terça-feira, 30 de maio de 2023

Navegamos




 Navegamos,
e as coisas vão mexendo devagar,
como a colher roçando o interior da chávena,
a música que apenas segura as coisas,
a cidade rodando em torno de um eixo cego,
tudo em segredo,
entre águas enormes e anónimas,
navegamos rumo ao vazio que trazemos,
na sensação de que nada poderá 
levar-nos de volta.

Somos monstros feitos desse grito
que não damos,
bloqueados nesta deslocação imparável.
Contra o casco as vagas parece que riem 
do espetáculo da nossa compostura,
enjoados com água doce e morna 
que levamos no corpo,
as nossas vidas tão sem sabor,
e o medo de o entornarmos.

Evitaremos outro desastre refugiados
na cabina, ouvindo o rumor uns dos outros,
lendo sobre uma tempestade fantástica,
uma narração que faça a vida
parecer uma coisa distante.

O navio treme, a máquina trabalha,
e o nosso juízo sufoca entre os respingos 
e a agitação, o arcabouço do vento.
Tentamos lembrar-nos como se faz,

como se respira, e um relâmpago ao longe 
parece lamber os contornos de outro mundo.

Aqui, apenas o vago temor
de não sermos reais.
E se a morte deixou de assustar-nos 
é pela sensação de que não iria sujar-se,
não por nós. Para quê dar-se ao trabalho,
vir buscar-nos, e arrastar-nos depois 
para onde?


Diogo Vaz Pinto




DEIXAR FLUIR

 




 

"Fluir não é confiar cegamente que tudo vai correr bem. 
Fluir é permitir que a vida aconteça no seu lado luz mas também no seu lado sombra. 
Fluir é manter o equilíbrio. 
Fluir é confiar que o desafio tem o seu fundamento karmico. 
Fluir é aceitar que atraímos o desafio para a nossa realidade. 
Fluir é acreditar que somos os criadores do mesmo e que ele agora volta para lhe darmos resposta positiva, ou seja, tratá-lo com respeito, humildade e sabedoria. 
Fluir é saber identificar a frequência velha que ainda dispara, seja a raiva, o ressentimento, a culpa, o medo e ser capaz de transcender esses sentimentos em aceitação e rendição à Ordem Maior da vida."



 Deixar fluir: 
a arte de não ir 
contra a corrente


Quando começarmos a deixar fluir, será mais fácil evitar ir contra a corrente. Cada experiência que vivemos influencia a nossa maneira de agir, sentir e pensar. De certa forma, isso nos transforma, seja pouco a pouco ou aos trancos e barrancos. Tudo depende da importância que damos a elas.

O problema surge quando as circunstâncias em que vivemos nos atingem com tanta força que são capazes de nos surpreender e colocar o nosso mundo de cabeça para baixo. De repente, não sabemos como agir porque gostaríamos que tudo fosse diferente. 
As expectativas podem nos machucar muito.

Às vezes, ficamos obcecados para que tudo saia perfeito, isto é, como havíamos pensado. Nós nos apegamos a um cenário de futuro ideal onde todas as peças do quebra-cabeça se encaixam perfeitamente, esperando que a realidade aconteça dessa forma.

A questão é que quando a realidade se mostra com as suas imperfeições, percebemos que há muitas peças que não se encaixam, outras que estão faltando e outras que nunca havíamos pensado. 
Portanto, nos sentimos frustrados, perdidos e desconfortáveis.

Agora, quem nos garantiu que tudo seria perfeito? 
Ninguém. 
Foi apenas uma suposição da nossa mente, uma história que ela nos contou para nos deixar tranquilos e livrar-nos daquele sentimento desconfortável de insegurança. A verdade é que a perfeição nem sempre é o melhor caminho. Ficarmos obcecados esperando que as coisas aconteçam como desejamos pode ser um dos maiores obstáculos em nosso caminho. 

Então, o que podemos fazer?


“O sábio procura não fazer, 
deixa que as coisas sigam o seu curso”.
-Carl Jung-







Deixar fluir e receber com amor o que a vida lhe traz
Nadar contra a corrente acarreta o risco de afogamento se não tivermos muita experiência. É como se estivéssemos presos em uma tempestade infinita. Por um lado, nos esforçamos demais, ficamos sem energia e exaustos e, por outro lado, esperamos que as circunstâncias mudem e possamos alcançá-la. No entanto, se praticarmos a arte de deixar fluir, tudo será mais fácil.

Deixar fluir significa deixar que o carretel de linha vá se soltando. É aceitar em vez de lutar, aproveitando a corrente para chegar aonde queremos. Isso implica nos deixarmos surpreender com o que acontece em cada momento, em vez de planejar tudo.

Deixar fluir. Deixar a vida lhe surpreender e aceitar o que ela traz pode ser uma opção maravilhosa se a vivermos com responsabilidade e compromisso. 
Mas o que exatamente é essa atitude?

Se tentarmos controlar o que vai acontecer, além de tempo, gastaremos energia porque a maioria das variáveis está além do nosso controle. 
Agora, se cultivarmos a paciência e esperarmos para ver o que acontece, a angústia e a preocupação desaparecerão, porque deixaremos de nos concentrar no futuro para estar no presente.


Como deixar fluir?
Deixar fluir é a arte de se deixar levar, recebendo as surpresas da vida com gratidão e liberando, por sua vez, os medos que nos impedem de crescer. É viver o presente intensamente. Há muitas maneiras de praticar essa arte maravilhosa. Estas são algumas das mais efetivas:

  • Praticar a aceitação. É o primeiro passo para que ‘fluir’ se torne parte da nossa filosofia de vida. Aceitar o que acontece ao nosso redor, em vez de lutar contra isso, é a premissa básica. Muitas vezes nos empenhamos para que as circunstâncias aconteçam como esperamos e as pessoas ajam como pensamos, mas isso é apenas um engano da nossa mente. Isso pode acontecer ou não. Portanto, não há nada para esperar, mas para aceitar e, a partir disso, decidir o que fazer.
  • Conecte-se com o presente. Viver no aqui e agora, em conexão com cada momento, nos permite fluir porque nos liberta do peso do passado e das expectativas do futuro.
  • Aprender com as circunstâncias. Se você aprender com cada experiência, mesmo que ela não seja muito agradável, será mais fácil deixar fluir. Podemos aprender com tudo e com todos, não se esqueça disso.
  • Abra-se para o inesperado. Cada momento é único. Em vez de rejeitar o que não conhecemos, por que não nos arriscamos? Naturalmente, com responsabilidade e comprometimento.
  • Meditar. A meditação é um exercício poderoso para começar a entrar em contato consigo mesmo, para investigar o nosso interior e despertar. Graças a isso, desenvolveremos muito mais a nossa sensibilidade e, é claro, nos conectaremos com o presente.
Quando começarmos a deixar fluir, será mais fácil evitar ir contra a corrente. 
Há coisas pelas quais não podemos lutar e gastamos muito tempo, energia e raiva tentando forçá-las para que aconteçam como queremos. 
Sendo pacientes e deixando que o caminho nos mostre aonde ir, poderemos viver mais plenamente.





Os benefícios de deixar fluir
Não ir contra a corrente é uma boa opção para viver plenamente. Além disso, essa prática nos oferece importantes benefícios, como os seguintes:

  • Harmonia. Deixar fluir abre a porta para a tranquilidade e a calma, para a possibilidade de saborear a harmonia de tudo o que nos rodeia, para estar aberto ao que acontece, sabendo que nem tudo depende unicamente de nós.
  • Criatividade. Ao nos permitirmos não nadar contra a corrente, experimentaremos os momentos de uma maneira autêntica. Dessa forma, poderemos ter mais liberdade para gerar novas ideias, para escolher novos caminhos ou tomar melhores decisões.
  • Relaxamento. Deixar-se surpreender pelo que acontece nos ajuda a nos libertarmos da culpa e das expectativas, isto é, daquelas tensões que nos obrigam a permanecer em estado de alerta contínuo.
  • Desapego. Quando deixamos fluir, nos desapegamos das pessoas, situações ou coisas. Nós deixamos de lado o hábito de nos apegar para sermos felizes, soltamos o que nos fere e começamos a apreciar o verdadeiro valor de tudo o que nos rodeia.
  • Felicidade. Deixar fluir, de alguma forma, nos aproxima do sentimento que desejamos e que está dentro de nós: a felicidade. Estar calmo, sem apego e ligado ao presente fará com que seja muito mais fácil ser feliz.


Deixar fluir é deixar as coisas acontecerem, aprendendo e entendendo como elas realmente são, apreciando cada experiência, cada momento. Tudo tem o seu momento em nossas vidas.

Deixar fluir é uma arte e você é o pintor desta grande obra que é a vida. Você decide como quer levá-la. Aprenda a receber cada momento de braços abertos e você será capaz de viver em paz.



“Não se trata de ter todas as certezas, 
mas de aprender a conviver com as incertezas. 
Querer controlar tudo adoece. 
Deixar fluir cura”.




María Alejandra Castro Arbeláez



domingo, 28 de maio de 2023

Who Am I?








Who am I you may well ask
I really wish I knew
If I am not myself at all
Then maybe I am you
To discover who I really am
Is really quite a task
Maybe I am someone else
Who wears a funny mask
I strive so hard to know myself
To discover the “real me”
My thoughts and feelings all confused
Yet still I cannot see
What makes me tick?
What makes me feel?
So very special and unique
My purpose in this glorious world
Is what I truly seek
I wish I could be creative, self confident and smart
Not quiet, shy and insecure
Emotional at heart
I wish I had the confidence to say what I really feel
Instead of fearing criticism
Uttering words that seem unreal
Why at times do I feel so alone
And just yearn for a friendly face
While at others I just long to be
In some far off distant place
With no one else to bother me
And disturb my rambling thoughts,
Until my conscience brings me back
To do the things I ought
And so I continue on my way
On this journey they call life
I try to do the best I can
Though at times the goings tough
I’ll do my part to refine the world
And make it a better place
By being “me” to my capacity
With each trial I have to face


Faigie Rabin





What Does It Mean To Be Human?





 Pluto Square The Nodes



We have a very important transit slowly applying: Pluto square the Lunar Nodes. 

Pluto is now at 0° Aquarius, and the Lunar Nodes are at 3° Taurus and 3° Scorpio. 

Pluto will square the Nodes for the following months; the exact square will happen on July 23rd, 2023, when Pluto will be back in Capricorn at 29°, and the Lunar Nodes at 29° Aries and Libra. 

This is a potent transit we are already feeling, because Jupiter – currently at 2° Taurus, and approaching the North Node at 3° Taurus – is adding an extra oomph to an already intense transit. 

What to expect when Pluto squares the Lunar Nodes?

The Lunar Nodes play a special role in astrology. They are not actual planets or physical bodies like the Moon or the asteroids. They are mathematical points found at the intersection of the path of the Sun with the path of the Moon. 

The Nodes are basically derived from the Sun and the Moon – the most important astrological archetypes. 
The Sun and the Moon represent our core identity – Sun, our spiritual, Yang identity, 
The Moon, our physical, Yin identity. 

The Nodes work in the background, supporting the agenda of the Sun and the Moon. 
Think of the Lunar Nodes as a compass.

When we get lost, when we deviate from our physical – and spiritual – path, we use the compass to recalibrate. 

Our life is a windy road with ups and downs. 
The Nodes, just like a compass, will always show us the overall direction (the North Node will point towards the North, or the future, and the South Node towards the South, or the past). 

When we get lost, we use the Lunar Nodes to come back on track. Our life is a perpetual movement from the South to the North Node and back. 

The Lunar Nodes show up a lot in family members’ synastries. 
When we have a Lunar Nodes transit, we usually have an important family event. 

The Lunar Nodes suggest that we might be more tightly linked to our family members than we think we are. The Lunar Nodes are the invisible family ties; who we are (the Sun and the Moon) is also a reflection of the genetic imprint of our parents and ancestors. 

In our chart, 
the South Node points to behaviors, mental models and genetic memories we have inherited from our family. 
And the North Node (the opposite point), to our opportunities to adjust our karma and bring in new life, new opportunities, and new genetic code. 







What about Pluto?

