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quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Meditação XVII





Nunc lento sonitu dicunt, morieris. 
Now, this Bell tolling softly for another, says to me, Thou must die.




 Talvez aquele 
para quem estes sinos dobram 
esteja tão doente que 
ele nem sequer sabe que 
dobram por ele. 


E talvez eu possa me achar muito melhor do que sou, como fazem aqueles que me rodeiam, e ao ver o meu estado podem tê-lo feito dobrar por mim, e eu nem saiba disso. 

A Igreja é católica, universal, e assim são todas as suas ações; tudo o que ela faz pertence a todos. Quando batiza uma criança, esta ação diz respeito a mim, pois esta criança é ligada a essa cabeça que também é a minha, enxertada neste corpo do qual sou um membro. 
E quando a Igreja enterra um homem, esta ação também me diz respeito; toda a humanidade provém de um autor, e forma um único livro; quando um homem morre, um capítulo não é arrancado do livro mas traduzido para uma linguagem melhor, e cada capítulo deve ser assim traduzido; Deus emprega inúmeros tradutores; algumas peças são traduzidas pela idade, algumas pela doença, algumas pela guerra, algumas pela justiça, mas a mão de Deus está em cada tradução, e sua mão reunirá outra vez todas as nossas folhas espalhadas formando a biblioteca onde cada livro deverá permanecer aberto aos outros, da mesma maneira que, quando o sino toca chamando para o sermão, não exorta apenas o pregador mas também toda a congregação; nos chama a todos, e ainda mais a mim, que sou trazido para perto da porta por esta doença.

Houve uma disputa e mesmo um processo (onde se misturaram piedade e dignidade, religião e opinião) sobre qual ordem religiosa deveria tocar primeiro chamando para as orações no início da manhã, e foi determinado que tocaria primeiro aquela que acordou mais cedo. Se entendermos bem a dignidade deste sino, dessas badaladas para a nossa oração da noite, ficaríamos felizes tornando-as nossas, madrugando, nessa aplicação, que poderia ser nossa e também sua, como de fato é. 

O sino toca por ele, e pelas coisas que fez; e embora intermitente, ainda nesse minuto, como no momento em que tocou sobre ele, ele já está unido a Deus. 
Quem não levanta seu olhar para o sol quando ele nasce? 
Mas quem tira o olho de um cometa quando irrompe no céu? 
Quem não inclina seu ouvido a qualquer sino, que toca em qualquer ocasião? 
Mas quem pode removê-lo desse sino no momento em que um pedaço de si próprio está passando para fora deste mundo?

Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um amigo teu, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

Nem podemos chamar isso de mendicância de miséria, ou empréstimo de miséria, como se não fossemos nós mesmos suficientemente miseráveis, mas precisássemos buscar mais na casa ao lado e tomar para nós a miséria dos nossos vizinhos. Na verdade esta seria uma cobiça desculpável, se o fizéssemos, pois a desgraça é um tesouro do qual poucos homens têm o suficiente. 

Nenhum homem tem desgraças o suficiente, eles não são amadurecidos e aprimorados por elas, e apelam a Deus por essa aflição. Se um homem levar um tesouro em ouro maciço ou em barras, mas não tiver algum cunhado em moeda atual, seu tesouro não vai custeá-lo durante sua viagem. 
A atribulação é tesouro em sua natureza, mas não é moeda corrente em seu uso, exceto se ficarmos mais próximos e mais próximos de nossa moradia, o céu, por meio dela. 

Uma outra pessoa pode estar doente também, à beira da morte, e esta aflição pode estar em suas entranhas, como o ouro numa mina, e não ser de uso para ela; mas este sino que me conta sobre a sua aflição, desenterra este ouro e aplica-o em mim: se por esta consideração sobre o perigo que outro corre, tomo o meu próprio em contemplação, me asseguro a mim mesmo e faço o meu recurso a meu Deus, que é a nossa única segurança.


ORIGINAL: 
PERCHANCE he for whom this bell tolls may be so ill, as that he knows not it tolls for him; and perchance I may think myself so much better than I am, as that they who are about me, and see my state, may have caused it to toll for me, and I know not that. The church is Catholic, universal, so are all her actions; all that she does belongs to all. When she baptizes a child, that action concerns me; for that child is thereby connected to that head which is my head too, and ingrafted into that body whereof I am a member. And when she buries a man, that action concerns me: all mankind is of one author, and is one volume; when one man dies, one chapter is not torn out of the book, but translated into a better language; and every chapter must be so translated; God employs several translators; some pieces are translated by age, some by sickness, some by war, some by justice; but God's hand is in every translation, and his hand shall bind up all our scattered leaves again, for that library where every book shall lie open to one another. As therefore the bell that rings to a sermon, calls not upon the preacher only, but upon the congregation to come, so this bell calls us all; but how much more me, who am brought so near the door by this sickness. There was a contention as far as a suit (in which both piety and dignity, religion and estimation, were mingled ), which of the religious orders should ring to prayers first in the morning; and it was determined, that they should ring first that rose earliest. If we understand aright the dignity of this bell that tolls for our evening prayer, we would be glad to make it ours by rising early, in that application, that it might be ours as well as his, whose indeed it is. The bell doth toll for him that thinks it doth; and though it intermit again, yet from that minute that that occasion wrought upon him, he is united to God. Who casts not up his eye to the sun when it rises? but who takes off his eye from a comet when that breaks out? Who bends not his ear to any bell which upon any occasion rings? but who can remove it from that bell which is passing a piece of himself out of this world? No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main. If a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a manor of thy friend's or of thine own were: any man's death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee. Neither can we call this a begging of misery, or a borrowing of misery, as though we were not miserable enough of ourselves, but must fetch in more from the next house, in taking upon us the misery of our neighbours. Truly it were an excusable covetousness if we did, for affliction is a treasure, and scarce any man hath enough of it. No man hath affliction enough that is not matured and ripened by it, and made fit for God by that affliction. If a man carry treasure in bullion, or in a wedge of gold, and have none coined into current money, his treasure will not defray him as he travels. Tribulation is treasure in the nature of it, but it is not current money in the use of it, except we get nearer and nearer our home, heaven, by it. Another man may be sick too, and sick to death, and this affliction may lie in his bowels, as gold in a mine, and be of no use to him; but this bell, that tells me of his affliction, digs out and applies that gold to me: if by this consideration of another's danger I take mine own into contemplation, and so secure myself, by making my recourse to my God, who is our only security. 


John Mayra Donne
in, Devotions Upon Emergent Occasion, and severall steps in my Sicknes





terça-feira, 15 de agosto de 2023

Primeiro vestígio de civilização humana

 






Um dia, há muitos anos, um aluno perguntou à antropóloga Margaret Mead qual era, para ela, o primeiro vestígio de civilização humana. 

A antropóloga americana, autora de “Adolescência, sexo e cultura em Samoa”, respondeu: 

“Um fémur com 15 mil anos encontrado numa escavação arqueológica.” 

O aluno esperava que a professora falasse de anzóis, ferramentas ou barro cozido, mas Mead continuou: 

“O fémur estava partido, mas tinha cicatrizado. É um dos maiores ossos do corpo humano (liga a anca ao joelho) e demora seis semanas a curar. Alguém tinha cuidado daquela pessoa. Abrigou-a e alimentou-a. Protegeu-a, ao invés de a abandonar à sua sorte”. Na natureza, qualquer animal que parta uma perna está condenado. Se for um predador, não consegue caçar; se for uma presa, não consegue fugir. Está morto. 

Então, concluía Mead, que lutou pelos direitos das mulheres nos anos 50 e 60 e foi galardoada com a medalha da liberdade, o que nos distingue enquanto civilização é a empatia, a capacidade de nos preocuparmos com os outros. 

