quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Buleria del Ay Salamandra

Amo-te e não é a brincar





Não há nada mais transparente do que o amor
Deitado como morto na sua ilusão
Tenso e erecto na sua verdade.

Nascer estando a olhar cada entardecer
Dormir surdo encostado ao mal
Sonhar sem se colocar em causa.

O caminhar plúmbeo das lágrimas
Sobre as grandes pedras e o nosso júbilo
Pelas folhas verdes que vemos no bosque.

Eu sou um animal estranho
Falo-te com as orelhas que tenho
Com a voz que falo escuto e te entendo.

Corredor do evidente-opaco
Ser ou sonhar que se é
Sobreviver a si mesmo ou voltar a nascer.

Na primeira vez que te vejo dou-te um beijo
Na vez seguinte tratas-me por tu
E para sempre dou-te a minha fé.

Nada tenho a ganhar
Amo-te demasiado para te perder
Amo-te e não é a brincar.


Paul Éluard




Tenzin Gyatso, 14º Dalai Lama





Dalai Lama (1935) é um Monge Budista e líder espiritual tibetano.
Tenzin Gyatso, originalmente Lhamo Dhondrub, é o 14° Dalai Lama.
É alegre e curioso. Demonstra querer saber tudo como se, aos 82 anos, ainda fosse uma criança a descobrir o mundo. Inquire seus circundantes a todo momento. Como se todas as pessoas lhe interessassem.
O Dalai coloca-se como apenas um velho monge que deseja paz e felicidade a todas as pessoas. Não se arvora nenhum caráter divino. Tanto que assume seus defeitos em público: leves irritações e uma obsessão por relógios que o acompanha desde criança, quando queria ser engenheiro e montava e desmontava qualquer máquina que encontrasse no Potala, centro religioso e político localizado na capital do Tibete, Lhasa.
Dalai Lama é mundialmente reconhecido como a entidade máxima da escola do budismos tibetano. 
O primeiro Dalai Lama remota ao século XXIV.
O Dalai Lama é reconhecido como uma manifestação de Avalokiteshvara ou Chenrezig, o Bodhisattva da Compaixão e padroeiro do Tibete.
Os Bodhisattva são seres iluminados que adiaram a sua entrada no outro mundo e escolhem renascer para servir a humanidade e ajudar na paz do mundo.

Para os adeptos do budismo em suas mais diversas ramificações, ele é a Sua Santidade.
Corresponderia à figura do Papa na Igreja Católica. 
A grande diferença é que, quando um Papa morre, seu substituto é eleito. Quando o Dalai morre, a cúpula do budismo sai pelo mundo em busca da sua reencarnação num bebé que tenha nascido, no máximo, alguns anos depois da morte do seu antecessor.
Identificado por meio de uma série de longos testes nos quais precisa reconhecer objetos pessoais do último Dalai Lama no meio de bugigangas comuns, o futuro Dalai passa a morar num mosteiro onde, desde criança, é educado para a função que vai assumir aos 18 anos. Ao entrar no templo, muda de nome. 
Tenzin Gyatso, por exemplo, nasceu Lhamo Thondup.

Muitos perguntam se o Dalai Lama é a reencarnação de Buda.
A questão está mal formulada.
É que há, segundo o budismo, centenas de budas espalhados pelo mundo. 
Siddhartha Gautama, ou Buda Shakyamuni, talvez o mais famoso deles, imortalizado em livro pelo escritor alemão Hermann Hesse, foi o quarto Buda. 

O Buda, portanto, não é uma entidade única nem um ser sobre-humano.
Considera-se Buda (a palavra significa “O Desperto”) o indivíduo que tenha “acordado do sono da ignorância”, para usar a terminologia budista, depois de muito trabalho mental e espiritual. A “iluminação” pode acontecer com qualquer um e é justamente esse o cerne da doutrina budista.

Quanto ao Dalai Lama, nome que significa “Oceano de Sabedoria”, acredita-se que ele e os seus 13 antecessores são reencarnações de um desses budas, Avalokiteshvara, conhecido como o Buda da Compaixão. O título de Dalai Lama foi concedido pela primeira vez em 1578, pelo príncipe mongol Altan Jan, à terceira reencarnação do Buda da Compaixão. O agraciado foi o abade Gedun Drub, um difusor do budismo que recebeu o título postumamente, junto com seus antecessores, o primeiro e o segundo Dalai Lama.

Enquanto estava no governo do Tibete, residia no Palácio de Potala ao longo do inverno e na morada de Norbulingka durante o verão, na capital deste país, Lhasa. 
Mas isso só foi permitido ao mestre até 1959, quando os chineses do regime comunista invadiram o Tibete. Desde então o Dalai Lama vive no exílio, na Índia, na localidade de Dharamsala, onde vive numa pequena cabana e de onde exerce seu governo. 

Este monge é doutor em filosofia Gorgon, ganhou o Prémio Nobel da Paz de 1989 e detém pelo menos cem títulos honoris causa. Não é por acaso que ele é tão respeitado no mundo todo, pois hoje ele é uma rara presença espiritual em busca do diálogo, da paz e da compaixão.

Na história do Tibete, religião e política se tornaram uma coisa só, o que resultou num Estado Teocrático, ou seja, um país governado por um líder religioso, representante da divindade no plano terreno.
Este governante é um Monge e um Lama – que significa guru, mestre, aquele que orienta seus aprendizes. Este orientador espiritual é aceite por todas as escolas budistas, principalmente pela escola Gelug.

A palavra Dalai significa ‘oceano’ em mongol, e muitas vezes referem-se a este líder como ‘Oceano de Sabedoria’, especialmente a partir do terceiro Dalai Lama, Altan Khan, que foi designado dessa forma pelo governo da Mongólia, título transmitido agora para todos os seus sucessores. Estes mestres são considerados a manifestação física de Avalokiteshvara, o ‘Bodhisattva da Compaixão’ – entidade de alta sabedoria que tem como objetivo tornar as pessoas melhores, auxiliar em seu aprimoramento. Na língua tibetana este ser é conhecido como Chenrezig. Já a expressão tibetana para Dalai Lama é Gyawa Rinpoche, ‘grande protetor’, ou Yeshe Norbu, a ‘grande jóia’, a única autoridade religiosa que pode, além do papa, ser nomeado como Sua Santidade. Quando cada um destes mestres morre, os monges realizam uma pesquisa exaustiva para descobrir a identidade com a qual ele renasceu.
Recebeu o Prémio Nobel da Paz de 1989, em reconhecimento à sua campanha pacifista para acabar com a dominação chinesa no Tibete.

Dalai Lama (1935) nasceu na aldeia de Takster, na provincia de Amdo, situada no nordeste do Tibet, em 6 de julho de 1935. 
Filho de uma família de agricultores recebeu o nome de Lhamo Dhondrub. Aos 2 anos de idade, foi reconhecido pelos monges tibetanos como a reencarnação do 13º Dalai Lama, Thubten Gyatso, a autoridade máxima do budismo tibetano.
Os Dalai Lama, por sua vez, são considerados reencarnações do príncipe Cherezig, o Avalokitesvara, o portador do lótus branco, que representa a compaixão.

