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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

O Mito de Sísifo






“A partir do momento em que foi descoberto, 
o absurdo é uma paixão, 
a mais lancinante de todas. 
Mas o problema está em saber se 
podemos viver com as nossas paixões, 
se podemos aceitar a sua lei profunda, 
que é a de queimar o coração 
que elas ao mesmo tempo exaltam.”



O Mito de Sísifo é um ensaio filosófico escrito por Albert Camus, em 1941.

No ensaio, Camus introduz a sua filosofia do absurdo: o homem em busca de sentido, unidade e clareza no rosto de um mundo ininteligível, desprovido de Deus e eternidade. 
Mas em que consiste o absurdo? 
Como apresentado aqui pode dizer-se que é a busca do homem pelo sentido da vida. 
Então, cada parte do ensaio é uma abordagem do absurdo na vida. 
O absurdo da vida do homem é comparado com o mito de Sísifo.

Será que a realização do absurdo exige o suicídio?
Camus responde:
"Não. Exige revolta". 

Ele então descreve várias abordagens do absurdo na vida. 
O último capítulo compara o absurdo da vida do homem com a situação de Sísifo, um personagem da mitologia grega que foi condenado a repetir eternamente a tarefa de empurrar uma pedra até ao topo de uma montanha, sendo que, toda vez que estava quase a alcançar o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até ao ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido.

O ensaio é dedicado a Pascal Pia e está organizado em quatro capítulos e um apêndice.


Capítulo 1: Um Absurdo Raciocínio
Camus compromete-se a responder ao que ele considera ser a única causa da filosofia em questão: Será que a realização da plenitude e absurdo da vida exigem suicídio?

Ele começa por descrever a condição absurda: grande parte da nossa vida é construída sobre a esperança do amanhã, do amanhã que nos aproxima da morte, e é o último inimigo; as pessoas vivem como se elas não tivessem a certeza da morte; uma vez despojado do romancismo comum, o mundo é um estranho e desumano lugar; o verdadeiro conhecimento é impossível de ser explicado pela racionalidade da ciência em favor do mundo: suas histórias, em última análise, no sentido de abstrações, se dão em metáforas.
 "Desde que o momento absurdo é reconhecido, ele se torna a mais angustiante de todas as paixões."
Não é o mundo que é absurdo, nem o pensamento humano: o absurdo surge quando os humanos precisam entender a satisfação para irracionalidade do mundo, quando "o meu apetite para o absoluto e da unidade" complementa "a impossibilidade de reduzir o mundo a um princípio racional e razoável".

Ele então caracteriza um certo número de filósofos que descrevem a tentativa de lidar com esse sentimento do absurdo, como Heidegger, Jaspers, Shestov, Kierkegaard e Husserl. Todos estes, ele alega, cometem "suicídio filosófico", atingindo conclusões que contradizem a posição original do absurdo, quer por motivo do abandono ou da transformação de Deus, como no caso de Kierkegaard e Shestov, ou por motivos divinais, e finalmente chegando a onipresença e uma exclusividade divinal, como no caso de Husserl.

Para Camus, que começou a levar a sério o absurdo e segui-lo à suas conclusões finais, estes "ímpetos", não podem convencer. Tomar o absurdo sério, significa reconhecer a contradição entre o desejo da razão humana e do mundo insensato. Suicídio, então, também deve ser rejeitado: sem o homem, o absurdo não pode existir. A contradição deve ser vivida; a razão e seus limites devem ser reconhecidos, sem esperança. No entanto, o absurdo nunca pode ser aceite: ele exige constante confronto, constante revolta.

Embora a questão da liberdade humana no sentido metafísico perca interesse para o homem absurdo, ele ganha liberdade num sentido muito concreto: já não é vinculado pela esperança de um futuro melhor ou eternidade, sem a necessidade de prosseguir o objetivo da vida ou para criar significado, 
"Ele goza de uma liberdade no que se refere às regras comuns".
Abraçar o absurdo implica abraçar tudo de insensato que o mundo tem a oferecer. Sem um sentido na vida, não existe uma escala de valores. "O que conta não é a melhor vida, mas a maioria dos que a vivem."

Assim, Camus chega a três consequências da plena aceitação do absurdo: a revolta, a liberdade, e a paixão. A revolta, no que tange à constatação de que a vida é absurda, sem sentido; a liberdade, haja vista a nossa condição humana (estamos sós e escolhemos) e; a paixão, já que não se vive a vida de outro modo.


Capítulo 2: O Absurdo do Homem
Como deve viver o homem absurdo? 
Claramente, não se aplicam regras éticas, como todas elas são baseadas em poderes sobre justificação. "Integridade não tem necessidade de regras." "Tudo é permitido" não é uma explosão de alívio ou de alegria, mas sim, um amargo reconhecimento de um fato."

Camus, em seguida, passa a apresentar exemplos da vida absurda. 
Ele começa com o Don Juan, o sedutor que vive a vida apaixonado ao máximo. "Não há um nobre amor, mas o que reconhece - tanto os efémeros quanto os duradouros".

O próximo exemplo é o ator, que retrata a vida efémera da fama efémera. "Ele demonstra em que medida o ser interpretado cria". "Nestas três horas ele percorre todo o decorrer do beco sem saída, o que homem da plateia leva uma vida para cobrir".

O terceiro exemplo do absurdo é o homem conquistador, o guerreiro que com todas as promessas de eternidade, afeta o envolver pleno da história humana. Ele escolhe a ação sobre a contemplação, consciente do facto de que nada pode durar e não é vitória final.


Capítulo 3: Criação do Absurdo
Aqui Camus explora o absurdo criador ou do artista. Uma vez que a explicação é impossível, o absurdo da arte é restrito a uma descrição das inúmeras experiências no mundo. "Se o mundo fosse claro, a arte não existiria." A absurda criação, naturalmente, tem também de abster-se de julgar e de aludir ao mesmo tempo a menor sombra de esperança.

Ele então analisa o trabalho de Fiódor Dostoiévski nesta perspectiva, especialmente O Diário de um Escritor, O idiota e Os Irmãos Karamazov. Todas essas obras começam a partir da posição absurda, e os dois primeiros, a explorar o tema do suicídio filosófico. Mas tanto em O Diário de um Escritor, seu último romance, como em Os Irmãos Karamazov, encontram-se um caminho de esperança e fé e, portanto, não como criações verdadeiramente absurdas.


Capítulo 4: O Mito de Sísifo
No último capítulo, Camus esboça o mito de Sísifo, que desafiou os deuses: quando capturado sofreu uma punição: para toda a eternidade, ele teria de empurrar uma pedra de uma montanha até ao topo; a pedra então rolaria para baixo e ele novamente teria que começar tudo. Camus vê em Sísifo o ser que vive a vida ao máximo, odeia a morte e é condenado a uma tarefa sem sentido, como o herói absurdo. Não obstante reconheça a falta de sentido, Sísifo continua a executar a sua tarefa diária.

Camus apresenta o mito para mostrar uma metáfora sobre a vida moderna, como trabalhadores em empregos fúteis em fábricas e escritórios. 
"O operário de hoje trabalha todos os dias da sua vida, fazendo as mesmas tarefas. Esse destino não é menos absurdo, mas só é trágico nos raros momentos em ele se torna consciente".
A loucura humana! 
Gente a tentar viver de uma forma totalmente equivocada, onde o fundamento não se realiza ou se aproxima. A vida precisa ser vivida com coerência e poesia. Sem medo, sem privações absurdas, de maneira suave e simples. A vida é assim: precisamos apenas simplificar.  
Na verdade, nós humanos, continuamos a rolar pedra monte acima, à revelia de qualquer processo lógico.


