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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A Vida de uma Mulher Verdadeira


Anne Goddard




Nunca tinham falado a Kantu sobre a importância de ser mulher.
Muito menos de como deveria ser uma Verdadeira Mulher.
Referiam-se sempre à mulher em termos de sexo fraco, de criatura inferior, de serva fiel do marido, de ser que deve sacrificar-se para o bem da família. 

Por vezes, também falavam da mulher emancipada como se fosse uma rebelde, alguém que não está interessada no casamento; como se defender a igualdade entre os sexos ou afirmar a independência económica equivalesse a um capricho seu ou, pior ainda, a um ataque directo à supremacia masculina.

- Avó, como deve ser a vida de uma mulher verdadeira?

- A Verdadeira Mulher é uma Mestra de Vida: guia o seu companheiro, educa os seus filhos através da acção, e dos ensinamentos, com o seu exemplo. A mulher precisa de discípulos a quem ensinar e amar; o homem precisa de uma Mestra que lhe sugira ideias a concretizar.
Homem e Mulher têm papeis diferentes, mas precisam um do outro para se complementarem.
O homem sem a mulher não é nada, mas a mulher sem o homem também não é melhor.
Unidos são Força.

A Verdadeira Mulher não precisa de competir com o homem;
é um ser dotado de qualidades específicas e é absurdo comparar com as masculinas. A mulher em comunhão, em cooperação absoluta com o seu homem, empreende o caminho do amor, da verdade, do respeito pelas Leis Universais. 
Uma Verdadeira Mulher caminha para o futuro com muito amor, dedicação e aceitação. 
Tem um olhar sereno e fala com doçura e respeito; tem ternura no seu coração. 
A sua energia é constituída por vibrações muito subtis que a elevam a um nível mais espiritual. 

É por isso que ainda hoje se diz:
" A mulher abre ao homem a porta da eternidade; a verdadeira mulher é uma semideusa, filha da Pachamama, da Grande Mãe Cósmica, fonte de vida eterna"
A mulher é o caminho para a eternidade, a estrada que permite a fusão com o infinito e que ensina a compreender a Vida e a realizar-se.

- O que deve fazer o homem juntamente com a mulher? - Perguntou Kantu.

- O homem que vive com a verdadeira mulher diviniza-se. 
Para descobrir os mistérios da divindade, o homem tem de penetrar no coração da mulher, porque a Pachamama quer apenas aquilo que a mulher deseja. Se a Pachamama é amor, a mulher também o é. O homem deve considerar a mulher como a versão da natureza criadora, cuja moral se baseia no respeito pela vida.

- No passado, em que consistia a educação da Mulher Verdadeira?

- Antigamente, a mulher, tinha de passar por um processo de iniciação. 
Entrava sozinha no Templo do Puma, onde permanecia sete dias e sete noites, onde conhecia e saboreava a verdadeira solidão. Na escuridão mais absoluta enfrentava o medo do desconhecido e, mergulhada no silêncio mais impenetrável, procurava conhecer a sua verdadeira natureza. 
A luta mais dura de suportar não é a que se trava contra um adversário, homem ou mulher que seja, mas a que se trava com nós mesmos. Ali, onde não se ouvia o mais pequeno ruído, a mulher começava a ouvir os sons emitidos pelo seu corpo: o bater do coração, os sons do intestino, do estômago, da respiração dos pulmões,...
Nesse retiro absoluto através da meditação, da reflexão, e da análise da própria vida, a mulher vencia os seus medos, os seus receios, até descobrir quem realmente era e qual a sua missão na Terra. A mulher que entrava no Templo do Puma saía de lá preparada, consciente do próprio poder e da própria força.

No entanto, para começar a sua iniciação, a mulher tinha de superar previamente uma série de provas que moldassem o seu carácter de maneira a poder, depois, já no Templo, controlar a pouco e pouco o próprio corpo e a própria mente. Nesse percurso, a luta maior que tinha de travar era a que dizia respeito ao controlo da mente. Dentro do Templo era continuamente acossada por medos e dúvidas e tinha de acreditar nela própria. Concentrada em si própria, a mulher percorria com a memória tudo o que tinha feito desde que viera ao mundo, e pela primeira vez enfrentava e julgava a sua própria pessoa. e ali, aprendia a atravessar a porta da eternidade sem medo.

Se realmente queriam, conseguiam!
Todas as mulheres podem, é tudo uma questão de vontade.
Se tu queres uma coisa, podes obtê-la; basta que a desejes com todas as tuas forças.
Se, pelo contrário, a tua vontade é débil, frágil, nesse caso, não obterás nada.
Assim que compreenderes o poder que tens dentro de ti, poderás levantar a cabeça, olhar para os outros com amor e com doçura e, ao mesmo tempo, agir com serenidade e determinação.


in, A Profecia da Curandeira
Hernán Huarache Mamani







quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

O Medo


Stephen Clough





Na cama, Kantu pôs-se a pensar na existência dura e solitária de Mama Maru, que, assim à primeira vista, parecia não temer a solidão
Pensou também em si mesma, no medo que se apoderava dela de todas as vezes que tinha de enfrentar situações especiais. O medo que a acompanhara desde pequena: medo de perguntar, medo de saber, de olhar na cara das pessoas, medo de errar. 
Sempre o maldito medo. 
Mas já começava a controlá-lo, a contrariá-lo.

Condori certo dia explicou-lhe:
- O medo é uma forma de energia. É como o amor, como o ódio, como a ira: é simplesmente energia orientada numa determinada direcção. Desafia o medo e modificarás a sua direcção.
Até nos sonhos a mulher deve permanecer vigilante, atenta, deve enfrentar os seus medos. O sonho é uma actividade sagrada, a oportunidade que temos de entrar em contacto com o mundo espiritual, para recebermos conselho, para sermos guiados.

Os nossos antepassados eram grandes sonhadores. 
Através dos sonhos, transformavam a realidade em vida, numa vida verdadeira que não esta. 
Antes de mais, é necessário seguir a visão, e a visão apenas surge nos sonhos; sonha-se sempre, mesmo quando estamos acordados. O sonhador, por força das coisas, é um criador e, se é capaz de criar, também deve ser capaz de curar, de dar saúde.
A mulher sonha muito mais do que o homem; é uma das suas características, e é precisamente através dos sonhos que a mulher entra em contacto com o infinito, com o além. O sonho guia, ensina-a como deve comportar-se durante a vigília, ensina a realizar determinadas acções. No sonho, as fantasias e os ideais da mulher tornam-se reais, precisamente porque é através do sonho que ela pode aceder a um espaço mais vasto no qual adquire maior sabedoria.
Para sonhar bem, deve reforçar a própria capacidade de recordar os sonhos e de os modificar enquanto dorme.

As pessoas que vivem na cidade não sonham, por causa do stress a que estão submetidas e se, por acaso sonham, não se lembram do que sonham e, porventura se recordam, não sabem o que fazer com o sonho. Durante o sonho, até as situações mais difíceis se tornam fáceis. 
O sonho é o meio através do qual uma pessoa pode entrar em contacto consigo mesma. - disse-lhe Condori.

(...)

