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domingo, 9 de fevereiro de 2020
terça-feira, 30 de abril de 2019
Uma Lágrima na Face da Índia
O livro conta a história de um enfermeiro inglês chamado Noah com 32 anos, que trabalha num hospital em Londres, no serviço oncológico da Pediatria. Um trabalho muito difícil de gerir emocionalmente porque lida diariamente com crianças com cancro, muitas delas acabam por não resistir e partem deixando os pais num desgosto profundo.
O livro começa por relatar esse dia-a-dia desse enfermeiro e da sua decisão de tirar licença no trabalho para viajar para a Índia, Cambodja e Bali. Acabou por se sensibilizar com a situação fragilizada das mulheres indianas e ficou só pela Índia.
Tudo começou quando, ainda no hospital, leu um livro que dizia assim:
“ Aproveitas-te, meu velho, a tua vida como sempre sonhaste?
E o teu talento, o que fizeste com o teu talento? Pegaste nele e fizeste maravilhas pelo mundo, ou deitaste-o fora, com verdadeira cobardia, enquanto pensavas que estavas a desperdiçar uma vida inteira e te lamentavas, perdido nos recantos da tua casa, que eras incapaz de seguir para diante?”
Também eu passei por isto aos 36 anos, o que me fez olhar para uma porta que eu teimava em manter fechada, sem saber o que podia encontrar lá dentro, quando à minha espera estavam outros gritos, outros sons, e uma nova felicidade que teimava em não chegar.
Não parece nada demais, pois não?
Questionamos, pensamos e agimos.
Eu, tal como o Noah, sentia que estava a desperdiçar a minha vida com coisas sem importância, e pensava que, devia fazer algo diferente com a minha vida, com mais valor, com mais significado. Pensava nas mulheres e crianças que vivem para lá do meu horizonte, o que estariam a fazer e se precisariam da minha mão amiga pronta a ser estendida e amparar a queda de alguém. O que eu não sabia era que para o saber fazer com o coração, teria primeiro de amparar a minha própria queda.
Precisava de ir em busca de não-sei-o-quê, com uma nova língua e uma nova força, pelo mundo, porque o mundo é uma casa sem teto para todos nós. E, tal como o Noah, o meu coração chama-me para a Índia, para amparar a queda de meninas e mulheres que vivem nas ruas sem teto.
Por tudo isto, este livro me tocou profundamente no coração.
Quando chega à India, hospeda-se em Old Delhi, e descreve várias experiências que teve lá e que são o ponto de arranque para tudo o que acontece a seguir. Conhece um comerciante chamado Ilesh em Chandni Chowk, um dos mercados mais antigos de Old Delhi, que lhe dá o contacto de uma sobrinha de um amigo seu, para ser a sua Guia Turística durante a sua estadia na Índia, chamada Sahana. Quando a vê apaixona-se de imediato, mas ela já estava prometida em casamento contra sua vontade pela família para um polícia de Delhi. E é através da Sahana que passamos a ter conhecimento sobre como é nascer menina na Índia.
Antes de conhecer Sahana, depois de sair da loja do Sr. Ilesh, foi comer um Sheekh Kabab por 40 rupias, a moeda da Índia, que são 0,60 cêntimos (lá é tudo muito barato desde que seja comprado na rua) e conheceu um homem chamado Lambodar que lhe contou que era casado há 46 anos e que era pai de 7 filhos todos rapazes, e disse-lhe que era um homem de sorte porque não tinha filhas. Explicou-lhe que as mulheres são uma Maldição. Que as mulheres na Índia não são livres, porque antes de nascerem já o seu destino está traçado: a morte ou o sofrimento.
Depois, através da Sahana ficamos a saber a razão do Lambodar ter dito isto a Noah.
Um dia, ao observar as pessoas na rua, interrogou-se “Onde estão as mulheres?”.
Poucas eram as mulheres que caminhavam no meio dos homens, e as poucas que por ali andavam, tinham um olhar assustado, preocupado, e tímido. Foi pesquisar na net, e encontrou uma imensidão de notícias assustadoras sobre as mulheres da Índia: mulheres violadas, mulheres espancadas, mulheres assassinadas, bebés meninas mortas à nascença, meninas abandonadas na rua, mulheres e meninas raptadas, desaparecidas.
Poucas eram as mulheres que caminhavam no meio dos homens, e as poucas que por ali andavam, tinham um olhar assustado, preocupado, e tímido. Foi pesquisar na net, e encontrou uma imensidão de notícias assustadoras sobre as mulheres da Índia: mulheres violadas, mulheres espancadas, mulheres assassinadas, bebés meninas mortas à nascença, meninas abandonadas na rua, mulheres e meninas raptadas, desaparecidas.
Leu um artigo de jornal que relatava uma violação colectiva num autocarro em Delhi no dia 29 de Dezembro de 2012( eu vi um documentário sobre isto na net e fiquei arrasada). A rapariga era estudante de medicina e foi violentamente espancada e violada por 6 homens, incluindo o motorista, dentro do autocarro, até à sua morte.
Depois, numa viagem que fez até Varanasi com Sahana, ela explicou-lhe que a principal razão para haver tanta pobreza e miséria na Índia é a existência dos Varnas e das Castas. Os Varnas são uma categoria, condição social, uma posição numa ordem hierárquica. Enquanto que as Castas (Jati em hindu) são entidades mais pequenas, que dependem da origem, da zona onde se vive, do trabalho que se tem, do parentesco. Cada Casta é única e tem as suas próprias características, rituais, língua, deuses, regras… os Varnas são Categorias que, embora se encontrem dentro das Castas, não as constituem. É uma complexa divisão social hindu, e quem nasce nesta ou naquela Casta, vive e morre nessa determinada Casta. Entretanto, foi declarada ilegal mas, o sistema permanece como forma de tradição, desigualdade social e discriminação.
Existem 4 Varnas, por ordem de importância:
- Brahmins, a classe mais alta, considerados quase Deuses, e são os sacerdotes, os professores e os filósofos;
- Kshatriyas, são os soldados, os polícias e os administradores;
- Vaishyas, são os comerciantes e homens de negócios;
- Shudras, são os camponeses, artesãos, operários e servos.
Por último, há um grupo que é considerado sem Casta. São excluídos da sociedade e são considerados impuros e por isso ninguém lhes toca. São os Dalits, os chamados Intocáveis, aqueles que fazem os trabalhos mais desprezíveis, como limpar o lixo, etc…
O Sistema de Castas assenta numa noção religiosa: a pureza e a Impureza.
Milhões de Dalits continuam a sofrer de forma permanente a discriminação. Dão-lhes trabalhos sujos, como limpar o lixo, excrementos, varrer, pavimentar, eliminar corpos humanos das ruas, limpeza de esgotos, limpeza de fossas, sendo obrigatório que a limpeza seja feita com as próprias mãos sem luvas.
Ninguém lhes toca, e não comem comida feita pelos Dalits, ou tocada por eles, para não contaminarem as pessoas de outras Castas. Não lhes é dado nenhum respeito nem nenhuma dignidade. Quem nasce Dalit, morre Dalit, e muitas crianças acabam abandonadas nas ruas, porque filhos de Dalit serão sempre Dalits.
Isto das Castas é um problema sério com fortes consequências nas comunidades indianas.
As crenças religiosas hindus continuam enraizadas nas comunidades, porque existe uma enorme resistência à mudança. As meninas e as mulheres Dalits continuam a ser exploradas e são maltratadas. Habitualmente são mulheres sem educação e analfabetas. Algumas são chamadas Devadasis, ou Servas de Deus. O hinduísmo é caracterizado por ter muitos Deuses e diferentes Ritos, e este das Devadasis é praticado há muitos anos, em que se acredita que as meninas nasceram para servir uma divindade de um templo, durante toda a sua vida. Elas estão presas ao trabalho e são exploradas desde a sua infância. Depois, mais tarde, são obrigadas a prostituir-se. Quando as meninas são entregues a um templo local, elas casam-se com a deusa Yellamma, a Deusa da Fertilidade, assim que atingem a puberdade. Nessa altura, geralmente entre os 8 e os 12 anos, a sua virgindade é vendida a um homem de Casta Superior e, a partir daí, tornam-se escravas da Deusa. Depois disso, não podem casar com nenhum homem e são obrigadas a usarem objectos que demonstram que são Devadasis. A função delas, até serem consideradas velhas ou pouco atractivas, é servir os desejos sexuais dos homens das suas comunidades. Dizem delas “ Devadasi, Servas de Deus mas esposas de toda a cidade”.
As crenças religiosas hindus continuam enraizadas nas comunidades, porque existe uma enorme resistência à mudança. As meninas e as mulheres Dalits continuam a ser exploradas e são maltratadas. Habitualmente são mulheres sem educação e analfabetas. Algumas são chamadas Devadasis, ou Servas de Deus. O hinduísmo é caracterizado por ter muitos Deuses e diferentes Ritos, e este das Devadasis é praticado há muitos anos, em que se acredita que as meninas nasceram para servir uma divindade de um templo, durante toda a sua vida. Elas estão presas ao trabalho e são exploradas desde a sua infância. Depois, mais tarde, são obrigadas a prostituir-se. Quando as meninas são entregues a um templo local, elas casam-se com a deusa Yellamma, a Deusa da Fertilidade, assim que atingem a puberdade. Nessa altura, geralmente entre os 8 e os 12 anos, a sua virgindade é vendida a um homem de Casta Superior e, a partir daí, tornam-se escravas da Deusa. Depois disso, não podem casar com nenhum homem e são obrigadas a usarem objectos que demonstram que são Devadasis. A função delas, até serem consideradas velhas ou pouco atractivas, é servir os desejos sexuais dos homens das suas comunidades. Dizem delas “ Devadasi, Servas de Deus mas esposas de toda a cidade”.
Elas são presas dentro deste sistema, e fazem-nas acreditar que o que fazem é perfeitamente aceitável porque é algo que estão a fazer por devoção à Deusa Yallemma, que está presente na comunidade e tem poder sobre a vida das pessoas, e por isso estas mulheres e meninas crianças acreditam (ou acreditavam algumas) que se não cumprirem a devoção pela Deusa, toda a sua família será amaldiçoada, mas se cumprirem e agradarem a Deusa, ela trará saúde e riqueza. Elas não recebem dinheiro em troca mas, recebem presentes. Dantes viviam no templo mas, hoje em dia isto transformou-se num negócio, em que são vistas como superiores em relação às prostitutas normais dando-lhe um carácter sagrado valorizando mais o negócio para quem o explora.