"Ajudar alguém a ultrapassar dificuldades é o ponto de partida da civilização, a civilização é uma ajuda comunitária. " 



António Lopes





quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A morte é o alvo de tudo que vive





"O envelhecer também é um tempo de vida que nos toca profundamente, mas que tem de ser assumido com carinho e compreensão. Ficar velho não quer dizer ficar mais feio, ou mais gordo, ou mais esquecido, ou ouvindo menos, enxergando menos... Engloba tudo isto, mas é também ficar mais sábio, mais compreensivo, com uma visão mais global de todos os acontecimentos, sentir menos medo e com coragem suficiente para enfrentar a vida que se põe no poente.

De que adianta, é assim mesmo.
Isso é um processo natural.
É uma lei do Universo conhecida como a 2ª Lei da Termodinâmica ou Lei da Entropia.
Essa lei diz que: 
A energia de um corpo tende a se degenerar e com isso a desordem do sistema aumenta.
Portanto, tudo que foi composto será decomposto, tudo que foi construído será destruído, tudo foi feito para acabar.
Como fazemos parte do universo, essa lei também opera em nós. 
Com o tempo os membros se enfraquecem, os sentidos se embotam.

Sendo assim, relaxe e aproveite.
Parafraseando Freud: 
“A morte é o alvo de tudo que vive”. 

Se você deixar o seu carro no alto de uma montanha daqui a 10 anos ele estará todo carcomido.
O mesmo acontece a nós.
O conselho é: Viva. Faça apenas isso.
Preocupe-se com um dia de cada vez.

Como disse um dos meus amigos a sua esposa:
“me use, estou acabando!”.
Hilário, porém realista.

Ficar velho e cheio de rugas é natural. Não queira ser jovem novamente, você já foi. Pare de evocar lembranças de romances mortos, vai se ferir com a dor que a si próprio inflige. Já viveu essa fase, reconcilie com a sua situação e permita que o passado se torne passado.
Esse é o pré-requisito da felicidade.

“O passado é lenha calcinada”. O futuro é o tempo que nos resta: finito, porém incerto “
como já dizia Cícero.

Abra a mão daquela beleza exuberante, da memória infalível, da ausência da barriguinha, da vasta cabeleira e do alto desempenho pra não se tornar caricatura de si mesmo.
Fazendo isso ganhará qualidade de vida.
Querer reconquistar esse passado seria um retrocesso e o preço a ser pago será muito elevado. Serão muitas plásticas, muitos riscos e mesmo assim você verá que não ficou como outrora.
A flor da idade ficou no pó da estrada.
Então, para que se preocupar?!
Guarde os bisturis e toca a vida.

Você sabe quem enche os consultórios dos cirurgiões plásticos? Os bonitos.
Você nunca me verá por lá.
Para o bonito, cada ruga que aparece é uma tragédia, para o feio ela é até bem vinda, quem sabe pode melhorar, ele ainda alimenta uma esperança.
Os feios são mais felizes, mais despreocupados com a beleza, na verdade ela nunca lhes fez falta, utilizaram-se de outros atributos e recursos. Inclusive tem uns que melhoram na medida em que envelhecem.

Para que se preocupar com as rugas, você demorou tanto para tê-las!
Suas memórias estão salvas nelas.
Não seja obcecado pelas aparências, livre-se das coisas superficiais. 
O negócio é zombar do corpo disforme e dos membros enfraquecidos.
Essa resistência em aceitar as leis da natureza acaba espalhando sofrimento por todos os cantos.
Advêm consequências desastrosas quando se busca a mocidade eterna, as infinitas paixões, os prazeres sutis e secretos, as loucas alegrias e os desenfreados prazeres.
Isso se transforma numa dor que você não tem como aliviar e condena à ruína sua própria alma.
Discreto, sem barulho ou alarde, aceite as imposições da natureza e viva a sua fase.

Sofrer é tentar resgatar algo que deveria ter vivido e não viveu.
Se não viveu na fase devida o melhor a fazer é esquecer.
A causa do sofrimento está no apego, está em querer que dure o que não foi feito para durar. 
É viver uma fase que não é mais sua. 
Tente controlar essas emoções destrutivas e os impulsos mais sombrios. Isso pode sufocar a vida e esvaziá-la de sentido.Não dê ouvidos a isso, temos a tentação de enfrentar crises sem o menor fundamento. Sua mente estará sempre em conflito se ela se sentir insegura.
A vida é o que importa.
Concentre-se nisso.

A sabedoria consiste em aceitar nossos limites.
Você não tem de experimentar todas as coisas, passar por todas as estradas e conhecer todas as cidades. Isso é loucura, é exagero.
Faça o que pode ser feito com o que está disponível.
Quer um conselho? Esqueça. Para o seu bem, esqueça o que passou. Tem tantas coisas interessantes para se viver na fase em que está.
Coisas do passado não te pertencem mais.

Se você tem esposa e filhos experimente vivenciar algo que ainda não viveram juntos, faça a festa, celebre a vida, agora você tem mais tempo, aproveite essa disponibilidade e desfrute. Aceitando ou não o processo vai continuar. Assuma viver com dignidade e nobreza a partir de agora.
Nada nos pertence.

Tive um aluno com 60 anos de idade que nunca havia saído de Belo Horizonte.
Não posso dizer que pelo fato de conhecer grande parte do Brasil sou mais feliz que ele.
Muito pelo contrário, parecia exatamente o oposto.

O que importa é o que está dentro de nós, a velha máxima continua atual como nunca:
“quem tem muito dentro precisa ter pouco fora”. 
Esse é o segredo de uma boa vida.


Forte abraço.
Pachecão”






domingo, 16 de julho de 2017

Interseccionalidade





Hoje, em conversa com um homem de 92 anos, disse-me que era feminista interseccional. 
Já tinha lido sobre o assunto, há algum tempo, mas com a minha memória de Dory, só me lembrava que tinha a ver com a opressão, não apenas de género mas de tudo.

Mas, um homem de 92 anos dizer que é feminista interseccional...foi uma conversa bem interessante.

Disse-me que os homens da geração dele, que foram para as Grandes Guerras, não eram tão liberais como os de hoje, mas que havia muitos, como foi o caso dele, que não eram machistas e faziam "arranjos"( como lhes chamou) com as mulheres, em que durante a sua ausência, ambos podiam ter relações sexuais com outras pessoas. E assim não traíam nem se enganavam um ao outro, nem viviam oprimidos.
Achei o máximo.
Um homem com esta idade, e com esta experiência de vida.


Então decidi aprofundar o assunto...
Interseccionalidade:

"Interseccionalidade (ou teoria interseccional) é o estudo da sobreposição ou intersecção de identidades sociais e sistemas relacionados de opressão, dominação ou discriminação. A teoria sugere e procura examinar como diferentes categorias biológicas, sociais e culturais, tais como género, raça, classe, capacidade, orientação sexual, religião, casta, idade e outros eixos de identidade interagem em níveis múltiplos e muitas vezes simultâneos. Este quadro pode ser usado para entender como a injustiça e a desigualdade social sistémica ocorrem numa base multidimensional.
A interseccionalidade sustenta que os conceitos clássicos de opressão dentro da sociedade — tais como o racismo, o sexismo, o classismo, capacitismo, bifobia, homofobia e a transfobia e intolerâncias baseadas em crenças — não age independentemente uns dos outros mas que essas formas de opressão se inter-relacionam, criando um sistema de opressão que reflete o "cruzamento" de múltiplas formas de discriminação.

A interseccionalidade é um paradigma importante no conhecimento académico e contextos mais amplos, como o trabalho de justiça social ou demografia, mas as dificuldades surgem devido às muitas complexidades envolvidas no processo das "conceituações multidimensionais" que explicam a maneira em que as categorias socialmente construídas de diferenciação interagem para criar uma hierarquia social.
Por exemplo, a interseccionalidade sustenta que não há experiência singular de uma identidade. Ao invés de compreender a saúde do Ser Humano apenas pelo prisma do género, é necessário considerar outras categorias sociais como classe, habilidade, nação ou raça, para ter uma compreensão mais completa da gama de preocupações com a sua saúde.

