domingo, 19 de novembro de 2017

A RECESSÃO





Reveremos calças com remendos
vermelhos pores do sol sobre as aldeias
vazias de carros
cheias de pobre gente que terá voltado de Turim ou da Alemanha
Os velhos serão donos de suas muretas como poltronas de senadores
e as crianças saberão que a sopa é pouca e o que significa um pedaço de pão
E a noite será mais negra que o fim do mundo e de noite ouviremos os grilos ou os trovões
e talvez algum jovem entre aqueles poucos que voltaram ao ninho tirará para fora um bandolim
O ar terá o sabor de trapos molhados
tudo estará longe
comboios e autocarros passarão de vez em quando como num sonho
E cidades grandes como mundos estarão cheias de gente que vai a pé
com as roupas cinzas
e dentro dos olhos uma pergunta que não é de dinheiro mas é só de amor
somente de amor
As pequenas fábricas no mais belo de um prado verde
na curva de um rio
no coração de um velho bosque de carvalhos
desabarão um pouco por noite
Mureta por mureta
Tecto em chapa por tecto em chapa
E as antigas construções
serão como montanhas de pedra
sós e fechadas como eram uma vez
E a noite será mais negra que o fim do mundo
e de noite ouviremos os grilos e os trovões
O ar terá o sabor de trapos molhados
tudo estará longe
comboios e autocarros passarão
de vez em quando como num sonho
E os bandidos terão a face de uma vez
Com os cabelos curtos no pescoço
e os olhos de suas mães cheios do negro das noites de lua
e estarão armados só de uma faca
O tamanco do cavalo tocará a terra leve como uma borboleta
e lembrará aquilo que foi o silêncio o mundo
e aquilo que será.


PIER PAOLO PASOLINI




AMPLIAR O PODER DO OBSERVADOR





O Poder Quântico do observador 
é algo natural, 
é uma função da sua consciência, 
uma vez que a existência da matéria 
exige que uma mente esteja presente, 
caso contrário nada existe. 



Isto é uma perspectiva revolucionária.
Se a nossa realidade depende da atividade da nossa mente, um raciocínio simples e lógico é:
Se eu mudar a forma da minha atividade mental eu altero, portanto, a realidade.

Esta alteração na realidade significa mudar a cadeia de eventos que te levam a uma realidade almejada. Experimentar uma realidade envolve tornar a possibilidade uma experiência consciente. O poder do observador pode ser amplificado se o seu nível de observação for forte o bastante, isto requer desenvolver um foco maior e aumentar o nível da sua energia.

Sempre que acordas para começar o teu dia, o mundo lá fora até que tu o observes é uma grande superposição, ou seja, vários estados potenciais de realidade.

Como te preparas para observar o teu mundo quando acordas? 
Por outra palavras, qual o tipo de pensamento que desencadeias logo cedo? 

  • Ir para a luta? 
  • Ter que matar um leão? 
  • Enfrentar as dificuldades? 
  • Resolver problemas? 
  • Ou se abrir para o campo das possibilidades infinitas?


O poder do observador representa a possibilidade de criarmos além das nossas rotinas, e despertar cada vez mais o maior número de possibilidades para ampliar a nossa realidade.
Se realmente entenderes isto que expus, estarás realmente a adoptar o paradigma quântico na prática da tua vida. Um observador modifica o estado potencial de uma partícula.
Uma partícula tem vários futuros possíveis.
Quando um observador olha uma partícula ele decide o futuro que ela irá viver.
Tu és um participante desta experiência.

Quando uma pessoa, por exemplo, se determina a parar de fumar ela inicia e opta por começar uma mudança de estilo de vida na sua rotina para superar o vício em tabaco. No entanto, quando ela não consegue ela convence-se de que não teve força de vontade suficiente.

É aqui que se encontra a chave.
É claro que faltou força, energia, mas não de vontade.
É necessário um nível de energia alto para que o acto quântico da observação tenha realmente o poder de interferir na realidade de forma consistente e plasmar uma nova realidade, seja ela qual for e superar o padrão repetitivo.

Para tal, é fundamental incrementar o potencial de energia para expandir o poder do observador.

As pessoas ficam muito preocupadas em manifestar uma nova realidade, mas descuidam-se quanto ao seu potencial de energia, ao ponto de chegar ao nível crítico, ou seja, stress agudo. 


Abaixo alguns hábitos que enfraquecem o poder do observador:

1- Discussões improdutivas / Reversão: Lembra-te que quem quer ter razão é o teu ego. O teu espírito quer estar em paz.

2- Dormir pouco ou dormir em excesso. / Reversão: Preza por uma boa qualidade de sono, procurando não dormir muito tarde.

3 - Excesso de atividade mental( pensar demais) / Reversão: Cria um espaço para ficares em silêncio. 5 minutos por dia, para começar, irá fazer uma grande diferença. Apenas fecha os olhos, sozinho e presta atenção na tua respiração. Quando inspirares, projecta um pouco o abdómen, quando expirares retrai. Isto produz rapidamente uma desaceleração mental.

4 – Julgar e criticar as outras pessoas e a si mesmo / Reversão: Abstém-te de julgamentos e críticas, e presta atenção no momento em que o impulso automático do julgamento surge.

5- Queixar-se. A queixa cria lastro que te mantém preso na realidade problemática / Reversão: Aumenta a tua fixação no teu corpo, lembrando-te da tua respiração várias vezes ao dia. Isto irá ajudar-te, gradualmente, a ficares no teu corpo e não no futuro.

6- Pouca ingestão de água. A água é uma interface fundamental entre a mente e corpo, ela armazena informações, veicula e renova. Um corpo desidratado exigirá muito mais energia da tua consciência para compensar o seu funcionamento do que um corpo realmente bem hidratado. Parece que o imprint da criação, a semente de uma nova realidade, usa a água como meio de armazenamento e a comunicação cerebral funciona melhor num ambiente biológico bem hidratado / Reversão: Ingire mais água proporcional ao teu peso.
Faz o seguinte cálculo e encontrarás quanto precisas ingerir: 0.045 x “TEU PESO''.

7 – DORMIR POUCO. O sono é um fenómeno essencial para fortalecer a tua mente e contatar a dimensão da consciência quântica. Além de regular a tua saúde psicofísica / Reversão: Procura dormir com constância a partir das 23:00, pois assim, aproveitarás o ciclo da Melatonina, uma hormona essencial que regula o teu calendário neuroendócrino e quebrará o ciclo vicioso do stress que reduz o teu poder de criação de realidade.


Incorpora estes hábitos e verás que naturalmente o teu poder de observação, bem como a tua mente ganhará mais eficiência quântica em mudar a tua realidade.



