Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Quintais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Quintais. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de abril de 2021

A sala







A sala tem uma cadeira
e a cadeira antecipa
a espera.
Alguém se sentará aí,
esperando
a imóvel noite.
O seu olhar será profundo
sob as máscaras
que roubará ao rosto,
película a película,
pele a pele.

Tanta coisa dependerá
dessa intransparente
notícia
da realidade
declinada e mortal,
dessa mudez
de linguagem e recolhimento.



LUÍS QUINTAIS





quinta-feira, 18 de março de 2021

Oferenda aos mortos


Philip Larkin memorial stone in Westminster Abbey





No comfort, but no tears,
assim era o obituário de Larkin
na Time. Lembro-me do título

e da fotografia de a one-piece suit man
sentado num banco alto, atrás de si uma coluna de pedra,
e atrás da coluna uma bicicleta parcialmente encoberta.

Um inglês insuportável que escrevia
poemas rentes à lucidez, sem ilusões ou precipitações.
A one-piece poem man que escutava o vento.

Night-music, Climbing the hill
within the deafening wind, The north ship,
e, sobretudo, Portrait,

onde o último verso diz
«And no wind will trouble to break her grief».
Este bibliotecário em Hull ensinou-me que o vento

jamais perturba a paz dos cemitérios. No meu sangue
imprime-se a indelével certeza disso,
mas admito, cegamente, que

Larkin, afiados versos em riste,
estivesse afinal errado. O vento desfaz a memória
e os seus nós, agita a lembrança,

e promete o apaziguamento
de novas, extemporâneas ficções.
O vento, búzio inconsútil,

arrasta-me já sem dor, mas agita
cemitérios, traz os mortos, exige de nós
uma oferenda aos mortos, esses irmãos.

E tu estás morta. Eu desvendo-te
os segredos da corrupção que te desfigura já.
Aceito, escuto o vento.



Luís Quintais





quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

A inútil poesia


Memorial do Holocausto, Berlim




Eu não vivo numa bolha de ar em Hartford.
Como posso ser fiel aos fiéis poemas
de Stevens
sem trair esta cilada?

Milosz sabe que a história é tudo o que temos
e que as traições maiores
são cometidas contra a história,
mas também em nome dela.

Como podemos nós
recuperar o sopro
que exaspera domínios no escuro,
a inumana beleza de um pavão
que abre a sua cauda
na noite iluminada,
e dizer depois
na rasa voz de quem abandonou
a inflexão retórica da sua voz,
Varsóvia, Treblinka, Celan, aldeias
cujos nomes esquecemos –
e é sintomático que os tenhamos esquecido –
onde lâminas aceradas esquartejaram
a eternidade de um rosto,
lugares – porque em cada nome
há um lugar – onde outros nomes se perfilam
num vórtice de tempos que se abrem sobre tempos
e gritos que se abrem sobre gritos,
e pétalas se expõem ao mortal apuro de se ter
sobre ombros a herança da qual
não há despedida, somente um cobarde desvio,
um conluio de silêncio e sangue?

Como esquecer? Como não esquecer?
Stevens, Milosz: uma corda de água
dança entre duas margens.
A corda é invisível
e eu procuro-a
sem método.
Aquele que me lê
deverá acreditar:

Deverá acreditar
que eu vivo
perscrutando as águas
mas dentro delas.




LUÍS QUINTAIS
in, Duelo






segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Asma


Simon Horsch




Uma asma espiritual, um traço infame
que se cruza com a tua biografia
a horas impróprias, sem reserva,
interpelando-te.

És, serias uma máquina,
o funcionário vaticina o teu futuro,
desenha-te a número, cifra, percentagem,
prognostica-te objectivos, soma-te e subtrai-te.

Amanhã, o seu corpo-teorema
atropelar-te-á, morrerás na margem,
estuprado, defenestrado
pela arruaça tecnocrática.

E se viesse uma bomba que o incluísse,
um kamikaze, um messias
de espanto e morte, atómico e total.
Seria ao menos de companhia, esse director.


 LUÍS QUINTAIS






quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Poesia moderna


JOE  FERRARO




Todas as línguas do mundo se sujaram.
Fomos condenados à gaguez triunfal
pela qual procuramos ainda dizer o que nos recusaram.

Na mínima dor há um pomar onde colhemos
os esplêndidos frutos que alimentam a nossa linfa, o nosso sangue,
a corrente que sem recurso nos prende
à furiosa morte.

A metáfora da alma será ainda a melhor dádiva
deste corpo tão eficiente e tão pobre.

Assim nos saciamos.



LUÍS QUINTAIS





quinta-feira, 12 de novembro de 2020

שואה







A mansidão de Deus, não das vítimas,
Seria o que havíamos colhido das cinzas da história.

Um sopro de destruições e as feridas sem sutura:
Tudo isso era demasiado humano

Para pertencer a Deus, para O dizer.
Na Sua casa, Ele permanecia

Enrolado sobre si mesmo, criança aterrorizada
Que só pode esperar, impotente, a violência

Que cairá em breve sobre Si.
E o remorso dos humanos, onde estará

Esse dispêndio, essa dor atenuada?
Pensei que a mansidão era só ausência, depois.