A teoria da interseccionalidade também sugere que formas e manifestações de opressão aparentemente discretas são moldadas por uma outra (mutuamente co-constitutiva). Assim, para compreender plenamente a racialização dos grupos oprimidos, deve-se investigar as maneiras pelas quais a racialização se estrutura, seus processos e representações sociais (ou ideias que pretendem representar grupos e membros do grupo na sociedade) são moldadas por género, classe, sexualidade, etc.
A teoria começou como uma exploração da opressão das mulheres negras dentro da sociedade, e hoje a análise é potencialmente aplicada a todas as categorias (incluindo status geralmente vistos como dominantes quando vistos como estados independentes)."


in,  "Mulheres, Linguagem e Poder"




"O conceito de interseccionalidade surgiu a partir de círculos sociológicos no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 em conjunto com o movimento feminista multirracial.
Surgiu como uma crítica ao feminismo radical das feministas heterossexuais da década de 60, que defendia que o  género era o principal fator determinante no destino de uma mulher.
O movimento liderado por mulheres negras contestou a ideia de que as mulheres eram uma categoria homogénea que essencialmente compartilhavam as mesmas experiências de vida. Este argumento foi a constatação de que as mulheres brancas da classe média não serviam como uma representação precisa do movimento feminista como um todo.
Reconheceu que as formas de opressão vividas por mulheres brancas de classe média eram diferentes das que eram experimentadas pelas negras, as mulheres pobres, ou com deficiência...procuraram compreender as maneiras em que género, raça e classe combinados determinam o destino do feminino.
Foi um tomar consciência de que as suas vidas - e suas formas de resistência à opressão - eram profundamente moldadas pelas influências simultâneas de raça, classe, género e sexualidade."


Leslie McCall





Ava Vidal diz que:
"Nem toda a feminista é branca, classe média, cisgénera e sem deficiências."

"Intersecionalidade é um termo cunhado pela professora norte-americana Kimberlé Crenshaw em 1989. O conceito já existia, mas ela deu-lhe o nome.
A definição segundo seu livro é:

A visão de que as mulheres experimentam a opressão em configurações variadas e em diferentes graus de intensidade. Padrões culturais de opressão não só estão interligados, mas também estão unidos e influenciados pelos sistemas intersecionais da sociedade. Exemplos disso incluem: raça, género, classe, capacidades físicas/mentais e etnia.

Em outras palavras, certos grupos de mulheres têm que lidar com múltiplas facetas na vida, que possuem diferentes camadas. Não há um tipo de feminismo tamanho único. Por exemplo, eu sou uma mulher negra e, como resultado, enfrento tanto o racismo como o sexismo ao caminhar em minha vida quotidiana.

Mesmo com o conceito de intersecionalidade rondando o femininsmo há décadas, parece que ele só foi incluído no debate maioritário no ano passado ou alguns anos atrás. E, ainda assim, muitas pessoas estão confusas com o seu significado ou o que ele representa.

Não ajuda em nada que, nos últimos meses, as mensagens difundidas sobre o feminismo intersecional tenham sido um pouco confusas. No último programa “Hora da Mulher de 2013” da BBC Radio 4, a feminista negra Reni Eddo-Lodge foi convidada para debater como foi o ano do feminismo. Ela começou a falar sobre intersecionalidade e racismo estrutural, mas foi seguida por Caroline Criado Perez, que escolheu aquele momento para falar sobre insultos que ela havia recebido na internet vindos de pessoas que a atacaram sob o pretexto, segundo ela afirmou, da intersecionalidade.

Eu preciso avisar que Eddo-Lodge não foi responsável por nenhum dos insultos que ela recebeu, mas a conversa descarrilou e a oportunidade que ela teve de falar sobre o assunto para uma grande audiência, num programa popular de rádio, foi perdida.

Caroline Criado Perez, posteriormente, se desculpou.

Independentemente disso, o que realmente importa aqui é: as pessoas estão interessadas em saber o que é intersecionalidade e como isso as afeta? Estou ansiosa para redirecionar essa conversa de volta ao tema da intersecionalidade no feminismo e o que isso realmente significa.

Para mim, o conceito é muito simples. Como feminista negra, eu não desculpo Chris Brown por agredir fisicamente sua (então) namorada Rihanna, mas sou contra que alguém o descreva como um ‘preto s****o’ , do mesmo modo que uma mulher branca fez comigo. Isso não significa que eu apoio a violência doméstica, como ela, então, me acusou de fazer. Isso significa que eu, como a maioria das mulheres negras, não suporto o racismo.

A principal coisa que a ‘intersecionalidade’ está a tentar fazer, eu diria, é evidenciar que o feminismo, que é excessivamente branco, classe média, cisgénero e capacitista, representa apenas um tipo de ponto de vista — e não reflete sobre as experiências de diferentes mulheres, que enfrentam múltiplas facetas e camadas presentes nas suas vidas.

Roqayah Chamseddine é uma feminista e escritora que explica isso melhor, dizendo:
“O feminismo branco é extremamente reticente e se recusa a reconhecer os obstáculos que as mulheres não-brancas enfrentam sistematicamente, já que elas não são visíveis. Nossas vozes precisam ser ampliadas porque o feminismo branco nos trata como um troféu e usurpa as nossas vozes.”

Então, até que o movimento feminista maioritário comece a ouvir os diferentes grupos de mulheres dentro dele, ele vai continuar a estagnar e não será capaz de seguir em frente. O único resultado disso é que o movimento torna-se fragmentado e continuará a ser menos eficaz.


Racismo no feminismo

Sempre que o tema do racismo é levantado no feminismo, não é diferente de quando esse tema é proposto em qualquer outro espaço de debate. Os discursos banais habituais são usados ​​e a acusação de “dividir o movimento” é muitas vezes atirada ​​ao redor.

A frase “verifique seus privilégios” que geralmente acompanha muitas discussões sobre intersecionalidade, é um exemplo. No Twitter, no início de janeiro, houve uma hashtag iniciada por uma feminista branca: #ReivindicandoIntersecionalidadeEm2014; que levou muitas feministas negras a questionarem como ela pretendia recuperar algo que nunca tinha sido dela em primeiro lugar.

Mas isso prova que o conceito realmente tornou-se popular, agora que há o risco de ser apropriado.

Há a crença equivocada de que o único “privilégio” que você pode ter se refere à cor da pele. Este não é o caso. Você pode ser privilegiado por causa de sua classe social, formação educacional, religiosa, ou pelo fato de que você tem capacidades mentais e físicas ou é cisgénero. Um monte de mulheres negras podem e têm privilégios também.

Um usuário do Twitter disse:
“O fato de que um importante conceito feminista foi empurrado para dentro das discussões maioritárias irrita as feministas brancas que se recusam a reconhecer que elas se beneficiam de um sistema patriarcal, supremacista, heteronormativo e branco.”

Veja esta citação da famosa feminista negra Alice Walker, que disse:
“Parte do problema com as feministas ocidentais, eu acho, é que elas se comparam com seus irmãos e seus pais. E isso é um problema real.”

Eu lembro-me de uma discussão que tive com uma senhora muçulmana que me disse: 
“Eu odeio o feminismo. Não há necessidade para isso existir e eu não quero ter que carregar caixas pesadas só porque vocês, mulheres, querem lutar para serem iguais aos homens.”

O quê?!
Eu tive que enumerar algumas coisas para ela.
Primeiro de tudo, o feminismo não é sobre ter o direito de carregar caixas pesadas. E, como uma mulher negra que mede 1,80m de altura, posso assegurar-lhe que ser vista como fraca fisicamente não foi um problema que eu tive que enfrentar na minha vida adulta. Na verdade, nas poucas ocasiões em que pedi ajuda a homens por causa de um objeto pesado, eles riram de mim e disseram coisas como: “Vamos lá, amor! Não finja que você não consegue lidar com isso. Uma moça robusta como você!”

