sábado, 29 de setembro de 2018

Narciso





Dentro de mim me quis eu ver. Tremia, 
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço... 
Ah, que terrível face e que arcabouço 
Este meu corpo lânguido escondia! 

Ó boca tumular, cerrada e fria, 
Cujo silêncio esfíngico bem ouço! 
Ó lindos olhos sôfregos, de moço, 
Numa fronte a suar melancolia! 

Assim me desejei nestas imagens. 
Meus poemas requintados e selvagens, 
O meu Desejo os sulca de vermelho: 

Que eu vivo à espera dessa noite estranha, 
Noite de amor em que me goze e tenha, 
...Lá no fundo do poço em que me espelho! 


José Régio
in, 'Biografia' 




O que é o Fascismo?





A palavra “fascismo” vem do italiano fascio, que significa “feixe”. Na Roma Antiga, o fascio (também conhecido como fascio littorio), era um machado revestido por varas de madeira. Ele geralmente era carregado pelos lictores, guarda-costas dos magistrados que detinham o poder.
O fascio podia ser usado para punição corporal, e também era um símbolo de autoridade e união: um único bastão é facilmente quebrável, enquanto um feixe é difícil de arrebentar.

No século XX, o político italiano Benito Mussolini se apossou desse símbolo para o seu novo partido. Em 1914, ele fundou o grupo Fasci d’Azione Rivoluzionaria (mais tarde, em 1922, surgiria o conhecido Partido Nacional Fascista). O uso do fascio não foi à toa. A Itália enfrentava uma profunda crise desde sua unificação tardia (concluída em 1870), e as consequências da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) pioraram a situação. Mussolini prometia, com o fascismo, trazer de volta os tempos áureos do antigo Império Romano.

Em 1919, os italianos Alceste de Ambris e Filippo Marinetti publicaram o Il manifesto dei fasci italiani di combattimento, texto hoje conhecido como Manifesto Fascista, que propunha um conjunto de medidas para resolver a crise da época. Nas décadas seguintes, o termo “fascismo” passou a ser usado para designar as políticas adotadas por Mussolini e seus seguidores.

O regime de Mussolini começou oficialmente em 1922, quando ele assumiu o cargo de primeiro ministro da Itália, e foi um sistema político nacionalista, imperialista, antiliberal e antidemocrático. Ele implantou um governo totalitário que privilegiou conceitos de nação e raça sobre os valores individuais. 

O fascismo italiano quase acabou em 1943, quando os países Aliados invadiram a Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Mas os nazistas ainda deram uma segunda hipótese ao ditador: os alemães reocuparam a Itália, resgataram Mussolini e o levaram para o norte do país, onde ele tentou restituir seu governo. No fim, em 1945, os Aliados tomaram o norte e Mussolini foi capturado e fuzilado por guerrilheiros da resistência italiana. Seu corpo foi exposto em praça pública. Com a derrota da Itália (e das forças do Eixo) na guerra, “fascista” virou um termo pejorativo.






Mas, o que exatamente foi o fascismo nem os maiores estudiosos sabem definir com precisão.
Não existe nenhuma definição universalmente aceite do fenómeno, seja quanto à sua abrangência, origens ideológicas ou formas de ação que o caracterizem. Algumas das principais características atribuídas ao fascismo  italiano -nacionalismo, corporativismo, racismo- não estão presentes em todos os regimes ditos fascistas. 

George Orwell, no seu “O que é Fascismo?”, afirma que as definições populares do termo vão de “democracia pura” a “demonismo puro”. Ele mesmo afirma que é uma palavra “quase inteiramente sem sentido”. Isso se deve, principalmente, ao fato de o fascismo não possuir um arcabouço teórico forte, e ter sido determinado, na prática, pelas atitudes de Mussolini. Nas palavras do próprio: “Não temos uma doutrina pronta; nossa doutrina é a ação.” 
Outros movimentos são bem mais formalizados.
O marxismo, por exemplo, antes de ser uma prática política, é uma doutrina com base teórica nos escritos de Marx e Engels. O nazismo, mais próximo do fascismo, teve no livro Mein Kampf (Minha Luta), escrito em 1925 por Adolf Hitler, seu manual de instruções. Mas as regras do regime de Mussolini foram basicamente definidas na hora, no calor do momento.

O fascismo propriamente dito ocorreu num contexto bem específico da história, mas há quem considere que o regime de Franco, na Espanha, ou o de Salazar, em Portugal, também tenham sido fascistas. 

Talvez dessa indefinição surja a generalização. 

Hoje, a palavra virou sinónimo de “extrema direita”, mas é usada até para se referir a “totalitarismo” e “autoritarismo” – o que não faz sentido, já que o regime comunista de Stalin foi ainda mais autoritário que o de Mussolini.

Em suma: a própria definição de fascismo é relativa. 
E as pessoas vão continuar a usar essa palavra cada uma à sua maneira.
Mas, na próxima vez em que você escutar alguém usando o termo, saberá do que se trata: alusão a um antigo instrumento de poder romano, que virou símbolo de alguns dos piores momentos do século XX.


