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terça-feira, 2 de outubro de 2018

Somos monogâmicos porque somos pobres





As visões sobre sexo do espanhol Manuel Lucas Matheu, de 69 anos, contrariam - e muito - o senso comum. Presidente da Sociedade Espanhola de Intervenção em Sexologia e membro da Academia Internacional de Sexologia Médica, ele argumenta que os seres humanos não são predispostos à monogamia. Se a praticamos, é por um único motivo: somos pobres.

O sexólogo apresenta outras visões marcantes.
Diz, por exemplo, que o verdadeiro órgão sexual dos seres humanos é a pele.

A BBC News Mundo, o serviço espanhol da BBC, entrevistou Matheu, considerado um dos maiores especialistas em sexualidade:

BBC News Mundo - Woody Allen dizia: "Há duas coisas muito importantes na vida, uma é sexo e da outra não me lembro". Sexo é, de fato, tão fundamental?
Manuel Matheu - Sexo é importantíssimo, muito mais importante do que pensa a maioria das pessoas, as instituições e a sociedade em geral. O sexo determina em grande medida a nossa qualidade de vida e é a origem de vários comportamentos.


BBC News Mundo - O senhor, por exemplo, defende que as sociedades mais pacíficas, com menos conflitos, são aquelas que vivem a sexualidade de maneira mais livre, desinibida...
Matheu - Não sou eu quem diz, é um estudo que fiz, em que analisei 66 culturas diferentes, algumas com pesquisa de campo.

Estive, por exemplo, nas Ilhas Carolinas, na Micronésia. E a conclusão desse estudo é que as sociedades mais pacíficas são aquelas onde a moralidade sexual é mais flexível e onde o feminino tem um papel preponderante.

Em contrate, as sociedades reprimidas e nas quais as mulheres têm papel secundário, como as sociedades ocidentalizadas em que vivemos, são mais agressivas.


BBC News Mundo - Para entender do que estamos falando, o senhor poderia nos dar um exemplo de sociedade sem repressão sexual e onde o feminino é muito valorizado?
Matheu - Os chuukies, uma sociedade que estive estudando por quatro meses nas Ilhas Carolinas, na Micronésia. Trata-se de uma sociedade em que todos os bens são herdados através da linha materna. Ou seja, a mãe é quem determina o poder económico.

Ao contrário do que ocorre na sociedade ocidental, em que se dá uma enorme importância ao tamanho do pénis, ali o que importa é o tamanho dos lábios menores da genitália das mulheres. Enquanto no Ocidente a menstruação era considerada algo impuro, lá ela é considera vantajosa e é empregada até para fins medicinais.

Além disso, a mulher é a voz mais forte nas relações sexuais. É ela a responsável pelos encontros sexuais. Os homens se aproximam gatinhando nas cabanas das mulheres, solteiras e casadas, e introduzem nas cabanas pedaços de pau talhados que permite à mulher identificar quem é cada um deles.

Se a mulher quiser ter relações sexuais naquela noite, ela retém na cabana o talo correspondente ao homem que lhe interessou. Isso significa que ele está autorizado a entrar na cabana. É assim todas as noites.

Ali não existe ciúme, nem o conceito tradicional de fidelidade. A moralidade sexual é muito mais flexível que aqui. Ao mesmo tempo, essa é uma sociedade muito pacífica, enquanto a sociedade ocidental é muito agressiva.


BBC News Mundo - Então a monogamia não é algo intrínseco ao ser humano, algo que faz parte da sua natureza?
Matheu - Não, não é. A monogamia não é uma característica do ser humano de forma alguma.

Basta olhar o atlas etnográfico de Murdock, que analisou mais de 800 sociedades e mostrou que 80% delas não são monogâmicas. Elas são poligínicas (um homem com várias parceiras) ou poliândricas (uma mulher com vários parceiros).


BBC News Mundo - E por que o Ocidente adotou a monogamia?
Matheu - As espécies animais que são monogâmicas são aquelas que não têm tempo nem recursos suficientes para poder se dedicar a cortejar.

É o caso das cegonhas, que são monogâmicas porque têm que empregar muita energia todos anos às longas migrações que realizam. E os animais que vivem em locais onde é mais difícil encontrar alimento tendem a ser mais monogâmicos.


BBC News Mundo - Quer dizer que a monogamia está relacionada à economia?
Matheu - Exatamente. Nós somos monogâmicos porque somos pobres. É só observar nossa sociedade para compreender: os ricos não são monogâmicos, na melhor das hipóteses são monogâmicos sequenciais - ao longo da vida têm vários parceiros consecutivamente, um atrás do outro.

Os que não são ricos não podem ser monogâmicos sequenciais, porque se divorciar ou separar causa um enorme dano económico. E a poligamia (ter vários parceiros sexuais ao mesmo tempo) também é muito cara.


BBC News Mundo - Se as sociedades com maior liberdade sexual são mais pacíficas, a nível individual as pessoas agressivas podem agir assim por terem problemas com sexo? É razoável pensar que muitos ditadores são pessoas reprimidas sexualmente?
Matheu - Bem, Hitler, Franco e outros ditadores tinham problemas de autoestima e problemas sexuais importantes.

Acredito que as pessoas que se dedicam a acumular riqueza ou poder de maneira compulsiva sofrem o que chamo de "erótica do poder", compensam a sua falta de satisfação sexual com isso (poder).


BBC News Mundo - Qual a sua opinião sobre o presidente americano Donald Trump, que é protagonista de vários escândalos de natureza sexual?
Matheu - Para mim, Donald Trump parece acima de tudo um desequilibrado mental, mas também aparenta ter problemas sexuais.

Todos os escândalos sexuais que protagonizou, a meu ver, denotam que sua autoestima é baixa. As pessoas de autoestima alta são, em general, pacíficas e tranquilas, não se vendem como galos de briga. É difícil provocá-las. Elas não têm muita variação de humor e sua forma de amar é pouco possessiva.

As pessoas com problema de autoestima podem reagir de maneiras diferentes: fechando-se em si mesas, numa timidez incapacitante, ou fazendo uso de um comportamento grosseiro e desafiante, como é o caso de Trump e de outros políticos.


BBC News Mundo - O orgasmo é superestimado e mitificado?
Matheu - Com certeza. O psicanalista Wilhem Reich dizia que reprimimos a libido não apenas de maneira quantitativa, mas também qualitativa. A sociedade burguesa capitalista, ele dizia, concentrou a sexualidade nos órgãos genitais para que o resto do corpo pudesse focar em produzir para o sistema.

Não sei se é isso mesmo, mas é sim verdade que há muito tempo começamos a concentrar nossa sexualidade nos genitais e nos esquecemos, com o tempo, da pele. Os seres humanos têm a pele mais sensível de todos os mamíferos, mas a aproveitamos muito pouco na nossa cultura.

Hoje em dia, nos acariciamos muito pouco. As famílias se dedicam a acariciar cachorro e gato, mas não se acariciam.


BBC News Mundo - A pele seria o ponto G?
Matheu - Isso, a pele é o verdadeiro ponto G, o grande ponto sexual do ser humano. E, além de tudo, a pele funciona do nascimento à morte. Mesmo que tenhamos uma doença terminal, a pele segue funcionando.

Quando alguém nos abraça de verdade, soltamos uma enorme quantidade de endorfina. É nisso que se baseia grande parte da nossa sexualidade.

O problema é que convertemos a sexualidade numa atividade de ginástica, na qual o homem primeiro tem que ter uma ereção, depois tem que mantê-la a todo custo para não ejacular antes do tempo. Isso acontece porque consideramos que o homem, com seu pénis, é um mago com uma varinha mágica que consegue dar prazer à mulher. E, por fim, a mulher tem que ter um orgasmo.

No entanto, 60% das mulheres da nossa cultura ocidental já simularam um orgasmo em algum momento da vida.

E, quando lhes perguntamos por que fizeram isso, a resposta costuma ser: "para que o outro ficasse satisfeito" ou "porque assim o outro me deixaria em paz".

Tanto os homens quanto as mulheres fizeram da sexualidade um exercício físico e mental, quando a sexualidade é se fundir, sentir um ao outro, sentir-se em baixo da pele do outro, como dizia Frank Sinatra.


BBC News Mundo - Vivemos num mundo em que a pornografia está ao alcance de todos, em que adolescentes crescem vendo pornografia. Que efeito isso tem nas relações sexuais?
Matheu - O problema da pornografia não é mostrar os atos sexuais explícitos. Nesse sentido, me parecem mais perigosos os programas de televisão que fazem pornografia da intimidade, a calúnia, a fofoca, ou alguns filmes violentos.

O problema da pornografia é que é uma pornografia absolutamente "genitalizada", que reforça a ideia de sexo como ginástica.

Eu não acho que a pornografia deva desaparecer, mas sim mudar. Deve deixar de ser aquela pornografia tediosa do mete e tira, para se converter numa pornografia de pele.



Irene Hernández Velasco





sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Intimidade é perder-se na pele do outro sem perder a própria pele.





Eu gosto de me perder na etimologia das palavras, ajuda-me sempre. A palavra “intimidade” tem origem no latim, no adjetivo intimus que significa “no interior, no fundo”. A intimidade envolve o movimento de nos virarmos para o interior, e deixar o outro saber o que vai dentro de nós. Às vezes não é nada fácil! Usamos a palavra em diferentes contextos, por exemplo, dizemos “Foi um concerto intimista”, ou, “Os músicos tocaram numa sala intimista”. O que queremos dizer com isso é que o concerto nos virou para dentro de nós e ativou emoções, que de alguma forma sentimos partilhar com o resto das pessoas ali presentes. Um espaço intimista é uma sala acolhedora, que proporciona proximidade, com pouca luz, que ajuda a sentir.

A intimidade é um conceito complexo que já fez correr muita tinta na Psicologia.
Existem vários modelos teóricos para explicar a intimidade mas, vamos simplificar.
A intimidade é uma condição necessária à sobrevivência humana.
Parece excessivo? Vejamos.
Numerosa investigação tem demonstrado que o contacto íntimo é um poderoso determinante da saúde e do bem-estar do indivíduo e está positivamente relacionada com níveis de amor, confiança e satisfação.

Trata-se de um processo interpessoal - sempre entre duas pessoas – mas as díades íntimas podem ser um par amoroso, pais/filhos, entre amigos, ou até entre desconhecidos. A intimidade implica um processo de comunicação (do latim, communicȃre: pôr em comum) caracterizado pela auto-revelação de aspetos privados, e essa comunicação pode ser verbal ou não-verbal.

Vale a pena distinguir entre interação íntima e intimidade na relação. 
Pode haver uma interação íntima sem ter que existir uma relação, por exemplo, entre duas pessoas que se sentam lado a lado num avião num voo de longa duração, que se revelam uma à outra numa troca empática de conteúdos privados. Talvez esta exposição e auto-revelação súbita sejam mesmo facilitadas pelo facto de saberem que não voltarão a encontrar-se.
A intimidade na relação pressupõe exatamente isso, uma relação, embora haja muitas relações sem intimidade (são relações vazias, áridas, mas que ainda assim se podem manter).

A intimidade nas relações é como o açafrão (o verdadeiro!) num prato oriental, um vintage na garrafeira, ou as melhores cerejas no bolo. E quem não quer provar o verdadeiro açafrão, ter bom vinho na garrafeira e bolos com cerejas? Mas nem sempre se consegue. A intimidade tem uns ingredientes de luxo: expressão, liberdade, confiança, verdade, emoção, alteridade. E isto, nem todos alcançam.
Daí os psicólogos dizerem que é necessário haver uma diferenciação do self, ou seja, a pessoa deve ter o sentido do Eu bem desenvolvido, diferenciado e integrado, para poder partilhá-lo com outras pessoas.

A intimidade implica expressar e partilhar conteúdos pessoais e isto pressupõe sempre um ato de entrega. Uma entrega de algo que é privado, e que habitualmente gera uma ativação emocional. Esse algo podem ser emoções, vulnerabilidades, fracassos, imperfeições, alegrias e prazeres. Esses conteúdos são recebidos pela outra pessoa e de alguma forma são devolvidos na forma de compreensão e validação. E como resultado desta troca, ambos se sentem aceites e validados.
Numa interação íntima, a pessoa revela-se ao outro e expressa a sua verdade. E este ato de se deixar ver, exige uma enorme liberdade. E confiança.

Intimidade é:
  • Ouvir o silêncio com alguém, e gostar
  • Contar ao parceiro como foi o prazer, logo a seguir ao amor
  • Dar um abraço, e ficar no abraço
  • Chorar no colo de alguém sem ter que explicar nada
  • Ler a história ao filho antes de dormir, e trocar comentários sobre o que nos fez sentir
  • Rir com um amigo das próprias misérias
  • Ficar acordado até de madrugada a partilhar memórias conjuntas


A experiência da intimidade implica estar separado e junto ao mesmo tempo. Como diz L’Abate*,
“exige a força para juntar-se ao outro e partilhar as fragilidades, e ao mesmo tempo, estar separado o suficiente para estar disponível para ele, sem exigência de soluções ou perfeições”. 

Esta ideia remete-nos para o título, uma feliz definição de Abraham Passini:

Intimidade é perder-se na pele do outro 
sem perder a própria pele. 

É uma metáfora poderosa que encerra os elementos essenciais do que seria um elevado grau de intimidade numa relação. Um indivíduo, com o seu mundo interno e privado, e com um self diferenciado (“a minha pele”), é capaz de criar a ponte com o outro e compreender a sua verdade, a revelação do seu mundo privado (“a pele do outro”). A intimidade implica participação no outro, tomar parte nos seus conteúdos, partilhar, mas sem se fundir com ele, sem ser absorvido por ele (“sem perder a própria pele”). A intimidade precisa que se mantenha a própria individualidade, implica diferenciação no ato de partilhar. Dar-se ao outro requer uns limites individuais claros, não é um processo de fusão. E muitas vezes é isto que assusta, esta possibilidade de nos perdermos no outro e de perder a própria individualidade. Há pessoas que têm mais dificuldades com a intimidade e resistem a envolver-se numa relação íntima. Pode ser por temerem expor-se ao outro, não quererem revelar-se por sentirem que isso implica uma perda de poder (“se o outro souber tanto de mim, já não vou poder fazer o que eu quero”), ou por falta de confiança. Pode também ser pelo medo do abandono, a preocupação de que se a outra pessoa chegar a conhecer-nos demasiado bem, pode abandonar-nos. Seja por que razão for, o medo da intimidade priva a pessoa de uma experiência vivencial riquíssima e perturba o crescimento afetivo.

A intimidade é um processo vital, onde podemos sentir-nos livres para revelar e partilhar as nossas complexidades e contradições, os nossos prazeres, os nossos medos e esperanças, recebendo em troca a compreensão e aceitação da outra pessoa. E este encontro é magnífico e reparador.


*L’Abate, L. (1999). Increasing intimacy in couples through distance writting and face-to-face approaches. In, J. Carlson & L. Sperry (Eds.), The intimate couple (pp 328-340). Philadelphia: Taylor & Francis.



ANA ALEXANDRA CARVALHEIRA





sexta-feira, 7 de julho de 2017

O adultério é a face oculta do casamento







Na verdade, o adultério é a face oculta do casamento. É o lado negro da lua. Existiu desde que existe o casamento. E, socialmente, desde Roma Antiga, desde leis augustas, a Lei Júlia, passou a ser um crime público. Portanto, é uma realidade privada, escondida e secreta, mas é uma realidade pública desde Roma Antiga, e embora hoje em dia já não se penalize o adultério, é condenada socialmente. Mas a par desse lado, e sobretudo da condenação moral e social quando acontece com figuras públicas, há a dimensão privada, que é fascinante para mim, e que diz muito sobre os instintos, sobre o balanço entre os instintos e as convenções nas relações amorosas.


A primeira entrada é sobre a importância absolutamente crucial para as três religiões abraâmicas um caso de adultério, ou de barriga de aluguer, se se quiser. Que é o caso da relação de Abraão, Sara e Agar, e que dá origem a tudo. Depois na mitologia grega, tens Zeus, que é o maior adúltero de sempre. 


O judaísmo e, particularmente, a sociedade israelita, repudia os bastardos, impedindo-os e à sua descendência de casarem com judeus. Ou seja, impede que sejam cidadãos de Israel. Impedem o fruto do adultério, e isso prende-se com a raiz do judaísmo, que é fundado numa transmissão de sangue, numa linhagem. Portanto, o adultério é tido como uma corrupção da essência.


Se nas sociedades ocidentais e de matriz judaico-cristã a carga punitiva do adultério se perdeu, no mundo islâmico é um dos aspectos que revela maior violência sobre as mulheres, enfrentando estas o apedrejamento, ao passo que aos homens o adultério é perdoado.
Não tens em nenhum caso uma regra.
A poligamia é perfeitamente aceite nas culturas islâmicas. Depende, portanto, de sociedade para sociedade. Se a lei civil acompanha ou não as orientações religiosas… Mas não existe uma regra universal, nem uma regra específica para cada uma das religiões.
Podes encontrar em África duas tribos que distam 20 quilómetros uma da outra, e uma é polígama e outra pratica a monogamia. Não há uma regra e por isso é que acho muito interessante este tema, porque remete as questões do adultério para aquilo que me interessava mais: reflectir quanto da pulsão para a infidelidade é biológica e quanto é que é societal. 
A conclusão a que chego na investigação que fui fazendo para este livro é de que, de facto, a fidelidade é uma pura construção humana. São pouquíssimas as espécies animais que são monogâmicas. Mesmo as monogâmicas dão umas voltas por fora, experimentam outros parceiros… Portanto, a monogamia enquanto fidelidade absoluta é quase um mito. E é tanto nos animais como nos humanos.
O que está na origem deste mito?
A monogamia e a fidelidade são uma construção, antes de mais para a preservação da espécie, para vingar o mais forte, para não haver perda de esperma… Eu conto no livro como, em algumas espécies, os machos, no acto do acasalamento, vedam os orifícios das fêmeas para que não sejam fecundadas num determinado período, para que vingue o seu gene.


Ao olhar para a forma como as religiões e as próprias leis foram lidando com o adultério este parece ser um fenómeno que gera uma espécie de pavor matricial, com o corpo da mulher e a disputa sobre quem sobre ele manda é um dos aspectos nucleares em todas as sociedades políticas. Muitas vezes parece que o grande tema em debate nas sociedades se prende com a forma como se exerce o controlo sobre o corpo da mulher, que é aquele que, dando vida, promete um futuro. E isto vai desde a imagem da mulher até questões que mexem com a sua privacidade e o seu papel na sociedade.
Nas primeiras sociedades, surgiu a par com a questão da posse da terra, a posse do corpo da mulher. A mulher foi empurrada cada vez mais para o interior da casa. Isso é uma forma de controlo, uma forma de poder.
Na civilização judaico-cristã, e particularmente no catolicismo, tens o marianismo, uma concepção muito forte do papel da mulher seguindo o exemplo da Virgem Maria, que concebe o seu filho sem pecado… E o marianismo é também uma forma de controlo ou de orientação quanto à postura da mulher, relativamente ao seu corpo, e que passa pela fidelidade ao marido, fidelidade à religião, e até à Virgem Maria.
A questão do corpo da mulher e da sua posse foi, portanto, central desde sempre. E a emancipação da mulher foi muito lenta. No século XIX, e há um exemplo que dou no livro disto entre nós, de que os maridos podiam facilmente interditar as mulheres e dá-las como loucas, inclusivamente se quisessem trocá-las por outras. Isto vai para além da posse do corpo, e significa uma posse total: da mente, do espírito, da liberdade… O caso a que me refiro no livro é o de Maria Adelaide, que se passa já no início do século XX, e se trata de um caso extraordinário de uma mulher que se apaixonou quando tinha já 48 anos e um filho de 26. Apaixonou-se por um chofer com a idade do filho e foi dada como louca por acção do marido. A perícia foi feita por Júlio de Matos, Egas Moniz e José Sobral Cid, que disseram que ela evidenciava “loucura lúcida”, que era “originariamente tarada”, coisas completamente absurdas se pensarmos sobre elas hoje em dia, mas o que está por trás disto é o pavor quanto à liberdade da mulher poder dispor do seu corpo. Algo que ultrapasse a convenção do casamento, da idade… A condenação do adultério está, desde sempre, ligada à condenação da fruição do corpo por parte da mulher. A história do adultério é uma história do domínio masculino.



A base deste livro é uma investigação, portanto, a primeira perspectiva que se encontra aqui é a da constatação. Ou de confirmação, se havia algumas suspeitas que tinha já relativamente à forma como o adultério foi evoluindo ao longo dos tempos. Fui confirmando essas suspeitas, que tinham a ver com essa noção de que o poder da mulher sobre o seu corpo foi constantemente cerceado. Mas, porque tem um lado privado e secreto, o adultério tem um lado picante, interdito, e só por isso já propicia que, em algumas histórias, uses o humor, a ironia, mais raramente o sarcasmo, esse só em momentos em que há mais uma indignação do que propriamente uma crítica. Mas tal como a imagem da senhora que aparece na capa, que é a [Condessa de] Castiglione, uma cortesã francesa muito conhecida. Gostei muito desta imagem exactamente porque vemos nela uma cortesã a espreitar por uma moldura de uma foto familiar. É a imagem da amante a espreitar pela moldura do convencional da família. 
No fundo, isto é o resumo do livro: mostrar uma realidade que está por detrás das fotografias. Supõe-se que as amantes não figuram nos álbuns de família.
Mas algures estarão na memória.
Há um caso que pus na secção da “Marginália”, um caso que eu conheço, de uma mulher que foi amante de um homem 20 e tal anos e que, quando ele ficou doente, não o pôde visitar no hospital, nem pôde sequer ir depois ao funeral. Isto não obstante ter sido uma pessoa determinante na vida daquele homem durante vinte e tal anos. Há um lado escondido que está sempre à espreita, e há portanto esse outro olhar sobre aquelas vidas.



São casos que conheço, e até as duas histórias que parecem anedotas…
A do voo livre de um caniche num edifício muito alto – e deixamos por isto para não estragar a surpresa –, ou a de uma senhora que se embrulha em papel higiénico e se oferece ao marido no dia a seguir a tê-lo traído pela primeira vez, são histórias reais, tal como a entrevista que fiz a um detective particular… Aquilo que ele diz é real. Muitas dessas histórias parecem ficção, e julgo que isso se prende com esse olhar do que está do outro lado  da fechadura. São as coisas que sabemos que existem mas sobre as quais falamos baixinho, aos segredinhos. O livro tem por isso esse lado picante e, em termos literários, propicia um tipo de escrita muito apetitosa também, que passa por juntar à informação o trabalho para capturar a atenção do leitor, com um fio que une esses pormenores picantes, fait divers, curiosidades. O trabalho do livro foi o de tecer uma espécie de filigrana a partir de um tema que é sério e importante na definição da forma como as sociedades foram evoluindo e como se processam as nossas vidas privadas, e, ao mesmo tempo, permite essa conjugação do que é sério com o que é risível, e o que raia quase o anedótico. De tão escondido que está, mas à mostra. É o chamado gato escondido com o rabo de fora.



Há aquela conhecida frase da Margaret Atwood que ao passo que os homens têm medo que as mulheres se riam deles, as mulheres têm medo que os homens as matem.
O grande receio dos homens é que os filhos que as mulheres dizem ser deles afinal não sejam.
É infrutífero em termos de espécie, em termos da herança genética. É um engano, uma traição… Essa é a verdadeira traição. Existe traição maior do que essa? É capaz de ser a maior que se pode imaginar. Dizer a alguém: este é o teu filho, não o sendo. Fazerem-te criar um filho que não é o teu.
Foi o que determinou que o adultério fosse condenado sobretudo, ou quase em exclusivo, pelo lado da mulher. O homem pode trair, não tão mal visto socialmente por fazê-lo, ao passo que para a mulher é gravíssimo.
Se a relação amorosa e sexual para os homens parece pôr em causa a sua afirmação pessoal e identitária, para as mulheres muitas vezes parece ser uma questão de vida ou de morte.
Um fenómeno curioso que eu abordo no livro é o efeito de Coolidge, que é transversal à maioria dos mamíferos, e que diz que os machos se cansam rapidamente da fêmea. Depois do acto sexual têm um período refractário, em que descansam, e, quanto mais relações sexuais têm com a mesma fêmea, mais longo é esse período refractário, até chegarem ao limite, quando perdem o interesse pela fêmea. E é muito curioso como, no caso das vacas, os cientistas pintaram a fêmea rejeitada, alterando-lhe as manchas, puseram-lhe ainda outro odor, e mesmo assim o macho rejeitou-a. Portanto, existe qualquer coisa biológica que leva a que os homens procurem ter mais parceiras do que as mulheres. As mulheres querem preservar, desde logo querem ser fecundadas, e depois precisam de protecção para a cria. Assim, procuram o macho que as proteja, portanto, procuram a constância, enquanto os machos procuram fecundar o maior número de fêmeas, para que os seus genes vinguem. Se calhar é estranho para os leitores que eu dê estes dados ou que fale assim, muitas vezes trocando macho por homem, mas é exactamente a mesma coisa. A base é biológica, animal. Como disse no início, a fidelidade é uma absoluta convenção.



Depois da investigação que fiz para este livro estou ainda mais convicta de que nós nos condicionamos para amar para sempre. Isso é uma convenção que depois vai sendo gerida pelos homens e pelas mulheres a partir desta base biológica, sendo que os homens não deixam nunca de ter este instinto predador e um desejo de expansão, a tentativa de implantação do gene, e as mulheres têm um instinto de preservação. Mas é muito difícil falar dos homens e das mulheres… O que acho é que as questões ligadas à fidelidade se calhar têm de ser revistas de todo.
Falo nisto no livro: a ideia de que antes se casava e de que se era feliz para sempre. Agora existe a monogamia serial, ou seja: vamos casar seis vezes durante a vida e cada uma delas será para sempre. Isso é irónico, mas é natural. Embora vivamos ainda com um enorme peso moral sobre aquilo que nos é instintivo.