Enquanto conversávamos, ficou evidente que o problema dela era com o feminismo maioritário. Ou seja, o feminismo que é esmagadoramente branco, classe média, cisgénero e capacitista. Quando vozes são marginalizadas dentro de um movimento, até o ponto em que há mulheres que nem sequer pensam que o feminismo é para elas, o único resultado disso é que o movimento está enfraquecido e cada vez menos eficaz.
Por exemplo, tenho ouvido as feministas tradicionais que estão a tentar proibir o véu apesar da resistência de mulheres muçulmanas, afirmam que elas não sabem o se passa nas suas próprias mentes, e querer usar o véu é o resultado óbvio dessa doutrinação.

Então, o que podemos aprender com tudo isso?
Como vimos, em discussões acaloradas numa rádio no final do ano passado, é fácil nos atolarmos em palavras e em discussões no estilo ele-disse-ela-disse, o que isso significa e o que aquilo significa.

Intersecionalidade ainda é um termo relativamente novo para as massas — mas, sua mensagem é algo com o qual certamente qualquer feminista pode estabelecer uma relação ao começar a ouvir e incluir diferentes grupos de mulheres, suas múltiplas facetas e experiências de vida nos debates em geral e respeitá-las."



Ava Vidal




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Perguntas difíceis...ou não





Hoje, fui lanchar com um Apolo de homem, e depois de alguma conversa e eu não me por a jeito, ele pergunta-me o que eu espero, aprecio e admiro num homem. 

Entendi o que ele queria saber mas, como queria saber a verdadeira intenção da pergunta, perguntei-lhe se ele se referia a um relacionamento com um homem em termos de amizade, ou num relacionamento amoroso.
Ele queria saber o que me cativa num homem a ponto de me entregar fisicamente e emocionalmente.

Não costumo responder a este tipo de perguntas, porque na maioria das vezes têm uma segunda intenção por trás. Mas aqui o Apolo teve a sua graça na forma como abordou a questão, e resolvi responder...

E foi mais ou menos assim:

Comecei por lhe dizer que sou uma mulher que, devido à infância que tive, tenho uma necessidade enorme, desde pequena, em ser autónoma, independente, não depender de um homem para ter a minha paz e tranquilidade na minha vida.
Estou habituada já desde cedo a pagar as minhas contas, a ir atrás do que eu quero sem me encostar a homem nenhum, seja ele pai, marido ou namorado.
E disso não posso abdicar nunca porque, estaria a ser infiel ao meu Código de Honra.
Não me rejo pela Ética e pela Moral criadas pela Sociedade.
Tenho o meu próprio Código de Honra, ao qual sou fiel e leal, antes de o ser com os outros.

E por essa razão, não procuro um homem com uma boa conta bancária, um bom carro, um bom emprego...
Aliás, não procuro nada num homem...porque não sinto o amor como uma necessidade mas sim, como um complemento, um enriquecimento, uma oportunidade de crescimento e evolução mútua...simplesmente aprecio quando algo de bom aparece no meu Caminho, que acredito que, quando acontece não é por acaso.

Então, a pergunta que não quer calar é:
O que é que esse homem pode acrescentar de positivo à minha vida, e eu à dele?

Olhei para ele e vi logo que estava a pensar em coisas materiais, mas não falava...

E eu continuei...
Não me refiro a dinheiro...dessa parte cuido eu.
O que me cativa é algo que vai muito para além disso.

Não me cativa um homem que procure a perfeição em todos os aspectos da vida, completamente dominado pelo Sistema, que não passe de mais um carneiro no meio do imenso rebanho.
Não me cativa um homem mentalmente dominado, que não questiona, que não pensa, que não sente.
Não me cativa um homem desequilibrado em termos energéticos, completamente centrado nos aspectos masculinos, racionais, objectivos e virado para o exterior.
Não me cativa um homem céptico, completamente desligado do seu Sagrado Masculino, do seu Interior Divino.
Não me cativa um homem que seja pinga-amor, mulherengo, infiel sempre que tem oportunidade, que não tem respeito por si próprio entregando-se a qualquer uma que se ponha a jeito, em troca de um momento de prazer banal e animalesco, em que demonstra uma grande falta de respeito por si próprio, falta de carácter e falta de personalidade.
Não me cativa um homem que ande cá por andar, sem objectivos na vida, sem nada que o entusiasme de verdade, sem paixão, sem ganas de viver, sem uma causa para defender.
Não me cativa um homem que se encosta aos outros para chegar a algum lado, não importa qual.
Não me cativa um homem pré-histórico, que olha para uma mulher como um objecto de prazer, como se ela fosse um ser inferior, como se ela não tivesse nada de interessante para dizer, como se estivesse ali para o servir.
Não me cativa um homem com uma vida banal, com um emprego das 9h às 19h, que vai ao futebol e à discoteca todos os fins-de-semana e que não gosta de estar sozinho.

Foi mais ou menos por aqui que ele me interrompeu, talvez cansado de me ouvir dizer o que não me cativa num homem, e me diz que a pensar assim eu iria acabar sozinha e mal amada.

Aí, tive de por as rédeas no meu Ascendente Carneiro para não levantar o tom da conversa...

Respondi-lhe que já sou muito bem amada por mim própria.
Que estaria mal da minha vida se dependesse de um homem para ser bem amada, se é que isso é possível.
Perguntei-lhe se os homens sabem amar de verdade uma mulher.
Ele calou-se...
Acho que entendeu o recado.

Não dependo do olhar de um homem para me sentir feliz!
Não lhe dou esse poder!
Tenho tudo aqui dentro!

Por esta altura, eu já estava de esplanada montada, sem dar muita conversa.
E ele pergunta:
Mas afinal, para que precisas tu de um homem?

Eu olhei para ele, e a vontade de lhe responder não foi nenhuma mas...
Peguei no bolo que estava a comer e expliquei-lhe que eu sou como aquele bolo, bom, delicioso, com os sabores equilibrados, e que por si só não lhe falta nada, está mais do que bom, que não precisa de mais nada para ser um bom lanche.
MAS, se lhe puser uma cereja em cima fica ainda muito melhor!

Ele já estava a olhar para mim de lado...
e eu continuei...
Eu não sou uma metade, não ando à procura da minha alma gémea, da minha metade da laranja...como queiras chamar...eu já sou inteira!
Não preciso de um homem para me completar! Já sou completa!

Eu acho que ter um relacionamento amoroso com um homem é o desafio dos desafios!
Para ter um relacionamento positivo para ambos, têm de estar os dois em sintonia!
A complementarem-se um ao outro!
A servirem de espelho um ao outro, porque só assim podem evoluir juntos como seres humanos, que para mim é a única razão para cá estarmos encarnados na Terra.
A limarem arestas juntos!
A crescerem juntos!
A superarem-se juntos!
A evoluírem como pessoas e como almas!
A terem no sexo uma forma de se transcenderem, de se tocarem enquanto almas.

Por isso, para mim só faz sentido estar num Relacionamento Livre!
Nem fechado(com ciumes, controle, desconfiança, cobranças, casamento, etc) nem Aberto(relacionando-se com outras pessoas exteriores à relação).
Já os vivi e não me preenchem minimamente.

LIVRE!!!
Com compromisso, mas com total liberdade de ir embora quando entender necessário.
E isso só será possível com o meu Poeta Carroceiro!

É preciso ser um homem com uma personalidade muito forte, saber bem o que vale, ter uma boa auto-estima e um grande amor próprio para ser feliz num relacionamento assim.
Que me faça superar a mim própria, ser melhor pessoa e melhor mulher, que traga para fora de mim o que de melhor eu sou, alguém que eu admire e que me admire tal e qual como sou, sem expectativas nem idealizações, que procure a tranquilidade interior, o seu lado mais sagrado, a sua essência e me ajude a fazê-lo também, que seja sensível o suficiente para amar e entender as 3 Susanas que vivem aqui dentro de mim, mas ao mesmo tempo forte o suficiente para estar ao meu lado sem se sentir pequeno, alguém que eu respeite e admire pelo que é e que me respeite e admire pelo que eu sou. Um homem inteiro, seguro de si, que sabe o que quer. Um homem em quem eu confie de uma forma espontânea. Um homem energéticamente equilibrado.
Bicho em extinção, bem sei...mas um dia iremo-nos cruzar por aí, numa esquina qualquer...

