segunda-feira, 26 de junho de 2017

E por vezes






E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos  E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos



David Mourão-Ferreira 
in, 'Matura Idade'





Da inexorável morte do amor





Queimar tudo.
Alugar uma casa num lugar sem história na história da minha vida, um lugar de postais antigos, desbotados, e do passado guardar apenas uma urna de cinzas, no compartimento por baixo do lava-louças.
Ver filmes sem mérito, ler livros sem arte, ouvir óperas cómicas e inêxitos impopulares e anacrónicos.
Tentar, sem sucesso, pescar, e ir ao mercado comprar peixe miúdo e roupas com defeitos às ciganas.
Ser anónimo por fora e por dentro, criança que não se conhece nem quer conhecer e que procura apenas o início e o fim dum carreiro de formigas, revelação suficiente para quem ainda não desperdiçou a vida a perscrutar os gloriosos fundos de um oceano de merda.
Beber pouco.
Foder com a moderação que a improbabilidade do diálogo impõe.
Emular os pioneiros americanos, pecadores em busca de recomeço e horizonte, longe das catedrais e de si próprios, longe dos quiromantes e das sibilas e, sobretudo, da inexorável morte do amor.


Miguel Martins




Não fujas que eu sei que tu gostas





A sua pombinha era eu. Chamava-me, vem cá menina, e a voz antecipando-se amolecida, ou então agarrava-me quando passava por ele pelas esquinas da casa, puxava-me contra si, encostava-se todo, crescia, eu atirava a cabeça para trás a barriga para a frente, crescia com ele, e gostava. A sua pomba gostava.
Nem me recordo bem. Foi primeiro um empurrão, estava eu a comentar que o vizinho do terceiro tinha enviuvado, que desperdício, tão novo e bem parecido, logo havia de encontrar… e veio o empurrão. Não caí. Olhei para ele surpreendida, protestei, supliquei. Desculpou-se, ou em jeito de desculpa agarrou-me, encostou-se como de costume, suámos ambos, gememos ambos. Nem sequer perdoei. Esqueci.

A estalada chegou na semana seguinte. A propósito de… A sopa gelada? Demasiado salgada? Os vincos na camisa do escritório? A conversa com a D. Adelina do quiosque que atrasou o jantar? Um olhar de esguelha para o vizinho? Já não sei. Apanhou-me o olho direito. Levei a mão ao rosto. Encolhi-me. Foi só uma. Baixei a cabeça. Comecei a chorar, primeiro muito devagar, as lágrimas lentas, logo mais velozes, o olho que ardia, os dois olhos escorrendo, como se vazando-se, o corpo a estremecer, sacudindo-o os soluços. As pombas não choram. Esperou alguns segundos, parado a ver-me, como se. Como se certificando-se de que eram lágrimas verdadeiras, sentidas. Arrependida. E logo os mesmos gestos, a mansidão na voz, vem cá pequenina, o seu corpo tenso, teso, forte, os braços protegendo-me, de quê, de mim própria talvez, era isso que ele dizia, tu não sabes, tu és uma ingénua, se não fosse eu, tu, minha pombinha, anda cá que eu faço-te um filho, faço-te quantos quiseres, põe-te a jeito, isso, deixa-te cair, isso, que eu agarro-te, isso… Isso.

Um ano daquilo. Dois anos daquilo. Nenhum filho. Estaladas, sim, empurrões, sim, pontapés, sim. Eu continuava a baixar a cabeça, encolhendo-me, tornando-me pequena, a proteger o rosto com as mãos, mas perdia-lhe o medo. Ganhava-lhe ódio. E, quando se encostava a mim, a pombinha já não pedia mais, já não gemia, já não atirava a cabeça para trás. Já não gostava. E começava a criar garras.

Lembro-me de que dantes me enternecia quando atravessava a praça da figueira, lágrimas rasando os olhos, as pombas arrulhando, os velhos dando-lhes sobras de pão, as pombas arrulhando, e eu, eu, uma de entre elas, arrepiando-me toda, esfomeando-me, ansiosa por chegar a casa e deixar-me escorregar e cair.

Anos daquilo. Quando o eléctrico me deixava na praça, já sentia asco. Anos daquilo. Quando o eléctrico parava, eu descia e já não olhava, já não ouvia. Não sentia nada, nada, a não ser uma estranha força que se apoderava dos meus pulsos, dos meus dedos, das minhas unhas, tenso o corpo, teso, preparando-se sem saber. A pombinha estava morta. E eu já nem chorava, em silêncio cirandava afiando as garras nas esquinas da casa. E espreitava a oportunidade.

Há muito fora enterrada, a pombinha, quando me partiu um braço. Levou-me às urgências. Marido consciencioso, grande cabrão, todo falinhas mansas para as enfermeiras, despindo-as com os olhos, trincando-as, dizimando-as com as palavras, a mim já só se encostava por desfastio, e o seu desejo, vago, vezeiro, ia encorpando o meu ódio, escorregou a minha pombinha, vejam só, tão desastradazinha que ela é, sim, pois, nas escadas. As pombas mortas não escorregam. A casa não tem escadas. Tem esquinas.
Não, pois já se me tinha morrido, aquela brutalidade. Não, pois se eu própria também já tinha morrido. Os mortos não matam, apenas continuam morrendo. Que podem dois mortos um contra o outro?

A sua pomba era eu. Passava por mim ou procurava-me pela casa, ao virar de uma esquina, poucas, porque a casa era pequena, ainda assim mais do que bastante, agarrava-me pela cintura, enfiava as mãos na minha camisola, debaixo da minha saia, anda cá, anda cá, não fujas que eu sei que tu gostas, e eu a fingir, diz lá se não, diz lá que não, e eu que não que não, minha pombinha, vou dar-te a volta à cabeça, a esse corpinho tão jeitoso, ia falando e tirando a roupa, a minha, a dele, e depois, depois, se eu gostava, como eu gostava, o corpo dele metamorfoseando-se numa só mão, o meu também, as duas mãos de um só corpo, nosso ou nem sequer, uma onda de espuma que me entontecia, as pernas trôpegas, a boca cheia, a pele revirada, os olhos ardendo insones, os órgãos enlanguescendo-se. Sangue, silêncio, sémen.

