quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

e era noite





e era noite 
o espaço por mim habitado 
lugar onde imaginava 
os encontros do apóstolo com 
“os que jaziam 
na região sombria da morte” 

e era noite 
o tempo que me cobria quando 
na mente ecoavam as palavras 
que me tinham dito um dia: 
“entra apenas. permanece até ao fim. 
e sai mudado.” 

e era noite 
e eu buscava uma porta 
passagem 
para esse outro lugar 
onde aprenderia a pegar no fogo 
sem me queimar 

e era noite 
quando em meu peito repousaste a cabeça 
teus longos cabelos 
se espraiando em meu colo 
caindo por trás do pescoço que 
abandonaras nos meus braços 

e era noite 
quando mergulhei na luz do teu olhar 
e cometendo uma heresia 
disse: “eu sei que não sou digno 
que entres na minha morada 
mas diz uma palavra e serei salvo” 

e era noite 
quando dois rubros lábios  
me revelaram com três sílabas 
a porta nimbada de ternura que buscava 
e resgatado ao deserto 
assim me entregaste de novo à vida. 


Rui Amaral Mendes 
in, "A Noite o Sangue"






Fomos Deixando de Escutar





Me entristece o quanto fomos deixando de escutar.
Deixámos de escutar as vozes que são diferentes, os silêncios que são diversos.
E deixámos de escutar não porque nos rodeasse o silêncio. Ficámos surdos pelo excesso de palavras, ficámos autistas pelo excesso de informação. A natureza converteu-se em retórica, num emblema, num anúncio de televisão. Falamos dela, não a vivemos. A natureza, ela própria, tem que voltar a nascer. E quando voltar a nascer teremos que aceitar que a nossa natureza humana é não ter natureza nenhuma. Ou que, se calhar, fomos feitos para ter todas as naturezas.

Falei dos pecados da Biologia.
Mas eu não trocaria esta janela por nenhuma outra.
A Biologia ensinou-me coisas fundamentais. Uma delas foi a humildade. Esta nossa ciência me ajudou a entender outras linguagens, a fala das árvores, a fala dos que não falam. A Biologia me serviu de ponte para outros saberes. Com ela entendi a Vida como uma história, uma narrativa perpétua que se escreve não em letras mas em vidas.

A Biologia me alimentou a escrita literária como se fosse um desses velhos contadores não de histórias mas de sabedorias. E reconheci lições que já nos tinham sido passadas quando ainda não tínhamos sido dados à luz. No redondo do ventre materno, já ali aprendíamos o ritmo e os ciclos do tempo. Essa foi a nossa primeira lição de música. O coração esse que a literatura elegeu como sede das paixões , o coração é o primeiro órgão a formar-se na morfogénese. Ao vigésimo segundo dia da nossa existência esse músculo começa a bater. É o primeiro som, não que escutamos — nós já escutávamos um outro coração, esse coração maior cuja presença reinventaremos durante toda a nossa existência —, mas é o primeiro som que produzimos. Antes da noção da Luz, o nosso corpo aprende a ideia do Tempo. Com vinte e dois dias, aprendemos que essa dança a que chamamos Vida se fará ao compasso de um tambor feito da nossa própria carne.


Mia Couto
in, Pensatempos 




quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Foi sempre tão incerto o caminho até ti





Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus presságios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu

coração sempre tão surdo para tudo isso,
sempre a gritar outra coisa mais alto para
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar. Foi por isso que,

ao contrário de ti, não quis dormir nessa
noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer
era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto. Mas tu falaste de
repente do meio do teu sono, estendeste o
braço na minha direcção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome.



Maria do Rosário Pedreira




Aliens










































































































































































Conquer, Destruction and  Control: