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domingo, 29 de junho de 2025

O Mito de Sísifo








O mito de Sísifo fala sobre um personagem da mitologia grega considerado o mais inteligente e esperto dos mortais.  

Entretanto, ele desafiou e enganou os deuses e, por isso, recebeu um castigo terrível: rolar uma grande pedra montanha acima por toda a eternidade. 

Sua história foi usada pelo filósofo Albert Camus como representação da inadequação do ser humano num mundo sufocante e absurdo.

Na mitologia grega, Sísifo, filho do rei Éolo, da Tessália, e Enarete, era considerado o mais astuto de todos os mortais.

Éolo foi um dos filhos de Heleno, filho de Deucalião, e reinou sobre a Tessália. 

Enarate era filha de Deimachus.

Éolo e Enarete tiveram vários filhos: Creteu, Sísifo, Deioneu, Salmoneu, Atamante, Perieres, Cercafas e Magnes, e filhas, Calice, Peisidice, Perimele, Alcíone e Cânace.

Sísifo foi o fundador e primeiro Rei de Éfira, depois chamada Corinto, localizado na região do Peloponeso, onde governou por diversos anos. 
Casou-se com Mérope, filha de Atlas, sendo pai de Glauco e avô de Belerofonte.

Mestre da malícia e da felicidade, ele entrou para a tradição como um dos maiores ofensores dos deuses.

Segundo Higino, ele odiava seu irmão Salmoneu; perguntando a Apolo como ele poderia matar seu inimigo, o deus respondeu que ele deveria ter filhos com Tiro, filha de Salmoneu, que o vingariam. Dois filhos nasceram, mas Tiro, descobrindo a profecia, os matou. Sísifo vingou-se e, por causa disso, ele recebeu como castigo na terra dos mortos empurrar uma pedra até o lugar mais alto da montanha, de onde ela rola de volta.

Segundo Pausânias, ele tornou-se rei de Corinto após a partida de Jasão e Medeia; nesta versão, Medeia não matou os próprios filhos por vingança, mas escondeu-os no templo de Hera esperando que, com isso, eles se tornassem imortais.

Sísifo casou-se com Mérope, uma das sete Pleiades, tendo com ela um filho, Glauco. 
Ele também teve outros filhos, Ornitião, Tersandro e Almus.
Certa vez, uma grande águia sobrevoou sua cidade, levando nas garras uma bela jovem. 
Sísifo reconheceu a jovem Egina, filha de Asopo, um deus-rio. 
Mais tarde, o velho Asopo veio perguntar-lhe se sabia do rapto de sua filha e qual seria seu destino. Sísifo logo fez um acordo: em troca de uma fonte de água para a sua cidade, ele contaria o paradeiro da filha. O acordo foi feito e a fonte presenteada recebeu o nome de Pirene.

Assim, ele despertou a raiva do grande Zeus, que enviou o deus da Morte, Tânato, para levá-lo ao mundo subterrâneo. Porém o esperto Sísifo conseguiu enganar o enviado de Zeus. Elogiou sua beleza e pediu-lhe para deixá-lo enfeitar seu pescoço com um colar. O colar, na verdade, não passava de uma coleira, com a qual Sísifo manteve a Morte aprisionada e conseguiu driblar seu destino.

Durante um tempo não morreu mais ninguém. 
Sísifo soube enganar a Morte, mas criou novas encrencas. Desta vez com Hades, o deus dos mortos, e com Ares, o deus da guerra, que precisava dos préstimos da Morte para consumar as batalhas.

Logo que teve conhecimento, Hades libertou Tânato e ordenou-lhe que trouxesse Sísifo imediatamente para as mansões da morte. Quando Sísifo se despediu de sua mulher, teve o cuidado de pedir secretamente que ela não enterrasse seu corpo.
Já no inferno, Sísifo reclamou com Hades da falta de respeito de sua esposa ao não o enterrar. 
Então suplicou por mais um dia de prazo, para se vingar da mulher ingrata e cumprir os rituais fúnebres. Hades concedeu-lhe o pedido. 
Sísifo então retomou seu corpo e fugiu com a esposa. 
Tinha enganado a Morte pela segunda vez.

Outra história a respeito de Sísifo trata do ocorrido quando Autólico, o mais esperto e bem-sucedido ladrão da Grécia (que era filho de Hermes e vizinho de Sísifo), tentou roubar-lhe o gado. Autólico mudava a cor dos animais. As reses desapareciam sistematicamente sem que se encontrasse o menor sinal do ladrão, porém Sísifo começou a desconfiar de algo, pois o rebanho de Autólico aumentava à medida que o seu diminuía. Sísifo, um homem letrado (teria sido um dos primeiros gregos a dominar a escrita), teve a ideia de marcar os cascos de seus animais com sinais de modo que, à medida que a res se afastava do curral, aparecia no chão a frase "Autólico me roubou". Posteriormente, Sísifo e Autólico fizeram as pazes e se tornaram amigos. Sísifo também seduziu Anticleia, filha de Autólico, que mais tarde se casou com o rei de Ítaca, Laerte; por este motivo, Odisseu é considerado, por alguns autores, como filho de Sísifo.

Sísifo morreu de velhice e Zeus enviou Hermes para conduzir sua alma a Hades. No tártaro, Sísifo foi considerado um grande rebelde e teve um castigo, juntamente com Prometeu, Tício, Tântalo e Íxion.

Sísifo recebeu a seguinte punição: 

Foi condenado a, por toda a eternidade, rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até ao cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase a alcançar o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até ao ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido. 

Por esse motivo, a expressão "trabalho de Sísifo", em contextos modernos, é empregada para denotar qualquer tarefa que envolva esforços longos, repetitivos e inevitavelmente fadados ao fracasso - algo como um infinito ciclo de esforços que, além de nunca levarem a nada útil ou proveitoso, também são totalmente desprovidos de quaisquer opções de desistência ou recusa em fazê-lo.




Significado do mito: um olhar contemporâneo

A história de Sísifo existe desde tempos remotos. 
Entretanto, essa narrativa revela muitos aspectos que servem como ferramentas para a reflexão de questões contemporâneas.

Percebendo o potencial simbólico dessa mitologia, Albert Camus (1913-1960), um escritor e filósofo francês, usou o mito de Sísifo em seu trabalho.

Ele desenvolveu uma literatura que buscava a libertação dos seres humanos e questionava as relações sociais absurdas que rondavam o século XX (e que ainda se mantém).

Uma de suas obras mais famosas é O mito de Sísifo, lançada em 1942, momento em que ocorria a Segunda Guerra Mundial.

Nesse ensaio, o filósofo utiliza Sísifo como alegoria para tratar de questões existenciais como o propósito de vida, a inadequação, a futilidade e o absurdo da guerra e das relações de trabalho.

Assim, Camus elabora uma relação entre a mitologia e a atualidade, trazendo para o nosso contexto o trabalho de Sísifo como uma tarefa contemporânea cansativa e inútil, onde o trabalhador ou trabalhadora não vê sentido em fazer, mas precisa continuar a exercer para conseguir sobreviver.

Muito combativo e com ideias de esquerda, Camus compara o terrível castigo do personagem mitológico ao trabalho exercido por grande parte da classe trabalhadora, condenada a fazer a mesma coisa dia após dia e, geralmente, sem consciência de sua condição absurda.

"Esse mito só é trágico porque seu herói é consciente. O que seria sua pena se a esperança de triunfar o sustentasse a cada passo? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo.
Mas só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição: pensa nela durante a descida. A clarividência que deveria ser o seu tormento consuma, ao mesmo tempo, sua vitória. Não há destino que não possa ser superado com o desprezo."

