quarta-feira, 15 de junho de 2016

Lenda budista sobre gatos




O Sorriso do Buda para Um Gato Preto

Certa vez, o Senhor da Luz Imensurável ouviu um miado próximo ao lago de lótus da Terra Pura, onde os lótus florescem com uma indescritível beleza. Prestou mais atenção no singular miado que lhe soava assim aos ouvidos: “Nyaaamu Amida, Nyaaamu Amida” em louvor ao seu Nome Sagrado.

O Sublime dirigiu sua sagrada atenção ao lago para ver de perto aquele que lhe dedicava tão devotado miado. Viu um gato preto, que de tão preto destacava se lhe mais ainda os olhos verdes brilhantes como as esmeraldas da Terra Pura.

O Tathagata, curioso, falou-lhe: “por que mias o Meu Nome?”

“Ó Venerável de todas as eras e de todos os mundos, em vida fui um gato doméstico, pertencia a uma jovem humana, filha de um de Vossos veneráveis monges. Eu morava num templo onde passei meus dias adormecendo sob o sol que entrava pelas janelas do templo enquanto o monge rezava dedicando-Lhe belíssimas recitações de sutras. Eu era indolente e preguiçoso, nunca prestei a devida atenção aos sermões de Vosso discípulo. Vivia perseguindo Vossos pequenos seres vivos como passarinhos, ratos e insetos. Apesar de estar cansado de ouvir dizer que todos os seres viventes estavam ali graças a Vossa misericórdia e que eu mesmo, vivia ali tão confortavelmente graças à Vossa eterna compaixão… Mas meu instinto era mais forte… eu vivia capturando os pequeninos. Minha dona conseguiu salvar muitas das minhas vítimas, ela se zangava comigo, mas eu nem ligava. Fui um gato muito mau, que sempre conseguia obter o que queria dos humanos, usando o meu charme e fazendo gracinhas”.

O gato parou de falar por um momento, querendo perscrutar alguma reação no rosto do Inabalável. Diante da Impassível presença, não teve como senão, continuar a falar.

“Minha dona vivia ralhando comigo, afirmando que eu jamais adentraria Vossa Terra Pura, por ter matado tantos pássaros. E que sendo a Terra Pura habitada por pássaros sagrados, eu não poderia sequer chegar perto… e agora me vejo diante de tão Sagrada Presença, e renascido em Vossa Terra Pura, mas não sou digno…”

Ouvindo o relato do gato, o Senhor da Terra Pura, observando os nervosos bigodes do gato preto, responde-lhe:

“Como podes ver, apesar de tudo que fizestes em vida, por fim, adentrastes a minha Terra Pura. Ora, fostes um gato e como gato vivestes plenamente a vida. Sendo para mim, o suficiente. O Karma de nascer como um gato, é viver como um gato a natureza do gato”.

Surpreso e feliz por não ter sido admitido na Terra Pura por engano, o gato em profunda reverência ao Senhor da Vida Imensurável, diz que de agora em diante protegerá os pássaros sagrados da Terra Pura, venerando-os por seus nomes, conforme o Sutra de Amida: Zasshikishichô,Byakkou, Kujaku, Oumu, Shari, Karyôbinga, Gumyôshichô…

E o gato preto saltita contente de volta ao lago de lótus.

Quando o Tathagata volta a ouvir o gato invocando reverentemente o Seu Nome “Nyaamu Amida”, não consegue deixar de sorrir. Um sorriso misericordioso, como só um Buda pode sorrir.

Sayuri Tyô-Jun






"Para o budismo, os gatos representam a espiritualidade. São seres iluminados que transmitem calma e harmonia e, por isso, costuma-se dizer que quem não se relaciona bem com seu inconsciente nunca chega a se conectar por completo com um gato, nem tampouco entenderá seus mistérios.

A verdade é que ninguém se surpreende ao saber que a figura desses animais está unida ao budismo. Tanto é assim que na Tailândia existe uma lenda sagrada que transcendeu o tempo para converter os gatos em seres únicos de paz e íntima união, havendo vários em muitos templos dos países asiáticos. É por isso que é tão comum ver tantos gatos dormindo e enrolados nos braços das múltiplas estátuas sagradas de Buda e outros temas que enfeitam os jardins dos santuários.

