terça-feira, 21 de novembro de 2017

Versos do Testamento





A solidão: é preciso ser muito forte
para amar a solidão; é preciso ter pernas firmes
e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
pegar um resfriado, gripe ou dor de garganta; não se devem temer
assaltantes ou assassinos; há que caminhar
por toda a tarde ou talvez por toda a noite
é preciso saber fazê-lo sem dar-se conta; sentar-se nem pensar;
sobretudo no inverno, com o vento que sopra na relva molhada
e grandes pedras em meio à sujeira húmida e lamacenta;
não existe realmente nenhum conforto, sobre isso não há dúvida,
excepto o de ter pela frente todo um dia e uma noite
sem obrigações ou limites de qualquer espécie.
O sexo é um pretexto. Sejam quais forem os encontros
― e mesmo no inverno, pelas ruas abandonadas ao vento,
ao longo das fileiras de lixo junto aos edifícios distantes,
que são muitos ― eles não passam de momentos da solidão;
mais quente e vivo é o corpo gentil
que exala sémen e se vai,
mais frio e mortal é o querido deserto ao redor;
é isso o que enche de alegria, como um vento milagroso,
não o sorriso inocente ou a prepotência turva
de quem depois vai embora; ele traz consigo uma juventude
enormemente jovem; e nisso é desumano,
porque não deixa rastos, ou melhor, deixa um único rasto
que é sempre o mesmo em todas as estações.
Um jovem em seus primeiros amores
não é senão a fecundidade do mundo.
É o mundo que chega assim com ele; aparece e desaparece,
como uma forma que muda. Restam intactas todas as coisas,
e você poderia percorrer meia cidade, não voltaria a encontrá-lo;
o acto está cumprido, sua repetição é um rito; pois
a solidão é ainda maior se uma multidão inteira
espera sua vez; cresce de facto o número dos desaparecimentos ―
ir embora é fugir ― e o instante seguinte paira sobre o presente
como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte.
Ao envelhecer, porém, o cansaço começa a se fazer sentir,
sobretudo naquela hora imediatamente após o jantar,
e para você nada mudou; então por um triz você não grita ou chora;
e isso seria enorme se não fosse mesmo apenas cansaço,
e talvez um pouco de fome. Enorme, porque significaria
que o seu desejo de solidão já não poderia ser satisfeito;
e então o que o aguarda, se isto que não se considera solidão
é a verdadeira solidão, aquela que você não pode aceitar?
Não há almoço ou jantar ou satisfação do mundo
que valha uma caminhada sem fim pelas ruas pobres,
onde é preciso ser desgraçado e forte, irmão dos cães.



Pier Paolo Pasolini




Our Hair is an extension to the nervous system





Our Hair 
is an extension 
to the nervous system—Reason why 
Native American Indians 
keep their hair long.



Have you ever wondered why Native Americans keep their hair long?
It’s kinda simple: “Hair is an extension of the nervous system.”

“Hair is an extension of the human nervous system; it can be accurately described as exteriorized nerves, a type of highly developed ‘feelers’ or ‘antennae’ that are able to transmit enormous amounts of important information to the brain stem, the limbic system, and the neocortex.”

The truth is that countless ancient cultures across the planet have the belief that long hair has a unique and special significance. And even though some of these cultures were separated by thousands of miles, many similarities are present among them. Hair was considered an extension of the soul and evidence of that are traditions that many native American Indians have guarded until this day.

For example, the Navajo only cut their children’s hair on the first birthday and avoided cutting again afterward.

But the length of the hair in many ancient cultures was different than what we consider it today.

For many of us, hair is just another stylistic concern; it makes us look better, sometimes younger sometimes older, depending on the length, color, and shape. Hover for most Native Americans hair was by no means a stylistic concern, it was something that went beyond what many of us are capable of understanding even today.

In some cultures, hair symbolizes not only an extension of the soul, but it symbolizes physical strength and virility; in other words, the virtues and properties of a person are said to be concentrated in his hair and nails.

But some would say that our hair tells a lot about us, on a much deeper level. Some would agree that by cutting your hair, you lose a small part of that unique relationship with oneself.

Also, there are many ways you can actually wear your hair according to Native tradition.

And there is a way to wear the hair for ceremonies and dances. For countless Native American cultures, braided hair meant unity with the infinite, and allowing the hair to flow freely signified the free flow of life.

But if we look at American history, Native Americans and especially the war that took place in Vietnam we’ll encounter fascinating details.