Dalai Lama Tenzin Gyatso é considerado a 14ª reencarnação do príncipe Cherezig.
Aos 4 anos de idade foi separado de sua família, e levado para o Palácio de Potala, situado na montanha Hongsham, na capital Lhasa. Foi empossado como o líder espiritual do Tibete. Passa, então, a se chamar Jamphel Ngawang Lobsang Yeshe Tenzin Gyatso.

Começou sua rigorosa preparação, aos seis anos de idade, que inclui entre outros estudos, aulas de filosofia budista, arte e cultura tibetana, gramática, inglês, astrologia, geografia, história, ciências, medicina, matemática, poesia, música e teatro. Aos 24 anos, fez o seu exame final no Templo de Jokhang, em Lhasa, durante o o Festival Anual de Orações Monlam. Foi aprovado com honras e recebeu o grau de Geshe Lharampa (título máximo, equivalente a um Doutorado em Filosofia). Em complemento a esses temas budistas, estudou inglês, ciências, geografia e matemática.

Em 1950, após a invasão do Tibete, pela China, o partido comunista chinês, passa a controlar a província de Kham. Dalai Lama, com apenas 15 anos, assume o poder político do país. 
Em 1954, foi a Beijing para tentativas de paz com Mao Tsetung e outros lideres chineses, como Chou En-Lai e Deng Xiaoping.
Em 1956, durante visita à India para participar das festividades do aniversário de 2500 anos de Buda, esteve presente numa série de reuniões com Nehru, o Primeiro Ministro Indiano, sobre a situação do Tibet que se deteriorava rapidamente.
Seus esforços para alcançar uma solução pacífica para o problema sino-tibetano foram frustrados pelas atrocidades da política chinesa, no leste do Tibet, dando origem a um levante popular. Esse movimento de resistência espalhou-se por outras partes do País, e em 10 de Março de 1959, Lhasa, a capital do Tibet, explodiu num grande levante.
As manifestações da resistência tibetana exigiam que a China deixasse o Tibet, reafirmando a sua independência.
Quando a situação se tornou insustentável, pediu-se ao Dalai Lama que saísse do país para continuar no exílio a luta pela libertação. Sua Santidade seguiu para a Índia, que lhe concedeu asilo político, acompanhado de outros oitenta mil refugiados tibetanos. Hoje há mais de 120.000 tibetanos a viver como refugiados na Índia, Nepal, Butão e no Ocidente. 

Desde 1960, Sua Santidade reside em Dharamsala, uma pequena cidade no norte da Índia, apropriadamente conhecida como "Pequena Lhasa", por sediar a sede do governo tibetano no exílio.
Desde a invasão chinesa, Sua Santidade apresentou vários recursos às Nações Unidas sobre a questão tibetana. A Assembleia Geral adotou três resoluções sobre o Tibet, em 1959, 1961 e 1965. 

Em 1951, o 14º Dalai Lama, e integrantes de seu governo, assinam o "Acordo de Dezessete Pontos", com o qual a China pretendia adotar medidas para a libertação do Tibete.
Em 1954, o Dalai Lama vai a Pequim, realizar acordos com Mao Tsé-Tung, Presidente do Governo Popular da China, mas a tentativa de buscar soluções pacíficas para a libertação do Tibete, foram frustradas.

Em 1959, após o fracasso de uma rebelião nacionalista contra o governo chinês, Dalai Lama, junto com um grupo de líderes tibetanos e com seus seguidores, a convite do governo indiano, exila-se na Índia e aí instala o governo do Tibete.
Com o estabelecimento do Governo Tibetano no Exílio, Sua Santidade percebeu que a tarefa mais imediata e urgente era lutar pela preservação da cultura tibetana.
Fundou 53 assentamentos agrícolas de larga escala para acolher os refugiados; idealizou um sistema educacional tibetano autónomo (existem hoje mais de 80 escolas tibetanas na Índia e Nepal) para oferecer às crianças refugiadas tibetanas pleno conhecimento de sua língua, história, religião e cultura.
Em 1959 criou o Instituto Tibetano de Artes Dramáticas; o Instituto Central de Altos Estudos Tibetanos transformou-se numa universidade para os tibetanos na Índia. Sua Santidade inaugurou vários institutos culturais com o propósito de preservar as artes e ciências tibetanas, e ajudou a restabelecer mais de 200 mosteiros para preservar a vasta obra de ensinamentos do budismo, a essência do espírito tibetano.

Pelo lado da política, em 1963 Sua Santidade apresentou o esboço de uma constituição democrática para o Tibet, baseada nos princípios budistas e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. A nova constituição democrática promulgada como resultado desta reforma foi denominada "Carta dos Tibetanos no Exílio". Essa carta defende a liberdade de expressão, crença, reunião e movimento. Oferece também detalhadas linhas de acção para o funcionamento do governo tibetano no que diz respeito aos que vivem no exílio.

Em 1992, Sua Santidade publicou linhas diretrizes para a constituição de um futuro Tibet livre.
Anunciou que a primeira e imediata tarefa do Tibet libertado será estabelecer um governo interino com a principal responsabilidade de eleger uma Assembleia Constituinte, para criar e implantar uma constituição democrática tibetana. Nesse dia, Sua Santidade transferirá toda a sua autoridade política e histórica para o Presidente interino, passando a viver como um cidadão comum. Ele também afirmou esperar que o Tibet, incluindo as suas tradicionais três províncias (U-Tsang, Amdo e Kham), seja federativo e democrático.

Em maio de 1990, as reformas propostas por Sua Santidade deram ensejo à realização de uma administração verdadeiramente democrática para a comunidade tibetana no exílio. O Gabinete tibetano (Kashag), que até então sempre fora indicado por Sua Santidade, foi dissolvido, juntamente com a Décima Assembléia de Deputados do Povo Tibetano (o Parlamento tibetano no exílio). Nesse mesmo ano, tibetanos exilados no subcontinente indiano e em mais de 33 outros países elegeram 46 membros da ampliada 11ª Assembleia Tibetana, numa votação direta. A Assembléia, por sua vez, elegeu os novos membros do Gabinete.
Em setembro de 2001, um passo ainda maior para a democratização foi dado quando o eleitorado tibetano elegeu diretamente o Kalon Tripa, ministério-mor do Gabinete, que por sua vez indicou o seu próprio Gabinete, a ser aprovado pela Assembleia Tibetana. Na longa história do Tibet, essa foi a primeira vez que o povo elegeu seus líderes políticos.
De tradição teocrática, os tibetanos misturam o poder temporal e o espiritual.
Várias propostas de paz já foram levadas ao governo chinês, entre elas, transformar o Tibete em santuário, onde todos poderiam viver em harmonia.

Em 1967 o Dalai Lama iniciou uma série de viagens por diversos países, levando sua crença e a esperança de encontrar a paz entre os povos. Esteve com o Papa Paulo VI em 1973 e com João Paulo II em diversos momentos. Foi aos Estados Unidos, Inglaterra, França, Suíça, Áustria, Brasil, entre outros, onde fez palestras para um grande número de admiradores.