Ingrid Luisa


















sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Nascença Eterna





Nascença Eterna, 
Nasce mais uma vez! 
Refaz a humílima Caverna 
Que nunca se desfez. 

Distância Transcendente, 
Chega-te, uma vez mais, 
Tão perto que te aqueças, como a gente, 
No bafo dos obscuros animais. 

Os que te dizem não, 
Os épicos do absurdo, 
Que afirmarão, na sua negação, 
Senão seu olho cego, ouvido surdo? 

Infelizes supremos, 
Com seu fracasso alcançam nomeada, 
E contentes se atiram aos extremos 
Do seu nada. 

Na nossa ambiguidade, 
Somos piores, nós, talvez, 
E uns e outros só vemos a verdade 
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês. 

Se nada tem sentido sem a fé 
No seu sentido, Sol que não te apagas, 
Rompe mais uma vez na noite, que não é 
Senão o dia de outras plagas. 

Perpétua Luz, Contínua Oferta 
A nossa escuridade interna, 
Abre-te, Porta sempre aberta, 
Mais uma vez, na humílima Caverna. 


José Régio
in, 'Obra Completa' 





Faz as pazes com a vida que escolheste! ​





Cada vez mais a visão irrealista e idealista 
que nos fazia ansiar 
por um mundo perfeito e uma vida perfeita 
começa a ser substituída pela visão real de que 
vivemos num mundo dual onde 
sombra e luz, medo e amor, bem e mal 
andam lado a lado.


Há mais de 4000 anos que os Mestres Taoístas nos ofereceram a sua visão dual da realidade através do símbolo Yin Yang e praticamente todas as filosofias do mundo a mencionam nos seus textos, mensagens e metáforas. A ciência juntou-se a esta visão no estudo do átomo.

A verdade é que não precisamos de filosofias nem da ciência que defendam a dualidade pois cada um de nós a vive e comprova diariamente. Dia, noite, chuva, sol, trabalho, descanso, homem, mulher, alegria, tristeza, doença, saúde, enfim, não caberiam numa enciclopédia todos os exemplos de experiências da dualidade.

Para fazermos as pazes com a nossa vida teremos que primeiro ​aceitar o conceito da dualidade ​pois é​ essencial para vivermos uma vida de qualidade. E por qualidade não quero dizer que tudo irá ser perfeito e correr bem obviamente. Quero dizer sim, capacidade de viver em paz com o que a realidade dual é e de aceitar o que a vida traz a cada momento como expressões inteligentes dessa dualidade.

Aceitar a dualidade é então reconectar com a Unidade pois atrás de cada experiência está sempre a sua oposta e é na consciência dos opostos que encontramos o Divino.

E porque perceber isto é tão importante, perguntas tu?

♦ Porque fazer as pazes com a nossa história é uma das maiores curas que podemos fazer.
♦ Porque aceitar a nossa proposta de encarnação é um acto de humildade e maturidade.
♦ Porque só aceitando o lado sombra ​e o lado luz podemos fazer as pazes com a nossa vida​.

Em vários textos e livros​ que escrevi, fui mostrando como podemos tomar consciência destas energias tanto dentro como fora de nós ​de maneira a harmonizá-las.
A proposta deste texto é apenas a de te colocar o desafiante convite de aceitares a tua história aqui e agora. De finalmente fazeres as pazes com a tua proposta de vida e com tudo o que ela ​teve, ​tem ​e terá​ para te oferecer; a dualidade!
De conseguires finalmente dizer: "Eu estou em paz com a vida que escolhi"

Sei bem que quando as coisas não nos correm a favor e as experiências negativas acumulam​, é um desafio fazê-lo. Mas apenas porque ninguém nos ensinou que todas as experiências são válidas, inteligentemente atraídas que escondem valiosas aprendizagens. Quando finalmente percebemos que toda a dualidade não é mais do que uma expressão da Unidade ou do Divino, a antiga resistência dá lugar à aceitação e a uma maravilhosa paz interior capaz de ir reconhecendo a dualidade em tudo e em todos. Confiando que a experiência presente irá sempre fazer-nos chegar a sua oposta para que tomemos consciência dela e em última análise, lhe demos o devido valor. ​

Só quando fizermos as pazes com esta visão da vida podemos então ser observadores da dualidade e sentir a importância e riqueza do que ela nos permite experimentar como por exemplo, ver todo o espectro de cores, ouvir a variedade de sons, provar os mais diferentes sabores, sentir todo o tipo de emoções, ou seja, distinguir os mais variados opostos que compõem a realidade.

E não são os opostos que afinal dão vida e riqueza à realidade material​?

Aceitar a dualidade é um acto de fé pois aprendemos a confiar que toda a experiência esconde a sua oposta e ​é dessa visão de "dois pratos" que o termo equilíbrio nasce e faz sentido.
Que vida seria esta se apenas fosse vivido apenas o lado positivo da balança?
Será que o amor, saúde, alegria, felicidade, segurança, riqueza, abundância, prazer, coragem, doçura, proteção teriam valor sem os seus opostos? Eu não acredito.
Acredito sim é que num tempo futuro, a distância entre opostos irá diminuir.

A nossa evolução irá permitir que o ​fosso de diferença ​entre positivo e negativo ​que conhecemos hoje,​ irá ser mais curto e logo, mais fácil ​de viver.

Até que esse tempo chegue, aceitemos a viagem a que nos propusemos. ​Façamos as pazes com o nosso roteiro. Tentemos lembrar o momento antes de encarnar onde decidimos os desafios presentes e todos os equilíbrios de opostos que viemos fazer e respeitemos ​que a nossa vida não é mais do que esse plano.

Uma das maneiras mais confortáveis de trabalhar os opostos é não nos identificarmos com nenhum deles, vendo-os apenas ​então ​como polos de experiência.
Tal como nós não somos o frio nem o quente. 
Somos quem experimenta o frio e o quente. ​

Procura dentro de ti o teu centro, a consciência do teu espírito. O Observador. ​Um ponto neutro que apenas sai do seu centro para ir lá fora ao mundo fazer a sua experiência e voltar ao centro com a consciência da mesma. Seja ela positiva ou negativa. A partir deste ponto ​neutro, ​​vai validando como as várias experiências não são mais do que toques cósmicos na nossa energia de modo a que ela se equilibre​ e ​consiga​ estabiliza​r dentro de nós.

​Costuma-se dizer que:

"A dor é sempre proporcional à resistência"​

Fazer as pazes com a nossa vida e aprender a aceitar as aprendizagens por trás de cada experiência, ajuda a desactivar a resistência e logo, a intensidade da dor.



Vera Luz




quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A VERDADE É AMOR





A verdade é amor — escrevi um dia.
Porque toda a relação com o mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na infância e não mais se pôde esquecer. É esse equilíbrio interno que diz ao pintor que tal azul ou vermelho estão certos na composição de um quadro.
É o mesmo equilíbrio indizível que ao filósofo impõe a verdade para a sua filosofia. Porque a filosofia é um excesso da arte. Ela acrescenta em razões ou explicações o que lhe impôs esse equilíbrio, resolvido noutros num poema, num quadro ou noutra forma de se ser artista.
Assim o que exprime o nosso equilíbrio interior, gerado no impensável ou impensado de nós, é um sentimento estético, um modo de sermos em sensibilidade, antes de o sermos em razão ou mesmo em inteligência.

Porque só se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se está «feito um para o outro». Só entra em harmonia connosco o que o nosso equilíbrio consente. E só o consente, se o amar. Porque mesmo a verdade dos outros — a política, por exemplo — se temos improvavelmente de a reconhecer, reconhecemo-la talvez no ódio, que é a outra face do amor e se organiza ainda na sensibilidade.


VERGÍLIO FERREIRA
in, PENSAR




PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO





Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso 

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo 

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
in, LIVRO SEXTO





quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A SECRETA VIAGEM






No barco sem ninguém, anónimo e vazio, 
ficámos nós os dois, parados, de mão dada ... 
Como podem só os dois governar um navio? 
Melhor é desistir e não fazermos nada! 
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos, 
tornamo-nos reais, e de maneira, à proa... 
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos... 
Por entre nossas mâos, o verde mar se escoa... 
Aparentes senhores de um barco abandonado, 
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem... 
Aonde iremos ter? - Com frutos e pecado, 
se justifica, enflora, a secreta viagem! 
Agora sei que és tu quem me fora indicada. 
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos. 
- Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada, 
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!


DAVID MOURÃO-FERREIRA
in, OBRA POÉTICA






............................................. o Pão de hoje





O pão era fermentado apenas com os fermentos naturalmente presentes nos grãos, por isso era fermentado longamente.
Hoje em dia é atafulhado de fermentos produzidos industrialmente e que nem têm tempo de actuar. 

Antes, depois da acção dos fermentos, actuavam os lactobacilos que destruíam em parte a estrutura de glúten e o tornavam mais digesto.
Agora, quando o pão vai ao forno ainda vai cheio de fermentos e com a estrutura de glúten intacta.

Antes, o trigo tinha doses normais de glúten, hoje em dia foi seleccionado para ter mais, e ainda assim adicionam glúten às farinhas ditas fortes, para a confecção do pão fofo e com muita estrututa.

Antes os fermentos estavam presentes naturalmente, hoje com a constante pulverização de antifúngicos para prevenir doenças do trigo, não há fermento natural que aguente.

Antes, o trigo era seco no campo, ao sol, naturalmente.
Hoje, quando 75% da colheita está madura, é pulverizado com herbicida roundup para o secar mais rápida e eficazmente, permitindo uma colheita antecipada e sem riscos de perdas por chuva e acção animal... e não é só o trigo. Aveia, cevada, feijão, lentilha, grão de bico... tudo que seja para colher seco.

Com tantas diferenças entre o pão de 2018 e o de 1918, não é de admirar que de repente, o pão seja uma fonte de doença e não de alimento e saúde.