Para combater a pobreza, os pais entregam as suas meninas ao templo, em troca de um emprego ou dinheiro. Eles sabem que não estão a prestar nenhuma devoção á Deusa mas, fecham os olhos a troco de algum dinheiro. São os pais que decidem a vida delas, e elas nem sabem para o que vão, só descobrem mais tarde quando chegam à puberdade. Outras meninas e mulheres, são vendidas para tráfico e exploração sexual em várias localidades da Índia.
Esta prática foi proibida pelo Estado, mas são os próprios polícias e políticos a recorrer às Devadasis para satisfazerem as suas necessidades sexuais, e nos dias de hoje elas continuam a prestar a devoção á Deusa em suas casas, sendo uma fonte de rendimento para os seus pais.
A violência sexual na India é um crime frequente o que leva a que as mulheres não se sintam seguras na rua. As mulheres grávidas de meninas são obrigadas a abortar, a matar as bebés à nascença ou a abandoná-las na rua.
Este é o maior problema da India:
Violação sexual, Infanticídio e Genocídio.
Quanto ao Infanticídio e Genocídio, as famílias acreditam que os rapazes trarão Força, riqueza, bênçãos e saúde à Família. As raparigas são consideradas uma maldição para a família porque, terão de dar um dote à família do noivo (bens materiais e dinheiro) para eles a sustentarem. Ficam sem a filha e sem os seus bens e o seu dinheiro. É o fim de uma linhagem familiar.
Quanto à Violação, a India tem uma cultura que apoia e defende que as mulheres devem ser violadas como forma de castigo, de poder masculino e disciplina.
Todos os anos são mortas mais de 100 mil mulheres só porque elas não reproduzem rapazes, ou porque os maridos não ficam satisfeitos com a quantidade de dinheiro que recebem da família da noiva quando se casam.
As crenças tradicionais hindus dizem que as meninas têm de ser educadas para serem boas filhas e esposas obedientes. Elas devem ficar em casa e fazer todo o trabalho doméstico. Uma mulher que se desvia das normas sociais representa uma vergonha para a família e para a sociedade, e é punida violentamente como meio de controlo social e castigo. Por exemplo, uma mulher nunca deve sair à noite sozinha, muito menos com um homem. Nem deve sair à rua de noite para fazer as suas necessidades em zonas onde não existem casas de banho. É completamente inaceitável. Mulheres idosas são violadas por irem de noite à rua fazer as suas necessidades, e na sua maioria morrem na rua abandonadas.
Os homens culpam sempre as mulheres pelas suas violações. Em alguns casos, são obrigadas a casar com o agressor, se ele o exigir, de forma a recuperar a sua dignidade. E o preocupante é que, algumas mulheres, admitem por vezes por medo que, provocaram um comportamento violento por parte dos homens. Acreditam que não têm outra escolha senão aceitar a violência por parte dos homens. E isto acontece tanto com as mais velhas, como com as estudantes do ensino médio e universitário.
Eu acredito que o problema está na educação dos mais novos, que crescem em ambientes hostis.
Se eles vêm ao longo do seu crescimento desde pequenos, um comportamento de violência contra a mulher, existe uma forte probabilidade de seguirem o mesmo comportamento porque é o considerado normal e aceitável. Isto chama-se de Modelagem. Por isso acredito que a solução está, a médio e longo prazo, na reeducação de valores e crenças tradicionais.
Se eles vêm ao longo do seu crescimento desde pequenos, um comportamento de violência contra a mulher, existe uma forte probabilidade de seguirem o mesmo comportamento porque é o considerado normal e aceitável. Isto chama-se de Modelagem. Por isso acredito que a solução está, a médio e longo prazo, na reeducação de valores e crenças tradicionais.
50 milhões de mulheres estão desaparecidas na India!
Todos os dias, 100 mulheres são violadas!
Uma grande parte da violência contra as mulheres indianas é violência doméstica, queimadas com ácido e espancadas até à morte, raptadas e mortas, fruto de uma crueldade medonha por parte dos maridos e dos sogros, por receberem dotes pequenos, não terem rapazes… é precisamente no leio conjugal onde ocorrem o maior número de crimes. Isto acontece em todos os estratos sociais e económicos, mas a pobreza e a baixa escolaridade agravam bastante a situação devido ao stress económico, à falta de conhecimento sobre as leis, e à falta de informação sobre a igualdade de género. Quando os homens perdem o controlo socioeconómico vingam-se na mulher espancando-a por tudo e por nada. É uma forma de Poder e Controlo, de mostrar a sua masculinidade, de mostrar quem manda. O homem indiano de classe média acredita que masculinidade é agir com autoridade, exercendo livremente esse privilégio de ser homem para estabelecer regras nas relações pessoais e para controlar as mulheres. Para serem homens precisam de ser rígidos, e o pior é que muitas mulheres acreditam e aceitam isto.
Quando uma mulher não se apaixona por um homem logo cedo, passado algum tempo a família escolhe um homem para ela casar e ter filhos, porque é uma vergonha para a família ter uma filha que não seja casada. Eles têm esse poder sobre as filhas. Se as mulheres ficarem muito tempo sozinhas, as famílias começam a sentir vergonha porque os outros começam a dizer que ninguém as quer porque andam na rua com outros homens e não prestam.
É o estatuto social da família que fica em causa.
É o estatuto social da família que fica em causa.
As mulheres na India são sempre propriedade de alguém…primeiro dos pais, e depois dos maridos e da família dos maridos. Podem mantê-las, vendê-las ou matá-las. Por isso existem 50 milhões de mulheres desaparecidas na India. Esses desaparecimentos não são investigados.
Quando os dotes não são do agrado do marido e da família do marido, a violência começa logo no início do casamento. Os dotes podem ser em dinheiro e em bens materiais, como terras, casas, carros, ou outras coisas de valor. Na india, quando o noivo não fica satisfeito com os dotes que recebe da parte da família da noiva, ele pode espancá-la ou matá-la, como forma de castigo, de revolta, de machismo. A entrada de uma mulher na família do noivo não serve para nada se a sua família não der bons dotes ao noivo. As mulheres são uma fonte de entrada de dinheiro na família do noivo, e por isso só querem ter rapazes, porque é uma fonte de rendimento.
Os dotes estão fortemente relacionados com o infanticídio e com o genocídio.
As mulheres na India vivem numa sociedade que diz. “Nós não queremos mulheres. Mulheres são uma maldição!”
As mulheres na India vivem numa sociedade que diz. “Nós não queremos mulheres. Mulheres são uma maldição!”
Quando uma mulher engravida de uma menina é obrigada pela família do noivo a abortar antes da bebé nascer. Se a mãe não aceitar é perseguida até ao fim da gravidez e quando a menina nasce é morta pela família do noivo. Se a mãe conseguir salvar a menina, tem de a fazer desaparecer de casa, abandonando-a na rua. São obrigadas a abortar e a engravidar até terem rapazes, e caso não consigam, são consideradas inúteis e por isso são espancadas e assassinadas, para poderem casar de novo.
As mulheres significam
a saída de dinheiro e bens materiais numa família.
Os homens significam
a entrada de dinheiro e bens materiais na família.
E isto faz com que as meninas sejam logo indesejadas.
Os indianos dizem: “perdemos as nossas filhas porque passam a ser propriedade da família do noivo, ficamos sozinhos sem ninguém para cuidar de nós, e ainda temos de pagar para mantê-las noutra família.
Ter uma filha na India é como regar o jardim do vizinho.”
Muitos pais nem se sentem tristes quando matam as filhas. Eles acreditam que, em vez da criança sofrer no dia-a-dia por ser menina na pobreza ( 1 em cada 4 não resiste até à puberdade, por homicídio por negligência por falta de tratamento médico), é preferível matá-la logo após o seu nascimento.
Isto não acontece só na India.
Há outros países asiáticos e africanos que fazem o mesmo.
No mundo, há cerca de 200 milhões de mulheres desaparecidas.
Só na India são 50 milhões.
Elas estão desaparecidas porque deixaram de existir, foram assassinadas.
Os rapazes quando nascem são vistos como uma bênção.
As raparigas quando nascem são vistas como uma maldição.
Elas são mortas através do aborto selectivo, ou pelo infanticídio, ou abandonadas na rua, e por isso deixam de existir demograficamente.
Na India e na China, 30% das meninas são mortas antes de nascerem.
Isto virou um negócio bastante rentável porque, o Estado proibiu os aparelhos de ultrassom para saber o sexo do bebé antes de nascer, e passou a ser obrigatório registar os aparelhos de ultrassom e a informar quem queria fazer o teste e porquê, mas a maioria dos médicos ignora a Lei e aceita o dinheiro das famílias como suborno. Ganham milhões com isto.
As famílias pobres, que não têm possibilidade de recorrer à medicina, para evitar os dotes, matam as filhas à nascença ou abandonam-nas na rua.
Outra forma de fazer desaparecer as mulheres é através da violência física.
Elas são brutalmente assassinadas pelas famílias dos maridos.
Outras também desaparecem por serem traficadas para fins de exploração sexual, muitas vezes vendidas aos traficantes pelos maridos.
Há coisas que estão a mudar na India, mas há outras que só levantam polémicas, nomeadamente no que diz respeito à Educação.
A India criou a Lei do Direito à Educação, mas depois o Governo aprovou uma alteração na Lei de Proibição do Trabalho Infantil, que permite que as crianças com menos de 14 anos trabalhem nos negócios familiares. Isto é um retrocesso porque a Lei deveria proibir qualquer trabalho infantil e ser obrigatório irem para a escola. Esta alteração à lei, para além de permitir o trabalho infantil, também permite que as famílias recusem a entrada dos filhos na escola. Esta alteração foi feita porque acreditam que trará vantagens para as crianças. Acreditam que estão a ajudá-las a ganhar espírito de empreendedorismo. Isto é inacreditável!
O que representa uma criança que faz um trabalho contra a sua vontade?
Escravidão!
Primeiro salientam a importância de irem à escola, mas depois emendam uma Lei antiga, que proibia o trabalho infantil em 83 áreas consideradas perigosas, passando a proibir qualquer trabalho infantil, excepto nos negócios familiares. Ou seja, agora têm as crianças a trabalharem, com a desculpa de serem negócios familiares. Não dá para entender uma emenda destas nesta lei, quando a India é o país com mais incidência de trabalho infantil.
