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quarta-feira, 15 de abril de 2020

Traços De Carácter




Segundo a ciência, 
o nosso corpo guarda a explicação 
do funcionamento da nossa mente. 
A nossa constituição física, 
e suas características externas, 
explicam o funcionamento da nossa mente.


Em 1933, Wilhelm Reich publicou pela primeira vez os resultados de seus trabalhos e pesquisas dentro da psicanálise, no livro denominado “Análise do Caráter”.
Os conceitos desenvolvidos por Reich serviram de base para a análise bioenergética – uma técnica que utiliza a experiência ao nível físico e através da qual se pode mostrar como a dinâmica da estrutura corporal revela a mesma estrutura de caráter.
Os padrões de postura e atitudes corporais revelam quem a pessoa é: 
Estes traços são previamente esculpidos pelo sistema nervoso, e correspondem a imagens, de quem a pessoa é; e de como o seu corpo se parece. Portanto, aquilo que o indivíduo acredita que ele é, torna-se uma imagem retida no sistema nervoso e que mais tarde se expressará, no corpo, através da ação.

Logo, os traços de caráter são exatamente os papéis que o indivíduo aprende a assumir desde criança e permanecem, em sua maior parte, na vida adulta. 

A técnica psicanalítica realizada por Reich constitui a ponte que conduz da psicanálise para a compreensão analítica da tensão muscular e dos bloqueios energéticos: 
Portanto, a psicologia e a biologia se encontram no estudo dos cinco traços de caráter definidos por Reich.
E segundo o mesmo, caráter é definido como a direção habitualmente tomada pelos impulsos voluntários de uma pessoa. Qualquer que seja o modo como o caráter é definido, ele é a atitude básica com a qual o indivíduo confronta a vida, seja na sessão analítica, seja no mundo exterior.

O ponto principal a respeito do caráter é o fato de ele representar um padrão típico de comportamento ou uma direção habitual: 
É um modo de responder que está estabelecido, congelado ou estruturado.
Isto se dá a partir da mielinização da medula – sistema nervoso, resultando os traços de caráter, que definem o formato do corpo. O corpo estabelece o espaço interno, ao mesmo tempo que funciona como elemento de comunicação com o espaço externo. É limite do indivíduo e fronteira do meio.


O corpo revela em todas as suas manifestações: através da postura, gestos, tónus muscular, atitudes de interação, domínio do seu espaço, fala. A organização do esquema corporal se faz, portanto, em torno de padrões estabelecidos desde as primeiras experiências pessoais na infância, formando o caráter do indivíduo, explicitando simbolicamente sua existência.


Os Cinco Traços de Caráter


Esquizóide: formação do nascimento até 1 ano:  Cabeça ligeiramente inclinada, fora da linha central de fluxo energético do corpo;  corpo duro;  imobilidade da escápula;  imobilidade pélvica; pés fracos, especialmente o arco metatársico; articulações duras; divisão do corpo em duas metades, superior e inferior, a partir do diafragma;  impressão geral de desengonçado.

São pessoas magras, longilíneas, com a energia do corpo centrada na cabeça, racionalizam sentimentos, optam na dor pelo isolamento, exigem respeito pelo seu jeito racional de ser, necessitam de um nível lógico de comunicação, são cerebrais e racionais.

Oral: formação de 02 a 03 anos –  Peso do corpo sobre os calcanhares; costas encurvadas;  ombros caídos, cabeça jogada para frente; -peito retraído, pernas e joelhos contraídos e subcarregados;   impressão geral de fraco e precisando de apoio.

São pessoas  “arredondadas”, que carregam uma falta, um vazio, uma sensação de abandono. Querem sensibilidade e afeto nos contatos. São emotivas, choram fácil, querem um “ouvido” que as escutem para que elas possam falar (sem parar), ou comida por perto, para que possam preencher esse vazio comendo (sem parar).

Masoquista: formação de 02 a 03 anos – Corpo estruturalmente pesado, com forte desenvolvimento muscular;  maior tensão nos músculos flexores, .curvando o corpo para a frente; -costas arredondadas;  pescoço curto e grosso; coxas bastante musculosas;  impressão geral de atarracado, carregando um grande peso.

São pessoas de composição quadradas, com aparência forte, atarracadas. Exigem segurança para si. Entendem os outros, com extrema empatia. A ponto de trazer para si o problema e o erro do outro se responsabilizando por tudo. Não dividem nem delegam. Guardam tudo dentro de si.  São desconfiadas, demoram para formar vínculo e partilhar seus problemas. Não aceitam traições.

Rígido: formação de 03 a 04 anos – Tensão generalizada no corpo; peito inflado; tensão pronunciada nos músculos extensores, inclinando o corpo para trás; nuca e ombros enrijecidos; queixo duro, linhas faciais retas; atitude corporal de estar em alerta;  impressão geral de prontidão e agressividade.

Aparentam muita energia, força e disposição física por todo corpo. São belos, com curvas nos lugares certos, com forte capital estético, músculos rígidos. Exigem perfeição de si, do outro e da vida, nada é bom o suficiente para eles. São a figura da exigência e busca da perfeição. Vivem  “relações triangulares”, competitivos ao extremo, estão sempre buscando alguém um adversário a altura.

Psicopático: formação de  04 a 05 anos – O corpo masculino se expande acima do peito e é delgado para baixo;  formato de triângulo, desenvolvimento desproporcional entre a metade superior e a inferior; o corpo feminino tem o quadril, pernas e pélvis muito largos: peito e ombros pequenos;  na metade superior do corpo, o homem é atlético; a mulher, pouco desenvolvida;  impressão geral, no homem, de orgulho, raiva e, às vezes, ameaçador; na mulher, de infantilidade e meninice na parte superior, e de extrema sensualidade abaixo.

Pessoas com formato de corpo triangular, grande em cima e pequenas embaixo, esperam resultados, são articuladoras, a vida para eles é um “balcão de negócios sempre atentas ao lucros e ganhos. São envolventes, sedutoras e manipuladoras.  Estão atentos a barganhas, trocas, compensações.




"De acordo com Wilhelm Reich, caráter é a forma como a pessoa se mostra e se relaciona, os aspectos que foram gravados, inscritos, em cada indivíduo desde a concepção, até os primeiros anos de vida.
Já o traço caracterial será a solução que a pessoa encontrou para reprimir uma situação de conflito.


Esses traços de caráter apresentam comportamentos peculiares quanto à condição energética, características físicas e predisposição a doenças e são denominados: 

  • Núcleo Psicótico, 
  • Borderline, 
  • Psiconeurótico (Masoquista, Obsessivo Compulsivo e Passivo-feminino) e 
  • Neurótico (Fálico-narcisista e Histérico). 


O indivíduo é formado de vários traços caracterológicos que se sobrepõem ao primeiro que apareceu em decorrência do primeiro bloqueio, ou seja, as coberturas, que servirão como proteção daquele primeiro traço que não consegue lidar com o mundo externo. O analista há que cuidar para agir diferentemente com o paciente de cada traço citado anteriormente, cuidando para que seus aspectos caracteriais somados aos do cliente não impeçam ou dificultem o trabalho terapêutico.

 Para José Volpi, “a personalidade, o caráter, a conduta são aspectos ligados ao ego, resultantes de sua impossível tarefa de se equilibrar entre as exigências do id (impulsos internos), do superego (exigências morais) e a realidade”.  O caráter é a forma como a pessoa se mostra, se relaciona, denotando também, aspectos que foram gravados, inscritos, em cada indivíduo. Diz também que são as atitudes somadas ao temperamento e à personalidade sendo que todo traço caracterial é a solução que a pessoa encontrou para reprimir uma situação de conflito. Relata que a chamada caracterologia pós-reichiana conclui que “cada pessoa possui uma combinação de traços de caráter e não apenas um caráter específico como proposto por Reich.

Ainda segundo Volpi, se uma criança passar por todas as etapas de desenvolvimento de forma saudável, poderá formar um caráter genital no final da pré-adolescência, ou seja, sua carga energética circulará sem obstáculo no seu corpo. Do contrário, quando essa energia se depara com bloqueios (couraças) forma os traços de caráter, cuja fixação de energia se deu em cada uma das fases do desenvolvimento emocional.

Volpi afirma que a análise reichiana tem como projeto terapêutico a transformação, o amadurecimento do indivíduo a um nível de funcionalidade energética eliminando a potencialidade patológica latente. Atua no nível biológico pessoal para reduzir as manifestações patológicas que podem se manifestar quando os parâmetros no terreno biológico ultrapassam determinado limiar.