Unlike what many may believe, hair may serve a much bigger purpose than as just an accessory.

And while ”hair” is a matter of personal preference, we learn a lot from Native Americans when it comes to the way they wear their hair.

During the War in Vietnam, the American military was in search for talented, young men—trackers—that could navigate their way in stealth across the enemy terrain. Special Forces in the war department sent undercover experts to comb American Indian Reservations where they found countless brave young men who were more than adequate for the task.

Upon recruiting them, they carefully cataloged their abilities and talent’s and rapidly discovered that they were perfectly suited for the task.

Soon after the young men were recruited/enlisted, and after going through the countless rituals of joining the army, the skills and talents which were ever-present seemed to vanish. Confused the army started searching for answers and turned to some of the Native American elders who without hesitating answered how when their young men received the mandatory haircut after joining the military, they could no longer “sense” the way they did before. Their almost supernatural abilities—their intuition—disappeared.

After more recruits were gathered from Native American tribes, they decided to perform tests and see what was going on, and whether “the length of hair” had anything to do with their abilities.

After recruits were gathered, they let them keep their long hair and submitted them to tests in countless areas. After several tests where “trackers” with long hair competed against others with short hair, experts found how trackers with longer hair had access to something like a ‘sixth sense’ with an intuition much more reliable when compared to men with short hair.

As noted by C. Young on Sott,

“Hair is an extension of the human nervous system, it can be accurately described as exteriorized nerves, a type of highly evolved ‘feelers’ or ‘antennae’ that are able to transmit vast amounts of important information to the brain stem, the limbic system, and the neocortex.”

It is perhaps best explained by Chief Golden Light Eagle in this video:






in, Ancient Code





The path isn't a straight line; its a spiral





"The path isn't a straight line; its a spiral. You continually come back to things you thought you understood and see deeper truths." 
– Barry H. Gillespie



segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A um Papa






Poucos dias antes que você morresse, a morte
pusera os olhos num outro de sua idade:
aos vinte, você era estudante, ele, trabalhador braçal,
você, nobre e rico, ele, um rapazote miserável e plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre suas cabeças
a velha Roma que tanto se renovava.
Vi seus despojos, pobre Zucchetto.
Zanzava à noite embriagado, em torno dos Mercados,
quando um eléctrico que vinha de San Paolo o atropelou
e arrastou um bom tanto pelos trilhos entre os plátanos:
por algumas horas ficou ali, debaixo das rodas:
pouca gente se aglomerou ao redor para vê-lo,
em silêncio: era tarde, havia poucos passantes.
Um dos homens que existem para que você exista,
um velho policia desbocado e troglodita,
berrava a quem se encostava demais: “Fora, cambada!”.
Depois veio o automóvel de um hospital para levá-lo:
o povo foi embora, aqui e ali ficaram uns farrapos,
e a dona de um bar noturno pouco adiante,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto fora arrastado por um elétrico, se acabara.
Poucos dias depois você acabava: Zucchetto fazia parte
de seu grande rebanho romano e humano,
um pobre bêbado, sem família e sem tecto,
que vagava pela noite, vivendo quem sabe como.
Você não sabia nada sobre ele: e não sabia nada
sobre outros milhares de cristos como ele.
Talvez eu seja cruel ao me perguntar por que razão
gente como Zucchetto fosse indigna de seu amor.
Há lugares infames onde mães e crianças
vivem numa poeira antiga, numa lama de outras eras.
Não muito longe de onde você viveu,
com vista para a bela cúpula de São Pedro,
há um desses lugares, o Gelsomino…
Um monte cortado ao meio por uma pedreira, e em baixo,
entre um canal e uma fila de prédios novos,
um amontoado de construções miseráveis, não casas, mas pocilgas.
Bastava apenas um gesto seu, uma palavra,
para que esses seus filhos tivessem uma casa:
você não fez um gesto, não disse uma palavra.
Não se pedia a você que perdoasse Marx! Uma onda
imensa que se refrange há milénios de vida
o separava dele, da religião dele:
mas em sua religião não se fala de piedade?
Milhares de homens sob o seu pontificado,
diante de seus olhos, viveram em currais e pocilgas.
Você sabia de tudo: pecar não significa fazer o mal;
não fazer o bem, isto é que é pecar.
Quanto bem você podia ter feito! E não fez:
nunca houve um pecador maior que você.