É mais fácil ouvires um homem numa mesa de café vangloriar-se por trair a mulher do que uma mulher vangloriar-se por trair o marido. Persiste esse lugar-comum de que os homens traem mais do que as mulheres, mas depois há uma objecção lógica a essa ideia: os homens traem as mulheres com outras mulheres, e, estatisticamente, nalguns países, como Inglaterra, sabe-se que maioritariamente traem com outras mulheres também casadas. Portanto, tens aí um primeiro tabu. Existe esta convicção de que as mulheres traem muito menos do que os homens, mas qualquer investigação que comeces a fazer sobre o adultério leva-te a concluir que essa é uma noção completamente errada. As mulheres traem tanto como os homens.
O detective João Santos, que eu entrevistei, diz que elas são é muito mais cautelosas. Exibem menos, mas traem tanto como os homens. De qualquer modo, o adultério nunca foi uma causa. Não é uma bandeira feminista. O adultério é uma prática oculta, que, por ser sexual, diz respeito à vida privada de cada um, e que, no século XXI, se espera que não seja regulamentada, pelo menos no mundo civilizado. Depois a forma como é encarado isso relaciona-se com as convicções de cada um, com o livre arbítrio. Não se pode neste tema falar em causas, e não se espera que surja um grupo de mulheres a reivindicar: “Nós também traímos”. Mas, na verdade, hoje em dia, 2017, não será muito difícil fazer a experiência – se uma mulher comunicar às pessoas à sua volta: “Eu traí o meu marido”, e se ao lado tivermos um homem a confessar: “Eu traí a minha mulher”, o peso de censura social é brutal sobre a mulher e não tanto sobre o homem. É uma das marcas da diferença de estatuto em termos do exercício da liberdade sexual.



Por de trás de todas as histórias de adultério há sempre um lado muito triste, porque há uma perda. Quanto mais não seja porque, num casamento, quando trais a outra pessoa, perdeste a imagem que tinhas de ti próprio quando casaste. Nem é o traíres o outro, tu é que já te sentes diferente daquilo que foste.
Procuro dizer isso no livro: tu não vais à procura de outra pessoa mas daquilo que tu és, da outra pessoa em que te tornaste. O tema do adultério é, por isso, muito complexo, porque tem a ver com as motivações muito profundas das pessoas e que as leva a decidir estar com alguém, sexualmente, ocasionalmente ou partilhando uma vida. É um tema profundissimamente complexo. Passando por muitas outras questões, até pelo lado económico. Não há dados a comprová-lo, mas acredito que uma das razões por que se trai muito mais agora é o facto de não haver condições financeiras para as pessoas se divorciarem. Portanto, o adultério que se pensa ser acima de tudo uma questão moral, tem também muito a ver com circunstâncias práticas. Acompanha a evolução da sociedade. A poligamia, por exemplo, é praticada pelos homens que têm capacidade de sustentar um maior número de mulheres, portanto, é uma questão também financeira.



A revolução tecnológica veio facilitar em muito a busca de parceiros fora do casamento. Há uma série de aplicações, como o Tinder e outros, que parecem ter exponenciado essa predisposição para a traição, providenciando condições de secretismo, meios de contacto…Será?
Eu não acredito que se traia mais porque existe o Tinder, ou porque é mais fácil. Sempre se traiu, sempre se continuará a trair. Acho que mudam as circunstâncias, e sobretudo muda o conhecimento sobre a realidade, isso sim. Não sei se haverá uma revolução sobre a realidade. Acho que não. Há uma entrada no livro em que questiono como se traía no século XIX, uma vez que não havia espaços públicos. Aliás, havia o privado e o público, não havia espaços intermédios. E eu pergunto: onde é que as pessoas traíam. A vida doméstica das mulheres era muitíssimo vigiada, em sociedade também. Era uma vida bastante claustrofóbica em termos de cerceamento das liberdades, sobretudo nas classes mais altas… entre os burgueses havia sempre muitos olhos sobre tudo. Então , pergunto onde é que as pessoas traíam. Onde é que tinham relações? Mas tinham, é evidente. Quando vais ao Tinder, uma das coisas que me faz confusão é o modo como vês a sociedade toda a assumir que está à procura de alguém com quem ter relações… Enfim, não sabemos se sexuais, mas algum tipo de relação. Não me parece mal, até me parece bem, passa por assumir algo que é natural: a dinâmica das relações humanas e sexuais. Portanto, está mais à vista, agora, se isso vai ser uma revolução em termos de prática em si… Não acredito. O que essas tecnologias novas proporcionam é o espreitar-se mais facilmente pela fechadura para o quarto dos outros. É o lado voyeurista. Mas o que se passa no quarto dos outros sempre se passou e sempre se há-de passar. 





Filipa Melo




quarta-feira, 5 de julho de 2017

domingo, 25 de junho de 2017

Tantra e 'ShivaShakti'





O Tantra não é apenas sexo 
com super-orgasmos, 
ou sequer 'sexo sagrado'.
Existem correntes interligadas do Tantra 
que são conhecidas como 
Kundalini Tantra, 
Laya Yoga, 
ou Shaiva Siddhanta.



São caminhos de dedicação à União Sagrada com o Supremo Ser - que é o nosso verdadeiro Ser.


Mas mesmo antes do desenvolvimento moderno (e frequentemente superficial) de 'neo-tantra' com a sua visão limitada do 'Sexo Tântrico', houve uma vertente Tântrica na Índia que questionava activamente os tabus da sociedade e trazia o sagrado ao plano da união sexual ritualizada em conjunto com essas práticas de Kundalini Tantra.

Essa via que integra a sexualidade ritualizada (também conhecida como a via da 'esquerda') é considerada as vezes uma via 'perigosa' porque é fácil uma pessoa se perder na intensidade e na sobre-valorização dos prazeres sensuais.

Mas saber trabalhar conscientemente com a energia sexual, pondo-a ao serviço da iluminação e da libertação, faz com que se possa resgatar essa vibração primordial criativa (Shakti*) e 'domá-la' - não através de força masculina controladora, mas preparando o caminho para a integração do poder dela - pelo honrar dela como uma manifestação do Divino em forma da Grande Mãe - a consorte de 'Shiva'** - a Energia Universal que complementa a Consciência Universal.

Assim, em vez de chamar a nossa atenção apenas ao prazer e às zonas erógenas, a energia percorre o canal central (Shushumna nadi) que une Shiva e Shakti internamente.

Então, apesar  do Tantra não se reduzir à união de sexos, quando as bases são compreendidas, tudo em que focamos torna-se sagrado por vermos o próprio Universo como uma Dança Divina - os princípios são aplicáveis a tudo, inclusive para 'sacralizar' o sexo, e torná-lo numa meditação devocional.

O praticante 'falso' vai apenas procurar justificar e explorar os seus impulsos sexuais, compreendendo mal, ou distorcendo a filosofia Tântrica. O praticante sincero vai procurar abranger tudo na sua prática devocional e meditativa, seja o sexo, seja o trabalho, seja o acto de respirar.

Há uma cura interna efectuada pelo Tantra - uma transcendência da dualidade de categorias: 'mundano' e 'sagrado'. É uma cura para com nós próprios - o nosso relacionamento com o corpo, o sensual, a terra, o feminino, a Vida. Isso é uma das consequências do Tantra - uma das características da via Tântrica - mas não é o fim. O fim é a transcendência do 'eu'.
Por isso o Tantra tradicional e o Yoga tradicional são em muitos aspectos idênticos.

Contrário à representação comum da União Tântrica em forma do casal divino em união sexual (em posição Yab-Yum), a imagem aqui é de 'Ardhanarishvara'. Não mostra uma união de dois corpos mas sim um corpo com duas energias - o masculino e o feminino unidas harmoniosamente. Mostra o equilíbrio e fusão entre o masculino e o feminino - que refere à natureza inerente do Divino, e no plano humano refere a um trabalho interno de 'purificação', harmonização, disciplina, devoção ao sagrado, e abertura à Graça.
Refere-se tanto ao equilíbrio dos canais 'ida' e 'pingala', como ao despertar e o conduzir/sublimar da energia vital para atingir a união êxtática de Shakti (residindo na raiz do sistema energético/chakra raiz) e Shiva no ápice transcendental/coroa).

Mas é importante perceber que tradicionalmente esses ensinamentos não eram apenas técnicos e esotéricos - faziam parte de uma abordagem devocional que valorizava a entrega ao Divino com plena 'fé' na sabedoria da Grande Mãe que guiaria o processo através da inteligência inerente na força vital desperta - que era Ela mesmo, na sua forma microcósmica - Kundalini Shakti.


Que o seu caminho, seja qual for a sua forma, seja permeado pela Graça intoxicante do Mistério infinito, que transcende a mente racional.
Que venha a conhecer o Amor Invencível, e que a sua Presença traga Paz.


______________________________________

* Shakti significa 'poder' ou 'energia'.
Shakti é representada/ antropomorfizada em forma da deusa 'Parvati', 'Durga' e 'Kali'.
Não são 'deusas' diferentes.
São o aspecto feminino-dinâmico do Supremo Ser - a forma, matriz, e força motriz de todo o Universo, até manifestando-se no 'indivíduo' através da capacidade de pensar (Manas Shakti), e na capacidade de acção no corpo, e das funções vitais internas, em forma de Prana Shakti.
Os sábios de muitas culturas percebiam o que a física do século XX comprovou - que tudo no Universo é energia. Os Tantricos chamam essa energia Shakti, ou afectivamente 'Shakti Maa' - a grande Mãe.
E viam, o que alguns estão a começar a perceber - que essa energia não está separada nem da Inteligência Criativa macrocósmica, nem da própria mente humana.
A Consciência e a Energia estão numa dança amorosa constante.
A Shakti, nas suas várias formas, é o veículo para a experiência de todo o plano relativo e relacional.
Como tal é as vezes vista num papel parecido com o da Eva - como 'tentadora' - a nos chamar para nos envolver no plano das aparências enganadoras - descrita então como Maya (ilusão).
Quando somos 'enganados' por Maya, identificamo-nos com o corpo e julgamo-nos ser finitos.
Daí vem o medo, o apego, a resistência à mudança.
Daí vem também a busca incessante e frustrante para o poder pessoal, para o prazer efémero, para dar 'sentido' à vida e dar segurança, para compensar pela sensação de desenraizamento da nossa essência infinita.
Muitas tradições religiosas e espirituais desprezam então o elemento feminino e o seu poder de atracção para o mundo sensorial, e para o sensual. Essas tradições tendencialmente vêem o Divino como algo distante no espaço (acima de nós, no 'Céu'), e até distante no tempo (presente quase apenas no momento primordial da Criação).

A visão Tântrica, por outro lado, é que a própria matéria ('mater' = Mãe) é o corpo cósmico, ou vestimenta, que o Divino assumiu.
A tendência das tradições espirituais foi achar que a associação com o corpo e com o mundo vai nos 'sujar' e tornar-nos insensíveis ao plano celestial, levando então aos votos de ascetismo dos que se dedicam à busca pela comunhão Divina.
Mas o Tantra faz a ponte entre o divino 'Celestial'-impessoal-transcendental, e o Divino verdadeiramente omnipresente.

No Tantra, o Divino não está apenas a acompanhar e a interpenetrar o Universo previamente criado, mas sim a manifestar-se como Energia Cósmica, a formar o Universo - a dar à Luz - a cada momento através da Grande Mãe.
E é Ela que, residindo no corpo em forma de Kundalini, e infinitamente sábia e compassiva, guia o grande Despertar, levando à fusão com o Infinito.

**Shiva significa 'o auspicioso'. É um nome que representa as qualidades do Divino.
E sob esse nome o Absoluto é antropomorfizado em forma de um Yogi - e conhecido como o Supremo Guru.
Contrário à ideia que ele é um deus entre muitos num panteão politeísta, muitos devotos no caminho de Yoga e de Tantra consideram Shiva como 'O Supremo Ser' - não um Ser Divino externo, mas a Consciência Original, e idêntica com a consciência Liberta - o nosso próprio Ser.



A simples busca do prazer sensual, apenas satisfaz a nossa consciência local o que acaba por prejudicar a busca pela consciência universal!
No entanto, como evitar o desejo e o prazer?

Na via Tântrica não é preciso evitar o desejo e o prazer.
Eles são utilizados habilmente como veículo para a prática espiritual-meditativa-energética.

Tradicionalmente apenas se pratica Tantra a dois, depois de muitas outras práticas de disciplina ética e bio-energética.
Por isso mesmo que disse que no Tantra o desejo e o prazer são utilizados 'habilmente'.
Se não, pode se acabar por reforçar 'maus hábitos' sim (tanto de desgaste da energia vital como também de 'vampirismo' da energia vital).



Peter Littlejohn Cook





segunda-feira, 19 de junho de 2017

A Volúpia Carnal





A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou à simples sensação com que um belo fruto enche a língua.
É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de todo o saber.
O mal não é que nós a aceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experiência, malbaratando-a, fazendo dela um mero estímulo para os momentos cansados da sua existência.


Rainer Maria Rilke
in, "Cartas a um Jovem Poeta"




domingo, 19 de fevereiro de 2017

O Problema Sexual




O sexo apresenta um problema que não pode ser evitado se alguém deseja usar seu poder de desenvolvimento para o suprahumano; mas a mera satisfação do instinto retarda o desenvolvimento. Certas doutrinas pregam o uso da excitação sexual como um meio de despertar faculdades superiores e poderes extraordinários, mas esses métodos são realmente perigosos e devem ser evitados. O que eles evocam não são as faculdades superiores, mas as forças mórbidas [unhealthy forces] das quais é então quase impossível libertar-se. Este é um dos maiores perigos em que um homem pode se envolver, pois ele se torna escravo desses poderes e corre o risco de um completo desequilíbrio nervoso e mental. Por outro lado, a repressão do instinto sexual é igualmente um perigo.

A psicologia demonstrou que uma paixão violentamente frustrada é abafada ao invés de superada. A conquista só é real quando o adversário é desarmado por uma expressão mais poderosa da força vital. Enquanto existimos em corpos físicos, estamos sujeitos à lei da natureza da dualização, pela qual a afinidade é criada entre opostos complementares que estão separados. Esta dualização, que é o fundamento da Natureza e seu mal básico, é também o fundamento da experiência terrestre, cujo objeto é transcender a Natureza e retornar à união com o Um. É também o fundamento do nosso cultivo da consciência, uma vez que nos dá a possibilidade de escolha entre qualidades opostas, entre o real e o relativo, entre o que é bom ou mau para nós no momento. Esta dualização, sendo a causa da afinidade entre opostos complementares, é a causa da sexualidade e do desejo que os homens chamam de amor. O erro é confundir amor, desejo e necessidade. Necessidade é um apetite, e só diz respeito ao corpo físico. As necessidades são, portanto, da natureza animal, o resultado de funções fisiológicas estimuladas no ponto apropriado do ciclo natural. Desejo, quando despertado pela necessidade ou instinto, é um impulso puramente animal. Mas, independente dos impulsos animais, o desejo pode existir no homem como uma afinidade por qualidades ou estados de ser de um tipo mais sutil. Em regra, no entanto, não somos conscientes de sua causa mais profunda, e assim pervertemos o caráter de tal desejo, confundindo-o com meros anseios, ou mesmo necessidades, e usando-o como uma desculpa para gratificá-los, e assim a idéia do amor é vulgarizada.

Ainda assim, a ideia de amor, embora aplicada ao desejo sexual, é um símbolo do Amor absoluto que não tem um único objeto e que é o fruto da consciência da solidariedade mútua.
A seleção sexual por afinidade é uma manifestação presente desse amor cósmico. O perigo consiste em confundir as origens das várias emoções do amor, físicas, sentimentais, “ideais” ou até mesmo supostamente espirituais, pois elas geralmente têm uma base sexual, consciente ou inconsciente. Pois a relação do sexo com o cérebro e o fígado é esquecida ou desconhecida. Estes três fatores, a grande tríade da Personalidade, afetam-se tão intimamente que muitas vezes é difícil distinguir qual deles é responsável por uma súbita agitação de paixão, desejo, ou pensamento. Se um deles está sobreexcitado ou em inatividade temporária, os outros dois são afetados, e produzem sentimentos que o homem, ignorando a interação, leva a sério, sem suspeitar de sua origem fisiológica. Além das agitações sexuais produzidas pelos ciclos da natureza e da vida humana, cada indivíduo é influenciado por seus próprios instintos particulares, que o fazem reagir sexualmente a determinadas ações ou circunstâncias. Essas características instintivas são registradas no fígado, mas produzem reações nas glândulas sexuais e no cérebro, e esses dois [as glândulas sexuais e o cérebro], estando sempre em aliança, oferecem um ao outro desculpas para explicar e satisfazer os anseios resultantes. O homem não desperto [unawakened man] é ultrapassado por esses impulsos e torna-se facilmente seu escravo, gastando sua energia neles mas não se iluminando. Mas aquele que deseja escapar de sua natureza animal tentará sinceramente descobrir seus instintos e observar seu funcionamento. Ele naturalmente perderá o efeito excitante de ser tomado de surpresa, mas ganhará em troca a oportunidade de usar seus instintos conscientemente para aumentar seu “fogo vital”, em vez de prostituir a ideia de amor confundindo-a com a satisfação de um instinto.

A energia sexual tem a mesma origem que o fogo sutil que dá vida. É para o homem usá-la sabiamente ou então gastá-la irrefletidamente. Aquele cujo objetivo é a satisfação se recusará a aprender o controle, preferindo estar à mercê das surpresas e receber seu prazer sem esforço. Mas o homem que tem em si, mesmo inconscientemente, um sentido do verdadeiro Amor, ficará envergonhado da sexualidade animal, exceto ao serviço de perpetuação da espécie. Isto vem de seu senso moral, a voz da consciência, que é o nosso juiz. Então surge o problema, o que fazer com o fogo vital? Deve-se sufocá-lo, ou pode ele ser usado para nos elevar a uma vida superior?

Negar ou sufocar a excitação sexual é um ato de supressão ditado pela vontade, e resulta com demasiada frequência em reorientação da energia para imaginações intelectuais ou sentimentais, com problemas psicológicos como consequência frequente. Alternativamente, a supressão contínua pode levar à flacidez, que é o caminho da morte e não da vida; Pois impotência não é o mesmo que mestria! A verdadeira mestria, sem consequências infelizes, só é alcançada quando uma alegria inferior é substituída por uma superior.