NA MITOLOGIA GREGA
Sísifo era um pastor de ovelhas e filho de Éolo, o deus dos ventos, e Enarete. 
Era tido como a pessoa mais ardilosa que já existiu. O mais astuto dos mortais.
Morava num povoado chamado Éfira e, ao melhorar as condições do lugar, passou a chamá-lo de Corinto, que mais tarde se tornou uma grande cidade. 
Casou-se com Mérope, filha do deus Atlas e que compõe uma das plêiades.
Um dia, Sísifo percebeu que seu rebanho diminuíra. 
Estava a ser roubado. 
Então, marcou as suas ovelhas, seguiu-lhes o rasto e foi dar na casa de Autólico. 
Arrolou testemunhas da ladroagem, e enquanto os vizinhos discutiam sobre o roubo, rodeou a casa em busca de mais alguma ovelha e encontrou a filha do ladrão, Anticleia. 
Seduziu-a e engravidou-a, vingando-se do malfeitor.
Ao voltar para casa, Sísifo, que andava sempre escondido, presenciou Zeus, o Deus do Olimpo, a raptar Egina, filha de Ásopo. Aproveitando-se do facto, Sísifo, em troca da construção de um poço para a sua cidade, entregou o deus sedutor a Ásopo. Claro que Zeus ficou a saber que Sísifo o tinha denunciado, e mandou Tânato - a Morte - que o levasse para o mundo subterrâneo onde viviam as almas condenadas. Ao encontrar-se com a morte, Sísifo a presenteia com um colar e elogia sua beleza. O colar na verdade era uma coleira e, assim, ele aprisiona Tânato.
Pressentindo a fúria de Zeus, Sísifo pede à sua esposa Mérope, que não o enterrasse após a sua morte, antes de ser levado para Hades, o Deus da Morte.
Quado encontra Hades persuade-o a deixá-lo voltar e organizar o seu funeral, além de punir os que negligenciaram o seu enterro. Ele concede-lhe a volta por apenas três dias. Mas, quando voltou à superfície, ele passa a viver normalmente com a sua esposa, como se nada tivesse acontecido. e assim enganou a Morte pela segunda vez.
Vendo aquele absurdo, pois ninguém deveria enganar a morte, Hades libertou Tânato e ordenou que o conduzisse novamente a Hades e que lá recebesse um castigo exemplar. Deveria rolar uma enorme pedra monte acima, até ao topo. Porém, chegando lá, o esforço despendido o deixaria tão cansado que a pedra se soltaria e rolaria monte abaixo. No dia seguinte, o processo se iniciaria novamente, e assim pela eternidade, como forma de envergonhá-lo pela sua esperteza em querer enganar os deuses e a morte.
Quando Sífiso finalmente morreu, foi de velhice.
Zeus e Hades consideraram Sífiso um revoltado e a sentença foi uma eternidade de punição.

"Os deuses condenaram Sísifo a rolar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso. Pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança."
 – Camus, O Mito de Sísifo, p.137
Camus escolhe Sísifo pela sua audácia em enfrentar a morte, pela revolta consciente que fez de sua vida uma criação autêntica, digna de se estar presente. A astúcia de Sísifo é a de negar os deuses e aceitar seu destino. A liberdade de Sísifo é sua escolha em encarar o absurdo sem nostalgia, salto ou apelo. A grandeza de Sísifo é sua intenção de esgotamento, seu desejo de ir até o fundo da existência conhecendo todos os riscos. É a própria negação da morte personificada na revolta que interessa Camus.

"Sísifo é o herói absurdo. Tanto por causa de suas paixões como por seu tormento. Seu desprezo pelos deuses, seu ódio à morte e sua paixão pela vida lhe valeram esse suplício indizível no qual todo ser se empenha em não terminar coisa alguma. É o preço que se paga pelas paixões dessa terra."
Camus, O Mito de Sísifo, p.138

Os mitos dos mortais são os que mais interessam. A finitude como condição básica da vida e a impossibilidade de tornar-se deus, nos colocam num mesmo plano que esses homens. Essas histórias são alegorias de nossa própria condição. Muito mais do que os conflitos no Olimpo, a morada dos deuses. Essa condição, marcada pelo absurdo, é o plano de toda a filosofia de Camus. A necessidade da morte e a impossibilidade de ter um conhecimento verdadeiro nos arremessam ao mundo como a um imenso rochedo. Ao punir Sísifo, os deuses na verdade só intensificaram a sua condição, esquecendo-se que ele, o revoltado, estava já bem acostumado ao absurdo.

"Só vemos todo o esforço de um corpo tenso ao erguer a pedra enorme, empurrá-la e ajudá-la a subir uma ladeira cem vezes recomeçada; vemos o rosto crispado, a bochecha colada contra a pedra, o socorro de um ombro que recebe a massa coberta de argila, um pé que a retém, a tensão dos braços, a segurança totalmente humana de duas mãos cheias de terra. Ao final desse prolongado esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, a meta é atingida. Sísifo contempla então a pedra despencando em alguns instantes até esse mundo inferior de onde ele terá que tornar a subi-la até os picos. E volta a planície"
 – Camus, O Mito de Sísifo, p.138

Temos então uma eternidade num ciclo dividido em alguns momentos.
O primeiro momento, fazer a pedra subir, vê-la cair, descer e tornar a subi-la. São bastante diferentes. Ao subir, Sísifo é tal qual a pedra, seu rosto confunde-se com a rocha, seus pensamentos são minerais, seus desejos são puro instinto. Por acaso essa mecânica nos espanta? Que fazemos na nossa vida senão subir pedregulhos quotidianamente? Somos todos um pouco minerais, hoje talvez um pouco feitos de silício. Estamos imersos em processos automáticos onde mal sobra tempo para pensar, tampouco viver. Queiramos nós ter a força de Sísifo ao carregar a sua pedra, não podemos nos desvencilhar delas!

"Esse mito só é trágico porque o seu herói é consciente. O que seria a sua pena se a esperança de triunfar o sustentasse a cada passo? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição: pensa nela durante a descida. A clarividência que deveria ser o seu tormento consuma, ao mesmo tempo, a sua vitória. Não há destino que não possa ser superado com o desprezo."
Camus, O Mito de Sísifo, p.139

O segundo momento, ver a pedra rolar montanha abaixo, dinâmica, necessidade, movimento. Não é possível criar nada sem esse eterno rolar de pedras. Existe uma cota de sacrifício em toda a construção. A crueldade consigo é vital para as grandes almas. Perceber o caos na sua capacidade infinita de desmontar e também reconhecer que somos filhos dele. A consciência dessa desmesura entre nós e o mundo é fundamental. Coragem é precisamente o que existe para além de tudo isso, seguir apostar na vida apesar das hipóteses.

O último momento é o auge. Sísifo desce a montanha, sente o vento bater no seu rosto, o sol já próximo do horizonte preenche a ilha deserta de tons alaranjados. A pedra parece tão pequena de longe. Cada descida é a experimentação de uma nova maneira de sentir. Descer a montanha é ter um bom encontro com as forças da gravidade, é ser um pouco de vento. A boa disposição de si mesmo faz de Sísifo um criador. Ele já não é pedra.

"Toda a alegria silenciosa de Sísifo consiste nisso. Seu destino lhe pertence. A rocha é sua casa. Da mesma forma, o homem absurdo manda todos os ídolos se calarem quando contempla o seu tormento. No universo que repentinamente recuperou o silêncio, erguem-se milhares de vozes maravilhadas da terra."
Camus, O Mito de Sísifo, p.140

A filosofia trágica encontra a estética e uma ética solar surge. O absurdo abre a possibilidade de criação. A revolta dá a sua porção de sentido. A eternidade nada mais é do que um destino certo. A liberdade é uma condenação à presença. A criação é a atualização das forças em mais capacidade de existir e afirmar.