Sérgio Miranda




terça-feira, 25 de setembro de 2018

His Journey's Just Begun





Don't think of him as gone away
his journey's just begun,
life holds so many facets
this earth is only one.

Just think of him as resting
from the sorrows and the tears
in a place of warmth and comfort
where there are no days and years.

Think how he must be wishing
that we could know today
how nothing but our sadness
can really pass away.

And think of him as living
in the hearts of those he touched...
for nothing loved is ever lost
and he was loved so much.



Ellen Brenneman





Envelhecer é passar da paixão para a compaixão.







Envelhecer é o único meio de viver muito tempo.
A idade madura é aquela na qual ainda se é jovem, porém com muito mais esforço.
O que mais me atormenta em relação às tolices de minha juventude, não é tê-las cometido…é sim não poder voltar a cometê-las.
Envelhecer é passar da paixão para a compaixão.
Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo tentando ficar nos quarenta.
Aos vinte anos reina o desejo, aos trinta reina a razão, aos quarenta o juízo.
O que não é belo aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta, nem sábio aos cinquenta, nunca será nem belo, nem forte, nem rico, nem sábio…
Quando se passa dos sessenta, são poucas as coisas que nos parecem absurdas.
Os jovens pensam que os velhos são palermas; os velhos sabem que os jovens o são.
A maturidade do homem é voltar a encontrar a serenidade como aquela que se usufruía quando se era menino.
Nada passa mais depressa que os anos.
Quando era jovem dizia:
“verás quando tiver cinquenta anos”.
Tenho cinquenta anos e não estou vendo nada.
Nos olhos dos jovens arde a chama, nos olhos dos velhos brilha a luz.
A iniciativa da juventude vale tanto a experiência dos velhos.
Sempre há um menino em todos os homens.
A cada idade lhe cai bem uma conduta diferente.
Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós.
Feliz é quem foi jovem em sua juventude e feliz é quem foi sábio em sua velhice.
Todos desejamos chegar à velhice e todos negamos que tenhamos chegado.
Não entendo isso dos anos: que, todavia, é bom vivê-los, mas não tê-los.


Albert Camus





segunda-feira, 24 de setembro de 2018

ESTIGMA





Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.


ARY DOS SANTOS





AS EMOÇÕES PASSAM DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO






Não herdamos apenas a cor dos olhos ou a casa de família. A nossa identidade e a forma como gerimos as emoções também são uma herança. Está inscrita não no nosso ADN, mas na memória e no inconsciente. Este legado molda-nos para sempre e, se não estivermos despertos para ele, podemos acabar a repetir padrões disfuncionais do passado e a viver traumas e ansiedades que não são nossas.


É mais ou menos evidente que o nosso pai, a nossa mãe, a relação que têm entre si e que têm connosco nos define para sempre. Mas nem sempre é muito óbvio como.

Podemos replicar os mesmos padrões ou podemos fugir deles. Mas há outras pessoas, relações, ideias e crenças que nos moldam: a forma como se falava de sexualidade em casa, as posições políticas e religiosas, o valor que se dava ao trabalho, ao dinheiro e à família, aquele tio que sempre nos apoiou ou uma avó cuja história de vida foi uma referência.

O puzzle que somos é quase infinito e torna-se impossível ter uma visão clara e completa de todas as influências recebidas.

As escolhas alargam-se quando há muitas referências, mas, mesmo assim, «escolha» nem sempre é a palavra certa. A herança emocional, na realidade, demonstra que somos um pouco menos livres do que pensamos.

A família – a primeira forma de sociedade com que contactamos, em que aprendemos as primeiras regras e sentimos os primeiros afetos – começa a moldar quem somos ainda antes de darmos os primeiros passos.

«A complexidade é grande», diz o psicólogo Vítor Rodrigues, mas os pais são centrais e uma base segura de onde partir e onde voltar.

Os que queiram deixar uma boa herança emocional aos filhos devem seguir os princípios básicos: «respeitar e amar, mostrar carinho, aceitação e interesse.»

Não é por acaso que, tradicionalmente, os psicoterapeutas lidam com muitas questões relacionadas com a família, com as recordações e emoções de infância. E que as questões mais abordadas são experiências que revelam carências de amor e de reconhecimento.

«Pessoas que se sentiram abandonadas e negligenciadas, comparadas e criticadas, que sentiram que os pais não gostavam delas, que eram agredidas, que se sentiam invisíveis ou um estorvo» são, de acordo com o psicólogo, alguns dos problemas mais frequentes.

Mafalda Nascimento, 24 anos, reconhece em si alguns padrões familiares: a avó foi mãe com 19 anos, a mãe com 17, ela aos 15. A depressão faz parte da vida das três. Depois, há coisas menos óbvias. O hábito de representar o papel de mãe com toda a gente, admite, talvez lhe venha da infância: a mãe tinha ataques de pânico durante a noite e era ela que a acompanhava ao hospital, sentia-se responsável.