- Avó, não tens medo de viver aqui sozinha?
- Medo de quê?
- Da escuridão, dos animais selvagens, dos ladrões, dos delinquentes, dos homens.
- A escuridão não é uma inimiga, mas sim uma aliada. Aqui não há animais selvagens perigosos. E no que respeita a ladrões por vezes aparecem alguns, mas sei como mantê-los à distância; foi o que sempre fiz desde a juventude.
- Como conseguiste vencer o medo?
- Durante muito tempo fui escrava do medo, mas libertei-me dele por completo. 
O medo é uma armadilha que amarra as mulheres, impedindo-as de se exprimirem livremente. Tive de aprender à minha custa, de um modo brutal e após uma experiência bastante dolorosa, porque quem consegue derrotar o medo torna-se senhora da sua própria vida.
- Certamente, quando eras nova, deves ter sido assediada por muitos homens. Como fazias para te defenderes?
- Demonstrando-lhes que não era uma mulher qualquer, mas uma Verdadeira Mulher.
- Avó, dizes que consegues mantê-los à distância e que é coisa que fazes desde os teus verdes anos. Contudo, por algum lado deves ter começado a controlar o teu medo em relação aos homens e às pessoas?
- Como é natural, encontrei ao longo do caminho homens violentos que queriam possuir-me à força; no entanto, nunca o conseguiram, pelo simples facto de que eu não queria. Se não tivesse oposto toda a minha vontade, teriam facilmente conseguido. Mas eu entregava-me a um homem só por amor, nunca por temor.
Quando tinha dezasseis anos, um homem violentou-me na casa onde eu era empregada doméstica.
(...)Tentei opor resistência mas ele era muito mais forte do que eu, e conseguiu entrar dentro de mim pela força. (...) Com o passar dos meses descobri que estava grávida. Dei à luz um rapaz. Tiraram-me o meu filho e puseram-me fora de casa. (...) Uma vendedora de fruta socorreu-me. Vivi com aquela vendedora de fruta até um dia conhecer uma senhora de idade que me convidou a ir viver com ela e eu aceitei. Contei-lhe a minha história e a mulher foi exigir que me devolvessem o meu filho. (...) Mas, nunca consegui ter o meu filho comigo. Essa senhora acabou por morrer e entretanto, fiz-me uma mulher. Mas, mais uma vez fui levada ao engano pelo pai do meu filho e violentou-me de novo contra minha vontade. Ameaçou-me que eu seria dele até à morte, e que se eu fugisse ele me encontraria. 
Ao ouvir estas ameaças fiquei cheia de medo, contei à minha patroa e ela levou-me a uma senhora, Jacinta Qoyllur, uma curandeira que escutou atentamente a minha história. A velha entregou-me um saco pequeno e disse-me para o esconder na roupa que tivesse vestida e para trazê-lo sempre comigo. Disse-me que aquele homem, fizesse o que fizesse, nunca mais teria poder sobre mim. Disse-me para me deixar levar, para eu não resistir nem recorrer à força, para não lhe resistir e nada de mal me aconteceria. Quando o pai do meu filho tentou violar-me novamente, eu não opus resistência e deixei-me levar, mas ele não conseguiu ter erecção e por isso não conseguiu penetrar-me. Sentiu-se impotente humilhado mas, como eu não opus resistência, não me bateu e mandou-me embora. 
Depois disso, tentou mais vezes mas, como nunca conseguia ter erecção, nunca mais me procurou. (...) Voltei mais tarde à Jacinta para lhe contar o que acontecera e pedi-lhe ajuda para reaver o meu filho. Ela disse que se eu quisesse poderia tornar-me numa curandeira como ela e poderia reaver o meu filho, e foi assim que a Jacinta me começou a instruir. Durante a instrução a Jacinta sujeitou-me a vários rituais para eu enfrentar o meu medo, e dizia-me: " Luta com todas as tuas forças, enfrenta o medo e procura uma solução". Ao ouvir estas palavras, algo dentro de mim se moveu e começou a impelir-me para o exterior. Não sei de onde vinha toda aquela energia que começava a dominar-me, mas lutei com todas as minhas forças; sentia-me a esbracejar no meio do oceano. Depois, comecei a nadar, de uma forma consciente, em direcção a um ponto luminoso. Deixei de ter medo, percebes? Comecei a flutuar num oceano de paz e tranquilidade. 
Senti-me forte, poderosa, segura, e comecei a ter consciência de que era capaz!
Depois a Jacinta disse-me:
"Tem calma, estou aqui para te proteger. Neste momento estás a encontrar-te a ti mesma, para lá das recordações, para lá do mundo material. Chegaste ao centro de ti mesma e isso dar-te-á força para sempre. Nunca mais terás medo do mundo exterior, porque, a partir deste momento, sabes que o mundo interior é extremamente poderoso. A partir de hoje poderás avançar até ao centro de ti mesma e aí conhecer cada vez melhor a tua alma e entrar em contacto com o espírito de luz que vive dentro de ti. E eu ajudar-te-ei quando estiveres pronta.

Vou revelar-te dois segredos:
Cada pessoa tem a sua estrada, a sua meta, o seu objectivo. 
Assim que identificares o teu caminho, deverás dedicar-te a servir os outros, porque só quando vives para os outros é que vives para ti mesma. 
Entre o teu caminho e o serviço que prestas aos outros tem de haver equilíbrio, caso contrário corres o risco de te transformares num ser mergulhado no caos, ou acabarás escrava de alguém. 
Eu ajudo-te a manteres o teu equilíbrio e a não deitares tudo a perder. 
Terás de ser tu própria , sempre e em todas as circunstâncias; aceita o que és, e depois começa a caminhar. 

O segundo segredo consiste em reconhecer que todas as pessoas têm medo:
todas, absolutamente todas, compreendes? Nenhuma pessoa é alheia a este sentimento, porque o medo faz parte da natureza humana. Mas tu tens de o enfrentar e dominar, porque só assim conseguirás superá-lo e utilizá-lo segundo os teus desejos. 

Lembra-te: se te deixares subjugar pelo medo, estás perdida, vencida, irremediavelmente derrotada. Se, pelo contrário, o enfrentares, se decidires vencê-lo, corres perigo, é verdade, mas demonstras a enorme força que possuis. Sabes que podes vencer ou perder, não há outra alternativa. Quando uma pessoa enfrenta o próprio medo, do centro do seu ser liberta-se uma energia poderosa que a transforma."
E depois adormeci.
E foi assim que começou a minha aprendizagem como curandeira.
(...)

Kantu, tomava consciência de que se encontrava sob orientação dos curandeiros andinos para aprender a controlar a própria força interior, da qual tinha plena consciência. 
Tinha aprendido a conhecer o próprio corpo, a compreendê-lo, a conhecer as suas capacidades e potencialidades. Até há pouco tempo, o corpo, para ela, era apenas a parte material, a parte física do seu eu; agora, pelo contrário, transformara-se num instrumento maravilhoso capaz de lhe transmitir toda uma série de informações: sentimentos, desejos, sensações, emoções, pensamentos, sonhos; um instrumento capaz de resolver várias situações no seu dia-a-dia. Podia dar-lhe prazer, aquele prazer que tantas vezes lhe fora negado e que agora experimentava com todos os poros da sua pele. Uma alegria intensa que, agora, adorava sentir, um consolo que lhe dava uma grande satisfação e que não tinha nada a ver com aquela sensação de pecado que, antes, sentia de todas as vezes que tocava em determinadas partes do seu corpo. 
Agora podia tocar-se livremente, sem remorsos nem culpa.
(...)

Mama Maru disse a Kantu:
- Muitas vezes, a cidade deforma os pensamentos, e a mulher acaba por se tornar artificial, quase masculina. A cidade oferece comodidade, mas também te enche de coisas que não servem para nada, coisas que enganam e que acabam por mudar a tua verdadeira natureza.
Lembra-te que Saber é Poder!
Agora entrarás num círculo em que aprenderás os segredos das Mulheres Serpente.
Perceberás que aquilo que até agora te foi ensinado não é a vida autêntica; a verdadeira vida é outra. Aqui aprenderás a ser Mulher!
Também deves ter presente que o Saber não serve de nada se o conservarmos escondido dentro de nós. O Saber tem de ser transmitido, caso contrário, acontece-lhe o mesmo que às jóias: servem para embelezar, mas a maior parte do tempo ficam guardadas em segurança. Ou então, como o dinheiro escondido com espírito mesquinho e que, se fosse posto a circular livremente, teria mais utilidade.
Saber é Poder: um poder que resulta da acção.

Poderás utilizar esse poder quando quiseres, uma vez que só através da acção e da experiência poderás saber e compreender se o que fazes é bom ou é mau, se estás a caminhar na direcção certa ou na direcção errada.
Os pensamentos dos seres humanos são frequentemente confusos porque não têm meta nem finalidade; a direcção do próprio caminho só pode ser encontrada quando se age.





in, A Profecia da Curandeira
Hernán Huarache Mamani

 


quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Para vencer é preciso arriscar


Gabriel Barceló
Exposição "Rostros Andinos"





- As serpentes podem ser muito perigosas. - Explicou Mama Maru.
Existem três tipos de serpentes: 
O primeiro tipo são as serpentes que se assustam ou fogem facilmente e que, assim que ouvem os passos de alguém escapam e só atacam quando estão encurraladas; 
O segundo tipo são as serpentes agressivas, perversas, com um carácter terrível e que, quando se zangam, costumam andar às voltas, e quando não conseguem morder, mordem-se a si mesmas acabando por suicidarem-se, tal como fazem os seres humanos; 
O terceiro tipo são serpentes serenas, normalmente de grandes dimensões, pacíficas e sábias, chegando até a proteger as crianças em situações de perigo, e que habitualmente morrem de fome ou de morte natural.
(...)
- Há duas maneiras de domar as serpentes, disse Mama Maru a Kantu.
Com a Voz e com o Olhar.