Inocente e culpada, tanto se me dá, tanto se me dá. É como disser.
Senhor doutor juiz.



Bénédicte Houart




domingo, 25 de junho de 2017

Muse - Feeling Good (Video)




A Nina Simone, é a Nina Simone...
Mas os Muse, fizeram uma versão muito sua, que não fica nada atrás...adorei!







Tantra e 'ShivaShakti'





O Tantra não é apenas sexo 
com super-orgasmos, 
ou sequer 'sexo sagrado'.
Existem correntes interligadas do Tantra 
que são conhecidas como 
Kundalini Tantra, 
Laya Yoga, 
ou Shaiva Siddhanta.



São caminhos de dedicação à União Sagrada com o Supremo Ser - que é o nosso verdadeiro Ser.


Mas mesmo antes do desenvolvimento moderno (e frequentemente superficial) de 'neo-tantra' com a sua visão limitada do 'Sexo Tântrico', houve uma vertente Tântrica na Índia que questionava activamente os tabus da sociedade e trazia o sagrado ao plano da união sexual ritualizada em conjunto com essas práticas de Kundalini Tantra.

Essa via que integra a sexualidade ritualizada (também conhecida como a via da 'esquerda') é considerada as vezes uma via 'perigosa' porque é fácil uma pessoa se perder na intensidade e na sobre-valorização dos prazeres sensuais.

Mas saber trabalhar conscientemente com a energia sexual, pondo-a ao serviço da iluminação e da libertação, faz com que se possa resgatar essa vibração primordial criativa (Shakti*) e 'domá-la' - não através de força masculina controladora, mas preparando o caminho para a integração do poder dela - pelo honrar dela como uma manifestação do Divino em forma da Grande Mãe - a consorte de 'Shiva'** - a Energia Universal que complementa a Consciência Universal.

Assim, em vez de chamar a nossa atenção apenas ao prazer e às zonas erógenas, a energia percorre o canal central (Shushumna nadi) que une Shiva e Shakti internamente.

Então, apesar  do Tantra não se reduzir à união de sexos, quando as bases são compreendidas, tudo em que focamos torna-se sagrado por vermos o próprio Universo como uma Dança Divina - os princípios são aplicáveis a tudo, inclusive para 'sacralizar' o sexo, e torná-lo numa meditação devocional.

O praticante 'falso' vai apenas procurar justificar e explorar os seus impulsos sexuais, compreendendo mal, ou distorcendo a filosofia Tântrica. O praticante sincero vai procurar abranger tudo na sua prática devocional e meditativa, seja o sexo, seja o trabalho, seja o acto de respirar.

Há uma cura interna efectuada pelo Tantra - uma transcendência da dualidade de categorias: 'mundano' e 'sagrado'. É uma cura para com nós próprios - o nosso relacionamento com o corpo, o sensual, a terra, o feminino, a Vida. Isso é uma das consequências do Tantra - uma das características da via Tântrica - mas não é o fim. O fim é a transcendência do 'eu'.
Por isso o Tantra tradicional e o Yoga tradicional são em muitos aspectos idênticos.

Contrário à representação comum da União Tântrica em forma do casal divino em união sexual (em posição Yab-Yum), a imagem aqui é de 'Ardhanarishvara'. Não mostra uma união de dois corpos mas sim um corpo com duas energias - o masculino e o feminino unidas harmoniosamente. Mostra o equilíbrio e fusão entre o masculino e o feminino - que refere à natureza inerente do Divino, e no plano humano refere a um trabalho interno de 'purificação', harmonização, disciplina, devoção ao sagrado, e abertura à Graça.
Refere-se tanto ao equilíbrio dos canais 'ida' e 'pingala', como ao despertar e o conduzir/sublimar da energia vital para atingir a união êxtática de Shakti (residindo na raiz do sistema energético/chakra raiz) e Shiva no ápice transcendental/coroa).

Mas é importante perceber que tradicionalmente esses ensinamentos não eram apenas técnicos e esotéricos - faziam parte de uma abordagem devocional que valorizava a entrega ao Divino com plena 'fé' na sabedoria da Grande Mãe que guiaria o processo através da inteligência inerente na força vital desperta - que era Ela mesmo, na sua forma microcósmica - Kundalini Shakti.


Que o seu caminho, seja qual for a sua forma, seja permeado pela Graça intoxicante do Mistério infinito, que transcende a mente racional.
Que venha a conhecer o Amor Invencível, e que a sua Presença traga Paz.


______________________________________

* Shakti significa 'poder' ou 'energia'.
Shakti é representada/ antropomorfizada em forma da deusa 'Parvati', 'Durga' e 'Kali'.
Não são 'deusas' diferentes.
São o aspecto feminino-dinâmico do Supremo Ser - a forma, matriz, e força motriz de todo o Universo, até manifestando-se no 'indivíduo' através da capacidade de pensar (Manas Shakti), e na capacidade de acção no corpo, e das funções vitais internas, em forma de Prana Shakti.
Os sábios de muitas culturas percebiam o que a física do século XX comprovou - que tudo no Universo é energia. Os Tantricos chamam essa energia Shakti, ou afectivamente 'Shakti Maa' - a grande Mãe.
E viam, o que alguns estão a começar a perceber - que essa energia não está separada nem da Inteligência Criativa macrocósmica, nem da própria mente humana.
A Consciência e a Energia estão numa dança amorosa constante.
A Shakti, nas suas várias formas, é o veículo para a experiência de todo o plano relativo e relacional.
Como tal é as vezes vista num papel parecido com o da Eva - como 'tentadora' - a nos chamar para nos envolver no plano das aparências enganadoras - descrita então como Maya (ilusão).
Quando somos 'enganados' por Maya, identificamo-nos com o corpo e julgamo-nos ser finitos.
Daí vem o medo, o apego, a resistência à mudança.
Daí vem também a busca incessante e frustrante para o poder pessoal, para o prazer efémero, para dar 'sentido' à vida e dar segurança, para compensar pela sensação de desenraizamento da nossa essência infinita.
Muitas tradições religiosas e espirituais desprezam então o elemento feminino e o seu poder de atracção para o mundo sensorial, e para o sensual. Essas tradições tendencialmente vêem o Divino como algo distante no espaço (acima de nós, no 'Céu'), e até distante no tempo (presente quase apenas no momento primordial da Criação).