Horácio Frazão





sábado, 18 de novembro de 2017

Uma fome infinita de amor





Só tu no mundo conheces o meu coração
o que sempre fui, antes de qualquer amor.

Cabe-me por isso dizer-te o que é horrível reconhecer:
no seio da tua graça germina a minha angústia.

És insubstituível. Está condenada
à solidão a vida que me deste.

E se não quero estar só! Tenho uma fome infinita
de amor, do amor dos corpos sem alma.
Porque a alma está em ti, és tu...



Pier Paolo Pasolini
in, Poesia in Forma di Rosa





Relacões tóxicas são semelhantes à dependência de drogas




Qual é a tua droga?



Já foste viciada em droga?
Eu já.

De uma forma tão doentia que tudo na minha vida deixou de fazer sentido diante dela. Minha alegria, minha tristeza, meu tempo, minhas decisões, meus anseios, tudo no meu dia dependia dela. Se recebesse a minha dose diária tudo ficava bem mas se me faltasse, me faltava o chão, o foco, a direcção, a respiração, a vontade de acordar. Sem ela, me faltava eu. E tu que respondeste sim, sabes bem do que eu estou a falar. Ou talvez não. Vai depender do potencial para causar dependência que a tua droga tinha. A minha tinha muito.

Tal como uma droga, o AMOR TÓXICO tem o poder de destruição e causa uma devastadora dependência no ser humano.


O meu vício tomou conta de mim de tal forma que para me manter a receber as minhas doses diárias de “alegria”, negociei valores inegociáveis, perdi os sentidos, os significados, o contaxto com os meus valores, com a minha dignidade e o meu autorrespeito. 
Eu me perdi e só me encontrava nela.

Seu mecanismo de ação é bem simples:
Um belo dia és apresentada às primeiras doses que invariavelmente vão trazer-te uma sensação jamais experimentada de bem estar e alegria. A partir daí tudo se desenvolve muito rápido e passas a viver num paraíso de luz, leveza e riso, o que te vai fazer perguntar o que fizeste para merecer tanto carinho, tanta atenção, tanto….AMOR!

As sensações são tão ricas e genuínas que abandonas as tuas armas e embarcas numa viagem extraordinária e definitiva. O teu mundo a preto e branco ganha cores, renova-se e a tua cabeça começa a construir sonhos lindos sem qualquer embasamento na realidade e passas a alimentar-te e a viver exclusivamente deles e para eles.

E é quando tu estás embevecida, dependente daquela atenção e preguiçosa contigo mesma que o amor tóxico mostra as suas verdadeiras cores. É neste momento que todas as sensações boas do início se transformam. A sua face dócil assume uma face sombria e tudo o que era quente, gela; tudo que era claro, escuro; tudo o que era certeza, dúvida.

Ao experimentar um amor tóxico, todos os acessos aos teus sonhos e medos são libertados e tudo o que tiver sido aprendido sobre ti durante aquele período será usado como armas letais com o objetivo único de humilhar e demonstrar o quanto tu és fraca e dependente; com o objetivo único de te destruir.

Numa reação natural, ficas confusa e, sem entender o que mudou, lutas com todas as tuas forças para encontrar de novo na tua droga aquela beleza que pouco antes trazia para a tua vida.
E que batalha inútil tu travas! 
E que desfecho estarrecedor, medonho e tenebroso!
Buscas a sua face mais linda, aquela guardada na tua memória, mas a única coisa que encontras é uma realidade horripilante, desconcertante e divorciada de tudo aquilo que um dia ela lhe proporcionou.

Num dado momento nada faz sentido e tu viras um trapo, uma pseudo pessoa, uma pedinte, uma escrava faminta enquanto ela, a tua droga, posa soberana no seu reino obscuro e solitário, e observa-te lá de cima do seu trono, de onde ora toca a tua cabeça com alguma misericórdia, ora olha para ti com desprezo e diz: “ és mesmo patética.”

Pensas em correr para longe dali, mas não encontras nem a saída, nem a força, pelo simples facto que de vez em quando, ao perceber o teu esforço para te libertares, ela vai presentear-te com uma daquelas lindas sensações do início e tu, ainda que por pouco tempo, sentir-te-ás viva.

É necessário um enorme esforço para se libertar de um vício, mas é necessário um esforço imensurável para se livrar do vício de um amor tóxico. É preciso pedir a todos os santinhos que segurem a tua mão e te conduzam para fora daquele quarto escuro e sem janelas. É necessário reconectares-te com a pessoa que tu eras antes daquilo. É preciso encarar a dura constatação de que amaste a tua droga por todas as boas sensações que ela te trouxe, mas a tua droga nunca te amou.

Drogas não amam, simplesmente causam dependência e só saem da tua vida quando estiveres morta. Saem da tua vida para entrar na vida de outra pessoa e reiniciar o ciclo.

Haverá um período longo, negro e doloroso de abstinência e será necessário lutar contra a força irresistível que te fará por vezes esquecer dos horrores, dizendo-te para te agarrares, como uma criança com medo de abandono, às boas lembranças que, dolorosamente, só existem na tua cabeça.

Sabe, porém, que vencida a abstinência brutal, é necessário lembrar que uma vez viciada, existe sempre a tendência ao vício, ela permanece e, portanto, é preciso um exercício diário em que deverás recordar constantemente a ti mesma que és um Ser Individual Completo, que a tua felicidade não se encontra em alguém ou lugar algum fora de ti mesma e que nenhuma fonte de amor é maior que a tua. Tu precisas ser a tua fonte inesgotável de AMOR PRÓPRIO.



Lucy Rocha




sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Seria o amor português





Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
"Que me importa que batam à porta..."
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Lomgas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?


Fernando Assis Pacheco




Geometry has two great treasures




Geometry has two great treasures. 
One is the theorem of Pythagoras, the other, the division of a line into extreme and mean ratio. The first we may compare to a measure of gold; the second we may name a precious jewel. 
Johannes Kepler



quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Tudo são máquinas





Tudo são máquinas, a luciferina intenção
de cortar, pela janela, o desenho interrompido,
ou então, tudo são máquinas ainda, quando
a boca se desenha presa às palavras
enunciadas desde o começo da biografia
(que biografia, se só haverá farrapos?):
fantasmas enunciando-se à pressa
e que a cidade reúne nos muros que a não cingem já.

Tudo são máquinas prestes a incendiar mapas,
a eliminar traços, a apagar vestígios.
«Começará o mundo depois do mundo acabado»,
escreveste no caderno.

