quarta-feira, 28 de junho de 2017

O Meu Desejo





Vejo-te só a ti no azul dos céus,
Olhando a nuvem de oiro que flutua...
Ó minha perfeição que criou Deus
E que num dia lindo me fez sua!

Nos vultos que diviso pela rua,
Que cruzam os seus passos com os meus...
Minha boca tem fome só da tua!
Meus olhos têm sede só dos teus!

Sombra da tua sombra, doce e calma,
Sou a grande quimera da tua alma
E, sem viver, ando a viver contigo...

Deixa-me andar assim no teu caminho
Por toda a vida, Amor, devagarinho,
Até a morte me levar consigo...



Florbela Espanca






Inveja é comparação





Inveja é comparação.
E fomos ensinados a comparar, fomos condicionados a comparar, comparar sempre.
Alguém possui uma casa melhor, alguém tem um corpo mais bonito, alguém tem mais dinheiro, alguém possui uma personalidade mais carismática.

Compare, continue comparando a si mesmo com todo mundo que você encontrar, e o resultado será uma grande inveja; ela é o sub produto do condicionamento da comparação.
Por outro lado, se você deixa de comparar, a inveja desaparece.
Você simplesmente sabe que você é você e ninguém mais, e que não há nenhuma necessidade de ser outro alguém.


Osho




O tabu da monogamia





O medo de ser trocado, 
abandonado, 
o medo de a cara-metade encontrar alguém 
mais interessante e saltar de banda 
ainda parece ser o motor da monogamia 
nos dias de hoje.


 A psicanalista Regina Navarro  propõe a seguinte reflexão acerca da monogamia ao falar sobre seu “O livro do amor” :

“A exclusividade sexual é a grande preocupação de homens e mulheres. Mas ninguém deveria se preocupar se o parceiro transa com outra pessoa. Homens e mulheres só deveriam se preocupar em responder a duas perguntas: Sinto-me amado(a)? Sinto-me desejado(a)? Se a resposta for ‘sim’ para as duas, o que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito. Sem dúvida as pessoas viveriam bem mais satisfeitas”.

Trata-se de um pensamento bastante lúcido. Uma pena não termos, ainda, aparato emocional para vivenciarmos o amor de maneira livre, natural e espontânea como ela sugere.

Fato: não temos como controlar o desejo do outro! E caso nosso parceiro sinta desejo por outra pessoa isso não quer dizer necessariamente que não nos ame.

Quem foi que associou o amor à exclusividade?

A História dá conta de que a monogamia foi inventada por questões patrimoniais: os homens precisavam ter a certeza de que seus filhos eram herdeiros legítimos. A Igreja Católica apenas consolidou, tempos depois, essa necessidade social, associando a não exclusividade matrimonial ao pecado.

Na teoria é fácil, né?
Porém, na prática, não resolve muita coisa ter esse tipo de informação.

Na realidade não suportamos nem mesmo a ideia de que o nosso par possa olhar para o lado quando estamos num restaurante, que dirá que tenha outro parceiro.

Mas de onde vem isso?

Imagino que seja do medo do abandono! 
O amor nada tem a ver com isso.

Nem mesmo Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, casal mais conhecido por manter  “um relacionamento aberto” numa época extremamente conservadora, conseguiram viver essa experiência sem sofrimento. Beauvoir era uma escritora autobiográfica e no seu livro “A mulher desiludida”, por exemplo, fica exposta toda a angústia que ela sentia quando Sartre (no livro, André) se enroscava com outra pessoa.

Pesquisas apontam que nunca se traiu tanto. Homens e mulheres. Isso não quer dizer que não traíssem antes, quer dizer apenas que antes não confessavam.  No entanto, a culpa é quase sempre um elemento presente, são raras as pessoas que traem sem sentir que estão cometendo algum delito.

Às vezes uma relação leal é muito mais satisfatória que uma relação fiel.
Muitos casais fiéis são desleais: agridem-se uns aos outros, não se ajudam mutuamente, só pensam nas próprias necessidades, ridicularizam-se em público. Ao passo que alguns casais infiéis (como Sartre e a Simone) são extremamente leais e companheiros até ao fim.