A visão Tântrica, por outro lado, é que a própria matéria ('mater' = Mãe) é o corpo cósmico, ou vestimenta, que o Divino assumiu.
A tendência das tradições espirituais foi achar que a associação com o corpo e com o mundo vai nos 'sujar' e tornar-nos insensíveis ao plano celestial, levando então aos votos de ascetismo dos que se dedicam à busca pela comunhão Divina.
Mas o Tantra faz a ponte entre o divino 'Celestial'-impessoal-transcendental, e o Divino verdadeiramente omnipresente.

No Tantra, o Divino não está apenas a acompanhar e a interpenetrar o Universo previamente criado, mas sim a manifestar-se como Energia Cósmica, a formar o Universo - a dar à Luz - a cada momento através da Grande Mãe.
E é Ela que, residindo no corpo em forma de Kundalini, e infinitamente sábia e compassiva, guia o grande Despertar, levando à fusão com o Infinito.

**Shiva significa 'o auspicioso'. É um nome que representa as qualidades do Divino.
E sob esse nome o Absoluto é antropomorfizado em forma de um Yogi - e conhecido como o Supremo Guru.
Contrário à ideia que ele é um deus entre muitos num panteão politeísta, muitos devotos no caminho de Yoga e de Tantra consideram Shiva como 'O Supremo Ser' - não um Ser Divino externo, mas a Consciência Original, e idêntica com a consciência Liberta - o nosso próprio Ser.



A simples busca do prazer sensual, apenas satisfaz a nossa consciência local o que acaba por prejudicar a busca pela consciência universal!
No entanto, como evitar o desejo e o prazer?

Na via Tântrica não é preciso evitar o desejo e o prazer.
Eles são utilizados habilmente como veículo para a prática espiritual-meditativa-energética.

Tradicionalmente apenas se pratica Tantra a dois, depois de muitas outras práticas de disciplina ética e bio-energética.
Por isso mesmo que disse que no Tantra o desejo e o prazer são utilizados 'habilmente'.
Se não, pode se acabar por reforçar 'maus hábitos' sim (tanto de desgaste da energia vital como também de 'vampirismo' da energia vital).



Peter Littlejohn Cook





Agora que as Palavras Secaram





Agora que as palavras secaram 
e se fez noite 
entre nós dois, 
agora que ambos sabemos 
da irreversibilidade 
do tempo perdido, 
resta-nos este poema de amor e solidão.

No mais é o recalcitrar dos dias, 
perseguindo-nos, impiedosos, 
com relógios, 
pessoas, 
paredes demasiado cinzentas, 
todas as coisas inevitavelmente 
lógicas.

Que a nossa nem sequer foi uma história 
diferente. 
A originalidade estava toda na pólvora 
dos obuses, no circunstanciado 
afivelar 
dos sorrisos à nossa volta 
e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.



Eduardo Pitta





sábado, 24 de junho de 2017

Vc Cria sua realidade_ - Nassim Haramein - Legendas Portugues BR.mp4

                                                 



Viver sem idade





Meditação é uma transformação de todo o seu ser. Você não é mais parte da multidão, não é mais um parafuso da máquina. Você tomou a responsabilidade sobre os seus próprios ombros; tornou-se um indivíduo livre.

A nacionalidade irá desaparecer, porque são linhas arbitrárias criadas pelo homem — a sua existência é algo feio porque mostra que o homem ainda não é maduro; senão qual é a necessidade de haver tantas nações, e de cada nação ter enormes exércitos?

As pessoas estão morrendo de pobreza, e setenta por cento do rendimento nacional em todo o mundo vai para gastos militares. A humanidade está vivendo apenas com trinta por cento e os exércitos ficam com todo o restante — naturalmente, porque eles venderam suas vidas e estão se preparando para a morte, seja para matar ou ser morto.

Isso parece ser tão inútil.
Por que deve haver guerras?
Por que deve existir violência?
(...)
O homem de meditação está destinado a ser cidadão do mundo. 
Ele não irá ser cristão, ou hindu, ou maometano, porque ele se relaciona com a existência por si mesmo.
(...)

À medida que você se torna mais silencioso, que seus olhos se tornam mais claros, que a fumaça ao seu redor desaparece, as religiões, nações, discriminações entre preto e branco, entre homem e mulher, começam todas a desaparecer.
Está certo você se sentir sem idade. 
A meditação começa por levá-lo além do tempo, porque ela vai também levá-lo além da morte.
Você ficará surpreso ao saber que em sânscrito há apenas uma palavra para morte e tempo. A palavra é Kal. 
Kal significa também amanhã — amanhã haverá apenas a morte e nada mais; a vida é hoje.

À medida que você se torna mais tranquilo... as suas tensões são o seu peso. Quando as tensões não existem mais, você se torna leve, sem peso. E a consciência, que é a sua realidade, não tem limitação de espaço e tempo.
Seu corpo cresce da infância para a juventude, para a velhice e para a morte.
Essas mudanças estão ocorrendo apenas ao corpo. 
São uma troca de mobília da casa, ou uma nova pintura, ou uma nova fachada, mas o homem que vive na casa, o chefe da casa, não é afetado por essas coisas.