(...)
É assim que se deve domar as serpentes.
E é assim que deves superar o medo. - Concluiu Mama Maru.
Na vida, não basta saber conviver com as serpentes, é fundamental aprender a conhecer e a enfrentar as serpentes de qualquer espécie.
Terás de usar a tua força mental para domares as serpentes e persuadi-las de que não podem e não devem morder-te, porque és mais forte do que elas. 
Terás de infundir muita força às tuas palavras, fazendo com que os sons venham do teu ventre; só assim as conseguirás subjugar; e para as domares totalmente terás de usar os olhos. 
Não podes duvidar, um instante que seja, de ti própria, do teu poder, da tua vontade - recomendou-lhe Mama Maru.
(...)
A verdadeira mulher deve mover-se como a serpente: aproxima-se e afasta-se sem dar nas vistas.
O movimento da mulher deve ser como uma carícia.

(...)
- Vês? Já as dominas. mereceste o direito de entrar para o grupo das Mulheres Serpente, das mulheres que venceram a guerra, das mulheres que conhecem a impiedosa guerra que aflige o mundo. 
Nós pertencemos a outra classe: 
somos mulheres apaixonadas pela vida e pela morte.
Acabaste de abrir outra porta. - Disse-lhe Mama Maru.
(...)
Agora, Kantu mereceu entrar para o grupo das Amaru.
Agora, era uma Mulher Serpente!
Agora Kantu sabia que a Serpente é um animal poderoso, enérgico, mas também que a mulher é muito mais poderosa e enérgica. Começou a compreender o significado do símbolo da mulher que pisa a cauda da serpente, utilizado por algumas religiões. 
Compreendeu que a mulher possui uma força interior muito poderosa que pode projectar-se para o exterior através da Voz e dos Olhos.
Mas para isso, a mulher tem de ter nervos de aço, uma enorme determinação, coragem, audácia, astúcia, e muita paciência. 
Atributos que Kantu demonstrou possuir.
Sentia-se muito mais segura de si, agora sabia que era capaz.
Aquela experiência demonstrou-lhe que sempre possuíra aquela força dentro de si, só que antes não sabia como projectá-la para o exterior.
(...)
- Para obter o que quer que seja na vida, temos de ousar, temos de enfrentar os obstáculos que se apresentam diariamente na nossa estrada e que fazem parte da nossa vida.
Temos de ser audazes e arriscar.
Os obstáculos superados fortalecem-nos e fazem-nos crescer como seres humanos porque nos valorizam. - Explicou Mama Maru.




in, A Profecia da Curandeira
Hernán Huarache Mamani








segunda-feira, 12 de outubro de 2020

A Vida é um Desafio


Q’eswachaka





- A Vida é um desafio, e só arriscando é que nos podemos pôr à prova - disse-lhe Condori.
A Vida é frágil; podemos morrer a qualquer momento, procura viver sempre no presente.
Se hesitares, escorregas e cais.
Para vencer ou para perder, tens de arriscar. Mas, com convicção de que vais conseguir. Tens de saber o que queres, seres segura de ti própria, e arriscares.
(...)
Condori, para além dos seus dotes físicos, tinha uma profunda sabedoria e uma grande capacidade para penetrar na natureza humana(...)
Condori era um Amaru Runa, um Curandeiro da Serpente, capaz de curar servindo-se unicamente das próprias mãos. Era um homem sempre disponível, de um amor e de uma generosidade tão grandes que o levavam a partilhar com o próximo tudo o que possuía. Por vezes, tornava-se sério, duro, inflexível, mas geralmente gostava de brincar, era terno e compreensivo. Tinha atitudes, maneiras de ser, brincadeiras, palavras e sorrisos ingénuos, semelhantes aos de uma criança; porém, quando se encontrava perante situações graves, transformava-se num verdadeiro homem. 
A sua atitude de homem maduro despertava em Kantu um profundo afecto e o desejo de sentir-se sua, enquanto aquele seu modo de ser infantil estimulava nela o desejo materno de lhe acariciar a cabeça, de o embalar nos braços, de o proteger.
(...)
Estavam quase a chegar a casa da Mama Maru, a Curandeira Serpente, e Condori disse-lhe:
- As palavras são como o vento, voam; só as obras ficam. Na tua vida, não conta aquilo que dizes, mas só aquilo que fazes. Agora, tens de dar um passo em frente, tens de demonstrar a tua coragem, expulsar o medo que trazes dentro de ti com factos e não apenas com palavras. Chegou o momento da acção; e é isto que vais aprender com Mama Maru. 
(...)
Kantu sabia porque se encontrava ali, na casa de Mama Maru, sozinha com a Curandeira Serpente.
Iria ser uma dura prova para ela.
Mama Maru era uma mulher inflexível e severa.
Com Condori fizera uma aprendizagem dura e cansativa, onde aprendeu coisas novas, submeteu-se a duras provas, reforçou a vontade e, sobretudo, aprendeu a ousar.
Agora, estava sozinha com a Mama Maru para testar a sua coragem e perder o medo.

Mama Maru explicou-lhe:
- A Vida está cheia de desafios e de provas que somente os audazes, os corajosos e os sábios são capazes de superar. Os cobardes, os indecisos e os ignorantes são derrotados ao longo do caminho da vida. 
Nós, Mulheres, temos duas opções:
Ou enfrentamos a morte e vivemos, ou então vivemos a fugir da morte e, deste modo, caminhamos para a destruição.
Tu acabaste de arriscar a tua vida: de início hesitaste, mas por fim decidiste-te e agarraste com rapidez o pescoço daquela serpente, a Jérgon de la Costa. 
No decurso da nossa vida, acontece que temos muitas vezes de tomar decisões com as quais pomos em jogo a nossa existência: ou se ganha ou se perde.



in, A Profecia da Curandeira
Hernán Huarache Mamani









NOTA:
Q’eswachaka, A Última Ponte Inca
A mais de 3.700 metros de altitude, a cerca de 110 quilómetros a sudeste de Cuzco, no distrito de Quehue, província de Canas, esta ponte é reconstruida uma vez por ano.
Feita de feixes de q’oya, uma fibra vegetal obtida a partir de uma planta autóctone com a qual as mulheres tecem grandes cordas que os homens fixam, logo de seguida, a cada ponto desta margem da garganta. Pouco mais de uma dezena de metros acima das águas límpidas do rio Apurímac, demoram várias horas a esticar seis cordas grossas entre as duas margens do desfiladeiro – quatro das quais, as matrizes, funcionarão como suporte, servindo as restantes duas de corrimão. Por fim, ao fixá-las a bases rectangulares de pedra (os estribos da ponte), os hábeis construtores compõem, para mais um ano, o esqueleto da Q’eswachaka (“ponte de corda” em quechua), a última ponte inca do mundo.




Tem 28 metros de comprimento e 1,20 de largura, persiste apesar da modernidade e, em 2013, foi incluída na Lista do Património Cultural Imaterial da UNESCO.
Como as mulheres se mantêm afastadas dos trabalhos de renovação, pois crê-se que atrairiam a q’encha (ou “má sorte”), cabe aos homens, de pernas abertas apoiadas sobre as cordas grossas da base, começarem a entrançar as faces laterais e o piso da ponte. 

Esta e outras pontes formavam os segmentos suspensos da antiga rede viária inca. 
Conhecida pelo nome de Qhapaq Ñan, que em quechua significa “Caminho Real”, esta rede estendia-se em comprimento e largura pelos mais de dois milhões de quilómetros quadrados que albergavam o Tawantinsuyu (o império inca), um território que se distribui actualmente por seis países da América do Sul: Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Chile e Argentina.





Segundo as comunidades camponesas de Huinchiri, Chaupibanda, Choccayhua e Ccollana Quehue, esta tradição subsistiu por mais de cinco séculos graças à intervenção da divindade:
“Se não construirmos uma ponte nova cada ano, arriscamo-nos a incorrer na ira da Pachamama [a “Mãe Terra” ] e dos apus [forças tutelares da natureza]”, diz, estremecendo, María Quispe, uma senhora de 60 anos que participa desde criança nesta tarefa.
“Mesmo que não utilizemos a ponte, expomo-nos a catástrofes naturais que podem arruinar as nossas colheitas de batata, fava, trigo ou cevada, e inclusivamente a infelicidades como a doença ou a morte”
 “Desde a época pré-colombiana que qualquer actividade importante de construção, tanto de casas como de pontes, se realiza apenas depois do pagamento à terra ou aos apus. Estas últimas divindades estão encarnadas em todos os acidentes geográficos da região, como as lagoas, rios ou montanhas", explica o antropólogo da Universidade Católica de Lima, Pablo del Valle. “Trata-se de um apelo às forças da natureza, durante o qual as populações imploram pela sua acalmia para evitar danos, como uma cheia e a posterior inundação dos campos. Até as pontes do século XX só foram construídas depois do pagamento aos deuses!”