Segundo Regina Navarro“na segunda metade do século 21, provavelmente, as pessoas viverão o amor e o sexo bem melhor do que vivem hoje”.



O medo de ser trocado, abandonado, o medo de a cara-metade encontrar alguém mais interessante e saltar de banda ainda parece ser o motor da monogamia nos dias de hoje, pois a monogamia nos oferece a falsa ilusão de que estamos protegidos, seguros e que não seremos abandonados. Ela não está relacionada ao amor. Até porque o amor pode acabar e se acabar seremos abandonados da mesma forma.

A gasolina desse motor?
Ao que tudo indica, é o desejo de ser único e absoluto.

Ora, se a vida às vezes não colabora; se não conseguimos a posição que desejamos no mercado de trabalho, se não conseguimos ser os queridinhos da família, se nos deparamos com nossas falhas o tempo todo, o amor do outro surge para nos redimir, nos tornar únicos, especiais, essenciais. O amor do outro acaba se transformando numa ilha onde aportamos os pés cansados de caminhar na dura realidade.


Mas quem é que pode assegurar, 
com a régua da certeza em punho, 
que não é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo?


Há alguns anos, o cineasta João Jardim apresentou uma série interessantíssima no canal GNT (disponível no NET NOW), chamada “Amores Livres”, onde discute o tema. Trata-se do registo (e de depoimentos) de pessoas que vivem o amor de maneira espontânea, liberta, pessoas que experimentam o Poliamor.
Quem poderá assegurar que não se trata de amor verdadeiro o que eles experimentam?
Eu, particularmente, ao assistir a série, pensei: “Que gente mais evoluída”!

Ocorre que, quando a farinha é pouca o nosso pirão vem primeiro. Padecemos de uma carência de afeto e de uma necessidade de amor primordial que não nos permite sequer sonhar com a possibilidade de dividir nossa farinha, digo, parceiro-que-nos-ama com outra pessoa.

Já vi inúmeros casais que se amavam profundamente destruídos porque uma das partes descobriu “a traição” do outro. Pessoas que se davam bem, divertiam-se juntas, eram companheiras. Pessoas que deram cartão vermelho para seus pares e depois passaram praticamente uma vida inteira chorando e lamentando a perda.

Se ambos queriam continuar juntos, se ambos se amavam, por que não?

Claro que não estou me referindo aos safados e safadas de plantão – que são comprometidos (as), porém agem como se não fossem; que espalham sorrisos e cantadas para qualquer maldito (a) e se deitam com o primeiro peixe que cai na rede. Estes (as), talvez, não amem nem eles (as) mesmos (as), quanto mais uma ou duas pessoas ao mesmo tempo.

Em sua entrevista, Navarro também propõe outra reflexão interessante:

 “A busca da individualidade caracteriza a época em que vivemos; nunca homens e mulheres se aventuraram com tanta coragem em busca de novas descobertas, só que, desta vez, para dentro de si mesmos. Cada um quer saber quais são suas possibilidades, desenvolver seu potencial. O amor romântico propõe o oposto disso, pois prega a fusão de duas pessoas. Ele então começa a deixar de ser atraente. Ao sair de cena está levando sua principal característica: a exigência de exclusividade. Sem a ideia de encontrar alguém que te complete, abre-se um espaço para outros tipos de relacionamento, com a possibilidade de amar mais de uma pessoa de cada vez”.

Talvez os nossos netos e bisnetos consigam vivenciar o amor de maneira mais natural e com menos sofrimento. Nós (ou será que estou falando de mim?) infelizmente ainda estamos encharcados dos códigos sociais que nos foram impostos e dificilmente quebraremos esse paradigma; não sem sofrimento. Mas isso, claro, não nos impede de refletir sobre o assunto sem temê-lo.



Torço para que um dia consigamos, 
finalmente, 
morder a maçã de Raul Seixas
para que entendamos de uma vez por todas que 
“o amor só dura em liberdade, o ciúme é só vaidade”…





Mónica Montone




Publiquei a entrevista feita  pelo UOL Comportamento à  psicanalista Regina Navarro AQUI





terça-feira, 27 de junho de 2017

Einstein





INTELIGÊNCIA

“Algo só é impossível até que alguém duvide e prove o contrário.
A maioria de nós prefere olhar para fora e não para dentro de si mesmo".

"Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou. É preciso ir mais longe. Eu penso várias vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho num grande silêncio e a verdade me é revelada".

"Às vezes me pergunto porque eu fui o único a desenvolver a teoria da relatividade. A razão, acho, é que um adulto normal nunca pára para pensar nos problemas de espaço e tempo. Essas são coisas que só as crianças pensam. Mas como o meu desenvolvimento intelectual foi retardado, como resultado eu comecei a me perguntar sobre espaço e tempo somente quando cresci".

"Eu sou suficientemente artista para desenhar livremente na minha imaginação. Imaginação é mais importante que conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação dá a volta ao mundo".

"Uma pessoa inteligente resolve um problema, um sábio o previne."

"Em momentos de crise, só a imaginação é mais importante que o conhecimento."

"Penso 99 vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho no silêncio, e a verdade me é revelada."

" A única fonte de conhecimento é a experiência."

" Chega uma hora em que a mente alcança um plano mais alto de conhecimento mas nunca consegue demonstrar como chegou lá."

" Deveríamos tomar cuidado para não fazer do intelecto o nosso deus; ele tem, naturalmente, músculos poderosos, mas nenhuma personalidade."




CIÊNCIA

"Ciência sem religião é manca. Religião sem ciência é cega".

"A ciência nos afasta de Deus, mas a ciência pura nos aproxima de um criador".

"Algo que aprendi numa longa vida: toda a nossa ciência, medida contra a realidade, é primitiva e infantil - e ainda assim, é a coisa mais preciosa que temos".

"O espírito científico, fortemente armado com o seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingénuas que consideram Deus um ser de quem esperam bondade e do qual temem castigo; um sentimento exaltado semelhante aos laços do filho com o pai; um ser com quem também estabelecem relações pessoais, por mais respeitosas que sejam".

"Como é possível que a matemática, sendo afinal um produto do pensamento humano, que é independente da experiência, seja tão admiravelmente apropriada para os objetos da realidade? Será que a razão humana é, sem recurso à experiência, meramente pelo pensamento, capaz de sondar ("fathom") as propriedades das coisas reais?
Na minha opinião a resposta a esta pergunta é, em poucas palavras: na medida em que as leis da matemática se referem à realidade, elas não são exatas; e, na medida em que elas são exatas, não se referem à realidade."

"Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito".

"A mente que se abre a uma nova ideia, jamais voltará ao seu tamanho original."

" A libertação do poder do átomo mudou tudo exceto o nosso modo de pensar. A solução para este problema reside no coração da humanidade. "

" As coisas mais maravilhosas que podemos experimentar são as misteriosas. Elas são a origem de toda a verdadeira arte e ciência. Aquele para quem essa sensação é estranha, aquele que não consegue parar para admirar e extasiar-se em veneração, é como se estivesse morto: os seus olhos estão fechados. "

" Coloque a sua mão num fogão quente por um minuto, e parecerá uma hora. Sente-se com uma mulher bonita por uma hora, e parecerá um minuto. Isso é a Relatividade."

"A investigação científica baseia-se na ideia de que tudo o que ocorre está determinado pelas leis da natureza... Por esta razão, um investigador científico dificilmente se verá inclinado a crer que os acontecimentos possam ser influenciados pela oração, ou por um desejo dirigido a um ser sobrenatural".




DEUS

"Minha religião consiste na humilde admiração do espírito superior e ilimitado que se revela nos menores detalhes que podemos perceber com os nossos espíritos frágeis e duvidosos. Essa convicção profundamente emocional na presença de um poder de raciocínio superior, que se revela no incompreensível universo, é a ideia que faço de Deus".

"O sábio, consciente da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado, que estão submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. (...) Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo o seu talento não podem desvendar, diante dela, a não ser seu próprio nada irrisório. Esse sentimento desenvolve a regra dominante da sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a escravidão dos desejos egoístas".