É de lixo lírico, a paisagem, humano resíduo.
As máquinas que escrevem, escrevem na pele.

Tudo são máquinas. O mundo irá começar
dentro de momentos, prepara-te.



Luís Quintais
in, Riscava a palavra dor no quadro negro





O cansaço




O cansaço 
é o primeiro sinal de que 
algo não está bem connosco. 


A verdade é que temos tendência a desvalorizá-lo e a encontrar mil e uma desculpas para ele.
Parece que temos dificuldade em entender que estar cansado é o mesmo que dizer que devemos perceber de onde ele vem e como podemos fazer para pará-lo.
O cansaço é um sinal muito poderoso de que existem coisas na nossa vida que nos esgotam. Inicialmente, esse cansaço é apenas físico, mas depois transforma-se em mental e, finalmente, em emocional.

Dizer que o cansaço é normal é o mesmo que dizer que também é normal sofrer e viver em esforço.
Hoje, muitos nos incutem que a depressão é normal, que o cansaço e o descontentamento são próprios dessa sociedade competitiva e exigente. Parece algo sem remédio e inevitável. O problema é que muitas pessoas acreditam nisto e passam a achar normal estar deprimidos e cansados.
O cansaço não é normal e muito menos a depressão.
Ambos resultam de estarmos em esforço e de não conseguirmos sair de lá.

O cansaço é um sinal de que não estamos onde deveríamos estar, de que não estamos a fazer aquilo que devíamos estar a fazer. É um sinal de que não estamos no nosso caminho ou, se estamos, estamos num ritmo que, supostamente,  não é o nosso.



Assim, o cansaço surge na nossa vida como consequência de uma de duas situações:

  • Por estarmos a fazer algo que não queremos fazer.
  • Por estarmos a fazer algo que gostamos, mas num ritmo muito acelerado.


Em qualquer uma das situações, o necessário é parar, antes que seja tarde.

No primeiro caso, quando estamos a fazer algo que não queremos fazer, seja num trabalho, numa relação, num local, ou seja em que situação for, o cansaço é inevitável.
Estar no caminho errado, estar onde não devíamos estar, só nos faz querer chegar depressa demais à frente: ao fim de semana, às férias, ao final do ano, etc. e perdemos a possibilidade de viver o momento presente, o único onde podemos e devemos fazer a diferença.
Quando estamos no caminho errado, a verdade é que nem sentimos o caminho. Só queremos que tudo passe depressa e esperamos por um milagre para o qual não fazemos nada para que aconteça.
Muitos de nós ainda não entenderam que os milagres partem sempre de nós. Nós somos o próprio milagre, pela capacidade que temos de criá-lo na nossa vida.
Quando estamos num caminho errado, num caminho onde não queremos estar e que não nos diz nada, o destino final nunca nos agrada, porque a desilusão e a frustração estão sempre presentes durante a viagem.
Assim, sempre que estivermos nesta situação, devemos parar para entender o que está a provocar-nos o cansaço e, depois, mudar. Se não mudarmos o que nos cansa, vamos inevitavelmente entrar em depressão e lamentar muito mais coisas na vida.

Não parar nestas situações é condenar-nos ao cansaço extremo, ao cansaço físico, mental e emocional. E depois, tudo fica bem mais complicado, porque falta-nos a força e o discernimento para dar a volta e encontrar uma solução.

Normalmente, quando não paramos, a vida nos para, de uma forma bem mais dura.
Parar é fundamental para nos reorganizarmos e escolhermos qual a mudança que vai nos tirar de onde o cansaço persiste.


Na segunda situação, quando estamos a fazer algo que gostamos, mas estamos a andar depressa demais, o cansaço também é inevitável.
Normalmente, queremos chegar demasiado depressa a um lugar que achamos fundamental e, como tal, damos demasiado de nós mesmos.
Tudo tem um ritmo e um tempo próprios. Fazer o que gostamos não é exceção.
Quando queremos dar mais do que aquilo que podemos, mesmo sendo para algo de que gostamos, vamos acabar por cair a meio do caminho… e tudo fica perdido.

Aliás, regra geral, o cansaço que sentimos leva-nos a inevitáveis e obrigatórios fracassos, que por sua vez levam a deixar de acreditar em nós mesmos e naquilo que tanto gostamos.

Por isso, quando estamos a fazer algo de que gostamos, não queiramos chegar a lado nenhum senão ao momento presente. Podemos fazer planos, mas não querer atingi-los a todo o custo, com esforço ou horas extras. Aquilo de que gostamos deve ser usufruído e proporcionar-nos bem-estar. Quando forçamos algo, isso deixa de ser bom para nós.


Lembremo-nos sempre de que onde existe esforço, existe cansaço.
Onde existe cansaço, existe sofrimento.

Que possamos ficar apenas onde nos sentirmos bem e que mudemos tudo aquilo que nos faça sentir cansados.
A vida é uma bênção. 
Não vamos transformá-la num tormento.


JOSE MICARD TEIXEIRA





............................. dizer sim ao sofrimento





O ego declara:
«Eu não devia ter de sofrer», e esse pensamento ainda nos faz sofrer mais.
É uma distorção da verdade, que é sempre paradoxal.
A verdade é que precisamos de dizer sim ao sofrimento para o podermos transcender.
 Eckhart Tolle




quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Quando o Amor Morrer Dentro de Ti





Quando o amor morrer dentro de ti, 
Caminha para o alto onde haja espaço, 
E com o silêncio outrora pressentido 
Molda em duas colunas os teus braços. 
Relembra a confusão dos pensamentos, 
E neles ateia o fogo adormecido 
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido 
Espalhou generoso aos quatro ventos. 
Aos que passarem dá-lhes o abrigo 
E o nocturno calor que se debruça 
Sobre as faces brilhantes de soluços. 
E se ninguém vier, ergue o sudário 
Que mil saudosas lágrimas velaram; 
Desfralda na tua alma o inventário 
Do templo onde a vida ora de bruços 
A Deus e aos sonhos que gelaram. 


Ruy Cinatti
in, “Obra Poética” 




Quem Nunca Morreu de Amor





Andamos stressados, resignados, desligados do amor, 
quando na verdade não há nada na vida 
por que valha mais a pena lutar.
Os medos são muitos, sim. 
Mas a esperança no amor tem de ser mais forte.




