sexta-feira, 12 de maio de 2017

Transtorno Narcisista de Personalidade nos Relacionamentos


Jovana Rikalo




Pretendo deixar-vos algumas considerações sobre as relações íntimas, em que um elemento do casal ou os dois, apresentam um Transtorno Narcisista de Personalidade (TNP).
Outra ideia a salientar é que a dinâmica da relação irá depender da gravidade da perturbação.

Na fase de enamoramento ou da paixão, os indivíduos com esta perturbação não costumam demonstrar as características narcísicas. Pelo contrário, manifestam atitudes que fazem o outro acreditar que é interessante e mais do que isso, especial. Os sinais de alarme podem ser inexistentes. Muito mais tarde, após muitos meses, um ano ou dois, começam a surgir as dificuldades na relação. Pode-se ser até surpreendido com o primeiro ataque de fúria, exagerada, face ao que a despoletou.
A falta de empatia para com as necessidades e interesses do outro, e sobretudo, a necessidade de salvar a face (o seu narcisismo) em detrimento de um encontro amoroso e protector, evidenciam-se.

Mas estas dinâmicas não são fáceis de interpretar, porque o indivíduo com este transtorno, pode alternar comportamentos de prepotência e arrogância com desprezo pelos sentimentos do outro, até ao absoluto sentimento de dependência e necessidade de amparo. Esta necessidade, que não é assumida, pode manifestar-se de modo pouco evidente, misturada com agressividade, sem que se perceba qual a queixa.
Porém, o que parece ser a vontade de ser apoiado ou ter companhia, não invalida que o outro não seja maltratado, por vezes, com prazer. Maltratado de diversos modos, por não ser levado em conta, por não ser valorizado pela pessoa que é...
A inveja, outra das características da perturbação narcísica desempenha também um papel na dinâmica da relação. O controle e o domínio, também.

Muitos casamentos terminam no inicio das dificuldades.
Nos que se mantêm, qual o perfil da mulher ou do marido que suporta este tipo de relação?
Concordo em absoluto com o psicanalista Mário Quilici, num texto que deu o título a este post, que considera que quando o marido sofre de TNP (Transtorno Narcisista de Personalidade), é frequente o caso da mulher sofrer de Transtorno de Personalidade Dependente (TPD), e vice versa. 
Estas personalidades são descritas por este autor nos seguintes termos:
“Elas (TPD) são carentes, precisam de muita ajuda e são submissas. Elas têm muito medo do abandono e, assim, agarram-se ao parceiro tenazmente. Seu comportamento geralmente é imaturo mas isso as ajuda a manter o relacionamento com os seus parceiros ou esposos de quem dependem. Não importa qual o tipo de abuso que os seus parceiros possam infringir, ainda assim, elas permanecem no relacionamento.” 
Retiram, naturalmente, gratificações pessoais desta condição.
Atrevo-me a dizer: os dois vivem um "delírio" -  a negação da  necessidade de amar e ser amado.

...

No casal em que um dos parceiros é narcisista (autoconcentrado, com mania das grandezas e de ser admirado), e o outro sofre de transtorno de personalidade dependente (ou adicto no amor), podem ser felizes juntos?
Na minha opinião, dificilmente o serão.
Posso imaginar onde reside a confusão.
Pelo facto do individuo narcísico ter  necessidade constante de admiração e aprovação e a pessoa que sofre de transtorno de personalidade dependente, abdicar da sua identidade e submeter-se, vivendo para satisfazer o amante, podemos pensar que este arranjo cria equilíbrio e felicidade no casal.
Porém, a pessoa que sofre de transtorno de personalidade dependente, depende do amante, mas ela própria tem necessidades que são tão insaciáveis - narcísica como ela também é - que tornam-se opressivas, não restando disposição para se concentrar nele.
Vivem então, o clássico laço duplo do narcisista, cada um precisa do outro, mas não tem nada para lhe dar.

...

Nas relações dos narcísicos com os seus parceiros, as destrutivas, as que se prolongam no tempo “até que a morte nos separe”, a "vítima" idealiza o outro não tendo representação do seu mundo, vivendo sem perceção emocional do que está a acontecer e consequentemente, perdendo o poder de decisão.
Acredito que vários arranjos de ligações são possíveis, mas a fatalidade para os indivíduos que não imaginam o mundo dos outros, será se apaixonarem por um parceiro para quem não existam psicologicamente, que seja um abusador, que lhes provoque alterações importantes na personalidade, invada tudo e arruíne a vida.
Os sobreviventes destas relações conseguiram travar a tempo este processo, conservaram um abrigo emocional suficientemente saudável para transformar a sua história pessoal numa narrativa significativa, e sentir que não se definem pela sua adversidade.



Cristina Simões
in, Incalculável Imperfeição






De acordo com a classificação elaborada e publicada no DSM-V-TR, o Transtorno da Personalidade Narcisista está presente em pessoas que apresentam os seguintes sinais:

. Sentem uma sensação de grandiosidade excessiva.
. Estão constantemente preocupados com fantasias de poder, sucesso, beleza ou amor.
. São pessoas que crêem ser especiais e fazem de tudo para serem reconhecidos.
. Exigem admiração excessiva dos outros.
. Expressam um sentimento de “estar no seu direito”, ou seja, possuem expectativas irracionais sobre como merecem ser tratados.
. Exploram os outros para benefício próprio (maquiavélico).
. Falta de empatia, ou seja, não são capazes de identificar ou reconhecer os sentimentos e as emoções nos outros.
. Inveja os outros ou acredita que os outros são invejosos.
. Tendem a ser arrogantes.





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