À semelhança dos seus antepassados, quase um milhar de quechuas, dispersos pelas encostas das montanhas, ainda se ocupam da conservação da Q’eswachaka.








quinta-feira, 24 de setembro de 2020

A Mulher Andina

 





- Como era a Mulher Andina, antes dos espanhóis cá chegarem?

- A Mulher Andina participava activamente com o seu trabalho na formação e na organização da sociedade. Para além de ter acesso a outras actividades, o seu papel fundamental era o de educar e de formar as gerações futuras. Podia ocupar-se de muitas outras coisas, mas a sua verdadeira realização consistia em ser mãe e esposa. A mulher andina vivia com um homem como sua companheira, amiga e mestra. O seu universo não se circunscrevia à casa, mas contemplava também o  mundo exterior; tomava parte não apenas nas festividades e no trabalho, mas também participava nas eleições dos representantes da comunidade. Levava uma vida activa, conforme o seu engenho e argúcia, e exprimia a sua opinião sobre qualquer tema. A mulher Andina, desconhecia o conceito do "Eu", e exprimia-se nos termos da integridade do ser, nos termos do "Nós". 
Era ela própria, e não o que os pais queriam que ela fosse. 
Era livre, trabalhava como qualquer outro membro da sociedade e as suas opiniões eram respeitadas. Nalgumas zonas, as mulheres alcançaram posições de chefia, resolviam os problemas quotidianos e geriam a distribuição do trabalho.

O único guia que tinham era o amor.
Antes de aceitarem um homem como companheiro de vida, tinham de o conhecer durante um período de convivência; só assim podiam aceitar a pessoa tal como ela era, com todos os seus defeitos e virtudes, sabendo que se poderiam enriquecer reciprocamente.

Nos Andes, a mãe biológica nunca era dona dos seus filhos; partilhava a sua condição de mãe com todas as outras mães. O recém-nascido era considerado filho de todas as mulheres da comunidade; todas eram mães dele e até as mulheres estéreis tinham o direito de o acariciar e mimar. Não existiam vocábulos que designassem a posse materna; a criança era considerada um ser que encorporava os princípios da maternidade e do crescimento humano. A educação dos filhos também era uma tarefa comum; a nova criatura tinha necessidades biológicas e psicológicas que só a mãe natural podia satisfazer, mas a educação e a instrução tanto lhe eram dadas pela mãe como pelas outras mulheres do grupo. Todas juntas ensinavam à criança os valores fundamentais:
Em primeiro lugar, ensinavam-na a ser ela própria, a respeitar-se e a amar-se a si própria. Se não aprendemos a amar-nos, não podemos ensinar aos outros a amar. Não podemos dar o que não temos, e não podemos sequer ensinar o que não aprendemos nem experimentámos. Depois, ensinavam-lhe que o primeiro dever de um índio era o de amar todos os seus semelhantes, caso contrário corria o risco de viver condenado à solidão, ao desespero, à destruição.
Foi um tempo de progreso e de desenvolvimento, porque se respeitavam as diferenças entre os homens e as mulheres, e cultivava-se um modo de pensar e de agir de tipo colectivo.




Hernán Huarache Mamani
in, A Profecia da Curandeira






quarta-feira, 12 de agosto de 2020

A Mulher é Amor








Sou uma mulher chamada Kantu.
Mas, quem sou eu realmente?
- És uma Criação da Natureza, nascida graças à intervenção da Inteligência Infinita, do Grande Cosmos e da Força do Planeta Terra. Nasces-te mulher para ensinar a amar, destinada a tornares-te uma Mestra da Vida e do Amor.
- Mas, o que é o Amor? - perguntou Kantu a Condori.
- O Amor é a Verdade, a Lei, a porta que se abre para a Eternidade.
Em qualquer lugar que te encontres, ama, ama sempre. Só assim conseguirás aproximar-te do Divino, porque o Divino é Amor. O Amor é a energia que te conduz às coisas pequenas e às coisas grandes, o Universo inteiro move-se graças ao amor. Não existe energia mais poderosa.
- Mas, o que dá início ao movimento dessa energia chamada Amor? - perguntou Kantu.
- É uma centelha, aquilo que move o amor através dos ideais que cada homem e cada mulher procuram realizar ou ensinar um ao outro. Uma mulher entrega-se a um homem precisamente em virtude deste ideal, motivada pela necessidade de perpetuar uma união em que se cumpra a comunhão de duas almas. São os ideais que motivam um homem e uma mulher a unirem-se, ou a caminharem separados, em virtude do seu desejo de aprender, compreender e conhecer a natureza. Os ideais são como as estrelas: orientam o viajante na noite escura e conduzem-no à meta...
- Mestre Condori, por que me entreguei ao homem que amo tão facilmente?
- Tu amas aquele homem, o Juan, e entregaste-te a ele porque o teu coração te diz que é o homem ao lado de quem poderias caminhar sobre a Terra, o homem que poderias ajudar a realizar e a concretizar o seu ideal. Intuitivamente, tu sabes qual é o ideal que motiva a sua existência, e também sabes como podes ajudá-lo a pô-lo em prática. Mas para atingir a sua meta, ele terá de se tornar teu discípulo e tu deverás ser a mestra que lhe ensina o que é realmente o amor. A tua realização como mulher, ou a tua derrota, depende unicamente disso.
A união entre o homem e a mulher é o começo de uma viagem em direcção à realização deste ideal. O homem só poderá aproximar-se do Grande Espírito quando aprender a amar.
No fundo do coração, o homem procura o Divino e, neste seu percurso em direcção ao Divino, deve ser guiado pela mulher. Mãe, irmã, esposa, companheira, amante, ou simplesmente uma amiga, a mulher será sempre uma mestra para o homem.
Os grandes homens da história, foram sempre encorajados por uma mulher, realizaram feitos incríveis, aceitaram desafios impensáveis, mudaram o destino do mundo. A história universal tem inúmeros exemplos de mulheres que exerceram grande influência sobre os homens e sobre a história.
Tudo o que aprenderes aqui permitir-te-á dar amor, ternura, afecto, calor, atenção ao teu amado, com o qual, porém, também partilharás as tristezas, os receios, as preocupações. Aprenderás a demonstrar o quanto precisas dele e, assim, receberás todo o seu amor: o amor é saber entregar-se e enriquecer o outro. O amor pode ser cultivado, pode ser nutrido, mas também pode ser ferido ou destruído a pouco e pouco. O verdadeiro amor faz-te crescer. O amor une, compreende, ensina, perdoa; é dedicação e sacrifício.
Kantu, sê paciente e perseverante na busca de ti mesma; é uma coisa muito importante para a tua vida futura e é algo que terás de fazer sozinha. só assim irás conseguir conciliar completamente a mente e o coração.
És uma Viajante Cósmica que se move na Terra, e o teu corpo é o meio que se transforma à medida que avanças no tempo. A progressão ou a estagnação no teu Caminho apenas dependem de ti. És tu que deves decidir e assumir a plena responsabilidade pelo que vais fazer, dizer ou pensar. No teu mundo, que é o teu Universo Individual, és tu que deves criar, mas para criar tens de saber amar, e para amar tens de ser feminina, caso contrário nunca serás mulher - dissera-lhe Condori.
Muitas mulheres, julgam-se mulheres apenas porque, achando-se frágeis, aceitam determinadas limitações. E continuam a sê-lo até ao dia em que tomam consciência de si mesmas e compreendem que ser mulher é algo de especial.
Para uma mulher que toma consciência de si como mulher, tudo se torna mais simples.
Fica mais sábia porque, finalmente, conhece a verdade; nas suas emoções há maior serenidade porque é capaz de exprimir o seu amor sem reservas e temor. O autoconhecimento dá-lhe poder; sabe quando é o momento de dar e quando é o momento de não dar. Só conhecendo todas as suas potencialidades é que a mulher se pode aproximar de um homem e guiá-lo pela estrada do amor, da verdade e do respeito.
O mais importante é teres consciência de ti mesma, das tuas potencialidades e dos teus limites. 
Deste modo, vais-te conhecendo cada vez mais e, quanto mais te conheceres mais te amarás. 
E só quando te amares realmente, poderás partilhar esse amor com os outros.