De acordo com Maria Azevedoos distúrbios ocorridos no período intra-uterino comprometem todo o desenvolvimento posterior da personalidade do indivíduo, provocando uma situação psicótica, uma psicose deflagrada ou um núcleo psicótico, passíveis de tratamento. A autora informa que o feto possui maiores recursos de defesa do que o embrião para responder a situações ameaçadoras, conseguindo “segurar “ as ameaças contraindo-se energeticamente no primeiro nível reichiano (nariz, ouvido e olhos), processo esse que decorre de um medo fetal.
Azevedo discorre ainda sobre o fato de que o stress ocorrido numa situação, leva a uma contração a nível celular, que atinge todo o organismo, à qual chama de medo celular, que pode levar à condição autista, que até hoje é praticamente incurável. Já a marca dessa vivência no período fetal, configura a condição de núcleo psicótico que poderá ser compensada ou encoberta por uma caracterialidade e que numa situação stressante futura poderá “explodir” ou descompensar o núcleo psicótico desencadeando um surto psicótico, passível de tratamento, principalmente a recuperação da funcionalidade ocular.

Em conformidade com Volpi, o útero é o primeiro meio ambiente do bebê sendo que o feto sofre as interferências ocorridas nele, respondendo a todos os estímulos, sejam táteis, de pressão, sinestésicos, térmicos, vestibulares, gustativos ou dolorosos.

Volpi também relata, ainda, que segundo Verny & Kelly (1993), os canais de comunicação entre a mãe e o bebé durante a gestação são:
o fisiológico, que se dá pela passagem dos alimentos pelo cordão umbilical;
o comportamental, manifestado pelos movimentos do feto expressando seu desconforto, medo e ansiedade;
e pela simpatia, que diz respeito à sensação física e emocional que afeta o bebé durante a gestação, sendo essa comunicação de grande importância na formação de seu caráter.

Volpi diz também que agentes ambientais conhecidos como teratógenos (drogas, fumo, álcool, antibióticos, anticoagulantes, anticonvulsivantes, cortisona, vitamina A, AAS ou aspirina, xaropes para tosse que contenham iodeto de potássio, dentre outros), assim como toda substância injetada ou ingerida pela mãe atingem o feto, podendo causar sérias perturbações no desenvolvimento neuropsicofisiológico do bebé.
Assim também o é com as emoções e o stress que fazem com que mãe descarregue hormonas no seu corpo, que atravessarão a placenta e alterarão o ambiente onde o bebé está a ser formado, provocando também perturbações semelhantes às que a mãe sente.

Volpi cita a definição de Reich para o fenómeno nomeado por ele como couraça muscular: 
“uma experiência psíquica pode provocar uma resposta somática que produz uma mudança permanente num órgão”.

Volpi ainda menciona Vincent que diz que cada organismo humano terá um terreno biológico ácido ou alcalino, que determinará o tipo de doença que poderá se manifestar;
Navarro, aponta como base de todas as patologias o medo, fator determinante e/ou desencadeante da condição de contração como mecanismo de defesa, enumerando quatro tipos:

Medo embrionário – inconsciente, inscrito em nível celular, responsável pelas doenças neuro-psicossomáticas, ou biopatias primárias, disfunções que conduzem a estágios irreversíveis e morte prematura, promove a psicose.
Medo fetal – inconsciente, sendo que as biopatias desta fase determinam a formação de um núcleo psicótico e podem regredir com o auxílio da vegetoterapia.
Medo neonatal – consciente, e segundo Navarro (1995), instala-se do décimo dia após o nascimento até o desmame, passando da motilidade para a mobilidade, dando origem às doenças somatopsicológicas ou biopatias secundárias que também determinam a formação de um núcleo psicótico.
Medo pós-natal – consciente e vivido na situação edípica, é responsável pelas manifestações neuróticas.

A prevenção é o aspecto principal da higiene mental preventiva, sendo preciso educar as crianças livres de encouraçamentos patogénicos para que elas, ao viverem os problemas emocionais, possam se livrar deles rapidamente.

Segundo Volpi, Reich afirmava que o bloqueio de uma etapa do desenvolvimento do ser humano, geraria um tipo de caráter, ao passo que Navarro afirmava que o caráter maduro e puro é o genital, e que todos os outros carácteres encontrados seriam aspectos ou traços mais ou menos evidentes ou escondidos, que se sobrepõem ao primeiro para protegê-lo.

Em conformidade com Volpi a análise do caráter, tem a proposta de que o terapeuta compreenda os traços de caráter do paciente para torná-los mais saudáveis.
A metodologia de análise reichiana usa um projeto terapêutico para cada paciente onde o terapeuta levantará os pontos fracos deste paciente para ajudá-lo a fortalecê-los.
Já a vegetoterapia caracteroanalítica desenvolvida por Reich e sistematizada por Navarro, tem o trabalho com o corpo como primazia.
Navarro  relaciona os bloqueios energéticos durante as fases do desenvolvimento humano e os traços de caráter dizendo que podemos nos fixar numa ou mais etapas desse desenvolvimento, que nos trarão uma condição psicológica dentro da qual desenvolveremos nossos traços caracteriais sendo que uma caracterialidade pode se sobrepor a outra se na próxima etapa do desenvolvimento psicoafetivo “sofrer os efeitos do stress, formando assim uma cobertura caracterial que protege a caracterialidade ou o traço de caráter anterior.”

Volpi cita as condições psicológicas definidas por Navarro : psicótica, borderline, psiconeurótica e neurótica e apresenta os seguintes traços de caráter:

1 – Núcleo psicótico: – não é psicótico mas possui um núcleo frágil que pode explodir num surto psicótico (memória de um stress primário, que se manifesta quando a criança, o adolescente ou o adulto passa por um outro stress grave na vida, desencadeando então essa primeira memória, isso do ponto de vista psicoafetivo). Formado em decorrência de bloqueio sofrido pelo stress no período fetal, parto ou primeiros dez dias de vida. Seu comprometimento interfere nos receptores sensoriais da visão, tato, olfato e audição – primeiro segmento de couraça. Energia baixa e desorganizada, pessoa racional e quase sempre demonstrando frieza afetiva.
Comportamento básico: dificuldade de contato, limitação da percepção das coisas à sua frente ou à sua volta. Geralmente tem um corpo esguio, com tórax flácido e bloqueio diafragmático, olhos vazios, temerosos, fundos, opacos, arregalados, contraídos, sem contato, sem brilho, com nariz geralmente fino e contraído, geralmente com tendência a ter pés e mãos frios.
Esse traço de caráter foi desmembrado por Navarro (1995) em três categorias: 
núcleo psicótico esquizofrênico – stress ocorrido do terceiro mês de gestação até dez dias após o nascimento apresentando como características comportamentais a predominância da razão ao afeto, dificuldade de contato, distorção da realidade, sentimento de persecutoriedade, predominância da fantasia sobre a realidade, percepção sobre si e outro prejudicada;
núcleo psicótico melancólico – stress ocorrido no período do parto até os três meses de vida (traço da caracterologia borderline) apresentando como características comportamentais as mesmas apresentadas no núcleo psicótico esquizofrénico e mais um sentimento de vazio interior, pulsões suicidas e comportamentos sociopatas e psicopatas;
núcleo psicótico depressivo – stress ocorrido no período dos três meses de vida até o desmame, nove meses (traço da caracterologia borderline com comportamentos pertinentes a esse traço caracterológico). Possui um terreno energético do tipo alcalino oxidado com predisposição a doenças graves como o câncer, Aids, doenças degenerativas e outras menos graves como urticária, alergias, rinites, enxaqueca.

2 –  Borderline – Tem boa energia, porém desorganizada, concentrada na boca, gerando forte tensão no maxilar. O corpo é magricela para o oral reprimido, com lábios finos e tensos ou obeso para o oral insatisfeito. Seu comportamento será, conforme o stress experimentado durante o período da amamentação e desmame, de uma reação depressiva ou raivosa, reprimida (quando o desmame ocorre de forma precoce e brusca, gerando raiva, o que torna o oral agressivo e melancólico, possessivo e ciumento): ou insatisfeita (quando o desmame ocorre antes do tempo ou tardiamente, gerando predisposição à depressividade, ocorrendo a compensação da situação depressiva com consumo de álcool, fumo para satisfação oral). Terreno energético do tipo ácido oxidado, com predisposição a doenças como diabetes, alergias, hipertensão, asma, artrite reumatoide, depressão, transtorno bipolar, anorexia, bulimia, obesidade secundária, bruxismo, ATM e outros problemas ortodônticos.