Albert Camus
in, O mito de Sísifo

segunda-feira, 17 de junho de 2024

The ship of Theseus








The ship of Theseus, 
also known as Theseus’ paradox, 
is a thought experiment that 
raises the question of 
whether an object that has had 
all of its components replaced 
remains fundamentally the same object.



Theseus’ ship was a useful thought puzzle to illustrate the seemingly unsolvable paradox of who we are. Who are we in the face of our growth and evolving identity?

The paradox asks whether a ship - the ship of Theseus - that had been restored by replacing every single wooden part remained the same ship.

Everything in the 3D world changes, transforms, and renews. 
The world as we see it today is totally different from the world that existed 10, 100, or 1000 years ago. Nature continuously blossoms and dies. 
Yet, there is a matrix of continuity.

Consider having two photos side by side of the same person, one picture shows the person in old age and the other picture shows the person in their youth. 
How is the person in the two pictures the same, and how are they different?

The body continually regenerates cells, and science tells us that after seven years, the entire body no longer has any of its original cells. Therefore, the human body, just like the Ship of Theseus, has come to be different to its original form, because the old parts have been replaced with new ones to create an entirely new object.

The cells in our body die too, to get replaced by new ones. There’s very little of us (just some brain and muscle cells) that is the same as 10 or 20 years ago.

  • Coming back to the Theseus paradox - if almost all the cells in our body are different from when we were born, can we say we are a different person? 
  • Is the ship of Theseus the same ship, after having replaced every single part?

Are You Still You?
The Ship of Theseus paradox may seem like an abstract thought experiment at first, but it holds significant implications for our understanding of personal identity and the nature of change over time. As we go through life, we all experience physical, emotional, mental, and spiritual changes that can alter our sense of self. 
How do we know that we are the same person we were five years ago?

Physically, our bodies are constantly changing. 
Our cells (with the exception of some brain cells and your eye lens) are constantly dying and being replaced, and we may undergo significant changes in appearance over time. For example, we may gain or lose weight, develop wrinkles or gray hair, or undergo surgeries that alter our physical form. 

Emotionally and mentally, we may also undergo significant changes over time. 
Our experiences and relationships shape our personalities and perspectives, and we may develop new beliefs or values that fundamentally alter who we are. 

Spiritually, we may also experience shifts in our beliefs or sense of purpose over time. We may undergo spiritual awakenings or crises that fundamentally alter our understanding of ourselves and the world around us. 

The paradox asks whether we are still the same person after these changes, or if we have become someone new.
How much of our identity is tied to our physical body, our memories and experiences, and our beliefs and values?

In a sense, we are all like the ship of Theseus. 
Constantly undergoing change and evolution, and our sense of self is not fixed or static. Instead, we are in a perpetual state of becoming, adapting to new experiences and challenges. Our physical bodies and personalities do not define us; rather, it is our deeper sense of self and purpose. By embracing this fluidity and recognizing the potential for growth and transformation, we can cultivate a deeper sense of self-awareness and acceptance, enabling us to navigate life’s changes with greater ease and resilience.



According to Aristotle, the ship of Theseus is the ‘same’ ship, because the formal cause, or design, does not change, even though the matter used to construct it may vary with time.

This suggests that it’s the design, or the DNA that defines our identity; to preserve this initial design, this DNA, there is continuous change and adaptation.

While our identity is in a continuous evolution, change, and renegotiation, there is an underlying direction that our ship sails toward.

While in the ocean of life, we may drift and adapt, we must always remember where our ship is heading. Why was it initially built for, what was its purpose?

And if we get stuck in a sandbar, that’s perhaps because there are parts of us that need more expression. Exploring the different facets of our identity and bringing forward both our inner twins doesn’t make us inauthentic or contradictory. It's a natural part of the journey called life.


In Greek mythology, Theseus, mythical king and founder of the city Athens, rescued the children of Athens from King Minos after slaying the minotaur and then escaped onto a ship going to Delos. Each year, the Athenians would commemorate this by taking the ship on a pilgrimage to Delos to honour Apollo. A question was raised by ancient philosophers: After several hundreds of years of maintenance, if each individual piece of the Ship of Theseus was replaced, one after the other, was it still the same ship?

In contemporary philosophy, this thought experiment has applications to the philosophical study of identity over time, and has inspired a variety of proposed solutions and concepts in contemporary philosophy of mind concerned with the persistence of personal identity.

The account of the problem has been preserved by Plutarch in his Life of Theseus:

The ship wherein Theseus and the youth of Athens returned from Crete had thirty oars, and was preserved by the Athenians down even to the time of Demetrius Phalereus, for they took away the old planks as they decayed, putting in new and stronger timber in their places, insomuch that this ship became a standing example among the philosophers, for the logical question of things that grow; one side holding that the ship remained the same, and the other contending that it was not the same.

— Plutarch, Life of Theseus 23.1

Over a millennium later, the philosopher Thomas Hobbes extended the thought experiment by supposing that a ship custodian gathered up all of the decayed parts of the ship as they were disposed of and replaced by the Athenians, and used those decaying planks to build a second ship. Hobbes posed the question of which of the two resulting ships, the custodian's or the Athenians', was the same ship as the "original" ship.

For if that Ship of Theseus (concerning the Difference whereof, made by continual reparation, in taking out the old Planks, and putting in new, the sophisters of Athens were wont to dispute) were, after all the Planks were changed, the same Numerical Ship it was at the beginning; and if some Man had kept the Old Planks as they were taken out, and by putting them afterward together in the same order, had again made a Ship of them, this, without doubt, had also been the same Numerical Ship with that which was at the beginnings and so there would have been two Ships Numerically the same, which is absurd... But we must consider by what name anything is called when we inquire concerning the Identity of it... so that a Ship, which signifies Matter so figured, will be the same, as long as the Matter remains the same; but if no part of the Matter is the same, then it is Numerically another Ship; and if part of the Matter remains, and part is changed, then the Ship will be partly the same, and partly not the same.

— Thomas Hobbes, "Of Identity and Difference"


Hobbes considers the two resulting ships as illustrating two definitions of "Identity" or sameness that are being compared to the original ship:

  1. the ship that maintains the same "Form" as the original, that which persists through complete replacement of material and;
  2. the ship made of the same "Matter", that which stops being 100 per cent the same ship when the first part is replaced.


According to other scientists, the thought puzzle arises because of extreme externalism: the assumption that what is true in our minds is true in the world. 
Noam Chomsky says that this is not an unassailable assumption, from the perspective of the natural sciences, because human intuition is often mistaken. Cognitive science would treat this thought puzzle as the subject of an investigation of the human mind. Studying this human confusion can reveal much about the brain's operation, but little about the nature of the human-independent external world.

Following on from this observation, a significant strand[who?] in cognitive science would consider the ship not as a thing, nor even a collection of objectively existing thing parts, but rather as an organisational structure that has perceptual continuity.

In Europe, several independent tales and stories feature knives that have had their blades and handles replaced several times but are still used and represent the same knife. 
  1. France has Jeannot's knife, 
  2. Spain uses Jeannot's knife as a proverb, though it is referred to simply as "the family knife",  
  3. Hungary has "Lajos Kossuth's pocket knife". 

Several variants or alternative statements of the underlying problem are known, including the grandfather's axe and Trigger's broom,where an old axe or broom has had both its head and its handle replaced, leaving no original components.

The Tin Woodman, a character in the fictional Land of Oz, was originally a man of flesh and blood, but all his body parts were replaced one by one by metal parts. nevertheless, he retains his identity.