E depois disto o silêncio imperava...
E eu pensava...mais um homem lindo de morrer, um autêntico colírio para os olhos, digno de pôr o suspirómetro nos pincaros...mas, carroceiro que dá dó...



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Sou o paradoxo em pessoa



A maior parte das coisas em mim, são difíceis de explicar...
Por vezes, dou por mim a olhar para a expressão facial das pessoas a olhar para mim, em relação a coisas que digo, e fico a pensar que vivemos em mundos diferentes...
Eu vivo constantemente a sonhar acordada.
Como se vivesse num mundo imaginário...um mundo só meu...Susana'sWorld!
É o meu Shangri-la, a minha Pandora...não sei viver sem lá ir todos os dias.

Mas, ao mesmo tempo, no mesmo dia, também sou muito objectiva, lógica, racional, e realista.

E isto baralha as pessoas que andam um dia inteiro comigo.
Algumas, reagem mal...

Eu sou um montão de contradições, sou o paradoxo em pessoa!
A maior parte do meu tempo.
E durante uma pequena parte do meu tempo, sou a coerência em pessoa.

Eu sei...
Sou osso duro de roer...
Mas eu amo cada cantinho meu, mesmo assim...




domingo, 21 de agosto de 2016

Desporto de Alta Competição


Francês Yohann Diniz desmaia durante a marcha atlética de 50km 



Nunca fui competitiva.
Embora, profissionalmente fosse muito valorizado e por vezes exigido nos anúncios de emprego, eu aprendi a contornar isso nas entrevistas de Recursos Humanos.
E por isso, desde cedo sempre soube que estava no caminho errado.
O resultado disso, foi atingir o ponto de saturação da forma mais radical e dolorosa aos 35 anos.

Na minha infância, a minha mãe usava muito a comparação para que eu fizesse as coisas como ela queria. Comparava-me com a minha prima, com as colegas da escola, com as filhas das amigas...todas elas, aos olhos da minha mãe, eram melhores do que eu...
Mas, como nunca fui competitiva, isso nunca resultou para me fazer progredir e evoluir, muito pelo contrário.

O que me fez, desde cedo, correr atrás do impossível sempre foi o Sonhar!
Sempre sonhei mais acordada, do que a dormir.
E não com coisas materiais, mas com emoções, com sentimentos, com experiências.
E isso é que me faz levantar após cair, as vezes que forem necessárias.

E, talvez por não ser nada competitiva, nunca gostei de desporto.
Aquela coisa de, para um ganhar outro ter de perder, é logo desmotivante à partida.
Depois, o não olhar a meios para atingir os fins...como por exemplo, levar o corpo ao limite, sobrecarregar o organismo com suplementos químicos, o uso de drogas para aumentar as performances, etc...tudo para ser o melhor, para bater recordes, para ganhar medalhas, para ser herói, para ficar na história.
Já para não falar das máfias envolvidas, porque o desporto gera milhões.
Assim como, para organizar um evento desportivo internacional, gastam-se milhões em infraestruturas que no futuro não vão ser usadas, em países com graves lacunas nas áreas da Saúde, Educação, Cultura e condições de Trabalho.

Este ano, pela primeira vez, estou a conviver de perto com esta coisa dos gregos, que se chama Jogos Olímpicos.
Em que, logo à partida se divide o planeta entre os mais fortes e os mais fracos, consoante o número de medalhas que se ganha. Se bem, que em algumas modalidades, para os que se acham superiores, perder custe bastante a engolir...principalmente se perderem com os pobretanas do Quénia ou da Etiópia...
Esta competição entre os países, seja no Desporto, na Política, na Economia...seja no que for...não me agrada minimamente.

E pela primeira vez, ouvi alguns atletas de alta competição a falar sobre o que os motiva a viver a sua vida em função de ganhar uma medalha.
Até desfalecer e cair para o lado...
Vejo a infelicidade, a desolação, o perder a razão de viver quando o tempo passa sem ganhar medalhas, o Medo do Fracasso, das críticas, da não aceitação...
Muita Auto-Exigência, Perfeccionismo, Auto-Repressão, Obsessão, Condicionalismos, Abnegação, Limitações, necessidade de Glória e de ser Herói Nacional, Medo, Apego, Culpa...
Tanta falta de Liberdade de Ser, de Viver, de Estar.
Tanta falta de Amor Próprio, de Auto-Compaixão, de Tranquilidade Interna.
A punição por falhar, por ter de melhorar tempos, ter de passar por mais testes, mais provas.
Vivem numa constante Exigência de ser melhor, e melhor, e melhor...
Mas, apenas para o Exterior...enquanto que o interior, cada vez fica mais e mais perdido...
Até chegarem ao ponto de, se refugiarem nas drogas e no álcool, por não conseguirem medalhas e por não terem estrutura emocional para lidarem com críticas negativas.

E depois, o sexo fácil que tanto os atrai e, do qual têm tanta necessidade para libertarem o stress.
Não tinha noção, da importância e da enorme presença do Sexo curto e libertador, presente neste tipo de competições internacionais.
É algo que está sempre presente nas suas conversas, todos os dias.

Eu acho que melhorar tem tudo de bom!
Ser melhor Pessoa, melhorar a nossa Auto-Estima, o nosso Amor-Próprio, melhorar a nossa visão do mundo e de tudo o que nos rodeia, melhorar a nossa consciência do que somos e do que estamos aqui a fazer, melhorar a nossa inteligência emocional e a forma como lidamos com os outros e as suas diferenças, mudar a forma como lidamos com as nossas perdas e com o nosso passado.
Tudo isto são mudanças, que requerem uma dedicação olímpica!

Eu acho que devemos congratular-nos pelas mudanças, e não exigir mudanças…
Curar as nossas feridas, sem culpa, sem medo de as encarar de frente.
Sem mudar por imposição, ou por cobrança dos outros e da sociedade.
Ou por necessidade de provar alguma coisa a alguém, ou ao País.
Ou pela exigência de ser algo que idealizamos.
Ou por necessidade de aplausos, de pódios, de holofotes, de ser o melhor em relação aos outros.

Exigir menos, e VIVER mais!
Com mais tranquilidade, com outra responsabilidade interior e com os outros.

Não quero, de forma alguma, tirar o mérito aos atletas de alta competição.
Muito pelo contrário.
Vivem em função daquilo para ali estarem.
Se são felizes assim, deixá-los viver como escolheram viver.
Mas, pagar 1500 euros para ir a uma abertura dos Jogos Olímpicos, não faz parte da minha Lista de Coisas a Fazer Antes de Morrer!

Imaginem o que os ET's, ao ver este "circo" todo lá de cima, estarão a pensar...
Por isso é que eles nem dão as caras por aqui...ahahahah
Somos mesmo um Planeta pouco evoluído!!!



sexta-feira, 13 de maio de 2016

Feridas



Hoje em conversa, disseram-me:

"Há feridas que é preciso fazer arder por uns segundos, 
para que depois possam sarar." 

E fiquei a pensar no que ele me disse...até agora...
E vim aqui falar um bocadinho sobre isto, para me ajudar a entender melhor...

A ferida vai alastrando, vai-se tornando mais profunda e dilacerante com o tempo, mas nós não podemos ceder perante tamanha dor que nos corrói a alma. 
Temos de manter as aparências, para não sermos julgados pelos outros. 
E mesmo assim, sabe Deus...é como se todo o Esforço não fosse suficiente...o que se torna desgastante.
A tal velha história..."ser preso por ter cão, e por não ter..."
Então para quê tanto Esforço em manter as aparências????
Tudo o que é feito em Esforço, é sinal que se está na direcção errada...