Agora, as crianças voltaram a trabalhar nas fábrica e nos campos. As escolas vão ficar vazias de novo, e recomeçará o tráfico humano de crianças para a exploração comercial. Haverá sempre a desculpa de que a criança é parente de alguém, e não haverá forma de provar o contrário.
O que aconteceu de imediato foi: a maior parte das meninas deixaram de ir à escola, e a maior parte delas estão desaparecidas.
Se as mulheres têm o mesmo tratamento na escola? Sim e não.
Por Lei, elas têm o mesmo direito à Educação que os homens, mas depois verifica-se que os homens com os mesmos cursos que elas, têm salários muito mais altos e muito mais regalias. A descriminação continua, e elas têm um nível de Educação bastante inferior ao dos homens, e a maior parte abandonam a escola precocemente por causa do dever patriarcal.
Seria um grande avanço se as mulheres estudassem, porque existem vários estudos que associam a baixa escolaridade à pobreza e à necessidade das mulheres trabalharem em casa, além de que a educação das mulheres tem um papel importantíssimo para o país. A Alta Educação permite que elas sejam mais competentes dentro e fora de casa, encoraja e promove a educação das crianças, especialmente as do sexo feminino, reduzindo assim a taxa de feticídio. Podemos prevenir o feticídio com o aumento da escolaridade!!
A India, em muitas zonas rurais, vê na Educação o veículo para uma mudança social na comunidade. Está provado que a falta de educação nas mulheres surge associado à pobre nutrição dos seus filhos e também à morte dos mesmos.
A India, em muitas zonas rurais, vê na Educação o veículo para uma mudança social na comunidade. Está provado que a falta de educação nas mulheres surge associado à pobre nutrição dos seus filhos e também à morte dos mesmos.
A Educação serve não só para explicar o feticídio, como também a violência contra as mulheres. E por isso, a educação é importante para as mulheres, mas também para os homens, porque os homens com uma educação mais elevada e com atitudes favoráveis em relação à igualdade de género, estão menos propensos a terem comportamentos violentos contra as mulheres.Por outro lado, o stress económico, o fracasso no trabalho e a insegurança parecem agravar e perpetuar a violência contra as mulheres. Isto está relacionado com as normas de masculinidade e as expectativas dos homens relativamente a sustentar economicamente a família, mesmo nas situações em que a mulher trabalha e tem o seu salário. Logo, pela lógica, se houvesse mulheres com mais escolaridade, elas teriam os seus salários e a situação financeira da família melhoraria e evitaria comportamentos violentos contra elas mas, na realidade não é isso que acontece…em muitos casos, quando elas ganham mais dinheiro do que eles, a violência doméstica aumenta, para os homens demonstrarem o seu poder e superioridade.
E assim voltamos ao problema da masculinidade, e à superioridade dos homens em relação às mulheres na India.
As questões para se chegar à Discriminação levam-nos a várias situações, como o abuso sexual, o espancar, e a violência psicológica que acontecem dentro de cada família, e à observação da violência entre os pais.
Esta questão da observação, chama-se Teoria de Aprendizagem Social de Bandura, em que o processo de aprendizagem decorre a partir da Observação do comportamento de outras pessoas. É o que se chama de Modelagem. No entanto, os comportamentos não serão postos em prática sem que haja uma motivação, mesmo que os tenha observado e memorizado.
A motivação será, “Se ele pode bater nas mulheres, eu também posso”, “Se ele bate nas mulheres, então eu também irei bater”. As crianças são muito influenciadas por aquilo que vêem nas figuras masculinas. O controlo sobre as mulheres nas suas variadas formas e o respeito incutido que lhes dá outro estatuto social. Os rapazes interiorizam estes comportamentos violentos contra as mulheres como sendo aceitáveis para expressar a sua insatisfação, o stress ou a sua desaprovação. Ou seja, a violência e a discriminação podem ser desenvolvidas como normais se a criança, durante a sua infância, observar ou for vítima de algum tipo de violência ou discriminação. Essas crianças terão quatro vezes mais probabilidades de terem comportamentos violentos, quando comparado com homens que nunca experienciaram este tipo de violência e discriminação.
A motivação será, “Se ele pode bater nas mulheres, eu também posso”, “Se ele bate nas mulheres, então eu também irei bater”. As crianças são muito influenciadas por aquilo que vêem nas figuras masculinas. O controlo sobre as mulheres nas suas variadas formas e o respeito incutido que lhes dá outro estatuto social. Os rapazes interiorizam estes comportamentos violentos contra as mulheres como sendo aceitáveis para expressar a sua insatisfação, o stress ou a sua desaprovação. Ou seja, a violência e a discriminação podem ser desenvolvidas como normais se a criança, durante a sua infância, observar ou for vítima de algum tipo de violência ou discriminação. Essas crianças terão quatro vezes mais probabilidades de terem comportamentos violentos, quando comparado com homens que nunca experienciaram este tipo de violência e discriminação.
A lei de 2013 inclui agora pena de morte para as violações que causam a morte ou estado vegetativo da vítima, a relação sexual de um marido sobre a esposa durante o divórcio, a relação sexual de uma pessoa numa posição de autoridade, e a violação colectiva. Inclui também crimes como ferir alguém com ácido, assédio sexual, voyeurismo, intensão de se despir e perseguição. Estas alterações foram importante para a India, no entanto existe muita corrupção na polícia e na maioria das vezes os processos não chegam aos tribunais e a justiça nunca é feita. Os elementos das Forças Armadas continuam com imunidade e são uma enorme ameaça para as mulheres. Para além disto, a idade mínima para casar continua a ser os 16 anos, e a violação no casamento é legal.
Isto é permitido para não criar situações de stress nas famílias e também por questões culturais e religiosas do hinduísmo. A India é uma sociedade patriarca, onde os homens lideram em casa, e a mulher é considerada um Ser Inferior. Só por ser mulher, ela tem de se sujeitar a fazer o que ele manda. E se eles quiserem ter sexo, é obrigação da mulher aceitar e não se negar, porque quando ela casa com um homem, ela já sabe que é esperado que ele domine em todas as esferas da vida. No fundo, o corpo delas é deles. Quando uma mulher casa, o homem assume que ela está a consentir ser dominada por ele e a ter relações sexuais, e por isso exige que ela lhe obedeça. Quando por algum motivo, ela não dá o seu consentimento, ele tem o direito de a forçar através da violência. Isto proíbe legalmente as mulheres de dizerem “Não”. Os homens sabem que a lei os protege, o que lhes permite fazerem o que querem das mulheres dentro de casa. Isto explica a enorme incidência de violência doméstica na India.
Está lá no Código Penal:
“ Relações sexuais ou acto sexual por um homem com a própria mulher, não tendo ela menos de 15 anos, não é violação”.
Isto é permitido para não criar situações de stress nas famílias e também por questões culturais e religiosas do hinduísmo. A India é uma sociedade patriarca, onde os homens lideram em casa, e a mulher é considerada um Ser Inferior. Só por ser mulher, ela tem de se sujeitar a fazer o que ele manda. E se eles quiserem ter sexo, é obrigação da mulher aceitar e não se negar, porque quando ela casa com um homem, ela já sabe que é esperado que ele domine em todas as esferas da vida. No fundo, o corpo delas é deles. Quando uma mulher casa, o homem assume que ela está a consentir ser dominada por ele e a ter relações sexuais, e por isso exige que ela lhe obedeça. Quando por algum motivo, ela não dá o seu consentimento, ele tem o direito de a forçar através da violência. Isto proíbe legalmente as mulheres de dizerem “Não”. Os homens sabem que a lei os protege, o que lhes permite fazerem o que querem das mulheres dentro de casa. Isto explica a enorme incidência de violência doméstica na India.
As mulheres na India não têm qualquer valor: são mortas à nascença, assassinadas, raptadas para exploração de trabalho infantil, trabalho sexual, escravidão, são espancadas, violadas…
Eu continuo a achar que a melhor forma de alterar isto é através da Educação, tanto dos meninos como das meninas. Por várias vezes me disseram que “Não podemos fazer nada!” e cruzam os braços e ficam a assistir nos seus sofás à miséria humana nas televisões, tornando-se indiferentes a tanta tragédia humana que lhes entra em casa pela televisão. Nós podemos não conseguir mudar milhões de vidas mas, se cada um de nós mudar uma vida, se preocupar com outra e lhe fizer bem, imaginem o bom que este mundo poderia ser.
Sermos uma para cada uma!
Eu acho que este é o dever de todas as pessoas!
Começar por aí, por ser uma para cada uma!
Depois, se conseguirmos mudar mais vidas, melhor.
É claro que é nosso dever cuidar e respeitar todas as pessoas que se cruzam no nosso Caminho!
Mas, num país como a India, onde os homens odeiam as mulheres, que mais podemos nós mulheres desejar, a não ser que cada um se preocupe com uma só mulher, e mude a vida de uma só mulher?
Mas, num país como a India, onde os homens odeiam as mulheres, que mais podemos nós mulheres desejar, a não ser que cada um se preocupe com uma só mulher, e mude a vida de uma só mulher?
Seria um excelente começo!
O importante é Salvar alguém!
As pessoas têm de ter consciência disto.
A Paz e a dignidade é um Direito de Todos!!!
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
terça-feira, 11 de julho de 2017
domingo, 2 de julho de 2017
Se as Mulheres fossem Seres Humanos …
Se as Mulheres fossem Seres Humanos …
Seríamos uma mercadoria expedida da Tailândia
Para os bordéis de Nova Iorque?
Seríamos escravas sexuais, ou para reprodução?
Seríamos criadas para trabalhar toda a vida sem salário,
Queimadas quando o nosso dote não fosse suficiente
Ou quando um homem estivesse cansado de nós,
Morreríamos à fome quando viúvas (se sobrevivêssemos à sua pira funerária),
Ou seríamos vendidas para sexo, porque não servíamos para mais nada?
Seríamos vendidas para casar com sacerdotes para expiar os pecados da nossa família
Ou para melhorar as perspectivas terrenas da nossa família?
E, quando fossemos pagas pelo nosso trabalho, seria para realizar as tarefas mais servis e sermos exploradas até morrermos à fome?
E seria o nosso sexo cortado para nos “limpar” (o nosso sexo é sujo?),
Para nos controlar, para diferenciar e definir a nossa cultura?
Seríamos traficadas como coisas para uso e entretenimento sexual por todo o mundo
e por todas as formas que a tecnologia torna possível?
Seríamos impedidas de aprender a ler e a escrever?