"Deixo Sísifo na base da montanha! As pessoas sempre reencontram seu fardo. Mas Sísifo ensina a felicidade superior que nega os deuses e ergue as rochas. Também ele acha que está tudo bem. Este universo, doravante sem dono, não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo. A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz."
Camus, O Mito de Sísifo, p.141


Este mito narra o esforço inútil de uma pessoa, seu árduo e rotineiro trabalho, que nunca será concluído. Também fala do desejo humano de ser eterno, como os deuses, vencendo a morte.
  • Quantas pessoas estão a rolar pedra monte acima? 
  • Quantas insistem num caso que nunca terá solução? 
  • Ou teimando em mudar outra pessoa para se satisfazer? 
  • Exercendo uma função rotineira e vazia? 
  • Quantas se acham num martírio sem fim? A maioria? 
  • Quantas vivem sob o domínio das ideologias sem questioná-las? 
  • Quanto dinheiro é gasto no inútil esforço de parar o tempo e se tornar jovem para sempre?


Até aqui tudo parece ser absurdo, pois quando se tenta reduzir a impossibilidade do mundo a um princípio racional e razoável, nada faz sentido. Mas, levar a sério até o que é absurdo, é reconhecer a contradição entre o desejo da razão humana e da insensatez do mundo. 
Sem o homem, não há absurdo. 
Então, por que viver uma vida vã e inútil? 
Ora, o que conta não é a melhor vida, mas como se deve vivê-la. 
Daí a liberdade. 
Todavia, para a maioria, ela também é um absurdo e libertar-se é preciso.








SÍSIFO SIN EMBARGO


Es triste que el destino de un hombre sea Sísifo,

que hayamos de llevar sobre los hombros

la misma piedra siempre, que parece

ya nuestro pensamiento, y tropecemos

en ella tantas veces como vidas

quisiéramos tener y sin embargo.



Es triste trepar riscos cargados de razón

y dejarla caer al alcanzar la cumbre

para después volver al mismo error

un día y otro, como el alma al vicio,

condenados a ser, sedientos, quienes somos:

quienes quisimos ser y sin embargo.



Es triste repetirse como la misma historia,

dar vueltas a la noria, día y noche,

moliendo una manera de ser y de mirar

que te lleva a sufrir y a hacer sufrir.

Llevo mi piedra en mí, mi pensamiento,

y dentro yo, esperando ser tallado,

esculpido, salvado y sin embargo.



Juan Vicente Piqueras
in, Adverbios de lugar








terça-feira, 25 de setembro de 2018

Envelhecer é passar da paixão para a compaixão.







Envelhecer é o único meio de viver muito tempo.
A idade madura é aquela na qual ainda se é jovem, porém com muito mais esforço.
O que mais me atormenta em relação às tolices de minha juventude, não é tê-las cometido…é sim não poder voltar a cometê-las.
Envelhecer é passar da paixão para a compaixão.
Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo tentando ficar nos quarenta.
Aos vinte anos reina o desejo, aos trinta reina a razão, aos quarenta o juízo.
O que não é belo aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta, nem sábio aos cinquenta, nunca será nem belo, nem forte, nem rico, nem sábio…
Quando se passa dos sessenta, são poucas as coisas que nos parecem absurdas.
Os jovens pensam que os velhos são palermas; os velhos sabem que os jovens o são.
A maturidade do homem é voltar a encontrar a serenidade como aquela que se usufruía quando se era menino.
Nada passa mais depressa que os anos.
Quando era jovem dizia:
“verás quando tiver cinquenta anos”.
Tenho cinquenta anos e não estou vendo nada.
Nos olhos dos jovens arde a chama, nos olhos dos velhos brilha a luz.
A iniciativa da juventude vale tanto a experiência dos velhos.
Sempre há um menino em todos os homens.
A cada idade lhe cai bem uma conduta diferente.
Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós.
Feliz é quem foi jovem em sua juventude e feliz é quem foi sábio em sua velhice.
Todos desejamos chegar à velhice e todos negamos que tenhamos chegado.
Não entendo isso dos anos: que, todavia, é bom vivê-los, mas não tê-los.


Albert Camus





quarta-feira, 20 de junho de 2018

O ESTRANGEIRO





Reli este livro hoje... 95 páginas que se lêem de uma penada.

No prólogo da edição que li de "O Estrangeiro", Camus diz o seguinte acerca da sua obra:

"Há muito tempo atrás, eu defini “O Estrangeiro” numa frase que eu mesmo reconheço ser extremamente paradoxal: “Na nossa sociedade, todos os homens que não choram no enterro da sua mãe correm o risco de serem condenados à morte”. Eu apenas queria dizer que o ‘herói’ do livro é condenado porque não segue as regras do jogo. Nesse sentido, ele é um ”marginal” (outsider) para a sociedade em que ele vive,um estrangeiro na sua própria sociedade, vagueia de forma marginal nos subúrbios da vida privada, solitária e sensual.
Por esta razão, alguns leitores consideraram-no como um ”excluído”, um inútil. Mas para alcançar uma descrição mais acurada de seu caráter, ou melhor, uma descrição mais próxima das intenções de seu autor, é preciso perguntar de que maneira Mersualt não segue as regras do jogo.
A resposta é simples: ele recusa-se a mentir.
Mentir não é apenas dizer o que não é verdade. É também e, especialmente, dizer mais do que aquilo que é verdade e, no caso dos sentimentos humanos, dizer mais do que se sente. Todos fazemos isso, todos os dias, para simplificar a nossa vida. Meursault, contra as aparências, não quer simplificar a sua vida.
Diz o que pensa, recusa-se a esconder os seus sentimentos, e ao fazê-lo a sociedade sente-se ameaçada.
Por exemplo, espera-se que ele reconheça o seu arrependimento por ter cometido o crime, de acordo com os parâmetros da sociedade. Ele responde que sente mais aborrecimento do que arrependimento. É essa nuance que o condena.
Para mim Meursault não é um ‘inútil’, mas sim um homem pobre e nu, apaixonado por um sol que não projecta sombra. Longe de ser insensível, o que o move é uma paixão profunda e tenaz, a paixão do absoluto e a verdade, uma verdade negativa, a verdade de ser e de sentir, mas sem a qual nunca poderá levar a cabo nenhuma conquista sobre si..
Assim, não é exagero dizer que “O Estrangeiro” é a história de um homem que, sem nenhuma pretensão heróica, aceita morrer pela verdade." 

O narrador-personagem, a personagem principal, Sr. Meursault, uma figura absurdista, que mostra a crise do homem do seu tempo: um homem sem projeto pré-dado, sem destino e, principalmente, sem sentido algum na sua existência. Mata um árabe por impulso. Meursault é o anti-herói que assassina um homem "por causa do sol" e sobe ao cadafalso afirmando que "fora feliz e que o era ainda". 


Escrito em 1940 e publicado em 1942 numa época sombria de guerra, "O Estrangeiro" narra com incrível capacidade o que de mais trágico existe na condição humana: o absurdo, o limite entre aspirações e realidade.
Joga-se o destino de um homem perante o absurdo, e questiona-se o sentido da existência.

Um homem aparentemente normal e com uma vida vulgar na Argélia de meados do século XX, Mersault, recebe a morte da mãe sem sentir qualquer abalo, mostrando-se indiferente à cerimónia de vigília e enterro, e logo no dia seguinte diverte-se com uma nova amante sem sentir qualquer remorso. Frequentador dos pequenos prazeres da vida, vivendo uma felicidade morna no seu quotidiano que muito aprecia, abstinente dos grandes compromissos e das grandes ambições, o que estranha quer a sua amante - que numa proposta de casamento Mersault lhe responde que «tanto faz» - quer o seu patrão - que numa proposta de promoção para uma colocação em Paris Mersault igualmente lhe responde que «tanto faz» - enreda-se sem querer num conflito entre um amigo recente seu vizinho e uns árabes, e, num momento infeliz em que se encontra extremamente perturbado por um grande sol e calor mas sem estar movido por nenhuma animosidade sentimental em especial, mata um deles.

