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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Sob escombros


 Anatolii Savitskii






Um tempo houve em que,
de tão próximo, quase podias ouvir
o silêncio do mundo pulsando
onde também tu eras mundo, coisa pulsante.

Extinguiu-se esse canto
não na morte
mas na vida excluída
da clarividência da infância

e de tudo o que pulsa,
fins e começos,
e corrompida pela estridência
e pela heterogeneidade.

Agora respondes por nomes supostos,
habitante de países hábeis e reais,
e precisas de ajuda para as coisas mais simples,
o pensamento, o sofrimento, a solidão.

A música, só voltarás a escutá-la
numa noite lívida,
uma noite mais vulnerável do que todas
(o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento)
um pouco antes de adormece
sob escombros.


Manuel António Pina 
in, "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011"




sábado, 7 de fevereiro de 2026

O Peso do Mundo


Simoningate




Poderia libertar-me do peso do mundo nos teus braços; 
poderia tirá-lo de cima de mim, atirá-lo para o outro lado 
da casa, para algum canto escondido; e poderia 
ficar contigo, na leveza do teu corpo, ouvindo 
o cair do tempo nalgum relógio invisível. 

O mundo, no entanto, insiste comigo. Está ali, 
no fundo da casa, com o seu peso. Espera que alguém 
pegue nele, e volte a descer a escada, curvado, como 
se tudo o que tivéssemos de fazer fosse carregá-lo 
para baixo e para cima, nestas escadas sem elevador. 

E eu, contigo, ao abraçar-te, espero que o mundo 
não se mexa no seu canto, no fundo da casa. Abraço-te 
como se o teu corpo me libertasse desse peso, como 
se ele nao estivesse à minha espera, para que o desça 
e suba por estas escadas de um prédio sem elevador. 

Mas o amor também tem o peso do mundo. E as 
palavras com que nos despedimos, antes que eu pegue nele 
e te deixe entregue à tua leveza, trazem o eco das coisas 
que atirei para o fundo da casa, onde não quero que vás, 
para que não tenhas de carregar, também tu, o peso do mundo.


Nuno Júdice




quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Wenders

 

Pixnio




digo: guardei cuidadosamente
o presente em tons de passado,
sem jamais ousar aguardar nada
desse futuro que cultivava
igonoto e desabitado da virtude
que Péguy declarou a mais pequena

calcorreava as sendas
criadas pelos instantes de um
quotidiano delineado cuidadosamente
nos extremos da onda que mede a
dimensão corpuscular da luz,
distante das matizes que pintaram a minha infância

eu, militante da razão cega,
que sempre quis de tudo conhecer a justificação,
tinha ouvido     incréu     os relatos de quem
declarava ter conhecido alguém capaz
de redimensionar a luz
para além das teorias da física

e tu desconstruíste o tempo
deste-me a beber a esperança
e recordaste-me que nem tudo é
definido pela luz e pela sua ausência
tu     que a sabias tornar tangível,
telúrica     intemporal

e eis que em toda amplitude
de um simples abraço dado com 
uns olhos cor de avelã
me retorquiste que
coisas há que devemos aceitar
sem lhes questionar o porquê

qual ave trituraste com a tua boca
as certezas
a razão
e o tempo
depositando na minha     ávida de um sentido
pequenos pedaços de ternura 


Rui Amaral Mendes 
in, A Noite e Sangue 




quarta-feira, 11 de outubro de 2023

O INFERNO



Pexels







 Debrucei-me na janela do inferno
e não vi nada que me horrorizasse;
pareceu-me um lugar igual aos outros,
cheio de gente e coisas. Alguém
do inferno convidou-me a entrar.
Não me lembro quem era, ou se eram vários,
nem o que me disseram lá de dentro
ou se aquelas pessoas sorriam,
se havia algum que se lamentasse,
nem se desconfiei em algum momento.
Procurei e achei a porta do inferno,
abri a porta do inferno, entrei
e desde então vivo no inferno.
É um lugar igual a outro qualquer
cheio de gente e coisas. Mas
sei que só pode ser o inferno
porque neste lugar não estás comigo.

Amalia Bautista



sexta-feira, 9 de junho de 2023

Dormiu comigo

 







Dormiu comigo, e agora que um dedo
mexe o último gole no copo que lhe dei,
outro conta os golpes até dez.
Antes fosse puta, digo-lhe,
e te bastasse juntar algum dinheiro.
Os espelhos tentaram em vão
copiar-lhe a beleza e até eles estão ali
a criar mofo no seu vazio íntimo.