Os gatos vêem muito além de nossos sentidos. Entre suas horas de sonecas e seus momentos de brincadeiras e exploração, olham nossas almas com seu olfacto refinado. Aliviam tristezas e nos preenchem com seus nobres e reluzentes olhares.

Frequentemente costuma-se dizer que ter um cachorro é ter o companheiro mais fiel que pode existir. Isso é totalmente certo. Mesmo assim, quem conhece o carácter de um gato sente que a conexão é mais íntima e profunda, e por isso diversos monges budistas como o mestre Hsing Yun falam do poder curativo desse animal.

Uma lenda budista sobre os gatos originária da Tailândia

Em primeiro lugar temos que saber algo muito importante. O budismo não está organizado numa hierarquia vertical, como já sabemos. A autoridade religiosa descansa sobre os textos sagrados, mas, por sua vez, existe uma grande flexibilidade em seus próprios enfoques. A lenda que vamos mostrar tem suas raízes numa escola específica: a do budismo theravada, ou o budismo da linhagem dos antigos.

Foi na Tailândia e dentro desse contexto que foi escrito “O livro dos poemas do gato”, ou o Tamra Maew, conservado hoje em dia na biblioteca Nacional de Bangkok como um autêntico tesouro que deve ser preservado. Em seus antigos papiros se pode ler uma encantadora história que conta que quando uma pessoa havia alcançado os níveis mais altos de espiritualidade e falecia, sua alma se unia placidamente ao corpo de um gato.

A vida poderia ser então muito curta, ou o quanto a longevidade felina permitisse, mas quando chegava o fim essa alma sabia que subiria para um plano iluminado. O povo tailandês daquela época, conhecendo essa crença, mantinha também outra curiosa prática…

Quando um familiar falecia, enterrava-se a pessoa numa cripta junto com um gato vivo. A cripta tinha sempre um espaço por onde o animal poderia sair, e quando o fizesse tinham por certo que a alma do ser amado já estava no interior daquele nobre gato… Deste modo, alcançava a liberdade e esse lugar de calma e espiritualidade capaz de preparar a alma para o caminho posterior, o caminho de ascensão.





Os gatos e a espiritualidade

Dizem que os gatos são como pequenos monges capazes de trazer a harmonia a qualquer lugar. Para a ordem budista de Fo Guang Shan, por exemplo, são como pessoas que já alcançaram a iluminação.

Os gatos são seres livres que bebem quando têm sede, que comem quando têm fome, que dormem quando sentem sono e que fazem o que deve ser feito a cada momento sem necessidade de agradar ninguém.

Não se deixam levar pelo ego, e algo especial desses animais segundo esse ramo do budismo é que os gatos aprenderam a sentir o que vem do homem desde eras muito antigas na história do tempo. No entanto, as pessoas ainda não aprenderam a sentir o gato no presente.

São leais, fiéis e afectuosos, e suas demonstrações de carinho são íntimas e subtis e, ainda assim, tremendamente profundas. Só aqueles que sabem olhar para o seu interior com respeito e dedicação entenderão o seu amor inquebrável, mas as pessoas que são desequilibradas ou que frequentemente elevam sua voz para gritar jamais serão do agrado dos gatos.

Para concluir, sabemos que não é preciso recorrer aos textos budistas para entender que os gatos são especiais, que seus olhares nos transportam para universos introspectivos, que com suas estranhas posturas nos convidam a praticar a ioga, que são um exemplo de elegância e equilíbrio… Queremos o bem desses animais e até os veneramos e, ainda que eles mesmos se acreditem autênticos deuses lembrando quem sabe de seus dias no Antigo Egipto, permitimos que eles sejam orgulhosos.

Todos temos nossas próprias histórias com esses animais, momentos inesquecíveis que nos permitiram aproveitar pequenos instantes cheios de magia e autenticidade. Esses que seguramente serviram de inspiração para criar essa charmosa lenda budista que ficou impressa em tinta, papel e misticismo."


Valéria Amado


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