"Eu não posso acreditar que Deus tenha escolhido jogar dados com o Universo".

"Foi, é claro, uma mentira o que você leu sobre as minhas convicções religiosas, uma mentira que está a ser sistematicamente repetida. Eu não acredito num Deus pessoal e nunca neguei isso, ao contrário, expressei claramente. Se existe algo em mim que pode ser chamado de religioso, esse algo é a minha admiração ilimitada pela estrutura do mundo até onde a ciência nos pode revelar neste momento".

"Não posso imaginar um Deus que recompensa e castiga os objetos da sua criação, cujos propósitos estão modelados com base em nossos próprios - em resumo: um Deus que não é senão um reflexo da fragilidade humana".

"Acredito no Deus de Espinosa, revelado na harmonia de tudo o que existe, mas não num Deus que se preocupa com o destino e as ações dos homens".

"Minha religiosidade consiste na humilde admiração do espírito infinitamente superior que se revela no pouco que nós, com a nossa dedução fraca e transitória, podemos compreender da realidade. Moralidade é da mais alta importância - mas para nós, não para Deus".

"Eu não acredito na imortalidade do indivíduo, e considero a moral como algo que diz respeito somente aos homens, sem qualquer relação com uma autoridade supra-humana".

"A moda mística destes tempos, que se mostra particularmente no crescimento galopante da chamada Teosofia e espiritualismo, para mim não é mais do que um sintoma de debilidade e confusão. Como nossas experiências consistem em reproduções e combinações de impressões sensoriais, o conceito de uma alma sem corpo me parece carente de qualquer tipo de significado".

"Agora ele foi embora deste estranho mundo um pouco antes de mim. Isso não significa nada. Pessoas como nós, que acreditamos na física, sabemos que a distinção entre passado, presente e futuro é somente uma teimosa e persistente ilusão".

"A religião do futuro será uma religião cósmica, baseada na experiência, e que recusa dogmatismos. Se houver alguma religião que possa lidar com as necessidades científicas, essa seria o Budismo".



VIDA

"A vida não dá nem empresta, não se comove nem se apieda. Tudo quanto ela faz é retribuir e transferir aquilo que nós lhe oferecemos".

"A vida é como jogar uma bola na parede. Se for jogada uma bola azul, ela voltará azul, se for jogada uma bola verde, ela voltará verde, se a bola for jogada fraca, ela voltará fraca, se a bola for jogada com força, ela voltará com força. Por isso, nunca jogue uma bola na vida de forma que você não esteja pronto a recebê-la".

"O ser humano vivencia-se a si mesmo, seus pensamentos, como algo separado do resto do universo - numa espécie de ilusão de ótica da sua consciência. E essa ilusão é um tipo de prisão que nos restringe aos nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto apenas pelas pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá atingir completamente este objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa libertação e o alicerce da nossa segurança interior".

"O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário."

"A realidade é uma ilusão, embora bastante persistente."

"Grandes almas sempre encontraram forte oposição de mentes medíocres."

" Existem apenas dois modos de viver a vida: um é como se nada fosse milagre; o outro é como se tudo fosse um milagre. Eu acredito no último. "

" Nada realmente valoroso surge da ambição ou do mero sentimento de obrigação; surge particularmente do amor e devoção dirigidos aos homens e a coisas objetivas."

" No meio da confusão, encontre a simplicidade. A partir da discórdia, encontre a harmonia. No meio da dificuldade reside a oportunidade."



 
Albert Einstein




Não sei com que outras mãos afagas a sombra do desejo






Com a idade aprendemos
que o amor existe
na confluência de dois verbos:
o verbo recordar e o verbo ensandecer.

A memória mais antiga que guardo do teu rosto
ainda vem prenhe de uma juventude
que eu próprio ajudei a dispersar
no vento
- enquanto lentamente enlouquecia
entre quadros antigos, livros por ler
e a sombra de gatos que percorriam de noite
os telhados do meu desassossego.

A matura idade aproximou-se dos portões
da loucura, desse limiar que reside
entre o desencanto e a mais pura solidão
- e foi aí que inscrevi o teu nome
como se nele coubesse inteira
a eternidade.

Não sei com quantas letras se escreve
a raiz do teu corpo.
Não sei com que outras mãos afagas
a sombra do desejo.
Não sei onde me escondo se perguntas
pelos ecos do passado.

Sei apenas que perdurará para além da morte
o ser inteiro em ti

imperfeito
ausente
mutilado

mas enlouquecendo devagar nas tuas veias.



MANUEL ALBERTO VALENTE 
in, POESIA REUNIDA




One more time with feeling





Most of us don't want to change. 
What we do want is sort of modifications on the original model. 
We keep on being ourselves, but hopefully better versions of ourselves. 

But what happens when an event occurs that is so catastrophic that we just change from one day to the next?
We change from the known person to an unknown person, so that when you look at yourself in the mirror, do you recognize the person that you were, but the person inside the skin is a different person? 

So that when you go outside, the world its the same, but now you are a different person, and you have to re-negotiate your position in the world.
For instance, when you go into a shop to get cigarettes, because this new version of yourself smokes, and the shop owner says, 'How are you?' And you don't know how to answer.
Or when you meet a friend on the street who says some kindness, and suddenly you are crying their arms for ages, and then you realize that person is not a friend at all, but someone else that you don't actually know very well.
Or you go into a bakery to buy a loaf of bread, say, and you're standing in the queue, and someone grabs you by the arm says something with their kind eyes, but you can't work out what they've said because the new you can't hear very well. And so you say, 'What?' but too loudly, and angrily and he says, 'We are all with you, man,' and you look around and all the bakery is looking at you with kind eyes. And you think that people are really nice.

But when did you become an object of pity? 


Nick Cave





                             






segunda-feira, 26 de junho de 2017

E por vezes






E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos  E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos



David Mourão-Ferreira 
in, 'Matura Idade'





Da inexorável morte do amor





Queimar tudo.
Alugar uma casa num lugar sem história na história da minha vida, um lugar de postais antigos, desbotados, e do passado guardar apenas uma urna de cinzas, no compartimento por baixo do lava-louças.
Ver filmes sem mérito, ler livros sem arte, ouvir óperas cómicas e inêxitos impopulares e anacrónicos.
Tentar, sem sucesso, pescar, e ir ao mercado comprar peixe miúdo e roupas com defeitos às ciganas.
Ser anónimo por fora e por dentro, criança que não se conhece nem quer conhecer e que procura apenas o início e o fim dum carreiro de formigas, revelação suficiente para quem ainda não desperdiçou a vida a perscrutar os gloriosos fundos de um oceano de merda.
Beber pouco.
Foder com a moderação que a improbabilidade do diálogo impõe.
Emular os pioneiros americanos, pecadores em busca de recomeço e horizonte, longe das catedrais e de si próprios, longe dos quiromantes e das sibilas e, sobretudo, da inexorável morte do amor.


Miguel Martins




Não fujas que eu sei que tu gostas





A sua pombinha era eu. Chamava-me, vem cá menina, e a voz antecipando-se amolecida, ou então agarrava-me quando passava por ele pelas esquinas da casa, puxava-me contra si, encostava-se todo, crescia, eu atirava a cabeça para trás a barriga para a frente, crescia com ele, e gostava. A sua pomba gostava.
Nem me recordo bem. Foi primeiro um empurrão, estava eu a comentar que o vizinho do terceiro tinha enviuvado, que desperdício, tão novo e bem parecido, logo havia de encontrar… e veio o empurrão. Não caí. Olhei para ele surpreendida, protestei, supliquei. Desculpou-se, ou em jeito de desculpa agarrou-me, encostou-se como de costume, suámos ambos, gememos ambos. Nem sequer perdoei. Esqueci.