Pluto is the planet of complete and total transformation. Pluto strips everything down to the barest basics. Pluto is the planet of Truth – Pluto will relentlessly dig to find the Ultimate Truth, no matter how deep it has to go into the underground. 

What happens when we have a Pluto aspect? 
The planet – or astrological archetype, like in the case of the Nodes – is stripped of superficial layers and reduced to its core, atomic function. If Pluto makes an aspect with Venus for example, Pluto reduces Venus to her core Venusian expression.



Pluto Square The Lunar Nodes Nodes – One Step Forward
Now that Pluto aspects the Lunar Nodes, Pluto will again reduce the North and the South Node to their basic compass function. 

Pluto squares the Nodes – this is a transit that evolutionary astrologers call a “skipped step”. 

Pluto is at the midpoint of the two Lunar Nodes, so it’s with one foot in the past, and the other in the future. Pluto acts like a bridge, like an evolutionary step forward.

Pluto square the Lunar Nodes’ mandate is to heal generational wounds, and re-write healthier, more constructive behavioral patterns.

The North Node in Taurus is concerned with the future. 
Who am I growing into? 
Who do I want to become? 

The South Node in Scorpio is our past. 
What’s in the baggage I carry? 
What do I really need, and what can I drop? 
What’s a structural part of my identity – and what is not? 

Pluto square the Lunar Nodes will help us understand the subtle ways our identity is shaped by our upbringing, by our family and our formative years. 

We believe we are 100% unique individuals, but genetically, at least, we are 50% our father, and 50% our mother. We are a unique gene combination, that’s true, but who we are is not entirely our choice. At least not the South Node part of our identity. 

Pluto square the Lunar Nodes will expose the limitations of behaviors and mental models (South Node), that have been pushed onto us, but that no longer serve us. 

Pluto square the Lunar Nodes will also expose those so-called ideals or goals (North Node) that are not necessarily an expression of who we truly are (easy to get confused when we grow up with top-down education and copy-paste Instagram role models). 

Pluto is now at 0° Aquarius – the very first degree of Aquarius. Aquarius is the sign of the collective. Aquarius is the water bearer – the most human sign of the zodiac. Pluto’s previous transits in Aquarius have coincided with the emergence of humanism, respectively democracy. 












Pluto Square The Lunar Nodes Nodes – What does it mean to be human? 
That’s a fair question for Pluto at 0° Aquarius. In our desire to spread Aquarius’ humanitarian spirit we may come up with various initiatives to make sure everyone is looked after. 

But when we help some people we automatically exclude others. 
How do we make our judgment calls? 
And how many of these judgment calls are based on our own Lunar Nodes conditioning? 

Perhaps you too have been judged based on who your parents are, or from what kind of family or culture you came from. People didn’t see Sarah, or Tom – but the “so and so’s child”. 
How many times have you judged others based on their upbringing? 

  • What does it mean to be human? 
  • To come from a certain cultural background? 
  • To like certain music? 
  • Have a particular fashion style? 
  • Follow a particular spiritual or political movement?

Perhaps being human means none of this. 
Being human is what’s left when we are stripped of all these layers. 

Being human is not what makes us different from each other – but what makes us similar. 
What we all share in common. 
We all want to be seen for who we truly are – for our human essence. 

When we exclude – or paradoxically, when we try to include everyone, we move away from what really matters – our humanity.

When we enforce rules to protect our humanity, we go against the very essence of humanity and adulthood, treating people like children. 

I remember some research done in the insurance industry. 
Companies that asked for multiple data points, signaling that their customers are future delinquents – got more claims and frauds than companies that had more relaxed underwriting requirements and treated their customers with trust and respect. 

When we ask our friends, coworkers, neighbors, customers, or Facebook group members to “follow the rules”, “be kind” or “don’t spam”  guess what – they will unconsciously look for ways to bend the rules, to be unkind and to spam.

When we tell people to follow rules, we operate from the Capricorn-Cancer, parent-child axis. 
And when we’re the parent, the other party becomes the child.



Pluto In Aquarius – A New Paradigm
When instead we operate from the Aquarius-Leo axis, we act from our humanity-individuality axis.

We trust the individual because we know we’re all in this together (Aquarius), at the same time respecting their individual choices (Leo). 

With Pluto squaring the Nodes both from 0° Aquarius and from 29° Capricorn, we will learn some important lessons around what it means to be human, sovereignty and personal responsibility (0° Aquarius) vs. old lessons around power dynamics, victimhood, and parent-child behavioral models. 

Pluto will spend a few more months at 29° Capricorn – and then it will be back in Aquarius for good.

We still have time to tie loose ends and reflect on what we’ve learned from the 20-year Pluto in Capricorn era, and what we want from Pluto in the Aquarius era. 

And the Pluto square Lunar Nodes transit is an excellent opportunity to reframe past-due conditioning, and change our life for the better.


in, Astro Butterfly 




quinta-feira, 25 de maio de 2023

James Blunt - Monsters (Official Music Video)

                                                       


Oh, before they turn off all the lights
I won't read you your wrongs or your rights
The time has gone
I'll tell you goodnight, close the door
Tell you I love you once more
The time has gone
So here it is

I'm not your son, you're not my father
We're just two grown men saying goodbye
No need to forgive, no need to forget
I know your mistakes and you know mine
And while you're sleeping I'll try to make you proud
So, daddy, won't you just close your eyes?
Don't be afraid, it's my turn
To chase the monsters away

Oh, well, I'll read a story to you
Only difference is this one is true
The time has gone
I folded your clothes on the chair
I hope you sleep well, don't be scared
The time has gone
So here it is

I'm not your son, you're not my father
We're just two grown men saying goodbye
No need to forgive, no need to forget
I know your mistakes and you know mine
And while you're sleeping I'll try to make you proud
So, daddy, won't you just close your eyes?
Don't be afraid, it's my turn
To chase the monsters away

Sleep a lifetime
Yes, and breathe a last word
You can feel my hand on your own
I will be the last one
So I'll leave a light on
Let there be no darkness, in your heart

But I'm not your son, you're not my father
We're just two grown men saying goodbye
No need to forgive, no need to forget
I know your mistakes and you know mine
And while you're sleeping I'll try to make you proud
So, daddy, won't you just close your eyes?
Don't be afraid, it's my turn
To chase the monsters away





Que queres que te diga



 Pasárgada
Fars, Irão



 

Que queres que te diga?
Não estamos velhos, se isso te consola.
Mas também já soa mais a conversa.
Uns passos fora e as paisagens
já nos arreganham os dentes.
Entre fósforos apagados e calcanhares de aquiles,
eriçaram-se flores na carcaça do animal
que ia levar-nos daqui.