The ancient Buddhist text Da zhidu lun contains a similar philosophical puzzle: a story of a traveller who encountered two demons in the night. As one demon ripped off all parts of the traveler's body one by one, the other demon replaced them with those of a corpse, and the traveller was confused about who he was.

The French critic and essayist Roland Barthes refers at least twice to a ship that is entirely rebuilt, in the preface to his Essais Critiques (1971) and later in his Roland Barthes par Roland Barthes (1975); in the latter, the persistence of the form of the ship is seen as a key structuralist principle. He calls this ship the Argo, on which Theseus was said to have sailed with Jason; he may have confused the Argo (referred to in passing in Plutarch's Theseus at 19.4) with the ship that sailed from Crete (Theseus, 23.1).

In Japan, the Ise Grand Shrine is rebuilt every twenty years with entirely "new wood". The continuity over the centuries is considered spiritual and comes from the source of the wood, which is harvested from an adjoining forest that is considered sacred.




Two-faced Janus, depicting old age and youth, 
by unknown Italian sculptor, late 18th century, via Hermitage Museum



  One of the more interesting challenges 
to the position that 
continuity of mental states 
characterizes a human being 
is the question of 
transitivity of identity. 



This discussion becomes far more interesting when we stop talking about ancient ships and start talking about human beings. 

  • Every person changes over time. 
  • We grow from infants to old people. 
  • What properties does a three-year-old have in common with their eighty-three-year-old self? 
  • These philosophical questions are called the problems of personal identity. 
  • What are the properties that make up a particular human being? 

We are not the same person we were several years ago. Nevertheless, we are still considered the same person.
  
Some thinkers push the notion that a person is essentially their body. 
We each have different bodies and can say that every person is identified with their body. By postulating that a human being is their body, we are subject to the same insoluble questions that we faced with the ship of Theseus and other physical objects. 

Our bodies are in constant flux. Old cells die and new cells are constantly being born. In fact, most of the cells in our body are replaced every seven years. 
This leads to hundreds of questions that philosophers have posed over the centuries. 
Why should a person stay in jail after seven years? After all, “he” did not perform the crime. It was someone else. Should a person own anything after seven years? The old person bought it. 
In what sense is a person the same after having a limb amputated? 

Science fiction writers are adept at discussing challenging questions like cloning, mind transfers, identical twins, conjoined twins, and other interesting topics related to the notion that a person is the same as their body. 
  1. When an ameba splits, which is the original and which is the daughter? 
  2. When your body loses cells it loses atoms. These atoms can go on to belong to others. Similarly, other peoples’ atoms can become part of your body. 
  3. What about death? We usually think in terms of the end of a person’s existence when they are dead even though the body is still there. Sometimes we use sentences like “She is buried there” as if “she” were still a person. And sometimes we use sentences like “His body is buried there” as if there is a difference between “him” and his body. 

In short, it is problematic to say that a human being is identified with their body.


Other thinkers favor the notion that a person is really their mental state or psyche. 
After all, human beings are not simply their bodies. 
A person is more than a physical object because there is thought. 
To such philosophers, a person is a continuous stream of consciousness—they are memories, intentions, thoughts, and desires. 

This leads us to ask other insoluble questions: 
  1. What if a person has amnesia? Are they the same person? 
  2. Doesn’t a person’s personality change over time? 
  3. Who is the real you: the one who is madly in love with someone or the one who is bored with the same person two months later? 

Literally hundreds of questions can be posed about change in a person’s thoughts, memories, and desires. 

Again, philosophers and science fiction writers have become quite adept at describing interesting scenarios that challenge our notion of a human being as a continuous stream of mental states. These scenarios are concerned with Alzheimer’s disease, amnesia, personality changes, split-brain experiments, multiple personality disorders, computers as minds, and so on. 

There are also many questions along the lines of the mind-body problem. 
How much is the mind—that characterizes a human being— independent of the brain, which is a part of the body?

One of the more interesting challenges to the position that continuity of mental states characterizes a human being is the question of transitivity of identity. 
My mental states are essentially the same as they were ten years ago. That means I am the same person I was ten years ago. Furthermore, ten years ago, my mental states were essentially the same as they were ten years earlier. Hence the person I was ten years ago is the same as the person I was twenty years ago. 

However, at present, I do not have similar mental states to those I had twenty years ago. So how can it be that I am the same person I was ten years ago, and that person is the same as I was twenty years ago, but I am not the same as I was twenty years ago?


Yet another option is that everyone has a unique soul that determines who they are. 
Avoiding the questions of the definition or existence of a soul, let us concentrate instead on how this answers our question of the essential nature of a human being. 
  1. Assuming the existence of a soul, what is the relationship between the soul and the body? 
  2. What is the relationship between a soul and a person’s actions, psyche, and personality? 
  3. If there is no connection, then in what sense is one soul different from another soul?
  4. How can you differentiate between souls—or identities, for that matter—if they have no influence over any part of you? What would the purpose of an identity be? 
  5. If, on the other hand, a connection exists, then does the identity change when the body, actions, psyche, or personality changes? 
  6. Is the soul in flux? 

If the identity does change, we are back to the same questions we had previously asked: 
  1. Who is the real you? 
  2. Are you the one with the soul prior to the change or are you the one with the changed soul?

Most people probably have an opinion 
representing some hybrid version 
of all three ideologies: 
a person is a composite of 
body, mind, and soul. 


Nevertheless, all schools of thought are somewhat problematic.
  



Zhao Chen


 

You’re going from point A to point B and then things fall apart catastrophically and you’re here. […] So you can think: Well, I’m who I was, that would be one kind of identity, I’m the person I thought I was. That blows apart. Then you’re in this terrible place and you think, oh, I’m the sort of person who’s in this terrible place. That’s another form of identify.

And then you can think: I’m not the old person or the person who was in the catastrophe, I’m the new person. But the problem is the new person can fall apart, too.

But then there’s a third way of thinking. This is a better way of thinking. I’m not this, or this, or this, I’m the process by which [the transformation] occurs. I know something, it’s not quite right. It collapses, it causes trouble (the collapse), but I regroup, I learn, I regenerate, I put myself back together and it happens again and it happens again. But each time it happens, maybe, you’re a little wiser, you’re a little more put together.

Jordan B. Peterson


Who are we in the face of our growth and evolving identity? 
Peterson conceptualises our identity as a story and suggests that we therefore shouldn’t look at ourselves as fixed states. Rather our identity is the driving force behind the transformation between the states — for the worse or for the better.

I can’t help but notice similarities to the Zen idea of the eternal now. It posits that the past and the future are mere illusions as there is only what happens in the never-ending moment. Paradoxically, this reduces our story to a single state. Reality is experienced only in the present. The past is in your mind only. The future is speculation.

Peterson’s thoughts are also a nod to personal agency and responsibility. 
In his reading, identity would be less defined by where who, or what we are at any given moment. But by how we respond to those states. That is the decision we make to transcend our inevitable suffering and manage to grow in spite of it. Again, it would make for a good Zen story in that it’s precisely our insufficiencies that cause transformations through a ceaseless effort to make things better than they are.

What makes this interpretation resonate? 
It’s no secret that we tend to be harsher on ourselves than on others. After all, we can’t escape the vivid memories of all the worst versions of our past selves. 
With other people, however, I found that I rather tend to focus on the trajectory they chose for their lives. What I tend to see, respect and admire in people is their story of having been to hell and gotten back out alive. In other words, I see in them the transformative spirit that drives them.