Que as vítimas eram os mansos,
Cordeiros narcotizados para o abate, balindo o desespero,

Chorando o só pressentido, a orfandade dos anónimos.
A lâmina desceria inapelável

Sobre a cabeça dos mansos,
Porque Deus era só mutismo, erro sem correcção,

Fogo de devorações, hálito da metáfora demoníaca.
Um outro legado vem ter comigo, hoje.

Deus é expropriado da salvação por profissionais,
Luciferinos algozes, funcionários zelosos da condenação.

De todos os lados, as almas, se de almas se trata, são laceradas.
Deus é humilhado sem deixar de salvar os que pode.



 LUÍS QUINTAIS





sábado, 24 de outubro de 2020

Anfiteatro






Todas as formas de violência são indesculpáveis,
disse, e as sombras tombaram sobre a mesa.

Assim é indesculpável a mudez em que rostos se fecham.
Um som vinha antecipar o sentido. A história alucina-se,

disse, e algo cedeu nas sombras tombadas.
Eu anotei, e o olhar, o meu, derrapou no vidro

do anfiteatro, procurou a transparência. Mas era inverno,
inverno também ali, inverno sempre, e os plátanos

do outro lado, ali estando, tão indiferentes,
de uma beleza de cinza, um anátema,

uma contemplação rasurada.


LUÍS QUINTAIS






quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Ofício






Amamos uma mulher, depois um continente perdido.
Afinal, fomos nós que perdemos o norte.
Alguém abre a porta, o vento do deserto
sopra dentro da sala, somos levados para longe
do Paraíso, improvável ficção consentida.

Marcamos o tempo, o compasso.
A música depois do silêncio sabe a notação desabrida,
incontida fúria tomando de assalto as artérias
que insistem no seu ofício de coisas
vivas e frágeis.


 LUÍS QUINTAIS






segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Extinção


Ralph Eugene Meatyard






Estão à minha frente,
num mutismo que faz desabar
as horas, ali, onde a duração esplende
em rostos de circunstância.
Eu regresso a velhos temas,
a invisibilidade com que se diz
uma fotografia de infância,
uma árvore destruída,
espectro ou desenho
do que não podemos saber,
o terreno fértil dos símbolos
que crescem à nossa volta,
que não cessam de crescer,
finos cabelos de deuses colando-se
às paredes da linguagem,
o eco da minha voz esmorecendo
em entusiasmos que são despedidas.
Tudo é util e seguro,
tudo é incerto depois.
A reciprocidade
faz nutrir a violência
que surge na linha do horizonte.
A reciprocidade engorda a violência.
Com o tempo a vida desaba,
o mundo regressa por influência
de sofrimentos desabridos,
eternidades que a juventude
não desmente, e o pavor
de me saber mortal,
de procurar por entre dedos
a fria extinção.


 LUÍS QUINTAIS





quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Esse canto escuro






O medo tem um significado evolutivo.
Ele é uma sobrevivência da nossa errância

antiga de predadores perfeitos.
Inadaptados, caminhamos hoje na cidade,

ecologia de cuidados e atributos sublimados,
e o medo serve a sem métrica

dos gestos agramaticais.
Cada perturbação da fala

devolve-nos esse canto escuro,
o molde incompleto que nos define.

Vivemos no medo. Ele é a nossa casa.
De nós exige um desvelo permanente.

Num combate corpo a corpo
lutamos com as paredes da casa.



 LUÍS QUINTAIS




quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Máquina






Nem sombra de fantasma dentro da máquina.
Ser apenas máquina.
Uma máquina de ler.
Uma máquina de dar de comer aos filhos.
Uma máquina de escrever sem qwerty ou azert,
irreconhecível, mas uma máquina em todo o caso.
Uma máquina de foder.
Uma máquina de beber.
Uma máquina sem erro maquínico.
Uma máquina sem improvável intenção,
melancolia, elegia, meta-representação mortal
e desabrida.
Uma máquina que se finasse depois, sem dor,
de pura obsolescência.
Uma máquina sem dor nem tédio.
Uma máquina sem estados de alma.
Uma máquina sem alma.



 LUÍS QUINTAIS





sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Projectar







O que podemos projectar
que não seja o desenho

do nosso futuro incompleto?
Tudo é revisitação nessa caixa escura

onde células se movem e se escutam
mutuamente, como se esperassem

por um acontecimento primeiro,
uma revelação atenta do sangue

e do plasma, da música que te fez cego
e que trouxe as enumerações do sensível,

a evidência de uma cor extrema queimando
os signos e a gramática desenhada.

O que podemos projectar agora?


Luís Quintais
in, Riscava a Palavra Dor No Quadro Negro




segunda-feira, 3 de agosto de 2020

O Príncipe Da Imaginação


Mari Righez




 Vejo as mãos tocando a transparência do vidro.
Noite.
Vejo a luz fóssil do jogo
que não saberei reconstruir.
Jogo de dedos, tácteis sinais
e a memória de os saber, a eles
– filhos – ausentes,
de ter esquecido o movimento,
a veloz acrobacia do tempo
que me diz a desatenção.
Afortunado, oficiante do invisível,
sou o príncipe da imaginação.