Nos fundos do pátio aquela árvore
silenciosa parece escurecer. O ar em volta
detém-se quietamente e envelhece.
Chamam-lhe gato.
Os pássaros não se aproximam.
Se o fazem, se enfim se escondem
entre os ramos, é para morrer.

A nós, quem nos diz que estamos vivos?
Corre as cortinas, muda a roupa da cama
para não atrair as moscas ao sonho,
depois talvez possamos adormecer
com a chuva a medir a altura das coisas.

Enquanto as sirenes dos barcos
não atravessam a neblina do amanhecer,
somos a tinta escavando o seu buraco,
suores nocturnos, comboios
na mesma linha. Não me acostumo a isto,
a vida, e nem à guerra de ir e vir
pelas mesmas ruas, caminhos que sabem
o que foi preciso para dar outro passo.

Agora que as águas sobem sozinhas,
que a soma de sóis e luas de uma linha
à seguinte nos dá
a própria velocidade da terra,
regressas aos lugares como o seu afogado.
Como aos vinte anos nas tuas páginas
mais violentas.

O tempo que passa e não passa,
a abelha sagrada que te esperou
num copo voltado. Um sítio chama,
outro responde. Abandonas ao vento o verso,
e do mar, além do ritmo, tiras as espinhas
em que o resto ganha forma.
Meandros, restos, insignificâncias:
coisas que falam por nós.

Talvez o mar esteja perdido, e as ruas que
a ele caíram não nos levem a mais
lugar nenhum. Agora, tudo já faz parte
do vento. Hoje, procuramos saber
a quantas mortes dar
a mesma flor?
As pétalas caindo
de um aroma a outro. Aos dias,
a tudo isto, tivemos de emprestar
outro sentido, e por mais vago,
inventar um ritmo, seguir
de onde o coração parou.

Para quem dá esses passos, a vida
vira uma fábula… A fome aparece
só a meio da história, e a paixão depois,
mas logo que se apanhou com o rasto
do invisível não o largou mais.

Assim, adiantamo-nos ao efémero.
Onde a eternidade muda de pele,
reunimos os homens.
Projectos, planos, data de partida.
E na despedida: fogo. De cima abaixo,
fogo em tudo. Ininterruptamente fogo.

 

Diogo Vaz Pinto 
in, De Aurora para os Cegos da Noite




quinta-feira, 9 de março de 2023

PROJECTO




 



Procuro a terra branca de um outro 
continente, os montes áridos de um litoral
tempestuoso, o fundo secreto de uns olhos
abertos para o coral da eternidade. Perdi-me
nessa procura; destruí os cadernos onde 
apontara o caminho. Como um cego,
estendi os braços para o ocaso de um infinito 
que os loucos desenharam. Bati contra 
os seus limites, e andei às voltas sem encontrar
uma fuga.

Mas vi saírem todos os barcos do porto
que imaginei. Tinha-o pensado com longos
cais vazios, e percorrera-o devagar, tropeçando
nas madeiras podres e nas cordas inúteis
de um velame corrupto. Por vezes, sentei-me 
nos caixotes desfeitos pelos vagabundos 
em busca de um resto de comida. Os cães 
vinham ter comigo e lambiam-me as mãos
como se eu fosse o seu dono.

Não sei o que levaram esses barcos; nem 
que sonho de felicidade se desfez nos olhos
vazios dos afogados.


Nuno Júdice
in, Fórmulas de uma luz inexplicável




sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Relato sentimental da memória


Alexei Bednij




 Amor e tempo é um conflito
que se resolve sempre com dor e esquecimento.
Porque compreender não quer dizer amar,
mas afastar-se mais: já o suspeitava
há muitos anos, quando ainda exercia arquitectura.
Aprendo tudo de novo.
Agora preciso apenas de lealdade
a alguma coisa vaga e solitária,
dura como uma rocha no meio do mar.
Às vezes a mente dos velhos
engrena com fúria a sua lógica.
Vejam-na deambular pelas suas memórias:
percorre uma costa desolada,
porque compreender não quer dizer amar,
mas afastar-se mais. Aprendo tudo de novo.


