terça-feira, 25 de julho de 2017

A Armadilha da Identidade





A mais perigosa armadilha é aquela que possui a aparência de uma ferramenta de emancipação. 
Uma dessas ciladas é a ideia de que nós, seres humanos, possuímos uma identidade essencial: somos o que somos porque estamos geneticamente programados. Ser-se mulher, homem, branco, negro, velho ou criança, ser-se doente ou infeliz, tudo isso surge como condição inscrita no ADN. Essas categorias parecem provir apenas da Natureza. A nossa existência resultaria, assim, apenas de uma leitura de um código de bases e nucleótidos.

Esta biologização da identidade é uma capciosa armadilha. 
Simone de Beauvoir disse: a verdadeira natureza humana é não ter natureza nenhuma.
Com isso ela combatia a ideia estereotipada da identidade.

Aquilo que somos não é o simples cumprir de um destino programado nos cromossomas, mas a realização de um ser que se constrói em trocas com os outros e com a realidade envolvente.

A imensa felicidade que a escrita me deu foi a de poder viajar por entre categorias existenciais. Na realidade, de pouco vale a leitura se ela não nos fizer transitar de vidas. De pouco vale escrever ou ler se não nos deixarmos dissolver por outras identidades e não reacordarmos em outros corpos, outras vozes.

A questão não é apenas do domínio de técnicas de decifração do alfabeto.
Trata-se, sim, de possuirmos instrumentos para sermos felizes.
E o segredo é estar disponível para que outras lógicas nos habitem, é visitarmos e sermos visitados por outras sensibilidades. É fácil sermos tolerantes com os que são diferentes. É um pouco mais difícil sermos solidários com os outros. Difícil é sermos outros, difícil mesmo é sermos os outros.



Mia Couto
in, E Se Obama Fosse Africano?





Quem não Ama não Vive





Já na minha alma se apagam 
As alegrias que eu tive; 
Só quem ama tem tristezas, 
Mas quem não ama não vive. 

Andam pétalas e folhas 
Bailando no ar sombrio; 
E as lágrimas, dos meus olhos, 
Vão correndo ao desafio. 

Em tudo vejo Saudades! 
A terra parece morta. 
- Ó vento que tudo levas, 
Não venhas à minha porta! 

E as minhas rosas vermelhas, 
As rosas, no meu jardim, 
Parecem, assim caídas, 
Restos de um grande festim! 

Meu coração desgraçado, 
Bebe ainda mais licor! 
- Que importa morrer amando, 
Que importa morrer d'amor! 

E vem ouvir bem-amado 
Senhor que eu nunca mais vi: 
- Morro mas levo comigo 
Alguma coisa de ti. 



António Botto
in, "Canções"






A vida num tabuleiro de xadrez





Na maior parte das vezes, quando alguém nos provoca ou testa de alguma maneira, a nossa tendência é reagir, seja atacando seja fugindo.
Num jogo de xadrez fazemos o mesmo mas através das peças, certo?
Se o outro faz um cheque ao nosso Rei, respondemos a esse ataque à pessoa directamente ou fazêmo-lo através do jogo?
Obviamente que o jogo ficaria suspenso e a violência física surgiria caso levássemos as investidas do outro directamente.

Claro que é no tabuleiro que teremos que responder ao ataque.
Ou seja, os dois Reis e os seus reinos no jogo são uma Micro representação da Macro realidade de cada jogador.

O mesmo se passa nas nossas vidas. 
Estamos permanentemente a jogar com um jogador invisível chamado Deus que usa a nossa realidade e as pessoas para fazer as suas jogadas. Jogadas essas que estão estudadas de acordo com a nossa história Karmica e que pretendem através dos movimentos estudados, criar respostas positivas da nossa parte e levar-nos em última análise à vitória.

Infelizmente fazemos na vida o que seria ridículo no jogo; esquecemos que é um jogo, que o outro é apenas um peão e que apenas nos é pedido que respondamos ao seu movimento com um movimento nosso mais inteligente e estratégicamente preparado para nos salvaguardar.

Tenta então olhar para a tua realidade imaginando cavalos, bispos, rainha e rei, torres e peões em todas as pessoas à tua volta.
Imagina mesmo os quadradinhos pretos e brancos no chão.
Observa os movimentos dos outros como altamente estratégicos preparados pelo outro adversário (não propriamente por eles próprios!). A cada jogada foca-te apenas no tabuleiro e percebe que jogada inteligente, que te proteja e até favoreça pretendes fazer?

Obviamente num jogo de xadrez a vitimização, os ataques directos, cobranças são inúteis.
Não é por acaso que o xadrez é um jogo silencioso.

  • Onde e com quem consegues já manter este foco?
  • Onde e com quem esqueceste que afinal tudo é um jogo?
  • A quem andas a exigir jogadas que te favoreçam apenas a ti? 
  • Ou a quem andas a facilitar o jogo na ilusão de que te irá ajudar a ganhar o teu?


Entre a jogada de ataque, de defesa ou de não mexer em certas peças esperando simplesmente um movimento do outro, importante é que mantenham sempre o foco no tabuleiro sentindo a peça e o movimento do outro pois é a partir daí que poderás responder no teu melhor.



Vera Luz





segunda-feira, 24 de julho de 2017

Quando se gosta, gosta-se e pronto.





"Quando se gosta, gosta-se e pronto.
Sente-se saudades, estando longe ou mesmo 5 minutos depois de estarmos juntos.
O coração bate mais forte, o estômago encolhe, o sorriso congela.
Quando se gosta, gosta-se e apetece parar o tempo naqueles momentos que não queremos que acabem. Os abraços nunca são demasiado apertados e os beijos sabem sempre a pouco.
Tudo é sempre pouco.
Quando se gosta, as mãos encaixam na perfeição e o ombro tem a forma exacta para deitar a cabeça. As palavras são sempre meigas, cheias de carinho e acompanhadas de gestos sinceros que demonstram isso mesmo, que se gosta.
Quando se gosta, o único medo que existe é o de falhar e perder, por muito que seja tudo perfeito."




Bendito Sejas





Bendito sejas, 
Meu verdadeiro conforto 
E meu verdadeiro amigo! 

Quando a sombra, quando a noite 
Dos altos céus vem descendo, 
A minha dor, 
Estremecendo, acorda... 

A minha dor é um leão 
Que lentamente mordendo 
Me devora o coração. 

Canto e choro amargamente; 
Mas a dor, indiferente, 
Continua... 

Então, 
Febril, quase louco, 
Corro a ti, vinho louvado! 
- E a minha dor adormece, 
E o leão é sossegado. 

Quanto mais bebo mais dorme: 
Vinho adorado, 
O teu poder é enorme! 

E eu vos digo, almas em chaga, 
Ó almas tristes sangrando: 
Andarei sempre 
Em constante bebedeira! 

Grande vida! 

- Ter o vinho por amante 
E a morte por companheira! 



António Botto 
in, "Canções"





Gatos





Hitler não gostava de gatos, Churchill adorava-os, e eu fui educada a detestá-los.
A minha mãe achava que ter gatos era um sintoma de solidão desesperada e sentia tanto medo deles como das donas. Herdei a histeria.

Quando vivia no campo, a Marta pediu-me para tomar conta de uma cria abandonada e acabei por ceder. Era uma gata vadia e todos os dias se esgueirava pela janela do quarto para se rebolar com os amigos. Resultado: um dia cheguei a casa e tinha oito.
Cresceram em minha casa e, todas as semanas, morria um atropelado.
Vivíamos ao lado de uma estrada perigosa e velha, e é impossível, no campo, manter gatos dentro de casa. Sempre que saíamos de carro, cruzávamo-nos com mais uma tragédia esborrachada no asfalto, incriminando-nos por negligência.
O Bernardo sofria mais do que eu, adorava animais sem distinção: mochos, ginetes, cavalos, galinhas.

Depois desse, as dinastias sucederam-se.
Talvez na terceira, houve um exemplar a que me afeiçoei.
Era meigo e parecia reconhecer-me, além de que era o derradeiro descendente do gato da Marta e também a nossa última oportunidade de redenção. Vacinámo-lo e arranjámos-lhe um berço. À noite, o Bernardo e eu, como quem não quer a coisa, disputávamos-lhe os carinhos. Era auto-suficiente e sobranceiro, como todos, e aquilo irritava-me. Só depois de ter lido testemunhos de alguns escritores sobre a sua relação com gatos percebi o que diziam. Para eles, só existimos na hora da comida.
Lembram-me a Maluda, Deus me perdoe, que viveu uma história tremenda. Depois da químio, quando começaram a vê-la diminuída e dependente, os gatos que toda a vida mimou apoderaram-se da casa e começaram a vandalizá-la, defecando nos cortinados, arranhando as telas e derrubando as colecções de porcelana. Enfim, pode ter sido uma expressão de luto ou orfandade, mas enquanto a Psicologia não chegar aos gatos, reservo-me o direito de julgá-los.
Para mim, foi uma revelação de carácter.

Sem querer, fui gostando desse. 
Continuava a irritar-me o modo silencioso de se moverem, aquela forma de só os descobrirmos, por vezes, quando os pisamos e miam; mas aquele foi-se aguentando dentro de casa mais tempo do que os outros e fugia pouco.
Um dia, quando voltávamos da feira, fomos dar com ele muito quieto, num canto da cozinha. Fora mordido por um cão e tinha um buraco tão fundo no peito que lhe víamos as costelas. O Bernardo já estava atrasado, de modo que corri a uma clínica veterinária de Rio Maior, desconhecendo que não se pode meter um gato sem mais nem menos num carro, pois entram em pânico, e que é para isso que existem cestos ou caixas de fibra para os transportar em viagem. Passados uns quilómetros, distraída, não ceguei por acaso. O gato, que supus moribundo, deu um salto do banco traseiro para aterrar na minha cabeça e fincar as garras na minha testa e nos meus cabelos. Apanhou um susto, mas o meu não foi menor.
Ainda pensei em atirá-lo pela janela, descontrolada, mas acabei por viajar durante doze quilómetros com ele montado na minha cabeça, estrebuchando e arranhando-me - foi talvez o gesto mais nobre da minha vida, sem aplauso nem testemunhas.

O médico disse que precisava de ser cosido imediatamente e também o preço da cirurgia, desproporcionado e exorbitante, de modo que dei comigo sentada numa sala de espera, sozinha e transpirada como um pai estreante, contando as horas para o fim do pesadelo.
Quando a porta se abriu e ouvi «prognóstico reservado», afligi-me e ri-me ao mesmo tempo. O cinismo é uma peste sem escrúpulos e não dá tréguas àquela esquizofrenia tão própria do escritor, agente e observador simultâneos. 
Não se limitavam a convocar-me solidariedade, pediam-me esperança!
Sentei-me outra vez e, da segunda vez que o veterinário abriu a porta, foi para me depositar nas mãos a tábua em que o gato se tornara, depois da anestesia, com um esgar que arrepiava.
No regresso, já não foi preciso trazê-lo num cesto; estava inofensivo como um cadáver.

Era noite quando cheguei a casa e, para minha impaciência, o gato nunca mais acordava.
O Bernardo adormeceu como uma pedra e fui obrigada a vigiar o despertar de um animal com a mesma consternação que usei para com o Salvador, quando, no Hospital, recuperou de um traumatismo craniano. Duas horas depois, nada se alterara.
Eu, a cair de sono, debruçada, e o bicho, sem querer acordar, com a carcaça tão rígida como chegara.

Desesperada, liguei para a minha amiga Carolina, que vivia a 90 Km, a contar-lhe.
Generosa, mãe de quatro filhos e entusiasta de mil causas, apanhei-a estafada e prestes a meter-se na cama, com uma sugestão ensonada que me fez rir de nervos durante mais de uma hora:
- Rita, tens uma pá?

O gato recuperou à custa de um sem-fim de despesas e cuidados para, um mês depois, morrer aos pneus de uma carrinha Nissan.


Rita Ferro
in, Veneza Pode Esperar



domingo, 23 de julho de 2017

15 satisfações que tu não deves a ninguém (embora aches que deves)






Muitas das nossas escolhas e comportamentos estão sujeitos a levantarem questionamentos e comentários por parte das pessoas que estão ao nosso redor. Família, amigos ou até mesmo estranhos emitem opiniões o tempo todo.
Alguns são bem-intencionados, outros nem tanto.

Às vezes as pessoas vão tão longe a ponto de pedir explicações sobre decisões ou escolhas que fizeste em relação à tua própria vida, e que não lhes diz respeito em praticamente nada. 

Entretanto, podes sentir-te na obrigação de responder simplesmente porque estás acostumado a dar satisfações ou a deixar que outras pessoas decidam sobre coisas que, na verdade, devem ser decisões tuas.

Mas, algumas decisões tuas não dizem respeito a ninguém, e não lhes deves satisfações para as 15 coisas que se seguem - embora penses que sim:



1. Não deves qualquer explicação sobre a tua situação de vida.
Se vives com o teu ex-namorado ou ex-namorada, se vives num hotel ou se vives com os teus pais mesmo tendo mais de 20 anos, não precisas explicar isso para ninguém.
Se estás plenamente consciente em relação à tua actual situação de vida, isso quer dizer que tens as tuas razões para estares na situação em que estás, e ninguém tem nada a ver com isso.

2. Não deves qualquer explicação sobre as tuas prioridades de vida.
Tu sabes o que te faz e aos que amas confortáveis e felizes, e essa deve ser a tua principal prioridade. Como somos seres únicos com diferentes valores e princípios, sonhos e aspirações, é normal que as tuas prioridades sejam diferentes das dos outros. Não deves satisfações a ninguém sobre as tuas prioridades na tua vida.  As nossas escolhas devem ser influenciadas pelo que nos afeta direta e intimamente, e não pelo que vem de fora.

3. Não deves qualquer pedido de desculpas, se não estás arrependido.
Se não te arrependes de alguma das tuas ações, se continuas a achar que alguém está errado sobre alguma coisa ou não te importas muito com o seu pedido de desculpas, não tens de pedir desculpas de nada. Muitas pessoas são muito rápidas em oferecer desculpas e tentar sarar feridas que ainda não estão prontas para serem saradas, o que só serve para agravar a dor e trazer mais problemas. Na verdade, tu não tens que pedir desculpas se não estás arrependido, ou se o teu lado da história não foi ouvido.

4. Não deves explicações a ninguém pelo tempo que passas sozinho.
Podes preocupar-te por ser julgado como “rude,” “anti-social” ou “indiferente” quando cancelas planos ou outras obrigações simplesmente porque precisas de um tempo sozinho para reiniciar, relaxar ou simplesmente desfrutar de um bom livro. No entanto, passar tempo sozinho é absolutamente normal, natural e necessário. Passa o teu tempo sozinho quando te apetecer, porque ninguém tem nada a ver com isso.

5. Não deves a ninguém concordares sempre com as suas crenças pessoais.
Só porque alguém compartilha as suas crenças pessoais fervorosamente, não significa que tens que estar lá e acenar com a cabeça em aprovação a tudo o que eles dizem. Se não partilhas as mesmas crenças que eles, é injusto para ti mesmo e para a outra pessoa que tu suprimas os teus próprios pensamentos e sentimentos e finjas que estás de concordo com eles. É melhor parar e discordar deles graciosamente em vez de te tornares uma “bomba relógio” de desaprovação e frustrações.

6. Não deves a ninguém um sim a tudo o que eles dizem.
Tens o direito de dizer não quando não há nenhuma razão para dizer sim. Na verdade, as pessoas mais bem sucedidas do mundo são aqueles que têm dominado a arte de dizer não a tudo o que não é uma prioridade. Reconhece a bondade das outras pessoas e sê grato por isso, mas não tenhas medo de recusar educadamente qualquer coisa que te tire o foco dos teus objetivos e prioridades fundamentais. É assim que se segue em frente.