Se a escravidão ao prazer sensual é uma escravidão animal, por outro lado o desejo consciente é do reino humano; De fato, ele [desejo consciente] é a chave da vida e da libertação, uma vez que ele for esclarecido, ou seja, despojado de desculpas artificiais. Esse desejo, que é a chave da vida, procura aumentar o fogo vital, e pode ser agitado ou exaltado pela excitação sexual ou pela Vontade para a Luz [Will to the Light].

A excitação sexual torna o desejo hipócrita se ela tiver de se desculpar com esteticismo, sentimentalismo, e imaginações eróticas intelectuais. Pois todas as formas de erotismo são basicamente a busca por choque emocional. E a causa desse choque emocional é um ato que repentinamente altera o equilíbrio de nossos sentimentos; ele viola nosso padrão normal de sentimentos sobre moralidade, ou sobre amor e amizade, sobre reputação ou segurança.

Independente se o choque é dado pela dor ou alegria ou angústia, é sempre uma perda de equilíbrio que perturba a nossa inércia natural. O choque é desejado para o bem da excitação; E se o objetivo da excitação é satisfação sexual, nada será ganho a não ser o único prazer sensual. Um ser mais consciente, que procura uma alegria maior, desejará o choque para fortalecer seu fogo interior. Em qualquer caso, portanto, desejar um choque emocional é desejar uma perda de equilíbrio. Qualquer excesso pode fazer isso, mas o excesso erótico faz isso para aumentar o calor do sentimento sexual.

As perversões eróticas são sempre uma compensação pela tirania do Ego. Masoquismo é autoritarismo invertido, e o chafurdar na degradação é a inversão, ou mortificação, do esteticismo sensual.

Se o objetivo deles for apenas prazer e satisfação animal, os impulsos eróticos podem degradar; Mas igualmente, se a intenção é o oposto, eles podem servir como outros choques emocionais para aumentar a consciência e a vida.
A diferença reside no objetivo e no modo de aplicação.
Um homem que arrisca sua vida por uma causa impessoal pode encontrar uma exaltação no medo do perigo por causa da alegria de sacrificar sua segurança puramente egoísta. Se você pode escolher à vontade entregar deliberadamente a sua natureza animal, sem dar desculpas para ela, ou então controlá-la e encontrar no fazê-lo a exaltação do sacrifício, então você encontrou uma das chaves da vida, a chave para a transmutação do fogo vital.
A alegria de superar-se transforma o desejo por um prazer fugitivo em desejo por alegria infinita [infinite joy]. Isso não pode ser repetido com muita frequência.



In, A Abertura do Caminho 
ISHA SCHWALLER DE LUBICZ




sábado, 20 de agosto de 2016

..............................living spirit of Tantra




"... Keep squeezing drops of the Sun
From your prayers and work and music
And from your companions' beautiful laughter

And from the most insignificant movements
Of your own holy body.
Learn to recognize the counterfeit coins
That may buy you just a moment of pleasure,
But then drag you for days
Like a broken man
Behind a farting camel.
You are with the Friend now.
Learn what actions of yours delight Him,
What actions of yours bring freedom
And Love."

Hafiz

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Mulheres, Acordem!




Nós vimos a parte dos homens AQUI, e a parte das mulheres?

As mulheres estão muito viciadas ou programadas pela sociedade para reclamar. 
Porque isso é muito nítido: se o homem é legal e amoroso, as mulheres ficam cheias de dedos e dúvidas. Se o cara é rejeitador, insensível, sacana e não dá nada, as mulheres correm desesperadamente querendo, querendo, pedindo… a carência do pai na infância determina um desespero tão grande que elas ficam enlouquecidas por qualquer homem. Às vezes, tem caras débeis mentais, entende? Se são insensíveis, as mulheres se atiram feito loucas. Parece que a exigência que elas têm é zero. Então o homem super se acomoda.

Os homens são desleixados porque as mulheres os aceitam de qualquer jeito.
E não é por falta de homem, é por carência. As mulheres sempre fogem do atrito com o homem, o atrito de frente, levando as questões. Porque quando tem um atrito depois, elas sempre cedem, ela sempre acabam caindo no seus desesperos. E isso faz com que fique uma energia de relação de pai e filha. E é óbvio que nessa relação de pai e filha a sexualidade rola muito pelo lado da posse, da passionalidade, onde a consciência vai totalmente fora.

As mulheres também sabotam a sexualidade quando não têm seu poder, sua decisão.
É muito difícil uma mulher dizer um não para um homem. Os homens enrolam pra caralho e as mulheres aceitam. Os homens sempre têm desculpas e mais desculpas e as mulheres aceitam. Aceitam para manter o seu parceiro. Parecem empregadas. É como as pessoas fazem com seus empregos: elas dão até o rabo para manter essa porra de emprego, para daí a 35 anos depois se aposentar, depois de perder 35 anos de vida. Aí tu vai curtir a vida. Que bobagem!

Corporalmente, as mulheres também perdem a tonacidade e a força do corpo.
É muito raro que mulheres gostem de esportes, de movimentos. O corpo fica destonificado e uma pessoa com o corpo destonificado é mais fraca em nível de poder. As mulheres não entendem que a capacidade sexual delas é muito maior do que do homem.

A mulher pode ter muito mais orgasmos que o homem. 
E a mulher, quando goza, que não é orgasmo, que tem também sua ejaculação, não perde tanta energia como o homem. A mulher sim é que poderia ter cinco, seis homens e dizer: venha o próximo, venha o próximo! Pela sua constituição, ela tem maior capacidade sexual, mas as mulheres jamais assumem isso. Imagina se você começa a assumir que tem mais capacidade sexual que o homem? Aí você tem uma responsabilidade. Normalmente, as mulheres jogam a responsabilidade para os homens na relação sexual e ficam passivas, quando elas devem ser muito mais ativas que eles. Só que, aí, esse é o padrão da sociedade porque lá no fundo, se você tiver muito prazer e muitos orgasmos, vai ter a vozinha da sua mãe e do seu pai dizendo que você é uma puta – e você vai fazer qualquer coisa para sabotar.

Vocês, mulheres, têm que trabalhar a relação com os pais profundamente mesmo, cavocar lá na fonte. Você vai descobrir tanta coisa, fazer tanta relação, que você vai se surpreender. O conceito da sociedade é estúpido. Os homens usam as mulheres, mas elas não podem usar os homens, não? Este é o passo para as mulheres.

Existe uma coisa que cada uma das mulheres deveria pensar a respeito: deus criou a terra, os animais, o planeta todo, depois criou o homem e, depois do homem, no último momento, ele criou a mulher. A ideologia cristã distorce totalmente isso porque a última criação é a mais preciosa, a mais evoluída. A simbologia real é que a partir do homem, deus fez a mulher e isso significa que a mulher é um refinamento do homem, é uma evolução do homem, está acima dele. Isto é completamente equivocado, senão, os animais seriam mais importantes que o homem, as florestas seriam mais importantes que o homem… vê como é a distorção da coisa. Aí, para o homem não ficar sozinho, deus fez a costela e tirou a mulher só para ser sua companhia. Isso é uma distorção idiota, machista. Parece uma historinha boba, mas no inconsciente está ela: a mulher como apêndice do homem. É como muitas mulheres se veem: como apêndice do homem. Costumo chamar de chaveirinho do homem, só que não: a mulher está acima do homem, é uma evolução do homem.

Até quando está para se iluminar, uma pessoa fica mais feminina. O homem, quando está mais evoluído, fica mais feminino. E eu falei feminino, mais suave, quem sabe.

Mulheres, comecem a pensar em discutir a respeito da sua capacidade, do seu poder e da sua força.
É um convite, venha para a Maratona “Melhore sua Sexualidade”, que está chegando aí.
Vale muito, muito à pena e eu queria deixar um filme recomendado para as mulheres: A Fonte das Mulheres. Acho que isso é muito interessante.



Milan



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Homens, acordem!




Eu acho que é hora dos homens acordarem. Os homens se satisfazem pela falsa posição que a sociedade machista lhes dá. Tudo dentro da sociedade funciona como se os homens fossem mais fortes, mais poderosos, mais capazes, porque nossa sociedade, quer você queira ou não, sempre foi dominada pelos homens. Começou no tempo das cavernas, porque os homens tinham mais força que as mulheres, e se estende até os dias de hoje. Ou seja, nossa sociedade sempre foi voltada para o homem.

