Pouco depois de se terem casado, compreendeu a loucura da pressa de se corromper a si própria.
Durante a sua vida universitária, desprezou o seu corpo, envolvendo-se sexualmente com tudo o que era homem da universidade e fora dela.
Depois, casou porque algo igualmente destrutivo continuava a dominá-la. 
Ela desejava apagar a sua vida passada dos tempos universitários, queria casar com um homem que não tivesse interesse em compreender esse lado destrutivo que habitava nela, e desejava converter-se numa esposa vulgar, enterrando-se a si própria como um cadáver, entre pessoas que abominava, réplicas do marido.
"Yano, devorava-lhe o corpo, tal qual um cevado a lavadura da pocilga. A expressão desse homem, quando fazia amor com a mulher... Mitsuko conhecia isso muito bem por larga experiência - era exatamente a de qualquer outro: uns olhos injetados de sangue e uma respiração acelerada. 
Interrogava-se a si mesma se, no fundo, era uma mulher capaz de amar alguém. 
"Que Diabo quero eu afinal?" 
  

Otsu, que depois dos estudos teológicos na França, onde foi ordenado padre católico, vive num ashram, rejeitado pelos confrades dominicanos, e testemunha solidariedade para com os pobres, as prostitutas, os moribundos, nas margens do Ganges.

Há três momentos na relação de Mitsuko e Otsu: 
  1. os anos da universidade, 
  2. encontro em Lyon, 
  3. encontro em Varanasi(Benares). 
O fio desses três momentos é a confiança, quase infantil, de Otsu em Cristo, oposta à incredulidade religiosa e à ausência de amor de Mitsuko. 

Na universidade, Mitsuko relaciona-se com um estranho colega, de nome Otsu, estudante de filosofia, um jovem de aspecto nada atraente, tímido, de família católica devota, que estuda filosofia para compreender o espírito europeu. 

No seu encontro em Lyon, onde Mitsuko interrompe a sua lua-de-mel em Paris, Otsu explica-lhe que, depois de se ter sentido rejeitado por ela, ele tinha compreendido "aquele homem, que tinha sido rejeitado por todos”, e que o tinha seguido. Para não perturbar Mitsuko, para quem a palavra “Deus” não significa absolutamente nada, Otsu substitui o nome de Deus pelo de Cebola. 
Em seus diálogos, contudo, Otsu, há três anos na França, deixa entender claramente que a cultura europeia se choca com o caráter japonês:

“Não creio no cristianismo europeu. Estou cansado do modo de pensar das pessoas daqui. Seu modo de pensar, que corresponde às exigências de seu coração, é pesado para um asiático como eu. Cada dia é um inferno para mim. Quando procuro dizer a algum de meus colegas ou professores franceses como me sinto, eles dizem que a verdade não conhece distinção entre Europa e Ásia.
Não consigo entender a distinção tão taxativa entre o bem e o mal. Custa-lhes ver que também as coisas boas podem estar ocultas nas más."

Seu terceiro encontro se realiza em Varanasi, à beira do Ganges, onde Otsu, agora padre ignorado por seus confrades, vive como um sadhu (mas celebrando a missa privadamente), passa os dias na companhia dos harijan (“filhos de Deus”), isto é, os párias, carregando nos ombros os cadáveres dos pobres, das prostitutas, dos velhos e levando-os ao forno crematório na margem do grande rio Ganges. 
Otsu diz a Mitsuko que, se “aquele homem” vivesse hoje na Índia, faria a mesma coisa, carregando-os nos ombros como a cruz. E acrescenta: 

“Finalmente, decidi que o meu Cebola não vive só no cristianismo europeu. Ele pode ser encontrado no hinduísmo e também no budismo. Quando os cadáveres são envolvidos pelas chamas, faço uma oração ao meu Cebola:
‘recebe esta pessoa que te recomendo e toma-a nos braços’”.

Pelo fim do romance, Otsu vai em socorro de um turista japonês que não respeita os tabus dos hindus a respeito da cremação e tira uma foto da cerimónia. O turista é imediatamente atacado pelos participantes
e Otsu, como sempre, procura fazer a paz entre todos, embora saiba que o estrangeiro é culpado. Mas é ele que recebe os golpes; ele é atirado escada abaixo e fica com o pescoço partido. Dois dias depois, Mitsuko recebe a notícia de que seu estado se tornou crítico, e o romance termina aí.