7. Não deves qualquer explicação sobre a tua aparência física.
Podes ser magro, gordo, alto, baixo, bonito, simples ou qualquer outra coisa, mas não tens dar explicações sobre o corpo que tens. A tua aparência física apenas diz respeito a ti próprio e a mais ninguém. A aparência física não deve determinar a tua autoestima.

8. Não deves qualquer explicação sobre as tuas preferências alimentares.
Existem certos alimentos que tu simplesmente não gostas ou optas por não comer por diversos motivos, seja por questões de sabor, de saúde ou por questões morais. Tu não tens de explicar a quem quer que seja o motivo de preferires determinados alimentos e de não comeres outros. A tua preferência alimentar é um assunto que é melhor deixar para ti mesmo. Se alguém te importunar por estares a comer (ou não comer)determinados alimentos, encolhe os ombros e diz que te sentes melhor a comer (ou não comer) o que comes.

9. Não deves qualquer explicação sobre a tua vida sexual.
Desde que as tuas relações aconteçam com o consentimento adulto da outra pessoa, não deves explicação a ninguém sobre onde, quando e como levas a tua vida sexual. Podes querer esperar pelo casamento, passar apenas uma noite com uma pessoa ou mais, ou ter experiências com uma pessoa ou pessoas do mesmo sexo. As decisões são tuas, assim como as consequências delas.

10. Não deves qualquer explicação sobre a tua carreira ou opções de vida pessoal.
Às vezes as circunstâncias obrigam-nos a escolher entre o trabalho e “ter uma vida.” A decisão nem sempre é fácil e podes acabar por escolher o trabalho, não porque não te preocupas com a tua família ou vida social, mas porque estás a trabalhar em algo que te vai dar segurança no futuro. De qualquer das formas, não deves explicações aos outros por optares pela tua carreira em detrimento da tua vida pessoal(ou vice versa) desde que estejas confiante em relação ao que estás a fazer e, porque o estás a fazer.

11. Não deves explicações sobre as tuas opiniões políticas ou religiosas.
Sejas um democrata, republicano, católico, protestante ou muçulmano, isso é uma escolha tua pessoal. Tu não deves explicações a ninguém sobre as tuas razões de acreditares no que acreditas, nem tens de fundamentar as tuas opiniões. Se alguém não te pode aceitar pelo que tu és, isso é problema deles, não é problema teu.

12. Não deves explicações a ninguém por seres solteiro.
Se estás solteiro por opção ou por imposição, não diz respeito a ninguém. Ser solteiro não é nenhum transtorno de personalidade. Tu és livre de estar num relacionamento ou não. Além disso, tu és muito mais do que o teu Estado Civil, e ser Solteiro é apenas um desses rótulos sociais. Ninguém deveria preocupar-se tanto com isso.

13. Não deves um encontro a alguém apenas porque te convidaram.
A pessoa pode ser agradável, ter boa aparência e até podes estar um pouco interessado, mas tu não lhe deves um encontro só porque ela convida. Se sentires que, no fundo, não queres ir a algum lugar ou ocasião, não vás. Podes dar uma justificação por não ires mas, que seja breve e mantém-te firme com a tua decisão.

14. Não deves qualquer explicação sobre a tua decisão em relação ao casamento.
Se vais ou não optar por te casares e ter filhos ou ficar solteira e ser “livre de crianças”, isso é uma decisão pessoal. Mesmo a tua mãe que está desejosa para ter netos deve entender que o casamento é uma decisão pessoal e que pode não ser adequado para todos. Ela deve respeitar a tua decisão sobre o assunto por mais duro que seja de engolir.