A mulher está em segundo plano há dois mil anos. Dois mil não, três, quatro, cinco mil anos…
Nem sei a data exata de quando isso começou. Atualmente as mulheres vêm conquistando pequenas coisas, mas, mesmo nos dias de hoje, os homens tem mais dinheiro, são os que possuem os carros, as casas, não precisam fazer trabalho doméstico. As mulheres são quem normalmente trabalha em casa, tem dupla jornada, porque tem que ir para casa para cuidar dos filhos e de todas as outras coisas. Por isso, o homem tem a sensação de estar por cima, daí ele se contenta com isso e se satisfaz pelo fato da mulher ser mais dependente. Só que é uma satisfação pobre, pequena, porque quando ele tem pela frente uma mulher de verdade, ele vira um bebê retardado, carente, morrendo de medo de ser rejeitado. Essa posição do homem cria um certo comodismo, quase como se fosse funcionário público. Faça o que fizer, nunca vai ser demitido. Mas também nunca é valorizado. O homem se acomoda e vive dessas migalhas, de uma pseudo dominação sobre a mulher. Agora, o prazer real não tem.

Na hora do sexo, os homens pipoqueiam muito mais que as mulheres porque aguentam transar muito menos que as mulheres. Os homens são muito fracos e ficaram fracos pelo comodismo. Estão perdendo a sua masculinidade, sua virilidade, sua força real. Aí na hora de transar só conseguem força através de fantasias e normalmente fantasias de violência, de raiva. Já a satisfação, não tem. Riso, não tem. O cara cria uma tensão porque a ereção masculina acontece devido a uma tensão corporal. Essa tensão cresce em todo o corpo quando estamos transando e cria uma excitação que vai lá em cima. Quando o homem ejacula, essa tensão cai abruptamente e dá uma sensação de relaxamento, mas não é um relaxamento real, é uma queda. Se você já levou um choque elétrico sabe que ele te dá uma fricção e depois cai lá embaixo. Você se sente muito relaxado, mas na real, não produziu nada para o teu corpo, nenhuma alegria, nenhum prazer, se dá num nível apenas corporal, a tensão aumenta e diminui.

Os homens estão perdendo sua capacidade de transar. Cada vez é preciso mais sexy shops, cremes estimulantes, porque a energia vital está estagnada. Igual à água parada. Já sentiu a diferença entre tomar um banho de piscina e um banho de lago natural? Tem gente que prefere a piscina, cheia de cloro, mas aí já é caso perdido, caso para manicómio, porque a pessoa está totalmente contra a natureza. A sexualidade do homem está ficando assim, sem aquele prazer real. Não diz que você não sabe. Se você já amou uma vez e transou com uma pessoa que ama, naquele momento que chamam de paixão, você experimentou um sexo numa qualidade muito maior, num prazer muito maior. Então não se faz de tapado e finge que você não entende. Você não quer lembrar desses ricos momentos que teve na vida porque se você lembrar vai ver a merda que está a sua sexualidade. Mas você tem que lembrar para querer resgatar essa capacidade sexual que é sua. Você nasceu com isso e foi expropriado por esse sistema machista escroto. Mas isso é muito fácil de ver nessa sociedade. Os homens velhos vão procurar gurias novas. Eu chamo isso de vampirismo. Vampiro é aquele que suga e essas mulheres mais novas tem uma carência absurda de pai, projetam o pai no homem. Aí é um abraço. Mas qual é o resultado disso? Eu só vejo acabar em infelicidade. Dá uma pseudo satisfação de criança para a mulher, conquistou papai, mas depois isso não preenche mais nada. E os homens se acomodam nisso.

A primeira coisa que o homem tem que perceber é que a ejaculação é o fim, o que rouba toda a energia. A ejaculação só acontece no momento que você começa a ter prazer, no iniciozinho do prazer, aí nem teu corpo físico aguenta e nem seu emocional aguenta. Daí você ejacula. Se você estender mais esse ponto para uns 20, 30 minutos, você não imagina o que acontece. Aliás, você imagina sim. Alguma vez que você esteve apaixonado você experimentou isso. E você viu a qualidade. Você fica mais sensível, mais entregue, mais amoroso, mas aí teu comprometimento com a sociedade e com seu passado de insegurança com a sua mãe e o fato de não ter no pai uma referência masculina faz com que você deixe aquilo que há de melhor na vida para se sentir seguro numa posição medíocre. Quem colocou você nessa posição foram teus antepassados, numa situação ainda bem braba. Para não dizer troglodita. O resultado é que você não é feliz. Você é neurótico. Assim como o prazer daquele cara que mora na favela e ao passar na rua e vê um mendigo diz: “Bah, graças a deus que eu não estou nessa posição”. Ou como o pequeno burguês, todo fudido, mas ao ver a classe média mais baixa sente que está acima. Esse é o prazer que você tem. O seu prazer sexual se dá na quantidade de gritos que a mulher dá. No barulho que ela faz. Se ela for uma escola de samba, você se sente o cara, mas isso é no seu cérebro. Por isso que os homens adoram prostitutas, porque elas sabem que o cara vai se achar. Não sentem porra nenhuma, fazem apenas o teatro delas para ganhar sua grana. Os homens gostam muito de puteiros por isso. Ali o seu dinheiro compra a masculinidade (melhor, fantasia de masculinidade). Você não sabe o que as putas falam depois dos seus clientes. Elas dão risadas dos trouxas: “Bah, ele vem toda semana porque eu grito e berro. O cara se acha e eu saio com quinhentão dele”. Outros, mas, muitos, muitos outros desistiram da sexualidade. Ou adoram mulheres carentes e dependentes que se grudam. Aliás, normalmente uma ciumenta é prato cheio, “como ela me adora!” O ciúme é um sintoma de infelicidade, frustração enorme e de distorção do amor.

Parte de nós, homens, queremos retomar nossa real masculinidade. Para isso você tem que mexer seu rabo. Vai ter que resgatar teu corpo, limpar seu emocional. Ou você acredita que é uma pílula? Certa vez fiz uma pesquisa em sete farmácias em São Paulo. Estava esperando uma história e caminhando pela Avenida Paulista. Comecei a entrar em todas as farmácias e pedir aos farmacêuticos informações sobre o viagra. Eles falaram que separam as caixas que vêm com quatro comprimidos para vender unitário, pois os maiores consumidores são os jovens, que eles dizem tomar apenas meio comprimido “para garantir”. Isto é uma piada! Mas é óbvio que nenhum homem vai admitir para uma mulher que tomou viagra, nem que foi só um pouquinho. O pau fica igual aos de sexy shops, e os homens não sentem nada. Só a cabeça que sente. O resultado é um vazio imenso, porque homem que é feliz quer trocar. Um homem capaz, potente, quer uma mulher que esteja a sua altura, emocionalmente, intelectualmente, para ser uma luta amorosa bonita, porque assim essa mulher vai te levar as alturas. E se você permitir, toda mulher pode te levar para o céu, não é Jesus.

O homem forte não é insensível. Insensível é poste. Lembra do Che Guevara, “hay que endurecer sem perder a ternura jamais”. Toda pessoa mais aberta é isso. Só que os homens ensinaram para os seus filhos que ser sensível é coisa de maricón. E ficou caracterizado que a pessoa mais sensível é isso, que o homem é escroto, estúpido. Meu, acorda! Isso não tem nada a ver. Como você pode viver amor sem estar sensível? Ou você acha que os romanos com suas orgias tinham prazer? Eu até te recomendo um seriado que achei muito incrível: Spartacus. Esse cara não foi apenas aquele gladiador, ele foi um cara que se tornou sensível e que organizou a maior rebelião de escravos que já existiu no mundo. Ali você vai ver muito bem a feiura e a loucura das orgias dos romanos. Hoje em dia nossa loucura é mais disfarçada, mais polida, aparentemente educada. Muitos se tornam sexualmente fantasiosos e os que não querem ser assim ficam amorfos, frouxos. Agora, se você não quer mexer teu rabo, você está perdendo o melhor da vida. Afirmo novamente, o melhor da vida!

O sexo vai te levar a um amor muito mais profundo do que esse amor superficial e pegajoso. Mas para início de conversa você tem que resgatar sua capacidade sexual. Eu não estou falando porque li em livros. Eu sou o homem que sou por causa de uma mulher. Ela que me levou a descobrir toda a minha sexualidade e um mundo diferente. Na real, ela resgatou o homem dentro de mim. Mas não era uma mulherzinha de merda carente, dependente, querendo ter um homenzinho do lado a qualquer preço, qualquer custo. Ela é vinho de outra pipa e eu sou muito grato. Olha, quando eu a conheci, eu já transava bastante, mas conheci com ela o verdadeiro elixir do sexo. O verdadeiro caminho para o coração. Conheci explosões que são muito raro se conhecer. Mas eu tive humildade para me render, me entregar, não em submissão, mas com minha força e minha consciência. Tive que meditar pra caralho, tive que fazer muita bioenergética para poder estar à altura de uma parceira dessas. Assusta e dá medo, mas eu prefiro isso a segunda, terceira e quarta divisão. Agora, se você quer esperar de braços cruzados, vai ter que esperar por mamãe, pois é fácil projetar em várias. Não é pulando agora para outro texto no computador que você vai virar homem, isso eu tenho certeza. Eu posso te oferecer o que eu conheço, muita meditação. Por isso que eu sou do Osho, porque o cara ensina a gente a virar homem de verdade. Ele te instiga, provoca. As meditações são construídas para você resgatar sua humanidade.