A consciência é o mestre.
O seu corpo é apenas a casa.
No momento em que você entra em meditação, você toca, dentro de si mesmo, em algo universal — algo que não tem idade, que não tem limitações seja de tempo ou espaço.

Isto não está acontecendo somente a você. Eu recebo muitas cartas de sannyasins velhos, dizendo que eles estão se sentindo tão jovens que não sentem nenhum contraste de gerações.

Eles se misturam com jovens e nem por um momento lhes vem a ideia de que eles têm oitenta anos e que os outros têm apenas vinte. Eles se comunicam e ninguém acha isso estranho.

Uma mulher sannyasin, da Escócia, escreveu para mim:
"Agora, Osho, já está um pouco demais!"
Ela está com setenta e oito, e agora está correndo atrás de borboletas! Todo o vilarejo pensa que ela ficou louca, porque ela está continuamente rindo e se divertindo e ninguém consegue acreditar nisso.

Por eles a terem visto sempre miserável, não podem acreditar no que aconteceu. Ela está se comportando como uma criança. Ela me perguntou:
"O que eu devo fazer? Devo tentar me comportar da maneira antiga?"

Eu disse a ela:
"Você pode tentar, mas não vai ser bem-sucedida. Não perca seu tempo, continue a correr atrás das borboletas. E por que se importar com os idiotas de sua cidade? Divirta-se."

Meditação não é algo mental.
Meditação é algo que diz respeito ao seu ser.
É necessário apenas uma pequena conexão... e, de súbito, tudo é diferente.
O corpo continuará seu caminho, mas você saberá que não é seu corpo. 
Pessoas morrerão, mas você saberá que a morte é impossível.


A sua própria morte virá — mas a meditação o prepara para a morte, para que você possa ir dançando e cantando para o derradeiro silêncio, deixando a forma para trás e desaparecendo no sem-forma.



Osho 
in, "Após a meia-idade : Um céu sem limites"




A NOITE QUE EU QUERIA


Alejandra Baci






eu queria ter uma noite por tecto
uma noite por chão
em que cada gesto, cada beijo
não fosse em vão

eu queria uma noite por tecto
uma noite sem abrigo
bastava que fosse uma noite
e que fosse contigo

eu queria uma noite por tecto
com frio ou com calor
desde que cada momento dessa noite
fosse um momento de amor

eu queria uma noite por tecto
solta e livre, passo a passo
em que a única prisão
fosse a prisão do abraço

eu queria uma noite por tecto
com loucura até ser dia
porque por mais louca que fosse
seria a noite que eu queria!



Carlos Manuel Barão de Campos




sexta-feira, 23 de junho de 2017

Carta





(digo dos que se ditam:
a minha defesa
são os vossos punhais)

Quando me disseram «não se vem à vida para sonhar» passei a odiar-vos. Para vos matar escolhi materiais inacessíveis ao meu ódio. Em mim fizestes despertar a irreparável urgência de ferir.

Descobri a vossa intenção: decepar as minhas raízes mais profundas, obrigar-me à cerimónia das palavras mortas. Preferi reiniciar-me: na solidão me apaguei. Estava só para me encher de gente, para me povoar de ternura. Eu queria simplesmente olhar de frente a verdade das pequenas coisas: esta água vem de onde, quem teceu este linho, que mãos fizeram este pão?

Desloquei-me para tudo ver de um outro lado: levei o meu olhar, o desejo de um princípio infinitamente retomado. Ganhei sonoridade nas vozes que me habitavam silenciosamente. Entre mar e terra eu preferia ser espuma, ter raiz e poente entre oceano e continente.

O tempo, por vezes, morria de o não semear. Terras que golpeava com ternura eram feridas que em mim se abriam para me curar. Eram terras suspeitas, acusadas de futuro. Outras vezes eram mãos de um corpo que ainda me não nascera. Surgiam da obscuridade para afastar a água e nela me deixar tombar. Tecido que escapava da mais bela das lavadeiras eu ia pelo rio, a corrente insuflando-me e eu deixando-me arrastar com fingida contrariedade.

Outubro 1981


Mia Couto
in, Raiz de Orvalho





Paulo Coelho





I came to Paulo Coelho reluctantly, though I couldn’t tell you why.




But there he was, dotting the backpacker circuit of Southeast Asia, in nearly every guesthouse I passed through, squeezed into crammed shelves, falling apart under bamboo side tables, half-wildly torn and soggy under beer glass condensation.

Always in need of reading material, and craving a break from reading on my laptop, I found myself inching closer and closer to Coelho’s well-read body of work.

One by one, I started reading his books and falling into his lyrical phrasing and optimistic, oneiric spiritualism. I wouldn’t say I became hooked. It was more of a lingering, intermittent and sometimes dysfunctional relationship—and periodically, I would keep coming back for more.

Regardless of how I felt about everything I read of Coelho’s, I will be forever grateful to him for how interwoven his work became with such a meaningful period of my life. These books allowed me to get swept away in his sandy, windblown parables, and occasionally brought me, slap-in-the-face-like, back to the present moment, where I needed to confront myself.

I’ll be totally honest: I can’t remember right now which book it was that struck me with this amazing quote, and I also can’t swear that it’s a direct quote and not a paraphrase. In fact, that memory is a fallible and very creative thing ties into the quote that inspired me to write this.

I do remember the book was about a man who lost the one woman he really loved and was trying to figure out how to get her back, and how to get to the bottom of who he really was, that he could have loved and lost like this.

He asked a wise person for advice and was told to forget everything, to forget his biography and just be—to discover himself in this way, in the shining light of the present moment (my interpretation).

The thought panicked him (and me, by proxy).

How can I stay myself if I willingly forget all that I was? he asked.

And he was told: the important stuff stays.

The important stuff stays.