Percebe também que moldou a sua relação afetiva por oposição à dos pais. «Eles praticamente não têm vida além do casamento e eu nunca quis isso para mim. Comecei por fazer a mesma coisa com o meu marido mas, quando me apercebi, mudei. Faço questão de contrariar essa tendência que me é natural.»

O puzzle já seria bastante complicado se a história se limitasse às influências educativas e emocionais parentais. Mas há quem defenda que esta não é a história toda, que a trama é mais longa e mais antiga.

Ao longo dos séculos houve várias abordagens a fenómenos de repetição inconsciente. Freud falou na «alma coletiva da família», Carl Jung no «inconsciente coletivo», Moreno, o criador do psicodrama, no «co-inconsciente».

Mas foi a psicóloga francesa de origem russa Anne Ancelin Schützenberger , já nos anos 1980, que estudou e batizou um novo campo de estudo: a psicogenealogia ou psicologia transgeracional, que defende que os legados psicológicos familiares, nomeadamente o trauma transgeracional, podem perpetuar-se durante sete gerações e não são apenas fruto da aprendizagem social.

«Observamos, por exemplo, que as lealdades inconscientes – as repetições de padrões, tanto positivos como negativos, por uma questão de amor e solidariedade – são mais evidentes com os avós do que com os pais», explica a psicóloga clínica e psicodramatista Manuela Maciel, que foi discípula de Anne Ancelin Schutzenberger.

Nesses casos, a influência ainda nos pode chegar pela voz dos avós ou através das histórias contadas pelos pais, mas o que dizer de patrões com antiguidade suficiente para não os conhecermos, pelo menos conscientemente?

Sabe-se que a transmissão transgeracional do trauma acontece, só não se sabe ainda exatamente como, sobretudo quando os eventos traumáticos não foram presenciados nem narrados ao paciente.

Na consulta de Manuela Maciel esteve recentemente uma paciente que lutava contra um enorme e persistente medo da morte e tinha crises frequentes de falta de ar. A sua bisavó materna, percebeu-o mais tarde, havia sido gaseada em Auschwitz.

A resposta para este mistério pode estar nos marcadores epigenéticos, que atuam como uma ponte entre o ambiente e os genes: não os alteram, mas ativam ou suprimem a sua expressão.

Os estudos recentes (2005) da investigadora Rachel Yehuda, do Hospital Mont Sinai, em Nova Iorque, com descendentes de sobreviventes do Holocausto, parecem confirmá-lo. Já se sabia há décadas que este grupo sofria com mais frequência sintomas de stress pós- traumáticos, somatização e outras doenças mentais, mas o que os estudos-piloto de Rachel Yehuda trouxeram de novo foi a compreensão de que o trauma pode alterar os marcadores epigenéticos não só dos sobreviventes, mas também dos descendentes, até à terceira geração.

O trauma parece ficar «inscrito» nos nossos genes, o que pode explicar sintomas traumáticos de coisas que não foram vividas ou sequer sabidas.

Não há ainda uma explicação taxativa para alguns fenómenos defendidos pela psicogenealogia, nomeadamente, o chamado «síndroma do aniversário»: a repetição nas mesmas idades ou na mesma data de fenómenos ligados aos nossos antepassados.

Por isso, este campo de estudo não é ainda reconhecido e tem sido associado ao esoterismo. Manuela Maciel acredita que o problema está nas abordagens pouco consolidadas do ponto de vista intelectual, estatístico e teórico que têm sido feitas e refere que a Escola Internacional de Psicoterapia Transgeracional, da qual é vice-presidente, visa precisamente a formação e a investigação neste domínio.

Uma coisa têm, no entanto, em comum a psicogenealogia e a psicologia dita tradicional: os segredos, os tabus e os silêncios são sempre uma má escolha. São esses esqueletos no armário que perpetuam as disfuncionalidades.

«Quanto mais informações tivermos sobre a nossa família e sobre nós melhor. Dá-nos mais hipótese de escolher a nossa própria identidade psicológica. A consciência liberta e o objetivo de qualquer psicoterapia é aumentar a consciência».

Os traumas familiares têm sobretudo que ver com a exclusão e com a injustiça e a psicogenealogia tem ferramentas próprias para tentar apurá-los, mas o processo também leva os próprios pacientes a investigarem as raízes familiares.

Ana, de 56 anos, procurou Manuela Maciel porque já sabia que tinha uma herança pesada do lado materno. Sabia-o porque a sua consciência estava já um pouco mais amplificada por ser psicóloga clínica.

A bisavó materna fora uma «enjeitada», um bebé abandonado à nascença. «Viveu amargurada por ter sido rejeitada pela mãe, que nunca conheceu. Passou esse trauma à minha avó, que o passou à minha mãe e que o passou a mim.»

As relações entre mães e filhas do lado materno sempre foram carregadas amargura e conflito. «Nunca vi a minha mãe como uma mãe e tinha muito medo dela.»

Quando teve uma filha viu-se a repetir os padrões que se arrastavam desde o tempo da bisavó e acabou por fazer psicoterapia para colocar um ponto final no assunto.