Baixou uma névoa não sei de onde,
e ando há semanas fodido
com os correios que já não asseguram
serviço de e para Pasárgada.
Ouve o que te digo: esta coisa
da realidade
está a meter água por todos os lados
e quem não se mandar agora
já não sai.

Qual poesia, qual caralho!
Depois de bater tudo, de ver os magrelas
dos cães a guerrearem por côdeas
entre os sacos de lixo da morte,
o que te digo é: nem faças as malas.
Onde quer que a gente venha
a fincar a bandeira dos ossos,
o passado só irá atrapalhar.

 
 
Diogo Vaz Pinto
in, De Aurora para os Cegos da Noite



 



O Amor do Espírito


Manuela Dinu





"É em nossos relacionamentos 
que experimentamos a consciência, 
pois todas as ações 
que produzem efeitos sobre outros 
são acompanhadas por um sentimento 
de culpa ou de inocência.


Assim como os olhos, ao ver, distinguem constantemente o claro e o escuro, esse sentimento discerne, a cada momento, se nossa ação prejudica ou favorece o relacionamento. 
O que causa dano a ele é experimentado como culpa; o que o favorece, como inocência.

Por meio do sentimento de culpa, a consciência nos puxa as rédeas e nos impele a mudar de direção; pelo sentimento de inocência, ela nos solta as rédeas, e um vento fresco infla as velas do nosso barco."

Bert Hellinger
in, O Amor do Espírito 



Foram muitos os momentos em que identifico que fui guiada através do amor cego por meus pais. 
Era a forma como eu sabia fazer.

Tudo foi como tinha que ser, diante da forma como eu dei conta de ser.

Hoje, com um pouco mais de consciência, entendo isso, e busco a elucidação desses emaranhamentos para que possa seguir minha vida, fazendo diferente, fazendo de outra forma para honrar o amor que sinto por eles.

Agora eu posso! Através de mim, eles podem.

E que alegria ter consciência disso tudo, 
de poder escolher um outro caminho para demonstrar agradecimento e amor!


Lidiane Oliveira





quarta-feira, 24 de maio de 2023

The Maze







 I dislike uncertainty. Take no pleasure in the element of surprise.
I’ll carry the clipboard and checklists around
at my own birthday party. No need to leave anything to chance.

It was my son’s idea of course. There was a plastic pirate out front
and the promise of treasure at the end. I paid, then
shuffled behind, his voice ringing out, follow me - 

All glass and mirrors. I saw myself reflected a thousand times
all of them weary, impatient. Some days motherhood is just
din and obstacle. I was thinking about

the letter I had received. Another dead end
in my family search. No contact information, no forwarding address.
No one - no one - had been looking for me.

At a certain point, I stopped trying. Extended my arms and felt
along the walls for edges. It was cheating maybe but plodding along
without pleasure or intent doesn’t get you to the end any faster.

It’s been forty-five years. My mother, my father, they
are not getting any younger. Perhaps I waited too long. Perhaps
if I had started earlier there would have been other options. Other

people to reach out to. I read once in my file that I had
a “very good memory,” that I memorized the names
of all the neighborhood dogs. I would like to know them now.

I saw him before he saw me. He was looking around and pacing
not panicked yet but on the verge. I stopped and watched him for as long
as I thought he could bear. He turned when I emerged at last

and ran up and showed me the flag he had won
for making it through first. You were so slow, he told me. It was so
easy. Next time, don’t take so long.


Mary-Kim Arnold





A Humanidade precisa de rebeldes






Sim, a Humanidade precisa de rebeldes, de pensadores, de questionadores, de inconformados, de defensores do bem, de quem ainda sonha com pessoas reais, humanas, sensíveis e corajosas, de quem ainda acredita que a humildade, a empatia e a consciência são as ferramentas do Guerreiro da Luz e o espírito de cooperação e a harmonia como família humana o grande objetivo.


Hoje em dia está na moda querer ser diferente, fazer exigências, reclamar direitos, impor vontades, içar bandeiras, defender princípios que infelizmente apenas nos afastam do verdadeiro Caminho, tanto na forma como no conteúdo.


Muito antes 
de reclamarmos a nossa rebeldia 
perante os outros e o mundo, 
precisamos primeiro reclamá-la 
dentro de nós. 


E como?


Fazendo todo o trabalho de reconhecimento de quem somos, em que acreditamos, que valores defendemos, como nos relacionamos connosco próprios, que consciência e integração já fizemos da nossa sombra, que qualidades e talentos carregamos, que vibração emanamos e quão responsáveis somos pelo que ela causa e nos devolve, que equilíbrio e paz interior já atingimos e como queremos contribuir para um mundo melhor e com mais amor.


Basta abrir as notícias para vermos violência de vários níveis, desrespeito, abusos de poder, mentira, hipocrisia, exigências, jogos de poder e manipulação, corrupção, competição, falsidade. 

O olho de terapeuta vê inconsciência pessoal, falta de amor próprio, inseguranças, projeções de sombra, desconexão espiritual, falta de valores, ou seja, muito ego e pouca alma.

 

O Caminho é interno, é pessoal, faz-se pelo silêncio, é solitário, é exigente pois os desafios não são entre nós e o mundo mas sim, entre o nosso ego e a nossa alma. Entre a nossa sombra e a nossa Luz. 


Se fosse fácil já seríamos todos iluminados mas, a realidade mostra bem o quão difícil ele é e como caímos que nem ratinhos na primeira ratoeira das tentações do mundo e da nossa sombra. 

Toda a reação aos outros e à realidade exterior, é o ainda reativo mecanismo de sobrevivência, de defesa e ataque do ego. Não é ainda a resposta calma, pensada e sentida, de como a alma escolhe responder ao desafio, sabendo ela que a resposta certa e que garante a sua evolução, será sempre a partir do amor. 

A sua vida e as pessoas que lá encontra, é o palco onde escolheu colocar-se à prova, testar-se ao limite, superar-se a si mesmo, vencer as suas batalhas internas que nada têm a ver com o outro. O outro é apenas o activador, a oportunidade, o lembrete da batalha do momento.

 

Ser rebelde não é então fazer o que queremos mas sim, SER o que queremos. Ou seja:

  1. Ser o respeito que reclamamos do outro.
  2. Ser o amor que reclamamos do outro.
  3. Ser o apoio que reclamamos do outro.
  4. Ser a atenção que reclamamos do outro.
  5. Ser a alegria que reclamamos do outro.
  6. Ser o responsável que reclamamos do outro.
  7. Ser o sensível que reclamamos do outro.
  8. Ser o Ser Humano que reclamamos do outro.


Aqui se resume o princípio da Ovelha Negra, a sua exigente mas poderosa proposta. 

A pergunta é: estás à altura?


Vera Luz



sábado, 20 de maio de 2023

Metamorfoses






(...)

Entretanto, Dédalo odiava Creta, odiava o longo exílio,

morto de saudades da terra natal. O mar aprisionava-o.

“Embora ele barre o meu caminho com as terras e o mar”,

disse, “ao menos, o céu está sempre aberto. Iremos por aí!

Minos pode ser dono de tudo, mas não é dono dos ares.”

Assim dizendo, aplica o seu talento a artes desconhecidas

e revoluciona a natureza. De facto, dispõe penas em filas,

[começando pelas mais curtas, a curta seguindo a longa]

a ponto de se julgar crescerem num declive: assim cresce

gradualmente a flauta campestre com as suas canas desiguais.

Depois, prende-as a meio com um fio e a base com cera,

e, tendo-as assim prendido, dobra-as em suave curvatura

para imitar as aves verídicas. Com ele está o menino,

Ícaro. Sem saber que mexia em algo para si tão perigoso,

ora, de cara risonha, tentava apanhar as penas que a brisa

vagabunda movia, ora amolecia com o polegar a loira cera;

e com esta brincadeira atrapalhava o espantoso trabalho

do pai. Quando deu o toque final ao que tinha planeado,

o artífice aventurou-se a equilibrar o próprio corpo

no par de asas, e ficou suspenso no ar, assim agitado.

 

Equipando também o filho, disse: “Voa a meia altura, Ícaro,

recomendo-te, para que, se fores demasiado baixo, o mar

não pese nas penas, e, demasiado alto, não as queime o fogo.

Voa entre um e outro; não te ponhas, advirto, a contemplar

Bootes ou a Hélice ou a espada desembainhada de Orion.

Vem atrás de mim: eu guiar-te-ei.”. Ao mesmo tempo que dá

tais instruções de voo, ajeita-lhe as inéditas asas nos ombros.

No meio do labor e advertências, molham-se de lagrimas

as envelhecidas faces, tremem as mãos de pai. Beija o filho,

beijos que jamais repetiria; e, elevando-se graças às asas,

levanta voo à frente. Tal como a ave ao guiar as frágeis crias

para fora do alto ninho pelo ar, ele receia pelo companheiro;

exorta-o a que o siga, e ensina-lhe as ruinosas artes

[e, batendo as asas, vai olhando para trás para as do filho].

Viu-os com espanto alguém que pescava com a trémula cana,

ou algum pastor arrimado ao cajado ou lavrador à rabiça

do arado, julgando que eram deuses aqueles que tinham

o poder de viajar pelos céus.

E já à já esquerda ficava

a Samos de Juno (para trás haviam deixado Delos e Paros),

e, à sua direita, Lebinto, tal como Calimne, rica em mel,

quando o rapaz começa a achar gozo no audacioso voo

e se afasta do guia. Arrastado pelo seu fascínio pelo céu,

rumou para as alturas. Ora, a vizinhança do sol voraz

amolece as odoríferas ceras que colavam as penas:

a cera derrete-se. Bem lá agita o rapaz os braços nus,

mas, sem asas para bater, não logra apanhar ar algum.

E a boca que gritava o nome do pai é acolhida pelas águas

azul-esverdeadas, que dele obtiveram o seu nome.

O pobre pai (que já nem pai era), “Ícaro!”, chamava,

“Ícaro!”, berrava. “Onde estás? Onde hei-de procurar-te?

“Ícaro!”, gritava. Então avistou penas a boiar nas ondas.

(...)


OVÍDEO
in, Livro VIII de Metamorfoses


Mito de Ícaro

 

"Ícaro y Dédalo"
Escultura de Rebecca Matte
Museo Bellas Artes
Santiago - Chile




MITO

Ícaro, na mitologia grega, era o filho de Dédalo e é conhecido pela sua tentativa de deixar Creta voando — tentativa frustrada, por não ter noção dos seus limites, e ao voar alto demais, o sol derreteu as suas asas, o que resultou numa queda que o levou à morte nas águas do mar Egeu, mais propriamente na parte conhecida como mar Icário.

Ícaro era filho de Dédalo e, de uma escrava de Perséfone (deusa das ervas, flores, frutos e perfume).
Dédalo era um importante arquiteto, artesão e inventor ateniense.

Em Atenas, Dédalo era um artesão e engenheiro famoso. 
Todos conheciam a sua arte e sua fama ultrapassava a Grécia. 
Os mais poderosos reis queriam adquirir as suas esculturas ou, viver nos majestosos palácios que ele construía.

Com tantas encomendas Dédalo já não conseguia atender todos os pedidos, e para aliviar a sobrecarga decidiu ter um aprendiz em sua oficina, o seu sobrinho Talo. 
Ensinou ao jovem todos os segredos da arte da cerâmica, da arquitetura e da escultura. 

Talo revelou-se um excelente aprendiz e um genial artista, e com sua criatividade inventou o torno de oleiro. Dédalo sentiu uma profunda inveja por não ter sido o criador do invento

A cada dia Talo inventava algo. 
Certa vez, ao ver os dentes pontiagudos de uma serpente, inventou o serrote. 
Passado algum tempo inventou o compasso e outros inventos para a produção de armas, tijolos e vestimentas dos atenienses.
Quanto mais Talo mostrava sua criatividade, mais Dédalo invejava. 