Se as Mulheres fossem Seres Humanos …
Teríamos tão pouco peso na tomada de decisões
E no governo dos países onde vivemos?
Seríamos escondidas sob véus, feitas prisioneiras em casa,
E apedrejadas e baleadas por nos recusarmos a viver assim?
Seriamos espancadas quase até à morte, ou até à morte
Pelos homens que nos são próximos?
Seríamos molestadas sexualmente pelas nossas famílias?
Seríamos violadas e alvo de genocídio para aterrorizar,
Expulsar e destruir as nossas etnias,
E violadas ainda nessa guerra não declarada que acontece todos os dias
Em todos os países do mundo no chamado tempo de paz?
Se as Mulheres fossem Seres Humanos…
Seria a nossa violação apreciada pelos nossos violadores?
E se fossemos seres humanos, estas coisas poderiam acontecer sem que virtualmente nada fosse feito a esse respeito?
Catharine A. MacKinnon
in, “Are Women Human”
NINGUÉM ME CALA
os olhos,
desenhados no medo da voragem das entranhas vazias,...
o sonho,
omnipresente da partilha de alegrias,....
a fina obscuridade de um pão de dor, sem limites.....
a estranha ausência de Amor, sem o qual, não sobrevives,
olhos pedintes...
.
ninguém me cala,
.
ninguém impede este grito,
que dói e é tão aflito, que o grito não sai da fala,
sai da palavra, sai das mãos, sai da alma e em dor exala,
sem perfume, como um queixume,
.
ninguém me cala,
.
e, se o que tenho são palavras, e espinhos de rosas bravas,
p'ra dizer meu azedume,
que me queime todo o lume,
que incendeio nas palavras,
.
mesmo com boca queimada,
e com a voz torturada,
de onde não me sai a fala....
.
ninguém me cala...
.
a culpa é minha!! A culpa é nossa!! E é tão vergonhosa,
que não consigo pedir PERDÃO!!!
perdoa toda a Humanidade,
por viveres nesta ansiedade,
por não teres amor, nem pão....
ROSA MARTINS
quarta-feira, 14 de junho de 2017
Svend Brinkmann...contra os Life Coaches
Para Svend Brinkmann, professor da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, ler autoajuda não traz sucesso e fazer coaching é mais perigoso do que parece.
Autor do livro “Stand Firm: Resisting the Self-Improvement Craze” (em tradução livre, “Fique firme: Resistindo à mania do autodesenvolvimento”), ele é crítico ferrenho da psicologia positiva e da crença de que a felicidade é uma escolha.
O psicólogo dinamarquês afirma que parte da indústria da autoajuda só contribui para reforçar o problema que ela própria diz combater: a infelicidade causada pelo individualismo e pelo desinteresse em soluções coletivas.
Brinkmann faz um diagnóstico parecido sobre o efeito do coaching para o mundo do trabalho:
“O próprio conceito de coach [“treinador”, em inglês], que vem do mundo do desporto, pressupõe que você está a competir com os outros para vencer o jogo. Há um perigo em ver a vida como um jogo em que há vencedores e perdedores...Além disso, o coach muitas vezes age como um mero espelho seu. Ele fará você olhar ainda mais para si mesmo. No fundo, ele só reforça o individualismo, só cria um ciclo de autorreflexão perpétuo. Não precisamos de mais insights sobre nós mesmos. Precisamos olhar para fora.”, explica.
Trechos de uma entrevista que deu à Revista Exame, a 30 de Maio de 2017:
"Na verdade, o problema não é a autoajuda em si. Não nego que livros desse tipo podem ajudar certas pessoas, até porque também há bons títulos dentro desse género. Ainda assim, no geral, essas obras só reforçam o problema que supostamente deu origem a elas.
Incutem a ideia de que felicidade é uma escolha individual, algo que “só depende de si”. E quando as pessoas fracassam — o que acontece com qualquer ser humano — elas se vêem como as únicas responsáveis pela própria derrota. Elas se sentem culpadas por algo que não estava sob o seu controle.
A autoajuda é um sintoma de um outro problema, subterrâneo, mais grave, que é o individualismo. As pessoas sentem-se desligadas umas das outras, completamente sozinhas, quando acreditam que podem atingir os seus objetivos de vida, por conta própria, se seguirem “7 passos para a felicidade” ou algo parecido."
"Todos desejam ser felizes, fazer fortuna, ter muitos amigos, construir uma carreira incrível. Apresentar esse objetivo como algo que depende só de você, como indivíduo, é algo muito atraente. A ideia se popularizou tanto que podemos dizer que está presente em tudo, inclusive na forma como as pessoas entendem o desenvolvimento das suas competências no trabalho.
Numa era de incertezas como esta que vivemos, as pessoas viram-se cada vez mais para dentro de si mesmas para tentar ter sucesso. A indústria da autoajuda ofereceu-lhes ferramentas nesse sentido. Antes, não havia essa ideia de que era responsabilidade sua ser feliz. Era algo mais diluído em práticas culturais. Agora virou uma questão individual."
"Os primeiros livros de autoajuda foram lançados na metade do Século XX. Um dos exemplos mais famosos é “O poder do pensamento positivo”, lançado em 1952 pelo pastor norte-americano Norman Vincent Peale.
Uma curiosidade é que Peale foi o sacerdote da família de Donald Trump desde quando ele era criança, em Manhattan, e chegou a conduzir a sua cerimónia de casamento com a primeira esposa, Ivana. Trump já citou “O poder do pensamento positivo” como um livro bastante inspirador para ele.
O livro de Peale fala sobre como você pode conseguir o que quiser se tiver pensamentos positivos. E veja o que aconteceu com Donald Trump! É um perigo. Eu pessoalmente sou bastante cético com relação a Trump e, assim, temo que essas técnicas sejam usadas para fins problemáticos."
"O mundo do trabalho se tornou muito psicologizado. Não são apenas as minhas competências que preciso desenvolver, mas também a minha personalidade, os meus sentimentos mais íntimos. Para ser um bom profissional hoje, preciso fazer cursos de desenvolvimento pessoal, coaching e por aí vai.
O empregador não pede apenas para o funcionário vender o seu tempo por uma certa quantia de dinheiro, mas também vender-se a si mesmo, a sua personalidade. Se eu me entregar nesse sentido, eu realmente não tenho nada mais que é meu. Esse é o problema."
"Deveríamos pensar em termos mais coletivos. Não sou contra os objetivos que os livros e cursos de autoajuda pregam. Eu também quero que as pessoas sejam felizes e conquistem os seus sonhos! Mas nós precisamos pensar na forma como tentamos fazer isso. Precisamos lembrar que os nossos males e tristezas têm uma natureza política. Portanto, os desafios precisam ser resolvidos de forma social, e não só individual.
Quando seguem o discurso do autodesenvolvimento, as pessoas tentam ser versões melhores de si mesmas, mas esquecem que também são responsáveis pelos outros. Vivemos numa sociedade que não dirige a sua atenção às necessidades dos outros. A alternativa à autoajuda, a “antiautoajuda”, seria ajudar o outro em vez de ajudar a si mesmo."
"Teoricamente é possível ter um foco no seu próprio desenvolvimento sem deixar de pensar nos outros. Mas, na prática, essa atenção que você dirige a si mesmo, por meio da autoajuda, dificulta o pensamento nos outros.
Muita gente diz que você precisa primeiro amar a si mesmo para então amar o outro.
Elas citam aquela instrução que recebemos em viagens aéreas: em caso de despressurização, coloque a máscara de oxigénio antes em você, e só então ajude a pessoa ao seu lado. Para mim isso está completamente errado. Não no sentido literal do avião, claro! Mas, na vida, precisamos estar lá para o outro, incondicionalmente, e não pensar antes em nós mesmos.
Para aproveitar a metáfora, imagine que a humanidade é um avião em queda livre. Hoje, as pessoas só estão preocupadas em respirar nas suas máscaras de oxigénio. Estamos a chamar isso de autoajuda, “mindfulness”, e por aí vai. Ocorre que ninguém se levanta para confirmar se há algum piloto na cabine, a tentar salvar o avião. Se fizessem isso, descobririam que a cabine está vazia.
O que deveríamos fazer?
Assumir o controle da cabine e tentar salvar o avião da queda.
O que estamos a fazer?
Estamos concentrados em respirar nas nossas máscaras individuais.
O que quero dizer com esta imagem é que estamos numa sociedade desestruturada, que está a enfrentar muitas crises, como um avião a cair. E nós somos esses passageiros que ficam sentados nas suas poltronas, concentrados na sua própria felicidade e no seu próprio sucesso, nas suas máscaras de oxigénio.
Deveríamos sair dos nossos lugares e procurar uma solução sistémica se quisermos salvar o avião, ou o mundo, do desastre. Não vamos melhorar o mundo se apenas melhorarmos nós mesmos. Precisamos agir juntos."
"Todos nós queremos ter um emprego e contribuir para o progresso. Não há nenhum problema em ser produtivo, em adquirir novas competências para trabalhar melhor. O problema é que o discurso sobre maximizar a produtividade tem uma consequência paradoxal. Ele deixa as pessoas cansadas e tristes, o que as torna menos criativas e menos eficientes.
Seres humanos fazem um bom trabalho quando se sentem seguros, quando sentem que podem confiar nos seus chefes, nos seus colegas. A economia moderna, a economia do conhecimento, precisa de pessoas que tenham coragem de desenvolver novos produtos e novas ideias. Todos sabem disso. Mas o sistema que temos não tem dado sustentação a esse fato.
Talvez seja uma herança da velha sociedade industrial, por exemplo, que os empregadores ainda falem de seus funcionários como “recursos humanos”. Como se as pessoas fossem recursos comparáveis a carvão ou petróleo. Coisas que se deve explorar, usar, otimizar.
Em primeiro lugar, isso é antiético, as pessoas não são recursos, são seres humanos, com dignidade e direitos, elas não são coisas.
Em segundo lugar, não é produtivo. Na vida moderna, precisamos trabalhar em equipa, com autonomia, com horários flexíveis. O modelo de trabalho mudou, exige mais liberdade. As pessoas precisam ser tratadas como pessoas, não como recursos humanos.
Na Dinamarca e em muitos países, há estatísticas assustadoras sobre a quantidade de profissionais com depressão, ansiedade, esgotamento por causa dos seus empregos. Esse tipo de coisa não poderia existir num mundo civilizado. Nós deveríamos conseguir trabalhar sem passar por esses problemas."