Você nunca vai poder dizer que não consegue transar todo dia, quando você estava apaixonado você fazia isso. Você tem que resgatar esse presente que o amor traz. O amor te mostra como você é na real. Mas o amor sozinho só pode te mostrar… Você tem que trabalhar para resgatar a base do teu corpo, do teu emocional. Essa é a parte de nós, homens. Nos preparar como homens. Que aí as mulheres vão poder crescer. Não significa que vá acabar os conflitos. Não! Vão ter muito mais conflitos, mas muito mais vida. Muito mais atritos, muito mais. Tudo que é vivo tem mais atrito, tem mais possibilidades. Alguma vez você foi num cemitério e ouviu discussão entre os mortos? Ouviu brigas? Ouviu algum morto passando e dizendo para uma mulher: “sua gostosa”? Ali que tem conforto. O conforto eterno. A vida não tem conforto, brother. A vida é excitação, explosão, alegria. Isso você tem que buscar. Caminhos têm, eu já te falei do Osho, da bioenergética. Vocês vão conseguir transar todo dia ou quase todo dia. Não vamos rir de piadas. Teremos um riso já dentro de nós como expressão do nosso espírito. Outra coisa para você fazer urgentemente lá pelo fim de agosto. Uma maratona chamada Melhore sua Sexualidade. Vai pipocar?



Milan


quarta-feira, 20 de julho de 2016

"Ter vários parceiros será visto como natural"



Aqui deixo mais um texto sobre Poliamor.

É apenas uma forma diferente de ver os relacionamentos. 
Uma reflexão sobre um modo diferente de viver a vida. 
Com algumas reservas da minha parte...
Na minha opinião, para ter um Relacionamento Livre, não tem de ser um Relacionamento Aberto.
A não ser que tenham necessidade de se relacionarem sexualmente com várias pessoas e estabelecer um compromisso com todas elas...caso contrário, mais vale ficarem solteiros e terem "amigos coloridos"...

Já me cruzei com muitos casais, casados de papel passado, a viver assim.
São mais do que as pessoas julgam...
Muitos deles, as pessoas nem desconfiam...



“Ninguém deveria se preocupar 
se o parceiro transa com outra pessoa”, 
diz psicanalista



Você sente calafrios só de pensar que não tem domínio sobre a vida sexual do seu parceiro ou parceira? Segundo a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, acreditar que é possível controlar o desejo de alguém é apenas uma das mentiras do amor romântico.

"É comum alimentar a fantasia de que só controlando o outro há a garantia de não ser abandonado", afirma ela, que lançou recentemente  "O Livro do amor" (Ed. Best Seller).
Dividida em dois volumes ("Da Pré-História à Renascença" e "Do Iluminismo à Atualidade"), a obra traz a trajetória do amor e do sexo no Ocidente da Pré-História ao século 21 e exigiu cinco anos de pesquisas.

Regina, que é consultora do programa "Amor & Sexo", apresentado por Fernanda Lima na Rede Globo, acredita que, na segunda metade deste século, muita coisa ainda vai mudar:
"Ter vários parceiros será visto como natural. Penso que não haverá modelos para as pessoas se enquadrarem", diz ela.


Leiam a entrevista concedida pela psicanalista ao UOL Comportamento:

UOL Comportamento: Na sua pesquisa para escrever "O Livro do Amor", o que você encontrou de mais bonito e de mais feio sobre o amor?
Regina Navarro Lins: Embora "O Livro do Amor" não trate do amor pela humanidade, e sim do amor que pode existir entre um homem e uma mulher, ou entre dois homens ou duas mulheres, a primeira manifestação de amor humano é muito interessante. Ela ocorreu há aproximadamente 50 mil anos, quando passaram a enterrar os mortos –coisa que não ocorria até então– e a ornamentar os túmulos com flores.
O que encontrei de mais feio no amor foi a opressão da mulher e a repressão da sexualidade.


UOL Comportamento: Como você imagina a humanidade na segunda metade deste século?
Regina: Os modelos tradicionais de amor e sexo não estão dando mais respostas satisfatórias e isso abre um espaço para cada um escolher sua forma de viver. Quem quiser ficar 40 anos com uma única pessoa, fazendo sexo só com ela, tudo bem. Mas ter vários parceiros também será visto como natural. Penso que não haverá modelos para as pessoas se enquadrarem. Na segunda metade do século 21, provavelmente, as pessoas viverão o amor e o sexo bem melhor do que vivem hoje.


UOL Comportamento: Você fala sobre as mentiras do amor romântico. Quais são elas?
Regina: O amor é uma construção social; em cada época se apresenta de uma forma. O amor romântico, que só entrou no casamento a partir do século 20, e pelo qual a maioria de homens e mulheres do Ocidente tanto anseia, não é construído na relação com a pessoa real, que está ao lado, e sim com a que se inventa de acordo com as próprias necessidades.Esse tipo de amor é calcado na idealização do outro e prega a fusão total entre os amantes, com a ideia de que os dois se transformarão num só. Contém a ideia de que os amados se completam, nada mais lhes faltando; que o amado é a única fonte de interesse do outro (é por isso que muitos abandonam os amigos quando começam a namorar); que cada um terá todas as suas necessidades satisfeitas pelo amado, que não é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo, que quem ama não sente desejo sexual por mais ninguém. A questão é que ele não se sustenta na convivência cotidiana, porque você é obrigado a enxergar o outro com aspectos que lhe desagradam. Não dá mais para manter a idealização. Aí surge o desencanto, o ressentimento e a mágoa.


UOL Comportamento:  Por que você diz que o amor romântico está dando sinais de sair de cena?
Regina: A busca da individualidade caracteriza a época em que vivemos; nunca homens e mulheres se aventuraram com tanta coragem em busca de novas descobertas, só que, desta vez, para dentro de si mesmos. Cada um quer saber quais são suas possibilidades, desenvolver seu potencial.
O amor romântico propõe o oposto disso, pois prega a fusão de duas pessoas. Ele então começa a deixar de ser atraente. Ao sair de cena está levando sua principal característica: a exigência de exclusividade. Sem a ideia de encontrar alguém que te complete, abre-se um espaço para outros tipos de relacionamento, com a possibilidade de amar mais de uma pessoa de cada vez.


UOL Comportamento: E como fica o casamento?
Regina: É provável que o modelo de casamento que conhecemos seja radicalmente modificado. A cobrança de exclusividade sexual deve deixar de existir. Acredito que, daqui a algumas décadas, menos pessoas estarão dispostas a se fechar numa relação a dois e se tornará comum ter relações estáveis com várias pessoas ao mesmo tempo, escolhendo-as pelas afinidades. A ideia de que um parceiro único deva satisfazer todos os aspectos da vida pode vir a se tornar coisa do passado.


UOL Comportamento: Só de pensar na possibilidade de ter um relacionamento em que a monogamia não é uma regra, muitos casais têm calafrios. Por que?
Regina: Reprimir os verdadeiros desejos não significa eliminá-los. W.Reich [psicanalista austríaco] afirma que todos deveriam saber que o desejo sexual por outras pessoas constitui parte natural da pulsão sexual.
Pesquisando o que estudiosos do tema pensam sobre as motivações que levam a uma relação extraconjugal na nossa cultura, fiquei bastante surpresa. As mais diversas justificativas apontam sempre para problemas emocionais, insatisfação ou infelicidade na vida a dois. Não li em quase nenhum lugar o que me parece mais óbvio: embora haja insatisfação na maioria dos casamentos, as relações extraconjugais ocorrem principalmente porque as pessoas gostam de variar. As pessoas podem ter relações extraconjugais e, mesmo assim, ter um casamento satisfatório do ponto de vista afetivo e sexual.
A exclusividade sexual é a grande preocupação de homens e mulheres. Mas ninguém deveria se preocupar se o parceiro transa com outra pessoa.
Homens e mulheres só deveriam se preocupar em responder a duas perguntas:
Sinto-me amado(a)? Sinto-me desejado(a)?
Se a resposta for “sim” para as duas, o que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito. Sem dúvida as pessoas viveriam bem mais satisfeitas.


UOL Comportamento: Como as pessoas poderiam viver melhor no amor e no sexo?
Regina: Para haver chance de se viver a dois sem tantas limitações, homens e mulheres precisam efetuar grandes mudanças na maneira de pensar e de viver. Acredito que para uma relação a dois valer a pena, alguns fatores são primordiais: total respeito ao outro e ao seu jeito de ser, suas ideias e suas escolhas; nenhuma possessividade ou manifestação de ciúme que possa limitar a vida do parceiro; poder ter amigos e programas em separado; nenhum controle da vida sexual do parceiro, mesmo porque é um assunto que só diz respeito à própria pessoa.
Poucos concordam com essas ideias, pois é comum se alimentar a fantasia de que só controlando o outro há a garantia de não ser abandonado.
A questão é que não é tão simples.
Para viver bem é preciso ter coragem.




Vladimir Maluf