in, A Profecia da Curandeira
Hernán Huarache Mamani




quarta-feira, 24 de junho de 2020

Período de Aprendizagem






Aqui aprenderás a temperar o teu carácter, a disciplinar o teu corpo e a tua mente, a despertar o teu espírito e a cultivar os ideais. Aprenderás a compreender que o homem procura uma mulher especial, uma entre mil. Só a essa mulher se entregará por completo e só quando a encontrar dará por terminada a sua busca incessante - acrescentou Condori.
Tens de saber se o que sentes é amor, ou se é apenas paixão.
Confundimos o amor com o afecto ou com a paixão.
Lembra-te: a união amorosa da mão do homem com a mão da mulher, está a tocar no Caminho que leva à Eternidade através do amor.
(...)
Observei o teu modo de ser, as tuas reacções.
E reflecti sobre as práticas que podem ajudar-te.
Terás de orientar toda a tua energia numa só direcção.
És uma mulher com uma energia interior muito poderosa; contudo, esta energia não flui livremente dentro de ti, pois vives no caos e na confusão, não tens uma meta nem objectivos específicos. Como quase todas as mulheres, pensas muito, desejas muitas coisas, mas nada fazes para transformar os teus desejos em realidade.
Hoje, vou ensinar-te alguns exercícios para activares a tua energia interior, e que também te irão ajudar a harmonizar e a equilibrar a parte direita e a parte esquerda do teu corpo. Assim, mais tarde, serás capaz de encontrar o equilíbrio entre a mente e o corpo.
(...)
Este é o preâmbulo da aprendizagem que fará de ti uma Mulher Especial, Uma Verdadeira Mulher, que soube encontrar Poder e Grandeza.
Se queres transformar os teus sonhos em realidade, terás de aprender a conhecer-te a ti mesma. Quanto mais te conheceres, mais te aproximarás daquilo que desejas obter.
- O que tenho de fazer para me conhecer? - perguntou Kantu.
Terás de responder às seguintes perguntas:
  • "Quem sou eu?"
  • "O que faço aqui na Terra?"
  • "Tenho ideias claras acerca do que quero da minha vida?"
  • "Sou feliz por ser quem sou, ou finjo sê-lo?"
  • "Sou realmente a pessoa que julgo ser, ou sou aquilo que os outros querem que eu seja?"
  • "Conheço todas as potencialidades do meu ser?"
  • "Quais são os meus ideais?"


Quando encontrares resposta para todas estas perguntas, começarás a compreender profundamente o teu ser; terás aprendido a conhecer os teus pontos fortes e os teus pontos frágeis, as tuas qualidades e as tuas fragilidades. Deste modo, conseguirás conhecer-te a ti mesma e aceitar-te como és. Só assim poderás enfrentar o futuro com determinação.



in, A Profecia da Curandeira
Hernán Huarache Mamani





segunda-feira, 25 de maio de 2020

Uma Peregrina em Busca de Ti Mesma






- Hoje é um dia muito especial para ti, e se um dia vieres a ser o que realmente és, recordá-lo-ás para sempre. A partir deste momento, vais começar a pensar só na tua vida. Trabalharás duramente todos os dias para aprenderes a conhecer-te melhor, porque só conhecendo-te a ti mesma poderás ser livre, e só sendo livre, serás capaz de enfrentar qualquer problema e perigo.
A fé em ti própria será o teu escudo e terás consciência de estar a viver a tua Verdadeira Vida.
Ficarás a conhecer aquilo que a natureza te deu e utilizarás com conhecimento e sabedoria o teu corpo, a tua mente e o teu espírito.
Se conseguires superar todas as provas a que fores submetida, serás o exemplo vivo da grandeza da mulher que, nos séculos passados, era testemunhada pelas Akllakuna, as verdadeiras artífices do desenvolvimento do Tawantinsuyo e do Governo Cósmico das Quatro Regiões dos Andes.
Serás uma Peregrina em busca de ti mesma.
Em tempos que já lá vão, as mulheres percorriam este itinerário sob a orientação das Mamakuna. Posteriormente, a invasão espanhola interrompeu a tradição deste ensinamento, o qual, a partir desse momento, passou a estar acessível apenas a um grupo restrito de mulheres: aquelas que saíam vitoriosas de todas as provas a que eram submetidas.
Faziam parte da Elite Feminina chamada Intip Chinan e representavam a Essência da Feminilidade Andina.
Por terem sido formadas na dura escola do Akllawasi mostravam-se capazes de tudo, passando depois a estar ao serviço da sociedade na qualidade de sacerdotisas, mestras, esposas, guerreiras, administradoras, embaixadoras ou governantes. Nesse tempo, eram consideradas as jóias mais preciosas do povo do Towantinsuyo.

A pergunta fundamental, porém, é a seguinte: estarás tu disposta a sacrificar tudo, a enfrentar todo e qualquer risco para aprenderes a conhecer e a usar o Poder que irás receber?

São poderes extraordinários que a mulher possui, e que apenas devem chegar às mãos daquelas que se mostrem capazes de os conquistar. São poderes que só se podem oferecer e só se devem ensinar às pessoas que se conhecem a si mesmas, que percebem quem são e qual o Caminho que devem seguir.
Espera-te um percurso árduo e terrível, que decerto te fará sofrer, porque as provas que terás de enfrentar são extremamente severas. Terás de ser paciente e perseverante, pois só se consegue compreender a Natureza quando se tem paciência. Terás de demonstrar uma grande força de vontade, muita constância e coragem para conseguires alcançar o céu.
Confia em ti e não temas o que te espera. A mais pequena dúvida deitará tudo a perder!
Agora, visualiza aquilo que desejas e, se te preparares adequadamente, obtê-lo-ás.


in, A Profecia da Curandeira
Hernán Huarache Mamani




Acllahuasi
Machu Picchu




Nota 1 - Tawantinsuyo, era o Império Inca.
Império Inca (Tawantinsuyu em quíchua) foi um Estado criado pela civilização inca, resultado de uma sucessão de civilizações andinas e que se tornou o maior império da América pré-colombiana, centrado na Cordilheira dos Andes, incluindo grande parte do atual Equador e Peru, sul e oeste da Bolívia, noroeste da Argentina, norte do Chile e sul da Colômbia.
A administração política e o centro das forças armadas do império ficavam localizadas em Cusco (em quíchua, "Umbigo do Mundo"), no atual Peru.

Nota 2 - Mamakunas, eram mulheres sábias, mestras do Akllawasi.
Mama-Cuna era, en la mitología inca, la suma sacerdotisa que instruía y vigilaba a las Acllas, Ñustas o Vírgenes del Sol durante el Imperio inca para que se dedicaran a su deber religioso.
Por extensión se llama también así al edificio en el que se recluía a las muchachas​ y a la institución de enseñanza en general.​
Así como el Amauta representa la máxima caracterización del hombre de saber, la Mamacuna constituye el elemento rector de la pedagogía femenina.
Su centro de acción fue el Acllahuasi o casa de las escogidas, dedicada a la preparación femenina y enseñanza práctica por antonomasia. A la mujer se le prepara para el hogar, las tareas domésticas o el sacerdocio.​ Esta educación tiene también un sentido de casta y matices peculiares, porque es la preparación de una élite característica y otra de tipo menor, doméstica, forjada a través del ejemplo y experiencia cotidianas. El origen histórico de la educación femenina se remonta a la primera coya Mama Ocllo- esposa de Manco Cápac, reina que instruye a las indias en los oficios mujeriles, a hilar, tejer algodón y lana y hacer de vestir para sí y para sus maridos e hijos: “decíales como habían de hacer los demás oficios del servicio de casa. En suma ninguna cosa de las que pertenecen a la vida humana dejaron nuestros príncipes de enseñar a sus primeros vasallos haciéndose el Inca Rey maestro de los varones y la Coya reina maestra de las mujeres”.
Pachacútec parece haber difundido la educación femenina en todo el ámbito del Tahuantinsuyu. También enseñaba a las mujeres a cocinar, tejer y atender al inca.

Nota 3 - Intip Chinan, eram as Adoradoras do Sol.
Las acllas (en quechua: aqllasqa, ‘escogida’) eran mujeres de singular belleza. 
Fueron escogidas de varios lugares del Imperio inca para servir al Inca o al Dios Sol o Inti.
Su preparación se llevaba a cabo en el Acllahuasi, donde vivían las mujeres bajo la vigilancia de las Mamakunas aisladas en un servicio de alto honor.