With that in mind, we should be able to put Theseus’ ship to rest. 
The thought experiment seems to be less about the rotten planks and more about the act of taking responsibility for replacing them. 
It’s about the willingness to respond to inadequacies and to let go of insufficiencies, including the ones that gradually built over time. 
Had the ship not been cared for, the vessel would’ve eventually ceased to exist due to natural decay. Granted, ships don’t have agency, which is why Theseus has to act as a proxy.

Even though in the original story the king has long passed away, we could argue that the wood was replaced in the spirit of preserving his legacy. Arguably, this wouldn’t have happened if Theseus’ deeds hadn’t had such a profound impact on Greek society. 

The replacement of the rotten planks becomes a symbol of responsible behaviour. 
The same goes for our shipbuilder. It’s not about where the planks came from. But about his efforts to turn the discarded material into something new and useful. 






Fontes: 
Noah Levin, in“Introduction to Philosophy and the Ship of Theseus.”
Noson S. Yanofsky, in "The Outer Limits of Reason: What Science, Mathematics, and Logic Cannot Tell Us" 
Jordan B. Peterson,in " 12 Rules for Life Tour"




domingo, 19 de maio de 2024

O Mito das Sereias





A fim de se proteger do canto das sereias, Ulisses tapou os ouvidos com cera e mandou que o acorrentassem firmemente ao mastro principal do barco. Sem dúvida, desde sempre, quaisquer outros marinheiros, teriam podido fazer o mesmo, mas mesmo assim pouco ou nada lhes adiantava fazê-lo. O canto das sereias era avassalador e a paixão dos seduzidos teria arrebentado as correntes e mesmo o próprio mastro. Ulisses, porém, não pensava nisso, pois confiava plenamente na cera e correntes, pelo que na inocente alegria, com os meios de que dispunha, partiu ao encontro das sereias.
Mas as sereias possuem uma arma ainda mais terrível que o canto, o silêncio. Desconheço se isso aconteceu alguma vez com algum navegante, mas admito que haja quem se tenha salvo do seu canto, mas não do seu silêncio. O sentimento de tê-las vencido com as próprias forças, a avassaladora arrogância daí resultante, nada neste mundo é capaz de conter.
Estes poderosos e insinuantes seres, não cantaram quando Ulisses chegou, ou porque acreditavam que só o silêncio poderia com esse opositor, ou porque a visão da felicidade e segurança expressas no rosto daquele, os tenha feito esquecer o canto.
Ulisses, contudo, e por assim dizer, não ouviu o seu silêncio, acreditou que estivessem a cantar e que apenas ele se encontrasse a salvo de as ouvir. Com um olhar rápido, viu as curvas dos seus pescoços, o respirar fundo, os olhos cheios de lágrimas ou as bocas entreabertas. Mas como não era melómano, acreditou que tudo aquilo fizesse parte das árias que soavam inaudíveis a sua volta. Em breve, tudo perpassou pelo seu olhar, perdido na distância. As sereias desapareceram, e, quando supunha estar mais próximo delas, já nem mais sabia de sua existência. Mas elas, mais belas que nunca, mexiam-se, esticavam-se, deixavam os cabelos esvoaçar ao vento, soltando as garras na rocha. Abdicaram de o seduzir, mas queriam apanhar pelo máximo de tempo possível, o reflexo dos grandes olhos de Ulisses.
Se as sereias tivessem consciência, teriam sido aniquiladas então. Mas permaneceram e Ulisses, escapou-lhes.
Desta história, há a destacar um breve epílogo.
Segundo reza a lenda, Ulisses era astuto, tão astuto como uma raposa, e que nem a deusa do destino, conseguiu penetrar no seu íntimo.
Embora isto não seja muito compreensível para cada um de nós, talvez ele tenha, de facto, percebido que as sereias estavam mudas, e oferecido a elas e aos deuses aquela simulação, como um mero escudo.

Franz Kafka
in, A Metaformose





O canto da sereia, em específico, carrega uma simbologia rica, podendo ser interpretado de modos diversos, com enfoques variados. O alerta para as tentações, o horror ao desconhecido, o receio da perdição pela incontinência dos desejos, são alguns dos temas mais instigantes deste mito.

As sereias, na mitologia, não são humanizadas: elas são monstros, e sua relação com a humanidade é a da predação. Sereias caçam seres humanos.

Além disso, não há menções à sua beleza — pelo contrário: a única coisa bela a respeito das sereias, no mito grego, é seu canto. Após atrair os marinheiros com sua voz irresistível, elas, é claro, matam suas presas. Não é de todo claro se o objetivo das sereias é alimentar-se do corpo dos navegantes, embora esta seja a explicação mais provável.

O mundo grego era obcecado por muitos tipos de feiura e maldade. 
É um mundo dominado pelo mal, no qual as criaturas, mesmo as belíssimas, realizam ações "feiamente" atrozes. Neste universo, vagam seres assustadores, odiosos por serem híbridos que violam as leis das formas naturais.

— Umberto Eco  

A maior diferença, porém, entre a imagem moderna da sereia e sua concepção original é a cauda de peixe. Originalmente, as sereias eram metade mulher, metade ave de rapina, à semelhança das harpias.
Foi apenas na Idade Média que as sereias passaram a ser representadas como mulheres-peixe, devido à junção de dois mitos distintos: o das sirenes e o das mermaids.

Como se pode deduzir, a palavra sereia provém do mesmo vocábulo que produziu o termo sirene (como em siren, em inglês, que pode significar "sereia" ou "sirene"). Mas outra entidade mitológica popularizou-se no período medieval: as donzelas do mar — seamaids (sea + maids), ou mermaids (mer + maids), junção de sea/mer (mar) e maid (moça).

A beleza feminina da sereia também é proveniente da tradição medieval, provavelmente de origem teutônica. Esta tentação visual é bastante conveniente, visto que, tanto nas iluminuras medievais quanto nas pinturas clássicas, sua capacidade de seduzir os marinheiros pode ser enfatizada pela tentação carnal.

Simbolicamente, esta sereia atraente aos olhos pode representar o temor masculino de arruinar-se devido à provocação sexual e à incapacidade de autocontrole. Não à toa, as sereias têm como presa os marinheiros, homens. E a configuração da mulher-peixe, fortuitamente, permite que a parte inferior de seu corpo fique submersa, o que reflete a cegueira momentânea do homem apaixonado/seduzido, devido a seu foco na tentação hipnótica.

Mas como esta associação não existia ainda na mitologia grega, já que as sereias da Antiguidade tinham uma aparência grotesca, sua simbologia é um tanto diferente. A tentação, neste caso, não era a sexual, mas a da beleza de forma geral. O temor parece mais relacionado à perda do autocontrole, ao enlouquecimento.

Assim é narrada uma das mais antigas aparições das sereias na literatura: a deusa Circe, em Odisseia, instrui o herói Odisseu (Ulisses) sobre como passar pelo habitat das sereias sem ser destruído pela tentação.

Este episódio da Odisseia indica-nos que o ninho das sereias, na tradição grega, não era no mar, mas em um prado — o que é esperado, já que estas criaturas são mulheres com corpo de ave. O que chama mais atenção, porém, é o uso da engenhosidade para satisfazer a curiosidade do herói.

Paulo Nunes 






Os povos do Mediterrâneo viam geralmente a alma sob a forma de um pássaro, o que faz que as Sereias e a Esfinge sejam “músicas", como todas as suas irmãs que cantam e "encantam" perigosamente. 