3 – Psiconeurótico – alta concentração de energia contida e desorganizada no corpo, Terreno energético do tipo ácido reduzido com predisposição a doenças como gastrite, úlcera, angina pectoris, infarto, colites, cistites, miomas, aumento da próstata, etc. Stress ocorrido na fase anal do desenvolvimento ou etapa de produção que dependendo da época e da forma como o stress ocorreu gerará traços de caráter como:

Passivo-feminino: formado em decorrência de “um aleitamento prolongado além dos nove meses” segundo Volpi. Pessoas meigas, com impressão de fragilidade e feminilidade com feições delicadas, suaves e femininas e bloqueio diafragmático (a passividade não está relacionada com a homossexualidade);
Masoquista: formado pela contradição da atitude dos pais – mãe que aceita e encoraja a excreção das fezes sem dar educação repressiva e pai que age com violência porque a criança suja as calças. O comportamento será de queixume e lamentações. Procura o alívio de sua carga buscando o castigo. Desajeitado e desengonçado acha-se feio e estúpido. Deprecia-se, implode com medo de explodir, auto-agressão. Incapaz de gostar de si mesmo. Possui alta concentração de energia no corpo de forma extremamente contida e desordenada. O corpo é duro e tenso, principalmente nos ombros e no pescoço;
Obssessivo-compulsivo: traço formado por uma educação exigente, sem liberdade de expressão da criança, colocando-a em constante submissão. Aparece como cobertura do borderline cuja função é cobrir um núcleo psicótico reprimido e controlado para evitar sua explosão. Comportamento de extrema organização, detalhista, mudanças geram ansiedade. Tendência a ser racional, desconfiado, ruminante como fuga ou alívio da carga de ficar retendo tudo, obsessivo, introvertido, medo da desaprovação e do julgamento, tensão constante, avareza, tendência a colecionar, dúvida, indecisão, afeto morno, teimosia, rigidez. Corpo duro e tenso.

4 – Neurótico – traço formado em decorrência de stress durante a etapa fálica do desenvolvimento, também chamada de etapa de identificação, sendo considerados os tipos caracterológicos mais saudáveis (quando não aparecer como um traço de cobertura).
Dependendo da época e da forma como o stress ocorre determinará os traços de caráter como o fálico-narcisista e histérico.

Fálico-narcisista: comportamento com boa auto-percepção, bom gosto estético capacidade de sedução e provocação, dificuldade de relacionamentos, grande compulsão à masturbação, compensação da tendência à depressão com sexo e drogas, sexo exagerado sem potência orgásmica, medo da solidão, medo das críticas, da incapacidade, vive em busca de reconhecimento, arrogante, seguro de si, rigoroso, vaidade, orgulho, egoísmo, exibicionismo, ostentação, traços psicopáticos, sexualidade ativa para ambos os sexos, homens se identificam com o próprio falo e as mulheres tem a fantasia do falo. Possuem alta energia no corpo principalmente no pescoço, peito e pelve. O corpo se apresenta atlético e sedutor, bonito, com bom tônus muscular, pescoço tenso e tórax estufado. Terreno energético alcalino reduzido que o predispõe a doenças de ordem sexual e artrose cervical:

Histérico: antecede a genitalidade. Evita os relacionamentos ameaçadores. Movimentos corporais delicados, provocativos, agitados, andar atraente e sexual, podendo ter comportamento frenético (choro, delírios, risos) ou calmos, tem alta concentração de energia no corpo, usa a sexualidade como defesa ,mas foge antes do “ato”.

5 – Genital – formação de caráter mais maduro e equilibrado de todos. Usa as couraças só quando necessário, sabe lidar com as mesmas pois elas lhe servem como defesa.



Para Volpi, somos formados de vários traços caracterológicos que irão sobrepor o primeiro que apareceu decorrente do primeiro bloqueio, na fase do desenvolvimento mais primitiva. As coberturas, como as chamou Navarro (1995), servem de defesa, proteção do traço caracterológico primário que não consegue lidar com o mundo externo.
O trabalho terapêutico de base reichiana apenas flexibilizará essas coberturas indo em direção ao caráter primário para entender suas defesas e fortalecê-las, e na medida que a pessoa for fortalecendo esse traço vai amadurecendo, sentindo-se livre para buscar defesas mais saudáveis, substituindo por outras mais benéficas ou abandonando-as.

Diante dos traços apresentados, Volpi e Gomes (2017) elencam alguns tipos de comportamento para os analistas que utilizam a abordagem corporal, visando proporcionar uma melhor compreensão da dinâmica e do projeto terapêutico em benefício dos pacientes e deles próprios. Apontam ser de muita importância para os analistas identificar e saber lidar com os próprios traços de caráter que de algum modo podem se identificar com os traços de caráter do paciente.

Assim é que, segundo os autores, com o paciente núcleo psicótico, (que tem postura defensiva de medo, pela ausência da figura materna na época de seu nascimento) o analista deve acolher, aceitar, proteger e transmitir confiança e segurança ao paciente, agindo como um terapeuta-útero.
o paciente borderline, precisa que o analista faça uma boa maternagem, dando colo (com limites), escutando (também chamando a atenção), acolhendo (mas ensinando a caminhar sozinho), caminhando com o paciente, mas não por ele.
Para o paciente masoquista, o analista ensinará o paciente a se autovalorizar e confiar em si mesmo, sem culpa e sem medo de punição, como se fosse um pai.
O paciente obsessivo-compulsivo, também precisará de um analista que aja como um pai que mostre ao paciente que pode errar sem medo de ser punido e perceber que pode sair da rotina, das regras, podendo se tornar espontâneo e criativo.
Já o analista do paciente fálico-narcisista, agirá como um amigo em quem poderá confiar, aceitando sua necessidade de demonstrar seu poder, para ajudá-lo a superar o medo da castração.
O paciente histérico, precisará ter um analista que também aja como um amigo digno de confiança, solidário e tranquilizador, “que aceita a sedução, sem que ameace abandoná-lo ou criticá-lo por isso, ajudando-o a viver e realizar sua sexualidade genital sem medo do orgasmo”."











sexta-feira, 3 de abril de 2020

Precaução sim, medo não.





“Se tivermos em conta que o medo é uma constrição da área média do ser humano físico, ou seja, da área coração-pulmão, percebemos que esta região orgânica e funcional é um lugar particularmente sensível e vulnerável, onde podem produzir-se infeções pulmonares virais. Coração e pulmões constituem a área psíquica para o mundo sensorial, para a relação entre o mundo interior e o exterior. A área de reflexão, coordenação, compaixão, interesse e entusiasmo, que são as contra-imagens efetivas do medo e da ansiedade. Mas a experiência do medo (estreiteza, opressão) converteu-se num hábito no nosso tempo. Medo da falta de dinheiro, medo do despedimento, medo dos estrangeiros, medo da solidão, medo do clima, medo financeiro, medo político, medo de que o nosso filho se torne adicto dos jogos...O medo pode tornar-se extensivo a qualquer coisa – ao nosso pensamento e depressão, à ação, ao medo na vontade, medo na vida emocional. o medo causa não só um resfriado psicológico, mas também físico. Cãibras e tensões no corpo e na alma, tensões e stress, também fisicamente. Isto causa hipoperfusão no sistema circulatório e um debilitamento do sistema imunitário. O medo desperta todos os opostos.É surpreendente como Rudolf Steiner estabelece a ligação entre as infeções virais e bacterianas e estes “Counterpowers of the Heart and Lungs” (contraforças do coração e pulmões) ("ideias materialistas", como ele as chama): mentiras, rumores, suspeitas, hipocrisia. No entanto, as forças para as quais a região central do nosso organismo está realmente destinada, são: entusiasmo, calor, maravilhamento, interesse, empatia, compaixão, vivências de comunidade, fé, esperança e amor. A través de tudo isso, também se desenvolve calor físico, o sangue flui mais ativamente, é transportado mais oxigénio a todo o organismo e o sistema imunitário fortalece-se.
E isto tem um efeito curativo” 

 ~  Henriette Dekkers




sábado, 18 de janeiro de 2020

Panpsychism


Kieran Stone




Does Consciousness 
Pervade the Universe?




One of science’s most challenging problems is a question that can be stated easily: 
Where does consciousness come from? 
In his new book Galileo’s Error: Foundations for a New Science of Consciousness, philosopher Philip Goff considers a radical perspective: 
What if consciousness is not something special that the brain does but is instead a quality inherent to all matter? 
It is a theory known as “panpsychism,” and Goff guides readers through the history of the idea, answers common objections (such as “That’s just crazy!”) and explains why he believes panpsychism represents the best path forward.