Pier Paolo Pasolini
in, "La Religione del mio tempo"





Geometry by Rudolf Steiner





"Geometry is knowledge that appears to be produced by human beings, yet whose meaning is totally independent of them." 
 – Rudolf Steiner



misogyny is not a male-only attribute





It is impossible to be feminist and not be appalled by the complicity of women in their own oppression.
But it is impossible to be a woman and not have some knowledge of how this works.
If one grows up in a culture in which one’s self-worth is measured primarily by one’s desirability to men, then your energy is consumed into this horizontal competition with other women that can never be totally won. 





For power is never simply a possession but an exercise; power is about how we understand ourselves. Feminism seeks to unpick all the tiny ways in which we are bound.
Everywhere we look, there are women hating other women for business or pleasure: those who don’t want a female boss; who don’t want positive discrimination; who like strip clubs and porn as much as the boys; who don’t want to worship in churches with female priests; who want to force other women to give birth to children they don’t want; who say FGM is “cultural”; and who get off on body shaming.

On and on it goes.
How can we be surprised that misogyny is not a male-only attribute?

Far from it.

As the American satirist HL Mencken defined it,
a misogynist is “a man who hates women as much as women hate one another”.

Which is immeasurably.



Suzanne Moore
in, The Guardian







domingo, 19 de novembro de 2017

A RECESSÃO





Reveremos calças com remendos
vermelhos pores do sol sobre as aldeias
vazias de carros
cheias de pobre gente que terá voltado de Turim ou da Alemanha
Os velhos serão donos de suas muretas como poltronas de senadores
e as crianças saberão que a sopa é pouca e o que significa um pedaço de pão
E a noite será mais negra que o fim do mundo e de noite ouviremos os grilos ou os trovões
e talvez algum jovem entre aqueles poucos que voltaram ao ninho tirará para fora um bandolim
O ar terá o sabor de trapos molhados
tudo estará longe
comboios e autocarros passarão de vez em quando como num sonho
E cidades grandes como mundos estarão cheias de gente que vai a pé
com as roupas cinzas
e dentro dos olhos uma pergunta que não é de dinheiro mas é só de amor
somente de amor
As pequenas fábricas no mais belo de um prado verde
na curva de um rio
no coração de um velho bosque de carvalhos
desabarão um pouco por noite
Mureta por mureta
Tecto em chapa por tecto em chapa
E as antigas construções
serão como montanhas de pedra
sós e fechadas como eram uma vez
E a noite será mais negra que o fim do mundo
e de noite ouviremos os grilos e os trovões
O ar terá o sabor de trapos molhados
tudo estará longe
comboios e autocarros passarão
de vez em quando como num sonho
E os bandidos terão a face de uma vez
Com os cabelos curtos no pescoço
e os olhos de suas mães cheios do negro das noites de lua
e estarão armados só de uma faca
O tamanco do cavalo tocará a terra leve como uma borboleta
e lembrará aquilo que foi o silêncio o mundo
e aquilo que será.


PIER PAOLO PASOLINI




AMPLIAR O PODER DO OBSERVADOR





O Poder Quântico do observador 
é algo natural, 
é uma função da sua consciência, 
uma vez que a existência da matéria 
exige que uma mente esteja presente, 
caso contrário nada existe. 



Isto é uma perspectiva revolucionária.
Se a nossa realidade depende da atividade da nossa mente, um raciocínio simples e lógico é:
Se eu mudar a forma da minha atividade mental eu altero, portanto, a realidade.

Esta alteração na realidade significa mudar a cadeia de eventos que te levam a uma realidade almejada. Experimentar uma realidade envolve tornar a possibilidade uma experiência consciente. O poder do observador pode ser amplificado se o seu nível de observação for forte o bastante, isto requer desenvolver um foco maior e aumentar o nível da sua energia.

Sempre que acordas para começar o teu dia, o mundo lá fora até que tu o observes é uma grande superposição, ou seja, vários estados potenciais de realidade.

Como te preparas para observar o teu mundo quando acordas? 
Por outra palavras, qual o tipo de pensamento que desencadeias logo cedo? 

  • Ir para a luta? 
  • Ter que matar um leão? 
  • Enfrentar as dificuldades? 
  • Resolver problemas? 
  • Ou se abrir para o campo das possibilidades infinitas?


O poder do observador representa a possibilidade de criarmos além das nossas rotinas, e despertar cada vez mais o maior número de possibilidades para ampliar a nossa realidade.
Se realmente entenderes isto que expus, estarás realmente a adoptar o paradigma quântico na prática da tua vida. Um observador modifica o estado potencial de uma partícula.
Uma partícula tem vários futuros possíveis.
Quando um observador olha uma partícula ele decide o futuro que ela irá viver.
Tu és um participante desta experiência.

Quando uma pessoa, por exemplo, se determina a parar de fumar ela inicia e opta por começar uma mudança de estilo de vida na sua rotina para superar o vício em tabaco. No entanto, quando ela não consegue ela convence-se de que não teve força de vontade suficiente.

É aqui que se encontra a chave.
É claro que faltou força, energia, mas não de vontade.
É necessário um nível de energia alto para que o acto quântico da observação tenha realmente o poder de interferir na realidade de forma consistente e plasmar uma nova realidade, seja ela qual for e superar o padrão repetitivo.

Para tal, é fundamental incrementar o potencial de energia para expandir o poder do observador.

As pessoas ficam muito preocupadas em manifestar uma nova realidade, mas descuidam-se quanto ao seu potencial de energia, ao ponto de chegar ao nível crítico, ou seja, stress agudo. 


Abaixo alguns hábitos que enfraquecem o poder do observador:

1- Discussões improdutivas / Reversão: Lembra-te que quem quer ter razão é o teu ego. O teu espírito quer estar em paz.

2- Dormir pouco ou dormir em excesso. / Reversão: Preza por uma boa qualidade de sono, procurando não dormir muito tarde.

3 - Excesso de atividade mental( pensar demais) / Reversão: Cria um espaço para ficares em silêncio. 5 minutos por dia, para começar, irá fazer uma grande diferença. Apenas fecha os olhos, sozinho e presta atenção na tua respiração. Quando inspirares, projecta um pouco o abdómen, quando expirares retrai. Isto produz rapidamente uma desaceleração mental.

4 – Julgar e criticar as outras pessoas e a si mesmo / Reversão: Abstém-te de julgamentos e críticas, e presta atenção no momento em que o impulso automático do julgamento surge.

5- Queixar-se. A queixa cria lastro que te mantém preso na realidade problemática / Reversão: Aumenta a tua fixação no teu corpo, lembrando-te da tua respiração várias vezes ao dia. Isto irá ajudar-te, gradualmente, a ficares no teu corpo e não no futuro.

6- Pouca ingestão de água. A água é uma interface fundamental entre a mente e corpo, ela armazena informações, veicula e renova. Um corpo desidratado exigirá muito mais energia da tua consciência para compensar o seu funcionamento do que um corpo realmente bem hidratado. Parece que o imprint da criação, a semente de uma nova realidade, usa a água como meio de armazenamento e a comunicação cerebral funciona melhor num ambiente biológico bem hidratado / Reversão: Ingire mais água proporcional ao teu peso.
Faz o seguinte cálculo e encontrarás quanto precisas ingerir: 0.045 x “TEU PESO''.

7 – DORMIR POUCO. O sono é um fenómeno essencial para fortalecer a tua mente e contatar a dimensão da consciência quântica. Além de regular a tua saúde psicofísica / Reversão: Procura dormir com constância a partir das 23:00, pois assim, aproveitarás o ciclo da Melatonina, uma hormona essencial que regula o teu calendário neuroendócrino e quebrará o ciclo vicioso do stress que reduz o teu poder de criação de realidade.


Incorpora estes hábitos e verás que naturalmente o teu poder de observação, bem como a tua mente ganhará mais eficiência quântica em mudar a tua realidade.



Horácio Frazão





sábado, 18 de novembro de 2017

Uma fome infinita de amor





Só tu no mundo conheces o meu coração
o que sempre fui, antes de qualquer amor.

Cabe-me por isso dizer-te o que é horrível reconhecer:
no seio da tua graça germina a minha angústia.

És insubstituível. Está condenada
à solidão a vida que me deste.

E se não quero estar só! Tenho uma fome infinita
de amor, do amor dos corpos sem alma.
Porque a alma está em ti, és tu...



Pier Paolo Pasolini
in, Poesia in Forma di Rosa





Relacões tóxicas são semelhantes à dependência de drogas




Qual é a tua droga?



Já foste viciada em droga?
Eu já.

De uma forma tão doentia que tudo na minha vida deixou de fazer sentido diante dela. Minha alegria, minha tristeza, meu tempo, minhas decisões, meus anseios, tudo no meu dia dependia dela. Se recebesse a minha dose diária tudo ficava bem mas se me faltasse, me faltava o chão, o foco, a direcção, a respiração, a vontade de acordar. Sem ela, me faltava eu. E tu que respondeste sim, sabes bem do que eu estou a falar. Ou talvez não. Vai depender do potencial para causar dependência que a tua droga tinha. A minha tinha muito.