Joan Margarit



sábado, 7 de janeiro de 2023

Soneto Inglês







Como o silêncio do punhal num peito, 
O silêncio do sangue a converter 
Em fio breve o coração desfeito 
Que nas pedras acaba de morrer, 

Vive em mim o teu nome, tão perfeito 
Que mais ninguém o pode conhecer! 
É a morte que vivo e não aceito; 
É a vida que espero não perder. 

Viver a vida e não viver a morte; 
Procurar noutros olhos a medida, 
Vencer o tempo, dominar a sorte, 
Atraiçoar a morte com a vida! 

Depois de morrer de coração aberto 
E no sangue o teu nome já liberto...


Alexandre O'Neill
in, No Reino Da Dinamarca




domingo, 25 de setembro de 2022

O Grito


Jim Thornber





Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;
e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.
.
Presente, apenas presente;
a memória, presente,
a esperança, presente.
.
E, no entanto, houvera um tempo
em que tínhamos sido talvez felizes,
quando não nos dizia respeito a felicidade,
e em que tínhamos estado perto
de alguma coisa maior que nós
ou do nosso exacto tamanho.
.
Como um animal devorando-se
por dentro a si mesmo,
consumira-se, porém,
o pouco que nos pertencera, os dias e as noites,
a certeza e o deslumbramento, a cerejeira e a
palavra “cerejeira” ainda em carne na jovem boca.
.
Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse,
nenhuma renúncia que nos prendesse
ou nos libertasse, nenhuma compaixão que
nos devolvesse o ser
ou o mesmo,
ou fosse a morada de algo inumano como um coração.
.
Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior,
nenhumas pálpebras se abriam,
como poderíamos não nos ter perdido?
.
Entre 10 elevado a mais infinito
e 10 elevado a menos infinito,
uma indistinta presença impalpável na indiferença azul,
sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.



Manuel António Pina






quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Súmula


Kasia Derwinska




 Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


Herberto Helder
in, «Ou o Poema Contínuo»





                                 






domingo, 4 de setembro de 2022

Tinha Paixão?


Sebastien Del Grosso




Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a
paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega



Herberto Helder
in, Ofício Cantante




sexta-feira, 15 de julho de 2022

O SAPATEIRO









 Costumávamos jogar ali à bola.
A praça da igreja erguia-se
uns dois metros acima de umas pequenas hortas
que estavam ao lado de um sapateiro.
Quando a bola caía, algum dos nossos
tinha de ir rápido dependurando-se.
Se o sapateiro chegava lá antes,
cortava-a com o seu cutelo.
Não sei que pescoço cortava na bola
de borracha daquelas crianças. Dava-me medo.
Um medo que já não era o mesmo
que o dos contos ou do quarto escuro.
Era um medo mais duro. Mais real.
Como quando tu estavas com outro,
ou quando morreu a nossa filha.


Joan Margarit




sexta-feira, 8 de julho de 2022

Soneto ao amigo


Alijeb





 Procure ao largo de alma o lenitivo
para este mal da vida, sem promessa.
O corpo vive alheio a se ter vivo
quando fome maior nos arremessa.

 Temos todos, enfim, um amor cativo
que tudo pode e inflama e tudo cessa
quando liberto em si vê seu motivo
a este amor dê tudo e nada peça.

 Cante em sua voz o rito e os dissabores
do tempo e acontecer mas abstraindo
aspecto transitório e fáceis cores.

 Só amor, enquanto é, nos anistia:
sem ele, seres, coisas, verso vindo;
são refúgios do medo sem poesia.



MARIA ÂNGELA ALVIM
in, Poemas seguidos de Carata a um Cortador de Linho





quarta-feira, 29 de junho de 2022

Escreve

 








Escreve. No teu regaço 
o momento se passou.
Voa num tempo de abraço,
abraço não repousou

e o tempo mora em cansaço. 
- Vê: quem nunca se abdicou
vai num ritmo sempre lasso
onde pressa não vingou.

Escreve, ó imensa fadiga,
tua não querença se expande
nessa vontade inimiga.

Escreve teu verso raso 
e assim, que a morte se mande 
acontecer noutro acaso.


Maria Ângela Alvim
in, Superfície Toda Poesia




 

domingo, 1 de maio de 2022

A VOLTA








Tão só em prosseguir busquei sentido
e o caminho é sem regresso a quem caminha
por nenhum instinto além reconhecido.
Espaço meu ou de loucura, era sozinha.