In our standard view of things, consciousness exists only in the brains of highly evolved organisms, and hence consciousness exists only in a tiny part of the universe and only in very recent history.
According to panpsychism, in contrast, consciousness pervades the universe and is a fundamental feature of it. This doesn’t mean that literally everything is conscious. The basic commitment is that the fundamental constituents of reality—perhaps electrons and quarks—have incredibly simple forms of experience. And the very complex experience of the human or animal brain is somehow derived from the experience of the brain’s most basic parts.

It might be important to clarify what I mean by “consciousness,” as that word is actually quite ambiguous. Some people use it to mean something quite sophisticated, such as self-awareness or the capacity to reflect on one’s own existence. This is something we might be reluctant to ascribe to many nonhuman animals, never mind fundamental particles.
But when I use the word consciousness, I simply mean experience: pleasure, pain, visual or auditory experience, et cetera.

Human beings have a very rich and complex experience; horses less so; mice less so again. As we move to simpler and simpler forms of life, we find simpler and simpler forms of experience. Perhaps, at some point, the light switches off, and consciousness disappears. But it’s at least coherent to suppose that this continuum of consciousness fading while never quite turning off carries on into inorganic matter, with fundamental particles having almost unimaginably simple forms of experience to reflect their incredibly simple nature. That’s what panpsychists believe.


Despite great progress in our scientific understanding of the brain, we still don’t have even the beginnings of an explanation of how complex electrochemical signaling is somehow able to give rise to the inner subjective world of colors, sounds, smells and tastes that each of us knows in our own case. There is a deep mystery in understanding how what we know about ourselves from the inside fits together with what science tells us about matter from the outside.


While the problem is broadly acknowledged, many people think we just need to plug away at our standard methods of investigating the brain, and we’ll eventually crack it. But in my new book, I argue that the problem of consciousness results from the way we designed science at the start of the scientific revolution.

A key moment in the scientific revolution was Galileo’s declaration that mathematics was to be the language of the new science, that the new science was to have a purely quantitative vocabulary. But Galileo realized that you can’t capture consciousness in these terms, as consciousness is an essentially quality-involving phenomenon. 

Think about the redness of a red experiences or the smell of flowers or the taste of mint.
You can’t capture these kinds of qualities in the purely quantitative vocabulary of physical science.
So Galileo decided that we have to put consciousness outside of the domain of science; after we’d done that, everything else could be captured in mathematics.

This is really important, because although the problem of consciousness is taken seriously, most people assume our conventional scientific approach is capable of solving it. And they think this because they look at the great success of physical science in explaining more and more of our universe and conclude that this ought to give us confidence that physical science alone will one day explain consciousness. However, I believe that this reaction is rooted in a misunderstanding of the history of science.

Yes, physical science has been incredibly successful. But it’s been successful precisely because it was designed to exclude consciousness. If Galileo were to time travel to the present day and hear about this problem of explaining consciousness in the terms of physical science, he’d say, “Of course, you can’t do that. I designed physical science to deal with quantities, not qualities.”

The starting point of the panpsychist
 is that physical science doesn’t actually tell us what matter is. 

That sounds like a bizarre claim at first; you read a physics textbook, you seem to learn all kinds of incredible things about the nature of space, time and matter. But what philosophers of science have realized is that physical science, for all its richness, is confined to telling us about the behavior of matter, what it does. Physics tells us, for example, that matter has mass and charge. These properties are completely defined in terms of behavior, things like attraction, repulsion, resistance to acceleration. Physics tells us absolutely nothing about what philosophers like to call the intrinsic nature of matter: what matter is, in and of itself.

So it turns out that there is a huge hole in our scientific story. 
The proposal of the panpsychist is to put consciousness in that hole. 
Consciousness, for the panpsychist, is the intrinsic nature of matter. 



There’s just matter, 
on this view, 
nothing supernatural or spiritual.


But matter can be described from two perspectives.
Physical science describes matter “from the outside,” in terms of its behavior.
But matter “from the inside”—i.e., in terms of its intrinsic nature—is constituted of forms of consciousness.

What this offers us is a beautifully simple, elegant way of integrating consciousness into our scientific worldview, of marrying what we know about ourselves from the inside and what science tells us about matter from the outside.

Of course, the most common objection to this idea is “That’s just crazy!”
But many of our best scientific theories are wildly counter to common sense, too—for example, Albert Einstein’s theory that time slows down when you travel very fast or Charles Darwin’s theory that our ancestors were apes. At the end of the day, you should judge a view not by its cultural associations but by its explanatory power.
Panpsychism gives us a way of resolving the mystery of consciousness, a way that avoids the deep difficulties that plague more conventional options.

There is a profound difficulty at the heart of the science of consciousness:
Consciousness is unobservable. Can’t look inside an electron to see whether or not it is conscious.
But nor can you look inside someone’s head and see their feelings and experiences. 

We know that consciousness exists not from observation and experiment but by being conscious.
The only way we can find out about the consciousness of others is by asking them:
 I can’t directly perceive your experience, but I can ask you what you’re feeling. And if I’m a neuroscientist, I can do this while I’m scanning your brain to see which bits light up as you tell me what you’re feeling and experiencing. In this way, scientists are able correlate certain kinds of brain activity with certain kinds of experience.
We now know which kinds of brain activity are associated with feelings of hunger, with visual experiences, with pleasure, pain, anxiety, et cetera.

This is really important information, but it’s not itself a theory of consciousness. 
That’s because what we ultimately want from a science of consciousness is an explanation of those correlations. 
Why is it that, say, a certain kind of activity in the hypothalamus is associated with the feeling of hunger?
Why should that be so?
As soon as you start to answer this question, you move beyond what can be, strictly speaking, tested, simply because consciousness is unobservable.
We have to turn to philosophy.

The moral of the story is that we need both the science and the philosophy to get a theory of consciousness. The science gives us correlations between brain activity and experience. We then have to work out the best philosophical theory that explains those correlations. In my view, the only theory that holds up to scrutiny is panpsychism.

When I studied philosophy, we were taught that there were only two approaches to consciousness: 
Either you think consciousness can be explained in conventional scientific terms,
Or you think consciousness is something magical and mysterious that science will never understand.

I came to think that both of these views were pretty hopeless.
I think we can have hope that we will one day have a science of consciousness, but we need to rethink what science is. 
Panpsychism offers us a way of doing this.




Philip Goff






segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

JUNG: AS CINCO ETAPAS DA CONSCIÊNCIA





A primeira etapa é caracterizada pela participation mystique (termo tomado do antropólogo francês Lévy-Bruhl). 
Refere-se à identificação entre a consciência do indivíduo e o seu mundo circundante.
Ex: Quando o carro tem algum problema, o proprietário fica doente, ou tem dores no estômago. Isso acontece por estarmos vinculados inconscientemente ao mundo que nos cerca.
Neste sentido, a primeira etapa da consciência é equivalente à última etapa; a unificação com o TODO. O mundo de um bebé é extremamente unificado. Ele considera que a mãe é parte integrante dele, que não há limites entre ele e um móbile por cima do berço.
Chamamos a isso de projeção.
A maioria das pessoas estão vinculadas às suas famílias, e há identificação quando o filho ou o marido acha que é dono da mulher.

Na segunda etapa, já é possível perceber os limites, a diferenciação sujeito/objeto eu/você. 
Mas isso não significa que a projeção foi superada, apenas passou a ser mais localizada.
Note que as etapas não são exatamente superadas, mas interpoladas. É por isso que um adulto possa ter a mesma identificação com a esposa ("ela é minha") que tinha com a mãe, quando bebé. Mãe, brinquedos favoritos, objetos brilhantes... pessoas especiais são escolhidas e distinguidas. Os pais passam a ser objeto de adoração, e representam a omnipotência e omnisciência.
Jung chamou a isso de projeções arquétipicas: "Papai é super forte, e pode fazer qualquer coisa! Mamãe me ama incondicionalmente!".
A chocante revelação de que os próprios pais não sabem de tudo ocorre na adolescência, e então, durante um certo tempo, os pais estão "completamente por fora" (outro tipo de projeção). Também projetamos em irmãos (daí a rivalidade) e professores (daí as paixões, ou aversões).