O que é morrer de amor?É algo que já aconteceu a todas as pessoas que amam, e eu acho isso bonito.
Significa que vivem as relações com o coração desabotoado – coisa que não acontece com toda a gente, e seguramente não todos os dias. Por outro lado, tem implícita a noção de que precisamos intensamente de alguém que traga contraditório à nossa vida para termos um sentido para crescer. Portanto, quando alguém se separa de nós, mesmo que o faça em português suave dizendo «Vamos dar um tempo», é claro que não ficamos só de coração partido. Morremos um bocadinho.Dói loucamente, a ponto de por vezes pensarmos em morrer no sentido mais literal da palavra. Mas depois vamos buscar vários sentidos para recriar esse amor que perdemos e, a dado momento, damos connosco à procura de outras pessoas que tragam sentido à nossa vida. Mesmo que o façamos dizendo aquilo que toda a gente saudável diz: «Depois de um amor assim, nunca mais na vida vou querer amar ninguém.»



Acho absolutamente comovente amar alguém para sempre, mas tem tanto de comovente como de difícil. Costumo dizer que devia ser proibido casar com o primeiro namorado, na esperança de que isso possa fazer lei. E sim, devia ser recomendável morrer as vezes indispensáveis por amor até encontrarmos a pessoa que faça sentido à nossa vida. Sobretudo isso. É algo que nos torna humildes. Embora sejam raríssimos porque as pessoas, muitas vezes, desmazelam as relações amorosas e aquilo transforma-se com alguma facilidade numa relação fraterna, o que não é a mesma coisa. Em todo o caso, há ligações absolutamente mágicas. Relações nas quais os casais, em vez de envelhecerem para o amor, renascem permanentemente alimentados por ele.
Na maioria dos casos, somos muito apressados e muito preguiçosos. E é tão, tão difícil encontrar a pessoa «certa» que partimos do pressuposto de que se ela não nos cai no colo, no caminho de casa para o emprego, então é porque não existe. Às vezes, quando interpelo as pessoas, elas reagem de forma um bocado magoada e respondem: «Ah, agora quer que eu faça de Carochinha, não?» Claro que não quero que ninguém vá para a janela perguntar a todos os estranhos se querem casar com elas, por favor!

Sucede que, à medida que crescemos, vamos desertificando as nossas relações…
A começar pelas relações de amizade. Os grupos pelos quais circulamos tornam-se menores, mais fechados a novas pessoas, e no meio de uma desertificação tão grande é natural que nos cruzemos com menos gente que nos obrigue a perguntar até que ponto a relação que eu tenho faz sentido, por comparação com aquela outra pessoa. Acho que ainda falamos muito pouco do amor. Falamos mais facilmente de sexualidade do que de amor. Na escola fala-se mais da educação para a sexualidade do que para o amor.
O que vemos depois é que a esmagadora maioria dos casais é tão infeliz nas suas relações amorosas, tão resignada diante dessa infelicidade. E resignarmo-nos face à infelicidade é o contrário de se morrer de amor.
É isso que eu acho que as pessoas não percebem e tenho pena que assim seja.
Precisamos de falar do amor e, sobretudo nas escolas, é vital explicar que nenhum amor dura para sempre se não for bem cuidado. Que mais importante do que casar é namorar, porque quando namoramos já casamos um bocadinho. Que nas relações amorosas nem todos acertamos à primeira, à segunda ou à terceira.
A versão que se dá aos adolescentes da educação para o amor mais parece Educação Tecnológica ou Educação Moral e Religiosa parte dois. Isto, em vez daquilo que é estrutural e nos une: como é que eu posso ter a certeza de que a pessoa por quem estou perdidamente apaixonado gosta de mim?
É quase um interdito, um tabu. Portanto, acho que a escola é um laboratório de liberdades tão mágico em tantos aspetos, nomeadamente no de pôr as pessoas a conversar e a pensar, a escutarem-se umas às outras, que se se pudesse trazer para dentro dela uma conversa séria sobre o amor... meu Deus, seria incrível. E nós temos verdadeiramente alguns professores do outro mundo, ao nível da confiança que os alunos depositam neles. Capazes de nos fazerem amar a vida.

Em nome do amor, há quem bata, maltrate e violente alguém que diz amar acima de tudo.
Não é amor, não pode ser. Só por aqui já justifica falar-se dele para se acabar com um certo discurso obscurantista. 

O amor não é o encontro com uma alma gémea, porque quando procuramos uma alma gémea estamos à procura de um reflexo nosso, nunca do amor. Acontece com muita gente: tentam encontrar alguém que idealizaram de todas as formas ao seu alcance sem que esse outro possa, seguramente, trazer diferença e crescimento ao seu mundo. São essas pessoas que não conseguem morrer por amor. A maldade é o que nos permite distinguir uma relação amorosa de outra coisa a que, de forma delirante e doentia, chamamos amor.
Precisamos sempre de outras pessoas nas nossas vidas como contraditório para o exercício da justiça e para nos conhecermos. Quanto mais os outros são diferentes de nós, mais temos os apelos e as interpelações que nos obrigam a perceber quem somos.

O poeta brasileiro Vinicius de Moraes dizia que é impossível ser feliz sozinho e eu concordo. Muitas vezes, quando temos essa ilusão ou consumimos aqueles slogans inquietantes que nos perguntam quem gostará de nós se nós próprios não gostarmos, é como se disséssemos aos outros que são adereços na nossa vida, e não a porta indispensável que nos abre para saber quem somos. E para nos conhecermos mais e melhor.
No limite, conhecer é amar, e vice-versa. Tenho pena que muitas vezes isso não seja dito de forma clara, porque acho que nos perderíamos todos menos com as coisas supérfluas do dia-a-dia. O que é mais bonito é que às vezes atravessam-se pessoas na nossa vida que acreditam mais naquilo que somos do que nós mesmos. E quando acreditam, levam-nos a tentar perceber em que ponto do caminho é que nos desencontrámos de nós, e a querermos voltar a ser quem supúnhamos que éramos mas, por qualquer motivo, deixámos de ser.

Tendemos a insistir até à última em relações condenadas, e não é por amor.
Muitas vezes é por vaidade: como vou assumir um falhanço? Ou por medo: entre estar mal acompanhado ou sozinho, prefiro a companhia, mesmo que ela me adormeça para a vida. É como se o outro nos fosse convertendo na sombra do que somos e não no que somos, de facto – o contrário de termos alguém que se propõe conhecer-nos. E isso é muito inquietante porque, de repente, vamos perdendo em suaves prestações o respeito por nós. Acumulamos essa bruma e desistimos de quem somos, das nossas convicções, até morrermos para a vida. O que, volto a dizer, é diferente de morrer de amor.