Talo começou a adquirir muita fama em Atenas, conquistando os antigos admiradores e clientes de Dédalo, que aos poucos foi perdendo a genialidade criativa e a inveja tirava sua inspiração. 
Os trabalhos de Talo passaram a ser preferidos. 

Dédalo muito ofendido decidiu eliminar o sobrinho e, dissimulando suas intenções, convidou-o para um passeio ao templo de Atenas, localizado no alto de um penhasco. Talo caminhou inocentemente com o tio e quando passaram pelas muralhas Dédalo empurrou Talo ao precipício. 
Ao encontrar a morte, o rosto de Talo apresentava um sorriso nos lábios.

Dédalo escondeu o corpo de Talo num saco e quando retornava para a oficina foi surpreendido com o saco sujo de sangue. Muito nervoso, disse ser de uma serpente que matara, mas o nervosismo fez com que as pessoas desconfiassem daquela versão. Continuou o caminho sem perceber que os curiosos sorrateiramente seguiam seus passos. E num terreno vazio, Dédalo enterrou o cadáver do sobrinho. 
Do alto do Olimpo, Atenas – a Deusa da Sabedoria – o assistia e transformou a alma de Talo numa perdiz. 

Denunciado, Dédalo foi preso, enquanto a perdiz sobrevoava o tribunal assistindo à justiça feita.

Expulso de Atenas, acusado por matar o seu sobrinho, Dédalo refugiou-se na ilha de Creta, onde já tinha fama de artesão, escultor, inventor e engenheiro.
Minos, rei de Creta, soube da presença do artista, recebeu-o com honras de Estado e colocou-o sob sua proteção, mas exigiu que trabalhasse apenas para ele. Dédalo por sua vez perdeu sua liberdade criadora mais uma vez, pois ficou restrita aos desejos e caprichos do monarca.

Certa vez, a bela rainha Pasífae, esposa do Rei, ao apaixonar-se por um touro divino, pediu a Dédalo que criasse uma armadura no formato de uma novilha que lhe permitisse atrair o touro. Dédalo esculpiu uma novilha em madeira e desse amor incomum da rainha e o touro nasceu o Minotauro, uma criatura com corpo de homem e cabeça de touro. 

Para esconder a vergonha da traição da mulher, Minos ordenou a Dédalo que construísse uma prisão para o monstro, um lugar de onde ele jamais pudesse sair. Dédalo construiu um labirinto com becos e caminhos sinuosos. O labirinto tornou-se na maior criação arquitetónica de todo o Mediterrâneo, gerando inquietação de outros reinos, por todos os séculos.

Após o nascimento de Minotauro, fruto dos amores entre Pasífae (mulher do Rei Minos) e um touro divino, ele e o seu filho Ícaro construíram o labirinto do Minotauro, no qual aprisionaram o monstro. 
Tempos depois o Minotauro foi morto por Teseu.

Aprisionado o Minotauro,  a violenta fera exigia ser alimentado com carne humana
Minos que tinha conquistado Atenas, exigia do rei Egeu sete rapazes e sete raparigas para serem sacrificados. Teseu, o filho do Rei de Atenas revoltado com maléfica exigência juntou-se aos jovens que seriam enviado para Creta e lá chegado seduziu a bela princesa Ariadne, filha de Minos e com a sua ajuda penetrou no labirinto levando um novelo de lã que foi desenrolado desde a porta. Venceu o Minotauro, saiu do labirinto, onde a jovem Ariadne o esperava e apaixonados fugiram, levando o irmão como refém, que esquartejaram durante a perseguição do rei, ganhando tempo para a fuga enquanto o Rei Minos recolhia os pedaços do filho no mar. ( a típica tragédia grega).

O rei Minos, desolado, culpou Dédalo por toda a tragédia e como castigo encarcerou o arquiteto e seu filho Ícaro no labirinto, como prisão perpétua, e assim o criador ironicamente fica prisioneiro de sua maior criação.

Para não morrer de fome, Dédalo alimentava-se a si e ao filho com as plantas que nasciam às margens dos rios que ali fizera para correr água para o Minotauro beber. Melancolicamente, olhava para o céu que se erguia infinito sob a sua cabeça. Era o único caminho livre dentro do Labirinto.
Dédalo sabia que a sua prisão era intransponível, e que Minos controlava mar e terra, sendo impossível escapar por estes meios. 

"Minos controla a terra e o mar", disse Dédalo, "mas não o ar. Tentarei este meio".

Dédalo projetou asas, para ele e para seu filho Ícaro, para conseguirem fugir do labirinto e da Ilha de Creta, e assim fugir da fúria do Rei Minos. 
Para executar o projeto passou a colher todas as penas que caíam do céu, quando as aves sobrevoavam o Labirinto. Ao lado de Ícaro, colheu pacientemente cada pena, colecionando-as conforme o tamanho. Com o tempo, juntaram uma grande quantia, amarrando-as todas com fios de linho, espalhando nelas uma densa camada de cera, ligando-as com segurança.

O plano de Dédalo deu certo e os dois conseguiram sair a voar, da ilha de Creta.
Dessa forma conseguiram fugir do labirinto e das mãos do Rei Minos de Creta. 

Antes da fuga Dédalo alertou o filho para que não voasse muito perto do Sol, para que o calor deste não derretesse a cera das asas, e nem muito perto do mar, pois os respingos das ondas poderiam deixar as asas mais pesadas. 

O voo corre quase perfeito pelos céus da Grécia. 
Dédalo segue na frente, a indicar o caminho para o filho. 
Um pouco atrás, Ícaro deslumbrado com a beleza do céu, da infinita de liberdade, se sente um pássaro indomável, seduzido pela capacidade de voar.
Ícaro não deu importância para os conselhos de seu pai e resolveu voar bem alto como se fosse um deus poderoso. e apesar do seu pai o ter assustado e o alertando sobre o perigo de sua ousadia, ele sobe cada vez mais alto até que se aproxima demasiadamente do sol. Os raios, cada vez mais quentes amolecem a cera que ligava as penas umas às outras. As asas começam a desfazer-se, caindo uma a uma. 
Ícaro pressente o corpo a cair, e afunda-se nas profundezas do mar.