15. Não deves qualquer explicação sobre as tuas escolhas de relacionamentos.
Às vezes as pessoas fazem comentários inapropriados sobre o teu relacionamento(s) amoroso, o que na realidade não lhes diz respeito. Podes ouvir comentários tipo: que formam um “casal perfeito”, ou que deves namorar com alguém e não ficar solteiro. No entanto, só deves satisfações a ti próprio em relação às tuas escolhas amorosas. Vive a tua vida e nunca, mas nunca saias ou fiques num relacionamento só porque alguém diz que tu tens de ficar ou ir embora. Comete os teus próprios erros se tiver de ser, mas aprende sempre com eles.



David K. William
in, Life Hack




Vão orgulho





Neste mundo vaidoso o amor é nada, 
É um orgulho a mais outra vaidade 
A coroa de louros desfolhada 
Com que se espera a eternidade. 

Ser Beatriz, Natércia. Irrealidade! 
Mentira...Engano de alma desvairada... 
Onde está desses braços a verdade, 
Essa fogueira em cinzas apagada?... 

Mentira! Não te quis..não me quiseste... 
Efluvios subtis de um bem celeste? 
Gestos, palavras sem nenhum condão... 

Mentira, não fui tua não...Somente 
Quis ser mais do que sou, mais do que gente, 
No alto do orgulho de o ter sido em vão. 



Florbela Espanca 
in, Reliquiae 





O SÁBIO MESTRE





Há muito tempo atrás, havia um mestre que vivia  com um grande número de discípulos num templo arruinado.

Os discípulos sobreviviam através de esmolas e doações conseguidas numa cidade próxima.
Logo, muitos deles começaram a reclamar sobre as péssimas condições em que viviam.
Em resposta, o velho mestre disse um dia: 

“Nós devemos reformar as paredes do templo. Desde que nós somente ocupamos o nosso tempo estudando e meditando, não há tempo para que possamos trabalhar e arrecadar o dinheiro que precisamos. Assim, eu pensei numa solução simples”.

Todos os estudantes se reuniam diante do mestre, ansiosos em ouvir suas palavras.
O mestre disse:

“Cada um de vocês deve ir para a cidade e roubar bens que poderão ser vendidos para a arrecadação de dinheiro. Desta forma, nós seremos capazes de fazer uma boa reforma em nosso templo”.

Os estudantes ficaram espantados por este tipo de sugestão vir do sábio mestre.
Mas, desde que todos tinham o maior respeito por ele, não fizeram nenhum protesto.
O mestre disse logo a seguir, de modo bastante severo:

“No sentido de não manchar a nossa excelente reputação, por estarmos cometendo atos ilegais e imorais, solicito que cometam o roubo somente quando ninguém estiver olhando. Eu não quero que ninguém seja pego”.

Quando o mestre se afastou, os estudantes discutiram o plano entre eles.
“É errado roubar”, disse um deles, “Por que nosso mestre nos solicitou para cometermos este ato?”

Outro respondeu em seguida,
“Isto permitirá que possamos reformar o nosso templo, na qual é uma boa causa”.
Assim, todos concordaram que o mestre era sábio e justo e deveria ter uma razão para fazer tal tipo de requisição. Logo, partiram em direção a cidade, prometendo coletivamente que eles não seriam pegos, para não causarem a desgraça para o templo.
“Sejam cuidadosos e não deixe que ninguém os veja roubando”, incentivavam uns aos outros.

Todos os estudantes, com exceção de um, foram para a cidade. 
O sábio mestre se aproximou dele e perguntou-lhe:

“Por que você ficou para trás?”

O garoto respondeu:

“Eu não posso seguir as suas instruções para roubar onde ninguém esteja me vendo. Não importa aonde eu vá, eu sempre estarei olhando para mim mesmo. Meu próprios olhos irão me ver roubando”.

O sábio mestre abraçou o garoto com um sorriso de alegria e disse:
“Eu somente estava testando a integridade dos meus estudantes e você é o único que passou no teste!”

Após muitos anos, o garoto se tornou um grande mestre.


Autor Desconhecido
Conto Zen




sábado, 22 de julho de 2017

Amor e Desapego




O amor com desapego 
não é sem interesse, 
é sem interesses. 