Em setembro de 1987, Sua Santidade propôs o Plano de Paz de Cinco Pontos para o Tibet, como um primeiro passo na direção de uma solução pacífica para a situação que rapidamente se deteriorava no país. Em sua visão, o Tibet se tornaria um santuário, uma zona de paz no coração da Ásia, em que todos os seres sencientes poderiam viver em harmonia, com o delicado equilíbrio ambiental preservado. A China, até ao momento, não respondeu positivamente às várias propostas de paz criadas por Sua Santidade.





O Plano de Cinco Pontos:

No seu discurso aos membros do Congresso Americano em Washington, D.C., realizado em 21 de Setembro de 1987, Sua Santidade propôs o seguinte plano de paz, composto por cinco pontos básicos:


  1. Transformação de todo o Tibet numa zona de paz.
  2. Cessação da política chinesa de transferência de população, que ameaça a própria existência dos tibetanos como povo.
  3. Respeito pelos direitos humanos fundamentais dos tibetanos, bem como de suas liberdades democráticas.
  4. Restauração e protecção do ambiente natural tibetano, e o abandono do uso do território tibetano, pela China, para produção de armas nucleares e como depósito de lixo nuclear.
  5. Início de negociações sérias sobre o futuro status do Tibet e das relações entre os povos chinês e tibetano.


Discursou no Parlamento Europeu de Estrasburgo, na França, em 15 de Junho de 1988, e Sua Santidade detalhou minuciosamente o último dos Cinco Pontos desse plano de paz. Ele propôs o estabelecimento de conversações entre chineses e tibetanos para a criação de um governo autónomo das três províncias tibetanas, "em associação com a República Popular da China".
O governo chinês continuaria sendo responsável pela política exterior e defesa do Tibet.

Para Sua Santidade, essa proposta era "o modo mais realista para se restabelecer uma identidade independente do Tibet e restituir os direitos fundamentais do povo tibetano, conciliando ao mesmo tempo os próprios interesses da China." Enfatizou por outro lado que "qualquer que seja o resultado das negociações com os chineses, o povo tibetano por si mesmo deve ser a autoridade decisória máxima."

Posteriormente, no entanto, em 2 de Setembro de 1991 (Dia da Democracia Tibetana), o Governo do Tibet no exílio declarou que a Proposta de Estrasburgo não estava mais em vigor: "Sua Santidade, o Dalai Lama, deixou bem claro, em sua declaração de 10 de Março, que em razão da atitude fechada e negativa da atual liderança chinesa, percebeu que seu compromisso pessoal com as ideias expressas na proposta de Estrasburgo tornou-se sem efeito, e que se não houver novas iniciativas por parte dos Chineses ele se considerará livre de qualquer obrigação com relação a essa proposta. Entretanto, continua firmemente comprometido no caminho da não violência e em encontrar uma solução para a questão tibetana através de negociações e entendimentos. Sob as atuais circunstâncias, Sua Santidade, o Dalai Lama, não se sente mais obrigado ou limitado a manter a Proposta de Estraburgo como uma base para encontrar uma solução pacífica para o problema tibetano."


Dalai Lama

Incansável estudioso, abriu caminhos para a união da ciência com a espiritualidade.
Em 1987 ele discutiu durante uma semana, ao lado de cinco cientistas do Ocidente, questões que envolvem uma aproximação dos princípios budistas e os das ciências do conhecimento.
Desde então meios científicos têm aberto espaços de debates e pesquisas sobre a práxis espiritual, o que cria perspectivas de novos horizontes nas duas esferas. O mestre incentiva a convivência entre as diferenças e a articulação de todos em benefício do avanço da humanidade.

Escreveu vários livros, entre eles “A Arte da Felicidade”, “A Arte da Felicidade no Trabalho”, “Bondade, Amor e Compaixão”, “O Livro da Sabedoria” e “Minha Terra e Meu Povo”. Seus ensinamentos abrangem desde a esfera espiritual, o meio ambiente, o campo científico, a paz, os direitos humanos, o treinamento da mente, entre outros.
Ele é reconhecido e respeitado internacionalmente.

Em 1989 recebeu o Prémio Nobel da Paz. Recebeu também o título de Doutor Honoris Causa, conferido pela Universidade de Seattle, em Washington, em reconhecimento por seu trabalho difundindo a filosofia budista e por seus esforços em busca dos direitos humanos e da paz mundial.

Em 2011 Dalai Lama anunciou que deixaria o comando político dos tibetanos. 
O sufrágio ocorreu na Índia, onde o Parlamento se reúne no exílio desde 1959.
Embora não tenha nenhum efeito prático, já que o Tibete não é reconhecido como nação independente, a eleição constitui uma mudança de costumes.


Para o Dalai, tudo é muito simples. Estar no mundo é fácil, viver é descomplicado. Segundo ele, ninguém precisa sair em peregrinação ou praticar mendicância para se tornar um ser humano melhor. Em sua filosofia, que tem muito menos a ver com religião do que com um manual de condutas éticas para viver e deixar viver, de modo a que cada um possa se inserir harmonicamente no meio dos outros, a verdadeira transformação espiritual do indivíduo está nas pequenas e fundamentais atitudes do dia-a-dia, independente do credo, do estilo de vida, das preferências sexuais ou políticas que se possa ter.

O Dalai apresenta o mundo como uma rede de ações em constante interferência recíproca. Assim, o que um sujeito faz ou deixa de fazer alteraria indelevelmente o meio em que está inserido. A vida funcionaria como um jogo de dominó em que se derruba uma pedra e milhares de outras vão caindo, sucessivamente, durante horas a fio, até formar um enorme desenho do qual muitas vezes nenhum dos participantes tinha ideia no início. Para o Dalai, nada – nem ninguém – está isolado. Uns sempre precisam de outros para realizar a própria felicidade.

O Dalai deixa muito claro em seus discursos que cada um deve seguir a fé que escolher. Ou até mesmo nenhuma, caso lhe pareça mais conveniente. A devoção das pessoas, ao contrário da esmagadora maioria dos líderes religiosos, é o que menos interessa ao Dalai, segundo ele mesmo diz. Quem já assistiu a uma de suas palestras sabe que o eixo básico do seu discurso é a universalidade dos conceitos. Para ele, há alguns valores, como a ética, que são constitutivos do ser humano em qualquer cultura ou tempo e que deveriam ser cultuados por todos.





A ausência quase completa de proselitismo religioso e a lógica evidente de sua argumentação, que não requer uma fé específica para ser compreendida e aceita, faz com que até o mais empedernido dos ocidentais tenha condições de incorporar os ensinamentos do Dalai em seu quotidiano. 
Mas que ensinamentos são esses? 
E como eles podem ser úteis para a sua vida diária? 
Deixo aqui alguns dos principais pontos do pensamento do Dalai Lama:

Para o Dalai, rezar é importante, mas não basta. 
É preciso arregaçar as mangas, deixar de lado a preguiça e o eterno álibi da falta de tempo e agir sobre as situações. Não há necessidade de atos heróicos nem de uma grande alteração de rotina. Afinal, segundo o Dalai, o mundo depende mais dos pequenos do que dos grandes atos para ser transformado. Para ele, colocar a mão na massa faz toda a diferença. É como cruzar uma ponte numa noite gelada e ver uma criança passando frio. Você pode se encher de pena e rezar para que a Providência faça chegar a ela um agasalho. Pode também seguir seu caminho indignado porque o Estado não faz nada. Mas você pode, por outro lado, fazer alguma coisa a respeito. Um gesto, uma ação. Que opção tem mais chances de diminuir o sofrimento imediato daquela criança?