"De forma simplificada, ter sucesso é ser capaz de cumprir as suas obrigações. Algumas delas são comuns a todos os seres humanos, algumas são específicas de cada um de nós. Não acho uma boa ideia falar sobre sucesso sem falar em compromissos e obrigações.
Se perguntar para um coach como Tony Robbins, um dos mais famosos do mundo, ele dirá que sucesso é fazer o que você quer, quando você quer, onde você quer, com quem você quer. Eu questiono isso. E se o que eu quero não for digno? E se o que eu quero for prejudicial para os outros? Se esse for o caso, eu serei realmente bem-sucedido se conseguir o que quero?
Acho que não. Eu preciso ter um objetivo digno. Mas, para saber o que é um objetivo digno, preciso fazer uma avaliação ética da minha vida. Não posso definir sucesso sem ética. Ter sucesso é conseguir fazer muito bem o que eu preciso fazer."
"É importante estar atento para não cair em discursos motivacionais baratos. Quando a economia de um país vai mal, é quase constrangedor ouvir alguém a dizer frases como:
“Basta que você esteja motivado para ter sucesso”.
O título original do meu livro, em inglês, é “Stand firm” (“Fique firme”, em português). Mas para um país que está a enfrentar múltiplas crises, seria importante acrescentar a palavra “juntos” a essa mensagem: “fiquem firmes juntos”.
É importante não transformar a solução em mais um projeto individual. Pensar só em si mesmo é uma tentação muito grande em tempos de crise. Mas eu espero que as pessoas percebam que, a longo prazo, será melhor para todos se procurarem soluções coletivas para os seus problemas."
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
Dear Daddy
"Querido pai
Eu só queria agradecer-te, por cuidares tão bem de mim, mesmo que eu ainda nem tenha nascido.
Sei que tentas ser mais que o super homem.
Nem deixas a mamã comer sushi.
Preciso te pedir um favor.
Atenção
É sobre rapazes.
Por que... Entende
Eu vou nascer uma menina
Isso quer dizer que quando eu tiver a idade de 14 anos
Os meninos da minha sala terão me chamado de Puta, Vadia, Vaca
E muitas outras coisas... claro que foi só uma brincadeira...
Algo que os rapazes fazem.
Então nem te preocupará.
Eu até entendo
Talvez tu tenhas feito o mesmo quando eras jovem
Tentado impressionar os outros rapazes.
Tenho a certeza que não foi com maldade
Mas,
Algumas pessoas não entenderão a brincadeira.
Não serão as raparigass que não entenderão a brincadeira
Serão alguns dos rapazes.
Então quando tiver com a idade de 16, alguns dos rapazes terão enfiado a mão dentro das minhas calças...
Enquanto tiver embriagada e mal conseguido ficar de pé
E mesmo dizendo não quero, eles simplesmente rirão
Mas é engraçado? Não é!
Se me visses pai, estarias muito envergonhado
Porque estou bêbada
E aos 21 serei estuprada
Aos 21 ao voltar para casa num taxi dirigido pelo "filho da mãe", filho do seu amigo com o qual brincava na piscina todas as quartas-feiras.
O que só contava piadas com insultos, mas como eram "só" piadas, tu rias.
Se soubesses que o filho dele acabaria por me estruprar, tinhas-lhe dito para não o fazer.
Mas como poderias?
Era só um rapaz, com brincadeiras estranhas.
E de qualquer das formas não era da tua conta, tu só estavas a tentar ser porreiro.
Mas o filho dele criado com essas brincadeiras, passou a ser da minha conta sim.
Então, finalmente encontro o senhor perfeito e tu estás feliz, pois ele de facto me adora
Ele é inteligente, com um bom emprego
E durante o inverno vai andar de ski, tal e qual como tu.
Mas um dia ele deixa de ser o Sr. Perfeito
E eu não sei porquê...
Espera, estou a exagerar?
Uma coisa eu sei, não sou do tipo que se faz de vítima
Sou criada para ser um mulher forte e independente
Mas uma noite qualquer foi a gota d'água para ele
Com o trabalho, família e o casamento para breve...
Então ele me chama de vadia
Tal como tu chamás-te a uma menina na escola um dia...
Então depois, ele bateu-me.
Acho que realmente estou errada, posso ser chata às vezes...
Mas ainda somos o casal mais apaixonado do mundo, e estou confusa, e amo-o, e ...
E odeio-o, e não sei se realmente fiz algo de errado.
Então um dia ele quase me mata, e tudo fica escuro.
Mesmo que eu tenha um mestrado, um trabalho fantástico, amada pelos meu amigos e família, bem criada...
Ninguém podia imaginar.
Querido pai
Este é o favor que quero pedir-te:
Uma coisa sempre leva à outra
Então, por favor impede antes que começe.
Não deixes os meus irmãos chamarem as meninas de vadias
Porque elas não são.
E, um dia um menino pode acreditar que isso seja verdade.
Não aceites piadas de pessoas estranhas na piscina
Ou até mesmo dos amigos.
Porque toda a brincadeira sempre tem alguma verdade.
Querido pai
Sei que me protegerias de tigres, leões, armas, carros e até mesmo de sushi, sem temer pela tua própria vida.
Mas, querido pai
Nascerei menina
Faz tudo o que puderes, para que isso não seja o maior perigo da minha vida."
Texto do vídeo
"Dear Daddy" é nome da mais recente campanha em vídeo partilhada pela Care Norway, que tenta com ela alertar para um triste dado que é inegável: de acordo com a Organização Mundial de Saúde, uma em cada três mulheres será vítima de abuso físico ou sexual durante a sua vida.
Pela voz de uma menina que usa o seu pai como metáfora para todos os pais e homens do mundo, aquela organização de defesa dos direitos humanos norueguesa tenta com isto fazer não só uma chamada de atenção para esta realidade, como um pedido de menor tolerância para comportamentos violentos e machistas.
Desde os supostas comentários sexistas inocentes que são partilhados por pais e filhos sobre raparigas, como se estas brincadeiras não pudessem vir a ter consequências futuras, à forma como as mulheres são insultadas e julgadas pelas roupas que vestem, sendo que qualquer mini-saia é suficiente para se ser “uma puta”, aos atos de violência física e psicológica dentro de uma relação amorosa, são muitos os temas abordados neste vídeo, que merece mesmo ser visto e partilhado. É um abanar de consciências para uma realidade que acontece diariamente por baixo do nosso nariz, na porta ao lado, ou mesmo dentro da nossa, maioritariamente feita por pessoas do círculo pessoal da vítima. E muitas vezes sem sequer termos noção disso.
Ao contrário do que muitos dos internautas que viram o vídeo e o comentaram no YouTube acham, esta não é uma história que ponha todos os homens no papel de vilões. É sim uma história cheia de metáforas e ironias, que condensa as inúmeras possibilidades de histórias reais que envolvem violência contra mulheres um pouco por todo o mundo. Claro que há muita violência também exercida sobre o sexo masculino - que se façam campanhas sobre isso em vez de perpetuar a ideia que “os homens não choram”, por exemplo - , mas esta é sobre a violência contra as mulheres. O que não a torna feminista, entenda-se. Torna-a apenas realista: as mulheres e as crianças continuam a ser as maiores vítimas de violência.
METER O DEDO NA FERIDA EM VEZ DE A TAPAR COM UM PENSO RÁPIDO
Em vez de considerarmos este vídeo um ataque, consideremo-lo antes uma chamada de atenção para todos nós, homens e mulheres, que têm a educação dos futuros adultos em mãos. Educar uma criança para a igualdade de género e respeito pelo próximo, em vez de perpetuar comportamentos sexistas, violentos e abusivos, é parte do caminho. E dar o exemplo faz, sem dúvida, parte da mudança. Promover vídeos como este, que tocam na ferida em vez de a taparem com um penso rápido, também. Mesmo que não sejam entendidos à primeira.
Volto a dizê-lo: em caso de dúvida sobre a importância destas campanhas, os números não mentem. Na Noruega, por exemplo, no último ano foram registados cerca de 2500 casos de violência doméstica. Quase 80% das vítimas eram mulheres.
Segundo dados recentes da Polícia Judiciária, em 2014 foram participados em Portugal 374 crimes sexuais. No total, 98% dos violadores eram homens e 92% das vítimas eram mulheres.
Só no primeiro semestre de 2014, a UMAR contabilizou 31 mulheres mortas em situações de violência doméstica e as autoridades portuguesas tinham recebido cerca de 13 mil participações.
Já no maior inquérito europeu sobre este tema - realizado a 42 mil mulheres - concluiu-se que, nos 12 meses anteriores, 13 milhões de mulheres na Europa tinham sido agredidas fisicamente e 3,7 milhões sexualmente, ambas as situações dentro de relações amorosas."
Paula Cosme Pinto
domingo, 28 de fevereiro de 2016
MAITI
MAITI Nepal was born out of a crusade to protect Nepali girls and women from crimes like domestic violence, trafficking for flesh trade, child prostitution, child labor and various forms of exploitation and torture.
Maiti's focus has always been on prevention of girl trafficking, a burning issue for Nepal.
Trained to develop income-generation skills and provided Maiti's shelter until they are ready to stand on their feet.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
Dharma sem Drama
Ouvimos muito falar em Dharma.
Usamos esta palavra com alguma frequência nas conversações sobre Yoga, mas às vezes, percebo que o que alguns compreendem como sendo dharma é diferente do que outros pensam ou falam. Assim, decidi escrever este texto como uma maneira de contribuir para a compreensão desse importante conceito, à luz do que aprendi com meu mestre, Swami Dayananda.
A palavra dharma deriva da raiz dhr, que quer dizer “manter unido”. Então, dharma tem o sentido de preservar, de manter a coesão entre as pessoas e as coisas. Dentre outros significados, o termo aponta para as ideias de ordem, lei, filosofia, bem comum, ética, religião e conduta.
Há duas dimensões distintas de dharma: a universal e a pessoal.
No primeiro sentido, dharma é a força de coesão que sustenta a criação, manifestada na forma das leis naturais: a da gravidade, a da preservação da massa e as demais e ainda, na forma das leis humanas que regem a sociedade e possibilitam uma convivência harmoniosa entre as pessoas. Se formos pensar nessa dimensão do dharma universal, poderíamos defini-lo como não fazer aos demais aquilo que não gostaríamos que fizessem connosco.
O segundo sentido desta palavra, está vinculado com a conduta individual e funciona como uma espécie de bússola para pautar as nossas acções. Esse tipo de dharma é chamado svadharma, seu próprio dever.