Tal como uma droga, o AMOR TÓXICO tem o poder de destruição e causa uma devastadora dependência no ser humano.


O meu vício tomou conta de mim de tal forma que para me manter a receber as minhas doses diárias de “alegria”, negociei valores inegociáveis, perdi os sentidos, os significados, o contaxto com os meus valores, com a minha dignidade e o meu autorrespeito. 
Eu me perdi e só me encontrava nela.

Seu mecanismo de ação é bem simples:
Um belo dia és apresentada às primeiras doses que invariavelmente vão trazer-te uma sensação jamais experimentada de bem estar e alegria. A partir daí tudo se desenvolve muito rápido e passas a viver num paraíso de luz, leveza e riso, o que te vai fazer perguntar o que fizeste para merecer tanto carinho, tanta atenção, tanto….AMOR!

As sensações são tão ricas e genuínas que abandonas as tuas armas e embarcas numa viagem extraordinária e definitiva. O teu mundo a preto e branco ganha cores, renova-se e a tua cabeça começa a construir sonhos lindos sem qualquer embasamento na realidade e passas a alimentar-te e a viver exclusivamente deles e para eles.

E é quando tu estás embevecida, dependente daquela atenção e preguiçosa contigo mesma que o amor tóxico mostra as suas verdadeiras cores. É neste momento que todas as sensações boas do início se transformam. A sua face dócil assume uma face sombria e tudo o que era quente, gela; tudo que era claro, escuro; tudo o que era certeza, dúvida.

Ao experimentar um amor tóxico, todos os acessos aos teus sonhos e medos são libertados e tudo o que tiver sido aprendido sobre ti durante aquele período será usado como armas letais com o objetivo único de humilhar e demonstrar o quanto tu és fraca e dependente; com o objetivo único de te destruir.

Numa reação natural, ficas confusa e, sem entender o que mudou, lutas com todas as tuas forças para encontrar de novo na tua droga aquela beleza que pouco antes trazia para a tua vida.
E que batalha inútil tu travas! 
E que desfecho estarrecedor, medonho e tenebroso!
Buscas a sua face mais linda, aquela guardada na tua memória, mas a única coisa que encontras é uma realidade horripilante, desconcertante e divorciada de tudo aquilo que um dia ela lhe proporcionou.

Num dado momento nada faz sentido e tu viras um trapo, uma pseudo pessoa, uma pedinte, uma escrava faminta enquanto ela, a tua droga, posa soberana no seu reino obscuro e solitário, e observa-te lá de cima do seu trono, de onde ora toca a tua cabeça com alguma misericórdia, ora olha para ti com desprezo e diz: “ és mesmo patética.”

Pensas em correr para longe dali, mas não encontras nem a saída, nem a força, pelo simples facto que de vez em quando, ao perceber o teu esforço para te libertares, ela vai presentear-te com uma daquelas lindas sensações do início e tu, ainda que por pouco tempo, sentir-te-ás viva.

É necessário um enorme esforço para se libertar de um vício, mas é necessário um esforço imensurável para se livrar do vício de um amor tóxico. É preciso pedir a todos os santinhos que segurem a tua mão e te conduzam para fora daquele quarto escuro e sem janelas. É necessário reconectares-te com a pessoa que tu eras antes daquilo. É preciso encarar a dura constatação de que amaste a tua droga por todas as boas sensações que ela te trouxe, mas a tua droga nunca te amou.

Drogas não amam, simplesmente causam dependência e só saem da tua vida quando estiveres morta. Saem da tua vida para entrar na vida de outra pessoa e reiniciar o ciclo.

Haverá um período longo, negro e doloroso de abstinência e será necessário lutar contra a força irresistível que te fará por vezes esquecer dos horrores, dizendo-te para te agarrares, como uma criança com medo de abandono, às boas lembranças que, dolorosamente, só existem na tua cabeça.

Sabe, porém, que vencida a abstinência brutal, é necessário lembrar que uma vez viciada, existe sempre a tendência ao vício, ela permanece e, portanto, é preciso um exercício diário em que deverás recordar constantemente a ti mesma que és um Ser Individual Completo, que a tua felicidade não se encontra em alguém ou lugar algum fora de ti mesma e que nenhuma fonte de amor é maior que a tua. Tu precisas ser a tua fonte inesgotável de AMOR PRÓPRIO.



Lucy Rocha