“Por causa deste queimar, que já não conseguia suportar, fiz um movimento para a frente. Sabia que era estupidez, que não me livraria do sol se desse um passo. Mas dei um passo, um só passo à frente. E desta vez, sem se levantar, o árabe tirou a faca, que ele me exibiu ao sol” “Foi então que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando chover fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver. O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, no barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça”

Nas conversas com o advogado e o juiz de instrução, e no julgamento que se segue, Mersault deixa todos exasperados pelo facto de não assumir qualquer sentimento de culpa ou remorso perante os seus actos «imorais», com maior ênfase no episódio do enterro da mãe que no próprio assassínio pelo qual é julgado, e pela heresia do não reconhecimento de Deus como salvador da sua alma.
A suprema indiferença pelos supostos elevados «valores» humanos e sociais, a coberto de uma inocência velada que se sente na personagem, expurgada e livre dos antanhos responsáveis pela vida angustiada da maioria da Humanidade (temente ao Homem e à divindade, mas castigada sempre em primeiro lugar pelo Homem) revela em Mersault um homem absurdo, um estrangeiro no seu próprio meio, que sensível ao presente e ao dia a dia desfrutando-o o melhor possível, inconscientemente mas lucidamente não consegue aderir às normas de convívio em sociedade conquanto absurdas lhe parecem, absurdo ele próprio considerado pela mesma, e, por essa razão, condenado sem apelo nem agravo.
Durante o processo muitos pormenores de sua vida vão adquirindo relevância extrema, como o facto de ter fumado no enterro da mãe e ter bebido café com leite com o porteiro. É tachado como insensível, um homem sem alma, considerado um forasteiro quanto aos ditames da sociedade.
O seu advogado pouco pode fazer e Mersault recebe sentença de morte.

O protagonista da obra, Mersault, vive em permanente indiferença a todos os valores morais.
É o homem que não aceita as regras do jogo. Mas também está disposto a ir até o fim defendendo a única verdade na qual acredita. Mersault nasceu para desmascarar o cinismo e o vazio por trás da sociedade como um todo e do indivíduo como elemento principal. O homem é um nada, abandona aqueles que ama e também é abandonado. O homem é impotente perante as desgraças que presencia, e por isso mesmo finge não as ver. O Estrangeiro está ali justamente para dissecar aquilo que está errado e nos abrir os olhos para a estupidez de nossa falsas regras morais.

Cada frase dele nos soará como absurda, desprovida de qualquer contato com a razão ou com o sentimento. “Tanto faz” é uma das expressões mais usadas por Meursault. Porém, quanto mais se indaga sobre a sua sanidade, mais se fascina com a ideia por ele pregada. Tudo é permitido, pois todos nós morreremos e os valores todos se desmoronarão. Para Mersault, não é preciso justificar nada, por isso ele não explica, apenas descreve. Seu silêncio reforça o mistério que seu ser emana. Se ele não tem o que dizer, simplesmente não se obriga a falar. Por isso é desesperadamente verdadeiro, sem jamais pisar no território das mentiras.
A revolta do personagem é uma revolta que apaixona. O seu espírito rebelde se iguala a uma espada, com a qual ele defende como um guerreiro as poucos certezas da sua vida pelas quais ainda vale à pena lutar ou morrer.

 “Como se deveria interpretar aquela personagem que, um dia depois da morte de sua mãe, tomava banhos, iniciava uma ligação irregular e ia rir-se diante de um filme cómico”, e matava um árabe “por causa do sol. (...) O absurdo fundamental manifesta antes de tudo um divórcio: o divórcio entre a preocupação que é a sua própria essência e a inutilidade dos seus esforços.”
Jean – Paul Sartre


O que é então o absurdo como estado de facto, como dado original segundo Camus? 
Nada menos do que a relação do homem com o mundo.
O absurdo fundamental manifesta, antes de tudo, um divórcio: o divórcio entre as aspirações do homem à unidade e o dualismo intransponível do espírito e da natureza, entre o impulso do homem em direcção ao eterno e o carácter finito da sua existência, entre a «preocupação» que é a sua própria essência e a inutilidade dos seus esforços. A morte, o pluralismo irredutível das verdades e dos seres, a ininteligibilidade do real, o acaso, eis os pólos do absurdo.

Camus afastou-se do Existencialismo, e seguiu o lado mais radical com a Teoria do Absurdo.
Essa teoria diz que o absurdo é o ato de existir, pois a vida é desprovida de projeto prévio, desprovida de sentido e desprovida de finalidade, isto é, o homem é aquele que está diante do nada e tenta encontrar algum sentido para viver. Dessa forma a sua existência é uma busca de sentido contínua. Dentro disso, gera-se uma categoria fundamental – a angústia -, que, inevitavelmente vai remeter no seguinte dilema: ou deus ou nada. Isto é, ou deus existe e é o fim último da existência humana ou a existência humana não tem sentido nenhum. Sendo assim, deus seria a busca visceral por um sentido.

Para Camus, a angústia nasce desse absurdo, lugar de eterno retorno da condição humana. 
Dessa forma, chega-se à pergunta mais importante para o homem, segundo o escritor francês, a chamada questão do suicídio: a vida vale a pena ou não ser vivida? 
Sartre soluciona essa dúvida com a posição do comprometimento, isto é, a resposta do existencialismo para isso é um comprometimento com a existência.
Já Camus nega, inclusive, esse comprometimento.



"Sentou-se na cama e explicou-me que tinham andado a investigar a minha vida privada. Tinham descoberto que a minha mãe morrera recentemente no asilo. Procedera-se então a um inquérito em Marengo. Os investigadores tinham sabido que eu «dera provas de insensibilidade» no dia do enterro. «Veja se compreende», disse o advogado, «custa-me um bocado perguntar-lhe isto. Mas é muito importante. E será um grande argumento para a acusação, se eu não conseguir dar resposta». Queria que eu o ajudasse. Perguntou-me se eu, nesse dia, tinha tido pena da minha mãe. Esta pergunta muito me espantou, e parecia-me que não era capaz de a fazer a alguém. Não obstante, respondi que perdera um pouco o hábito de me interrogar a mim mesmo, e que era difícil dar-lhe uma resposta. É claro que gostava da minha mãe, mas isso não queria dizer nada. Todos os seres saudáveis tinham, em certas ocasiões, desejado, mais ou menos, a morte das pessoas que amavam. Aqui, o advogado cortou-me a palavra e mostrou-se muito agitado. Obrigou-me a prometer que não diria isto na audiência, nem ao juiz de instrução. Expliquei-lhe, no entanto, que a minha natureza era feita de tal modo que as minhas necessidades físicas perturbavam frequentemente os meus sentimentos. No dia do enterro, estava muito cansado e com muito sono, de forma que não dei lá muito bem pelo que se passou. O que podia afirmar, com toda a certeza, era que preferia que a mãe não tivesse morrido. Mas o advogado não ficou contente. Disse: «Isso não chega»."


No final do livro Camus escreve:

“Afinal existia uma ridícula desproporção entre o julgamento que a fundamentara e o seu imperturbável desenrolar a partir do instante em que este julgamento fora pronunciado. O fato de a sentença ter sido lida não às cinco da tarde, mas às oito horas da noite, o fato de que poderia ter sido outra, completamente diferente, de que fora determinada por homens que trocam de roupa e que fora dada em nome de uma noção tão imprecisas quanto o povo francês (ou alemão ou chinês), tudo isto me parecia tirar muito da seriedade desta decisão. Era obrigado a reconhecer, no entanto, que a partir do instante em que fora tomada os seus efeitos se tornavam tão certos, tão sérios...” 