No canto XII, 184sqq. da Odisseia, Ulisses consegue escapar à sedução das Sereias, cuja voz irresistível "encantava" suas vítimas para devorá-las. Como sentiam o "desejo", mas não podiam realizá-lo, por serem peixes, frias, portanto, da cintura para baixo, bebiam o sangue dos que atraíam com seu canto.

Os artistas dos últimos séculos têm confundido as Tritónidas com as Sereias. 
Mitologicamente, a diferença é enorme: as Sereias são mulheres de corpo de ave, as Tritónidas mulheres de corpo de peixe.

Antes de Ulisses, conta-se que o navio Argos, na expedição em busca do Velo de Ouro, passou pela ilha das Sereias, que ficava no Mar Mediterrâneo. 
Orfeu, no entanto, tocou, com sua lira, uma melodia muito mais bela do que a música das criaturas e, por conseguinte, os Argonautas não foram atraídos para as rochas, com exceção de um deles, chamado Butes, que devido a sua beleza foi salvo depois das profundezas do mar por Afrodite.
Ao praticar uma arte mais bela, Orfeu simboliza uma forma de resistência à mediocridade.

Ulisses, ou Odisseu, era curioso, queria ouvir o canto das Sereias. 
Depois de voltar do Hades, foi alertado por Circe que elas seriam a primeira prova pela qual teria que passar para voltar à Ítaca, antes de enfrentar Cila e Caribde:

Encantam todos os que porventura passam por elas.
Quem inadvertidamente se entregar ao canto
delas nunca mais retornará ao lar, nunca mais cairá
nos braços da mulher, não verá os pequerruchos
nunca mais. Elas enfeitiçam os que passam,
acomodadas num prado. Em torno, montes de
cadáveres em decomposição, peles presas a ossos.
Evita as rochas. Tampa com cera os ouvidos
dos teus companheiros para não caírem na
armadilha sonora. Se, entretanto, quiseres o
o mel do concerto delas, ordena que te amarrem
de pés e mãos ereto no mastro. Que o nó seja
duplo. Entrega-te, então, ao prazer de ouvi-las.

 — Odisseia, XII, 25-45


Ulisses tentava se livrar das cordas, mas seus companheiros, devidamente impedidos de ouvir o canto devido à cera nos ouvidos, foram firmes em não soltá-lo e apertavam mais ainda os nós. Bons amigos nos livram de músicas indesejadas, bons amigos nos alertam, nos livram do perigo. Não por acaso, a expressão “se deixar levar pelo canto da sereia” ganhou a conotação de se deixar ser arrastado para maus caminhos.

Machado de Assis já nos alertava sobre esse canto da sereia no seu “Conto de escola”:

O narrador é o menino Pilar, que assume estar longe de ser “um menino de virtudes”, pois cabula a aula e só vai ao colégio para não apanhar mais do pai. Depois de aceitar uma moeda de prata do colega Raimundo, para “uma troca de serviço”, que seria explicar “um ponto da lição de sintaxe” e ser descoberto devido a uma delação de outro colega, acaba apanhando, dessa vez do professor (lembrando que a história se passa no século XIX). No outro dia, Pilar mata a aula de novo, dessa vez seduzido por um batalhão de soldados marchando ao som de um tambor. Conclui a narrativa se explicando: “a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo do tambor...”

Pilar foi seduzido por dois cantos das sereias: o do dinheiro fácil em troca de favores, como nossos políticos, e a música, que para os estudantes de hoje é o “tamborzão” do “pseudo funk carioca”, que destroça os cérebros assim como as criaturas mitológicas faziam com os inocentes marinheiros.



Franz Kafka, no começo do século XX, reescreve o mito. 
À maneira kafkiana, obviamente. 
Para Modesto Carone, “os mitos são objeto da meditação artística, em geral irônica, do criador de O processo”. 
Em “O silêncio das sereias”, Ulisses não só é amarrado ao mastro do barco, como também enche seu ouvido de cera. 
“Mas eis que então as sereias mostram ter uma arma ainda mais terrível do que o canto: a de seu silêncio”, diz o narrador do conto (aqui na tradução de Marcelo Backes, em Blumfeld, um solteirão de mais idade e outras histórias, Editora Civilização Brasileira). “Embora não tenha acontecido, talvez possa ser imaginado que alguém se salvou de seu canto, mas de seu silêncio com certeza não.”
Ulisses não ouve, as sereias não cantam. 
A inversão do mito nos coloca contra a parede. 

A literatura de Kafka sempre nos faz isso. 
Às vezes o leitor, como o Ulisses do conto, tenta ignorar o canto da sereia da Literatura, quer passar longe da arte nessa odisseia que é a vida, deseja o mais confortável. Faz ouvidos moucos, como se dizia antigamente. 

Os artistas, então, desistem de praticar sua arte (“...assim que Ulisses chegou, as formidáveis cantoras não cantaram, fosse porque acreditassem que esse inimigo pudesse ser vencido apenas com o silêncio, fosse porque a visão da felicidade no rosto de Ulisses – que não pensava em nada a não ser em cera e correntes – fizera com que elas se esquecessem de todo o seu canto”), se entristecem por causa da indiferença pela sua obra (“Ulisses, porém, para expressá-lo de modo simples, não ouviu o silêncio das sereias, achou que elas estivessem cantando e que ele apenas estava protegido de ouvi-las. 

Fugidiamente, viu primeiro os movimentos de seu pescoço, a respiração profunda, os olhos cheios de lágrimas, a boca semiaberta, mas achou que isso fazia parte das árias que se perdiam em torno dele sem ser ouvidas”) e tentam outras formas para atrair o público, apelando para a dança, por exemplo (“Elas, no entanto – mais belas do que nunca –, se esticaram e se contorceram, deixaram os cabelos terríveis balançar soltos ao vento e cravaram as unhas livremente no rochedo. Não queriam mais seduzir, mas apenas capturar o reflexo dos grandes olhos de Ulisses por tanto tempo quanto lhes fosse possível”). 

Ou então pode-se dizer que Ulisses é o crítico literário senhor da razão (“À sensação de tê-las vencido com suas próprias forças e à arrogância que tudo leva de arrasto resultante disso, nada há na terra que possa resistir”) e, apesar dele, o artista continua criando (“Se as sereias tivessem consciência, teriam sido aniquiladas, na época. Sendo como foi, no entanto, elas continuaram ali, apenas Ulisses lhes escapou.”) à procura de outro crítico que o reconheça.

Outros contos de Kafka tratam da dolorosa relação do artista com seu público, como “O artista da fome” e “Josefine, a cantora, ou O povo dos camundongos”. 



Cassionei Niches Petry 






sábado, 20 de maio de 2023

Metamorfoses






(...)

Entretanto, Dédalo odiava Creta, odiava o longo exílio,

morto de saudades da terra natal. O mar aprisionava-o.

“Embora ele barre o meu caminho com as terras e o mar”,

disse, “ao menos, o céu está sempre aberto. Iremos por aí!

Minos pode ser dono de tudo, mas não é dono dos ares.”

Assim dizendo, aplica o seu talento a artes desconhecidas

e revoluciona a natureza. De facto, dispõe penas em filas,

[começando pelas mais curtas, a curta seguindo a longa]

a ponto de se julgar crescerem num declive: assim cresce

gradualmente a flauta campestre com as suas canas desiguais.

Depois, prende-as a meio com um fio e a base com cera,

e, tendo-as assim prendido, dobra-as em suave curvatura

para imitar as aves verídicas. Com ele está o menino,

Ícaro. Sem saber que mexia em algo para si tão perigoso,

ora, de cara risonha, tentava apanhar as penas que a brisa

vagabunda movia, ora amolecia com o polegar a loira cera;

e com esta brincadeira atrapalhava o espantoso trabalho

do pai. Quando deu o toque final ao que tinha planeado,

o artífice aventurou-se a equilibrar o próprio corpo

no par de asas, e ficou suspenso no ar, assim agitado.