Para o Dalai, amor requer desapego. 
Isso soa torto para mentes ocidentais, acostumadas a pensar o contrário: amor e apego como sinónimos. A intensidade do apego, segundo ele, é a mesma da raiva quando se perde a pessoa. Portanto, o apego está relacionado à posse e ao desamor. No limite, apegar-se é hipotecar o amor que se sente.
Afinal, que diabo de amor é esse que se transforma em ódio quando não se pode mais ter o ser amado ao lado?
tantos casais que, depois de se separarem, se dedicaram a infernizar a vida um do outro. Ou a procurarem desesperados uma reconciliação ou a tentar impingir ao outro o sofrimento que a perda lhe causou. Ou, ainda, os dois trancafiando a sua própria felicidade naquele falecido projeto de vida em comum. Isso, para o Dalai, é apego e não amor. Afinal, impedir que o ser amado seja feliz, em nome da sua própria infelicidade, é um ato de rancor e ódio e não de amor.
O apego estreitaria a visão de felicidade, descartando novas possibilidades de viver momentos de alegria, influenciaria negativamente a compaixão e seria prejudicial à própria auto-estima. Para o Dalai, a baixa auto-estima nada mais é que o apego excessivo a si mesmo. Portanto, uma consequência do excesso de amor-próprio, de vaidade. Isso faria com que nos exigíssemos a perfeição em todos os momentos e que jamais estivéssemos satisfeitos com as nossas conquistas.

Para o Dalai, não existem verdades absolutas. 
Um dos princípios do budismo é o Caminho do Meio.
A imagem que se faz é a de uma corda de viola. Se ela ficar muito solta, não produzirá som algum. Mas se você esticá-la demais, ela arrebentará ao primeiro toque. Pela óptica desse conceito, antagonismos aparentemente insuperáveis poderiam ser resolvidos se ambas as partes cedessem um pouco.
O segredo do equilíbrio seria nunca se deixar seduzir pelos extremos.

Quanto ao Karma:
No senso comum, a palavra Karma está sempre associada a um castigo imutável, a uma situação ruim e invencível. Para o Dalai, o Karma nada mais é do que uma lei eterna de causa e efeito que cada um de nós pode modificar todo dia. Na sua visão, não somos seres impotentes diante da vida. Nem há sinas inelutáveis. Portanto, aceitar esse ou aquele revés como um Karma e se conformar com ele seria apenas um ato de preguiça.

Em relação à Compaixão:
O dicionário apresenta a pena e a dó como sinónimos do termo compaixão. Para o Dalai, esses conceitos têm uma subtil e ao mesmo tempo profunda diferença. A representação da compaixão seria horizontal. A da pena e da dó seria vertical.
Eis o que essa metáfora geométrica quer dizer: ter pena, segundo o Dalai, é olhar alguém como um ser inferior, que precisa de caridade. É, em resumo, o sujeito se sentir melhor e mais digno do que o seu interlocutor. Já a compaixão enxergaria o sofrimento de forma solidária. A postura aí seria encarar aquele que sofre como um ser em igualdade de condições que precisa de ajuda naquele determinado momento.
Ter compaixão, para o Dalai, é lembrar que a dor do outro poderia ser sua. E é mostrar a capacidade de reconhecer o sofrimento do próximo e ajudá-lo a superar o momento difícil. A compaixão estaria intimamente ligada à ação. Na visão do Dalai, somente condoer-se está muito longe de ser uma atitude suficiente.

Nada é mais precioso que a vida. 
Não só a humana, mas a de todos os seres que habitam o planeta. O Dalai recomenda dieta vegetariana para evitar que se tire o direito à vida dos animais, já que para o budismo eles também têm alma e as pessoas podem reencarnar como animais, até mesmo como ostras e camarões.
Segundo ele, no entanto, é possível se preocupar com a natureza sem precisar adotar atitudes que a maioria das pessoas considera indigestas, como se alimentar exclusivamente de vegetais ou colocar o peito na frente do arpão de um baleeiro no meio do oceano. Bastaria ter sempre a preocupação de se relacionar eticamente com os demais seres do planeta.
A preservação do ambiente, além de demonstração de respeito à vida, inclusive a das futuras gerações de humanos, seria uma forma de o sujeito melhorar a sua própria existência. O budismo tibetano, tanto quanto várias outras doutrinas, é antropocêntrico e vê o homem como um ser superior. A diferença da doutrina do Dalai em relação às outras está no significado do conceito de superioridade. Para ele, isso não quer dizer que a natureza esteja a serviço do homem e nem que possa ser subjugada. Como os únicos seres inteligentes, nós teríamos a responsabilidade de agir como guardiões da vida na Terra.

No que diz respeito à Ética e Religião:
Segundo o Dalai, não é preciso ter religião para ter ética. Ou seja, a retidão do comportamento humano não dependeria de leis divinas. Para ele, espiritualidade e religião não são sinónimos. O Dalai é um grande defensor de ações sociais ecuménicas. Ele acredita que a ética transita em qualquer fé e é a viga central na construção de um mundo mais feliz. Ter fé é importante, ele reconhece. Mas a ética seria mais do que suficiente. Isso inclui ateus e agnósticos nesse projeto de mundo mais solidário e integrado de que fala o Dalai.
Mas, para ele, o que é a ética? Aqui, ele concorda com o dicionário. Trata-se de um conjunto de valores morais e princípios de conduta que devem ajustar as relações entre os diversos membros da sociedade. Nada mais é, no fim das contas, do que a velha premissa de não fazer a ninguém o que não se deseja para si mesmo. A sutileza trazida pelo Dalai é a consciência de que o não prejudicar os outros começa nos pequenos atos. Algo que pode não soar como prejudicial a você, como marcar um encontro e simplesmente não aparecer, pode atrapalhar a vida da outra pessoa que desmarcou um outro compromisso por sua causa.

Felicidade:
O objetivo da vida humana, segundo o Dalai, é a felicidade, a preservação da alegria. Para ele, ser feliz não é um estado grandioso e eterno. Ao contrário, é uma soma de pequenos momentos luminosos que o sujeito vai colecionando ao longo da vida.
Um dos caminhos mais curtos para a infelicidade, na opinião do Dalai, é colocar a própria satisfação nas mãos de algo ou de alguém. Ou então empurrá-la para o futuro. O sujeito que diz que só será feliz quando se formar em medicina ou quando se casar com uma determinada pessoa está, segundo o Dalai, jogando fora uma série de oportunidades presentes de felicidade. A satisfação estaria dentro de cada um. Não estaria fora, em elementos externos que seriam meros instrumentos ou partes coadjuvantes.
Segundo o Dalai, os principais ingredientes da felicidade são o sorriso e o bom humor. Tentar olhar todos os aspectos de uma situação e destacar os bons – e não os maus, como costumamos fazer – é a grande receita da satisfação pessoal. Para ele, é preciso saborear cada mordida no pão quentinho de manhã. E se o chefe estiver nervoso, é preciso que o sujeito se sinta feliz por não estar.

Humildade:
Associados com frequência no Brasil, humildade e pobreza não têm nenhuma relação entre si na visão do Dalai Lama. Descrever como humildes aqueles que passam fome ou vivem debaixo da ponte, para ele, não faz sentido. Humildade nada tem a ver com a presença ou a ausência de posses materiais. Trata-se, segundo o Dalai, de uma forma de comportamento das mais veneráveis. Ser humilde seria enxergar todos os circundantes como seres iguais – o garoto que pede um trocado no semáforo ou o presidente da República. É difícil pensar dessa forma quando a sociedade relaciona humildade com inferioridade, submissão e pobreza. Mas é fácil ser humilde em uma sociedade que associa essa condição à simplicidade, à clareza, à elegância. A humildade, segundo o Dalai, deixa o homem mais confiante. Só quem tem plena consciência do seu valor não precisa demonstrar, às vezes de forma grosseira, o seu poder ou a sua erudição.

Imparcialidade:
Para o Dalai, a verdade é relativa. Perceber que não há axiomas inquestionáveis e tentar enxergar as situações sob todos os ângulos antes de tomar uma atitude é fundamental. Mas isso, segundo o Dalai, leva tempo e requer alguns exercícios. A mente humana teria a tendência de elevar as próprias ideias à condição de verdades inexoráveis. Diante de uma situação de discórdia, diz o Dalai, o sujeito se enche de argumentos que o levam a tomar determinadas atitudes a partir do seu ponto de vista unilateral, desconsiderando a trajetória dos outros envolvidos.

Impermanência:
A única certeza que um ser humano pode ter, segundo o Dalai, é a de que vive o momento presente e de que pode morrer a qualquer momento. Por mais catastrófica que essa ideia possa parecer, para o Dalai ela é uma verdade incontestável e um motivo de alegria. Significa que, se as coisas boas podem ficar ruins de um momento para o outro, as coisas ruins também podem ficar boas de repente. Para ele, essa certeza também serve para que preparemos o que ele chama de “boa morte” – a tentativa de manter um saldo positivo na própria existência. Ou de, pelo menos, zerar a contabilidade entre as atitudes boas e más de que inevitavelmente se compõe uma vida.
Para o Dalai, a incerteza do que pode acontecer no próximo momento – o sujeito pode perder a vida ou o emprego, a mulher ou a fortuna a qualquer momento – ajuda-o a sofrer menos com os revezes da vida. E a se apegar menos às coisas e às pessoas que ama, dependendo menos delas para ser feliz. Por outro lado, a noção da própria impermanência faria com que o workaholic que passa 16 horas por dia no escritório revisse suas prioridades ao perceber que o seu cargo não vai durar para sempre. E que o marido que há mais de ano não reserva tempo para namorar a esposa percebesse que ela não vai ficar do seu lado para sempre. E que o sujeito que há décadas tem um pedido de desculpas entalado na garganta finalmente verbalizasse o seu arrependimento, porque nem ele e nem o seu antigo desafeto vão durar para sempre.

Interdependência:
As pessoas morrem de fome no Nordeste. Você sente pena, se lamenta pelo povo castigado mas vê aquela realidade como algo distante do seu dia-a-dia. A coisa não funciona bem assim, segundo o Dalai. Afinal, tudo no mundo estaria relacionado. Uma atitude banal que se toma aqui pode iniciar uma cadeia que vai refletir do outro lado do Atlântico daqui a anos. (Se você lembrou aquela metáfora clássica da teoria do caos que dizia que o bater de asas de uma borboleta em Hong Kong pode causar um tornado no Texas, bingo.)
Para o Dalai, o conceito da interdependência está bastante ligado ao da relatividade. Para ele, as circunstâncias podem mudar a aplicação de um conceito. Por isso não seria possível ter conceitos isolados ou eternamente válidos. Para quase todas as religiões, por exemplo, a reprodução é uma das principais funções do ser humano. Mas hoje, em um mundo com mais de seis bilhões de pessoas, onde há problemas globais de alimentação e espaço, o óbvio para famílias de qualquer classe social é realizar essa função numa escala menor do que acontecia há algumas gerações. O dogma religioso, portanto, para o Dalai, precisa ser relativizado. Provavelmente daqui a algum tempo, se boa parte da população mundial tiver envelhecido e morrido, a reprodução voltará a ter sua importância original. (Isso, aliás, já acontece em alguns países europeus, que estimulam financeiramente os casais a terem filhos.)

Paciência e Pressa:
A paciência é a maior defesa que um sujeito pode desenvolver, diz o Dalai. Ela serve para que tudo seja colocado no seu devido lugar antes de se tirar conclusões ou fazer julgamentos. Às vezes é preciso ficar em silêncio, recuar antes de voltar à cena e dar um passo adiante. Paciência, no entanto, para o Dalai, não é omissão. É a determinação do tempo ideal para cada coisa. É o sujeito saber tratar do seu inimigo interior antes de lidar com as adversidades externas. Trata-se de um conceito difícil de entender pois a cultura ocidental cultua a pressa. É fato que as pessoas vivem cada vez em maior velocidade, comem cada vez mais rápido. É como se estivéssemos todos, você e eu inclusive, em busca de algo que nunca vem. Fazer o maior número de coisas no menor espaço de tempo virou sinónimo de eficiência. Sujeitos entre nós que se mostrem tranquilos e pacientes são considerados omissos e passivos.
Para o Dalai, no entanto, paciência é compreender que as melhorias gradativas são as verdadeiras e que as mudanças rápidas não passam de fachada.

Raiva:
Talvez o ponto mais difícil de aprender na doutrina do Dalai seja lidar com a raiva. Ele a divide em dois tipos: a raiva proveniente do apego e aquela proveniente da compaixão. O primeiro tipo distorce a visão dos fatos e prejudica a capacidade de julgamento. Se o sujeito se sente ofendido por alguém, tem a vontade de prejudicar quem ele julga lhe ter feito mal. Só que, pelas regras do carma e da interdependência, a vingança só vai aumentar o seu saldo negativo. Em outras palavras: prejudicar quem teoricamente lhe fez mal vai trazer uma satisfação imediata e ilusória e nenhum lucro futuro. Afinal, o julgamento ocorreu sob a intensidade da raiva. O perigo aí, segundo o Dalai, é criar uma bola de neve de ações e reações ruins. O correto seria o sujeito sublimar a sua raiva por meio da dedicação a coisas que façam bem a ele e aos outros. Para o Dalai, não vale a pena trocar horas de sono ou de prazer brincando com os filhos para arquitetar uma vingança que só adicionará mais sofrimento àquela situação.
Isso não quer dizer que se deva ficar passivo diante das injustiças. A raiva motivada pela compaixão, pela solidariedade ao ser vilipendiado, segundo o Dalai, deve ser usada para gerar uma ação que busque justiça de uma forma imparcial, serena e que ande sempre pelo caminho do meio.