Existían tres tipos de Acllas: 
  •  Aclla del Sol: Dedicaban su vida entera a la adoración del Dios Sol. 
  • Aclla del Estado. 
  • Taquiaclla: Elegida por sus habilidades cantoras. Su labor era alegrar las fiestas de la corte imperial.

En el Imperio Inca, para proporcionar el mejor culto posible al dios sol, además de sus diversas clases de sacerdotes, los incas habían creado una importante institución de vírgenes dedicadas a su servicio, conocida como Intip Chinán, en la que ingresaban las niñas elegidas en su infancia (a los ocho años) para convertirse en acllas tras un estricto noviciado que cubría los primeros años de su estancia conventual, bajo la dirección de una superiora, mamacuna, educadora, vigilante y examinadora de las jóvenes sometidas a su tutela.

Acllahuasi era el nombre del templo de las acllas.
Pero esta profesión religiosa no era sólo una llamada o una obligación para acudir forzosamente al servicio de la religión, sino que se trataba más bien de una educación selectiva y esmerada para las jóvenes de las clases superiores, puesto que, una vez llegadas a la edad núbil, entre los trece y los quince años de edad, pasaban a ser "presentadas en sociedad", para ser las potenciales prometidas de señores de la nobleza, ya que el período de servicio en el Inti Chinán como aclla era también la garantía de la calidad de su linaje y el aval de la mejor educación y, evidentemente, la mejor prueba exhibible públicamente de su incontestable virginidad.

No guardar la obligada castidad y, sobre todo, ser sorprendida con un hombre significaba, para la vestal en ejercicio, su inapelable condena a muerte, a una muerte cruelmente ejemplar, dejándola que muriera de inanición, para que no fuera la mano del ser humano la que matara a las sacerdotisas, sino el abandono.

Si se llegaba a producir un embarazo de una de las aclla, siempre que no hubiera pruebas en contra de la exigida adhesión a la norma estricta de la virginidad requerida, se consideraba que tal embarazo había sido realizado por la explícita voluntad y personal acción del dios Sol y, automáticamente, el hijo que tuviera la vestal, era considerado privilegiado hijo del dios solar y, como tal, recibía un trato de favor para el resto de sus días.


Manuel Alvar Ezquerra: 
in, Vocabulario de indigenismos en las Crónicas de Indias





terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Akllawasi...Como se aprende a ser mulher?


As Escolhidas
Akllawasi




Kantu já tinha começado a superar os condicionamentos da educação que até então recebera, e que lhe tinham sido impostos pela religião e pela sociedade. 
Talvez isso a tenha induzido a perguntar a Mama Maru:
Como se aprende a ser uma Verdadeira Mulher?
Estudando atentamente a natureza - respondeu a curandeira.
Mas antes de mais, é importante que aprendas a conhecer-te e a aceitar-te a ti mesma como és.
Apenas tens de ser tu mesma e mais ninguém.

Muitas vezes construímos a nossa vida recolhendo os fragmentos da existência dos outros e procuramos imitar modelos que nos são impostos do exterior.
É muito provável que a tua mãe tenha tido influência sobre ti ou que, na realidade, tenhas sido porventura influenciada pela tua avó, pela tua tia, por uma amiga ou por outras pessoas tuas conhecidas.
São esses os fragmentos com que vais tecendo uma espécie de máscara que te esconde dos outros e que te torna infeliz. A Verdadeira Mulher descobre quem é e segue o seu caminho, plenamente consciente de si mesma.

- Avó, pensando bem, apercebo-me agora de que não sei quem sou. Aliás, quase posso dizer que toda a minha vida foi condicionada pelo exemplo de outras mulheres. Procurei sempre ser como elas e nunca tentei ser simplesmente eu mesma.
- Sim, são muitas as mulheres que procuram parecer o que não são e bastante poucas as que, pelo contrário, encontram tempo para perscrutarem dentro de si mesmas e descobrirem quem são e o que realmente querem da vida.
No teu caso, Kantu, a natureza deu-te um corpo e uma alma nos quais habita o espírito.
Só tu, como mulher, e mais ninguém, podes mudar a tua vida.

Quando souberes quem és na realidade, estarás no bom caminho para te tornares uma Verdadeira Mulher.
Mulher, no verdadeiro sentido da palavra, é aquela que um dia será companheira de um homem, mãe dos filhos que a natureza lhe quiser dar e mestra de ambos. Será uma administradora hábil da sua casa, uma senhora respeitada por todos, uma companheira excelente, uma deusa e uma artista do amor. A sua prudência, a sua sabedoria e a sua graça serão o seu principal encanto.
Uma mulher que descobre a sua verdadeira natureza, que desperta os poderes que traz adormecidos dentro de si e que tornam vão o recurso à força, pode fazer tudo isto.
Se não o fizeres, continuarás a vegetar, como acontece com a maior parte das mulheres.

- Avó, fala-me deste nosso poder - suplicou-lhe Kantu.
A arma mais poderosa de uma mulher é a sua energia interior que a protege a ela e às pessoas que ama - prosseguiu Mama Maru. É por esta razão que terás de aprender a mergulhar no teu mundo interior; só quando descobrires a tua verdadeira essência, poderás usar toda a tua energia interior. És forte e dotada de muita energia, e é precisamente por isso que pertences ao grupo de mulheres capazes de fazer girar o mundo. Contudo, também tens um limite: ainda não te conheces e, como tal, não te aceitas a ti mesma. Para além de seres muito bela, também és muito forte e determinada, disposta a arriscar tudo para alcançares as tuas metas.

A sociedade contemporânea não quer saber como é realmente a mulher, e procura deformar a sua índole desde o dia do seu nascimento. Nos dias que correm, o que é que a mulher aprende com a sociedade? Aprende a enganar-se, a esconder os seus verdadeiros sentimentos, a ocultar as suas opiniões, a mascarar os seus pensamentos.

Mas actualmente as mulheres recebem educação, e muitas delas chegam mesmo a ser boas profissionais, capazes de exprimir livremente as suas ideias - observou Kantu.
- O que estás a dizer não é verdade: a maior parte destas mulheres são formadas numa escola inspirada num modelo masculino que acabou por deformar a sua verdadeira natureza, tirando-lhes a possibilidade de exprimirem a própria feminilidade. Características como a Intuição, a Criatividade, a Arte, os Sentimentos, afastam-se cada vez mais do seu mundo. Em nome do trabalho, estas profissionais tiveram muitas vezes de sacrificar uma parte da sua natureza. É um fenómeno típico das sociedades industrializadas.
Não confundas instrução com educação!

Há muitos homens bem instruídos e mal-educados e, pelo contrário, há muitos ignorantes que são atraentes devido à sua educação; é a vida quotidiana que no-lo demonstra.
Na maior parte dos centros "educativos" dos nossos tempos são muitos aqueles que trabalham para destruir a Vida na Terra e poucos os que trabalham para a defender. Entre um cientista sem moral e sem consciência e um ignorante educado é preferível o segundo, pois nunca fará tanto mal como o primeiro.

Kantu reflectiu e concordava que no mundo, em cada dez cientistas e estudiosos, sete trabalhavam para a indústria do armamento ou para outras indústrias causadoras de poluição, e só dois lutavam em defesa da Vida na Terra, e apenas um tentava conservar o conhecimento puro. Também era verdade que os homens civilizados tinham provocado maiores danos à Terra que os humildes agricultores ou caçadores, o que levou Kantu a perguntar:
Queres tu dizer que seria melhor que o homem não recebesse instrução?
- Antes de mais, seria necessário educá-lo e só depois instruí-lo.
A educação é mais importante do que qualquer tipo de instrução; é na família que a educação deve começar, ao ensinar a ter respeito pelas pessoas e pelos seus sentimentos. Este tipo de educação tem como objectivo principal a humanização do homem; a instrução, pelo contrário, almeja o desenvolvimento da mente e da racionalidade.

O que significa que a mulher, para fazer de si mesma uma Mulher Verdadeira, tem de se dirigir antes de mais ao seu coração e só depois à mente?
- Exacto. O que actualmente se faz com a mulher não é mais do que bloquear-lhe a sua feminilidade. Na escola, no colégio, na universidade, a mulher aprende o pensamento masculino. Não lhe ensinam a conhecer-se e a compreender-se a si mesma.
- Nesse caso, como devemos educar-nos? O que temos de aprender?
Temos de criar uma instituição educativa que responda às necessidades e aos interesses da mulher.