Este trecho refere-se ao resultado do julgamento de Meursault com a sua condenação à morte na guilhotina, e mostra a fragilidade da consistência daquilo que define a condenação de alguém.
O homem envolvido no absurdo da ausência de sentido de sua vida, julga outro homem tão imerso ao nada quanto ele. Meursault define a sua sentença a uma sucessão de acasos que desencadeia um resultado extremamente sério.
Diante do extremo da sua vida e diante de uma vida pautada no absurdo, ou se aceita um deus como o fim último de sua existência, ou aceita-se a condição absurda de existir.

A sua vida de indiferenças mostrou-se agressiva para um mundo hipocrita e repleto de máscaras sociais. Quase patologicamente vazio, Meursault revela-nos a crise do homem do seu tempo: um homem sem projeto pré-definido, sem destino, e, principalmente, sem sentido.

E o livro acaba assim:
"Subiam até mim ruídos campesinos. Aromas de noite, de terra e de sol refrescavam-me as têmporas. A paz maravilhosa deste Verão adormecido entrava em mim, como uma maré. Neste momento, e no limite da noite, soaram apitos. Anunciavam possivelmente partidas para um mundo que me era para sempre indiferente. Pela primeira vez, há muito tempo, pensei na minha mãe. Julguei ter compreendido porque é que, no fim de uma vida, arranjara um "noivo", porque é que fingira recomeçar. Também lá, em redor desse asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto da morte, a minha mãe deve ter-se sentido liberta e pronta a tudo reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar sobre ela. Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me, pela primeira vez, à terna indiferença do Mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e ainda o era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução, e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio."





terça-feira, 3 de abril de 2018

A Peste





Albert Camus (1913-1960), jornalista, escritor, filósofo e Prémio Nobel da Literatura em 1957, é considerado como um dos grandes nomes da arte de escrever do século XX.

O Livro, "A Peste", foi publicado em Junho de 1947, e foi escrito durante a Segunda Guerra Mundial.
Na história de Camus, a epidemia assola Orão, como a ocupação nazista assolara a França, submetendo os habitantes a um inevitável e generalizado horror.

Albert Camus escolhe a cidade de Orão, confinada entre o mar e as suas portas fechadas, para simbolizar a ocupação nazista na França.
A população contaminada, é obrigada pelos seus dirigentes a aguardarem, pacientemente, o fim do processo dominador. Uma espécie de atitude de inferioridade que o ser humano assume quando se depara com determinadas situações. A cidade que serve de palco para a história é finita, apesar do horizonte marítimo. Seus limites físicos servem para simbolizar a impotência em relação ao poder armado da Alemanha na Segunda Guerra Mundial.
A peste bubónica ataca a cidade e mata, diariamente, um número razoável de cidadãos, como refere o autor, tempo em que os vivos, sem saber quando serão escolhidos pela peste, aguardam pacientemente e ordeiramente o destino, restando-lhes, apenas, a prática da solidariedade. O relato simbólico da peste foca as relações pessoais, a amizade não declarada, a prática do bem, o questionamento de valores religiosos, a família, o sofrimento taciturno e introvertido, a separação amorosa e os privilégios das classes sociais mais poderosas.
A peste atacou bons e maus, adultos e crianças, religiosos e ateus.
Não se sabia o antídoto da defesa, por isso, submeteram-se à imposição. O remédio veio com o tempo. O soro da liberdade foi anunciado com veemência e recebido pela população com alegria e festejo.

O livro mostra a mudança de valores quando o ser humano é submetido a situações de impotência. O que parece importante deixa de ser e o coletivo passa a tomar corpo em detrimento do individual. Os pecadores são aceites e os santos renegados.
A Peste conduz o leitor a experimentar situações que lembram factos políticos ocorridos no mundo, não só, na simbologia da Segunda Guerra Mundial, mas, também, nos Estados Autoritários vividos na Europa, na Ásia, e nas Américas. A analogia entre a impotência humana sob a epidemia e a exclusão da liberdade é a trama escolhida para despertar as agruras da humanidade. O autor exige uma moral simultânea de conhecimento da necessidade e o exercício de poder.

O autor chegou a afirmar que a sua obra é uma alegoria ao nazismo e, por extensão, a todo o regime totalitário, admitindo na “Carta de Albert Camus a Roland Barthes” que o conteúdo evidente era a resistência europeia a Hitler.

Podem ler essa carta  AQUI


Albert Camus ter-se-à inspirado na epidemia de cólera que dizimou, em 1849, uma elevada percentagem da população de Orão, a segunda maior cidade da Argélia.


O livro é dividido em cinco partes, cada uma das quais trata sobre um período diferente da epidemia de peste que tomou conta de Orão, o porto do norte da Argélia onde a história se passa.
A Parte 1 descreve Orão como era antes da peste e logo depois que a doença se instala. Numa manhã comum, Bernard Rieux, o médico da cidade, vê um rato morto no corredor do seu edifício; depois disso, nada mais é normal na vida dos habitantes da cidade. Milhares de ratos da cidade morrem, depois cães e gatos, e finalmente a doença começa a infectar as pessoas. Jean Tarrou, um visitante retido em Orão, mantém um diário sobre o efeito da peste no povo de Orão, incluindo histórias sobre personagens como Joseph Grand, um operário insignificante, e Cottard, um homem que misteriosamente se mostra feliz com a propagação da peste. O povo de Orão é forçado a concluir que o seu aborrecido quotidiano pode nunca mais ser o mesmo. Os portões da cidade são trancados, e Orão é agora uma prisão, de onde ninguém pode entrar ou sair.

A Parte 2 do livro conta o que acontece quando a peste se torna a preocupação de todos na cidade. São mostradas as lutas das pessoas contra a peste e o sofrimento e a separação que elas são obrigadas a enfrentar. Surgem personagens como Raymond Rambert, que inicia negociações com contrabandistas, tentando imaginar maneiras de escapar da cidade e encontrar novamente os seus entes queridos. O vigário da cidade, Padre Paneloux, prega um duro sermão na igreja, onde ele afirma que Deus mandou a doença sobre o povo de Orão como um castigo pelos seus pecados. Tarrou forma equipas sanitárias na cidade, e muitas pessoas, inclusive Grand e Rambert, se apresentam como voluntários para ajudar no combate à doença.

Na Parte 3, é mostrado o pior período da doença. Durante os quentes meses de verão, a peste mata tantas pessoas que não há mais espaço para enterrá-las. O crematório da cidade queima corpos no limite da sua capacidade e todos na cidade sofrem terrivelmente com a dor e o abandono.

Na Parte 4, é dada mais atenção às emoções de alguns dos principais personagens. Cottard estranhamente ainda se sente feliz com a chegada da peste. Os planos de fuga de Rambert estão prestes a se realizar, mas o jornalista muda de ideias no último momento e decide permanecer em Orão para combater a doença. Muitos dos personagens principais, incluindo Dr. Rieux, Joseph Grand, Jean Tarrou e o padre Paneloux, são afetados profundamente quando eles testemunham a morte de uma criança pequena, filho do juíz. Depois dessa experiência, Paneloux dá um segundo sermão, onde mostra muito mais simpatia e compaixão pelo povo sofrido de Orão, mas continua a pedir uma fé cega em Deus. Uma noite, Tarrou explica ao Dr. Rieux a sua filosofia de vida, centrada numa veemente oposição à pena de morte. Grand cai doente e parece certo que irá morrer da peste, mas consegue uma repentina e milagrosa recuperação. A mesma "ressurreição" acontece a uma mulher na cidade, e pouco depois, os ratos começam a reaparecer nas ruas da cidade.