Foi à consulta com Manuela pelo que sabia, mas também acabou a descobrir o que não sabia e a dar um novo significado a um passado até aí incompreensível. Investigou a vida da avó paterna, sua mãe de coração, e foi com choque e surpresa que soube que ela tinha perdido dois filhos pequenos.

«Hoje percebo que a minha avó e o meu pai eram pessoas marcadas pelo luto. Isso teve um impacto na vida deles, até porque caso contrário não o teriam escondido.»

Mas descobriu que talvez também tenha tido um impacto na sua própria vida. Ajudou-a a dar significado ao terror que sentia nos primeiros anos de vida dos filhos: cada febre, cada virose e cada espirro eram um pavor. Como psicóloga, percebia que aquilo era mais do que ser apenas mãe-galinha.

«Vivi aterrorizada com medo de os perder. Agora entendo que isso teve que ver com a vivência da minha avó. Ela, que foi a minha figura de referência na infância, perdeu dois filhos. Hoje sei que a ansiedade que senti não era minha.»

Na nossa história pessoal, como na universal, o insuficiente conhecimento do futuro é uma inevitabilidade. Mas podemos – e devemos – conhecer o passado. Resgatar a memória, compreender origens e entender os porquês ajudam-nos a reconstruir a verdade e a dar um novo significado ao que sentimos e ao que somos hoje.

E saber muda sempre o rumo da nossa história.


Como se transmite a inteligência emocional
A psicóloga e investigadora Lara Palmeira publicou, em 2010, no âmbito da sua tese de mestrado, alguns estudos que mostram que um dos principais mecanismos de transmissão transgeracional das emoções negativas são as crenças erradas sobre elas.
 «Em ambientes hostis, em que as emoções como a raiva ou a tristeza não podem ser expressas as crianças criam ideias negativas sobre as emoções que, mais tarde, vão perpetuar com os seus próprios filhos», explica a investigadora do Centro de Investigação do Núcleo de Estudos e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC) da Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra. 
E isto tem consequências: o sentimento de vergonha em relação a estas emoções aumenta a sintomatologia ansiosa e depressiva em crianças e jovens. Por essa razão – e porque mudar exige um esforço e intencionalidade – a psicóloga defende a criação de programas clínicos que ajudem os pais a ser «treinadores de emoções».
«É importante que os pais ensinem aos filhos que as emoções são todas válidas e têm uma função: não há emoções boas e emoções más. A criança tem de perceber que pode sentir-se triste, com medo e irritada e que isso não é uma vergonha.»


As ferramentas da psicogenealogia
Para que se aumente a consciência da história familiar e das influências transgeracionais, a psicogenealogia usa sobretudo duas ferramentas: o genosociograma, «uma árvore genealógica que inclui uma sociometria, para perceber qual é a rede social da pessoa dentro da família», e o psicodrama, «que tem por objetivo conhecer a verdade da alma através da ação, porque as palavras não esgotam a psique e o teatro põe-na em ação», explica Manuela Maciel.





Sofia Teixeira






sábado, 22 de setembro de 2018

Drifting Flowers of the Sea






Across the dunes, in the waning light,
The rising moon pours her amber rays,
Through the slumbrous air of the dim, brown night
The pungent smell of the seaweed strays—
     From vast and trackless spaces
       Where wind and water meet,
         White flowers, that rise from the sleepless deep,
             Come drifting to my feet.
     They flutter the shore in a drowsy tune,
       Unfurl their bloom to the lightlorn sky,
         Allow a caress to the rising moon,
             Then fall to slumber, and fade, and die.

White flowers, a-bloom on the vagrant deep,
Like dreams of love, rising out of sleep,
You are the songs, I dreamt but never sung,
Pale hopes my thoughts alone have known,
Vain words ne’er uttered, though on the tongue,
That winds to the sibilant seas have blown.
      In you, I see the everlasting drift of years
        That will endure all sorrows, smiles and tears;
          For when the bell of time will ring the doom
            To all the follies of the human race,
               You still will rise in fugitive bloom
                  And garland the shores of ruined space.



Sadakichi Hartmann




E quando o passado volta?





E depois de muito lutarmos para nos livrarmos de padrões negativos e frequências densas do nosso passado, eis que o mesmo desafio renasce das cinzas…

A nossa primeira reação perante tal fenómeno é de frustração e desânimo pois faz-nos acreditar que ainda não nos conseguimos libertar daquelas velhas energias.
A vida implacavelmente mostra-nos que as energias novas que tanto ansiamos não vêm porque as esperamos mas sim quando as merecermos, ou seja, quando nós próprios decidirmos que merecemos melhor.

A proposta escondida nestes testes é a possibilidade de nos libertarmos dessas velhas energias, conscientemente.
Sim, porque muitas das “libertações” não são mais do que fugas ao velho, onde ainda não há consciência das energias que de facto acreditamos merecer.
Apanharmo-nos em situações idênticas a situações passadas não quer então dizer que não tenhamos evoluído nada.