Na época do Império Inca, existia uma instituição chamada Akllawasi, que tinha uma orientação vincadamente feminina. Infelizmente, desapareceu há já alguns séculos: primeiro, foi encerrada pelos Incas; depois, foi destruída pelos conquistadores espanhóis.
Nesse centro, ensinava-se que a mulher é artífice da criação e da consolidação da sociedade humana, o eixo em torno do qual aquela sociedade girava, e que a educação deveria começar em casa. Porque educar e instruir um homem significava formar um indivíduo que talvez não deixe nada atrás de si, mas educar e instruir uma mulher implica formar as gerações que hão-de vir.

- Mama Maru, queres dizer que a mulher educadora tem de iniciar tal tarefa na própria casa? E se é assim, como deve ser a sua casa?
A mulher deve fazer da sua própria casa um lugar de paz, de tranquilidade, de estabilidade, de felicidade. Deverá ser um pequeno centro no qual possa educar o seu companheiro e os seus filhos. Canalizará os instintos de cada um destes discípulos, seguindo a sua natureza específica; desenvolver-lhe-á o carácter, modelará as suas inclinações. Conduzi-los-à à verdade, à bondade, e ao respeito por todos os outros seres vivos, porque a educação é vida.

E qual é o papel do homem na educação dos filhos?
- A mulher precisa de um colaborador masculino que apoie os seus projectos educativos. É por isso que, na escolha do seu companheiro, a mulher tem de se deixar levar pela sua alma e não pelos olhos. Isto porque ao unir-se a um homem é para percorrer a vida toda com ele, e conhecerem-se, ajudarem-se e apoiarem-se reciprocamente.

E que papel desempenham os filhos na vida de uma mulher?
- Os seres que der ao mundo serão para a mulher uma elevação, uma vez que cada filho é um livro aberto da natureza, com o qual ela poderá aprender muitas coisas. A maternidade é uma escolha; não se trata de uma função meramente biológica, mas também social, mental, espiritual.
Há mães físicas e mães espirituais.
E, no papel de mãe, a mulher é capaz de aumentar as virtudes e limar os defeitos do temperamento humano.


in, A Profecia da Curandeira
Hernán Huarache Mamani












The first educational institutions in Cusco were created by Inca Roca and perfected by Inca Pachacutec. Among them we have the Yachayhuasi, an educational institution for men and the ahuasi for women, the term Acllahuasi is a Quechua word that means house of the chosen ones. It was a center of women’s formation in the Empire of the Incas.

The Acllas were the most culturally educated women in the empire. They were truly chosen women, they came as tribute from their people and they lived cloistered in the Acllahuasi or House of the Acllas.

All peoples had an obligation to tax future Acllas to the state. 
The Inca emphasized an official called “Apu Panaca” or “Lord of the Sisters”, to each province who was in charge of selecting girls between the ages of 8 and 10 that were singularly beautiful, free of physical defects. He placed them under the care of the Mamaconas. They were the teachers who instructed the acllas in the religious rites, the preparation of sacred foods and the elaboration of fine fabrics for the Sapa Inca and the nobility of the Tahuantinsuyo. Not only were these material forms, they also were a kind of knowledge and were seen as very important.

When the chosen girls were 10 years old they had to decide whether they wanted to return to their places of origin to be their parents or continue in Acllahuasi to become priestesses of the main gods, the most important sacred house acllahuasi Cuzco belonging to the Sun God. In addition to having at their disposal in some cases the care and offering of the Inca mummies,some of the women of the Accllahuasi were destined to the Inca like servants, they prepared the chicha for the Inca. Others became Mamaconas. And, others were chosen as prizes for the great Inca warriors and for the normal and privileged nobility.

The chroniclers Garcilaso Inca de la Vega and Guaman Poma de Ayala denominate women as virgins of the sun like nuns. Bernabe Cobo describes the acllahuasi near the temple of the sun “Qoricancha” like a “monastery of mamaconas. Often this institution of Acllahuasi was compared by the Spaniards with the Christian convents, but in reality their functions wen much further since they also had the role of producing textiles in bulk for the Inca state.

Textile production for the state had one purpose: to maintain the state’s economy of redistribution. It is well-known that among the most appreciated gifts that the Inca could give were coca, women and clothes. This action was generated as a way to compensate the faithful, warriors or people whose activity generated value for the Inca State. The gift of redistribution strengthened ties with the conquering ethnic groups or the generals and created a stable situation between the two parties. Thus, the Inca economy needed to redistribute very large amounts of clothing to maintain the desired balance, as well as coca and women.

The acllahuasis also functioned as a store of women. From it the Inca could arrange to give a wife to the curacas or people whose services had to be compensated. In addition to being given to compensate the faithful, they were delivered by the Inca in “marriage” to certain curacas to make certain unions. With these marriages the Inca built necessary political alliances.

Another function of the aclla is to prepare food and drinks for celebrations or rituals, or for chicha a very precious drink, made from corn. The acllas were then important in the maintenance of the redistributive system.

Men could not enter the precincts of the Acllahuasi to see the women.
The state of acllas and mamaconas was known by the Inca thanks to the fact that he sent the Coya his wife, who like his daughters, were the only ones that could see and speak with the virgin women. If someone violated this rule, the penalty was death.
If any of the mamaconas helped him get in, they were given the same penalty.

The institution of acllahuasi, in addition to its great importance within the Inca economic balance, demonstrates the great role played by women within the Andean world.


Luis Olivera Echegaray





domingo, 8 de dezembro de 2019

A Curandeira Serpente Amaru


Amaru Muru
A Porta Espiritual dos Incas
Lago Titicaca
Perú




Avó, o que é que se pode aprender com uma serpente? - perguntou Kantu.
Mama Maru explicou-lhe:
- Este animal ensina que a vida é movimento, renovamento e rejuvenescimento.
Todos os anos, quando a sua pele já está velha, a serpente livra-se dela e cobre-se de uma pele nova. E assim rejuvenesce.
- Por que é que as serpentes se aproximam mais das mulheres do que dos homens? - perguntou Kantu, lembrando-se que Facundo dizia sempre: "A serpente segue a mulher".
- A serpente está em sintonia com as mulheres, não com os homens.
Simboliza o nosso impulso de criação, de renovamento, de conservação. A serpente sabe que cada mulher é dotada de uma energia poderosa que cria e regenera continuamente a vida e da qual pode servir-se para dar a vida e a morte. A serpente é um animal da Terra, com o ventre em contacto com a terra e o dorso virado para o céu, e assim é capaz de activar tanto a energia terrena como a energia celeste.
- Dizem que a serpente é a alma do diabo - replicou Kantu.
- É o que afirmam os religiosos machistas, porque sabem que se realmente nós somos como as serpentes, então somos mais poderosas e mais temíveis que eles. Também estão convencidos de que, assim que a mulher se aproxima da serpente, transforma-se em bruxa. Mas, quer se aproxime ou não,  se a mulher tem realmente consciência daquilo que é, e possui e consegue projectá-lo para o exterior, então é porque tem força e poder. A mulher assemelha-se muito à serpente, porque quando ela quer, pode. Quando uma serpente quer atravessar um rio, por mais profundo que seja, sem hesitar, ela mergulha na água, consciente de que vai conseguir atravessá-lo.
- Avó, todas as serpentes são dotadas de poder, ou só algumas é que o são?
- As serpentes diferem umas das outras, no que respeita à dimensão e à força.
Nesta zona, a serpente mais sábia é a Amaru, a grande serpente que une o Céu à Terra.
Depois, para além das serpentes iguais à que acabaste de agarrar, a Jérgon de la Costa, existem outras mais pequenas, de pele verde com estrias negras e brancas, chamadas Yana Muruq. Também há umas de cor cinzento-clara chamadas Oqe Muruq.
Para conhecer o poder que habita dentro de cada uma de nós, terás primeiro de conhecer a serpente. Observa-a com atenção: vê como se move, como se alimenta, como procura comida. Ãprenderás que na serpente reside o poder da vida e da morte.
- Avó, por que é que a serpente está associada à vagina?
- Existem histórias inventadas para esconder o poder do nosso sexo perante o homem.
A mulher possui uma zona oculta situada à altura do osso sacro: os seus órgãos sexuais, que têm um poder magnético. É aí que residem todos os desejos e aspirações da humanidade. A mulher, por meio do sexo, é capaz de dar paz ao homem, só ela pode aflorar os seus desejos mais íntimos ou conhecer os seus sonhos mais recônditos. É por esta razão que é sempre o homem que procura a mulher e não vice-versa. Os homens procuram-nos, perseguem-nos, molestam-nos, falam-nos, mas por detrás das suas acções esconde-se um único interesse: o nosso sexo.