Mas há um momento... 
Há sempre um momento em que tudo se conjuga, e compreendemos que "o que é demais é erro"! 
E nesse preciso momento, temos que tomar uma decisão que ainda nos vai doer mais, porque essa decisão implica destapar a ferida, olhar para ela, tocar-lhe, porque é preciso limpá-la e aplicar-lhe um verdadeiro bálsamo que realmente a cicatrize.

Esse momento é único e indescritível, pois cada um a seu modo irá senti-lo de forma igualmente única, devido ao percurso singular que cada um de nós acredita ter na vida presente.
Algo realmente mágico e profundamente curador acontece nesse momento.
É como se um peso enorme nas nossas costas se estivesse a soltar aos poucos.

Esse momento para mim aconteceu com o meu divórcio, aos 29 anos.

Foi um dizer Basta a mim própria!!!
Foi olhar-me ao espelho e não me reconhecer.
Foi um precisar de me descobrir, de ajustar os azimutes e recomeçar do Zero!
O Zero: o Tudo e o Nada!

E nesse processo, que já dura há 13 anos, fui descobrindo feridas que nem sabia que tinha, que estavam lá bem escondidas no meu inconsciente, e que eram responsáveis por emoções e reacções minhas que eu não gostava de ter e não entendia porque as tinha...
E o processo foi-se revelando bem mais difícil do que eu estava à espera...longo, demorado, complicado...uma verdadeira Caixinha de Pandora...em que tal como no mito, só restou a Esperança.

Nós somos energia codificada.
Temos códigos para tudo.
E nesse exacto momento activamos um código de cura, e quando a contagem para essa activação tem início, o processo torna-se irreversível. 

Já não nos revemos no nosso velho Eu, mas também ainda não se vislumbra nenhuma saída...e nesse instante perdemos a nossa identidade, deixamos de saber quem somos, só sabemos que queremos seguir em frente e descobrir o que estará lá à nossa espera...
É uma viagem no escuro...sem garantias de nada, sem rede...uma viagem solitária.



Saudade é amar um passado que ainda não passou, 
é recusar um presente que nos magoa, 
é não ver o futuro que nos convida... 

 Pablo Neruda


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Decidir como se quer morrer




Na semana passada, estive a ver umas entrevistas a uma curandeira anciã Maya, a Abuela Margarita, e numa das entrevistas ela fala sobre a morte.
Ela conta que os Mayas escolhem o dia da sua partida e a forma como o irão fazer.

Podem ler e ouvir aqui

Estes últimos dias tenho andado a pensar nisto, coisas ainda da última Lua Nova...
E fez-me pensar em duas coisas:
1 - Eutanásia
2 - Testamento Vital

Sempre pensei muito como gostaria que fosse a minha velhice e a minha morte, desde muito nova...coisas de Capricórnio...nasce-se velha e morre-se nova...
E sempre disse que gostaria de escolher como morrer em caso de doença terminal, doar os meus orgãos após a minha morte, ser cremada e que as minhas cinzas fossem entregues à Mãe Terra numa urna ecológica com uma semente da árvore Ginkgo Biloba.
A Ginkgo é uma árvore de origem chinesa, é considerada um fóssil vivo, pois existia já no tempo dos dinossauros, há mais de 150 milhões de anos. É símbolo de paz e longevidade por ter sobrevivido às explosões atómicas no Japão. A planta tinha sobrevivido à radiação em Hiroshima, e brotou de novo no solo da cidade completamente devastada.
Para além disso, tomo extracto de Ginkgo Biloba em forma de suplemento, como terapia alternativa.
Identifico-me bastante com esta árvore, por várias razões, e o meu Mapa Natal também.

Também já fiz o meu Testamento Vital, para que numa situação de acidente ou que eu perca a minha capacidade de decisão, os médicos tenham conhecimento da forma como eu quero morrer.
Considero que tenho o direito a ter escolha da forma como quero deixar o meu corpo físico, e que deve ser dada a liberdade à minha Alma de escolher ficar ou partir.

Manter o meu corpo físico vivo artificialmente, para mim é uma prisão.
E eu sou a favor da liberdade, mesmo na hora da morte.
Deve ser dada à minha Alma a liberdade de partir ou ficar.
Ela sabe quando é a hora.
Penso que o Grande Espírito me deu a vida, porém também me deu algo mais importante: o sentido de responsabilidade e a liberdade de escolher!

Quanto à Eutanásia, é um assunto bastante complexo.
Ela é legal na Holanda, na Bélgica, no Luxemburgo ...e na Suíça é permitia a assistência ao suicídio em doentes terminais.
E, na minha opinião, é feita de uma forma um pouco descontrolada nos três primeiros.
Mais, acho que é usada pelas políticas desses países para se livrarem dos idosos, que só dão despesa ao Estado, controlarem custos com a Saúde, e as clínicas que o fazem, como é o caso da Associação Dignitas na Suíça, fazem-no como um negócio a gerar lucro (cobra até 4 mil francos suíços pela assistência ao suicídio).
No entanto, apesar de todos os aspectos negativos que a legalização possa trazer, sou sempre a favor da liberdade de escolha em relação à VIDA.
Sim, porque é da VIDA que se trata!
Da LIBERDADE DE ESCOLHA em consciência, de uma forma lúcida e não deprimida.

TODOS temos o direito de partir com DIGNIDADE!

No caso da Suíça, a eutanásia NÃO é legal!
Não é crime a assistência ao suicídio de um Doente que deseje pôr fim à vida e cumpra uma série de requisitos estritos, enquanto a eutanásia continua a ser punida por lei.

Na Europa, países como a Holanda e a Bélgica é legal a Eutanásia Activa com controle médico.
A Eutanásia Passiva é quando o médico usa substâncias químicas para aliviar a dor ao doente, e sabe que o doente não vai conseguir sobreviver à acção do fármaco, provocando uma insuficiência respiratória, falência dos orgãos vitais, etc...
É feita nalguns casos para reduzirem os custos com os Cuidados Paleativos, incluindo doentes com doenças neurológicas, com paralesias, etc...Ou seja, não se destina apenas a doentes terminais.
O que gera algum descontrole e um certo abuso no que diz respeito ao Direito à Vida.
Vi alguns idosos na Holanda que usam uma pulseira a dizer que não querem a eutanásia, para evitarem que em estado de perda de lucidez lhes tirem a vida contra sua vontade.

Já no caso da Suíça, é feito com muito mais restrições, com muito mais rigor e com regras apertadas. O pedido de assistência tem de ser demorado e repetido por várias vezes, para assegurar que o doente não está a decidir em desespero, ou por não querer sentir dor.
Tem de ter uma doença incurável, com morte previsível.
Que essa doença provoque no paciente sofrimentos psíquicos e físicos que tornem a sua existência insuportável.
Tem de ter capacidade de discernimento. Não estar a decidir num estado depressivo.

Na Suíça existem duas associações de assistência ao suicídio: EXIT e Dignitas.
Digntas aceita assistir cidadãos estrangeiros e tem um custo económico para o paciente até 4 mil francos suíços.
Não é o caso de EXIT que só atendem pedidos de cidadãos suíços ou estrangeiros que sejam residentes permanentes na Suíça e não cobram pela assistência.
Existe um período "de graça" entre o pedido de suicídio assistido e o momento de colocá-lo em prática. Concede-se um tempo para que o paciente possa acertar as contas com a vida e despedir-se dos familiares e amigos. Quando é fixada uma data definitiva, pede-se uma confirmação ao paciente de que essa é, efectivamente, a sua vontade.
Se for de sua vontade, proporciona-se uma solução com 10 gramas de pentabarbital de sódio misturada com um sumo que o paciente deve, necessariamente, ser capaz de ingerir com as suas próprias forças. Se não fosse assim, se trataria de uma eutanásia e não de suicídio assistido.
87% dos cidadãos suíços concordam com a possibilidade de assistência ao suicídio.

