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quinta-feira, 18 de abril de 2019

O Gato





Com um lindo salto
Lesto e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pega corre
Bem de mansinho
Atrás de um pobre
De um passarinho
Súbito, para 
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando tudo
Se lhe fatiga
Toma o seu banho
Passando a língua
Pela barriga.

Vinicius de Moraes






segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

POEMA DO GATO





Quem há-de abrir a porta ao gato 
quando eu morrer?

Sempre que pode 
foge prá rua, 
cheira o passeio 
e volta pra trás, 
mas ao defrontar-se com a porta fechada 
(pobre do gato!) 
mia com raiva 
desesperada. 
Deixo-o sofrer 
que o sofrimento tem sua paga, 
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre pra mim 
como acorre a mulher aos braços do amante. 
Pego-lhe ao colo e acaricio-o 
num gesto lento, 
vagarosamente, 
do alto da cabeça até ao fim da cauda. 
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos, 
olhos semi-cerrados, em êxtase, 
ronronando.

Repito a festa, 
vagarosamente. 
do alto da cabeça até ao fim da cauda. 
Ele aperta as maxilas, 
cerra os olhos, 
abre as narinas. 
e rosna. 
Rosna, deliquescente, 
abraça-me 
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse 
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?



ANTÓNIO GEDEÃO
in, "NOVOS POEMAS PÓSTUMOS"






segunda-feira, 24 de julho de 2017

Gatos





Hitler não gostava de gatos, Churchill adorava-os, e eu fui educada a detestá-los.
A minha mãe achava que ter gatos era um sintoma de solidão desesperada e sentia tanto medo deles como das donas. Herdei a histeria.

Quando vivia no campo, a Marta pediu-me para tomar conta de uma cria abandonada e acabei por ceder. Era uma gata vadia e todos os dias se esgueirava pela janela do quarto para se rebolar com os amigos. Resultado: um dia cheguei a casa e tinha oito.
Cresceram em minha casa e, todas as semanas, morria um atropelado.
Vivíamos ao lado de uma estrada perigosa e velha, e é impossível, no campo, manter gatos dentro de casa. Sempre que saíamos de carro, cruzávamo-nos com mais uma tragédia esborrachada no asfalto, incriminando-nos por negligência.
O Bernardo sofria mais do que eu, adorava animais sem distinção: mochos, ginetes, cavalos, galinhas.

Depois desse, as dinastias sucederam-se.
Talvez na terceira, houve um exemplar a que me afeiçoei.
Era meigo e parecia reconhecer-me, além de que era o derradeiro descendente do gato da Marta e também a nossa última oportunidade de redenção. Vacinámo-lo e arranjámos-lhe um berço. À noite, o Bernardo e eu, como quem não quer a coisa, disputávamos-lhe os carinhos. Era auto-suficiente e sobranceiro, como todos, e aquilo irritava-me. Só depois de ter lido testemunhos de alguns escritores sobre a sua relação com gatos percebi o que diziam. Para eles, só existimos na hora da comida.
Lembram-me a Maluda, Deus me perdoe, que viveu uma história tremenda. Depois da químio, quando começaram a vê-la diminuída e dependente, os gatos que toda a vida mimou apoderaram-se da casa e começaram a vandalizá-la, defecando nos cortinados, arranhando as telas e derrubando as colecções de porcelana. Enfim, pode ter sido uma expressão de luto ou orfandade, mas enquanto a Psicologia não chegar aos gatos, reservo-me o direito de julgá-los.
Para mim, foi uma revelação de carácter.

Sem querer, fui gostando desse. 
Continuava a irritar-me o modo silencioso de se moverem, aquela forma de só os descobrirmos, por vezes, quando os pisamos e miam; mas aquele foi-se aguentando dentro de casa mais tempo do que os outros e fugia pouco.
Um dia, quando voltávamos da feira, fomos dar com ele muito quieto, num canto da cozinha. Fora mordido por um cão e tinha um buraco tão fundo no peito que lhe víamos as costelas. O Bernardo já estava atrasado, de modo que corri a uma clínica veterinária de Rio Maior, desconhecendo que não se pode meter um gato sem mais nem menos num carro, pois entram em pânico, e que é para isso que existem cestos ou caixas de fibra para os transportar em viagem. Passados uns quilómetros, distraída, não ceguei por acaso. O gato, que supus moribundo, deu um salto do banco traseiro para aterrar na minha cabeça e fincar as garras na minha testa e nos meus cabelos. Apanhou um susto, mas o meu não foi menor.
Ainda pensei em atirá-lo pela janela, descontrolada, mas acabei por viajar durante doze quilómetros com ele montado na minha cabeça, estrebuchando e arranhando-me - foi talvez o gesto mais nobre da minha vida, sem aplauso nem testemunhas.

O médico disse que precisava de ser cosido imediatamente e também o preço da cirurgia, desproporcionado e exorbitante, de modo que dei comigo sentada numa sala de espera, sozinha e transpirada como um pai estreante, contando as horas para o fim do pesadelo.
Quando a porta se abriu e ouvi «prognóstico reservado», afligi-me e ri-me ao mesmo tempo. O cinismo é uma peste sem escrúpulos e não dá tréguas àquela esquizofrenia tão própria do escritor, agente e observador simultâneos. 
Não se limitavam a convocar-me solidariedade, pediam-me esperança!
Sentei-me outra vez e, da segunda vez que o veterinário abriu a porta, foi para me depositar nas mãos a tábua em que o gato se tornara, depois da anestesia, com um esgar que arrepiava.
No regresso, já não foi preciso trazê-lo num cesto; estava inofensivo como um cadáver.

Era noite quando cheguei a casa e, para minha impaciência, o gato nunca mais acordava.
O Bernardo adormeceu como uma pedra e fui obrigada a vigiar o despertar de um animal com a mesma consternação que usei para com o Salvador, quando, no Hospital, recuperou de um traumatismo craniano. Duas horas depois, nada se alterara.
Eu, a cair de sono, debruçada, e o bicho, sem querer acordar, com a carcaça tão rígida como chegara.

Desesperada, liguei para a minha amiga Carolina, que vivia a 90 Km, a contar-lhe.
Generosa, mãe de quatro filhos e entusiasta de mil causas, apanhei-a estafada e prestes a meter-se na cama, com uma sugestão ensonada que me fez rir de nervos durante mais de uma hora:
- Rita, tens uma pá?