Na última Parte, a peste desaparece tão repentinamente quanto tinha surgido. Depois de uma anúncio público que a epidemia parece ter terminado, é dada uma grande festa nas ruas. Os portões são abertos, e as famílias e amantes são reunidos, inclusive Rambert e a sua esposa. Cottard, quando vê que a peste se foi, deixando-o solitário com o seu sofrimento como antes, tem um acesso de fúria e começa a disparar tiros sobre a população, acabando por ser preso e arrastado pelas ruas pela polícia. Neste ponto, o Dr. Rieux revela que ele é o narrador da história. Embora ele tenha sofrido muito, ao longo de toda a epidemia que acabou com a morte do seu amigo Tarrou em sua casa, e agora tenha descoberto que a sua esposa também está morta, ele diz que espera reescrever o livro sem se colocar no papel principal. Ele deseja contar a história do ponto de vista das vítimas, compartilhando com elas os sentimentos de amor, abandono e sofrimento que todos sentiram durante o tempo da peste.
O livro termina com a sombria observação que, embora o bacilo da peste possa se esconder por anos a fio, ele nunca morre nem desaparece de todo.

" Com efeito, ao ouvir os gritos de alegria que subiam da cidade, Rieux lembrava-se de que esta alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que esta multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e na papelada. E sabia também que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz"

Assim acaba o livro...



Em A Peste, Orão é uma cidade próspera do litoral argelino, construída de costas voltadas para o mar, cujos habitantes vivem para trabalhar e acumular riqueza, vivendo de rotinas e sem qualquer sobressalto que os faça questionar a vida que levam. Orão é uma cidade moderna onde as relações humanas são relegadas para segundo plano, sobrevivendo no hábito e na tranquilidade das coisas dadas como certas.
 "Em Orão, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, é-se obrigado a amar sem o saber." 
Os negócios são demasiado importantes e o divertimento tem dia e hora marcada.
Albert Camus descreve os habitantes de Orão como indiferentes e desligados uns dos outros, mesmo durante a epidemia. Um retrato bastante fiel do que vivemos nos dias de hoje.

“Os flagelos, com efeito são uma coisa comum, mas acredita-se dificilmente neles quando nos caem sobre a cabeça. Houve no mundo tantas pestes como guerras. E, contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. “ (…) Quando rebenta uma guerra, as pessoas dizem: “Não pode durar muito, seria estúpido.”. E, sem dúvida, uma guerra é muito estúpida, mas isso não a impede de durar. A estupidez insiste sempre e compreendê-la-íamos se não pensássemos sempre em nós. Os nossos concidadãos, a esse respeito, eram como toda a gente: pensavam em si próprios. Por outra palavras, eram humanistas: não acreditavam nos flagelos. O flagelo não está à medida do Homem; diz-se que o flagelo é irreal, que é um mau sonho que vai passar. Ele, porém, não passa, e de mau sonho em mau sonho, são os homens que passam e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as suas precauções. Os nossos concidadãos não eram mais culpados do que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo era ainda possível para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste, que suprime o futuro, as viagens e as discussões? Julgavam-se livres e nunca alguém será livre enquanto existirem os flagelos.” 

A Peste permite a reflexão, por exemplo, sobre como a iminência da morte relembra ao homem a sua finitude e o faz agarrar com todas as forças a vida, que teme perder a qualquer momento. A dor, o medo e a solidão gerados pela doença podem resgatar sentimentos até então anestesiados pelo quotidiano, como solidariedade, amor e compaixão. Em outros termos, A Peste mostra que a perspectiva da morte modifica a postura do homem perante o mundo e a si próprio, redefinindo valores e crenças e gerando perdas e ganhos, como o resgate da essência das relações humanas.
A Peste é um livro que faz uma reflexão muito interessante sobre a morte e a vida, sobre as fragilidades humanas, e sobre a forma como lidamos uns com os outros, em sociedade.

“Mas o narrador é mais tentado a acreditar que, dando demasiada importância às belas acções, presta-se finalmente uma homenagem indirecta e poderosa ao mal, pois deixaria então supor que estas belas acções só valem tanto por serem raras, e que a maldade e a indiferença são forças motrizes bem mais frequentes nas acções dos homens. Essa é uma ideia de que o narrador não compartilha. O mal que existe no mundo vem sempre da ignorância, e a boa vontade, se não for esclarecida, pode fazer tantos estragos como a maldade. Os homens são mais bons que maus, e, na verdade, a questão não está aí. Mas ignoram mais ou menos, e é a isso que se chama virtude ou vício, sendo o vício mais desesperado o da ignorância, que julga saber tudo e se autoriza então a matar. A alma do assassino é cega e não há verdadeira bondade nem belo amor sem toda a clarividência possível.”

A morte tinha-se instalado em Orão, separando famílias, amantes e amigos. Quando se viram isolados, sem poderem comunicar com o exterior, todos perceberam a importância que essas pessoas tinham nas suas vidas. Casamentos que se mantinham apenas pelo hábito ganharam nova vida e os amantes separados pelas portas da cidade reavivavam o sentimento devido à separação. Com o passar dos meses a dor da separação foi, para muitos a única razão para se manterem sãos, mesmo que para o fim já nem os rostos das pessoas amadas conseguissem recordar com clareza.

A peste, uma zoonose causada pela bactéria Yersinia pestis, é transmitida ao ser humano pelas pulgas dos ratos-pretos. A bactéria entra através de invisíveis quebras na integridade da pele, espalhando-se para os gânglios linfáticos, onde se multiplica. Em poucos dias surge febre alta “a febre subira bruscamente a quarenta graus”, mal estar gastrintestinal “vomitando, com grandes arrancos, uma bílis rosada numa lata de lixo” e os bubos, que são gânglios linfáticos hemorrágicos e edemaciados devido à infecção “os gânglios do pescoço e os membros tinham inchado”. As hemorragias para a pele formam manchas escuras “duas manchas escuras alastravam-se pelo flanco”. As bactérias invadem a corrente sanguínea, onde se multiplicam causando a chamada peste septicémica, que se caracteriza pelas hemorragias em vários órgãos.

Tudo isto é descrito ao longo do livro por Camus através dos olhos do médico, Dr. Bernard Rieux, protagonista e narrador da história, que não mede esforços para ver o bem estar dos seus doentes. Ao perceber as limitações da batalha inglória que travou contra a peste, surge no Dr. Rieux um sentimento de revolta e sofrimento ao constatar a sua impotência diante dos seus pacientes.
“Tinha de ficar na margem, com as mãos vazias e o coração oprimido, sem armas e sem recursos, uma vez mais, contra esse desastre”. 
Rieux luta, até ao último momento, apenas com os recursos paliativos que tem em mãos. Este belo relato não esconde os momentos de dúvidas e fraquezas do médico, que aparece como um humanista que se inquieta a cada gemido de dor de seus pacientes.
“Assim é que não há uma só das angústias de seus concidadãos de que não tenha compartilhado, uma só situação que não tenha também sido a sua.”
As suas vitórias são efémeras, a sua derrota é interminável, a sua miséria constante. O combate à peste, como cumprimento do seu dever como médico, não deve ser admirado. Nas entrelinhas camusianas, é essa a simples acção consequente que o raciocínio absurdo traz. Nada mais. Rieux compreende e essa é a sua moral.
 "O que é natural é o micróbio. O resto – a saúde, a integridade, a pureza, se quiser, é um efeito da vontade, de uma vontade que não jamais se deter. O homem direito, aquele que não infecta quase ninguém, é aquele que tem o menor número de distrações possível. E como é preciso ter vontade e atenção para nunca se ficar distraído! Sim, Rieux, é bem cansativo ser um empestado. Mas é ainda mais cansativo não querer sê-lo."