Existe uma enorme diferença entre eutanásia e suicídio assistido.
Neste último caso, só o paciente pode dar o último passo para cumprir sua própria vontade.

Eu sou a favor do Suicídio Assistido regularizado e aceite social e politicamente.
E sou a favor da Eutanásia Activa para casos excepcionais devidamente regulamentados.
A sociedade não tem nada a temer, já que ninguém obrigará ninguém a fazer o que não quer.
Isso criaria um espaço de liberdade que permitiria partir com dignidade a quem assim necessita. Perder o medo será uma imensa vitória.
Todos nós vamos ganhar com isso.


Partilho aqui um filme que já vi várias vezes, e que me fez pensar a sério sobre o assunto da eutanásia.
É um filme espanhol que se chama Mar Adentro:




Mar Adentro, um filme de Alejandro Amenábar de 2005, sobre o direito legal à eutanásia.

Ramón Sampedro, interpretado por Javier Bardem, é um homem nascido numa pequena vila de pescadores da Galicia, que luta para ter o direito de pôr fim à sua própria vida.
Na juventude ele sofreu um acidente, que o deixou tetraplégico e preso a uma cama por 28 anos. Lúcido e extremamente inteligente, Ramón decide lutar na justiça pelo direito de decidir sobre a sua própria vida, o que lhe gera problemas com a justiça, a igreja e até mesmo com os seus familiares.

A chegada de duas mulheres alterará o seu mundo: Julia (Belén Rueda), a advogada que quer apoiar a sua luta e Rosa (Lola Dueñas), uma vizinha do povoado que tentará convencer-lhe de que viver vale a pena. Ele sabe que só a pessoa que o ama de verdade será aquela que o vai ajudar a realizar essa última viagem.

Após 28 anos deitado e a depender de todos à sua volta para tudo, ele chama uma advogada para tentar conseguir legalmente o direito de cometer eutanásia.

Filme de tese em defesa da eutanásia.
De certo modo, Mar adentro é uma visão da morte a partir da vida.
Enfim, a vida não é um valor absoluto.
Por outro lado, o filme mostra-nos diferentes maneiras de conceber o amor.

Por exemplo, vemos a história de Ramón através das diferentes mulheres que rodeiam a sua cama. Primeiro, o amor protector que se estabelece com Rosa, porque ela e outras mulheres vinham-lhe contar os seus problemas.
Depois, com Julia, percebemos uma conexão intelectual; compartilham preocupações similares e concepções totalmente distintas da vida e da morte.
Outro é a relação pai-filho que estabelece com seu sobrinho.
Também é muito importante a relação de amor e desentendimento fraternal que Ramón e José mantêm.
E a relação com a sua cunhada, de absoluta cumplicidade, maternal, onde as palavras são quase desnecessárias porque se entendem com um olhar.

Além disso, Mar Adentro é um dos versos de um poema de Ramón.
Há um momento no filme onde Ramón diz que o mar lhe deu a vida e o mar a tirou, porque foi onde ocorreu o acidente. O mar é, também, a sensação de escape.
É essa linha do horizonte que nunca se acaba, que representa o infinito.
O homem parece ser o único animal capaz de justificar a morte a partir da vida.


quarta-feira, 6 de maio de 2015

.............terá que semear a semente



Hoje de manhã, ao pequeno almoço com uma amiga ,veio-me uma imagem...

Uma mulher sentada, a olhar para a terra e para uma semente que tem na mão... e olha e olha, a terra e a semente...
Quer muito um dia ser essa linda flor que imagina que nascerá dessa semente, mas ainda não percebeu que terá que semear a semente, depois cuidar dela, e com o tempo a semente irá dar uma bela flor...

O problema é que as pessoas querem tudo para ontem, e sem dar trabalho.
Olham para os outros, e só vêm as suas conquistas, e nem sequer questionam o que essas pessoas tiveram de sofrer para chegar até ali.
Acham sempre que foi sorte, que lhes caiu do céu...

Tudo leva tempo a construir, e o ser humano tem o hábito de pensar em tudo ao mesmo tempo , perder-se de si. Pensa em todos os passos que quer dar, mas vê isso como um peso.
É visto na sua cabeça como algo carente e não construtivo , como urgente e não como uma mudança de direcção para algo melhor...

Aquilo que deveria ir sendo construído com calma e carinho, aceitando os desafios que cada momento traz, é ansiado em pura agonia para amanhã...e no fim fica tão cansado na sua cabeça e nada fez... nem tem já força para fazer...
Os desafios têm de ser acarinhados e aceites por nós, pois fazem parte da vida.

Que fazer então ?
Criar a meta, os objectivos e colocar a mão na massa...
Um passo de cada vez...
Um dia nascerá a FLOR...

quarta-feira, 25 de março de 2015

De onde vens?





Perguntaram-me, há dias, "de onde vinha?".

Achei graça à pergunta a que prometi responder.
Não logo. Porque venho de muitos mundos, que preciso enumerar.

Venho do ventre materno. De um ventre que foi só meu durante nove longos meses.
Venho da minha mãe, da sua carne, do seu instinto, do seu desejo.
E do meu pai também. Apesar de o ter visto muito pouco ao longo da vida.
Venho dos pais dos meus pais, os meus avós.
Sobretudo maternos, com quem cresci.
Venho do Norte de Portugal, de onde eles eram naturais.
Venho dos tios e dos primos com quem brinquei em criança e me ensinaram a rir.
Venho da casa dos amigos, onde passei noites e dias.
Venho daqui e dali, onde o coração me leva, e que eu gosto tanto de me deixar levar sozinha.
Venho dos amores que tive, dos afectos que dei e recebi.
Venho do Cosmos, do Universo, a minha verdadeira casa.
Venho, enfim, de Ti que me deste, com amor, a vida que não pedi!


"Talvez porque me julguem mais sadia ou mais forte - sabe-se lá o que os outros pensam de nós - a verdade é que muitos me procuram e desabafam as suas mágoas. E ultimamente, várias pessoas conhecidas têm passado por desilusões, doenças, fracassos e perdas e têm vindo ter comigo para conversar.É uma prova de confiança que me dão, mas à qual só posso responder com a minha experiência pessoal. 
Julgo conhecer-me um pouco melhor agora do que antes, mas o sofrimento é, sempre, um domínio profundamente solitário. 
Diria mesmo que é a área mais solitária da nossa vida.
Partilha-lo é, para alguns, uma catarse absolutamente indispensável.
Para outros, ao contrário, é algo de impensável, se a dor for muito profunda.
Chorar talvez seja para esta última categoria, a solução possível.
Só que não chora quem quer, mas sim quem pode.
E, sei-o, nem sempre é fácil, nem sempre é possível.
Porém, há algo que todos podemos fazer.
É rodear de carinho, de interesse pessoal, de solidariedade, todos aqueles que estão em sofrimento.
E não deixar para amanhã um telefonema, um mail, uma visita, enfim, até um pensamento positivo.
O sofrimento dos outros pode ser, também, um dia, o nosso..."


Helena Sacadura Cabral




Quando se perde tudo na vida, por várias vezes, e se tem de recomeçar do zero sozinha por várias vezes, nada do que depois possa acontecer-nos tem grande importância.

E isto vem ao encontro de um tema sobre o qual me tenho debruçado nos últimos sete anos, que é o da necessidade do silêncio dentro de nós.
Este pode vir da meditação, da contemplação ou até do desejo pontual de vazio.
Eles são cada vez mais uma necessidade do ser humano para quem o espiritual não está necessariamente ligado a uma prática religiosa.
Se a meditação me tem acompanhado, com mais ou menos intensidade, ao longo da vida, a contemplação foi uma descoberta recente, de há uma meia dúzia de anos.
Dito de outra forma, ela existia em mim há muito tempo, mas a descoberta da sua real importância só aconteceu muito depois.

