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sábado, 29 de abril de 2017

(pro)cura-me


Raphael Guarino





Tenho saudades tuas. Só o que está ligado se pode partir, é certo. Nós estávamos ligados, como todos os bons amantes. Só o que está ligado se pode partir, repito. Tenho saudades tuas. Tenho saudades nossas e de tudo o que era nosso. O mundo era nosso. O sol nascia, o sol punha-se, e nós estávamos juntos, cá dentro, onde tudo parecia certo, onde estávamos protegidos. Cá dentro, onde apenas existíamos eu e tu, nada poderia dar para o torto. Havia gargalhadas, beijos, declarações ingénuas de amor, havia filmes noite adentro, poemas recitados, olhares escondidos e mais tarde revelados, carícias e abraços intermináveis. Cá dentro estávamos seguros. Mas o mundo acontece, também, lá fora. Ninguém se pode esconder para sempre da vida. Há os refúgios, as escapadelas, as férias, mas a vida acaba sempre por nos encontrar. Acaba por nos acontecer e, se não estivermos preparados, acaba por nos atropelar a duzentos quilómetros por hora. Acho que foi isso que nos aconteceu. Nenhum de nós estava preparado para o mundo real, onde as coisas nem sempre são como queremos. Onde todas as excepções têm regras. Não estávamos preparados para nada disso. Distâncias abismais, pessoas aleatórias a aparecerem e a desaparecerem à nossa volta, medos, dúvidas, confusões. No fundo, problemas. Até ali eles sempre nos tinham passado ao lado, como se tivéssemos um campo de forças à nossa volta que os desviava. Até ali nada nos podia separar. Era para sempre, pensávamos nós na nossa ingenuidade. Era para sempre. Só que nunca é. Nada é para sempre. Tudo dura até um dia. Viemos do pó e ao pó voltaremos, sempre ouvi dizer. Neste momento é isso que nós somos: um resto que ficou desses dias. Fomos carne na mesma carne, músculo contra músculo, pele na mesma pele. Fomos inteiros, até um dia nos estilhaçarmos em mil. Hoje somos as memórias que guardamos desses dias, dessas gargalhadas, dessas carícias, desses poemas ditos ao desbarato. Hoje somos a saudade. Somos essa noção concreta do que um dia foi abstracto. Será para sempre, um dia pensei contigo. E será para sempre o momento do teu sorriso quando te dizia que te amava. Será para sempre a arritmia que sentia quando me sorrias embriagada de amor. Serás para sempre, até um dia. Serás para sempre enquanto te procurar no meu telemóvel, nas minhas roupas e por toda a parte. Serás para sempre enquanto acreditar. Serás para sempre nesta saudade


(pro)cura-me com a carne
Dos teus lábios junto
À carne dos meus
Cura-me do veneno
Que é não ter-te
Procura-me nas tuas
Memórias, como eu
Te procuro nas minhas
E dá-me a mão devagar
Como se o tempo parasse
E nada tivesse que
Mudar


Serás para sempre até ao dia em que estas palavras estiverem gastas. Porque passaste pela minha vida e, para o bem ou para o mal, acabaste por ficar presa em mim.



Repito-te: (pro)cura-me.




PEDRO RODRIGUES




sexta-feira, 28 de abril de 2017

O que vou sabendo sobre as mulheres...




São as mais fantásticas criaturas do universo e nós temos a sorte de partilhar o mesmo espaço que elas. No entanto…
São umas chatas do pior e não nos deixam ver o futebol em paz. São bipolares como o caraças e nunca estão satisfeitas com nada. São mestres do disfarce: têm sempre uma máscara para quem não gostam. Têm opinião sobre tudo, mesmo quando não entendem nada do assunto. Conseguem engordar-nos de mimos ao jantar e matar-nos de problemas ao deitar – ou vice-versa. São estranhas, problemáticas, caóticas. Metem o dedo na ferida como ninguém, e se possível vão até ao osso. Têm prazer em ver-nos sofrer quando estamos doentes, ou quando teimam em nos espremer as borbulhas e os pontos negros

-Tem calma, está quase

(De sorriso sádico na cara)

- Não sejas maricas

Enquanto nós, por outro lado, nos vamos contorcendo no meio de toda aquela carnificina. Para elas somos uns piegas, uns meninos da mamã, uns mariquinhas pé de salsa. Somos um compêndio de defeitos e coisas más. Nunca estamos bem, mesmo quando estamos bem. Nunca estamos no sítio certo, mesmo quando estamos no sítio certo. Não as compreendemos, nem temos um pingo de compaixão por elas. Não lhes distinguimos o

-Não…

Quando o

-Não…

Quer dizer

-Sim!

Trocam-nos as voltas com uma facilidade sobrenatural. Acabam onde começam e começam onde acabam. Amam-nos quando somos bons e não deixam de nos amar quando somos maus. Choram de alegria e sorriem de tristeza. São estranhas. Tanto nos esmurram o peito, como se aninham no nosso ombro. Olham-nos com vontades homicidas quando nos enganamos em coisas triviais. Mutilam-nos mentalmente quando nos esquecemos de coisas banais. Para nossa sorte gostam de artigos defeituosos. Queixam-se que se danam. Berram, insultam, esbofeteiam, esperneiam. Caminham sempre no limbo entre a bonança e a tempestade. São perfeitas nos defeitos e nós pecamos por não lhes dizer que o são. Trabalham numa frequência diferente da nossa, mas procuram sempre a sintonia. Esbofeteiam, esperneiam, berram e insultam. Felizmente para nós acreditam em histórias de princesas. Infelizmente para elas, nem todos os sapos escondem um príncipe. Inventaram aquele momento em que os olhares se misturam e os lábios tremelicam, aquele momento em que no meio de beijos e abraços, faça chuva ou faça sol, solta-se um

-Amo-te

Abafado entre lágrimas e sorrisos e um silêncio apavorante.

(Na expectativa de um

-Eu também te amo)

Inventaram os amores de cinema, de telenovela e da vida real. Inventaram o amor, ou o amor foi inventado a partir delas. Felizmente para nós, gostam de artigos defeituosos. Talvez por isso se diga que todos os cães têm sorte.




Pedro Rodrigues





quinta-feira, 27 de abril de 2017

Encontramo-nos onde fores feliz


The Monster In The Closet 
Luigi Quarta




Não me digas
que queres ter asas
se tens medo de voar

Não me digas 
que queres ter voz
se tens medo que te oiçam

Não me digas
que queres ser diferente
se tens medo da mudança

Não me digas 
que queres chegar
se tens medo de partir

Não me digas
que queres guardar
se tens medo de perder

Diz-me
que apesar do medo
vais voar, vais gritar, vais mudar, vais partir, vais guardar
mesmo que o medo
mesmo com medo
voa, menina
grita, muda, parte, guarda
Não pares.
O tempo não pede licença para avançar
Avança com ele até onde fores feliz.
Diz-me
Tens medo?
Todos temos.

Encontramo-nos lá.



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