Serenidade:
A serenidade caminha ao lado da imparcialidade e não da apatia, diz o Dalai. Ter serenidade é pensar antes de agir. Algo que, num estágio mais avançado, nada mais é do que a meditação. A sabedoria, segundo o Dalai, está em não colocar a imaginação no meio do processo de análise e em saber esperar sem ansiedade. Na prática, um sujeito sereno criaria sempre um espaço de tempo entre a ação e a reação. Tempo para analisar a situação com parcimónia, pensar nas consequências da sua reação e encontrar formas de resolver o problema e não de piorá-lo.

Sofrimento:
Situações que causam sofrimento jamais faltarão nem para a mais contente das criaturas. E se o sofrimento é um fato, é preciso aprender a lidar com ele. Não apenas lamentar a sua existência e se acomodar com a dor. Para o Dalai, é sempre possível minimizar o sofrimento ou extrair dele algo de positivo. Para tanto, é preciso tratar as causas do sofrimento e não, apenas, os sintomas. Ao identificar as causas, diz o Dalai, a imparcialidade e a serenidade são fundamentais para que não haja erro no julgamento. É que, segundo ele, é sempre possível que parte do sofrimento seja criado pelo próprio ser que sofre, independente dos fatores externos. Ele diz que há duas reações ao sofrimento: entregar-se à dor ou descobrir a si mesmo na tragédia.
É que os momentos difíceis, por piores que sejam, desenhariam uma grande oportunidade para o sujeito avançar no último e talvez mais essencial dos pontos do pensamento do Dalai Lama, combustível para a efetivação de todos os outros: o autoconhecimento.



Conhecer-se melhor, mais fundo, com mais detalhes, sem máscaras nem retoques é a primeira e a última coisa que um ser humano em busca de ser mais feliz e de fazer mais gente feliz deve realizar.
Não é tarefa fácil nem rápida. 




Fontes: Livro "Dalai Lama, Autobiografia Espiritual"
               Revista Super Interessante







quarta-feira, 18 de outubro de 2017

The Doors and John Lee Hooker - Roadhouse Blues (Complete)

A Altares não Prendas aqueles que são Deuses





Os deuses não nos querem de joelhos.
Se inábeis lhes erguemos um altar,
Afastam-se de nós. Ficam enfermos
E tomam a decisão de se calar.

Não pode Vénus sem movimentos livres
ir ao inferno buscar o seu amante.
Por isso elege, em deleitosos perigos,
Prazeres e sonhos, seu santuário errante.

Em cada deus exprime a eternidade
O empenho de ser ave e a ninfa é boa
Porque fluindo na fonte em liberdade
Na mão em concha nos leva a água à boca.

A altares não prendas aqueles que são deuses
Porque são soltos como gargalhadas
Qual das crisálidas os impulsos presos,
Para voar, rebentam as suas cascas.

Reprova o oráculo os que por crenças fátuas,
Matando o riso, vão do tempo à tumba.
A alegria é divina. As suas asas
Murcham se atadas a aras de renúncia.


Natália Correia
in, O Armistício





Relacionamentos


Vadim Stein





O maior impedimento à descoberta do espaço interior, a principal barreira à descoberta daquele que tem a experiência, é nos tornarmos tão subjugados pela experiência que acabemos perdidos nela.
Isso significa que a consciência está desorientada em seu próprio sonho. 
~Eckhart Tolle

Não se render torna a sua forma psicológica, a concha do ego, mais rígida, criando assim uma forte sensação de separação. O mundo à sua volta e as pessoas, em particular, são consideradas como ameaças. Surge a compulsão inconsciente de destruir os outros através de juízos, assim como a necessidade de competir e dominar. A própria natureza torna-se sua inimiga e as suas percepções e interpretações são governadas pelo medo. A doença mental a que chamamos paranoia é apenas uma forma ligeiramente mais aguda desse estado de consciência normal, mas disfuncional.
Não é apenas a sua forma psicológica, mas também a sua forma física - o seu corpo - que se torna dura e rígida através da resistência. Cria-se tensão em várias partes do corpo, e esse corpo contrai-se como um todo. A corrente livre de energia da vida que percorre o corpo, e que é essencial para o seu funcionamento saudável, fica muitíssimo restringida. O exercício físico e determinadas formas de terapia física poderão ser úteis para restaurar essa corrente mas, se não praticar a rendição no seu dia-a-dia, essas coisas só lhe poderão proporcionar um alívio temporário dos sintomas, já que a sua causa - o padrão de resistência - não foi desfeita.
Existe alguma coisa dentro de si que permanece insensível às circunstâncias transitórias que criam a sua situação de vida e você só lhe tem acesso através da rendição. É a sua vida, o seu próprio Ser, que existe eternamente no reino eterno do presente. Encontrar essa vida é "a única coisa necessária" de que Jesus falou.
Eckhart Tolle
in, O Poder do Agora
pág. 208



O que é frequentemente chamado de " apaixonar-se " é na maioria dos casos uma intensificação do desejo e necessidade egoica. Você se torna viciado na outra pessoa, ou melhor, na sua imagem dessa pessoa.
Isso não tem nada a ver com o verdadeiro amor, o qual não contém qualquer desejo. 
~Eckhart Tolle


Observar as nossas emoções é tão importante como observar os nossos pensamentos?
Sim. Habitue-se a perguntar a si próprio: que estará a acontecer dentro de mim neste momento? Esta pergunta indica-lhe qual o caminho a seguir. Mas não analise, limite-se a observar atentamente. Concentre a sua atenção no seu íntimo. Sinta a energia da emoção. Se não houver emoção presente, leve a sua atenção ainda mais fundo para o campo de energia interior do seu corpo. É a entrada para o Ser. 
Eckhart Tolle
in, O Poder do Agora
pág. 45


Vou mencionar alguns comportamentos que as pessoas adotam inconscientemente para fortalecer sua identidade com a forma. Se você estiver alerta o bastante, será capaz de detectar alguns deles dentro de si mesmo:
- Exigir reconhecimento por alguma coisa que fez e indignar-se ou aborrecer-se quando não o consegue;
- Tentar obter atenção falando sobre problemas pessoais, contando a história da própria doença ou fazendo uma cena;
- Dar uma opinião quando ninguém a pede e ela não faz diferença para a situação;
- Ser mais preocupado com o modo como é visto pelas pessoas do que com elas, isto é, usá-las como um reflexo do ego ou como um instrumento para realçar o ego;
- Tentar causar impressão nos outros por meio de bens, conhecimentos, boa aparência, posição social, força física, etc;
- Inflar temporariamente o ego adotando uma reação irada contra alguma coisa ou alguém;
- Levar tudo para o lado pessoal e sentir-se ofendido;
- Considerar-se certo e os outros errados por meio de queixas fúteis, mentais ou verbais;
- Querer ser visto ou parecer importante.
Caso você detecte um desses padrões em si mesmo, sugiro que faça uma experiência. Descubra como se sente e o que ocorre se o abandonar. Simplesmente descarte-o e veja o que acontece. Enfraquecer quem você é no nível da forma é outra maneira de gerar a consciência. Encontre o imenso poder que flui de você para o mundo deixando de fortalecer sua identificação com a forma. 
~Eckhart Tolle