I’ve had similar fears to the man in the story. I’ve long tended to hold on to too much: too much pain, negativity, doubtful feelings…and I’ve suspected that this has led me not only headlong into life via the modes of confusion and uncertainty, but also to my slowly unfolding journey of turning this around.

During my long travels, I may not have been searching for that one person, that emblem of love and self-fulfillment, of the protagonist of this book (though maybe we always are, in a way)—but I was, without a doubt, reaching for something exciting and elusive. And I was certainly trying to be in two places at once—in the past that was always dancing on my shoulders, never far away from my deepest emotions,  and also in a long-awaited, mythical future where everything would fall beautifully together.

Of course, we can’t be in two places at once, any more than we can ever be in back the past, or ahead in the future.

How does one really start over, though—as much as we really want to at the very core of our being – without fearing a complete annihilation of self?

When I read that the important stuff stays, it seemed too simple to hold onto, but so deeply, profoundly sensible at the same time.

Nothing of value will ever be forgotten because there’s no malevolent force out there that wants you to suffer. We make ourselves suffer. If we can only eliminate the causes of suffering—the clinging, the grasping—there might well be a treasure of stuff (we are the treasure!) there for the taking.

We need only to lighten up, literally, metaphorically, and enjoy the proverbial ride, and know that we will not be completely annihilated if we do so.

What’s left behind, we don’t need. What remains, remains. And this remainder will always be enough.



*Postscript: I’ve looked into it now, and the book is called The Zahir: A Novel of Obsession. Recommended!


 Tammy T. Stone





Podia


Ann Smith
  



Podia dizer-te que não me importo

 Podia fingir que fugi
 Ou que estou morto.
 Podia adiar para outro dia
 Invocar uma qualquer lei
 Dizer-te que não sei
 Ou fiquei sem bateria.

 Com a verdade mais pura
 A única verdade
 A única que dura
 Faria a minha despedida
 A promessa de mil abraços
 E uma palavra sofrida

 Podia dizer-te que volto
 E seria breve
 Como um poeta escreve
 Livre e solto.

(E tu, minha vida, acreditas
 Nas palavras que não digo?
 Será o silêncio castigo?
 Será em silêncio que gritas?)

 Podia dizer-te que são pequenas
 As saudades do teu sorrir
 Mas seriam palavras apenas
 E seria mentir.


 Carlos Campos
in, "Rio de Doze Águas"




quinta-feira, 22 de junho de 2017

Como a mente se engana?





Eis uma pergunta que em algum momento 
qualquer praticante budista se faz: 
Afinal de contas, 
se temos uma natureza livre, 
desobstruída, 
como é que nos enganamos? 
Como surge a ignorância?



Nem precisa ser praticante budista para pensar numa questão dessas: quem nunca teve alguma atitude lamentável e depois de um tempo não pensou “como é que eu fui capaz de fazer aquilo?”
Por que só percebemos a bobagem um tempo depois e não antes de cometê-la?

Na palestra de lançamento do livro A Roda da Vida como caminho para a lucidez, em São Paulo, Lama Padma Samten esclarece com sua mestria e bom humor que, na verdade, a mente nunca se engana! Ela só opera dentro de uma determinada paisagem, com referenciais próprios. Essa paisagem seria como um ambiente mental, com referenciais e conceitos específicos. A mente sempre vai agir segundo esse ambiente em que está imersa, sempre respeitando os pressupostos da paisagem. Logo, a mente nunca erra!

A ignorância e o engano surgem quando reduzimos o mundo todo à paisagem em que estamos e passamos a agir segundo tal paisagem, não entendendo que ela é uma coisa bem particular e não corresponde a uma realidade absoluta.




Nosso mundo não é senão 
nossa experiência do mundo.

Temos a sensação que a paisagem em que estamos é, de fato, o mundo todo. É daí que brota o engano: dessa certeza, dessa sensação de vermos tudo. Nem pensamos sobre o fato de que, quando vemos uma coisa, não vemos outra, quando estamos numa paisagem, não estamos em outra, logo, há uma limitação. É como a figura das pernas ali em cima: quando vemos as pernas masculinas, não vemos as femininas e vice-e-versa.
O mesmo acontece no exemplo do cubo que o Lama Samten costuma usar.

É por isso que fazemos as bobagens: no momento da ação não vemos outras alternativas e por isso temos a certeza de que aquilo que estamos fazendo é o que tem que ser feito,  seja gritar com alguém, ou o que for. Isso não vale só para as “bobagens” da vida.
Qualquer coisa que vemos e fazemos depende da paisagem em que estamos.
É um processo muito sutil, basta olharmos para o nosso mundo interno que vamos começar a paulatinamente perceber que as paisagens determinam nossa visão de mundo.

Nessa mesma palestra, Lama Samten lembra que a humanidade passou séculos acreditando que o Sol girava ao redor da Terra.  O homem passou um longo tempo sem conseguir ultrapassar os limites dessa paisagem, tomando-a como fixa. Até que alguns homens corajosos furaram a bolha dessa paisagem e provaram para nossos olhos físicos que a visão de mundo tinha de ser expandida! Mas nós sabemos o quanto foi custoso para homens como Copérnico, Galileu e Giordano Bruno introduzir novas visões de mundo. As pessoas estavam fixadas à visão de mundo anterior a eles, assim como nós estamos fixados a muitas de nossas paisagens.


Mas afinal, como criamos as diferentes visões de mundo e como ficamos presos a elas? 
Lama Samten explica que nossa natureza livre e desobstruída cria as diferentes paisagens e até mesmo a própria fixação a elas. Essa compreensão é de crucial importância, pois percebemos que as paisagens em que as pessoas se encontram não são fixas, são construídas, portanto, podem ser substituídas por paisagens mais elevadas!

Para mim, a parca compreensão do conceito de paisagem foi muito libertadora!
Perceber que os seres agem a partir das paisagens em que estão imersos me fez finalmente entender porque não há como julgarmos nada de certo e de errado, pois esses conceitos só fazem sentido quando analisamos uma ação com referenciais diferentes daqueles da paisagem em que a ação foi cometida. 
Por exemplo: eu direi que a atitude do meu namorado de gritar comigo está errada, pois EU não estou na paisagem onde o grito possa surgir, assim eu estou analisando a atitude dele a partir da paisagem em que EU estou e não a partir da que ELE está, logo, direi que ele está errado e que ele é um ser horrível por gritar comigo. Mal percebo eu que, basta ele pisar na bola que eu entro facilmente na paisagem que ele estava e passo a gritar com ele mais alto ainda.

Portanto, se estivermos numa paisagem muito negativa, do reino dos infernos, por exemplo, é completamente possível que venhamos a agredir ou até a matar alguém.
Dentro da paisagem desse reino, matar pode parecer o correto a se fazer.
Porém, sabemos que essas ações nos trarão muitos problemas.
Além disso, como nossas paisagens flutuam o tempo todo, logo saímos da paisagem negativa, percebemos o equívoco e vamos nos sentir muito mal.

Por isso, precisamos olhar com cuidado para o nosso mundo interno e perceber com que paisagens estamos andando por aí e começar a transformá-las em paisagens mais positivas, para que enfim nossas ações também o sejam.
Caso contrário, estaremos fazendo um monte de bobagens e nem vamos desconfiar disso, afinal, dentro das paisagens específicas as coisas fazem sentido.


Visão, meditação, ação
Lama Padma Samten nos lembra a todo o momento da nossa natureza livre, que nos dá a extraordinária possibilidade de construir as melhores paisagens, as mandalas positivas, que no Budismo chamamos de Terras Puras, onde os seres estão empenhados em construir ambientes mais lúcidos para benefício de todos.  Só iremos perceber que temos essa extraordinária natureza praticando a percepção dela.

Ainda que entendamos bem o funcionamento das paisagens, não estamos livres das paisagens negativas se instalarem sem percebermos.
Não estamos livres delas, porque muitas vezes esse entendimento é só no nível de visão; é teórico, mas importante.  Mesmo entendendo bem das paisagens, eu mesma recentemente gritei enlouquecidamente com um amigo, virei um monstro na frente dele por questões bem pequenas.

Reconhecendo que o buraco é bem mais em baixo, precisamos investir na etapa da meditação, na qual tornaremos vivo o entendimento gerado na etapa de visão e assim reconheceremos a inutilidade do surto antes que ele tome conta de nós.
Para então podermos efetivar a etapa de ação no mundo e realmente poder trazer benefícios verdadeiros aos seres!



Stela 
in, Bodisatva



Depoimento





De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não. Nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.

A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia.
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.


MIGUEL TORGA 
in, DIÁRIO XIII 





Neil deGrasse Tyson Applied Science to the Tooth Fairy

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Abre-se em mim





Abre-se em mim.
Nova consciência
Novo olhar.
E, caminho ao encontro da luz,
devagar…

Atentamente, escuto, olho,
E, há uma voz interior que me chama
E, há um mundo exterior que se agita.

E, há uma promessa divina
de graça…
E, há a natureza interior das coisas,
reflexo e espelho de mim e do todo.

E, é como se eu estivesse em todas as coisas

E, é como se eu fosse luz, vento, brisa, flor ou folha.

E, é como se tudo estivesse em tudo e eu estivesse aí, 
e nada mais fosse do que uma folha ou um raio de sol.



Helena Guerra





Micard


Como viver sem objectivos?





Pergunta – Mas como viver sem planear, sem ter objectivos?

Monge Genshô - Você traça o objectivo, vai atrás dele, mas você tem que saber que ele é fonte de sofrimento. O segredo é não alimentar nenhuma expectativa.  Eu desejo uma coisa, não consegui, não tem importância nenhuma, você se livrou. Então ter objectivos é necessário, quando se está trabalhando na vida, mas você tem que saber que não pode se agarrar a eles como se fosse sua essência, e se você não conseguir, que horror. Não é assim.

Você agrega as coisas a vocês mesmo. Você compra um vaso bonito e leva para casa, aí é “meu vaso”. Aí “meu vaso” cai no chão e quebra. A pessoa diz, “ah, meu vaso quebrou”, e sofre. Porque ela colocou “meu”. Se fosse só “vaso”, não teria sofrimento. Se fosse: “comprei um vaso, levei pra casa, vaso. Caiu, quebrou. Vaso quebrou. Juntar cacos, ponto”.

Agora quando você coloca “meu”, pronto.
Por isso que os relacionamentos amorosos são sofridos, porque coloca-se “minha” mulher, “meu” marido”. Você não me deu atenção, você não me cumprimentou, você não se lembrou do meu aniversário, etc., tudo é “meu”, então há muito sofrimento.
Quando acaba o relacionamento, perdi “meu” relacionamento, levei um ponta pé. Então há sofrimento. Mas o sofrimento vem de quê? Sempre vem de “eu, meu, minha”. E o "meu" objetivo também é assim, esse que é o problema. Se fosse só “objetivo”, não teria problema.

É mais ou menos assim, a gente vai fazer uma palestra, já fui fazer palestra e não veio ninguém, então o que vamos fazer? Vamos sentar e meditar, porque tanto faz. Vem um vem vinte, é a mesma coisa, tem que ser assim, se não for assim, não funciona.

Aqueles que começam grupos de estudo do zen eu sempre digo: você vai lá, fez um grupo de meditação na sua casa, não veio ninguém, o que é que você faz? Senta sozinho. Qual é o problema? Nenhum problema, eles não são “seus”, todos são livres, não tem problema. Quanto sofrimento por causa de “meu”.