Um divórcio começa quando não namoramos todos os dias. 
É facílimo divorciarmo-nos: basta termos muitos compromissos profissionais, muitas preocupações a esse nível, até filhos. Ao contrário do que eles e nós quereríamos, são os filhos quem melhor divorcia os pais, porque depois passamos a vida a tapar a cabeça e a destapar os pés, sempre a correr atrás do prejuízo. Temos a ideia de que existem relações seguras, em relação às quais podemos descontrair, e sem dar conta chegamos ao patamar em que falamos numa linguagem encriptada. Nem paramos cinco minutos para perceber se o outro entendeu o que queríamos dizer. Depois chega uma altura em que um amigo nos pergunta porque não dissemos o que sentíamos e nós desabafamos: «Porque não estou para me chatear.» Começamos a divorciar-nos quando já não estamos para nos chatear. Quando chegamos à célebre frase que já todos dissemos e todos escutámos: «Não lhe disse porque não vale a pena. Ele não ia perceber.»
Há muita gente divorciada por dentro, mesmo que esteja casada por fora.
Por isso é que brinco muitas vezes com o Dia dos Namorados: porque havemos de ter só um dia no ano para namorar? Por outro lado também é inquietante ver duas pessoas, que tecnicamente são namorados, sentadas a uma mesa em que uma fala com o bife e outra com as batatas fritas, com uma vela no meio, cada qual a consultar o seu Facebook sem trocar palavra. Vivemos num mundo que quer ser tecnicamente irrepreensível quando, no amor, devíamos ser apaixonadamente repreensíveis. Porque isso acontece se temos alguém ao nosso lado que nos diz que, por mais tolos que sejamos, ele não vai desistir de nós.

Um amor maduro é incomparavelmente mais bonito – e mais difícil. Tenho o maior respeito pelos adolescentes, o maior. Mas quanto mais velhos somos, também maiores se tornam as probabilidades de encontrarmos a pessoa da nossa vida ou, pelo contrário, de ficarmos sozinhos para sempre. Temos uma sensibilidade tão mais educada, damos tanta importância a pequenos pormenores, que depois não se chega lá com marketing e publicidade enganosa. Apenas com transparência.
O amor de mãe difere de todos os outros amores porque é mágico. Imagine uma mulher no limite da exaustão, cheia de preocupações, com uma atividade profissional que valha-nos Deus e uma família de origem em que a mãe e a sogra disputam entre si para ver quem sabe mais de bebés, em vez de darem colo à mãe – ninguém dá colo às mães. Se alguém soprar, aquela mãe escangalha-se. E então o seu filho chora, sorri, aninha-se-lhe nos braços, e toda ela se ilumina. É amor de mãe. Mas atenção: há amores maduros que podem ser muito parecidos com isto, daí serem tão raros. E tão absolutamente arrepiantes quando acontecem.

É verdade que todos os amores são ridículos: dizemos coisas que em condições normais não diríamos sob pena de nos julgarem loucos; fazemos patetices que são uma ternura. Ser romântico é uma forma de sermos especialmente amáveis para alguém, que nos abre para sermos amados e nos faz tocar a alma do outro. Devíamos dizer aos adolescentes – a toda a gente, já agora – que não só não está em vias de extinção como não é vergonha. Amar dá muito trabalho, exige tempo, dói.

Porém, acho que pecamos sobretudo por não conseguirmos fechar os olhos nos braços da outra pessoa, como faz um bebé no colo da mãe. Nunca vamos amar enquanto não formos capazes de fechar os olhos nos braços de alguém, porque isso é outra forma de dizermos «Sente. Olha para mim, sente-me em ti, pensa por nós.» E não há nada que valha mais a pena.



Eduardo Sá










terça-feira, 14 de novembro de 2017

Roberta Sá e Ney Matogrosso | "Peito Vazio"

Won Exit





In one or two lives
I opened the door with the prize
only to find the prize was not worth the life.

I wanted the door.

Brave mahogany door, you be my fortune.
Teach me to understand the jungle cry
in your grain, the suffering circles

by which your tree wisdom is known.

I was superior with handles,
gentle with thresholds. Then, this.

Choices at morning hours I usually skip
but there is a little cash flow of beauty
where there is almost no more water.

And there is not room and light enough
to stand behind the second
and listen anymore -

I am going through the language of me now.

I am flipping open the dictionary of myself
with my tongue, as if that were possible,
to find your first word.

In the torture of a foyer
doorless for entering, I am entering none.


Elizabeth Metzger






Reinventing The Body, Resurrecting the Soul






The forgotten miracle - the body's infinite capacity for change and renewal.
You cannot take advantage of this miracle, unless you are willing to completely reinvent your body, transforming it from a material object to a dynamic, flowing process.

Your physical body is a fiction.
Your Real Body Is Energy. 

The Soul Is Your Spiritual Body.
Love Awakens The Soul.
Be As Boundless As Your Soul.

Every cell is made up of two invisible ingredients: awareness and energy.
That leads us to self-transformation by changing the distorted energy patterns that are the root cause of aging, infirmity, and disease.

Transformation can't stop with the body, however; it must involve the soul.
The soul - seemingly invisible, aloof, and apart from the material world - actually creates the body.
Only by going to the level of the soul will you access your full potential, bringing more intelligence, creativity, and awareness into every aspect of your life.

To commit ourselves to deeper awareness, focus on relationships instead of consumption, embrace every day as a new world, and transcend the obstacles that afflict our body and mind.


The Universe Evolves Through You



Deepak Chopra





segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A Chama





Tenho alma de anarquista
fogos de artifício, pólvora, paixões
você não me conhece
Trago em mim a chama
o perigo, o dragão
trago o que mina, o que explode
a grande subversão

Dentro de mim o que não se doma
que ninguém detém, que nada assusta
o dom
a grande arte da fúria
a fera da sedução

Nisto consiste meu crime
e é o melhor de mim
violenta ternura
força que se irradia e expande feito um gás
que respiramos
e que torna o que fazemos
maior do que o que somos.



BRUNA LOMBARDI
in, O Perigo do Dragão


TIRE-O DA CABEÇA





Você estava apaixonado por alguém e levou um fora.
Acontece mais do que acidente de avião, desastre com romeiros e incêndio na floresta.
Corações partidos é o grande drama nacional.
O que fazer?

Ainda não lançaram um manual de auto-ajuda que consiga eliminar nossa fossa, e dos amigos só podemos esperar uma frase, repetida à exaustão: tire esse cara da cabeça.
Parece fácil.
Mas alguém aí me diga: como é que se tira alguém de um lugar cheio de mistérios?