Cada pena que compunha as asas do jovem é transformada numa ilha, formando o arquipélago das Icárias.  

Ao olhar para trás, Dédalo não encontra o filho. 
Olha para as águas do mar, e vê penas brancas que flutuam perdidas, transformando-se, aos poucos em ilhas. 
O filho afogou-se no sonho eterno do homem querer voar como as aves.

Dédalo sobrevoou aflito a região onde o filho caíra, procurando com desespero por seu cadáver. 
Horas depois, ele desceu, ao avistar o corpo sem vida de Ícaro. 
O infeliz pai toma o filho nos braços, caminhando entre os arbustos, procurando um lugar onde possa sepultá-lo. Por onde passa, desperta a comoção do povo da ilha.
Com Ícaro nos braços, Dédalo percebe no céu, uma perdiz a pairar sobre a sua cabeça. 
Era Talo, o sobrinho assassinado por ele por inveja, a pairar no ar, acentuando a tragédia do seu assassino, numa anunciada vingança. 
Dédalo amaldiçoa a perdiz.

Partiu num barco pelo mar.
Dédalo aportou na Sicília. 
Mesmo sendo recebido com honras pelo rei daquele local, a alma de Dédalo vestia um luto perene e nada estimulava mais a sua alma, não sentia nenhuma inveja como no passado. 
Apesar disso, criava o que lhe instruíam, mas não se importava com os aplausos. 

Tornou-se um protegido do reino, e um dia Minos aportou na Trinácria à procura de Dédalo. 
A fim de proteger Dédalo, o rei Cócalo fingiu receber com honras o rei Minos, convidou-o para um banho quente e um banquete, a fim de repousar da viagem. Minos entrou na banheira, sentiu a água morna e fechou os olhos e, de repente, a água começou a ferver e, apesar dos gritos de Minos, ninguém foi socorrê-lo. O Soberano de Creta morreu sufocado pelos vapores quentes, deixando Dédalo livre e seguro, porém já não tinha mais sentido a sua sonhada liberdade. Perdeu demais.

Dédalo seguiu solitário, a ensinar a sua arte a muitos e muitos aprendizes.
Muito velho, vê a hora da morte chegar. 
Agonizando no leito do quarto, recebe os discípulos, que lhe apertam a mão um a um. 
Ao fim da tarde, o genial artista tomba o rosto. 
Dédalo realizou seu maior sonho, vendo sua alma sem asas voar...
Sua alma segue o infinito sem que lhe seja preciso outras asas.






Ícaro deixa-se deslumbrar pela beleza do céu, 
pela infinita liberdade e 
pelo voo indomável.


O sonho de voar não morreu nem com Ícaro, nem com seu criador Dédalo, pelo contrário, ele inspirou muitas e muitas criações artisticas até hoje, de Leonardo Da Vinci a Santos Dumont, de Capacetes de Voo Icarus à música, aos megas eventos mundiais... 

Os mitos nos ajudam a entender as relações humanas e guarda em si a chave para o entendimento do mundo e da nossa mente analítica. A mitologia grega, repleta de lendas históricas e contos sobre deuses, deusas, batalhas heróicas e jornadas no mundo subterrãneo, revela-nos a mente humana e seus meandros multifacetados. Atemporais e eternos, os mitos estão presentes na vida de cada Ser humano, não importa em que tempo ou local. Somos todos, deuses e heróis de nossa própria história.

Os gregos antigos passavam ensinamentos através de lendas e mitos. 
A lenda de Ícaro, era contada, principalmente, para ensinar a importância da humildade após um êxito (vitória) e também, de seguir as orientações dos mais experientes (no caso desse mito é Dédalo, seu pai). 
O mito também faz referência sobre a impossibilidade de um ser humano querer ter poderes semelhantes aos dos deuses, e da importância de termos consciência dos nossos limites.

O mito de Dédalo e seu filho Ícaro representam as limitações físicas do ser humano, apesar da sua criatividade. Enquanto jovens, temos grandes sonhos e grandes projetos em mente, e buscamos realizar algo sagrado que alimenta a liberdade de nossa alma. Tentamos superar todos os obstáculos, mas quando perdemos o bom senso e somos imprudentes em nossas ações, podemos alterar todo o curso de nossas vidas.

Assim como Dédalo, podemos ter talentos excepcionais mas nossa vaidade pode traçar caminhos diferentes. O ego inflamado de Dédalo aprisionou sua arte e seu espírito criativo, tornando-o escravo das paixões alheias, construindo sonhos que não eram os seus. 
Assim como Dédalo, também nós podemos aplicar nossos talentos numa carreira de sucesso conseguindo reconhecimento e aplausos, mas se estivermos distantes de nossos sonhos e projetos de vida, tendo limitada a nossa criatividade, estaremos construindo um labirinto para nossa própria alma.

Quando permanecemos em empregos, relacionamentos e qualquer outra situação que não atende os apelos de nossa alma, nos tornamos prisioneiros. E como Dédalo, podemos nos libertar de situações opressoras e seguir nossos sonhos, mas é necessário reconhecer os limites para sonhar. Dédalo se libertou pela arte com sua criatividade, ciente de que a arte é compulsiva e latente à essência do seu criador. Sua mais ousada criação lhe permitiu a liberdade e o sonho de voar. 

Se Dédalo é a mente criativa, 
Ícaro é a liberdade sonhadora; 
o homem asfixiado nas limitações da liberdade saciada.

Ao ver-se livre a voar como um pássaro, percorrendo um espaço ilimitado, Ícaro alcançou patamares mais altos, rumo aos seus ideais, rompendo os limites, ignorando os conselhos de seu pai, o criador. Icaro voou alto sem pensar nos perigos da queda. 
O castigo de Icaro é o mesmo para todos os mortais, que não obedecem aos limites dos sonhos, usando sua consciência e livre arbitrio. 
Livre, Dédalo pagou um preço alto, ao procurar a sua liberdade de sonhar e criar. 
Os sonhos alimentam a alma; é a ausência de limites e da realidade, que alimentam os fracassos. 