  • Quer sim dizer que finalmente já detectamos o padrão negativo antes de cairmos nele inconscientemente.
  • Quer dizer que chegou o tempo de provar que realmente mudámos a nossa atitude perante o mesmo desafio passado.
  • Quer dizer que já temos ferramentas novas para responder ao mesmo desafio de forma confiante e segura.
  • Quer dizer que já podemos escolher não mais alimentá-lo com a nossa energia e dessa maneira libertá-lo da nossa vida.
  • Quer dizer que a noção de que merecemos melhor e a nova visão de abundância já ultrapassou a velha.
  • Quer dizer que já podemos sair daquela velha energia com compaixão pelo nosso passado e amor pelo presente.


O nosso trabalho não é julgar as energias que chegam a nós como boas ou más. 
O nosso trabalho é apenas o de sentir a energia que chega e responder-lhe a partir de uma postura de amor próprio. 
A partir dessa postura, saberemos quando aceitar ou rejeitar o que chega a nós.


Vera Luz





sexta-feira, 21 de setembro de 2018

CANALIZAR A TRISTEZA PARA A BELEZA





A tristeza pode ser realmente debilitante às vezes, deixando-nos retraídos, sem vida e sem prazer. Então, como, quando nos sentimos assim, tomamos essa tristeza e a canalizamos para algo muito criativo? Como podemos transcender a tristeza e seguir em frente?
Todos nos sentimos tristes às vezes. Talvez você esteja de luto pela perda de um ente querido, talvez seja por algumas das tragédias que estão acontecendo ao redor do mundo, talvez você se sinta preso e não saiba como avançar. Ou talvez você apenas se sinta triste por nenhuma razão além de ser um dia melancólico.
Em primeiro lugar, vamos explorar o que a tristeza realmente é, porque, quando percebemos o que está verdadeiramente no âmago da nossa tristeza, somos capazes de canalizá-la positivamente.

O QUE É TRISTEZA?
O primeiro que quero enfatizar sobre a tristeza é que é natural. Ela vem para todos nós como parte do processo natural da vida; o fluxo e refluxo que vem com a vida em um mundo governado por princípios dualistas. É impossível conhecer verdadeiramente algo sem conhecer também a falta dele. Pode ser desencadeada por algo ou pode simplesmente passar por cima de nós.
A tristeza é causada pela nossa observação de que as coisas não estão bem; um sentimento de que, de alguma forma, nossa realidade está desalinhada e nem sempre se encontra com a Beleza e o Amor que muitas vezes sentimos. É um jogo de nossas explorações da nossa realidade, mostrando-nos onde podemos estar presos ou ligados a pessoas ou situações.

A VERDADE POR TRÁS DA TRISTEZA
Quando olhamos um pouco mais para a tristeza, vemos que há um sentimento subjacente que rege toda a experiência ... o Amor. O que estamos experimentando é uma perda temporária de conexão com esse Amor, porque perdemos o objeto que o desencadeou dentro de nós.
No entanto, quando olhamos mais profundamente, descobrimos que o Amor ainda está lá e que a nossa tristeza é, na verdade, uma manifestação desse Amor.
Nós nos sentimos tristes porque nos importamos. Nós lamentamos a perda de um ente querido porque essa pessoa era um objeto no qual poderíamos expressar nosso Amor; sentimos tristeza pelos eventos mundiais porque queremos que os outros sintam Amor também. Sentimo-nos tristes quando parece não haver canal para expressarmos nosso Amor, que é a nossa expressão natural e criativa de nossa singularidade.
Então, como podemos usar nossa tristeza para alimentar nossa expressão criativa de nossa singularidade (Amor)?

HONRE A DOR
É muito importante que reconheçamos nossa tristeza pelo que é e saibamos que isso é uma manifestação de nossos sentimentos subjacentes do Amor. Dessa forma, não condenamos, repelimos ou ignoramos. Nós abraçamos isso como parte da nossa Beleza.
Como a tristeza quer se expressar? Dependendo de quem você é, talvez você queira chorar, enrolar-se como uma bola ou olhar para o espaço.

EXPRESSE O AMOR
Uma vez que a dor tenha sido honrada e expressa, você pode canalizar essa energia para a expressão criativa. Talvez você queira tocar alguma música, escrever uma música ou um poema, desenhar uma imagem ou dançar. Você pode querer fazer isso separadamente para ambos os sentimentos de tristeza e Amor, ou você pode querer misturar os dois juntos, o que pode ser muito poderoso.
Encontrar o real através de tudo pode ser extremamente libertador. Você descobre que tristeza e felicidade são realmente dois lados da mesma moeda - o Amor. Assim você permite o que quer que surja, sabendo que quem você é não muda. Então você expressa seus sentimentos para o mundo exterior, deixando que esses sentimentos de Amor, qualquer que seja a forma que eles tomem, se espalhem.
Sua expressão também pode assumir a forma de gestos, especialmente quando sua tristeza envolve outra pessoa. Você pode querer honrar um ente querido fazendo algo por ele, criando algo para lembrá-lo.