É interessante o súbito aparecimento e o súbito desaparecimento de um personagem singular, a do estrangeiro chamado Gastão, de face equina como Fernandel, que, apesar do seu japonês lastimável e da sua falta de coordenação motora, ajuda, como voluntário no hospital e presta socorro a um paciente, Tsukada, que era amigo de Kiguchi, que se sente desesperadamente culpado por ter comido a perna de um soldado morto para sobreviver à fome, durante a guerra na Birmânia, quando atravessava a Autoestrada da Morte com Kiguchi. Gastão, que é católico (faz o sinal-da-cruz antes de comer) reza pelo doente moribundo, conta-lhe que muitos outros fizeram o mesmo em situações de desespero para sobreviver, e lhe restitui a paz antes de Tsukada morrer.

Endo parece insistir num ponto essencial nos caracteres literários que ele destaca, em Gastão, em Admirável Idiota, e em Otsu, em Rio Profundo, a saber, a simplicidade desnorteante da identificação com o Cristo compassivo.



Três grandes influências culturais do Japão estão na origem dos conflitos de Endo com o catolicismo e na fonte do conflito entre culturas, que repercute na adesão religiosa: 
1) a inexistência de um Deus único pessoal transcendente ao homem; 
2) a inexistência do senso do pecado e da culpa diante de Deus; 
3) o sentido da morte como um retorno à natureza.

O próprio Endo o expressa num de seus ensaios: 

“[…] o elemento na sensibilidade japonesa que desafia o cristianismo é uma tripla insensibilidade: a Deus, ao pecado e à morte”. 

Essa “absorção passiva, sem resistência, no todo; essa forma de panteísmo que não oferece mais que uma amálgama e uma extensão do indivíduo”  arrastou Endo, e outros, em direção à atração do vazio e do niilismo, propício ao suicídio. 
É então que ele se reergueu, reconhecendo a alternativa “grandiosa” oferecida pelo catolicismo. 
Em outras palavras, o solo religioso do Japão é animista, politeísta, holístico, absorvente, “natural”.  Endo se refere a essas influências com a palavra “pântano”. 
Para ele, o pântano é a região do lodo que recolhe a variedade dos elementos, os absorve, os aquieta em sua tepidez e os reduz à matéria informe; mas, paradoxalmente, acontece às vezes de ver desabrochar, aí, a flor do lótus.

Endo tentou superar o profundo conflito entre o catolicismo e essas influências que constituem a identidade japonesa a tal ponto que mesmo hoje pode-se dizer, que “um cristão japonês é sempre, em grande medida, um estrangeiro”. 

Endo não conseguiu resolver ou superar os seus dilemas religiosos-culturais. 
Não pode admitir que alguém seja capaz de permanecer um tempo na França sem voltar para o Japão mais magro, em consequência de um estado geral de angústia. 
Assim, desde os primeiros escritos até Rio Profundo, existe uma fricção evidente entre a maneira ocidental e a maneira japonesa de compreender o cristianismo. 
Nessa primeira fase a divergência é apresentada por meio de três figuras: 
  1. a do homem branco versus o homem amarelo, 
  2. a da forma côncava versus a forma convexa, e 
  3. a da incompatibilidade dos tipos de sangue. 

Fiquemos com a segunda forma. 
De acordo com Endo, toda a cultura japonesa, inclusive a religiosa, está contida nela mesma e voltada para si mesma:
ela não se abre para outras culturas nem para um Deus que transcenderia o homem ou a natureza. 

O cristianismo, ao contrário, e a cultura ocidental que dele deriva são convexos, isto é, abertos para fora, até um Deus transcendente. 
Não se pode estar ao mesmo tempo no côncavo e no convexo, e a relação entre cultura japonesa e religião cristã se faz, por isso, sob a escolha. 
Nessa fase, Endo escolheu viver como católico, e não como japonês, com as consequências psicológicas, e certamente religiosas, ligadas a essa escolha. 
Entre essas consequências psico-religiosas, pode-se contar a rigidez da justiça divina e a aniquilação de si mesmo diante da culpa, de que dão testemunho os missionários europeus que desertaram, os quais, ao contrário, invejam a despreocupação moral de suas mulheres japonesas.