O gato recuperou à custa de um sem-fim de despesas e cuidados para, um mês depois, morrer aos pneus de uma carrinha Nissan.


Rita Ferro
in, Veneza Pode Esperar



terça-feira, 28 de março de 2017

Lição de Mestria dos Gatos



O ser humano ainda não iluminado pela sua consciência espiritual quanto aos valores reais ou relativos, deixa o seu mental apoiar os desejos instintivos do seu ser inferior, cujas exigências anárquicas criam tumultos de aceleração de impaciência, e de caprichos incoerentes.

Sofrendo dessas influências, o Autómato humano assemelha-se a certo tipos de animais. 
O cão treme de impaciência diante do osso avidamente desejado. 
A inconstância do macaco é típica pela sua dispersão de ideias. 
A agitação da mosca lança-a para a armadilha da aranha. 
A pressa é a preocupação da abelha pelo dever social; 
é também a inquietação da formiga que tem sempre qualquer coisa que fazer, mas que se precipita em voltas supérfluas, sabendo a direcção, mas não a maneira de contornar os obstáculos.


Ao contrário de outros animais 
que nos dão uma lição de mestria, 
sendo exemplo disso o gato 
cuja sabedoria é um modelo 
porque junta a maior paixão 
à mais indiferente calma.


Na sua imobilidade reflecte o seu salto, sempre exacto;
a força dos seus rins é proporcional ao relaxe do seu sono:
há no seu sono, o abandono da criança recém-nascida,
enquanto que o seu instinto está sempre de vigília;
a sua leveza sem resistência torna a sua queda sem perigo;
Caça e luta são para ele alegria do jogo: ele caça sem ódio e joga sem finalidade;
constantemente pronto ao ataque sem animosidade,
e pronto a defender-se sem apreensão:
vencedor indiferente, ele nunca é vencido.
A serenidade é o fruto da independência.


Cria em ti esta independência, que não é indiferença, mas neutralidade face às impressões recebidas do exterior: 
bonito e feio, bom e mau, alegre ou triste, agradável ou penível... 
Uma coisa é discernir as qualidades, outra é deixá-las afectar a nossa disposição. 



in, A Abertura do Caminho
Isha Schwaller De Lubicz




quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Os gatos são animais imprevisíveis


Ramón  Espelot




Há quem os adore e quem simplesmente não os queira ver à frente.
As suas atitudes inesperadas já conquistaram biliões de visualizações no YouTube.
Já todos vimos um vídeo hilariante destes pequenos animais, não há como negar.
Mas porque é que eles agem assim? 

Tony Buffington, professor de ciências clínicas veterinárias na Universidade de Ohio, veterinário e intitulado guru dos gatos, explicou os comportamentos destes felinos num vídeo publicado na Ted Ed.

No vídeo, Buffington, analisa as atitudes de Grizmo, um gato imaginário que representa os gatos como os conhecemos hoje.

“Os gatos mantêm hoje muitos dos mesmos instintos que lhes permitiram sobreviver no mundo selvagem durante milhões de anos” explica Buffington. “Isto explica alguns dos seus comportamentos aparentemente estanhos: Para eles, a nossa casa é sua selva.”

Certamente já viu ou já ouviu falar de um gato que ficou preso no topo de uma árvore ou em qualquer outra superfície alta. Mas porque raio é que eles preferem sempre os sítios mais altos? 
A resposta é simples, os gatos possuiam uma estrutura muscular e uma capacidade de equilíbrio que lhes permitem alcançar grandes altitudes e, daí, observar as suas presas no mundo selvagem. Lá em sua casa, o instinto leva-os a fazer o mesmo. Voltar para baixo é que, por vezes, se torna um problema...


Porque é que eles estão sempre prontos a atacar pequenos objetos? 
As presas dos gatos eram geralmente animais pequenos e por isso necessitavam de se alimentar várias vezes ao dia, usando uma estratégia de perseguição-atacar-matar-comer. É por isto que preferem perseguir e atacar pequenos objetos e comer pequenas refeições ao longo do dia.


Porque é que eles espreitam e vão para lugares pequenos?
As pequenas presas dos gatos geralmente escondem-se em pequenos espaços e apesar de hoje não terem que procurar a sua comida em casa, eles continuam a ter a mesma curiosidade que caracterizou a evolução da sua espécie durante milhões de anos.


Porque é que eles afiam as garras no sofá? 
No mundo selvagem os gatos precisavam de garras afiadas para subir, caçar e para defesa própria. Não, o seu gato não odeia o seu sofá nem qualquer móvel que tenha em casa. Apenas está a seguir o seu instinto.


Porque é que eles encontram sempre lugares estranhos para dormir? 
De certeza que já encontrou o seu gato a dormir numa gaveta, no lavatório ou em qualquer outro lugar que só passariam pela mente destes pequenos felinos. Os gatos são os melhores a esconderem-se e no mundo selvagem tinham que encontrar os melhores sítios para evitar os seus predadores. É também por isso que eles preferem uma caixa de areia limpa e tapam sempre as suas necessidades. Não é porque eles se preocupam com a sua higiene, simplesmente não querem denunciar a sua localização através do cheiro.


Porque é que eles ronronam?
Se pensava que o seu gato só ronrona quando está feliz ou porque gosta muito de si, engana-se! Buffington explica que os gatos ronronam por várias razões, desde felicidade a raiva. Curiosamente, frequência dos seus ronronos – entre 25 e 150 hertz – está dentro de um intervalo que pode promover a regeneração de tecidos. Por isso, enquanto ronronam estão a curar os seus músculos e ossos.


Concluindo, o seu gato não é estranho. 
Só está a tentar habituar-se a um ambiente que não é o seu.


MÁRCIA G. RODRIGUES













quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Gatos





Ora aqui está uma grande verdade!
Eu por mim falo!

Até aos meus 35 anos, não achava piada aos gatos.
Mas achava que não me ligava a eles pelas razões erradas.
Eu não lhes fazia mal, nem os maltratava...longe disso!
Apenas eram-me indiferentes.

Primeiro, caí no grave erro de comparar cães com gatos.
Sempre adorei cães, desde pequena.
E não se pode comparar o que não tem comparação.
São diferentes, com comportamentos muito distintos.

Achava os gatos muito independentes, muito donos do seu nariz, interesseiros porque só apareciam para comer ou quando lhes convinha, não havia interacção e partilha, proximidade, etc...
Mas o que eu não sabia, é que o que eu gostava era de ter um animal de estimação que me desse aquilo que eu não recebia em casa: amor, dedicação, presença, e o sentir que precisavam de mim.
Por isso sempre gostei de cães.

Depois dos 35 anos, grandes mudanças ocorreram na minha vida, eu mudei muito como mulher, e sem me aperceber, comecei a olhar para os gatos de outra forma, e comecei a sentir os gatos...coisa que nunca me tinha acontecido.

Por isso escolhi esta foto.
Porque hoje eu sei que quando me tornei mais solta, mais desprendida, mais tolerante e mais livre, comecei a fascinar-me com os gatos. E o que eu não gostava nos gatos, passou a ser alvo de admiração.

Os animais de estimação não são nossos escravos, nem têm de encaixar nas nossas vontades, carências ou necessidades.
Eles apenas devem ser aquilo que são por natureza.
E cada um tem o seu encanto.




sábado, 12 de novembro de 2016

Sobre cães e gatos




O lado A tem aquela canção chamada Portugal Ressuscitado. 
Toca o refrão e eu choro, é certinho.
"Agora o povo unido nunca mais será vencido."
A crença em ideias tão obviamente falsas sempre me emocionou muito.
No lado B está a Canção Combate, sobre a coragem do povo português.
A própria canção é poeticamente corajosa, uma vez que rima
"A PIDE agora já não nos persegue" com "E já cá canta o Manuel Alegre".

Antes da música, Ary dos Santos declama um soneto dedicado a todos os antifascistas mortos pela PIDE. Primeiro, os agentes da polícia política aparecem designados como feras, mas depois o poeta corrige: "Feras é demais. Apenas hienas. Tão pútridas, tão fétidas, tão cães." 
Alto. Tão cães? Cão é adjectivo? E dos que ofendem?
Os cães são um bocadinho porcos e razoavelmente burros (eu sei, porque tenho quatro), mas ainda assim não merecem ser comparados a agentes da PIDE. 

De onde vem a má reputação dos cães? 
Nos livros, aparecem quase só para morrer.
A Baleia do Graciliano Ramos leva um tiro.
O Argos de Ulisses espera pelo dono durante 20 anos e morre assim que satisfaz o desejo de o ver.

Os gatos, por outro lado, têm um prestígio literário impecável. 
Mário-Henrique Leiria dedica um livro "ao gato Benevides" que, diz ele, lhe deu "tremendas lições de dignidade". Nem o Cheshire Cat da Alice nem o gatarrão amigo do diabo em Margarita e o Mestre levam um tiro. Anda por aí um famoso espectáculo musical sobre gatos.

Os gatos são protagonistas sofisticados, os cães são palermas sem classe.

Quando, há pouco tempo, passei a ter um gato, comecei a perceber a razão do fascínio. 
De facto, é um bicho que nos despreza de uma forma muito elegante.

Está evidentemente convencido da sua superioridade em relação a nós e é capaz de ter razão.
Mas continuo firme no meu entusiasmo em relação aos cães.

Os gatos sabem qualquer coisa; os cães são tão estúpidos como eu o que lhes dá um encanto muito especial. Os gatos parecem ter uma informação importante acerca do que é isto de estar vivo; os cães não fazem ideia do que andam aqui a fazer.

Acham quase tudo espantoso e não têm vergonha desse maravilhamento constante, apesar de ser tão parecido com estupidez.

Os cães são crianças, os gatos são filhos adolescentes: também nos amam, embora com alguma relutância, acham mesmo que são independentes, e às vezes estão escondidos num armário.
É a adolescência sem tirar nem pôr.



RICARDO ARAÚJO PEREIRA


quarta-feira, 15 de junho de 2016

Lenda budista sobre gatos




O Sorriso do Buda para Um Gato Preto

Certa vez, o Senhor da Luz Imensurável ouviu um miado próximo ao lago de lótus da Terra Pura, onde os lótus florescem com uma indescritível beleza. Prestou mais atenção no singular miado que lhe soava assim aos ouvidos: “Nyaaamu Amida, Nyaaamu Amida” em louvor ao seu Nome Sagrado.

O Sublime dirigiu sua sagrada atenção ao lago para ver de perto aquele que lhe dedicava tão devotado miado. Viu um gato preto, que de tão preto destacava se lhe mais ainda os olhos verdes brilhantes como as esmeraldas da Terra Pura.

O Tathagata, curioso, falou-lhe: “por que mias o Meu Nome?”

“Ó Venerável de todas as eras e de todos os mundos, em vida fui um gato doméstico, pertencia a uma jovem humana, filha de um de Vossos veneráveis monges. Eu morava num templo onde passei meus dias adormecendo sob o sol que entrava pelas janelas do templo enquanto o monge rezava dedicando-Lhe belíssimas recitações de sutras. Eu era indolente e preguiçoso, nunca prestei a devida atenção aos sermões de Vosso discípulo. Vivia perseguindo Vossos pequenos seres vivos como passarinhos, ratos e insetos. Apesar de estar cansado de ouvir dizer que todos os seres viventes estavam ali graças a Vossa misericórdia e que eu mesmo, vivia ali tão confortavelmente graças à Vossa eterna compaixão… Mas meu instinto era mais forte… eu vivia capturando os pequeninos. Minha dona conseguiu salvar muitas das minhas vítimas, ela se zangava comigo, mas eu nem ligava. Fui um gato muito mau, que sempre conseguia obter o que queria dos humanos, usando o meu charme e fazendo gracinhas”.

O gato parou de falar por um momento, querendo perscrutar alguma reação no rosto do Inabalável. Diante da Impassível presença, não teve como senão, continuar a falar.

“Minha dona vivia ralhando comigo, afirmando que eu jamais adentraria Vossa Terra Pura, por ter matado tantos pássaros. E que sendo a Terra Pura habitada por pássaros sagrados, eu não poderia sequer chegar perto… e agora me vejo diante de tão Sagrada Presença, e renascido em Vossa Terra Pura, mas não sou digno…”

Ouvindo o relato do gato, o Senhor da Terra Pura, observando os nervosos bigodes do gato preto, responde-lhe:

“Como podes ver, apesar de tudo que fizestes em vida, por fim, adentrastes a minha Terra Pura. Ora, fostes um gato e como gato vivestes plenamente a vida. Sendo para mim, o suficiente. O Karma de nascer como um gato, é viver como um gato a natureza do gato”.

Surpreso e feliz por não ter sido admitido na Terra Pura por engano, o gato em profunda reverência ao Senhor da Vida Imensurável, diz que de agora em diante protegerá os pássaros sagrados da Terra Pura, venerando-os por seus nomes, conforme o Sutra de Amida: Zasshikishichô,Byakkou, Kujaku, Oumu, Shari, Karyôbinga, Gumyôshichô…

E o gato preto saltita contente de volta ao lago de lótus.

Quando o Tathagata volta a ouvir o gato invocando reverentemente o Seu Nome “Nyaamu Amida”, não consegue deixar de sorrir. Um sorriso misericordioso, como só um Buda pode sorrir.

Sayuri Tyô-Jun






"Para o budismo, os gatos representam a espiritualidade. São seres iluminados que transmitem calma e harmonia e, por isso, costuma-se dizer que quem não se relaciona bem com seu inconsciente nunca chega a se conectar por completo com um gato, nem tampouco entenderá seus mistérios.

A verdade é que ninguém se surpreende ao saber que a figura desses animais está unida ao budismo. Tanto é assim que na Tailândia existe uma lenda sagrada que transcendeu o tempo para converter os gatos em seres únicos de paz e íntima união, havendo vários em muitos templos dos países asiáticos. É por isso que é tão comum ver tantos gatos dormindo e enrolados nos braços das múltiplas estátuas sagradas de Buda e outros temas que enfeitam os jardins dos santuários.

Os gatos vêem muito além de nossos sentidos. Entre suas horas de sonecas e seus momentos de brincadeiras e exploração, olham nossas almas com seu olfacto refinado. Aliviam tristezas e nos preenchem com seus nobres e reluzentes olhares.

Frequentemente costuma-se dizer que ter um cachorro é ter o companheiro mais fiel que pode existir. Isso é totalmente certo. Mesmo assim, quem conhece o carácter de um gato sente que a conexão é mais íntima e profunda, e por isso diversos monges budistas como o mestre Hsing Yun falam do poder curativo desse animal.

Uma lenda budista sobre os gatos originária da Tailândia

Em primeiro lugar temos que saber algo muito importante. O budismo não está organizado numa hierarquia vertical, como já sabemos. A autoridade religiosa descansa sobre os textos sagrados, mas, por sua vez, existe uma grande flexibilidade em seus próprios enfoques. A lenda que vamos mostrar tem suas raízes numa escola específica: a do budismo theravada, ou o budismo da linhagem dos antigos.

Foi na Tailândia e dentro desse contexto que foi escrito “O livro dos poemas do gato”, ou o Tamra Maew, conservado hoje em dia na biblioteca Nacional de Bangkok como um autêntico tesouro que deve ser preservado. Em seus antigos papiros se pode ler uma encantadora história que conta que quando uma pessoa havia alcançado os níveis mais altos de espiritualidade e falecia, sua alma se unia placidamente ao corpo de um gato.

A vida poderia ser então muito curta, ou o quanto a longevidade felina permitisse, mas quando chegava o fim essa alma sabia que subiria para um plano iluminado. O povo tailandês daquela época, conhecendo essa crença, mantinha também outra curiosa prática…

Quando um familiar falecia, enterrava-se a pessoa numa cripta junto com um gato vivo. A cripta tinha sempre um espaço por onde o animal poderia sair, e quando o fizesse tinham por certo que a alma do ser amado já estava no interior daquele nobre gato… Deste modo, alcançava a liberdade e esse lugar de calma e espiritualidade capaz de preparar a alma para o caminho posterior, o caminho de ascensão.





Os gatos e a espiritualidade

Dizem que os gatos são como pequenos monges capazes de trazer a harmonia a qualquer lugar. Para a ordem budista de Fo Guang Shan, por exemplo, são como pessoas que já alcançaram a iluminação.

Os gatos são seres livres que bebem quando têm sede, que comem quando têm fome, que dormem quando sentem sono e que fazem o que deve ser feito a cada momento sem necessidade de agradar ninguém.

Não se deixam levar pelo ego, e algo especial desses animais segundo esse ramo do budismo é que os gatos aprenderam a sentir o que vem do homem desde eras muito antigas na história do tempo. No entanto, as pessoas ainda não aprenderam a sentir o gato no presente.

São leais, fiéis e afectuosos, e suas demonstrações de carinho são íntimas e subtis e, ainda assim, tremendamente profundas. Só aqueles que sabem olhar para o seu interior com respeito e dedicação entenderão o seu amor inquebrável, mas as pessoas que são desequilibradas ou que frequentemente elevam sua voz para gritar jamais serão do agrado dos gatos.

Para concluir, sabemos que não é preciso recorrer aos textos budistas para entender que os gatos são especiais, que seus olhares nos transportam para universos introspectivos, que com suas estranhas posturas nos convidam a praticar a ioga, que são um exemplo de elegância e equilíbrio… Queremos o bem desses animais e até os veneramos e, ainda que eles mesmos se acreditem autênticos deuses lembrando quem sabe de seus dias no Antigo Egipto, permitimos que eles sejam orgulhosos.

Todos temos nossas próprias histórias com esses animais, momentos inesquecíveis que nos permitiram aproveitar pequenos instantes cheios de magia e autenticidade. Esses que seguramente serviram de inspiração para criar essa charmosa lenda budista que ficou impressa em tinta, papel e misticismo."


Valéria Amado


sábado, 30 de abril de 2016

Magnificat



Quando é que passará esta noite interna, o universo, 
E eu, a minha alma, terei o meu dia? 
Quando é que despertarei de estar acordado? 
Não sei. O sol brilha alto, 
Impossível de fitar. 
As estrelas pestanejam frio, 
Impossíveis de contar. O coração pulsa alheio, 
Impossível de escutar. Quando é que passará este drama sem teatro, 
Ou este teatro sem drama, 
E recolherei a casa? 
Onde? Como? Quando? 
Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo? 
É esse! É esse! Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei; 
E então será dia. Sorri, dormindo, minha alma! 
Sorri, minha alma, será dia !

Álvaro de Campos


sexta-feira, 18 de março de 2016

O tempo passado com gatos nunca é perdido




“O tempo passado com gatos nunca é perdido” 
– Sigmund Freud


Esta frase do pai da psicanálise nos diz certamente algo que muitos já sabiam.
No entanto, por vezes, algo não tão comum quanto passar tempo com nossos gatos, pode ter uma dimensão tanto terapêutica, quanto reconfortante.
Um exemplo é o Japão.
Neste país a figura do gato é admirada e respeitada. Eles são um símbolo de boa sorte. E por isso o Japão é pioneiro no conceito das "gatotecas" que já se espalham um pouco por todo o mundo. Foram os primeiros a criar "cafés de gatos" em 1998.
Qual a finalidade?
O Japão é um país muito industrializado e muito virado para o trabalho. Os níveis de stress são muito elevados, e a população é bastante carente de afecto e carinho.

Acariciar um gato é um evento catártico. Regula o stress, melhora a saúde cardiovascular ao relativizar a mente, e fornece uma oportunidade genuína de expressar o amor e ser envolvido por um dos animais mais cativantes que o homem já domesticou. (Ou talvez seja o inverso, não sei).

Mergulharemos na psicologia felina para compreender um pouco mais sobre o que estes animais podem oferecer:

A Sua beleza atrai, mas a sua personalidade nos cativa

Gatos, ao contrário de cães, não pertencem a ninguém, 
além de si mesmos. 
Na verdade, nós é que somos cativos de suas artes, 
sua liderança e de seu sublime encanto. 
Desse animal que entende o que é espaço, 
e um amor onde não há dependência, 
mas fidelidade absoluta.

Na verdade, pode-se escrever manuais inteiros de psicologia felina.
E se a primeira coisa que dizem sobre eles é que são egoístas e independentes, na verdade, nunca é inteiramente verdade. Daí a natureza interessante, daí o interesse que provocam em nós.

O gato nos amará, respeitará e nos defenderá como sua própria família.
Eles são possessivos sobre o seu espaço, suas rotinas e também seus donos.
No entanto, sabem muito bem manter distância sem nos sufocarem ou dependerem inteiramente de nós.
Adoram ser mimados e quase adorados, buscando diariamente carinho.
Mas, quando necessário, o limite aparece e eles cuidadosamente se afastam para exaltar sua elegância e independência.
E sim, pode chamar a nossa atenção o brilho sincero em seus olhos, ou seu ronronar terapêutico e calmante, mas o que realmente gosto sobre gatos é a sua personalidade.


Os gatos são grandes meditadores

Vivemos num mundo marcado por prioridades muitas vezes inúteis, que nos fazem afastar do que realmente importa: a luz do sol, tranquilidade, nós mesmos, aqueles que amamos …
Envolvemos-nos de artifícios, de problemas muitas vezes sem importância, acumulamos coisas e perdemos de vista as experiências de vida, emoções …

Para os gatos, o mundo segue o ritmo que deve. 
A vida é lenta, medida por momentos de descanso ao sol, 
no sofá ao nosso lado, 
por passeios para procurar o limite de aprender. 
Eles são criaturas sábias 
que abrem os olhos para o mundo 
como janelas cheias de luz e esperança.


Às vezes, dizem que os gatos são grandes conhecedores do mundo do yoga.
Eles podem passar longas horas a meditar na frente de uma janela ou numa bacia de água.
Que verdades seus sentidos captam?
Que realidades escapam de nós, seres humanos?

Eles passam da imobilidade de seu próprio mundo, de sua própria introspecção à acção em pouco mais de um segundo. Discorrem entre as dimensões da reflexão e actividade tão rapidamente que nos admiram e deixam sem fôlego.

E o cativante é que tudo o que fazem, fazem com todos os seus sentidos, que com certeza não são cinco, mas seis, porque a sua intuição, sua habilidade de vir para nosso colo quando precisamos de um ser humano, é certamente algo que só eles têm.


Não só os loucos têm gatos …

Quem disse que todo o louco tem uma centena de gatos?
Os gatos são criaturas sábias e serenas que fazem a vida mais rica, mais simples e intensa para quem quiser experimentar o que é viver com um animal com esta personalidade.

Eles são ideais para crianças e idosos, são fiéis companheiros de tardes tranquilas, de momentos de relaxamento na cama e excelentes camaradas com quem você vive e aprende todos os dias.


“Os gatos são indivíduos soberanos, com suas próprias ideias sobre tudo … 
e isso inclui as pessoas em sua posse.” 
– John Dingman



Valeria Sabater


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Gatos


Zora Milutinovic


Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de facto:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ónus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

Nelson Ascher


domingo, 7 de fevereiro de 2016

O gato é uma lei em si mesmo



“O gato é uma lei em si mesmo.
Nunca perdeu o seu despótico ar de indolência e luxúria oriental.
Era demasiado feminino para os gregos, amantes do masculino.
Referia-me à invenção da feminilidade por parte dos egípcios, uma estética prática e social extraída do brutal feminino mecanismo da natureza.
O traje das aristocratas egípcias, uma requintada túnica de linho transparente, com pregas, só pode ser qualificado de cingido (…)
Elegantes são também os furtivos movimentos do gato durante a noite.
Os egípcios admiravam a macieza… "

In, Personas Sexuais 
Camille Paglia


"Os gatos têm pensamentos secretos, uma consciência dividida.
Nenhum outro animal é capaz de ambivalência, essas ambíguas correntes contraditórias de sentimentos, como quando um gato ronronante enterra ao mesmo tempo os dentes como advertência, no braço de alguém.
O drama interior de um gato ocioso é telegrafado pelas orelhas, que giram para um farfalhar distante enquanto ele repousa os olhos com falsa adoração nos nossos, e depois, pela cauda, que bate ameaçadora mesmo quando ele cochila.
Às vezes, o gato finge não ter qualquer relação com a própria cauda, à qual ataca esquizofrenicamente. A cauda a contorcer-se e a bater é o barómetro ctônico do mundo apolíneo do gato, é a serpente no jardim, trombando e triturando com maliciosa antecipação.
A ambivalente dualidade do gato é dramatizada nas suas erráticas mudanças de humor, saltos abruptos do torpor à mania, com os quais contém nossa presunção:
“Não chegue mais perto. Nunca se sabe”.

Camile Paglia



segunda-feira, 29 de junho de 2015

Por que tantas pessoas não gostam de gatos?




POR QUE OS GATOS SÃO TÃO TEMIDOS E ODIADOS?

Como vimos, nada parece responder racionalmente a esta pergunta. Preste atenção nas pessoas que não gostam de gatos, e notará que a maioria delas age assim porque foi ensinada. Em geral são filhos de pessoas que também não gostavam, e até repetem frases feitas como "Gosto muito de gato, eu cá, e ele lá".
A resposta que dou a essa questão, obtida após uma longa reflexão e discussão com minha esposa, outra amante de gatos, é a seguinte:

Os gatos são odiados porque são um SÍMBOLO da FEMINILIDADE.
Para sustentar essa afirmação, tudo que eu preciso é mostrar que os gatos são um símbolo do Feminino, e que o Feminino, isto é, o aspecto existencial da Feminilidade, presente em toda nossa experiência humana, é uma característica que sofre preconceitos e dificuldades de aceitação.


GATOS e FEMINILIDADE

A primeira afirmação é a mais fácil.
Simbolicamente, o gato é sempre associado às mulheres. A divindade egípcia Bastet, onde os gatos chegaram a ser adorados, é uma deusa, equanto a divindade chacal, um parente do cão, é um deus (Anúbis). Os gatos foram fortemente associados às bruxas, morrendo com elas nas fogueiras da ignorância e sendo responsabilizados por crimes sobrenaturais, como roubar a alma de crianças. [Até hoje, há quem afirme o absurdo de que gatos transmitem asma, curiosa e especialmente, para crianças. Visto que asma nem sequer é contagiosa, e ainda que fosse, o seria tanto contra crianças quanto contra adultos, essa afirmação é tão fantasiosa que só pode ser a versão moderna desta superstição.]

Gatos são animais sensuais, eles se esfregam, se roçam, são sedutores, e por isso consideramos as mulheres bonitas como "gatas", ou "panteras", que são versões macro dos gatos. A beleza é uma virtude que sempre nos soa feminina, Afrodite, a deusa da beleza, é uma mulher. Mesmo quando se chama um homem de "gato", faz-se alusão à uma característica feminina. No nordeste brasileiro há até a estranha expressão "gato véio" (assim mesmo, no masculino), para se referir à mulher de vida sexual ativa.
(…)
A segunda afirmação, de que a nossa cultura tem uma relação difícil com a feminilidade, também não é difícil de demonstrar, mas merece mais esclarecimento aos não familiarizados com um certo tema, que é central neste texto.
Ao longo de milhares de anos, 50% da humanidade, a metade feminina, esteve relegada a uma importância secundária. A condição feminina ao longo da maior parte da história, na maior parte do mundo, sempre foi desvantajosa em vários sentidos, e isso é ponto pacífico.

No entanto, as mulheres são parte integrante da humanidade, a feminilidade faz parte de nossa vida, com plena aceitação social, porém na realidade apenas até certo ponto.
Enquanto a masculinidade foi preservada de modo mais ou menos coeso, a feminilidade foi dividida em duas partes, uma aceita e dignificada, e a outra desprezada e marginalizada, porém, cobiçada. A esses dois aspectos femininos distintos utilizo os nomes de aspecto EVA e aspecto LILITH.

EVA é o aspecto socialmente aceito e dignificado. A figura feminina da Mãe, esposa fiel e zelosa, guardiã do lar, submissa e obediente, e ainda que bela, deve ser discreta e recatada, passiva. Ainda que, simbolicamente tenha levado a culpa pela expulsão do paraíso, da mesma forma como Pandora, na mitologia grega, foi a culpada pela entrada dos males no mundo, Eva ainda assim é reconhecida como uma criação divina ao lado de Adão.

LILITH é o aspecto oculto, marginalizado. A figura feminina livre, independente, que não se submete ao masculino, sexualmente ativa, sedutora, que exerce seu poder sobre o masculino de forma direta. Na maioria esmagadora dos contextos sociais ao longo da história, isso significa estar arbitrariamente associada à prostituição, independente disto ser verdade ou não. Mulheres livres que escaparam do domínio masculino sempre foram acusadas de meretrício, visto que era uma forma de depreciá-las, mas também uma consequência natural do símbolo.

Lilith é um ser mitológico hebráico. Ela foi, na verdade, a primeira mulher de Adão, tendo sido criada em pé de igualdade com este. Porém, recusando-se a ser submissa, acabou fugindo, ou sendo expulsa, do paraíso, sendo então substituída pela obediente Eva.

Não se surpreenda quem nunca tiver ouvido falar de Lilith, embora ela seja personagem largamente reconhecida no folclore hebráico, estando presente nos livros religiosos da Cabala e na tradição Midrash. Todavia, entre as punições que recebeu por sua insubordinação, a mais 'notável' foi justamente o esquecimento, por meio da exclusão de qualquer referência à sua existência na Bíblia.

O observador atento no entanto, poderá notar que é possível ver claramente "lacunas" nos primeiros capítulos da Gênese que sugerem a existência de uma mulher anterior a Eva.

O que nos importa aqui é que, quando estou falando da feminilidade renegada, não estou falando nas mães de família, na rainha do lar ou na donzela, mas sim na mulher insubmissa, que em nossa civilização sempre sofreu a pecha de praticar a profissão que um delirante ditado da burrice popular insiste em dizer ser a mais antiga do mundo.

Portanto, os gatos simbolizam o feminino Lilith, a sensualidade, beleza e sedução, associados à independência, insubmissão e autonomia. 
O arquétipo Lilith, numa sociedade machista, é uma ameaça ao estado de coisas, e portanto, será perseguido e desprezado das mais variadas formas, no entanto, jamais poderá ser extirpado, pois a humanidade depende dele tanto quanto do aspecto Eva, que representa antes de tudo a maternidade, quanto também do aspecto Adão, a masculinidade.

INSUBMISSÃO FEMININA

Os gatos são odiados, porque simbolizam exatamente isso, a Feminilidade Indomável, insubmissa, sensualmente livre e autônoma. Para manter um estado de coisas androcentrista, isto é, centrado na parte masculina da humanidade, é inevitável reprimir e controlar essa feminilidade, embora seja impossível destruí-la, mesmo porque a masculinidade facilmente sucumbe à sua sedução.

Ser vulnerável aos encantos das Liliths, porém, não as torna mais aceitáveis para a mentalidade androcêntrica, pelo contrário. É comum os homens não resistirem às prostitutas, e sempre procurarem seus serviços, mas mesmo assim, as desprezam, manifestando isso das mais diversas formas possíveis.

No mundo de hoje as mulheres estão cada vez mais reclamando o espaço que lhes foi negado historicamente, e isso, entre outras coisas, envolve fundir os aspectos Eva e Lilith numa matriz única, o que torna a feminilidade tão ou mais poderosa que a masculinidade, passando a estar então em pé de igualdade em todos os aspectos. Algo que a mentalidade conservadora e retrógrada não pode suportar.

Não é à toa, que não é difícil achar uma notável intercessão entre pessoas machistas, tanto homens quanto mulheres, e a indisposição por gatos. Não significa que todos os machistas detestem gatos e vice-versa, porque, como já disse, basta a mera convivência com eles para dissolver o preconceito e suavizar o símbolo, mas minha experiência, ao menos, sugere isso na maioria dos casos.
Também não significa que quem deteste gatos necessariamente seja machista, mesmo porque o ódio a gatos é inconscientemente transmitido sempre que possível, mesmo que quem o receba não tenha tendências a androcentrismo exacerbado.

Esse é apenas uma das evidências que suportam essa tese, de que a matriz do preconceito, a origem do ódio, seguramente é associar ao animal um símbolo da feminilidade independente, a feminilidade LILITH.

Enfim, você pode não acreditar nessa teoria, mas experimente observar sob esse ponto de vista e prepare-se para algumas surpresas. Exceções à parte, ela funciona!
Basta aceitar que os gatos são símbolos da Feminilidade Independente, que chamei de Lilith, e que esta é renegada pela nossa cultura, o que é exemplificado principalmente por sua completa omissão na Bíblia.

Se você ainda acha incrível, perceba que Lilith não é a única coisa que foi deliberadamente excluída dos textos sagrados judáico-cristãos, mas qualquer suporte a idéia de uma mulher ser independente e livre. Se os entusiastas de O Código da Vinci estiverem certos em alguma coisa, os Evangelhos também terão excluído toda a importância de Maria Madalena, reduzindo-a de uma líder influente a uma mera prostituta arrependida. A Bíblia é inequivocamente um livro androcentrista, e quando surgem mulheres poderosas, geralmente são feiticeiras pagãs no Velho Testamento que acabam sendo derrotadas.

E além de eliminar não só o símbolo da liberdade feminina, Lilith, e qualquer outro exemplo similar, a Bíblia mesmo citando frequentemente inúmeros animais, entre cães, ovelhas, morcegos, hipopótamos, leões, porcos, cavalos, ratos, etc, sempre destacando sua importância em relação aos humanos, ainda assim...

Apesar de se preocupar em ser um registo amplo da história humana, inclusive envolvendo o Egipto, em todos os mais de 4 milhões de caracteres dos 66 livros canônicos da Bíblia, não há, absolutamente, nenhuma referência à existência de gatos!


Marcus Valerio

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O gato é neurótico mas brinca



O que espanta num gato é a maneira como combina a neurose, a desconfiança e o medo - para não falar numa ausência total de sentido de humor - com o talento para procurar e apreciar o conforto e, sobretudo, a capacidade para dormir 20 em cada 24 horas, sem ajuda de benzodiazepinas.
O gato é neurótico mas brinca(...)
Mas, acima de tudo, descobriu o sistema binário da existência.
Que é:
Dormir faz fome.
Comer faz sono.
Acordo porque tenho fome.
Adormeço porque comi.
Nos intervalos, faço as necessidades.


in, "Como é Linda a Puta da Vida"
Miguel Esteves Cardoso


...o lado cómico da questão

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O Autómato...e o Gato



"O ser humano ainda não iluminado pela sua consciência espiritual quanto aos valores reais ou relativos, deixa o seu mental apoiar os desejos instintivos do seu ser inferior, cujas exigências anárquicas criam tumultos de aceleração de impaciência, e de caprichos incoerentes.
Sofrendo dessas influências, o Autómato humano assemelha-se a certo tipos de animais. 
O cão treme de impaciência diante do osso avidamente desejado.
A inconstância do macaco é típica pela sua dispersão de ideias.
A agitação da mosca lança-a para a armadilha da aranha.
A pressa é a preocupação da abelha pelo dever social.
É também a inquietação da formiga que tem sempre qualquer coisa que fazer, mas que se precipita em voltas supérfluas, sabendo a direcção, mas não a maneira de contornar os obstáculos.

Outros animais, dão-nos uma lição de mestria, sendo exemplo disso o gato cuja sabedoria é um modelo porque junta a maior paixão à mais indiferente calma.
Na sua imobilidade reflecte o seu salto, sempre exacto, a força dos seus rins é proporcional ao relaxe do seu sono: há no seu sono, o abandono da criança recém-nascida, enquanto que o seu instinto está sempre de vigília, a sua leveza sem resistência torna a sua queda sem perigo.
Caça e luta são para ele alegria do jogo: ele caça sem ódio e joga sem finalidade, constantemente pronto ao ataque sem animosidade, e pronto a defender-se sem apreensão:
Vencedor indiferente, ele nunca é vencido.

A serenidade é o fruto da independência.
Cria em ti esta independência, que não é indiferença, mas neutralidade face às impressões recebidas do exterior: bonito e feio, bom e mau, alegre ou triste, agradável ou penível...
Uma coisa é discernir as qualidades, outra é deixá-las afectar a nossa disposição."

in, L'OUVERTURE DU CHEMIN
ISHA S. DE LUBICKZ

quinta-feira, 26 de março de 2015

Porque os Homens odeiam os gatos...



PORQUE ODEIAM OS HOMENS TANTO OS GATOS, COMO AS MULHERES?

Os gatos não têm Ego, porventura o sinal da maior inferioridade humana!

Mas têm uma grande e inalienável dignidade.
Os Gatos são “senhores” o tempo todo de uma impecabilidade que nós não atingimos e por isso os julgamos “implacáveis” porque eles não se deixam manipular pelos humanos, como nós.
Neles não há arrogância nem vaidade.
Neles não há falsa humildade.
Eles tanto perdem como ganham sem afectação.
Neles tudo é tranquilo e doce e mesmo quando brincam ou caçam são desapegados...eles esperam pacientemente tanto a “presa” como o “dono” ou a comida... e eu costumo dizer que o meu gato é que é o meu dono.

Os gatos não atacam as pessoas nem arranham para magoar.
Eles nunca ficam zangados nem cobram nada.
Eles não acusam nem mudam de afectos...
Eles gostam apenas de brincar e quando fazem mal é para se defenderam...os predadores nunca são os animais, mas as bestas humanas!

Por estas e outras razões o meu amor pelos gatos tem aumentado e a minha compreensão alargado, mesmo no campo da minha humanidade natural, na aceitação das coisas, ao ver espelhado nos meus gatos os aspectos do meu ser que eu preciso ainda de integrar.

Os gatos são por excelências alquímicos e foram Mestres nos Templos e por isso companhia privilegiada de sacerdotisas, feiticeiras e poetas...a sua companhia cura e acalma, transforma as energias negativas e limpa o ambiente, carregado de fluxos malévolos...

Eles defendem-nos dos nossos males e do que é estranho e ameaça a nossa vida...até de doenças!
O Gato é um Mestre de incalculável valor dentro de uma casa e um amigo insubstituível...

Quem não tem um gato é menos gente de certeza, e sobretudo as mulheres deviam Ter sempre junto delas esse fiel aliado do feminino e da sabedoria ancestral...

Talvez por isso, sempre que as forças malévolas estão desenfreadas e o poder patriarcal em decadência, os gatos são mortos e perseguidos como o foram conjuntamente com as mulheres e as feiticeiras na Idade Média pela Inquisição.
Os padres e os homens em geral, não gostam de mulheres nem de gatos...eles negam a Natureza e as Forças da Terra que nós mulheres precisamos salvar da destruição.
A seca o fogo e a violência são apanágio das sociedades patriarcais, de um deus vingativo e cruel que mata e condena a raça humana e nos faz Ter medo da VIDA e do SEXO!

Rosa Leonor Pedro

domingo, 15 de março de 2015

GATOS, A TRANSMUTAÇÃO DA ESSÊNCIA DA VIDA



DESPERTAR A CONSCIÊNCIA: GATOS, A TRANSMUTAÇÃO DA ESSÊNCIA DA VIDA

A maioria das pessoas acha que os gatos não fazem nada, são preguiçosos e tudo que fazem é comer e dormir.
Não é bem assim!

Você sabia que os gatos têm uma missão na nossa vida?
Você já parou para pensar porque tantas pessoas hoje em dia têm gatos?
Mais do que o número de pessoas que tem cães?
Aqui está uma série de informações sobre a vida secreta dos gatos.

Todos os gatos têm o poder de, diariamente, remover energia negativa acumulada no nosso corpo. Enquanto nós dormimos, eles absorvem essa energia. 
Se há mais do que uma pessoa na família, e apenas um gato, ele pode acumular uma quantidade excessiva de negatividade ao absorver energia de tantas pessoas.

Quando eles dormem, o corpo do gato libera a negatividade que ele removeu de nós. 
Se estivermos excessivamente estressados, eles podem não ter tempo suficiente para liberar tamanha quantidade de energia negativa, e conseqüentemente ela se acumula como gordura até que eles possam liberá-la.
Portanto, eles se tornarão obesos – e você achava que era a comida com que você os alimentava!
É bom ter mais do que um gato em casa para que a carga seja dividida entre eles.
Eles também nos protegem durante a noite para que nenhum espírito indesejável entre em nossa casa ou quarto enquanto dormimos.
Por isso eles gostam de dormir na nossa cama.

Se eles verificarem que estamos bem, eles não dormirão connosco.
Se houver algo estranho acontecendo ao nosso redor, eles todos pularão na nossa cama e nos protegerão.
Se uma pessoa vier a nossa casa e os gatos sentirem que essas pessoas estão ali para nos prejudicar ou que essas pessoas são do mal, os gatos nos circundarão para nos proteger então, busque ver a reacção dos seus gatos para ver o que eles farão quando alguém entrar em sua casa.
Se eles correm para a pessoa, cheiram-na e querem ser acariciadas por essa pessoa, então relaxe.

Se você não tem um gato, e um gato vira-latas entra em sua casa adoptando-a como lar, é porque você precisa de um gato em casa nessa época em particular.
O gato vira-latas voluntariou-se para ajudar e escolheu você.
Agradeça ao gato por escolher sua casa para esse trabalho.
Se você tem outros gatos e não pode ficar com o vira-lata, encontre um lar para ele.
O gato veio a você por um motivo desconhecido para você a nível físico, mas em sonhos você pode ver a razão para o aparecimento do gato nessa época, se você quiser saber.
Pode acontecer de haver um débito cármico que ele tem que pagar a você.
Portanto, não afugente o gato.
Ele vai ter que voltar de um modo ou de outro para realizar esta obrigação.


Os Gatos e a Cura 

Na época de Atlântida, os curandeiros usavam cristais em seus trabalhos.
Os cristais eram usados como um canal de cura.
Quando os curandeiros visitavam vilas distantes, eles não podiam usar os cristais, pois o povo desconfiava deles achando que eles usavam magia negra.
Como eles não podiam usar cristais, levavam gatos que exerciam exactamente a mesma função dos cristais.
O povo não tinha medo dos gatos e permitiam que eles entrassem em suas casas.
Desse modo, os gatos têm sido usados inúmeras vezes na arte da cura.
Pessoas alérgicas a gatos são emocionalmente incapazes de amar alguém com profundidade, porque reprimem seus verdadeiros sentimentos.
Os gatos são criaturas adoráveis, e amam seus donos acima de tudo, porém têm um jeito diferente de amar, mas nem por isso deixa de ser verdadeiro.
Eles são grandes amigos e companheiros, doces, meigos e fiéis.
Adopte um gato, sua vida nunca mais será a mesma!


in, Holisticocromocaio

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Ode ao Gato



O homem gostaria de ser peixe ou pássaro,
a serpente gostaria de ter asas,
o cão é um leão confuso...

Mas o gato quer ser somente gato,
e todo gato é um puro gato
desde o bigode ao rabo

Pablo Neruda


Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.

Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento ao rato vivo,
da noite até seus olhos de ouro.
Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de um navio.
Seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.
Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.
Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.
Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço ao gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
o seu olho tem números de puro.


Pablo Neruda