 

Equipando também o filho, disse: “Voa a meia altura, Ícaro,

recomendo-te, para que, se fores demasiado baixo, o mar

não pese nas penas, e, demasiado alto, não as queime o fogo.

Voa entre um e outro; não te ponhas, advirto, a contemplar

Bootes ou a Hélice ou a espada desembainhada de Orion.

Vem atrás de mim: eu guiar-te-ei.”. Ao mesmo tempo que dá

tais instruções de voo, ajeita-lhe as inéditas asas nos ombros.

No meio do labor e advertências, molham-se de lagrimas

as envelhecidas faces, tremem as mãos de pai. Beija o filho,

beijos que jamais repetiria; e, elevando-se graças às asas,

levanta voo à frente. Tal como a ave ao guiar as frágeis crias

para fora do alto ninho pelo ar, ele receia pelo companheiro;

exorta-o a que o siga, e ensina-lhe as ruinosas artes

[e, batendo as asas, vai olhando para trás para as do filho].

Viu-os com espanto alguém que pescava com a trémula cana,

ou algum pastor arrimado ao cajado ou lavrador à rabiça

do arado, julgando que eram deuses aqueles que tinham

o poder de viajar pelos céus.

E já à já esquerda ficava

a Samos de Juno (para trás haviam deixado Delos e Paros),

e, à sua direita, Lebinto, tal como Calimne, rica em mel,

quando o rapaz começa a achar gozo no audacioso voo

e se afasta do guia. Arrastado pelo seu fascínio pelo céu,

rumou para as alturas. Ora, a vizinhança do sol voraz

amolece as odoríferas ceras que colavam as penas:

a cera derrete-se. Bem lá agita o rapaz os braços nus,

mas, sem asas para bater, não logra apanhar ar algum.

E a boca que gritava o nome do pai é acolhida pelas águas

azul-esverdeadas, que dele obtiveram o seu nome.

O pobre pai (que já nem pai era), “Ícaro!”, chamava,

“Ícaro!”, berrava. “Onde estás? Onde hei-de procurar-te?

“Ícaro!”, gritava. Então avistou penas a boiar nas ondas.

(...)


OVÍDEO
in, Livro VIII de Metamorfoses


Mito de Ícaro

 

"Ícaro y Dédalo"
Escultura de Rebecca Matte
Museo Bellas Artes
Santiago - Chile




MITO

Ícaro, na mitologia grega, era o filho de Dédalo e é conhecido pela sua tentativa de deixar Creta voando — tentativa frustrada, por não ter noção dos seus limites, e ao voar alto demais, o sol derreteu as suas asas, o que resultou numa queda que o levou à morte nas águas do mar Egeu, mais propriamente na parte conhecida como mar Icário.

Ícaro era filho de Dédalo e, de uma escrava de Perséfone (deusa das ervas, flores, frutos e perfume).
Dédalo era um importante arquiteto, artesão e inventor ateniense.

Em Atenas, Dédalo era um artesão e engenheiro famoso. 
Todos conheciam a sua arte e sua fama ultrapassava a Grécia. 
Os mais poderosos reis queriam adquirir as suas esculturas ou, viver nos majestosos palácios que ele construía.

Com tantas encomendas Dédalo já não conseguia atender todos os pedidos, e para aliviar a sobrecarga decidiu ter um aprendiz em sua oficina, o seu sobrinho Talo. 
Ensinou ao jovem todos os segredos da arte da cerâmica, da arquitetura e da escultura. 

Talo revelou-se um excelente aprendiz e um genial artista, e com sua criatividade inventou o torno de oleiro. Dédalo sentiu uma profunda inveja por não ter sido o criador do invento

A cada dia Talo inventava algo. 
Certa vez, ao ver os dentes pontiagudos de uma serpente, inventou o serrote. 
Passado algum tempo inventou o compasso e outros inventos para a produção de armas, tijolos e vestimentas dos atenienses.
Quanto mais Talo mostrava sua criatividade, mais Dédalo invejava. 

Talo começou a adquirir muita fama em Atenas, conquistando os antigos admiradores e clientes de Dédalo, que aos poucos foi perdendo a genialidade criativa e a inveja tirava sua inspiração. 
Os trabalhos de Talo passaram a ser preferidos. 

Dédalo muito ofendido decidiu eliminar o sobrinho e, dissimulando suas intenções, convidou-o para um passeio ao templo de Atenas, localizado no alto de um penhasco. Talo caminhou inocentemente com o tio e quando passaram pelas muralhas Dédalo empurrou Talo ao precipício. 
Ao encontrar a morte, o rosto de Talo apresentava um sorriso nos lábios.

Dédalo escondeu o corpo de Talo num saco e quando retornava para a oficina foi surpreendido com o saco sujo de sangue. Muito nervoso, disse ser de uma serpente que matara, mas o nervosismo fez com que as pessoas desconfiassem daquela versão. Continuou o caminho sem perceber que os curiosos sorrateiramente seguiam seus passos. E num terreno vazio, Dédalo enterrou o cadáver do sobrinho. 
Do alto do Olimpo, Atenas – a Deusa da Sabedoria – o assistia e transformou a alma de Talo numa perdiz. 

Denunciado, Dédalo foi preso, enquanto a perdiz sobrevoava o tribunal assistindo à justiça feita.

Expulso de Atenas, acusado por matar o seu sobrinho, Dédalo refugiou-se na ilha de Creta, onde já tinha fama de artesão, escultor, inventor e engenheiro.
Minos, rei de Creta, soube da presença do artista, recebeu-o com honras de Estado e colocou-o sob sua proteção, mas exigiu que trabalhasse apenas para ele. Dédalo por sua vez perdeu sua liberdade criadora mais uma vez, pois ficou restrita aos desejos e caprichos do monarca.

Certa vez, a bela rainha Pasífae, esposa do Rei, ao apaixonar-se por um touro divino, pediu a Dédalo que criasse uma armadura no formato de uma novilha que lhe permitisse atrair o touro. Dédalo esculpiu uma novilha em madeira e desse amor incomum da rainha e o touro nasceu o Minotauro, uma criatura com corpo de homem e cabeça de touro. 

Para esconder a vergonha da traição da mulher, Minos ordenou a Dédalo que construísse uma prisão para o monstro, um lugar de onde ele jamais pudesse sair. Dédalo construiu um labirinto com becos e caminhos sinuosos. O labirinto tornou-se na maior criação arquitetónica de todo o Mediterrâneo, gerando inquietação de outros reinos, por todos os séculos.

Após o nascimento de Minotauro, fruto dos amores entre Pasífae (mulher do Rei Minos) e um touro divino, ele e o seu filho Ícaro construíram o labirinto do Minotauro, no qual aprisionaram o monstro. 
Tempos depois o Minotauro foi morto por Teseu.

Aprisionado o Minotauro,  a violenta fera exigia ser alimentado com carne humana
Minos que tinha conquistado Atenas, exigia do rei Egeu sete rapazes e sete raparigas para serem sacrificados. Teseu, o filho do Rei de Atenas revoltado com maléfica exigência juntou-se aos jovens que seriam enviado para Creta e lá chegado seduziu a bela princesa Ariadne, filha de Minos e com a sua ajuda penetrou no labirinto levando um novelo de lã que foi desenrolado desde a porta. Venceu o Minotauro, saiu do labirinto, onde a jovem Ariadne o esperava e apaixonados fugiram, levando o irmão como refém, que esquartejaram durante a perseguição do rei, ganhando tempo para a fuga enquanto o Rei Minos recolhia os pedaços do filho no mar. ( a típica tragédia grega).

O rei Minos, desolado, culpou Dédalo por toda a tragédia e como castigo encarcerou o arquiteto e seu filho Ícaro no labirinto, como prisão perpétua, e assim o criador ironicamente fica prisioneiro de sua maior criação.

Para não morrer de fome, Dédalo alimentava-se a si e ao filho com as plantas que nasciam às margens dos rios que ali fizera para correr água para o Minotauro beber. Melancolicamente, olhava para o céu que se erguia infinito sob a sua cabeça. Era o único caminho livre dentro do Labirinto.
Dédalo sabia que a sua prisão era intransponível, e que Minos controlava mar e terra, sendo impossível escapar por estes meios. 

"Minos controla a terra e o mar", disse Dédalo, "mas não o ar. Tentarei este meio".

Dédalo projetou asas, para ele e para seu filho Ícaro, para conseguirem fugir do labirinto e da Ilha de Creta, e assim fugir da fúria do Rei Minos. 
Para executar o projeto passou a colher todas as penas que caíam do céu, quando as aves sobrevoavam o Labirinto. Ao lado de Ícaro, colheu pacientemente cada pena, colecionando-as conforme o tamanho. Com o tempo, juntaram uma grande quantia, amarrando-as todas com fios de linho, espalhando nelas uma densa camada de cera, ligando-as com segurança.

O plano de Dédalo deu certo e os dois conseguiram sair a voar, da ilha de Creta.
Dessa forma conseguiram fugir do labirinto e das mãos do Rei Minos de Creta. 

Antes da fuga Dédalo alertou o filho para que não voasse muito perto do Sol, para que o calor deste não derretesse a cera das asas, e nem muito perto do mar, pois os respingos das ondas poderiam deixar as asas mais pesadas. 

O voo corre quase perfeito pelos céus da Grécia. 
Dédalo segue na frente, a indicar o caminho para o filho. 
Um pouco atrás, Ícaro deslumbrado com a beleza do céu, da infinita de liberdade, se sente um pássaro indomável, seduzido pela capacidade de voar.
Ícaro não deu importância para os conselhos de seu pai e resolveu voar bem alto como se fosse um deus poderoso. e apesar do seu pai o ter assustado e o alertando sobre o perigo de sua ousadia, ele sobe cada vez mais alto até que se aproxima demasiadamente do sol. Os raios, cada vez mais quentes amolecem a cera que ligava as penas umas às outras. As asas começam a desfazer-se, caindo uma a uma. 
Ícaro pressente o corpo a cair, e afunda-se nas profundezas do mar.

Cada pena que compunha as asas do jovem é transformada numa ilha, formando o arquipélago das Icárias.  

Ao olhar para trás, Dédalo não encontra o filho. 
Olha para as águas do mar, e vê penas brancas que flutuam perdidas, transformando-se, aos poucos em ilhas. 
O filho afogou-se no sonho eterno do homem querer voar como as aves.

Dédalo sobrevoou aflito a região onde o filho caíra, procurando com desespero por seu cadáver. 
Horas depois, ele desceu, ao avistar o corpo sem vida de Ícaro. 
O infeliz pai toma o filho nos braços, caminhando entre os arbustos, procurando um lugar onde possa sepultá-lo. Por onde passa, desperta a comoção do povo da ilha.
Com Ícaro nos braços, Dédalo percebe no céu, uma perdiz a pairar sobre a sua cabeça. 
Era Talo, o sobrinho assassinado por ele por inveja, a pairar no ar, acentuando a tragédia do seu assassino, numa anunciada vingança. 
Dédalo amaldiçoa a perdiz.

Partiu num barco pelo mar.
Dédalo aportou na Sicília. 
Mesmo sendo recebido com honras pelo rei daquele local, a alma de Dédalo vestia um luto perene e nada estimulava mais a sua alma, não sentia nenhuma inveja como no passado. 
Apesar disso, criava o que lhe instruíam, mas não se importava com os aplausos. 

Tornou-se um protegido do reino, e um dia Minos aportou na Trinácria à procura de Dédalo. 
A fim de proteger Dédalo, o rei Cócalo fingiu receber com honras o rei Minos, convidou-o para um banho quente e um banquete, a fim de repousar da viagem. Minos entrou na banheira, sentiu a água morna e fechou os olhos e, de repente, a água começou a ferver e, apesar dos gritos de Minos, ninguém foi socorrê-lo. O Soberano de Creta morreu sufocado pelos vapores quentes, deixando Dédalo livre e seguro, porém já não tinha mais sentido a sua sonhada liberdade. Perdeu demais.

Dédalo seguiu solitário, a ensinar a sua arte a muitos e muitos aprendizes.
Muito velho, vê a hora da morte chegar. 
Agonizando no leito do quarto, recebe os discípulos, que lhe apertam a mão um a um. 
Ao fim da tarde, o genial artista tomba o rosto. 
Dédalo realizou seu maior sonho, vendo sua alma sem asas voar...
Sua alma segue o infinito sem que lhe seja preciso outras asas.






Ícaro deixa-se deslumbrar pela beleza do céu, 
pela infinita liberdade e 
pelo voo indomável.


O sonho de voar não morreu nem com Ícaro, nem com seu criador Dédalo, pelo contrário, ele inspirou muitas e muitas criações artisticas até hoje, de Leonardo Da Vinci a Santos Dumont, de Capacetes de Voo Icarus à música, aos megas eventos mundiais... 

Os mitos nos ajudam a entender as relações humanas e guarda em si a chave para o entendimento do mundo e da nossa mente analítica. A mitologia grega, repleta de lendas históricas e contos sobre deuses, deusas, batalhas heróicas e jornadas no mundo subterrãneo, revela-nos a mente humana e seus meandros multifacetados. Atemporais e eternos, os mitos estão presentes na vida de cada Ser humano, não importa em que tempo ou local. Somos todos, deuses e heróis de nossa própria história.

Os gregos antigos passavam ensinamentos através de lendas e mitos. 
A lenda de Ícaro, era contada, principalmente, para ensinar a importância da humildade após um êxito (vitória) e também, de seguir as orientações dos mais experientes (no caso desse mito é Dédalo, seu pai). 
O mito também faz referência sobre a impossibilidade de um ser humano querer ter poderes semelhantes aos dos deuses, e da importância de termos consciência dos nossos limites.

O mito de Dédalo e seu filho Ícaro representam as limitações físicas do ser humano, apesar da sua criatividade. Enquanto jovens, temos grandes sonhos e grandes projetos em mente, e buscamos realizar algo sagrado que alimenta a liberdade de nossa alma. Tentamos superar todos os obstáculos, mas quando perdemos o bom senso e somos imprudentes em nossas ações, podemos alterar todo o curso de nossas vidas.

Assim como Dédalo, podemos ter talentos excepcionais mas nossa vaidade pode traçar caminhos diferentes. O ego inflamado de Dédalo aprisionou sua arte e seu espírito criativo, tornando-o escravo das paixões alheias, construindo sonhos que não eram os seus. 
Assim como Dédalo, também nós podemos aplicar nossos talentos numa carreira de sucesso conseguindo reconhecimento e aplausos, mas se estivermos distantes de nossos sonhos e projetos de vida, tendo limitada a nossa criatividade, estaremos construindo um labirinto para nossa própria alma.