OBSERVE PARA A REFLEXÃO
A vida é como um espelho. Conforme nos expressamos no mundo ao nosso redor, obtemos feedback/retorno. Isso pode tomar a forma de reações de outras pessoas - talvez compartilhando a sua tristeza, conectando-se através do Amor ou sendo inspirado por sua criatividade.
Se o Amor se expressar puramente, sem necessidades ou culpa, as pessoas sentirão isso e o refletirão de volta para você.
Você também pode procurar reflexões na natureza. Os animais expressam a beleza muito bem e podemos encontrar reflexos neles, ou mesmo apenas sendo aquecidos pelos raios do Sol.


OS BENEFÍCIOS
Quando levamos esta abordagem simples ao coração, começaremos a ver benefícios surpreendentes:

  1. Sentindo que tudo está bem, se estamos felizes ou tristes. Nós não nos julgamos mais porque sabemos quem realmente somos.
  2. Sentimentos intensificados de estar vivo. Muitas vezes ouvi pessoas que estão passando por momentos difíceis na observação da vida que, apesar de se sentirem carcomidos, também se sentem mais vivas do que nunca.
  3. Maior senso de conexão. Você não apenas conhece a si mesmo melhor, mas também desenvolve conexões mais profundas com aqueles que o cercam.




Richard West




“A tristeza dá profundidade. Felicidade dá elevação.
A tristeza dá raízes. Felicidade dá ramos.
 A felicidade é como uma árvore que vai para o céu, e a tristeza é como as raízes que descem ao útero da terra. Ambas são necessárias, e quanto mais alta a árvore vai, mais fundo ela vai, simultaneamente. Quanto maior a árvore, maiores serão suas raízes. Na verdade, é sempre proporcional. Esse é o seu equilíbrio. ” 
Osho




Volta o Outono






Um enlutado dia cai dos sinos
como teia tremente duma vaga viúva,
é uma cor, um sonho
de cerejas afundadas na terra,
é uma cauda de fumo que chega sem descanso
para mudar a cor da água e dos beijos.

Não sei se me entendem: quando lá do alto
se avizinha a noite, quando o solitário poeta
à janela ouve correr o corcel do Outono
e as folhas do medo calcado estalam nas suas artérias,
há qualquer coisa sobre o céu, como língua de boi
espesso, qualquer coisa na dúvida do céu e da atmosfera

Voltam as coisas ao lugar,
o advogado indispensável, as mãos, o óleo,
as garrafas,
todos os indícios da vida: sobretudo as camas
estão cheias dum líquido sangrento,
as pessoas depositam a confiança em sórdidos ouvidos,
os assassinos descem escadas,
e afinal não é isto, mas o velho galope,
o cavalo do velho Outono que treme e dura.

O cavalo do velho Outono tem a barbada vermelha
e a espuma do medo cobre-lhe as ventas
e o ar que o segue tem forma de oceano
e perfume de vaga podridão enterrada.

Todos os dias desce do céu uma cor de cinza
que as pombas devem repartir pela terra:
a corda que o esquecimento e as lágrimas entretecem,
o tempo adormecido longos anos dentro dos sinos,
tudo,
as velhas roupas traçadas, as mulheres que vêem chegar a neve
as papoilas negras que ninguém pode contemplar sem morrer,
tudo vem cair às mãos que levanto 
no meio da chuva.


Pablo Neruda





quinta-feira, 20 de setembro de 2018

2CELLOS - Cinema Paradiso [OFFICIAL VIDEO]

Farewell dear Mother






Somewhere in my heart,
Beneath all of this pain,
Is a smile I still wear…
At the sound of your name.

The precious word is “MOTHER”
She was my world, you see,
But now my heart is breaking,
She’s no longer here with me.

God chose her for His angel
To watch me from above,
To guide me and advise me
And know that I’m still loved.

The day she had to leave me,
Her life on earth was through,
But God had better plans for her
For this, I surely knew.

When I think of her kind heart
And all those loving years,
Because we’re only human,
They’re bound to bring us tears.

She truly was my best friend,
Someone I could confide in,
She always had a tender touch,
A soft and gentle grin.

I want to thank you Mother
For teaching me so well,
Even though the time has come,
That I must bid you farewell.

I’ll remember all you’ve taught me
To put God above all others…
For I had no better teacher,
Than you…My Dear Mother.

Even though you’ve left this earth
And had to take your flight,
I know that you are here with me,
Each morning, noon and night.


Ruth Ann Mahaffey





FACTO





Tudo se acaba. É mentira.
Há parcelas que se juntam,
se adicionam,
como a ideia e o sentimento,
o tempo
perdido
e o momento de acção
iluminado.

Ninguém se convença
que acaba.
Há o céu que nos espera,
a sua ilusão
remordida até ao paroxismo.
Ou há passado
sem destino.

A dolorosa mensagem
da nossa vida
é estar: caminhar sempre;
atar as vides da vinha
vindimada.

Saber esperar.
Andar, andar,
nem que seja de rastos.


Ruy Cinatti
in, o Tédio Recompensado