Na terceira etapa a pessoa se dá conta que os portadores das suas projeções específicas não correspondem a essas projeções. 
As pessoas ficam desidealizadas, e o mundo perde muito do seu primitivo encanto.
O conteúdo psíquico projetado torna-se abstrato, e manifesta-se através de símbolos e ideologias.
O jovem entra para uma banda, vira rebelde sem causa, usa drogas, manda toda a "sociedade" para a PQP, ou então vira um místico ou religioso. Nesse caso a omnisciência e omnipotência, antes atribuídas aos pais ou professores, são projetadas em entidades abstratas, como Deus, Destino, Anjos, Verdade ou Bob Marley.
Filosofia e Teologia tornam-se possíveis.
A Lei, ou a Revelação, passam a estar investidos de projeções arquétipicas, deixando o mundo concreto como algo neutro. A pessoa passa a não temer inimigos, pois quem está no controle é Deus, ou acha que pode manipular e assumir o controle do mundo racionalmente, porque ele obedece às leis da natureza. A empatia com as pessoas tende a diminuir, por não interessar o sofrimento de fulano com sicrano, mas sim as ideias vigentes para o bem comum.
Ex: Uma pessoa faz uma coisa ecologicamente certa, não porque lhe doa no íntimo assistir à destruição do mundo natural, mas sim porque é o correto social e moralmente para solucionar os problemas do mundo.
Enquanto uma pessoa achar que Deus vai premiá-la ou puni-la, ela está na etapa 3 do nível da consciência.

A quarta fase representa a extinção total das projeções, mesmo na forma de abstrações teológicas ou ideológicas. 
Essa extinção leva à criação de um "centro vazio" que Jung identifica com a modernidade.
O sentimento de alma - antes grandioso, no sentido e propósito da Vida, de um "Deus íntimo" - é substituído por valores utilitários e pragmáticos (os demónios estão convertidos em sintomas psicológicos e desequilíbrios químicos cerebrais). O indivíduo contenta-se com breves momentos de prazer, ou entra em depressão por querer sempre mais.
Nesta quarta etapa da consciência, natureza e história são vistas como o produto do acaso e do jogo aleatório de forças impessoais. Como se as projeções psíquicas tivessem desaparecido completamente, quando na verdade o próprio ego é que foi investido com os conteúdos previamente projetados em outros, em objetos e abstrações. Assim, o ego está radicalmente inflamado na pessoa moderna e assume uma posição secreta de Deus Omnipotente.
Embora a pessoa moderna pareça ser razoável e estar assentada em bases firmes, na realidade está louca. Mas isso está escondido, uma espécie de segredo guardado até da própria pessoa.
Jung acreditava que essa quarta etapa era extremamente perigosa pela razão óbvia de que o ego inflamado é incapaz de adaptar-se muito bem ao meio ambiente e, por isso mesmo, é passível de cometer catastróficos erros de julgamento. Embora isso seja um avanço da consciência num sentido pessoal ou mesmo cultural, é perigoso por causa do seu potencial para a megalomania.
A pessoa da Etapa 4 já não é controlada por convenções sociais relacionadas, seja com pessoas, seja com valores. Por isso o ego pode considerar possibilidades ilimitadas de ação. Isso não significa que todas as pessoas modernas sejam sociopatas, mas as portas para tal estão bem abertas...
Nem todos chegam à etapa 4.
De fato, muitas pessoas não podem suportar suas exigências.
Outras consideram-na maléfica.
Os fundamentalismos do mundo insistem em manter-se aferrados às etapas 2 e 3, por temerem os efeitos corrosivos da etapa 4 e o desespero e vazio que ela engendra. Mas é uma verdadeira façanha psicológica quando as projeções têm de ser removidas a esse ponto e os indivíduos assumem responsabilidade pessoal por seus destinos.
A armadilha é que a psique passa a estar escondida na sombra do ego.
Mas tudo é evolução, e essas etapas são necessárias para o desenvolvimento da consciência.
A pessoa que chegou na etapa 4 sem cair numa inflamação megalomaníaca passa, na avaliação de Jung, por uma notável transformação.

Na quinta etapa temos a reunificação de consciente e inconsciente. 
Há um reconhecimento consciente da limitação do ego e uma clara percepção dos poderes do inconsciente; e torna-se possível uma forma de união entre consciente e inconsciente através do que Jung chamou a função transcendente e o símbolo unificador.
A psique unifica-se mas, contrariamente à etapa 1, as partes permanecem diferenciadas e contidas na consciência.
E, também ao contrário da etapa 4, o ego não é identificado com os arquétipos: as imagens arquetípicas continuam sendo o "outro", não estão escondidas na sombra do ego. São vistas agora como "aí dentro", ao invés da etapa 3, onde estão "lá fora" (em algum lugar no espaço metafísico), e não são mais projetadas em algo externo.

Oficialmente, Jung deteve-se na etapa 5, embora em numerosos lugares indique que considerou a realização de novos avanços para além dela.
Há sugestões em seus escritos para o que poderia ser considerado uma sexta e talvez até uma sétima etapa.
Por exemplo, no seu Seminário de Yoga Kundalini, realizado em 1932, Jung reconhece claramente a realização de estados de consciência no Oriente que superam amplamente o que é conhecido no Ocidente, e que poderia ser considerado uma etapa 7 potencial.


Murray Stein
in, Jung e o Mapa da Alma



















terça-feira, 12 de novembro de 2019

Emoção ou Sentimento?





Emoção ou sentimento? 
Mental ou comportamental? 
António Damásio explica a organização afetiva humana.


Emoção ou sentimento?
Coloquialmente, os termos acabam sendo utilizados como sinónimos, mas, na ciência, eles têm diferenças significativas que, uma vez observadas, podem ampliar nossa compreensão sobre o comportamento das pessoas – inclusive de nós mesmos.

O neurocientista português António Damásio falou sobre o tema à Revista Galileu.

O que é, em termos mais breves ou mais simples, para um público leigo, essa diferença básica entre emoção e sentimento? Emoção é uma coisa, uma reação mais rápida, mais instintiva ou o que diferencia as duas (emoção e sentimento)?
António Damásio: A emoção é um programa de ações, portanto, é uma coisa que se desenrola com ações sucessivas. É uma espécie de concerto de ações. Não tem nada a ver com o que se passa na mente.

É despoletada pela mente, mas acontece com ações que acontecem dentro do corpo, nos músculos, coração, pulmões, nas reações endócrinas. Sentimentos são, por definição, a experiência mental que nós temos do que se passa no corpo. É o mundo que se segue (à emoção). Mesmo que se dê muito rapidamente, em matéria de segundos, primeiro são ações e pode-se ver sem nenhum microscópio. Você pode me ver tendo uma emoção, não vê tudo, mas vê uma parte. Pode ver o que se passa na minha cara, a pele pode mudar, os movimentos que eu faço etc... enquanto o sentimento você não pode ver.

O sentimento eu tenho e você não sabe se eu tenho ou não tenho. E se você tiver um sentimento de profunda tristeza, mas se me quiser enganar, e quiser comportar-se como se estivesse alegre, vai me enganar mesmo, porque eu não posso saber o que está dentro da sua cabeça, posso adivinhar, mas é diferente.

Isso é uma diferença fundamental. 
É a diferença entre aquilo que é mental e aquilo que é comportamental.
É uma reação inata, o sistema de reações é inato e desencadeado por um determinado processo, geralmente um processo intelectual, uma coisa que se percebe, se ouve, que se vê, etc e depois acontece dentro do corpo dessa forma complexa. Essa é a grande diferença. E como é evidente, é mais fácil perceber o que se passa objetivamente do que perceber uma coisa que se passa dentro da mente de outrem. Portanto, este é um aspeto de grande êxito para a neurociência, mas que ainda está em curso. Se você me entrevistar daqui 10 anos, vai ver incríveis desenvolvimentos, que vão acontecer neste espaço de tempo.

Outra coisa que também é muito importante e que começou a acontecer, tem a ver com a tomada de decisões e com o mundo da vida social, não da vida social no sentido barato do termo, mas da vida social em termos da organização da sociedade. E uma coisa, por exemplo, se você ler O Erro de Descartes, especialmente nas últimas páginas, há uma série de passagens em que eu aponto para isso. Em que eu digo, bem no fundo as coisas que estão a acontecer no hipotálamo e que estão a acontecer no Tronco cerebral, que estão a acontecer no Córtex cerebral, tem muito a ver com coisas que se passam no mundo social, como exemplo, a Declaração de Independência dos Estados Unidos.

Estava a fazer a ponte entre aquilo que acontece no cérebro e aquilo que acontece na nossa vida em matéria de organização social. Porque, tal como hoje penso, e aparece também no meu ultimo livro, Self comes to mind (E o cérebro criou o homem) - nunca consigo lembrar o título, penso sempre no homem que criou o cérebro -, aquilo que eu aponto, também ali, é que, a nossa vida e a nossa organização social são um reflexo extraordinariamente importante da nossa organização básica afetiva.