Eu sou Mama Maru.
Comigo vais aprender a conhecer a energia que governa o mundo e a sexualidade.
Dentro de ti já desperta o poder ligado à energia sexual, que terás de aprender a utilizar e a dominar. Terás de pôr de lado todos os preconceitos que dizem que o sexo diminui ou degrada a mulher, e terás de esquecer todas as afirmações que tendem a reduzir a mulher a objecto sexual ou a uma máquina de fazer filhos. A função da tua energia não se esgota nas relações sexuais, mas serve também para receber e transmitir o poder e a energia capazes de gerar, criar, curar e transformar.
Só assim chegarás à Liberdade e à Auto-realização.




in, A Profecia da Curandeira
Hernán Huarache Mamani





quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A Iniciação


Adoratório Inca de Q'enqo, antigo Templo do Puma





- E o que tem de fazer uma mulher para ser iniciada? - perguntou Kantu.
- Tem de regressar ao útero da Pachamama e mergulhar no Oceano da Vida.
Aí deverá entrar em contacto com a própria intimidade e em harmonia com os elementos simpáticos: a Terra e a Água. Só assim o espírito poderá manifestar-se.
Terá de aprender a superar a dúvida, o temor, a dor, o medo, o desespero, o cansaço, o aborrecimento, a frustração, a desilusão.
Mediante tal prova, saberá se o seu corpo trabalha em harmonia com a sua mente quando se trata de identificar os perigos. Graças à preparação recebida, aprenderá a ver e a sentir na escuridão, a perceber se é o momento de ter paciência ou de agir e, assim que os seus sentidos a avisarem da existência de um perigo iminente, saberá enfrentá-lo recorrendo à sua prudência, à sua sabedoria, à sua calma e à sua serenidade.
E quando finalmente conseguir superar todo o tipo de perigo, então aprenderá a viajar no tempo e no espaço.
- É importante aprender a viajar no tempo e no espaço? - perguntou Kantu.
- É fundamental - respondeu Mama Maru.
Durante as noites que passa no Templo do Puma, a mulher aprende que o tempo e o espaço são uma coisa só, que é preciso conhecer e atravessar. Aprende a viajar para a frente e para trás no infinito, porque o tempo e o espaço são contíguos e não divisíveis e, deste modo, visita pequenos e grandes mundos distantes. Pode até, atravessar o espaço interior, penetrando na mente dos outros e, assim, antecipar os acontecimentos. Deste modo, enquanto uma pessoa comum dá os primeiros passos, a verdadeira mulher já está de regresso; era assim que os nossos antepassados viajavam no tempo e no espaço.
(...)
- Avó, se uma mulher supera as provas do Templo do Puma; torna-se uma Mulher de Poder?
- A iniciada que passou pelo Templo do Puma sai de lá mais sábia, mais sensível; possui as armas do saber, do poder, do querer, do fazer e do ousar. Aprendeu a agir e a ficar em silêncio. A mulher que se encontra a si mesma, apropria-se de um poder terrível; o poder de vida ou de morte que a mulher utilizará, não em seu benefício, mas em benefício dos outros.
(...)
Lembra-te de que para receber é preciso dar.
Se dás amor, receberás amor.
O homem, ao contrário da mulher, não pode compreender estas coisas, porque a sua mente e as suas vibrações espirituais não possuem  a sensibilidade necessária para as apreender; a mulher, pelo contrário, sabe que o amor é o fundamento em que se baseia a existência da sociedade.
- A mim já não me interessa depender de um homem, disse Kantu.
-  Não estou a falar da mulher que se agarra a um homem qualquer e que é escrava das suas paixões - retorquiu Mama Maru. Estou a falar da mulher que se dá a um homem que ela escolheu como companheiro, com o qual sente que pode trilhar o caminho do conhecimento.
A mulher é capaz de suportar os sacrifícios mais terríveis, porque sabe que é a base do Templo, a alavanca que ergue a terra, aquela que semeia as ideias no cérebro do homem, fazendo dele um ser positivo ou negativo. A salvação da humanidade está nas mãos da mulher que, assim que se tornar uma verdadeira mulher, pode encontrar-se com outras verdadeiras mulheres e todas juntas, unidas, poderão salvar a Terra.

Existe uma profecia segundo a qual a Terra, no início do Terceiro Milénio, sofrerá grandes mudanças climáticas que se irão repercutir na Saúde, na Economia, na Organização Social da Humanidade.
As Payakuna ( anciãs - mulheres sábias cheias de experiência) e os Machukuna ( anciãos - homens sábios cheios de experiência, considerados os depositários do saber da comunidade) transmitem, de geração em geração, que há-de chegar o momento em que o espírito feminino despertará de uma grande letargia que durou mais de cinco séculos para dar, por fim, origem a um mundo de paz e harmonia.
- E que pode fazer cada mulher para favorecer a concretização desta profecia?
- Enquanto no coração da mulher continuar a brilhar a luz do amor, o mundo estará a salvo, mas, se esse amor fraquejar, então o ódio e a indiferença propagar-se-ão, acabando por destruir o mundo.

A mulher é a Ponte que conduz à eternidade, é o sentido da Ordem Moral, Intelectual, Espiritual, é um Estado de Consciência.
Quando o homem cumprir a missão que tem na Terra, o Céu e a Terra ligar-se-ão para que ele se encontre com o Criador, e a mulher será a ponte que permitirá o acesso a tal união.
- Avó, queres com isso dizer que nós, as mulheres, é que temos de guiar os homens?
- É nossa tarefa ser suas mestras; a verdadeira mulher sempre foi mestra. O homem é um aluno difícil e caprichoso, mas a mulher, com ternura, simplicidade e paciência, saberá educá-lo e iluminá-lo.
Só assim a mulher poderá levar a cabo a sua missão.



Hernán Huarache Mamani
in, A Profecia da Curandeira









NOTAS:


1- Q'ENQO: É o Templo do Puma. 
Significa zig-zag, labirinto em Quechua, situa-se no Vale Sagrado do Perú, a 3kms de Cusco.
É uma das maiores Huacas (Sítios Sagrados) de Cusco.
Era um local de culto, rituais e sacrifícios. Ainda lá se encontram escadarias e altares onde eram celebrados os rituais.
Este era um Santuário que já existia antes da chegada dos Incas e a cuja utilização estes deram continuidade. No maciço rochoso encontram-se inúmeros canais, escadarias e cavidades, que estariam associados ao conjunto de ritos religiosos nos quais era usada a Chicha, uma bebida sagrada feita de milho e que hoje, de forma menos sagrada, se pode provar um pouco por todo o lado. Basta encontrar uma casa que tenha uma bandeira ou pano vermelho pendurado no exterior e bater à porta.
Era um Santuário Religioso para cerimónias do Culto da Fertilidade com uma área de 3.500 m2.

2- Muita coisa foi destruída pelos espanhóis, no entanto pode-se ver:
- A Sala dos Sacrifícios
Uma câmara subterrânea em que tudo está esculpido na pedra. Chão, tecto, paredes, mesas de culto, tudo esculpido numa gigantesca pedra subterrânea. No interior deste espaço encontra-se um grande altar sobre o qual se acredita que fossem feitos sacrifícios, tanto de humanos como de animais.
A prática de sacrifícios era comum durante o Império Inca, mas era sobretudo praticada com animais. Os sacrifícios humanos eram apenas realizados em situações mais extremas, quando os deuses precisavam de ser apaziguados, ou em ocasiões de grande importância, como no solstício ou no equinócio, e para os que se ofereciam ao sacrifício, isso constituía uma grande honra.
- Intiwatana e o Observatório Astronómico
Situa-se na parte superior, formado por enormes pedras cilindricas. As Intiwatanas, onde se amarrava o Sol, são até hoje um enigma. Pensa-se que era um Observatório Astronómico, que os Hamautás utilizavam para medir o Tempo, para marcar as Estações, determinar os Solstícios e os Equinócios, e também como Adoratório onde se prestava culto ao Sol, à Lua, a Vénus e às estrelas.
- Os Canais de Água
Em ziguezague, o Canal parte do Olho do Puma, e depois se bifurca e dá origem a vários canais. Conduziam a água para a Sala dos Sacrifícios. Também por estes canais eram conduzidos para a Sala dos Sacrifícios outros líquidos, como sangue dos animais sacrificados como oferenda para os Deuses, ou a Chicha, bebida sagrada.
- O Anfiteatro  
Situa-se no exterior, ao ar livre, uma área semicircular.
Este sítio foi um Templo para Cerimónias Públicas.