Meu dever
Algumas pessoas, ouvindo pela primeira vez o ensinamento da Bhagavad Gita, que acontece à beira de um campo de batalha, tendem a pensar que o dharma pessoal seja algo ao mesmo tempo grandioso e terrível como o destino do príncipe Arjuna, que se vê na contingência de matar os seus próprios parentes e amigos. Porém, o svadharma não é algum destino maravilhoso ou fado funesto que possa estar nos aguardando ao virar a próxima esquina.
Na Bhagavad Gita (III:35), o deus Vishnu, encarnado como Krishna, instrui Arjuna sobre o próprio dharma: “Mais vale cumprir o próprio dharma, ainda que de forma imperfeita, do que cumprir de maneira perfeita o dever de outrem. É melhor sucumbir desempenhando seu próprio dever. É perigoso cumprir deveres alheios”. Esta frase, dita no momento em que inicia uma grande guerra onde muitos irão morrer, soa de facto como algo heróico e aterrorizante. Assim, naturalmente, podemos pensar que talvez svadharma seja isso: um destino grandioso que precisamos encontrar, ou um sentido oculto para a nossa vida que devemos achar antes que seja tarde demais, e que talvez seja perigoso.
As palavras de Krishna devem ser interpretadas dentro do contexto em que foram ditas. De facto, o dever de Arjuna como guerreiro e comandante de um exército é lutar e se for preciso morrer, realizando seu dharma. Não obstante, se formos considerar que a imensa maioria de nós não tem esse destino glorioso e assustador, poderíamos definir o svadharma noutros termos, muito mais humildes e próximos do nosso quotidiano, porém que a aplicam tanto ao caso de Arjuna quanto ao nosso: svadharma é fazer o seu próprio dever, fazer aquilo que deve ser feito. Nada mais. Nada menos. OK, pode pensar o amigo leitor, mas o que isso exactamente significa?
Qual é meu dever?
Quando Krishna, no papel do professor ideal, diz para Arjuna que é melhor falhar realizando seu próprio dever do que acertar cumprindo o dever dos demais, ele quer dizer que é desejável usar da maneira mais adequada o livre arbítrio do qual todos nós, enquanto humanos, somos dotados. Noutras palavras, não devemos escolher dominados pelos nossos gostos ou aversões, mas pela visão daquilo que é certo ou errado. O certo e o errado são muito fáceis de se definir: certo é aquilo que nós gostaríamos que os demais fizessem connosco. Errado é aquilo que não queremos que os outros nos façam.
Estas afirmações nos levam para a seguinte reflexão: enquanto pessoas maduras, nós só devemos escolher o que é certo, quando colocados numa disjuntiva. Porém, na dinâmica da vida, onde as nuançes do cinza são infinitamente mais variadas que o negro desta tinta impressa sobre o branco do papel da revista, isto deve ser correctamente compreendido. Às vezes, aquilo de que gostamos coincide exactamente com aquilo que é correto e aquilo de que não gostamos se encaixa com o que é errado. Numa situação dessas, não precisamos nem pensar, apenas agimos de maneira espontânea e pronto: já estamos realizando o nosso svadharma. No entanto, noutros momentos essa situação não se apresenta de maneira tão clara assim e é preciso agir de maneira deliberada.
Acções espontâneas, acções deliberadas.
Uma vez, estávamos numa estrada em Bali, voltando para casa muito tarde na noite, depois de nos despedir de um amigo que voltava para o Brasil. Quando paramos o carro num cruzamento importante, testemunhamos um acidente espectacular: duas motos bateram em alta velocidade e três pessoas saíram patinando pelo asfalto por muitos metros. Depois do barulho e as faíscas, apenas silêncio e três corpos no asfalto no meio da noite. Estávamos cansados, era tarde, não havia ninguém olhando, e nós poderíamos simplesmente ter seguido em frente. Mas, nesse caso, o nosso desejo não coincidia com aquilo que era certo: se fossem os nossos corpos estendidos na estrada e não os daquelas pessoas, gostaríamos que os outros seguissem indiferentemente seu próprio caminho?
Não havia opção possível. Essa era a hora da acção deliberada: contrariando o desejo dos nossos corpos cansados por chegar logo na cama, paramos o carro no meio da estrada, de maneira que os poucos carros que passavam não atropelassem os acidentados e começamos, a examinar os corpos com cuidado. Os três, aliás, muito jovens, tinham um forte cheiro de álcool e, para nossa surpresa, estavam quase inteiros: alguns arranhões profundos, um osso quebrado aqui e acolá, mas nada de crânios esmagados, membros decepados ou fígados arrancados. Incrivelmente, os três dormiam profundamente. Estavam muito bêbados, mas tiveram aquela sorte louca dos que estão totalmente entregues às circunstâncias.
Agimos desde a certeza de que gostaríamos de ter a solidariedade dos demais, se a precisássemos numa emergência como essa. Com a ajuda de um policial que apareceu um tempo depois numa motoreta (o que foi bom, pois dividimos a responsabilidade com ele, que assumiu as decisões), carregamos os três no porta-malas e o assento de trás do nosso jipe alugado e fomos para um hospital. O caminho foi longo. A Ângela estava enjoada com o cheiro do sangue e álcool e começou a passar mal. Eu estava com um nó na boca do estômago, por causa da tensão e o receio de ter feito algo errado, pois sabia perfeitamente que não devemos mexer em corpos de acidentados.
Mas havíamos seguido as instruções do policial para transportar os corpos, já que a situação era crítica. Conhecendo bem a Indonésia, tanto o policial quanto nós sabíamos que, se deixássemos os garotos deitados no asfalto do jeito que estavam, seriam atropelados antes da chegada de uma ambulância, o que poderia demorar horas, ou nem sequer acontecer. Eu também pensava se, na chegada no hospital, as pessoas não iriam nos acusar de ter atropelado os jovens, e que isso poderia complicar muito a nossa situação, apesar da boa intenção com que tínhamos agido. Mas nada disso aconteceu: na chegada, um enfermeiro que mais parecia um lutador de sumô mal-encarado, jogou descuidadamente os garotões em três macas e nos dispensou sem muita cerimónia. Fomos dormir tranquilos e aliviados.
Por que dharma?
Qual é o meu ganho, se seguir o dharma? Qual é o efeito? Por que deveríamos agir dentro dele? Por algo muito especial: quando eu sei o que devo fazer, quando conheço meu papel na sociedade, fico tranquilo. Quando consigo discernir o certo do errado, e escolher deliberadamente o que é certo, mesmo a pesar do meu próprio prazer ou conforto, me fortaleço imensamente. Quando minhas acções estão alinhadas com o bem comum, fico em paz pois encontro o meu lugar na ordem das coisas. Cabe lembrar que a palavra dharma significa, dentre outras coisas, ordem, harmonia.
Svadharma nos relacionamentos.
Esses deveres que chamamos dharma, por sua vez, constituem direitos, quando olhados desde o outro lado. Se eu faço aquilo que é certo, o que é certo é meu dharma, meu dever. Do outro lado dessa afirmação há outra pessoa ou outras pessoas: o meu cônjuge, a minha família ou a sociedade. Ou seja, o meu dever em relação ao meu cônjuge se torna o direito dele ou dela. O meu dever em relação à minha família é o direito dela. O meu dever para com a sociedade é o direito dela.
O direito do cidadão é (ou deveria ser) garantido pelo Estado, que representa (ou deveria representar) o dever da sociedade em relação ao indivíduo. Muitas vezes gritamos alto para reivindicar nossos direitos, mas esquecemos de ter o mesmo zelo na hora de cumprir os nossos deveres. Direitos e deveres relacionais, familiares e sociais são relativos, e dependem de tempo, lugar e circunstância, mas a regra de ouro é sempre seguida: não devemos deixar de fazer pelos demais o que esperamos que eles façam por nós. Os detalhes mudam de geração para geração, ajustando-se aos tempos e ao estágio de maturidade de cada sociedade. A essência do dharma permanece.
Assim, temos a possibilidade de realizar acções espontâneas e acções deliberadas. Svadharma é, agindo deliberadamente, fazer aquilo que é correto. Este é um dos aspectos do Karma Yoga. É necessário pontuar a importância da acção deliberada pois, na maior parte das vezes, o meu desejo contradiz o que é certo. Ou, como diz aquela velha música do Roberto Carlos: “tudo o que gosto é imoral, ilegal ou engorda”. Esse livre arbítrio para escolher entre o prazeroso é o certo é uma das coisas que nos faz humanos.
Qual é o dharma do indivíduo em relação ao Todo?
Um dos pontos centrais deste ensinamento é a compreensão da relação intrínseca entre o indivíduo e o Todo. O indivíduo é chamado vyashti, o Todo, Samashti. Se eu não compreender essa relação, não poderei compreender as demais. E, para compreender essa relação que devo manter com o Todo preciso, primeiramente, compreender quem sou e o que é o Todo. Assim o esteio fundamental do ensinamento do Yoga é que o indivíduo é idêntico ao Todo. Em poucas palavras, o Todo é a inteligência que mantém a coesão das coisas e os seres vivos, que é intrínseca à criação. O indivíduo é você, enquanto ser humano encarnado. Perceber essa identidade é ter moksha, liberdade, já que ao conhecer a nós mesmos como completude, todas as ideias equivocadas que possamos ter em relação à nossa auto-identidade são eliminadas. Assim, vivemos em paz e felizes.
Qual é o meu dharma em relação a mim mesmo?
Cada um de nós nasce dotado de alguma habilidade especial. Naturalmente cria-se um conflito na adolescência em relação às escolhas que a pessoa deve fazer, já que isso vai definir muitas coisas no seu futuro. Às vezes, esse conflito da adolescência se estende à juventude e à fase adulta Assim, algumas pessoas chegam aos 30 ou 40 anos de idade sem ter claro o que querem para si na vida. Se esse for meu caso, ao invés de me angustiar por não ter clara essa vocação profissional, preciso ficar atento às coisas que a vida vai me revelando, aos caminhos que se abrem à minha frente, e escolher aqueles que, sendo prazerosos ou não, estejam em harmonia com o bem comum. Naturalmente, irei escolher aqueles que me forem mais agradáveis, mas não preciso me angustiar por não ter uma vocação meridianamente clara. O que verdadeiramente importa, independentemente das acções que faço, é me manter fiel aos próprios princípios. Aqueles valores dos quais não abro mão de jeito nenhum, são também meu svadharma.
Qual é o dharma do marido em relação à esposa?