Alguém pega um passarinho, põe numa gaiola e diz: “meu” passarinho. E o passarinho tem que ficar preso na gaiola. E ele nunca quis ficar numa gaiola.
Então, melhor tirar os “meus”. Tirar o “eu, meu, minha”.





terça-feira, 20 de junho de 2017

O Simbolismo da Árvore




A Árvore é encontrada como um símbolo sagrado em várias culturas e nas mais diversas épocas da história. Faz parte da tradição de povos tão distintos quanto Maias, Escandinavos, Chineses, Maoris, Africanos e Hebreus.

A Árvore Sagrada representa a estrutura do universo: seus galhos simbolizam a conexão com as dimensões superiores da existência, ao passo que a raiz evoca o vínculo com os aspectos mais primitivos e funcionais de nossas vidas. Da mesma forma, as múltiplas dimensões da Árvore e seus frutos representam os atributos positivos do Eterno.

A árvore abrange três níveis do Cosmos: as raízes atingem o universo subterrâneo e as profundezas, o tronco está na superfície da terra, e os galhos e as folhas alcançam o ponto mais alto, atraídos pela luz do céu.

O simbolismo mais conhecido da árvore é de símbolo da vida, representando a perpétua evolução, sempre em ascensão vertical, subindo em direção ao céu. A representação da Árvore da Vida está presente em diferentes mitologias. Diz-se que quem comesse dos frutos dessa árvore – que cresceu no Paraíso – adquiria a imortalidade.

A Árvore da Vida se converte em Árvore de Conhecimento no cenário bíblico. Em desobediência a Deus, ao provar o fruto (conhecimento proibido) da Árvore do Bem e do Mal, Adão e Eva foram expulsos do paraíso, de modo que ela representa o engano e a tentação, bem como a dualidade da Natureza e do divino.

Descansando em baixo da Árvore Bodhi, ou Árvore Bo, Buda alcançou a iluminação após ter estado a sua procura ao longo de sua caminhada pela Índia que teria durado seis anos. A Árvore Bodhi é considerada sagrada pelos hindus e budistas e é símbolo de felicidade, longevidade e boa sorte.

A árvore simboliza o crescimento de uma família ou de um povo, representa frequentemente uma genealogia, como uma árvore familiar, e pode subitamente inverter o seu significado de árvore da vida para árvore da morte.

A árvore também representa o caráter cíclico da evolução cósmica: vida, morte e regeneração. Ela cresce em posição vertical, perde as suas folhas e se regenera por incontáveis vezes, morrendo e renascendo de modo cíclico, de modo que também é um símbolo de fertilidade. Nesse sentido, pressupõe a ideia da árvore como uma concentração da fonte da vida, e possui uma ambivalência sexual representando o masculino e o feminino, sob a forma de germes e sementes.

Ansiamos por atingir o crescimento da árvore, a sua altura e as suas raízes. Parecemo-nos árvores: com troncos, braços e dedos como galhos, os dedos dos pés em contato com o chão. Às vezes, na mitologia, os seres humanos são transformados em árvores. Seus suspiros, sussurros e as lágrimas transformadas em resina aludem à resistência, ao enredamento e à fixação.

A árvore pode representar um lugar de tomada de consciência, de iluminação, mas também de suspensões míticas, de sacrifício, provação e suicídio. No topo da árvore está a bela simetria da coroa da árvore, significando a união dos opostos. A alquimia fez da árvore o símbolo central, porque a árvore representa a natureza da intensa vida interna e o desenvolvimento que segue suas próprias leis.

Várias espécies de árvores também têm sua simbologia própria, que vale pesquisar.
Podemos nos conectar mais profundamente com a natureza se plantarmos uma árvore com um “significado” e a observarmos crescer.



Marcelo Dalla




A vida





É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo,
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!


Florbela Espanca






Destino e Livre Arbítrio





O conceito de destino só por si quase que nos leva a acreditar que vivemos impotentes perante os movimentos inesperados da vida, mas perde força quando percebemos que temos na mão o poder de escolher.
O conceito de livre arbítrio baseia-se no facto de que realmente somos livres e podemos mudar a nossa história mudando as nossas escolhas, mas também perde força perante o que não podemos mudar e o imprevisto que nos chega.
A proposta é conciliar ambas.

Cada um de nós traz consigo uma proposta de evolução pessoal. 
Considerando que a nossa evolução é um processo permanente e não um patamar final a que iremos chegar, ela é a constante alquimia interna dentro de cada um de nós, de transformação de tudo o que é medo em amor. De tudo o que é inconsciente, em consciente. De tudo o que é excesso ou falta, em equilíbrio.

Evoluir é então gerir o que nos chega e o que sai de nós.
É tomar consciência do que chega para que possamos melhorar o que sai.

Conforme a frequência da nossa energia, iremos ser inconscientemente arrastados pela vida fora, para condições de nascimento, eventos, encontros e circunstâncias imprevisíveis (destino ou o que não podemos mudar) que se revelam perfeitas para que possamos lidar com elas e encontrar respostas mais positivas e amorosas (livre arbítrio ou o que podemos mudar). 

De acordo com a lei do karma, esses mesmos eventos trazem padrões que colocámos em movimentos noutras existências e que agora nos chegam para que possamos tomar consciência deles e alterá-los para frequências mais leves.

Ou seja, o que de facto está na nossa mão é a resposta interna que damos a esses eventos externos. 

Quando não há consciência destes mecanismos, iremos ver o positivo que nos chega como sorte e o negativo como azar, sem noção de que podemos alterar esses movimentos dando novas e mais evoluídas respostas. 
É essa inconsciência que nos faz resistir e temer o negativo e infantil e inutilmente correr atrás do positivo.
É essa inconsciência que nos leva a alimentar os velhos padrões, mantendo-nos presos aos mesmos.
Só uma nova consciência mais iluminada nos permite libertar esses mesmos padrões, simplesmente dando-lhes respostas mais positivas.