Quando reagimos negativamente à forma assumida pela Vida no momento presente, quando tratamos o Agora como um meio para atingir um fim, como um obstáculo ou como um inimigo, reforçamos a nossa própria identidade baseada na forma - o ego.
Daí resulta a reatividade do ego. O que é a reatividade? É sermos viciados na reação. Quanto mais reativos formos, mais ficamos presos à forma. Quanto mais nos identificarmos com a forma, mais forte é o nosso ego. Então, o nosso Ser deixa de brilhar através da forma - ou brilha com muito pouca densidade.
Através da não-resistência à forma, o que existe em nós para além da forma emerge como uma Presença abrangente, um poder silencioso muito maior do que a nossa breve identidade baseada na forma - a pessoa. É quem somos de um modo muito mais profundo do que qualquer coisa pertencente ao mundo da forma. 
Eckhart Tolle
in, Um Novo Mundo
pág. 172

A predominância da mente não passa de um patamar na evolução da consciência. Precisamos de chegar ao patamar seguinte agora, urgentemente, de outro modo, seremos destruídos pela mente, que se terá transformado num monstro.
O pensamento e a consciência não são sinónimos. O pensamento não passa de um pequeno aspeto da consciência. O pensamento não pode existir sem a consciência, mas a consciência não precisa do pensamento. 
Eckhart Tolle
in, O Poder do Agora
pág. 42


Relacionamentos amor/ódio
É evidente que o lado negativo de um relacionamento é mais facilmente reconhecido como disfuncional do que o lado positivo. E é igualmente mais fácil reconhecer a fonte da negatividade no seu parceiro do que reconhecê-la em si próprio. Pode revestir-se de muitas formas: sentimento de posse, ciúme, repressão, introversão e ressentimento não expresso, necessidade de ter razão, insensibilidade e egoísmo, exigência e manipulação emocionais, desejo incontrolável de discutir, criticar, julgar, acusar ou atacar, ira, vingança inconsciente por sofrimentos infligidos no passado por um dos seus pais, raiva e violência física.
No lado positivo, você está "apaixonado" pelo seu parceiro. Ao princípio, é um estado que lhe dá muitíssima satisfação. Você sente-se intensamente vivo. É como se, de repente, a sua existência fizesse sentido porque alguém precisa de si, o faz sentir especial, e você retribui da mesma maneira. Quando estão juntos, você sente--se completo. O sentimento pode tornar-se tão intenso que o resto do mundo se torna insignificante.
No entanto, você poderá já ter notado que, nessa intensidade, existe alguma coisa de necessidade e de apego. Fica viciado na outra pessoa. Essa pessoa tem sobre si o efeito de uma droga. Está bem quando a droga está ao seu alcance, mas a mera possibilidade ou mesmo a hipótese de que ela poderá deixar de estar à sua disposição poderá levá-lo ao ciúme, ao sentimento de posse, a tentativas de manipulação através de chantagem emocional, a culpar e a acusar o outro – ao medo da perda.
Se a outra pessoa o deixar, isso poderá dar origem à mais intensa hostilidade ou ao mais profundo sofrimento e desespero. Num instante, a ternura amorosa poderá transformar-se numa agressividade feroz ou num desgosto terrível. Onde está agora o amor? Pode o amor transformar-se no seu oposto em tão pouco tempo? E, no fundo, era amor, ou apenas um vício de avidez e apego?
Eckhart Tolle
in, "O Poder do Agora"
pág. 158






terça-feira, 17 de outubro de 2017

Beijos





Monólogo


«Beijar!» linda palavra!… Um verbo regular
Que é muito irregular
Nos tempos e nos modos…

Conheço tanto beijo e tão dif’rentes todos!…

Um beijo pode ser amor ou amizade
Ou mera cortesia,
E muita vez até, dizê-lo é crueldade
É só hipocrisia.

O doce beijo de mãe
É o mais nobre dos beijos,
Não é beijo de desejos,
Valor maior ele tem:
É o beijo cuja fragrância
Nos faz secar na infância
Muita lágrima… feliz;
Na vida esse beijo puro
É o refúgio seguro
Onde é feliz o infeliz.

Entre as damas o beijo é praxe estab’lecida,
Cumprimento banal – ridículos da vida! 
–:(Imitando o encontro de 2 senhoras na rua)
– Como passou, está bem? (Um beijo.) O seu marido?
(Mais beijos.) – De saúde. E o seu, Dona Mafalda?
– Agora menos mal. Faz um calor que escalda,
Não acha? – Ai Jesus! que tempo aborrecido!…

Beijos dados assim, já um poeta o disse,
Beijos perdidos são.
(Perder beijos! que tolice!
Porque é que a mim os não dão?)

O osculum pacis dos cardeais
É outro beijo de civ’lidade;
Beijos paternos ou fraternais
São castos beijos, só amizade.

As flores também se beijam
Em beijos incandescidos,
Muito embora se não vejam
Os ternos beijos das flores.

Há outros beijos perdidos:
Aqui mesmo,
Há aqueles que os atores
Dão a esmo,
Dão a esmo e a granel…
Porque lhes marca o papel.

– Mas o beijo d’amor?
Sossegue o espectador,
Não fica no tinteiro;
Guardei-o para o fim por ser o «verdadeiro».

Com ele agora arremeto
E como é o principal,
Vai apanhar um soneto
Magistral:

Um beijo d’amor é delicioso instante
Que vale muito mais do que um milhão de vidas,
É bálsamo que sara as mais cruéis feridas,
É turbilhão de fogo, é espasmo delirante!

Não é um beijo puro. É beijo estonteante,
Pecado que abre o céu às almas doloridas.
Ah! Como é bom pecar co’as bocas confundidas
Num desejo brutal da carne palpitante!

Os lábios sensuais duma mulher amada
Dão vida e dão calor. É vida desgraçada
A do feliz que nunca um beijo neles deu;

É vida venturosa a vida de tortura
Daquele que co’a boca unida à boca impura
Da sua amante qu’rida, amou, penou, morreu.

(Pausa – Mudando de tom)

Desejava terminar
A beijar a minha amada,
Mas como não tenho amada,

(A uma espectadora)

Vossência é que vai pagar…
Não se zangue. A sua face
Consinta que eu vá beijar…
……………………. (atira-lhe um beijo)
Um beijo pede-se e dá-se,
Não vale a pena corar…



Mário de Sá-Carneiro
in, Obra Poética de Mário de Sá-Carneiro







A Meditação do Osho





Não há necessidade de meditar todo o tempo.
Umas poucas vezes no dia e apenas por uns poucos minutos é o bastante.

Existem algumas poucas coisas que se fizer demais podem ser prejudiciais.
Por exemplo, os últimos estudos dizem que se você fizer algum exercício corporal por vinte minutos e depois fizer o mesmo exercício por quarenta minutos, o benefício não será dobrado. E se você fizer por sessenta minutos o benefício se tornará prejudicial.
É exatamente como quando você come algo que é benéfico.
Se você comer muito não será benéfico, isso se tornará prejudicial.
Assim, a matemática comum não funciona.