Digamos que eu seja feliz e a minha esposa não. Como poderia eu desfrutar da minha felicidade vendo ela sentada num canto da casa, triste e chorando? Se sou casado, a felicidade da minha esposa é a minha felicidade. Meu dever, enquanto marido, é criar condições para a felicidade da minha mulher e não para fazê-la sofrer. Isso significa cultivar compaixão, fazer o outro se sentir valorizado, mostrar interesse, afecto e carinho em todos os momentos. Então, mesmo que seja em meu próprio benefício, eu deveria cuidar muito bem da felicidade da minha esposa. Obviamente, essas atitudes precisam ser recíprocas para que a relação flua da melhor maneira.
Qual é o dharma dos filhos em relação aos pais?
O dever dos filhos em relação aos nossos pais é cuidar deles. É conseguirmos uma forma de comunicação que seja expressão da gratidão que temos por eles terem feito a coisa certa ao nos educar. Provavelmente, se você é um adulto que está lendo esta revista, seus pais fizeram a coisa certa ao lhe ensinar os valores que lhe trouxeram até onde você está agora. Mesmo se tivermos alguma lamúria ou cobrança para lhes fazer, devemos pensar neles com reverência e reconhecimento. Essa gratidão não deveria ficar apenas no plano dos pensamentos ou sentimentos, mas precisa estender-se às acções: demonstrar agradecimento, cultivar a paciência ou dedicar um tempo diário ou semanal a estar e desfrutar com eles, principalmente quando eles estão na terceira idade, são boas maneiras de cumprir nosso dharma em relação aos nossos progenitores.
Qual é o dharma dos pais em relação aos filhos?
O dever dos pais em relação aos filhos é prover as condições necessárias para que possam crescer e desenvolver suas habilidades da maneira mais adequada. Assim, é importante que, como pais, demos aos filhos a liberdade para que eles desenvolvam as próprias vocações. Outro dos deveres dos pais é prover amparo e dar aos filhos uma educação com valores que lhes permita compreender que, mais que consumidores, devem crescer como contribuidores para uma sociedade melhor. Noutro plano, se formos pensar na vida de Yoga, o dever dos pais é lembrar aos filhos que existem aspectos da vida muito mais importantes do que simplesmente ter sucesso, prosperidade, prazeres ou confortos materiais sem, é claro, negar a importância desses factores.
Qual é o dharma da sogra em relação à nora?
A sogra deveria, também em seu próprio benefício, dar à nora total liberdade para que ela seja como é, e para que possa viver feliz com seu marido. Toda sogra deve ter sido nora em algum momento: pode acontecer que ela esteja projectando na nora as frustrações e ansiedade sofridas nas mãos da própria sogra. Muitas vezes, o problema da sogra nasce do sentimento de possessividade que ela nutre pelo filho. Havendo o filho nascido dela, sua tendência natural é pensar nele como uma extensão dela mesma. No entanto, o facto é que ninguém é apêndice de ninguém e a sogra deve ter cuidado para exercer o desapego em relação ao filho, em benefício da felicidade de todos.
Qual é o dharma do cidadão em relação à sociedade?
Embora não esteja de moda nestes tempos de corrupção dominante, tráfico de influência, desvio de recursos públicos e outros crimes praticados descaradamente à luz do dia por uma boa parte dessa inqualificável classe de políticos e governantes que temos que suportar no Brasil, isso não nos isenta de, como cidadãos, fazer a nossa parte. Isso não quer dizer apenas pagar mansamente os impostos, mas também levantar a nossa voz quando se fizer necessário, seja para protestar, seja para apontar acções necessárias para melhorar as condições de vida da sociedade.
É dever de todos, não apenas compreender o que está acontecendo na nossa localidade, mas igualmente participar activamente, oferecendo soluções, se for o caso, para melhorar as condições da comunidade em que vivemos. Dentre outras coisas, cabe lembrar que um dos deveres do cidadão, em relação ao Estado, é justamente o de escolher bem os governantes e, se for o caso, ajudar os demais a fazer uma escolha esclarecida. Pense nisso nas próximas eleições.
Conclusões.
Bom, esta lista poderia se estender bastante mais, mas vamos parar por aqui, citando duas estrofes de um mantra védico chamado Svastipatha, que ilustra o que seriam esses direitos e deveres dhármicos numa sociedade harmoniosa:
Om. Que a prosperidade e o bem-estar sejam glorificados.
Que os governantes nos governem com rectidão e justiça.
Que a sabedoria e o conhecimento sejam protegidos.
Que todos os seres, em todos os lugares, sejam felizes.
Om, que haja prosperidade para todos.
Que todos vivam em paz; que todos sintam a plenitude.
Que todos estejam bem; que todos sejam felizes.
Que todos estejam livres de doenças.
Que todos vejam o bem; que ninguém sofra.
Como acabamos de ver, o svadharma é realizado nas pequenas coisas do quotidiano. De vez em quando aparece alguma tarefa mais delicada, como aquele acidente em Bali mas, de modo geral, seguir o próprio dharma tem mais a ver com estar atento em relação às coisas que a vida nos coloca, e trilhar com cuidado os caminhos que estamos seguindo, do que em buscar alguma vocação ou destino glorioso.
Destino glorioso também é uma expressão que precisa ser bem compreendida: não estamos dizendo com isto que devamos nos resignar a ter uma vida medíocre ou cinza, mas sermos capazes de ver que, mesmo nas menores coisas do dia-a-dia, é possível vivermos a plenitude e a tranquilidade que nos dá o facto de saber que estamos a fazer a coisa certa. A questão que verdadeiramente importa não é se seremos famosos, ricos ou heróicos, mas se somos fiéis a nós mesmos e aos nossos valores, e se realizamos a nossa felicidade, independentemente do tipo de trabalho que fazemos.
Pedro Kupfer
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
La falacia de la revolución sexual femenina
Existen numerosos daños que ha producido en la sociedad actual el capitalismo salvaje, y uno de ellos, del que poco o nada se habla, es la erotización extrema que muchos tratan de vendernos en forma de “Liberación Sexual”. Esta erotización extrema a la que nos someten cada día no es más que otra forma de esclavitud que nada tiene de libertaria, pues degrada y cosifica, especialmente a las mujeres. Por un lado, convirtiendo sus cuerpos en una cárcel de auto exigencia por los cánones de belleza impuestos, y por otro, reduciéndolas y representándolas como simple mercancía. Una esclavitud consumista que continúa cosificando y promoviendo la desigualdad de género y el tráfico de seres humanos, y cuyas víctimas directas son sobre todo mujeres y niños.
En un pasado no tan lejano la mujer estaba reprimida social y sexualmente, ahora se la expone en el otro extremo, como un objeto sexual, pero no desde el respeto y la libertad, sino desde una visión exclusivamente masculina que sigue siendo “inferior”, “degradante” y “desigual”.
No nos engañemos, la mujer de hoy sigue siendo mostrada desde una perspectiva misógina y androcéntrica, como algo que está ahí para complacer, no como un ser digno de respeto. Lo que supuestamente iba a liberarnos resulta que ha perpetuado y reforzado comportamientos sexistas, machistas y patriarcales. Esta falsa liberación femenina les ha servido a los hombres de excusa perfecta para seguir denigrándonos, mercadeando con nuestros cuerpos, controlando nuestra sexualidad, y marcándonos cómo debemos ser y comportarnos con diversos patrones, ideales, actitudes y estándares de belleza. Nos han querido vender que el quitarnos la ropa y exhibirnos como mercancía nos iba a hacer más libres, pero no es así.
Pero no sólo afecta a las mujeres, el filósofo Pascal Bruckner insiste en el tremendo desgaste que este desenfreno ha provocado en las relaciones de pareja actuales (Le Nouvel Observateur: Artículo “La tragedia de las relaciones de pareja actuales”, Libro “El nuevo desorden amoroso”, Pascal Bruckner), una de las consecuencias de pasar de la represión total, a una sociedad cada vez más egoísta e individualista, con menos valores, carente de empatía, donde todo vale, y donde lo primero es la satisfacción personal inmediata sin importar las consecuencias.
Y esto ocurre porque tan mala es la represión, como la ausencia total de reglas, valores y respeto. Ahora más que nunca estamos sufriendo los efectos negativos de haber sexualizado hasta el extremo la cultura y los medios de comunicación, especialmente el cine y la publicidad, que son medios con una gran influencia. Estamos comenzando a vislumbrar las consecuencias negativas de la excesiva exposición a la pornografía y lo ridículamente fácil que es tener acceso a ella para los niños. Y otro de esos efectos colaterales, es la banalización de la prostitución y la vista gorda que se hace con la esclavitud sexual que la prostitución lleva siempre de la mano.
Y todo esto, sin una mínima educación sexual, imperiosamente necesaria.
Con esta erotización extrema tiene que ver también el aumento vertiginoso de la adicción al sexo, de vivir la sexualidad con compulsión, ya sea en la vida real, a través de una pantalla, o las dos, y que no sólo afecta a los propios adictos sino que destruye a sus familias y parejas, según afirman los psicólogos.
Esta adicción se refleja en la incapacidad de vivir sin estos contenidos, anteponiéndolos incluso a familia y pareja, en una dependencia total a materiales sexistas y/o pornográficos ya sea a través de Internet, televisión, revistas, etc… Material que promueve la cosificación de las personas, una sexualidad irresponsable, que degrada y violenta, y que además produce una infravaloración de la fidelidad y del respeto hacia la pareja, y sobre todo hacia las mujeres. Y no nos confundamos, no hay nada de malo en ser promiscuo mientras no se dañe a otras personas, se puede llevar una sexualidad promiscua sin ser infiel ni dañar y engañar a nadie, de lo que aquí se habla, es de una cultura que promueve una forma depredadora de vivir la sexualidad, del no respeto a la integridad, la dignidad y los derechos de la otra persona, especialmente si esa persona es una mujer.
Todo esto ha llevado a un aumento de conflictividad en la convivencia, por no decir, que se ha convertido en una de las primeras causas de divorcios y rupturas según abogados matrimonialistas, sólo por detrás de la infidelidad física.
En occidente nos estamos acercando peligrosamente a los daños colaterales generados por la pornificación y la estereotipación del sexo que lleva décadas sufriendo Japón, donde los hombres prefieren ver porno, irse de putas o a masturbarse en una cabina de sex shop para no ser pillados, antes que hacerle el amor a sus mujeres porque ya sólo son capaces de excitarse con el estereotipo de mujer que venden el porno y los medios dominantes. Esto se ha llegado a convertir en un problema nacional, y afecta tanto a la salud mental como a la sexual de la población, e incluso a la natalidad.