À volta de Rieux forma-se um pequeno grupo de colaboradores, como Rambert, Tarrou e Grand, homens unidos pele peste e que aprenderam a compartilhar angústias, desejos e temores. É em torno de personagens como estes que o médico conduz a sua crónica, como ele mesmo define o relato. Relato que não esconde os momentos de revolta, dúvidas e fraquezas do protagonista, mas também demonstra a lucidez de Rieux ao observar a desordem do mundo. Ele sabe que estão todos mergulhados no absurdo coletivo e que é preciso aceitar a condição do absurdo, para então suportá-lo. Mas aceitar não significa jogar a toalha ao chão, pois devemos viver intensamente a vida que nos é reservada.
“O homem revoltado é aquele que enfrenta o seu próprio absurdo”.

O padre Paneloux, figura que encarna a pobreza de espírito ético-religiosa da qual Camus ri – no caso, por meio da descrição de um sermão longo e demorado que traz uma imagem patética sobre o flagelo – sabendo que, em seu ímpeto estético, o próprio escritor conseguiu tratar melhor da metafísica do que tais figuras jamais conseguiriam na vida em carne e osso. Através do padre, Camus demonstra a maestria de criar um estilo que evolui ao longo dos subtis diálogos para uma crítica direcionada às atitudes perpetuadas por homens como o padre, com vetores tresloucados em face do absurdo. Por exemplo, quando diz no primeiro sermão que a Peste tinha chegado para castigar os pecadores. Mas, quando a Peste começou  a matar crianças, nomeadamente com a morte do filho do juíz Othon, esse argumento caiu por terra, e o padre no seu segundo sermão, defende uma fé cega em Deus sem questionar.
Paneloux acabou por morrer pouco tempo depois do segundo sermão, vítima da Peste.

Rieux, Rambert, Tarrou e Grand, entregaram aqueles intermináveis meses de isolamento, medo e dor ao combate e à luta contra a epidemia. Relegando para segundo plano as aflições pessoais de cada um, em prol da comunidade.

Era preciso lutar, desta ou daquela maneira e não cair de joelhos. Toda a questão residia em impedir o maior número possível de homens de morrerem e de conhecerem a separação definitiva. Para isso, havia um único meio – combater a peste. Esta verdade não era admirável, era apenas consequente. Nessa luta não há heróis. Mais importante que actos de bravura está a felicidade, que deve ser procurada a todo custo. Para realçar literariamente essa posição, Camus serve-se de um anti-herói, o Grand, um modesto funcionário municipal que se satisfazia em ser útil nas batalhas miúdas do dia-a-dia. O narrador propõe este herói insignificante e apagado (Grand) que só tinha um pouco de bondade no coração e um dilema aparentemente ridículo, dando ao heroísmo o lugar secundário que lhe cabe.

Dos diversos personagens que cruzam o caminho de Rieux, – e há alguns com fascinantes perspectivas, como Jean Tarrou:
“Acreditei que a sociedade em que eu vivia repousava na condenação à morte e que, combatendo-a, combatia o assassínio. Acreditei-o, outros disseram-mo e, para terminar, em grande parte era verdade. Coloquei-me, pois, com aqueles que amava e que não deixei de amar. Fiquei com eles durante muito tempo e não há país da Europa cujas lutas eu não tenha compartilhado. Adiante. Bem entendido, eu sabia que também nós procedíamos, ocasionalmente, a condenações. Mas diziam-me que essas mortes eram necessárias para construir um mundo em que não se mataria ninguém. Era verdade, de certo modo, e, no fim de contas, talvez seja eu que não sou capaz de me manter nesse género de verdades. O que é certo é que eu hesitava. Mas pensava no mocho e a coisa continuava. Até ao dia em que vi uma execução (estava na Hungria) e a mesma vertigem que havia atacado a criança que eu era obscureceu os meus olhos de adulto. (…) Quando me acontecia exprimir os meus escrúpulos, diziam-me que era preciso reflectir no que estava em jogo e davam-me razões muitas vezes impressionantes para me fazerem engolir o que eu não conseguia deglutir. (…) Mas eu respondia então que, se cedia uma vez, não havia razão para parar. Parece-me que a História me deu razão- hoje cada qual mata o mais que pode. Andam todos no furor do assassínio e não podem proceder de outra maneira.”

Deixando de lado a análise existencial a respeito da morte concreta, o romance sugere também a visão da morte como término de um ciclo que permite o nascimento de outro.
Perto do desfecho do livro, Camus faz referências ao anseio de recomeço que acalentava os moradores da cidade com o fim da peste.
Uma passagem bem elucidativa desta ideia – e também da valorização das relações humanas no meio do terror – é o momento em que Rieux e Tarrou, já com a epidemia controlada, vão ao cais tomar um banho de mar em “prol da amizade”. A imagem do mar reforça a ideia de purificação depois da tempestade.
 Quando viram de longe a sentinela da peste, Rieux sabia que Tarrou dizia para si próprio, como ele, que a doença acabava de esquecê-los, que isso era bom, e que agora era preciso recomeçar. 
Fazia-se mesmo necessário um novo começo, mas certamente não seria o último, porque o “bacilo da peste não morre” . Adormece, e então renasce. Não morre porque é o símbolo do absurdo, essa sensação de mal-estar que acompanha o homem ao longo da existência.

"Cottard, Tarrou, aqueles e aquelas que Rieux tinha amado e perdido, todos, mortos ou culpados, estavam esquecidos. O velho tinha razão, os homens são sempre os mesmos. Mas essa era a sua força e a sua inocência, e era aqui que Rieux sentia que se juntava a eles. No meio dos gritos que redobravam de força e de duração, que repercutiam longamente até junto do terraço, à medida que a chuva multicolor se elevava mais abundante no céu, o doutor Rieux decidiu redigir esta narrativa que aqui termina, para não ser daqueles que se calam, para depor a favor destes pestiferados, para deixar ao menos uma recordação da injustiça e da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar."



A narrativa explora sentimentos, emoções e reflexões humanas, centralizando-se especificamente na situação do indivíduo que se confronta com inquietações interiores, com inseguranças e com incertezas. Este livro apresenta a vida sob uma perspectiva absurda em que se destaca a falta de sentido e a ausência de suportes concretos que forneçam respostas concisas.

“A Queda”, “A Peste” e “O Estrangeiro” são essenciais para a compreensão do pensamento de um dos maiores romancistas, existencialistas e intelectuais do século XX.
 Estas três valiosas obras são imprescindíveis.





terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Envelhecer





“Envelhecer é o único meio de viver muito tempo.
A idade madura é aquela na qual ainda se é jovem, porém com muito mais esforço.
O que mais me atormenta em relação às tolices de minha juventude, 
não é havê-las cometido…é sim não poder voltar a cometê-las.
Envelhecer é passar da paixão para a compaixão.
Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo 
tentando ficar nos quarenta.
Aos vinte anos reina o desejo, aos trinta reina a razão, aos quarenta o juízo.
O que não é belo aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta, nem sábio aos cinquenta, 
nunca será nem belo, nem forte, nem rico, nem sábio…
Quando se passa dos sessenta, são poucas as coisas que nos parecem absurdas.
Os jovens pensam que os velhos são bobos; os velhos sabem que os jovens o são.
A maturidade do homem é voltar a encontrar a serenidade 
como aquela que se usufruía quando se era menino.
Nada passa mais depressa que os anos.
Quando era jovem dizia:
“verás quando tiver cinquenta anos”.
Tenho cinquenta anos e não estou vendo nada.
Nos olhos dos jovens arde a chama, nos olhos dos velhos brilha a luz.
A iniciativa da juventude vale tanto a experiência dos velhos.
Sempre há um menino em todos os homens.
A cada idade lhe cai bem uma conduta diferente.
Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós.
Feliz é quem foi jovem em sua juventude e feliz é quem foi sábio em sua velhice.
Todos desejamos chegar à velhice e todos negamos que tenhamos chegado.
Não entendo isso dos anos: que, todavia, é bom vivê-los, mas não tê-los.”