LUÍS QUINTAIS





domingo, 26 de julho de 2020

Tudo era repetição







Acreditámos que o poço era inexorável,
que essa água haveria de nos dessedentar sempre.

Afinal, éramos incapazes de ver, presos
a uma cegueira armadilhada.

Tudo era repetição, mas repetição para lá do tempo
que nos fora dado viver. De resto, poucas coisas

iriam ser repetidas ainda no tempo que era nosso.
Duas vezes a memória de dedos que se convertem

à espessura da água. Uma vez repetida a lição
do vazio no desmedido território junto à sombra abandonada.

Uma vez repetida a abrasiva velocidade de um deserto.
Somos ilusão e carne, e a violência

do outro lado da fronteira imagina-nos,
e sem assentimento, nós vamos.



Luís Quintais
in, Riscava a palavra dor no quadro negro






sexta-feira, 24 de julho de 2020

Fuga ao Vazio


ANDOK TAMAS





Uma rigorosa fuga ao vazio,
isto que nos fala, como se em cada objecto

abandonado sobre a terra habitasse ainda
um desmedido sonho.

Um pouco adiante irias comparar mitologias,
a mesma vontade de memória, o mesmo repetido gesto

que em ti recusaste ocultamente.
Uma árvore dobra-se, única imagem possível

no esquecido mapa onde desenhas todo o movimento.
Uma árvore sem espessura, próximo do canto, dobrando-se

sob a luz que julgáramos ausente.
Não lamentes o abandono, a viagem sem regresso.

Uma rigorosa fuga ao vazio interpela-nos.


Luís Quintais




terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Movimento do braço





Lenta passagem, evocação de uma cidade:
o que te esclarece é o movimento do braço,
o gesto que nada diz arrasta somente
a memória e o seu peso, e reúne depois
novas ciladas, e faz ecoar a morte da cidade,
a linha que percorre o exterior perímetro
e cujo tema é a destruição do sentido.

Uma descrição do que não teve lugar ocorre aí,
uma descrição dobrada pelo ilegível
que a devora.

Tudo é baldio. As vozes antigas – sim, os antepassados –
já não são esperadas, permanecem tapadas pela aflição escura.

Move o braço,
o voo começará onde não houver sentido.



Luís Quintais
in, Riscava a palavra dor no quadro negro





domingo, 10 de dezembro de 2017

MÁQUINA





Nem sombra de fantasma dentro da máquina.
Ser apenas máquina. 
Uma máquina de ler. 
Uma máquina de dar de comer aos filhos.
Uma máquina de escrever sem qwerty ou azerty,
irreconhecível, mas uma máquina em todo o caso. 
Uma máquina de foder.
Uma máquina de beber. 
Uma máquina ser erro maquínico.
Uma máquina sem improvável intenção,
melancolia, elegia, meta-representação mortal
e desabrida.
Uma máquina que se finasse depois, sem dor,
de pura obsolescência.
Uma máquina sem dor nem tédio.
Uma máquina sem estados de alma.
Uma máquina sem alma.


Luís Quintais 
in, "A Noite Imóvel"




quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O drama dos espelhos





Houve alguém que encontrou mapas,
esquemas, modelos, a marca d’água
de uma linha na profusão da mente.

Isso, o vestígio que arruinava
a visibilidade de todas as metáforas,
não era uma cidade, antes a selva
crepuscular que, sedutora, nos envolve
quando queremos morrer.

E não quererás tu morrer
quando desapareces na ininteligível
exposição metafórica do mundo?

A carne das coisas tem
um brilho de cristal, mas esse
brilho engana, é o efeito apenas
de uma luz sem origem, a luz
do desespero. Tudo o que pode salvar,
se é ainda legítima a decisão
que está aí, no traço que, espesso,
reclama a impressiva nostalgia
daqueles que se atribuíam ao infortúnio
numa encruzilhada de gratificações,
de frutos amargos e de poesia,
tudo o que pode salvar
é um eco do que salva.

Tudo o que podemos amar
é um eco desse eco,
o drama dos espelhos outra vez.


Luís Quintais
in, Riscava a palavra dor no quadro negro



quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Tudo são máquinas





Tudo são máquinas, a luciferina intenção
de cortar, pela janela, o desenho interrompido,
ou então, tudo são máquinas ainda, quando
a boca se desenha presa às palavras
enunciadas desde o começo da biografia
(que biografia, se só haverá farrapos?):
fantasmas enunciando-se à pressa
e que a cidade reúne nos muros que a não cingem já.

Tudo são máquinas prestes a incendiar mapas,
a eliminar traços, a apagar vestígios.
«Começará o mundo depois do mundo acabado»,
escreveste no caderno.

É de lixo lírico, a paisagem, humano resíduo.
As máquinas que escrevem, escrevem na pele.

Tudo são máquinas. O mundo irá começar
dentro de momentos, prepara-te.



Luís Quintais
in, Riscava a palavra dor no quadro negro