Por exemplo, 
Se trazemos em nós violência e medo, iremos atrair pessoas violentas e medrosas para aprendermos a responder com amor e tolerância.
Se trazemos em nós vitimização, iremos atrair pessoas que se vitimizam para aprendermos a responder com coragem e responsabilidade.
Se trazemos em nós arrogância e orgulho, iremos atrair pessoas que são arrogantes e orgulhosas para aprendermos a responder com humildade e amor.
E por aí fora...

A partir desta visão há sempre um jogo interativo entre nós e a vida.
Há sempre uma responsabilização da nossa parte em repetir a velha resposta ou conseguir dar uma nova mais elevada e positiva à proposta da vida.
Infelizmente as filosofias Ocidentais dos últimos dois mil anos levaram-nos a acreditar que somos impotentes. Que estamos na mão de um Deus que tudo pode. Que não temos liberdade alguma. Que se nos atrevermos a fazer diferente, seremos castigados. Ou melhor que o único caminho para Deus é a perfeição.
Este pensamento / crença desconectou-nos do nosso poder pessoal, da convicção de que podemos dizer Sim e Não de acordo com o que nos faz sentido. Esta submissão e temor a um Deus castigador, levou-nos a um desempoderamento tal, que muitos simplesmente deixaram de escolher. Vivem sem consciência alguma de que podem e devem escolher de acordo com a sua verdade interna e o seu caminho pessoal. Quem assim vive, vive rendido à sua “sorte” ou destino, aceitando simplesmente “o que Deus quer”, vivendo apenas como humildes observadores da sorte e azar de cada um.
Estes são os que consultam oráculos apenas no sentido de saberem o seu futuro, como se ele já estivesse escrito e pudessem espreitar o que lhes espera.

Para curar esta visão distorcida e limitadora da realidade, temos que ir ao Oriente em busca de referências que façam mais sentido e que expliquem as dinâmicas da vida e crenças mais maduras no que toca à nossa responsabilidade pessoal sobre a resposta que damos ao que atraímos.
É desta visão que iremos consultar as antigas ciências esotéricas não para controlar o que está fora, mas sim para mudar o que está dentro.
Enquanto andamos perdidos no caminho da perfeição, não sabemos ainda que carregamos em nós uma história da qual somos responsáveis e que traz com ela a proposta da mudança. Quantos tristemente, nascem, vivem e morrem sem nunca saberem quem na realidade são, sem nunca perceberem a bagagem que carregam. Sem consciência alguma que essa bagagem é magnética e que enquanto não for transformada irá fazer atrair mais do mesmo.

Vamos imaginar alguém que numa vida passada viveu desconectado do amor e inconsciente das dinâmicas Karmicas. Agiu egoistamente, roubou dinheiro, traiu a mulher, descuidou a sua relação com os filhos e abusou do seu poder financeiro para explorar os seus empregados.
Completamente inconsciente da noção de que o que plantamos a nós voltará, ele simplesmente age pelo seu ego ditador. Karma não é castigo. É apenas um movimento completo que nos mostra a acção e sua consequência pois só na consequência podemos avaliar a qualidade da acção.
Só no fruto podemos avaliar a qualidade da semente, certo?
A primeira fase da vida seguinte desta pessoa serve então apenas o propósito de lhe vir mostrar as consequências das suas acções.
Vamos supor que vai nascer numa família sem amor, com uma mãe submissa, com um pai autoritário que não o trata com o devido respeito e a quem vê usar o dinheiro para dominar e maltratar a mãe. Quando entra para o mundo do trabalho, ele vai ver as suas tentativas de ter muito dinheiro algo frustradas, e até que ele aprenda as suas lições internas, ele irá atrair um patrão materialista, egoísta e explorador.

Como disse acima, karma não é castigo. 
O nosso amigo está apenas a tomar consciência do outro lado.
De como se sente alguém no lugar contrário e é nesta posição que ele consegue perceber que patrão ele gostaria de ter, como ele gostaria de ser tratado.
Que pai ele gostaria de ter tido. Como ele gostaria que o pai tivesse tratado a sua querida mãe, como gostaria que a sua mãe tivesse força, independência e amor próprio para se impor aos abusos do pai. Que afinal o dinheiro nas mãos erradas poder ser fonte de muito sofrimento, etc.
Aos poucos, esta alquimia interna vai limpando os excessos do passado, vai alterando as velhas crenças, vai limpando a densidade, vai equilibrando as suas energias e trazendo mais luz e mais consciência à viagem desta alma. 
Começa aos poucos a reconhecer que o que de pior vê no outro, vive escondido também em si e toma consciência pela primeira vez que pode e deve mudar os seus padrões.
1º libertando todos os que vieram ajudar a que ele tomasse consciência dos mesmos. 
2º criando novos padrões mais felizes, mais leves e mais amorosos. 

Não é raro ver nas regressões e padrões pessoais que quando um novo padrão é acionado, a vida volta a recriar o velho cenário para que o possamos aplicar.
No caso do nosso amigo, o destino irá trazer-lhe novas oportunidades para ele crescer profissionalmente, irá fazer atrair a pessoa certa para ele voltar a casar e ter filhos, mas será o livre arbítrio que lhe dará a responsabilidade de agir de uma nova maneira criando um novo padrão.

Embora hajam padrões geracionais e temporais que mostram que a primeira fase de vida é mais densa pela proposta de transformação que esconde, o processo de transformação acontece a vida inteira. 

A inconsciência e resistência a estes mecanismos prende-nos nos padrões velhos, recriando a mesma densidade e as mesmas perdas, até que haja mudança.
Quanto mais conscientes estivermos do mecanismo, melhor o reconhecemos, mais depressa o mudamos, mais leve se vai tornando a nossa vida.
É para isso que o trabalho de terapia e pesquisa da história karmica servem...



Procura na tua vida 
o que o destino te trouxe 
e como pretendes usar o teu livre arbítrio 
para o mudar?




Vera Luz