Albert Camus




sábado, 12 de novembro de 2016

Esquecei


Karolina Kuras




Esquecei os vossos mestres, aqueles que tanto vos mentiram, disso tendes vós a certeza agora, e também os outros, pois não souberam persuadir-vos.
Esquecei todos os mestres, esquecei todas as ideologias moribundas, os conceitos gastos, os slogans vetustos de que vos querem ainda alimentar.
Não vos deixeis intimidar por nenhuma chantagem, de direita ou de esquerda.
E finalmente não aceitai lições senão daqueles jovens combatentes de Budapeste dispostos a morrer pela liberdade. Esses de certeza vos não mentiram ao gritar que o espírito livre e o trabalho livre, numa nação livre, no seio de uma Europa livre, são os únicos bens deste mundo por que vale a pena lutar e morrer.


Albert Camus
in, Atuais


quarta-feira, 25 de maio de 2016

.........................so I just shut up




I didn’t like having to explain to them, 
so I just shut up, 
smoked a cigarette, 
and looked at the sea. 


Albert Camus
in, The Stranger


segunda-feira, 14 de março de 2016

Envelhecer é passar da paixão para a compaixão




Envelhecer é o único meio de viver muito tempo.
A idade madura é aquela na qual ainda se é jovem, porém com muito mais esforço.
O que mais me atormenta em relação às tolices de minha juventude, não é havê-las cometido…é sim não poder voltar a cometê-las.
Envelhecer é passar da paixão para a compaixão.
Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo a tentar ficar nos quarenta.
Aos vinte anos reina o desejo, aos trinta reina a razão, aos quarenta o juízo.
O que não é belo aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta, nem sábio aos cinquenta, nunca será nem belo, nem forte, nem rico, nem sábio…
Quando se passa dos sessenta, são poucas as coisas que nos parecem absurdas.
Os jovens pensam que os velhos são bobos; os velhos sabem que os jovens o são.
A maturidade do homem é voltar a encontrar a serenidade como aquela que se usufruía quando se era menino.
Nada passa mais depressa que os anos.
Quando era jovem dizia:
“verás quando tiver cinquenta anos”.
Tenho cinquenta anos e não estou a ver nada.
Nos olhos dos jovens arde a chama, nos olhos dos velhos brilha a luz.
A iniciativa da juventude vale tanto a experiência dos velhos.
Sempre há um menino em todos os homens.
A cada idade lhe cai bem uma conduta diferente.
Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós.
Feliz é quem foi jovem em sua juventude e feliz é quem foi sábio em sua velhice.
Todos desejamos chegar à velhice e todos negamos que tenhamos chegado.
Não entendo isso dos anos: que, todavia, é bom vivê-los, mas não tê-los.

Albert Camus

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A busca da Felicidade ou do Sofrimento



O homem recusa o mundo tal como ele é, sem aceitar o eximir-se a esse mesmo mundo. Efectivamente os homens gostam do mundo e, na sua imensa maioria, não querem abandoná-lo. Longe de quererem esquecê-lo, sofrem, sempre, pelo contrário, por não poderem possuí-lo suficientemente, estranhos cidadãos do mundo que são, exilados na sua própria pátria.
Excepto nos momentos fulgurantes da plenitude, toda a realidade é para eles imperfeita. Os seus actos escapam-lhes noutros actos; voltam a julgá-los assumindo feições inesperadas; fogem, como a água de Tântalo, para um estuário ainda desconhecido.
Conhecer o estuário, dominar o curso do rio, possuir enfim a vida como destino, eis a sua verdadeira nostalgia, no ponto mais fechado da sua pátria.
Mas essa visão que, ao menos no conhecimento, finalmente os reconciliaria consigo próprios, não pode surgir; se tal acontecer, será nesse momento fugitivo que é a morte; tudo nela termina.
Para se ser uma vez no mundo, é preciso deixar de ser para sempre.

Neste ponto nasce essa desgraçada inveja que tantos homens sentem da vida dos outros. Apercebendo-se exteriormente dessas existências, emprestam-lhes uma coerência e uma unidade que elas não podem ter, na verdade, mas que ao observador parecem evidentes. Este não vê mais que a linha mais elevada dessas vidas, sem adquirir consciência do pormenor que as vai minando.
Então fazemos arte sobre essas existências.
Romanceamo-las de maneira elementar.

Cada um, nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte.
Desejamos que o amor perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito.
Talvez que, nesta insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno.
Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo fato de este não durar.
À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar.
Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.

Albert Camus
in, "O Homem Revoltado"

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Só a morte desperta os nossos sentimentos



Não amaremos talvez insuficientemente a vida?
Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos?
Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?!
Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra!
A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós, durante a vida inteira.
Mas sabe porque nós somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? 
A razão é simples!
Para com eles, já não há deveres.

É assim o homem, caro senhor, tem duas faces. Não pode amar sem se amar. 
Observe os seus vizinhos, se calha de haver um falecimento no prédio. Dormiam na sua vida monótona e eis que, por exemplo, morre o porteiro. Despertam imediatamente, atarefam-se, enchem-se de compaixão. Um morto no prédio, e o espectáculo começa, finalmente.
Têm necessidade de tragédia, que é que o senhor quer?,
É a sua pequena transcendência, é o seu aperitivo.
É preciso que algo aconteça, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos.
É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte.
Vivam, pois, os enterros!

Albert Camus
in, "A Queda"


Estas últimas quatro noites, sonhei sempre com a morte.
De formas diferentes, mas sempre com a morte.
Mas acordo sempre tranquila...como se soubesse que a mensagem destes sonhos, é que se está a encerrar um ciclo longo, e que em Setembro se iniciará um novo ciclo.
Acordo sempre a sentir esse fechar de ciclo.
6 anos se passaram...6 anos muito intensos...grandes mudanças se avizinham...de novo...
Tal como senti em 2003, senti em 2009...e estou a sentir de novo agora...
Já morri por 3 vezes nesta vida...e todas elas valeram bem a pena!
Está na hora de ajustar os azimutes de novo!!!
Enquanto assim for, sinto-me viva!

terça-feira, 14 de abril de 2015

............within me, an invincible summer



In the midst of winter, I found there was, within me, an invincible summer.
And that makes me happy.
For it says that no matter how hard the world pushes against me, within me, there’s something stronger – something better, pushing right back.

Albert Camus

domingo, 28 de setembro de 2014

............a queda



“ Todos esses livros mal lidos, esses amigos mal amados, essas cidades mal visitadas, essas mulheres mal possuídas!
Eu fazia gestos por enfado ou por distracção.
Os seres vinham logo atrás, queriam agarrar-se, mas não havia nada, e era a infelicidade.
Para eles.
Porque, quanto a mim, eu esquecia.
Nunca me lembrei senão de mim mesmo.”

Albert Camus
in, A Queda



"Este vazio, esta falta de sentido de ligação às pessoas e ao mundo, não por um estado depressivo, mas como o vazio de ser, em que as expressões afectivas não correspondem a sentimentos reais.
Nem acredito que seja devido à condição de “Quero fazer-te aquilo que tenho terrivelmente medo que tu me faças”.

É como se entre essa pessoa e as outras, existisse uma parede de vidro que anulasse a capacidade de valorizar os esforços de qualquer outro, sem culpa nem angústia.

Procuro a dificuldade.
Como situar quem só existe em rosto e lá dentro habita "o nada"?
Como identificar quem não dá valor nem significado ao que tem?
Que deveria estar e não está?
Como nomear as emoções que provoca, de esperas, desesperanças e traições?

Para quem se relaciona com alguém com esta frágil solidez, é a fortuna ou o infortúnio das almas rendidas, que dão uma segunda oportunidade e não têm medo de ver o vazio bem fundo, não ignorando que este  pode ser a fonte para toda a violência.

As  aproximações, a acontecer, não permitem a reparação, sendo esta uma condição própria da natureza do vazio."