A estalada chegou na semana seguinte. A propósito de… A sopa gelada? Demasiado salgada? Os vincos na camisa do escritório? A conversa com a D. Adelina do quiosque que atrasou o jantar? Um olhar de esguelha para o vizinho? Já não sei. Apanhou-me o olho direito. Levei a mão ao rosto. Encolhi-me. Foi só uma. Baixei a cabeça. Comecei a chorar, primeiro muito devagar, as lágrimas lentas, logo mais velozes, o olho que ardia, os dois olhos escorrendo, como se vazando-se, o corpo a estremecer, sacudindo-o os soluços. As pombas não choram. Esperou alguns segundos, parado a ver-me, como se. Como se certificando-se de que eram lágrimas verdadeiras, sentidas. Arrependida. E logo os mesmos gestos, a mansidão na voz, vem cá pequenina, o seu corpo tenso, teso, forte, os braços protegendo-me, de quê, de mim própria talvez, era isso que ele dizia, tu não sabes, tu és uma ingénua, se não fosse eu, tu, minha pombinha, anda cá que eu faço-te um filho, faço-te quantos quiseres, põe-te a jeito, isso, deixa-te cair, isso, que eu agarro-te, isso… Isso.

Um ano daquilo. Dois anos daquilo. Nenhum filho. Estaladas, sim, empurrões, sim, pontapés, sim. Eu continuava a baixar a cabeça, encolhendo-me, tornando-me pequena, a proteger o rosto com as mãos, mas perdia-lhe o medo. Ganhava-lhe ódio. E, quando se encostava a mim, a pombinha já não pedia mais, já não gemia, já não atirava a cabeça para trás. Já não gostava. E começava a criar garras.

Lembro-me de que dantes me enternecia quando atravessava a praça da figueira, lágrimas rasando os olhos, as pombas arrulhando, os velhos dando-lhes sobras de pão, as pombas arrulhando, e eu, eu, uma de entre elas, arrepiando-me toda, esfomeando-me, ansiosa por chegar a casa e deixar-me escorregar e cair.

Anos daquilo. Quando o eléctrico me deixava na praça, já sentia asco. Anos daquilo. Quando o eléctrico parava, eu descia e já não olhava, já não ouvia. Não sentia nada, nada, a não ser uma estranha força que se apoderava dos meus pulsos, dos meus dedos, das minhas unhas, tenso o corpo, teso, preparando-se sem saber. A pombinha estava morta. E eu já nem chorava, em silêncio cirandava afiando as garras nas esquinas da casa. E espreitava a oportunidade.

Há muito fora enterrada, a pombinha, quando me partiu um braço. Levou-me às urgências. Marido consciencioso, grande cabrão, todo falinhas mansas para as enfermeiras, despindo-as com os olhos, trincando-as, dizimando-as com as palavras, a mim já só se encostava por desfastio, e o seu desejo, vago, vezeiro, ia encorpando o meu ódio, escorregou a minha pombinha, vejam só, tão desastradazinha que ela é, sim, pois, nas escadas. As pombas mortas não escorregam. A casa não tem escadas. Tem esquinas.
Não, pois já se me tinha morrido, aquela brutalidade. Não, pois se eu própria também já tinha morrido. Os mortos não matam, apenas continuam morrendo. Que podem dois mortos um contra o outro?

A sua pomba era eu. Passava por mim ou procurava-me pela casa, ao virar de uma esquina, poucas, porque a casa era pequena, ainda assim mais do que bastante, agarrava-me pela cintura, enfiava as mãos na minha camisola, debaixo da minha saia, anda cá, anda cá, não fujas que eu sei que tu gostas, e eu a fingir, diz lá se não, diz lá que não, e eu que não que não, minha pombinha, vou dar-te a volta à cabeça, a esse corpinho tão jeitoso, ia falando e tirando a roupa, a minha, a dele, e depois, depois, se eu gostava, como eu gostava, o corpo dele metamorfoseando-se numa só mão, o meu também, as duas mãos de um só corpo, nosso ou nem sequer, uma onda de espuma que me entontecia, as pernas trôpegas, a boca cheia, a pele revirada, os olhos ardendo insones, os órgãos enlanguescendo-se. Sangue, silêncio, sémen.

Inocente e culpada, tanto se me dá, tanto se me dá. É como disser.
Senhor doutor juiz.



Bénédicte Houart




domingo, 25 de junho de 2017

Muse - Feeling Good (Video)




A Nina Simone, é a Nina Simone...
Mas os Muse, fizeram uma versão muito sua, que não fica nada atrás...adorei!