Quando permanecemos em empregos, relacionamentos e qualquer outra situação que não atende os apelos de nossa alma, nos tornamos prisioneiros. E como Dédalo, podemos nos libertar de situações opressoras e seguir nossos sonhos, mas é necessário reconhecer os limites para sonhar. Dédalo se libertou pela arte com sua criatividade, ciente de que a arte é compulsiva e latente à essência do seu criador. Sua mais ousada criação lhe permitiu a liberdade e o sonho de voar. 

Se Dédalo é a mente criativa, 
Ícaro é a liberdade sonhadora; 
o homem asfixiado nas limitações da liberdade saciada.

Ao ver-se livre a voar como um pássaro, percorrendo um espaço ilimitado, Ícaro alcançou patamares mais altos, rumo aos seus ideais, rompendo os limites, ignorando os conselhos de seu pai, o criador. Icaro voou alto sem pensar nos perigos da queda. 
O castigo de Icaro é o mesmo para todos os mortais, que não obedecem aos limites dos sonhos, usando sua consciência e livre arbitrio. 
Livre, Dédalo pagou um preço alto, ao procurar a sua liberdade de sonhar e criar. 
Os sonhos alimentam a alma; é a ausência de limites e da realidade, que alimentam os fracassos. 


Quando perdemos o bom senso, se formos imprudentes e vaidosos em nossas ações, podemos alterar todo o curso de nossas vidas, assim como o pai e o filho representados no mito grego. 
Aquele velho ditado: 
“Passarinho que esta a aprender a voar entende mais de coragem do que de voo.” 
Mas neste conto, Ícaro não sabia disto.


Dédalo, no primeiro momento, em virtude de seus talentos excecionais, representa os caprichos de uma mente inflamada pelo ego e pela vaidade, que logo dão a vez para a inveja, que aprisiona seu espírito criativo. No segundo momento, a punição por seus caprichos extremados foi construir sonhos que não eram os seus, e criou o labirinto para a própria alma, vivendo uma situação que não atendia o anseio de uma alma livre e feliz, apesar dos aplausos e reconhecimentos.

Dédalo, no terceiro ato, muito mais maduro e sábio, liberta-se da situação opressora (ego, vaidade e inveja que carregava dentro da alma) e volta a ser criativo, ciente de que a arte é a essência do criador e sua mais ousada criação – as ASAS – permitiu que ele e o filho escapassem da prisão/labirinto que foram presos.


Ícaro, jovem, representa a ambiguidade da descoberta inocente, que o leva a ser imprudente e negligente pelo deslumbramento, pensou que era tão poderoso quanto os Deuses, não reconheceu os limites, nem mesmo os percebeu, é a falta do autoconhecimento. Realiza algo extraordinário, mas rompe os limites do criador e ignora os conselhos. Voa sem refletir, motivado pela sensação da liberdade. 

No mito, Icaro, nem sentiu a dor fatal, porque estava asfixiado pela liberdade saciada (Simbologia: Ícaro caiu no mar, morrendo afogado). Por sua vez, o pai (Dédalo) muito sábio pela experiência, realiza um voo perfeito, representando o amadurecimento do ser humano.



Dédalo (pai) é a a mente criativa, mas também é o labirinto, a confusão, a complicação humana de lidar com sentimentos baixos que envenenam a vida, ao mesmo tempo que ele evolui, e representa a redenção, o amadurecimento muito tardio, e portanto também representa a dor.

Ícaro (filho) é a inocência abraçada na liberdade sonhadora, as ambições demasiadas elevadas que o levam para o resultado desastrosamente trágico.
Nalguns dicionários, a palavra Ícaro poderá ser encontrada como funesto, para qualificar algo que é mortal ou que provoca a morte, relacionado com aquilo que pode provocar aflição ou amargura e que provoque tristeza.


O mito,  possui três grandes chaves de interpretação, baseada na divisão grega que apresenta as três grandes referências, 
Nous, Psique e Soma, 
Mundo Espiritual, Mundo Psicológico e Mundo Material

1) Das Leis Espirituais (Nous) – O mito faz referência ao caminho discipular de todo o Ser Humano que acorda para a verdadeira espiritualidade. Trata da busca pelo estado de liberdade, no caso representado pelo voo, que também referencia as capacidades latentes do Ser Humano que vão aos poucos se desenvolvendo de acordo com a necessidade do momento. 

O Sol, neste caso representa a Luz, a Sabedoria, que jamais deve ser buscada. Para tanto, o mito pune Ícaro com a morte por ter ascendido voo além do limite, demonstrando que o discípulo não deve sair repentinamente da caverna, assim como bem nos ensinou o mestre Platão no Mito da Caverna.

O mito também mostra a queda do discípulo da senda, ocasionada pelo encantamento com a sabedoria, que traz à tona o vício da vaidade, da presunção e da ganância, e da falta de paciência.

Extrai-se ainda do mito o ensinamento sobre a importância da obediência à hierarquia ou ordem sagrada, pois, uma vez que Ícaro desobedeceu às orientações de seu pai, que representa o mestre, rompeu com a hierarquia, de forma que saiu do caudal de energia cuja rota seria horizontal. Rompendo a hierarquia, ele enfraqueceu, decaiu e faleceu.

Ainda se extrai o ensinamento de que, embora um discípulo ou mesmo o mestre se desvie, o outro não deve esmorecer e segui-lo na queda, pelo contrário, deve continuar seu caminho espiritual, já que cada um tem o seu, muito embora o ponto de chegada seja único.


2) Das Leis Psicológicas (Psique) – O mito também nos ensina sobre o comportamento da psique humana. Quando se refere ao labirinto, faz analogia às sombras da psique, uma vez que Dédalo era o engenheiro responsável pela criação do labirinto e um dia se viu preso dentro de sua própria construção. Com isso, o mito quer nos ensinar que nós criamos nossas sombras que, ato contínuo, terminam sendo o instrumento que nos aprisiona pelo viés das debilidades psicológicas como o medo, a projeção da culpa, o comodismo, a indolência e outros vícios que acabam por influenciar e determinar as escolhas que fazemos continuamente em nossas vidas.

Ensina, ainda, sobre o livre arbítrio que nos permite inclusive fazer escolhas contrárias a nossos interesses, porém, inexoravelmente, colheremos os resultados dessas escolhas, sejam elas boas ou más.


3) Das Leis Materiais (Soma) – Quanto aos aspectos mais concretos, o mito nos reporta à responsabilidade sobre a paternidade e/ou maternidade, já que, uma vez responsáveis por nossos filhos, devemos permitir-lhes terem suas próprias experiências para, então, poderem amadurecer e tornarem-se capazes de realizar seus sonhos, inclusive conquistar a independência material. 

No mito, Dédalo acaba por fazer todas as tarefas, desde a ideia até à realização das asas, sem a participação de seu filho, que acabou por perder suas referências básicas materiais e alçou voo nas alturas, o que acabou ocasionando sua morte. Na verdade, Ícaro não estava preparado nem tinha sido devidamente treinado e orientado pelo pai. 

Esta alusão simbólica, repete-se constantemente nos fatos da vida. 
Veem-se heranças serem rapidamente consumidas por uma geração de herdeiros despreparados e descomprometidos, filhos que dilapidam o património dos pais ou, ainda, filhos que não desenvolveram maturidade emocional por terem sido sempre abastados materialmente e que, por conseguinte, desconhecem o valor das coisas, além de não saberem reagir às contrariedades da vida.

Só sabem gastar, e nunca aprenderam a ganhar dinheiro.