 Vinha de não sei onde, lar perdido
de mim mesma, ou infância. Vinha
quando apenas vi que recobrara o ido
antigo estar em tal estância, minha.

E tudo que abandonei, o a que deu termo
muda solidão pairando em grito ermo,
largo deserto visto em falso medo,

 tudo que abandonei, faz companhia.
Enquanto, indo, um ocaso brando me assistia
eis que amanheço em mim, volto a ser cedo!


MARIA ÂNGELA ALVIM
in, De Superfície - Toda Poesia





sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

DISCURSO DO MÉTODO






 Em criança, eu já procurava as janelas
para fugir com o olhar.
Desde então, quando entro nalgum sítio,
Fixo onde é a porta e onde deixei o casaco.
Liberdade, para mim, quer dizer fuga.
O mundo está cheio de portas,
como o sexo, afinal, em caso de emergência.
Mas todas se vão fechando, e depressa,
para fugir, ficarão somente aquelas
janelas da infância.
De par em par abertas para saltar.


in, “Misteriosamente Feliz”
Joan Margarit




sábado, 5 de fevereiro de 2022

Não deites fora as cartas de amor



Westend61






 Elas não te abandonarão.
Passará o tempo, apagar-se-á o desejo
— essa flecha de sombra —
e os rostos sensuais, inteligentes, belíssimos
ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho.
Cairão os anos. Cansar-te-ão os livros.
Decairás ainda mais
e perderás até a poesia.
O ruído frio da cidade nos vidros
acabará por ser a tua única música,
e as cartas de amor que tiveres guardado
serão a tua última literatura.



Joan Margarit





domingo, 5 de dezembro de 2021

Chegas tarde ao teu tempo



Kathrin Federer







Chegas tarde ao teu tempo. Palavras duras
que escuto agora como uma derrota.
Mas já não sei de nenhum combate,
nem que tempo era o meu. É uma pena
não se ser ninguém, ter errado
o comboio, ter ficado sem malas,
adormecido no banco, passar ao largo,
e achar-se agora sem roupa limpa,
cansado, num hotel reles de uma só
e má estrela, que deve ser a minha.
Prescindirei de tudo menos do poeta
que fica do desastre. Fingirei ver
que no final de contas errei o século:
isto será Paris e eu Verlaine.


Joan Margarit





domingo, 26 de setembro de 2021

Paz aos Mortos


 Ana Junko





Detestei sempre os arquitectos de infinito:
como é feio fugir quando nos espera a vida!
Nunca tive saudades do futuro
e o passado… o passado vivi-o, que fazer?!
– e não gosto que me ordenem venerá-los
se eu todo não basto a encher este presente.
Não tenho remorsos do passado. O que vivi, vivi.
Tenho, talvez, desprezo
por esta débil haste que raramente soube
merecer os dons da vida,
e se ficava hesitante
na hora de passar da imaginação à vida.

As pazadas de terra cobrindo o que já fui
sabem mal, às vezes; noutros dias
deliro quando lanço à vala um desses seres tristonhos
que outrora fui, sem querer.


Adolfo Casais Monteiro
in, ‘Sempre e Sem Fim’





terça-feira, 17 de agosto de 2021

Tens sangue, tens fôlego.






Tens sangue, tens fôlego.
Você é feita de carne,
e cabelos e olhares,
mesmo você. A terra e as plantas,
o céu de março e a luz
vibram, e a ti se assemelham -
o teu riso e o teu passo
como águas sussurram -
A tua ruga entre os olhos,
como nuvens recolhidas -
E o teu suave corpo,
como um gramado ao sol.

Tens sangue, tens fôlego.
Você vive sobre esta terra.
Conheces os sabores,
as estações, os despertares;
brincaste ao sol,
falaste connosco.
Água cristalina, desabrochar
da primavera, terra,
germinante silêncio,
brincaste, quando menina,
sob um céu diverso,
e tens nos olhos o silêncio
como uma nuvem, que flui
como um peixe das profundezas.
Ora ris e sussurras
sobre este silêncio.
Doce fruto que vives
sob o céu límpido,
que respira e vive
esta nossa estação,
em teu silêncio fechado
está a tua força. Como
uma erva viva no ar,
você estremece e ri,
mas você, você é a terra.
Você é raiz feroz.
Você é a terra que aguarda.




 Cesare Pavese
in, Le Poesie