Quando perdemos o bom senso, se formos imprudentes e vaidosos em nossas ações, podemos alterar todo o curso de nossas vidas, assim como o pai e o filho representados no mito grego. 
Aquele velho ditado: 
“Passarinho que esta a aprender a voar entende mais de coragem do que de voo.” 
Mas neste conto, Ícaro não sabia disto.


Dédalo, no primeiro momento, em virtude de seus talentos excecionais, representa os caprichos de uma mente inflamada pelo ego e pela vaidade, que logo dão a vez para a inveja, que aprisiona seu espírito criativo. No segundo momento, a punição por seus caprichos extremados foi construir sonhos que não eram os seus, e criou o labirinto para a própria alma, vivendo uma situação que não atendia o anseio de uma alma livre e feliz, apesar dos aplausos e reconhecimentos.

Dédalo, no terceiro ato, muito mais maduro e sábio, liberta-se da situação opressora (ego, vaidade e inveja que carregava dentro da alma) e volta a ser criativo, ciente de que a arte é a essência do criador e sua mais ousada criação – as ASAS – permitiu que ele e o filho escapassem da prisão/labirinto que foram presos.


Ícaro, jovem, representa a ambiguidade da descoberta inocente, que o leva a ser imprudente e negligente pelo deslumbramento, pensou que era tão poderoso quanto os Deuses, não reconheceu os limites, nem mesmo os percebeu, é a falta do autoconhecimento. Realiza algo extraordinário, mas rompe os limites do criador e ignora os conselhos. Voa sem refletir, motivado pela sensação da liberdade. 

No mito, Icaro, nem sentiu a dor fatal, porque estava asfixiado pela liberdade saciada (Simbologia: Ícaro caiu no mar, morrendo afogado). Por sua vez, o pai (Dédalo) muito sábio pela experiência, realiza um voo perfeito, representando o amadurecimento do ser humano.



Dédalo (pai) é a a mente criativa, mas também é o labirinto, a confusão, a complicação humana de lidar com sentimentos baixos que envenenam a vida, ao mesmo tempo que ele evolui, e representa a redenção, o amadurecimento muito tardio, e portanto também representa a dor.

Ícaro (filho) é a inocência abraçada na liberdade sonhadora, as ambições demasiadas elevadas que o levam para o resultado desastrosamente trágico.
Nalguns dicionários, a palavra Ícaro poderá ser encontrada como funesto, para qualificar algo que é mortal ou que provoca a morte, relacionado com aquilo que pode provocar aflição ou amargura e que provoque tristeza.


O mito,  possui três grandes chaves de interpretação, baseada na divisão grega que apresenta as três grandes referências, 
Nous, Psique e Soma, 
Mundo Espiritual, Mundo Psicológico e Mundo Material

1) Das Leis Espirituais (Nous) – O mito faz referência ao caminho discipular de todo o Ser Humano que acorda para a verdadeira espiritualidade. Trata da busca pelo estado de liberdade, no caso representado pelo voo, que também referencia as capacidades latentes do Ser Humano que vão aos poucos se desenvolvendo de acordo com a necessidade do momento. 

O Sol, neste caso representa a Luz, a Sabedoria, que jamais deve ser buscada. Para tanto, o mito pune Ícaro com a morte por ter ascendido voo além do limite, demonstrando que o discípulo não deve sair repentinamente da caverna, assim como bem nos ensinou o mestre Platão no Mito da Caverna.

O mito também mostra a queda do discípulo da senda, ocasionada pelo encantamento com a sabedoria, que traz à tona o vício da vaidade, da presunção e da ganância, e da falta de paciência.

Extrai-se ainda do mito o ensinamento sobre a importância da obediência à hierarquia ou ordem sagrada, pois, uma vez que Ícaro desobedeceu às orientações de seu pai, que representa o mestre, rompeu com a hierarquia, de forma que saiu do caudal de energia cuja rota seria horizontal. Rompendo a hierarquia, ele enfraqueceu, decaiu e faleceu.

Ainda se extrai o ensinamento de que, embora um discípulo ou mesmo o mestre se desvie, o outro não deve esmorecer e segui-lo na queda, pelo contrário, deve continuar seu caminho espiritual, já que cada um tem o seu, muito embora o ponto de chegada seja único.


2) Das Leis Psicológicas (Psique) – O mito também nos ensina sobre o comportamento da psique humana. Quando se refere ao labirinto, faz analogia às sombras da psique, uma vez que Dédalo era o engenheiro responsável pela criação do labirinto e um dia se viu preso dentro de sua própria construção. Com isso, o mito quer nos ensinar que nós criamos nossas sombras que, ato contínuo, terminam sendo o instrumento que nos aprisiona pelo viés das debilidades psicológicas como o medo, a projeção da culpa, o comodismo, a indolência e outros vícios que acabam por influenciar e determinar as escolhas que fazemos continuamente em nossas vidas.

Ensina, ainda, sobre o livre arbítrio que nos permite inclusive fazer escolhas contrárias a nossos interesses, porém, inexoravelmente, colheremos os resultados dessas escolhas, sejam elas boas ou más.


3) Das Leis Materiais (Soma) – Quanto aos aspectos mais concretos, o mito nos reporta à responsabilidade sobre a paternidade e/ou maternidade, já que, uma vez responsáveis por nossos filhos, devemos permitir-lhes terem suas próprias experiências para, então, poderem amadurecer e tornarem-se capazes de realizar seus sonhos, inclusive conquistar a independência material. 

No mito, Dédalo acaba por fazer todas as tarefas, desde a ideia até à realização das asas, sem a participação de seu filho, que acabou por perder suas referências básicas materiais e alçou voo nas alturas, o que acabou ocasionando sua morte. Na verdade, Ícaro não estava preparado nem tinha sido devidamente treinado e orientado pelo pai. 

Esta alusão simbólica, repete-se constantemente nos fatos da vida. 
Veem-se heranças serem rapidamente consumidas por uma geração de herdeiros despreparados e descomprometidos, filhos que dilapidam o património dos pais ou, ainda, filhos que não desenvolveram maturidade emocional por terem sido sempre abastados materialmente e que, por conseguinte, desconhecem o valor das coisas, além de não saberem reagir às contrariedades da vida.

Só sabem gastar, e nunca aprenderam a ganhar dinheiro.