Sempre que você encontrar tempo, apenas por uns poucos minutos, relaxe o sistema de respiração, nada mais – não há necessidade de relaxar o corpo inteiro. Sentado num autocarro, ou num avião, ou num carro, ninguém perceberá que você está fazendo alguma coisa. Apenas relaxe o sistema de respiração. Deixe que ele seja como quando ele está funcionando naturalmente. Então feche os olhos e observe a respiração entrando, saindo, entrando, saindo...
Não concentre.
Se você concentrar, irá criar problemas, porque então tudo se tornará uma perturbação.
Se você tentar se concentrar sentado num carro, então o barulho do carro se tornará uma perturbação, a pessoa sentada ao seu lado se tornará uma perturbação.

Meditação não é concentração. Ela é simples consciência. 
Você simplesmente relaxa e observa a respiração. 
Em tal observação, nada é excluído. 
O carro está fazendo barulho – isso está perfeitamente Ok, aceite isso.
O trânsito está movimentando – isso está Ok, faz parte da vida.
A pessoa sentada ao seu lado está roncando, aceite isso. Nada é rejeitado.
Você não tem que estreitar sua consciência.

Concentração é um estreitamento de sua consciência de modo que você se torne focado num ponto, mas tudo mais se torna uma concorrência.
Você está brigando com tudo mais porque você tem medo de que aquele ponto seja perdido.
Você pode se distrair e isso se torna uma perturbação.
Por isso você precisa de isolamento, dos Himalaias.
Você precisa ir a Índia e para um quarto onde você possa sentar-se silenciosamente, sem ninguém perturbando você de modo algum.
Não, isso não é certo – isso não pode se tornar um método de vida.
Isso é isolar a si mesmo.

Isso tem alguns bons resultados – você se sente mais tranquilo, mais calmo – mas esses resultados são temporários. É por isso que você sente repetidas vezes que aquela sintonia foi perdida. Uma vez que você não tenha as condições nas quais ela pode acontecer, ela se perde.

A meditação na qual você precisa de certos pré-requisitos, na qual certas condições precisam ser atendidas, não é meditação de modo algum – porque você não será capaz de fazê-la quando estiver morrendo. A morte será uma dispersão. 
Se a vida dispersa, pense sobre a morte.
Você não será capaz de morrer meditativamente, e então toda essa coisa é inútil, é perdida. 
Você novamente morrerá tenso, ansioso, na miséria, no sofrimento e criará imediatamente o seu próximo nascimento no mesmo padrão.
Deixe que a morte seja o critério.
Qualquer coisa que possa ser feita mesmo enquanto você estiver morrendo é real – e isso pode ser feito em qualquer lugar; em qualquer lugar e sem condições como requisito.
Se algumas vezes as boas condições estiverem ali, tudo bem, você desfruta delas. Se não, isso não faz qualquer diferença. Mesmo na praça do mercado você pode fazê-la.

Não deve haver qualquer tentativa de se controlar a respiração, porque todo controle é da mente, assim a meditação nunca pode ser uma coisa controlada.
A mente não consegue meditar.
Meditação é alguma coisa além da mente, ou abaixo da mente, mas nunca na mente.
Assim, se a mente permanecer observando e controlando, isso não é meditação; isso é concentração.
Concentração é um esforço da mente, ela traz as qualidades da mente ao seu ponto máximo. Um cientista se concentra, um soldado se concentra, um caçador, um pesquisador, um matemático, todos se concentram. Essas são atividades da mente.

A qualquer tempo medite.
Não há necessidade de ter um tempo pré-determinado.
Use qualquer tempo que tiver disponível. 
No banheiro, quando você tiver dez minutos, simplesmente sente-se debaixo do chuveiro e medite. De manhã, depois do almoço, por quatro, cinco vezes, em pequenos intervalos – apenas de cinco minutos – medite, e você verá que isso se tornará uma constante nutrição.
Não há necessidade de fazê-la por vinte e quatro horas.
Apenas uma xícara de meditação é o bastante. Não precisa beber todo o rio. Apenas uma xícara.
E faça isso o mais fácil possível. O fácil é o certo. Faça o mais natural possível. 
Simplesmente faça quando você encontrar tempo.

E não faça disso um hábito, porque todos os hábitos são da mente e, na verdade, a pessoa real não tem qualquer hábito.



OSHO 
in, Nothing to Lose But Your Head 
Cap. 5





sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Abandono





Na cama, onde o teu corpo, de costas, se abandona
aos meus olhos, e os cabelos se espalham pela almofada
és a mais bela das mulheres nuas. Os pés, sobre
os lençóis que o amor amarrotou, cruzam-se,
num breve descanso; e o rosto, de olhos 
fechados, esconde o desejo que a tua brancura
me oferece, contra a parede que inscreve
o único limite do nosso amor. O braço direito
caído para o chão, agarra um vazio que encho
de palavras; e o braço esquerdo, sob os seios,
indica-me o caminho em que cada repetição
é uma descoberta. Se te voltares, abrindo os braços,
e mostrando o peito, saberei o rumo seguir,
nesta viagem em que és a proa e o vento; mas
se ficares assim, secreto retrato no atelier
do coração, apenas te peço que entreabras
os lábios, para que um murmúrio nasça
de dentro da tela. Então, cobrir-te-ei as pernas
com o lençol, espalhar-te-ei pela almofada
os cabelos, escondendo a nuca e o ombro; e
deixarei que este poema se derrame sobre ti,
ateando este fogo com que a tua nudez
me incendeia.


Nuno Júdice





Visiting Sacred Sites





Visiting a sacred site can be a useful tool 
to open something within you 
that has remained inaccessible.




From time immemorial, the hands of men and women have built sites guided by both the earth's life force and benevolent beings of light. It is because of this guidance that the sites we deem sacred have long served as repositories of wisdom, energy, and illumination that can be accessed by all. The needs that inspire seekers to converge upon sites known to be sacred vary by individual. Some crave spiritual fulfillment above all else, while others hope to draw upon a site's energy for the purpose of enlightenment, healing, or deep meditation, awareness and knowledge of information long gone. 

Sacred sites can appear insignificant to those who close themselves off from the notion of a living earth. But sites can provide us with a link to a unified consciousness that involves the living and the dead, infinite cultures, the physical plane, and the spiritual world. 
When we look beyond well-known sites like Stonehenge, we discover energetically active sites such as the Iron Age fogou caves of Cornwall, England, or the pyramids of Meroe in the Sudan.
Similarly, it is easy to imagine that hallowed places exist only in remote or exotic locales.
Yet many of the most richly vital sites are easily accessible, and visiting these lesser-known sites can be a profoundly moving experience. One such site, Serpent Mound in Ohio, was thought to be created by the ancient Adena peoples nearly 1,000 years ago to align with the summer and winter solstices. Its precise purpose remains unclear, but many who visit the site conclude that it was meant to be a conduit through which cosmic energy could flow into the earth. 

The sacred sites that call to you from afar-capturing your imagination and resonating deep within your soul-will nearly always be those that can help you forge a deeper connection with the divine energy that sustains all life.

During your pilgrimage, reaffirm your intention to accept whatever gifts are conveyed to you through the sites you visit. Your receptiveness will help you establish lasting relationships with these sites so that you can draw upon their peace and their power from wherever you are.




MADISYN TAYLOR