A razão pela qual temos uma sociedade organizada da forma que temos, aquilo que acontece em matéria da criação da moralidade, justiça, economia, política, e mesmo termos mesmo das artes e humanidades, tudo isso tem uma influência extraordinariamente grande na vida dos afetos."









sábado, 2 de novembro de 2019

António Coimbra de Matos





O espírito da concorrência, uma concorrência agressiva.
Porque a competição é necessária, mas a competição mais normal é aquela que cada um faz consigo, para tentar superar-se, não para ser melhor do que o colega. Criou-se esta ideia de que é a competição que nos faz evoluir. Errado, não é a competição que nos faz evoluir.

O que é que nos faz evoluir?
A cooperação.

Evoluímos quando andamos em congressos, quando ouvimos colegas, quando pensamos com os outros. Debatemos, argumentamos e saímos de lá, uns e outros, mais esclarecidos. Dialogamos.
É a necessidade de criar uma distância...
Este é um aspecto importante das sociedades neoliberais, a concorrência, a competição. E - por isso - da distância.
O Ser Humano tem uma relação complicada com o poder quando ele próprio não se sente suficientemente capaz. Aí a relação é difícil. Vou dizer uma coisa que se costumava dizer aos alunos no tempo da minha passagem pelo ensino: só puxa dos galões quem não tem colhões. Quem é seguro de si não precisa disso para nada.

A hormona sexual do homem é a testosterona, que a mulher também tem, mas em quantidades muito pequenas, e que é também uma hormona de agressão. Tem essa base, o homem tem mais depressa uma resposta agressiva do que a mulher, que tem uma resposta mais assertiva. As sociedades só estão bem com a mistura dos dois. E disso tenho experiência: as equipas só com homens ou só com mulheres não correm muito bem. Quando são equipas mistas e mais ou menos equilibradas correm melhor.
Mas, de uma maneira geral, as mulheres têm mais tendência para se acomodarem, para encontrarem uma solução de equilíbrio, enquanto com os homens é uma coisa mais de ruptura. Até biologicamente, o homem tem mais uma  forma convexa, mesmo sexualmente, a mulher tem mais uma forma côncava.

...

A solidão importante é a solidão interior.
A solidão não é boa, mas é bom ter a capacidade de estar só e de estar livre de estímulos e do exterior, que tem excessos incomodativos. Até porque se não se adquire a capacidade de estar só, a tendência é procurar companhias a qualquer preço, selecionando-as mal. É preciso escolher as companhias convenientes. Tem de haver momentos para não sermos perturbados, para podermos pensar, estar com o nosso íntimo.



António Coimbra de Matos




sábado, 21 de setembro de 2019

As formas doentias de viver o amor


Mario Haberl






Os jovens são mais propensos a apaixonar-se intensamente e de forma imoderada.
O cérebro adolescente é ainda imaturo, há uma discrepância entre o desenvolvimento intelectual e o emocional, e é frequente não conseguirem analisar e controlar o que sentem. Essa discrepância também acontece ao nível do crescimento emocional e físico: um adolescente pode ser sexualmente maduro, mas não ser capaz de lidar com um relacionamento sexual. Quando experimenta um sentimento de rejeição, é comum não conseguir gerir as emoções envolvidas.

“to fall in love”, ou seja, cair...

As descrições da experiência passam efetivamente por essa sensação de cair, de ser incapaz de exercer controlo sobre as suas emoções e os seus sentimentos. Com isto não quero dizer que o amor acaba em loucura, pode até ser muito gratificante. Mas se vivido de forma extrema, conduz a mudanças no comportamento e na personalidade e, por vezes, a estados emocionais próximos dos que encontramos na doença mental. Romanos e gregos viam no amor uma coisa boa, mas com um potencial disruptivo que devia ser levado a sério.

A idealização.
Amar perdidamente e adoecer de amor é um mecanismo que está ligado ao conjunto de crenças acerca do que é o romance, algo profundamente enraizado na cultura ocidental, que assenta na ideia de que a pessoa que amamos deve ser perfeita e, como tal, deve ser idealizada, seja uma mulher por ser bonita ou um homem como um ser mais nobre ou generoso do que na realidade é.
Idealizar é ignorar ou negar os lados menos simpáticos e até sombrios de alguém.
Ninguém é totalmente bom, ou bonito, ou perfeito. Todos temos falhas, lados maus, características menos atrativas, é algo que faz parte da natureza humana.
O romance implica virar costas ao que é negativo, e isso conduz a estados de infelicidade e desilusão.
Quanto mais se distorce a perceção do mundo na tentativa de reduzir o desconforto e a ansiedade, mais vulnerável se fica à perda de contacto com o real.
O romance é uma fantasia, uma ilusão do amor verdadeiro.
Ora, este passa por amar a pessoa tal como ela é, sem idealizar.

O amor à primeira vista tem uma base evolutiva.
Os nossos antecessores precisavam de viver em casal, durante três ou quatro anos, para ajudar a criar a ganhar maturidade cerebral e corporal suficiente para sobreviver. Após estes quatro anos, em média, a paixão perde importância. Curiosamente, é também nesta altura da vida conjugal que se registam mais divórcios, ainda que nem todos os casais se separem!
Tomamos decisões sem ficar escravos das emoções e da nossa herança evolucionista.
No início da paixão, somos escravos do amor, sentimos atração sem ter coisas em comum nem gostar realmente da outra pessoa. Quando se diz “vimo-nos e logo ali percebemos que estávamos destinados a ficar um com o outro”, estamos a falar de desejo físico mútuo, não de amor.
Só mais tarde é que o amor se converte numa escolha – está-se com alguém sem se ser refém do desejo.

Muita gente perde o interesse sexual ao fim de algum tempo de convivência.
É preciso haver algo mais do que sexo para manter um relacionamento.
É bastante invulgar um relacionamento de longa duração ser inteiramente sustentado pelo sexo.
Há muitos casais a optar por não terem sexo, mas existem razões de peso para que ele tenha lugar na vida conjugal: é uma fonte de prazer, reforça a ligação íntima e promove a saúde mental pela vida fora.
Quem não tem sexo tende a ter menos saúde a nível psicológico.
No limite, pessoas com tendência suicida tendem a não ter sexo ou têm menos sexo do que os não suicidas.
A adição sexual não é muito diferente da adição química, associada às drogas recreativas.
Um viciado em sexo procura, vezes sem conta, obter o prazer químico que a atividade proporciona.

Todos achamos que somos menos vulneráveis do que realmente somos.
O romantismo faz parte da nossa cultura.
Tudo depende da forma como o encaramos.
Pode ser algo emocionante ou assustador.

É essencial que saibamos que, na paixão, estamos a desfrutar de uma experiência, como andar numa montanha-russa: é apaixonante, mas não passa de uma experiência.
Quando o romance se confunde com a realidade, isso é um delírio.
Acreditar que só há o marido ou a mulher na vida, que o destino de ambos é estarem juntos, ou que o cônjuge está a ser infiel, pode ser devastador. Viver com isto não é tão incomum, mas é intolerável e um problema com o qual é difícil lidar.
Mais saudável é não alimentar fatalismos, admitir desde logo que ambos estão ali para resolver problemas em conjunto, numa base diária.
Parte do problema associado ao romantismo é que pressupõe que as pessoas se percam uma na outra.
Diz-se que “o amor é a resposta”: não é.
Desiluda-se quem pensar que sim.
Um relacionamento significativo é muito importante nas nossas vidas mas não é tudo, há que dar atenção aos filhos, familiares, amigos, trabalho, interesses pessoais...

Todos somos estranhos na nossa privacidade.
Desde que não se cause danos na esfera íntima e haja consenso, não deve haver julgamentos acerca do que é, ou não, normal.


Frank Tallis





quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O Superconsciente





Todas as aspirações do ser humano, seu futuro, suas conquistas a serem realizadas, o seu céu, encontram-se insculpidos no superconsciente, mesmo que adormecidas, em estado de inconsciência. Área nobre do ser é o fulcro da inspiração divina, onde se estabelecem os paradigmas orientadores do processo da evolução. Sede física da alma reencarnada, responde pelos seus processos da transformação dos instintos em inteligência, passo que será conquistado mediante esforço pessoal e intuição espiritual dos objetivos  mais significativos do transcurso existencial pelo corpo físico.

O superconsciente é também conhecido como Inconsciente superior, de onde dimanam as funções parapsíquicas superiores assim como as energias espirituais. Equipado com chips ultra-sensíveis, aí se encontram os tesouros da vida transpessoal, na qual o trânsito entre as esferas orgânica e psíquica se faz mais livre e amplamente.