Pero no hace falta irse a Japón, porque esto ya esta ocurriendo en Europa y EEUU, las consultas de los psicólogos están llenas de personas con estos problemas que no hacen más que corroborar los datos de los abogados matrimonialistas de todo el mundo.
Al margen de los conflictos conyugales, frecuentemente esta adicción desemboca también en el abandono o deterioro de otras responsabilidades como los hijos, trabajo, estudios, en adicción a la prostitución, masturbación compulsiva con material sexista (ojo recalcamos que la masturbación de por sí no es mala, hablamos de compulsión y dependencia de estos materiales), aumento de enfermedades de transmisión sexual, incapacidad para controlar los impulsos, y un largo etc.
Además del bombardeo de la hiper sexualización mediática y la pornografía, se suma la erotización de la infancia y la adolescencia que se da en ambas, otra de las causas del aumento exponencial en los últimos tiempos tanto de la pederastia, como de los abusos sexuales que se están dando entre los mismos menores debido a una tempranísima exposición de los niños a la pornografía y a la violencia sexual en los medios.
Los pederastas no nacen, no vienen de otro planeta: se hacen. Son producto de una sociedad machista y cada vez más enferma que legitima el abuso hacia los más débiles: mujeres y niños.
La prueba de ello la tenemos diariamente en las noticias, que cada vez son más y no hacen distinciones culturales ni de clases. Los pederastas no sólo son curas célibes reprimidos sexualmente, también son profesores, informáticos, abogados, médicos, conserjes, funcionarios, barrenderos, parados, el vecino del 5º, a veces son papá, el abuelo, un tío, el novio de mamá. El 80% de los abusos sexuales son cometidos por personas del entorno familiar o cercano de la víctima, en su mayoría hombres. Y al menos la mitad o más de todos ellos, han llegado ahí, no por una represión de su sexualiadad, sino por todo lo contrario, por una hiper estimulación desde la infancia, una hiper erotización mediática y social, y por una cultura machista que la promueve, naturaliza y refuerza… Resumiendo, se unen dos factores, la compulsión y falta de autocontrol que promueve la hiper erotización mediática, y la naturalización social y cultural de la violencia machista y sexual contra mujeres y niños.
Abusos a menores.
“Solo esta vez más, te lo prometo”
Pero existe un factor muy importante del que poco se habla, que además de ser un factor en sí mismo, puede desencadenar todos los anteriores o ser parte de un mismo problema, y es el bombardeo continuo y el exceso de exposición a material sexualmente explícito que emiten los medios a toda hora, incluso en horario infantil protegido, y siendo Internet el peor de todos ellos por lo fácil que es acceder a contenidos ilícitos e inapropiados para menores, y por ser un barrio sin ley ni regulación de ningún tipo.
“Otra forma de engendrar pederastas es propiciar la adicción sexual”. Eso mismo es lo que hacen los medios, como la mayoría de los periódicos que promueven la prostitución y fomentan la adicción y que se siga viendo a las mujeres como agujeros al servicio del placer masculino. Dentro de la adicción al sexo, la pederastia vendría a ser lo que la heroína a las drogas, el último escalón de la pirámide adictiva, junto a los abusos sexuales y otras desviaciones.
En muchos casos el adicto abusa del más débil, del que es más fácil de manipular, y quién más débil y desprotegido física y emocionalmente que un niño.
En 2010 más de 300 personas han sido detenidas en España por cometer delitos de pornografía infantil. Un tipo de delito que “va en aumento a nivel internacional año tras año”. Así lo denuncia ‘Protegeles. com’, el principal portal español para denunciar este tipo de actos. También en 2010 y sólo la Consejería para la Igualdad y el Bienestar Social de Andalucía detectó 700 casos de abusos a menores. Nos podemos hacer una idea del total anual haciendo una media de todas las provincias. Muchos aspectos resultan increíbles cuando uno se asoma a este fenómeno mucho más extendido de lo que la sociedad puede o quiere creer.
Queda reflejado en numerosos índices de criminalidad de la policía y otros organismos oficiales que este tipo de delitos ha aumentado en los países donde el sexismo, la prostitución y la pornografía están totalmente normalizados e integrados en la sociedad. La simple normalización, la publicidad y accesibilidad que se les da, hace que aumente la demanda. La normalización de la violencia sexual y la erotización de esa violencia en los medios enseña a las personas a excitarse con ella, a fantasear con ella, y en un gran número de casos, lleva a insensibilizarse y a querer ejercerla. Ej.: Alemania y Holanda son los principales exportadores de pederastas del mundo, donde lejos de reducirse ha aumentado exponencialmente el tráfico de esclavas sexuales, donde además, “cada vez se demandan mujeres más jóvenes, e incluso niño/as”. ( *Datos sobre el aumento de la pederastia y la trata de esclavas y niño/as sacados del libro de la periodista Lydia Cacho,Esclavas del Poder, con referencias de Human Rights International).
Pascal denuncia también el aumento progresivo de trastornos psicológicos y sexuales en ambos sexos. Problemas no sólo de adicción y compulsión, sino en ocasiones de todo lo contrario, de falta de deseo sexual porque la pareja no cumple con las expectativas físicas o de resistencia impuestas por la sociedad y los medios. No hay más que ver el número cada vez mayor de trastornos psicológicos relacionados con el físico (anorexia, bulimia, vigorexia, tanorexia, trastornos alimentarios, depresión, adicción a la cirugía…). Todo esto directamente relacionado con los modelos impuestos por la publicidad cosificadora, la publicidad sexista que promueve y normaliza la violencia de todo tipo donde la mujer siempre se lleva la peor parte, y que ahora se ha autodenominado “publicidad pornochic”, muy de moda en nuestros días.
Por qué será que muy poco se habla de que en esos mismos países de donde copiamos nuestro “Destape Español”, momento que llegó justo después del franquismo y que trajo un tipo de cine y publicidad absolutamente comercial, extremadamente machistas y retrógrados, hace tiempo que se han retractado de todas esas reminiscencias, y por los efectos nocivos vividos mucho antes que en España, saben que todos estos residuos del Patriarcado; la prostitución, el 99% de la pornografía, la publicidad machista, etc.–lejos de ser algo positivo- degradan la imagen de la mujer convirtiéndola en “una cosa” totalmente deshumanizada, y manteniendola en un plano inferior y sumiso.
Todo esto no hace más que aumentar la desigualdad y la violencia, porque refuerza y normaliza dichos comportamientos en el imaginario colectivo. Tanto es así, que hoy día en Suecia, de donde España copió su Pornochachada, y cuya excusa utilizan siempre los defensores de la misma para mantenerla, hace mucho que se aplican fuertes políticas de igualdad, y la prostitución lejos de ser considerado un acto de libertad lo es de esclavitud y está penada por la ley desde 1999, se castiga al cliente con cárcel y cuantiosas multas. Además de esto, se prohíbe también la pornografía y la prostitución en medios y prensa locales que están al alcance también de niños y adolescentes quienes no tienen formada aún su personalidad y no deberían acceder a este tipo de contenido.
Lo que en España, como si siguiéramos anclados en los 60, se ve aún como un acto de modernidad y libertad (comerciar con personas y sexo), en muchos de los países de los que imitamos lo que empezó como nuestro particular “destape”, se ve desde hace mucho como un arcaísmo, como un atentado contra los Derechos Humanos, pero sobre todo, contra los derechos de la mujer. La Prostitución y su publicidad, la Pornografía (del griego πορνογραφíα: porne es “prostituta” y grafía, “descripción”, es decir, “descripción de una prostituta”), así como el machismo y el sexismo que invade aún todos los medios de comunicación, han demostrado ser causa del mantenimiento y promoción de una de las más abismales desigualdades entre hombres y mujeres, un cáncer y un fracaso social que poco tiene de libre, pues es causa directa de que se siga perpetuando la esclavitud en el S.XXI. La situación se ha ido tanto de las manos en nuestro país que nos hemos convertido en un referente mundial, como se dijo recientemente en un artículo del Diario The Independent de Reino Unido, titulado: “España, La Capital Mundial de la Prostitución”
Estas conclusiones aunque lo parezcan no son ni mucho menos exageradas, están sacadas de diversas encuestas anónimas nacionales e internacionales sobre consumo de prostitución, unas realizadas por el Ministerio de Sanidad español, otras por la ONU y otras por diferentes organismos y ONG´s de defensa de los derechos del niño y de la mujer prostituida en régimen de esclavitud. Los resultados arrojan datos tan alarmantes como que el 39% de los hombres españoles encuestados admitieron haber utilizado alguna vez o utilizar a menudo los servicios de prostitutas, siendo la mayoría de éstas víctimas de la trata, y convirtiéndose en una de las cifras de consumo de prostitución más altas de Europa, cuya máxima no superaba el 20%.
ONU: “El 90% de las mujeres que ejercen la prostitución en España es víctima de la esclavitud del siglo XXI, de la trata de mujeres, de redes y de proxenetas”, además “España es el primer país europeo de tránsito y destino de mujeres con fines de explotación sexual” según datos de las Naciones Unidas.
Para concienciar a la sociedad sobre este problema se tiene que educar, “los grandes delitos de esta índole pasan porque a la sociedad no se le educa en el respeto y la igualdad”. Sólo en 2009 el Ministerio del Interior español identificó 17 grandes mafias internacionales en España que se dedican a introducir y traficar ilegalmente personas con fines de “prostitución forzada”. Pero eso no parece importar ni frenar a los clientes.
La prostitución supone un atentado contra los Derechos Humanos. No es una expresión de libertad sexual sino de violencia, marginación, problemas económicos, culturales, patriarcales y sexistas. Y en casi un 90% de los casos se llega a ella por la fuerza o la necesidad.
En manos del gobierno y de la sociedad está acabar con estas lacras, el primero educando, legislando y protegiendo con la ley; la otra parte, no consumiendo y alzando la voz para visibilizar las injusticias y las desigualdades. El objetivo común: acabar de una vez con la esclavitud en este S.XXI, con las conductas machistas y patriarcales y su publicidad, que contribuyen a perpetuar las desigualdades, los abusos y los asesinatos de género.
“Nada más abrumador que la responsabilidad que nos encadena
a las consecuencias de nuestros actos.
Ha llegado ya el momento de no confundir la libertad
con el capricho”.
Pascal Bruckner
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