Numa segunda fase, Endo consegue perceber que deve existir uma maneira japonesa de ser católico. Endo, nunca propôs “ajaponesar” o catolicismo ou mesclá-lo com o budismo ou o xintoísmo, precisamente porque essas posições religiosas são fundamentalmente antitéticas ao cristianismo. A maneira japonesa de ser católico, Endo a concebe como uma verdadeira humanização de Deus na pessoa de Jesus, seguido de perto por Maria e, na realidade, pelo conjunto de todas as Marias dos Evangelhos. Para Endo, com efeito, Jesus é a demonstração do Deus compassivo, misericordioso, próximo dos pobres, dos sofredores, dos fracos e dos pecadores. Jesus, psicologicamente, é como a mãe que, ao contrário do pai, não faz diferença entre os filhos nem impõe condições para reconhecê-los como seus.

A partir daí, não é mais necessário escolher entre o côncavo e o convexo: essa distinção
e outras, embora verdadeiras sob um ponto de vista, não são indispensáveis. Ao contrário, quando alguém pode abandonar-se à compaixão maternal de Jesus, pode também descer, de um modo criativo, ao que corresponde o solo morno da natureza e dele sair transformado, como a flor do lótus.

Alguns exemplos.
Gastão, em Admirável Idiota, rosto de cavalo, membros desproporcionados, andar desajeitado, comete ridículos enganos de linguagem com duplo sentido, corre atrás de cães asquerosos; em suma, não corresponde absolutamente ao estilo de gente de bem e se assemelha exatamente a um louco, separado dos comedimentos e conveniências sociais. Mas ele é, ao mesmo tempo, puro, inocente, esquecido de si, generoso até a loucura, pacificador dos inimigos, capaz de morrer e, talvez, de ser morto, em favor de quem quer matá-lo. 
A explicação? 
Gastão queria levar Cristo aos japoneses. 
Não o pôde fazer como padre missionário, por falta de inteligência. Fê-lo, então, como um católico sem qualidades.

Em Rio Profundo, Otsu é o personagem central: 
Bizarro como estudante universitário, que se afasta dos outros porque estuda e reza, enquanto os colegas de turma se divertem. 
Humano ao máximo quando se perde “como um porco” no corpo de Mitsuko.
Suspeito para os superiores religiosos da França por causa de suas dificuldades com o catolicismo europeu, vivendo fora de sua comunidade religiosa na Índia e, finalmente, vivendo e
trabalhando com as prostitutas e os cadáveres dos pobres nas margens do Ganges, até cair ferido de morte ao defender a sacralidade da cremação dos corpos contra a vã curiosidade de um turista fotógrafo. 

No entanto, Otsu é um padre, que testemunha, embora desconhecido, o Cristo pobre e compassivo. Feitas as contas, é ele quem tem razão, contra os colegas da universidade, contra Mitsuko, contra os superiores, contra os turistas, porque ele é um verdadeiro cristão que, como o Cristo, acolhe os mais fracos.

De um ponto de vista psicológico, 
qual é o encaminhamento da superação do conflito nessa segunda fase?  
O equilíbrio a que Endo chegou na segunda fase, pode ser compreendido mediante a referência ao conceito de amae muito próprio à psicologia afetiva do psiquiatra japonês Takeo Doi que apresentou ao Ocidente, em 1956, o conceito de amae, com o título
“Japanese Language as an Expression of Japanese Psychology”

Comparando-o com o conceito de amor (love), Doi insiste no aspecto passivo próprio de amae, isto é, o fato de “ser amado” (to be loved) por alguém significativo (em geral os pais), e não o facto de “amar” (to love) simplesmente. 

Segundo ele, o Ocidente, por influência da filosofia grega e do cristianismo, reforçou o sentido ativo de “amar”, a ponto de esquecer a pessoa que é o objeto do amor, enquanto a psicologia dos japoneses repousa no aspecto passivo que exprime o fato de “ser amado”. 

Reconheceu ele, no entanto, em estudos posteriores, que amae não indica um estado afetivo exclusivo dos japoneses, mas que, ao contrário, encontra-se em outras línguas, culturas e teorias psicológicas, conceitos e palavras parcialmente semelhantes. 

Etimologicamente, amae é o substantivo do verbo amaeru, que pode ser traduzido como “depender do, e confiar no amor de um outro”. A palavra tem a mesma raiz que amai, “doce”. E amaeru evoca o sabor de “doçura” que, segundo Doi, embebe as lembranças da infância de quase todos os adultos japoneses. 
O próprio Doi acrescenta que essa espécie de relação interpessoal, mesmo se tipicamente exemplificada pela criança que procura a mãe (e corre o risco de ser “estragada”), pode ser aplicada também ao adulto quando confia totalmente numa outra pessoa, pelo que a pessoa é ou pelo que ele espera dela. 

Para bem compreender o alcance do conceito de amae, sigamos a descrição que, nesse espírito, faz Kawai dos princípios “mãe” e “pai”:
“A função do princípio “mãe” é a de abraçar. 
Ela abraça cada coisa boa ou má, e segundo esse princípio toda coisa é absolutamente igual. Desde que são seus, todos os filhos são igualmente dignos do amor da ‘mãe’, e seu amor nada tem a ver com a personalidade ou a capacidade dos filhos. [...] 
Ao contrário, o princípio ‘pai’ está baseado na função de “separação”: 
toma e separa cada coisa; divide as coisas em ‘sujeito’ e ‘objeto’, bem e mal, em cima e em baixo, etc. 

Em oposição ao princípio ‘mãe’, de acolhimento igual a todos os filhos, o ‘pai’ faz distinção entre os filhos segundo suas capacidades e personalidades. 
No princípio ‘mãe’, todos os filhos são educados segundo a suposição ‘meus filhos são todos bons
filhos’, enquanto no princípio ‘pai’, os filhos são disciplinados segundo a norma:
‘meus filhos são apenas os que são bons’”
Parece, pois, que, se amae pode em geral referir-se aos pais, o conceito se relaciona sobretudo à mãe, que abraça seus filhos, ama-os incondicionalmente, julga-os todos bons filhos, mesmo se reconhece seus erros. 

É isso que Endo chega a propor como “cristão, japonês e escritor”, depois de ter analisado as oposições entre o catolicismo à ocidental e o catolicismo à japonesa: 
Deus é Jesus-mãe.

Há alguns anos, os pesquisadores do Centro de Psicologia da Religião de Leuven demonstraram que os crentes ocidentais conotavam o Deus do cristianismo de um modo complexo: 
sem dúvida como o pai que ordena e sanciona, mas mais ainda como a mãe que acolhe e protege, sendo seu conceito afetivo de Deus o de um Deus que exerce a função pai/mãe;
Os agnósticos privilegiavam as características maternas; 
os descrentes conotavam Deus tipicamente como um pai severo, que rejeitavam; se lhes fosse perguntado que Deus lhes seria conveniente, indicavam um deus com características inteiramente maternas.

Nos livros de Endo descobrimos uma dinâmica psicocultural diferente e específica: 
o Deus cristão que lhe convém é um Deus materno; 
este não suprime o pecado e a culpa, 
mas cobre-os com a incondicionalidade do amor materno e coloca-os no contexto mais geral da existência do mal, de que a mulher e a natureza são, aos olhos de um oriental, o depositário simbólico, da mesma forma como o são do bem. 

Essa percepção é explícita em Rio Profundo. 
Gastão e Otsu, 
homens, e não mulheres,
são testemunhas dessa dinâmica, como pessoas e seus atos. 

Parece, pois, que para Endo, a maneira japonesa de compreender psicologicamente o catolicismo difere da maneira ocidental europeia, na linha de uma percepção materna particular de Deus, elaborada a partir do conceito de amae. 

Seria necessário, conseguir equilibrar melhor a função simbólica do pai, tão essencial nas
fontes escritas e na experiência vivida do cristianismo, com a função simbólica da mãe. 
Dito de outra forma, 
seria necessário conseguir conciliar, no ser cristão e sobretudo católico, dois tipos de percepção: 
  1. a do afeto materno, e portanto da imanência, e 
  2. a da transcendência, que se ajusta bem com o corte introduzido pela função paterna.