A fim de poder manifestar o colossal tesouro de energias que detecta, o organismo reveste-o de células, favorecendo a intercomunicação dos dois campos nos quais se movimenta o Espírito: o material e o espiritual. Irradiando-se do chakra coronário por sucessivas emissões de ondas-pensamento, através dos exercícios de concentração, meditação e prece, desenvolve-se, abrindo os registos para a captação de outras mentes que se cruzam no mundo extracorpóreo. Favorecendo a paranormalidade humana, o superconsciente é o núcleo onde têm lugar os fenómenos mediúnicos, por facultar a decodificação da mente que se lhe direciona, assim transformando-a em palavras, projeções ideoplásticas, manifestações culturais, materiais. Laboratório vivo do Espírito, que no seu campo imprime as necessidades futuras, quando no inconsciente guarda as memórias de todos os atos transatos, seu potencial é ainda muito desconhecido, merecendo que nele se aprofundem as sondas da investigação, a fim de com sábia maneira poder utilizá-lo com proficiência.

Tendo na epífise ou pineal o veículo para as manifestações psíquicas superiores, mediante exercícios mentais e morais amplia a capacidade de registo do mundo ultra sensível, que se exterioriza através dos equipamentos de alta potência energética de que se constitui. Por outro lado, é o celeiro do futuro do ser, por estar em ligação com o Psiquismo Cósmico, do qual recebe forças específicas para o desenvolvimento intelecto-moral, da desafetividade, das expressões sexuais encarregadas da perpetuação da espécie, do equilíbrio da hereditariedade, de outros fenómenos que afetarão o comportamento psicológico.

À medida que o ser se consciencializa do potencial elevado que lhe dorme em germe no superconsciente, mais pode utilizá-lo a serviço da vida, crescendo no rumo da identificação com o Cosmos. Redes de fibras nervosas muito delicadas conduzem as energias que se exteriorizam da pineal e se expandem por todo o cérebro, facultando que ocorram os fenómenos espirituais. Essas energias irrigam de vitalidade as demais glândulas endócrinas, estabelecendo circuitos especializados, que beneficiam o organismo em geral. Intuição, inspiração superior, psicofonia, psicografia traduzem a plena sintonia entre os Espíritos e os Seres Humanos, como resultado da identificação entre o seu superconsciente e as mentes desvestidas de matéria.

De forma análoga, irradiações de teor pestífero e perturbador, procedentes de fontes mentais degeneradas, sincronizam com o inconsciente inferior dos indivíduos, no qual estão gravadas as experiências inditosas que geraram vítimas, ora alucinadas, que retornam para provocar reabilitação e reajustamento, fazendo-o psiquicamente, por meio de fixações mentais saturadas de ódios e pressentimentos que produzem patologias obsessivas de variada espécie.
Uma vida mental e moral saudável, assinalada por hábitos edificantes, amplia a capacidade do superconsciente ou Self, para que os laboratórios celulares produzam irradiações específicas portadoras de equilíbrio e paz. O cultivo de um campo com carinho e sementes selecionadas responde com farta colheita de flores e sazonados frutos, enquanto que deixado ao abandono ou ao descaso, restitui a indiferença com que é tratado através de cardos e abrolhos, ou aridez e morte…
O cérebro é central de força que, somente a pouco e pouco vem sendo descoberto, jazendo ignorado na sua quase totalidade, em especial no que diz respeito aos fenómenos psicológicos, parapsíquicos e mediúnicos.

Somente a epífise ou pineal, situada no cérebro por cima e atrás das camadas ópticas, constitui, por si mesma, um incomparável santuário, que vela as funções sexuais durante a infância, e, na puberdade, experimenta significavas alterações na forma e na função; torna-se, a partir daí, um escrínio de luz, um lótus de mil pétalas que se abrem como antenas ultra-sensíveis em direção das Esferas espirituais de onde procede a vida, desempenhando papel fundamental nas experiências espirituais do ser humano.

É natural, portanto, que o superconsciente seja um enigma a ser decifrado, por significar na sua essência o fulcro de ligação mais eloquente do Espírito com o Corpo, mantendo a programação das futuras conquistas que devem ser conseguidas ao ritmo da alegria e da saúde.




Joanna de Ângelis
in, O despertar do Espírito





domingo, 30 de junho de 2019

O Inconsciente






O eminente psicanalista Carl Gustav Jung estabeleceu que o inconsciente é um verdadeiro oceano, no qual se encontra a consciência mergulhada quase totalmente. É como um iceberg, cuja parte visível seria a área da consciência, portanto, apenas cinco por cento do volume daquela montanha de gelo ainda pouquíssimo conhecida. A consciência, ainda segundo o mesmo estudioso, pode ser comparada a uma rolha flutuando no enorme oceano.

Tem-se, dessa forma, uma ideia do que significava o inconsciente para o ilustre psiquiatra, que o fora antes de dedicar-se à Psicanálise. Nas suas investigações profundas, procurou detectar sempre a presença do inconsciente, que seria responsável por quase todos os atos e programas da existência humana, desde os fenômenos automatistas mais primitivos, que lhe dariam início, até as inúmeras manifestações de natureza consciente.
Indubitavelmente, nesse oceano encontram-se guardadas todas as experiências do ser, desde as suas primeiras expressões, atravessando os períodos de desenvolvimento e evolução, até o momento da lucidez do pensamento lógico, no qual hoje transita com vistas ao estágio mais elevado do pensamento cósmico para onde ruma.

É muito difícil dissociar-se o inconsciente das diferentes manifestações da vida humana, porquanto ele está a ditar, de forma poderosa, as realizações que constituem os impulsos e atavismos existenciais.
Indispensável, porém, ter-se em mente a presença do Espírito, que transcende aos efeitos e passa a exercer a sua função na condição de inconsciente, depósito real de todas as experiências do larguíssimo trajeto antropossociopsicológico, de que se faz herdeiro nos sucessivos empreendimentos das reencarnações.

O ego participa de todo esse processo como a pequena parte da psique que é autoconsciente, que se identifica consigo mesma. E o Eu, que se conhece na condição de ser, de área própria de energias, que são totalmente diversas dos outros. É a parte pequena de nós que se apercebe das coisas e ocorrências, a personalidade, numa visão que seja detectada pela consciência.

Invariavelmente o Eu pensa somente em si, não compreendendo a imensidade do inconsciente, que é o Eu total, dando margem a situações curiosas, quando as pessoas se referem a acontecimentos que nunca atribuem a si mesmas, informando que não foram elas, isto é, o seu consciente que realizou determinados labores e teve tais ou quais comportamentos, o que as surpreende sempre.

Toda vez que a mente consciente dá-se conta de que o inconsciente se encontra envolvendo-a, é tomada por certas expressões de deslumbramento ou choque, já que é a totalidade, o oceano incluindo o iceberg, que vem à tona.

Para Sigmund Freud, tanto quanto para Gustav Jung, o inconsciente somente se expressa através de símbolos, e esses símbolos podem e devem ser buscados para conveniente interpretação através dos delicados mecanismos dos sonhos e da Imaginação Ativa, de modo a serem entendidas as suas mensagens.

As manifestações oníricas oferecem conteúdos que necessitam ser interpretados, a fim de facilitarem o desenvolvimento do indivíduo. Mediante a Imaginação Ativa, tenha-se em conta que não se trata de ficção no seu sentido convencional, mas de uma forma criativa do pensamento – é possível entrar-se no arcabouço dos registros e depósitos do inconsciente, abrindo-lhe as comportas para uma equilibrada liberação, que irá contribuir grandemente para a conduta salutar do indivíduo, proporcionando-lhe uma existência equilibrada. Permitimo-nos, porém, acrescentar que, também através da concentração, da oração, da meditação, e durante alguns transes nas tentativas das experiências mediúnicas, o inconsciente  faculta a liberação de várias das impressões que nele jazem, dando origem aos fenômenos anímicos.

Nesse extraordinário oceano, ainda segundo os nobres psicanalistas referidos, formidandas forças estão trabalhando, ora em favor, ora contra o ser, que necessita decifrar todos esses enigmas de modo a conseguir sua realização interior quanto exterior. Nele se encontram em depósito os mitos e as fantasias, as lendas e superstições de todos os povos do passado e do presente, e, no seu mais profundo âmago, nascem ou dormem as personalidades paralelas que se incorporam à existência individual gerando conflitos e transtornos neuróticos.