Entender o desapego no amor ou integrar o amor no desapego, são o caminho para elevá-lo.
Ambos são essenciais, íntimos e complementares. 

Cuida sem ser interesseiro, dá suporte sem agarrar, oferece sem apegar. 
Como um pássaro que cuidamos sem enjaular, o relacionamento assim nutrido é um de entendimento com mútuo sentimento, no consentimento de ambos. Um amor que é elevado por ser louvado, nutrido pela adoração e que se honra pelo reconhecimento da benção de cada um, em si.
Os laços são ternos e soltos, vêm do entendimento, a confiança, o respeito e de uma profunda vontade do melhor em ambos. 
Dão as mãos para se apoiarem, entrelaçam dedos para se sentirem, porém jamais se apegam.
Dançam como duas folhas ao vento, sempre juntas enquanto conjuntas são as suas direções.




Depois temos o relacionamento nutrido pela dependência, a necessidade em apegos. 
Que apoia com interesses e que se vai dando como investimentos, numa troca em função das necessidades. 
Também este será amor, porém ainda muito aquém, condicionado pelas restrições, o peso dos seus apegos e receios. 
Diz coisas como “Sem ti não consigo viver”, “preciso de ti como ar para respirar”, “sofro muito porque gosto muito de ti”. 
E é verdadeiro o sentimento, é um verdadeiro gostar. Porém como amor é uma expressão ainda muito fechada sobre o próprio. Tão contida e apegada como uma semente que ainda não desabrochou para ser árvore.
Esta semente é “preciosa” porém só será manifestamente grande ao abrir-se pela via do desapego. Até lá será sempre áquem, uma semente que nunca desabrocha.
A perda deste doce gosto gera amargo, desgosto, mágoa, sofrimento, rancor, ódio, rebelião e a contração do si. Tende a criar uma depressão no próprio num movimento de autocomiseração. O “Gosto” é o amor com apego, a uma semente preciosa num cantinho, preservada pelo medo e chorada pela sua beleza.

Desabrochando pelo desapego do amor à forma, o crescimento e profundidade deste é sem fim. Profundamente transformador e regenerador como uma árvore que ascende lenta e sucessivamente. Um amor assim terno é eterno, nunca se perde.
Muda de forma, transforma-se por frutos ou outras árvores. Cortado aquece o fogo, cria um barco, uma cadeira, um lápis. Deixa sempre uma longa história em cada anel da sua árvore. E muito para lá do desaparecimento da forma que o continha, esta árvore, continua a propagar ecos do seu amor e a dar suporte muito para lá da vida que o manifestava. A perda da forma deste amor, gera saudade, profundidade, compaixão, aceitação e expansão do si. Tende a criar uma anulação do próprio num movimento de compaixão.
O “Amor” é o amor com desapego, a uma árvore que segue num caminho, impulsionada pelo sonho e chorada pela sua beleza colateral.




O amor mais elevado é um pássaro azul, tanto poisa quanto voa, livre como um passarinho. 
O que o faz regressar é o amor e o voar também. 

Enquanto o gosto protege o que é de si, o amor liberta o que de si é. Tendo gosto apegamos e sendo amor desapegamos. Quando entendemos e aceitamos verdadeiramente esta natureza, o amor torna-se profundo e abrimos mão pela via do desapego. Nesse momento a semente gerada pelo apego ganha espaço a crescer como uma árvore. O amor profundo é um desapego à forma, e é graças a esse passo que cresce para sempre num movimento que é terno e eterno.

Este movimento é presente em toda a natureza.
O gosto gera as sementes mas é o amor que as transforma. 
O gosto tem como dimensão o tempo contando os feitos, as partilhas e adicionando clamações e reclamações no tempo “és meu”, “sou tua”, “tu mudaste”, “estás igual”, “dei-te isto”.
O amor tem como dimensão o espaço, permeando-o por completo, pelo tempo, com gosto e adicionando silêncios…



Vasco Daniel
in, Alquimia