Gostar de alguém é função do coração, mas esquecer, não. 
É tarefa da nossa cabecinha, que aliás é nossa em termos: tem alguma coisa lá dentro que age por conta própria, sem dar satisfação. Quem dera um esforço de conscientização resolvesse o assunto: não gosto mais dele, não quero mais saber daquele prepotente, desapareça, um dois e já! Parece que funcionou. Você sai na rua para testar. Sim, você conseguiu: olhou vitrines, comeu um sorvete e folheou duas revistas sem derramar uma única lágrima.
Até que começa a tocar uma música no rádio e desanda a maionese.
Você não tirou coisa alguma da cabeça, ele ainda está lá, cantando baixinho para você.

Táticas. 
Não ficar em casa relendo cartas e revendo fotos. Descole uma festa e produza-se para matar. Você bem que tenta, mas nada sai como o planeado. Os casais que se beijam ao seu lado são como socos no estômago. Você se sente uma retardada na pista de dança. Um carinha puxa papo com você e tudo o que ele diz é comparado com o que e seu ex diria, com o que o seu ex faria. Chamem o EccoSalva.
Livros. Um ótimo hábito, mas em vez de abstrair, você acha que tudo o que o escritor escreve é pra você em particular, tudo tem semelhança com o que você está vivendo, mesmo que você esteja lendo sobre a erupção do Vesúvio que soterrou Pompéia.
Viajar. Quem vai na bagagem? Ele. Você fica olhando a paisagem pela janela do ônibus e só no que pensa é onde ele estará agora, sem notar que ele está ali mesmo, preso na sua mente.

Livrar-se de uma lembrança é um processo lento, impossível de programar. 
Ninguém consegue tirar alguém da cabeça na hora que quer, e às vezes a única solução é inverter o jogo: em vez de tentar não pensar na pessoa, tente esgotar a dor. Permitir se recordar, chorar, ter saudade.
Um dia a ferida cicatriza e você, de tão acostumada com ela, acaba por esquecê-la.
Com fórceps é que ela não sai.



Martha Medeiros





domingo, 12 de novembro de 2017

Cantar do Amigo Perfeito






Passado o mar, passado o mundo, em longes praias, 
de areia e ténues vagas, como esta 
em que haverá de nossos passos a memória 
embora soterrada pela areia nova, 
e em que sobre as muralhas quanta sombra 
na pedra carcomida guarda que passámos, 
em longes praias, outras nuvens, outras vozes, 
ainda recordas esta, ó meu amigo? 

Aqui passeámos tanta vez, por entre os corpos 
da alheia juventude, impudica ou severa, 
esplêndida ou sem graça, à venda ou pronta a dar-se, 
ido na brisa o sol às mais sombrias curvas; 
e o meu e o teu olhar guiando-se leais, 
de nós um para o outro conquistando 
- em longes praias, outras nuvens, outras vozes, 
ainda recordas, diz, ó meu amigo? 

Também aqui relembro as ruas tenebrosas, 
de vulto em vulto percorridas, lado a lado, 
numa nudez sem espírito, confiança 
tranquila e áspera, animal e tácita, 
já menos que amizade, mas diversa 
da suspeição do amor, tão cauta e delicada 
- em longes praias, outras nuvens, outras vozes, 
ainda as recordas, diz, ó meu amigo? 

Também aqui, sorrindo em branda mágoa, 
desfiámos, sem palavras castamente cruas, 
não já sequer os íntimos segredos 
que o próprio amor, porque ama, não confessa, 
nem a vaidade humana dos sentidos, mas 
subtis fraquezas vis, ingénuas e secretas 
- em longes praias, outras nuvens, outras vozes, 
ainda recordas, diz, ó amigo? 


Partiste e foi contigo a juventude. 
Ficou o silêncio adulto, pensativo e pródigo, 
e o terror de não ser minha estátua jacente 
sobre o túmulo frio onde as cinzas da infância 
desmentem - palpitar de traiçoeira fénix! - 
que só do amor ou só da terra haja saudade. 
Em longes praias, outras nuvens, outras vozes, 
tu sabes que a levaste, ó meu amigo? 



Jorge de Sena
in, "Pedra Filosofal"





........................ resolver os problemas dos outros





O sentimento de satisfação que temos ao ajudar o outro é realmente muito gratificante.
Nos sentimos em paz connosco mesmos e o sorriso das pessoas ao nosso redor cria uma nuvem de positividade da qual nunca queremos nos afastar.

No entanto, viver nos pede olhos otimistas para reconhecer as pequenas belezas do dia a dia bem como força para enfrentar as dificuldades. É por isso que tentar resolver os problemas dos outros pode causar muitos transtornos e ainda impedir o crescimento de quem você ama.
Vamos entender melhor o porquê:

1. As pessoas são diferentes.

Por isso, toda vez que você se pegar pensando “a vida desta pessoa seria muito melhor se…”, lembre-se de que essa é a vida dela e não a sua. Por mais que você queira ajudar, a perspectiva dela sobre o mundo é diferente da sua e projetar expectativas sobre o outro não vai ajudá-lo nem um pouco.

2. Você não pode resolver o problema de pessoas que não querem ter seus problemas resolvidos.

Como assim? Simples: há pessoas que, literalmente, cultivam seus problemas e se apegam a eles de tal maneira que já não conseguem mais se ver sem aquele algo sobre o qual se lamentar. Quanto a você… bem, você não pode mudar ninguém. A única coisa que você pode fazer é aceitar (que dói menos, como a sabedoria popular já diz) e amar essa pessoa do jeitinho que ela é.

3. Tentar “resgatar” alguém pode te afundar.

E a partir do momento que você afundar em problemas que não são seus, você os transforma em seus também. Você se envolve com tanta profundidade que passa a viver em função da vida do outro, esquecendo-se de si mesmo. Resultado? Ninguém ajuda ninguém!

4. Potencial significa “poder”, não “querer”.

Não é porque você acha incrível a maneira como determinada pessoa se expressa que você vai tentar convencê-la de que está na profissão errada. Ou então que deveria fazer um intercâmbio. Ou que poderia abrir um novo negócio.
Não é porque ela é muito inteligente que você tem a “obrigação de amigo” de informá-la que ela simplesmente não pode cursar uma graduação tão simples ou abandonar o mestrado ou deixar a presidência de uma grande empresa.
Mais uma vez: a vida não é sua. Portanto, não cuide dela!


5. Ajudar não significa resolver.

Você pode, sim, ajudar um amigo(a), companheiro(a) ou familiar com uma boa conversa, demonstrando como você é grato por sua companhia, convidando-o para almoçar e até dizendo o quão especial ele(a) é na sua vida.O que você não pode é se sentir na obrigação de tomar as rédeas da vida da pessoa e organizá-la sozinho; mesmo que ela queira, mesmo que ela peça, mesmo que ela implore.
Com essa atitude você só vai desestimulá-la a acreditar no seu próprio potencial e vai torná-la dependente de você para sempre. Se é isso o que você deseja, procure um psicólogo – isso é carência!

6. Você não precisa que o outro seja feliz para ser feliz!

Parece simples, mas pode ser que o seu desespero para ajudar as pessoas seja reflexo do depósito de expectativas que você coloca sobre ela.
Lembre-se: você não precisa que o outro seja feliz para ser feliz!
É claro que compartilhar alegrias é uma forma maravilhosa de viver nossas relações, mas como já sabemos, felicidade não vem de fora: ela parte de dentro de nós.
Se a pessoa a quem você quer ajudar não consegue ser feliz, isso é um problema dela, não seu.
Por mais que te doa ler isso, respire fundo, olhe para dentro e simplesmente sorria sinceramente para si mesmo. Se você for capaz disso, será capaz de inspirar quem ama a ser feliz como você, e isso vale muito mais do que servir de muleta aos outros.

7. Cuidar de si mesmo ajuda mais do que você imagina!

E cuidar de si mesmo exige tempo e dedicação. Para dizer a verdade, até um pouquinho de egoísmo. Não adianta você varrer os seus próprios problemas para debaixo do tapete e correr na casa da comadre para lhe dar conselhos. Sua hipocrisia só vai fazer adoecer a você mesmo, ao seu amigo e à relação de vocês.
Seja sincero, encare suas dificuldades, olhe para o seu interior e, quando tudo estiver em harmonia (não necessariamente perfeito), a sua energia positiva será o suficiente para inspirar todos ao seu redor.

8. Problemas não são necessariamente coisas ruins.

Eles nos ajudam a crescer e a entender que a vida não é um mar de rosas, como minha avó já preconizava. É preciso ter o discernimento para perceber que “shit happens” (merdas acontecem) e que ninguém é obrigado a ser feliz o tempo inteiro (Wander Wildner já dizia).
A partir do momento que você entender isso, perceberá que as dificuldades precisam acontecer para que nós amadureçamos e aprendamos a desapegar: afinal de contas, ao contrário do que a nossa sociedade consumista prega, nada é para sempre.

9. Você não pode mudar as pessoas, apenas amá-las.

Você não é melhor do que ninguém, aceite isso. Consequentemente, não pode mudar as pessoas, nem resolver seus problemas, muito menos julgar o que é bom ou não para ela.
Se nos lembrarmos do ditado popular “cada macaco no seu galho”, podemos pensar apenas em dar uma passadinha no galho do colega para doar um pouquinho do nosso amor e voltar logo para o nosso próprio para não quebrar o de ninguém e acabar estrebuchado no chão!



Letícia Flores




sábado, 11 de novembro de 2017

Um Campo Batido pela Brisa





A tua nudez inquieta-me. 

Há dias em que a tua nudez 
é como um barco subitamente entrado pela barra. 
Como um temporal. Ou como 
certas palavras ainda não inventadas, 
certas posições na guitarra 
que o tocador não conhecia. 

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo 
para um lado misterioso e frágil. 
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe 
contorno, peso. Destrói o meu corpo. 
A tua nudez é uma violência 
suave, um campo batido pela brisa 
no mês de Janeiro quando sobem as flores 
pelo ventre da terra fecundada. 

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas 
com o vocabulário da tua nudez. 
Tenho «um pensamento despido»; 
maturação; altas combustões. 
De mão dada contigo entro por mim dentro 
como em outros tempos na piscina 
os leprosos cheios de esperança. 
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete 
que lanço com mão tremente desastrada 
para rebentar e encher a minha carne 
de transparência. 

Sete dias ao longo da semana, 
trinta dias enquanto dura um mês 
eu ando corajoso e sem disfarce, 
ilumindo, certo, harmonioso. 
E outras vezes sucede que estou: inquieto. 
Frágil. 
Violentado. 

Para que eu me construa de novo 
a tua nudez bascula-me os alicerces. 



Fernando Assis Pacheco
in, “A Musa Irregular” 






PREPARAR OS FILHOS PARA A LIBERDADE





“Não é livre 
quem vai contra 
a sua própria natureza.“




“SÓ CRIA QUEM É LIVRE.”

Você matriculou seu filho em uma escola que o prepara para o mercado de trabalho? Ou uma que vai do maternal ao vestibular. Não importa. Se o seu filho está matriculado em uma escola que o prepara para o mercado de trabalho, você está preparando o seu filho para o passado e não para o futuro, para o mundo que vai existir daqui a 20 anos quando ele sair da escola. Você está preparando seu filho para se encaixar no mundo e não para criar um mundo para ele.


“SÓ UMA PESSOA LIVRE DECIDE OS HÁBITOS QUE TEM.”

Você leva seu filho no shopping para passear? Shopping não é para passear. Shopping é para comprar ou então se distrair para comprar ainda mais. O objetivo do shopping é vender mais e por isso é tão importante para seus proprietários agregar serviços como praças de alimentação e espaço para as crianças com brinquedos eletrônicos e pequenos parques dentro dos seus estabelecimentos. Quanto mais próximas dos shoppings as crianças estiverem, melhor retorno financeiro o shopping terá no longo prazo. O impacto deste mau hábito pode levar seu filho a sempre querer consumir para se manter feliz.


“O VERDADEIRO PODER ESTÁ NO CORAÇÃO DE QUEM NÃO PRECISA DE COISAS PARA TER PODER.”

Você permite que ele tenha mais coisas que o necessário? Presentes são as distrações do presente. Com milhares de roupas, tênis e brinquedos seu filho começa a perceber que fica feliz sempre que recebe alguma coisa nova e molda a sua cultura para isso. Desta forma, quando ele ficar triste novamente e não enxergar nada de novo à sua volta, acreditará que está com esse mau humor porque não tem nada novo para se distrair. Desde cedo eduque seu filho a compreender que ele não depende de coisas para ser mais feliz. No dia que seu filho fracassar e não tiver coisa alguma, se sentirá ainda mais infeliz por não tê-las e levará ainda mais tempo para retomar seu rumo.


“SÓ UM HOMEM LIVRE CONSEGUE MOLDAR O MUNDO COM AS PRÓPRIAS MÃOS.”

Você acredita que ajuda seu filho quando executa tarefas simples pra ele? Dar comida na boca, amarrar o sapato, abotoar a camisa, dar banho, entre outras tarefas simples são coisas que os pais estão fazendo por mais tempo pelos seus filhos. Quando eles crescerem e estiverem adultos o mundo cobrará deles independência e disposição para realizar tarefas fora de suas zonas de conforto se eles quiserem se libertar. Tendo sido criado em uma redoma seu filho terá que lutar ainda mais para conquistar as coisas que deseja.


“SÓ ALGUÉM LIVRE CONSEGUE ENXERGAR O SEU PRÓPRIO VALOR E O VALOR DAS COISAS QUE O CERCAM.”

Você ensina seu filho a valorizar as coisas pelas marcas que elas carregam? Não basta comprar um caderno, precisa ser um caderno de uma determinada marca ou com um determinado motivo daquele desenho animado ou daquele filme que ele tanto adora. Não seja tolo. Você está agindo justamente da forma que o dono da marca daquele filme quer que você aja. Que tal explicar para o seu filho que o caderno sem marca nenhuma tem a mesma utilidade que o caderno com marca e que ele pode ser até melhor em qualidade que o outro. Ensine-o a valorizar as coisas pelo real valor delas e não pela marca que a coisa carrega. O significado de sucesso não é medido pela capacidade de adquirir acessórios das marcas mais caras como se fossem badges da vida real.


“SÓ ALGUÉM LIVRE É CAPAZ DE RECEBER COM A MESMA GRATIDÃO QUE DOA.”

Você não ensina seu filho a receber doações? Conheço pais que não admitem que seus filhos recebam uma peça de roupa ou um tênis de uma outra criança só porque aquilo que era recebido já tinha sido usado. Não existe coisa mais digna e natural do que aprender a receber. Isso, inclusive é até mais importante que aprender a dar porque para receber você precisa ser humilde e nobre. Ensine-o a receber doações e ele se tornará livre por acreditar que o mundo dá as coisas para ele ao invés de visualizar um mundo cheio de perigos e apuros onde todos só pensam em tirar-lhe as coisas.


“UM HOMEM LIVRE CONSOME APENAS AQUILO QUE FOR O BASTANTE E SAUDÁVEL.”

Você faz da alimentação por frutas e legumes algo esporádico? O natural para o ser humano é comer frutas, legumes e verduras, enquanto refrigerantes, doces e outras guloseimas não é natural. Estes últimos “alimentos” é que devem ser apresentados ao seu filho como um evento pontual. Não há problema comer doces, biscoitos e bolos uma vez ou outra se o hábito da criança for comer coisas saudáveis, mas fazer da alimentação saudável algo esporádico é transformar o próprio filho em colecionador de problemas de saúde no futuro.


“SÓ ALGUÉM LIVRE DECIDE O QUE DESEJA EXPERIMENTAR.”

Você o deixa ver televisão? Assista televisão com o seu filho durante uma hora e notará nas entrelinhas uma série de comerciais educando-o a permanecer escravo do sistema. Enquanto mulheres feministas brigam pelos seus direitos nas ruas, um comercial de um brinquedo infantil, treina meninas para o consumo vendendo uma caixa registradora que aceita cartão de crédito de brinquedo onde sua filha pode fazer compras à vontade na lojinha da amiga. Desligue a televisão e veja o seu filho libertar a imaginação com amigos imaginários, pistas de corrida feitas com caixas de papelão ou simplesmente cantando a esmo dentro de casa.


“SÓ É REALMENTE LIVRE QUEM SE CONHECE PROFUNDAMENTE.”

Você não educa seu filho com uma medicina preventiva? Medicina preventiva é alimentação somada ao conhecimento do próprio corpo. Além de receberem alimentos ruins para o corpo, os pais não incentivam seus filhos a conhecerem suas dores e seus próprios males, curando toda e qualquer perturbação com algum medicamento invasivo que inibe o sintoma, mas não acaba com o problema. O autoconhecimento começa pelo conhecimento do nosso próprio corpo.


“SER LIVRE JÁ É O BASTANTE PARA SI MESMO.”

Você incentiva que seu filho tenha ídolos? Ter ídolos nos escraviza tanto quanto ter algozes. Tendo ídolos, seu filho começa a competir com outras crianças para medir se aquilo que idolatra é melhor ou pior que aquilo que os outros idolatram, seja uma personalidade, um atleta, um time de futebol, um músico, etc. Ele coloca todas as suas expectativas naquela pessoa, saindo de si para querer se tornar o outro o que normalmente termina em uma grande frustração quando ele verifica que o outro possuía as mesmas idiossincrasias que ele.


“LIVRE É QUEM SE LIBERTA DAS SUAS PRÓPRIAS CRENÇAS.”

Você ensina as suas crenças para ele? Religião, trabalho, riqueza, modo de vida, enfim, você deposita no seu filho toda a sorte de crenças e medos cultivadas em você tirando a capacidade dele mesmo refletir sobre o que serve e o que não serve para ele. Você não ensina filosofia para ele e não o faz questionar e observar que talvez você e ele estejam errados a respeito das suas certezas. Que existem outras religiões diferentes da sua no mundo, assim como outros tipos de trabalho, outras formas de gerar riqueza e também outras maneiras de viver. Esclareça para o seu filho que a forma como você vive e a maneira como você pensa é a sua maneira, mas não a mais correta. Não ate-o a amarras que o deixem presos em qualquer área da vida. Leve-o a sua religião, ensine-o sobre ela, mostre a forma como você trabalha e a sua maneira de gerar riqueza. Traduza tudo isso e o seu modo de vida como apenas mais um modo de se viver, mas fortaleça-o para que ele faça a sua própria busca, deixando claro que irá lhe abraçar no caminho de volta pra casa.



VOCÊ NÃO COLOCA EM PRÁTICA O QUE ENSINA PARA ELE?

E o principal e mais violento sinal de que você está criando o seu filho para não ser livre acontece quando você demonstra para ele que não se esforça para se libertar colocando em prática aquilo que ensina para ele.

Você continua indo ao shopping para passear.
Você continua vendo televisão.
Você continua torcendo para o seu time do coração com fanatismo.
Você cultua marcas, nomes e famosos.
Você se coloca como vítima da vida.

Você pode ter errado em tudo, mas não pode se dar o direito de errar em não assumir os próprios erros para acertar. Temos que ensinar esta nobreza para os nossos filhos se quisermos que eles se libertem desta pirâmide social na qual a maior parte da sociedade está inserida para viver a sua própria vida da maneira que ele acredita ser a ideal.

Entendo que alguns sinais colocados aqui afetam estruturalmente as suas crenças, mas te convido a fazer um exame em cada uma delas para verificar porque elas realmente existem em você e como elas podem estar moldando a vida que você tem hoje. Se você está preso, liberte-se e leve seus filhos junto, pois se todos os pais fizerem isso, libertaremos o mundo.



Marcos Rezende