O objetivo, porém, da interpretação dessas mensagens, conforme o pensamento dos citados mestres, não é resolver imediatamente os distúrbios de natureza neurótica, e sim utilizar de forma conveniente as suas forças portadoras de energia de crescimento, de elevação, de conhecimento e de libertação.
O grande desafio da existência humana está na capacidade de explorar esse mundo  desconhecido, dele retirando todos os potenciais que possam produzir felicidade e autorrealização.

Os indivíduos normalmente se movimentam na vida em estado quase de sono, sem dar-se conta do que acontece à sua volta, sem conscientizar-se das ocorrências nem dos seus mecanismos.
Raramente se detêm na reflexão, considerando os objetivos e necessidades da vida em si mesma. Tudo se lhes sucede de maneira automática, fortuitamente, vitimados que se encontram pelos mecanismos fisiológicos em predomínio, até mesmo por ocasião das manifestações de natureza psicológica, o que é lamentável.

Em razão disso, vivem inconscientemente, longe da realidade, dispersos, acumulando conflitos e deixando-se arrastar pelos instintos que neles são dominantes.
A existência humana é uma aprendizagem valiosa que não pode ser desperdiçada de maneira vulgar ou vivida utopicamente, qual se fosse uma viagem ao país da ilusão, no qual tudo tem lugar de maneira atemporal, mecânica, destituída de sentido ou de razão.

A marcha do processo da evolução é ascensional, e o ser deve, a cada dia, armazenar experiências criativas quanto iluminativas, que lhe ampliarão o campo de desenvolvimento, levando-o na direção da sua fatalidade cósmica, que é a liberdade total, a plenitude. Enquanto no corpo, naturalmente sofrerá as consequências, positivas ou negativas, dos seus próprios atos, que são os construtores do seu futuro. Por isso mesmo cabe-lhe viver conscientemente, desperto para a realidade do existir.

Eis por que a concentração é-lhe de valor inestimável, por propiciar-lhe encontrar-se com  os arquivos que lhe guardam as impressões passadas que geram dificuldades ou problemas no comportamento atual. Em um nível mais profundo, a meditação é-lhe o instrumento precioso para a auto identificação, por facultar-lhe alcançar as estruturas mais estratificadas da personalidade, revolvendo os registros arcaicos que se lhe transformaram em alicerces geradores da conduta presente. Por outro lado, a oração,  além de lenir–lhe os sentimentos, suavizando as aflições, contribui para a elaboração dos fenômenos da Imaginação Ativa, liberando impressões que, por associação, ampliar-lhe-ão o campo do entendimento da realidade, exumando fantasmas  e diluindo-os, ressuscitando traumas que podem ser sanados e ficando com um campo mais livre de imagens perturbadoras, para os mecanismos automatistas dos sonhos.
Embora toda essa contribuição valiosa apresentada pela Psicanálise, proporíamos o desdobramento consciente da personalidade, isto é, do Espírito, nas suas viagens astrais, através das quais experimenta sempre, quando lúcido, maior liberdade, assim podendo superar as sequelas dos graves conflitos das reencarnações passadas, em depósito no inconsciente.

Esse mergulho consciente nas estruturas do Eu total, faculta a liberação das imagens conflitantes do passado espiritual e do presente próximo, ensejando a harmonia de que necessita para a
preservação da saúde então enriquecida de realizações superiores.
Enquanto o indivíduo não descobre a realidade do seu inconsciente, pode permanecer na condição de vítima de transtornos neuróticos, que decorrem da fragmentação, do vazio  existencial, da falta de sentido psicológico, por identificar apenas uma pequena parte daquilo que denomina como realidade.

Percebe-se em isolamento, sem direção própria para a solução dos vários problemas que o afligem e, por isso, foge para os estados de neurotização nos quais se realiza. Essa queda emocional faz que desapareça o sentido de religiosidade, porquanto, ainda conforme a análise dos citados investigadores, no inconsciente é que estariam a presença e o significado de Deus, do Espírito, das percepções em torno da Divindade… Para os citados mestres, quando o ser demora-se ignorando as possibilidades do inconsciente, rompe as ligações com o seu Eu profundo, portanto, com os mecanismos que o levariam à compreensão de Deus, da alma e da vida imortal.

Certamente aí encontramos a presença do Espírito, nos refolhos do ser, impregnado pelas lembranças que não chegam à consciência atual, mas que afetam o comportamento de maneira indireta, proporcionando estados inquietadores e desconhecidos da estrutura do ego. A sua auto identificação, o auto descobrimento, permite o conhecimento das necessidades de progresso, ao tempo que desarticula as dificuldades que foram trabalhadas pelas experiências negativas das existências transatas, cujos resíduos continuam produzindo distonias.

Somente quando se passa a viver a compreensão da realidade interior, descobrindo-se e conservando-se desperto para a ação do pensamento lógico e consciente, é que se liberam os efeitos danosos do passado e se estabelecem novas normas de conduta para o futuro. Adquire-se então liberdade para a ação criativa sem as amarras da culpa, que sempre se estabelece depois de qualquer atitude irregular, de toda ação prejudicial.

O ser é manifestação do Pensamento Divino, que o criou para a vigorosa realização de si mesmo.

Desse modo, é necessário deixar de ignorar o seu mundo interior, o seu inconsciente, mergulhando no abismo de si mesmo e auto revelando-se sem traumas ou choques, sem ansiedades ou inquietações, em um processo de individuação.
Toda essa energia de que é portador o inconsciente pode ser canalizada para a edificação de si mesmo, superação dos medos e perturbações, dos fantasmas do quotidiano, que respondem pela insegurança e pelo desequilíbrio emocional do indivíduo.

Com perspicácia admirável Jung estabeleceu que em todas as criaturas estão presentes muitos símbolos, que dormem no seu inconsciente, num grande pluralismo, que deve ser controlado até atingir um sentido de  unidade, de unificação dos termos opostos em uma única manifestação de equilíbrio. Utilizou-se, assim, das expressões yin e yang presentes na existência humana de todos, numa representação do masculino (Yang) e do feminino (Yin). O primeiro é ativo, dinâmico, forte, rico de movimento, de calor, a claridade; o outro é passivo, repousante, frágil, sem muita atividade, frio, a sombra… Esses aparentes opostos produzem conflitos, porque, no momento em que se pensa algo fazer, de imediato uma ideia surge em sentido contrário no íntimo para não o realizar; deseja-se prosseguir e, ao mesmo tempo, parar; o desafio surge para tentar conquistas, enquanto outra parte trabalha para permanecer sem novas experiências. São, sem dúvida, as expressões do masculino e do feminino latentes no ser. Na antiguidade, o misticismo oriental, em forma de sabedoria, trabalhava a pessoa para saber conduzir uma e outra força com equilíbrio, permitindo que houvesse predomínio desta ou daquela, conforme a situação, terminando pela produção do equilíbrio, que é o resultado da harmonia de controle, nos momentos adequados, por tal ou qual manifestação interior.
Nessa fase, a de harmonia, é possível separar-se o que é bom do que é mau, o justo do arbitrário, identificando os opostos e dando um sentido de perfeito equilíbrio a si mesmo, em identificação com o Cosmos.

Jung ainda pôde identificar a dualidade existente nas criaturas, a que as denominações de animus e anima, que estão sempre presentes nos sonhos. O animus como sendo a representação masculina nas atividades oníricas das mulheres e o anima, nas dos homens, como simbolismo presente das  mulheres, que repetem os grandes vultos mitológicos, históricos, religiosos, presentes nas estórias, fantasias e mitos dos povos de todas as épocas, proporcionando associações e vivências psicológicas, conforme a estrutura interior de cada qual. Concordando com o pensamento do admirável investigador da psique humana, somente nos encorajaríamos a propor que, nessas representações oníricas, muitas das personagens animus e anima são as reminiscências, as revivescências das vidas anteriores arquivadas no inconsciente de cada um, graças ao períspirito ou corpo intermediário entre o Espírito e a matéria.

Esse arquétipo do pensamento junguiano – o amor -faz parte da imensa listagem que foi preparada para traduzir as imagens ínsitas no inconsciente humano, mas que muitos psicanalistas advogam poder ser ampliada de acordo com a aptidão de cada pessoa, tendo em vista as suas próprias experiências na área dos sonhos, crescendo cada vez mais, de modo a atender a todas as necessidades de formulação, sem que se fique aprisionado em uma faixa estreita de representações.
Do inconsciente para o consciente, para a individuação, é que o ser pode harmonizar-se, conquistar a sua paz e saúde total.


Joanna Ângelis
in, Vida Desafios e Soluções