Anos de solidão, a viver sozinha, com a família do lado de lá do oceano, haviam-me ensinado a "olhar" para o mundo que me rodeava de forma mais atenta.
Mas não me educaram para o mais importante - que vem muito bem sintetizado na frase de Tolentino de Mendonça -, e que é uma outra forma de conhecimento, despojado, de nós próprios e do mundo que nos cerca.


"A contemplação não é uma sabedoria onde nos instalamos: 
é antes uma forma de exposição desarmada do olhar, 
uma colocação sem reservas, 
uma aprendizagem sempre a ser refeita, 
um despojamento dos porquês".


Quanto mais cresço - e todos continuamos a crescer até morrer - mais consciência tenho de que precisamos ter, no caos do dia a dia, como contra ponto dos momentos reflexivos, uns instantes de pura contemplação porque, sem eles, a vida torna-se algo muito pouco suportável.









quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

És feliz?



Hoje perguntaram-me se sou Feliz...
E quando ia para responder, calei-me...

O que ia dizer, para despachar o assunto da conversa, não era o que eu na realidade penso em relação à tão procurada Felicidade. Por isso me calei.
Quem me fez a pergunta ficou a achar que eu não tinha resposta...que não era feliz!
E este tipo de reacção tira-me logo a vontade de responder...

Respondo aqui...onde gosto tanto de conversar.

Ser feliz não significa estar sempre a sorrir, não significa não ser atingido por nada.
Não significa ter uma vida em que tudo flui de acordo com a nossa vontade.

Significa: mesmo na tristeza, na dor, não se sentir miserável, desafortunado;
Significa poder compreender que na vida, existem as polaridades, assim como dia e noite, inverno e verão, chuva e sol, e que tudo está perfeito como está, que o que acontece é o apropriado, mesmo que no momento eu não consiga compreender a razão;
Significa poder dizer 'sim' à vida, independente do que ela nos apresente.

Ser feliz não pode depender das circunstâncias externas.
Depende de uma atitude interna em relação à vida.


Pronto já respondi...e sim, SOU FELIZ!
Para mim é um privilégio como Alma que sou, 
estar aqui a fazer este Caminho de Evolução.
E cada obstáculo no Caminho são lições a aprender...
não estou cá em passeio.


sábado, 22 de novembro de 2014

...................num banco de jardim




 "Quando uma mulher percebe que o poder está dentro dela, então o homem emerge como um indivíduo ao invés de, simplesmente, ser um exemplar do que ela pensa que precisa.
Do ponto de vista masculino, quando um homem olha uma mulher e vê somente alguém com quem ir para cama, ele a está vendo como um objecto para a satisfação de alguma necessidade própria, e não como uma mulher de facto.
É como olhar vacas, e pensar apenas em rosbife.

 Joseph Campbell 
 in, A Joseph Campbell Companion: Reflections on the Art of Living


sexta-feira, 20 de junho de 2014

Porque usas uma camisola com a cara de Che? Sabes quem realmente foi?


Hoje na rua, cruzei-me com um rapaz que usava uma camisola com a cara do Che...
E, enquanto esperávamos que o semáforo passasse para verde, perguntei-lhe:
Porque usas essa camisola com a cara do Che?
Sabes quem ele realmente foi?

O rapaz disse que era o seu ídolo, porque defendeu a igualdade e a liberdade.
Eu comecei-me a rir (com todo o respeito...mas deu-me vontade de rir... as pessoas idolatrarem alguém desta maneira, manipuladas por uma esquerda extremista carente de líderes...)

É impressionante a quantidade de pessoas que se vêm na rua com a cara do Che estampada na roupa, bonés, bikinis, etc...mas o que é isto???
O pessoal não lê, não se informa?
Isto deixa-me perplexa, a sério...
Têm a cabeça para quê? Não pensam? Não questionam?

Ainda pensei em lhe falar sobre Che Guevara, quem realmente foi...mas depois pensei:
Para quê? Nem vale a pena...
É como a Madre Teresa de Calcutá...falar para quê?
Quando as pessoas criam os seus ídolos, quebrar o que eles tanto idolatram é como uma ofensa pessoal. As pessoas querem mesmo é acreditar, sem por em questão as suas muletas.

Já li vários livros sobre a vida de Che, com relatos de testemunhas que conviveram e privaram directamente com ele.
Transformado ao longo dos anos numa espécie de “Jesus Cristo revolucionário” graças aos esforços incansáveis da esquerda mundial, o argentino Ernesto Guevara é objecto de um autêntico culto à sua personalidade em todo o mundo.
Entretanto, o cubano-americano Humberto Fontova( um dos testemunhos que mais me impressionou pela forma como fundamentou tudo o que disse) deixa claro que, embora Guevara seja um inegável sucesso de marketing político e comercial – com a sua imagem estampada por tudo quanto é lado, desde camisolas para bebes, biquíni vestido pela supermodelo Gisele Bundchen – na vida real pode ser considerado um fracasso.

O argentino, muito longe do homem perfeito idealizado pela mitologia esquerdista, era uma pessoa ressentida, vingativa, incompetente e responsável directo pelo assassinato de centenas de pessoas absolutamente inocentes de qualquer tipo de crime.

Vindo de uma desestruturada família burguesa argentina simpatizante do comunismo, Guevara seria considerado, sob qualquer aspecto, um vagabundo, um andarilho perdido no mundo. Seu envolvimento com exilados cubanos no México após uma passagem pela Guatemala acabou levando-o para aventuras em Cuba, no seio do movimento armado contra o ditador Fulgêncio Batista.

A luta contra Batista é um capítulo à parte, que revela muito do modus operandi de Guevara e Fidel Castro. Diferente do senso comum, segundo o qual Batista foi derrotado por uma série de intensas batalhas movidas por guerrilheiros audaciosos, o que menos houve na derrocada de Batista foi luta armada. Castro operava, sobretudo, no terreno da propaganda, angariando dinheiro em grande quantidade, especialmente das elites cubanas, cansadas do regime de Batista, e as simpatias internacionais, em particular nos Estados Unidos, através da mídia que se encarregou de forjar a imagem de valorosos revolucionários para Fidel Castro e Che Guevara – que, aliás, nessa época era apenas mais um entre vários colaboradores da revolução.

O regime de Batista caiu principalmente pela corrupção de suas forças, que aceitavam dinheiro de Fidel Castro para retirar-se sem luta, cansaço das elites cubanas e dos americanos em tolerar os métodos de Batista, e, em especial, a crença em que Castro e seus homens eram realmente democratas e honestos em seus objectivos.

Após a vitória na luta contra Batista, em pouco tempo a verdadeira face do regime revelou-se: violência, assassinatos, tortura e prisões. E Guevara teve papel fundamental nisso.
Neste ponto, Fontova faz uma clara distinção entre Castro e Guevara.
Enquanto Fidel Castro era muito mais hábil, utilizando a violência como meio para atingir um fim, Guevara parecia ver na brutalidade e assassinatos um fim em si mesmo. 
Guevara acreditava que a “violência revolucionária” – leia-se, a morte sem piedade de todos os inimigos, reais ou imaginários – era a melhor forma de controlar o poder. 
Assim, desde o início, Guevara ligou-se ao aparato repressivo do bloco soviético, transportando seus métodos para o cenário cubano.

A "revolução" cubana foi feita com dinheiro americano e os "revolucionários" foram todos filhotes da Burguesia, assim como Castro é filho de Latifundiário e Guevara filho de família burguesa desestruturada! 
Castro esteve no poder até há bem pouco tempo, sustentado pela Maçonaria Americana e Latinoamericana , isto porque Castro deixou a Maçonaria livre em Cuba!

Talvez o mais chocante para os fãs de Guevara que por ventura lerem o relato de Fontova, seja a imensa distância sobre o significado que lhe é atribuído – um ícone da liberdade e igualdade – e a sua real figura.
Assim, um homem que é cultuado por líderes de minorias raciais, hippies, alternativos e jovens, tinha, na verdade, uma mentalidade racista, patriarcal, despótica e arrogante, desprezando negros, jovens, “cabeludos”, música – enfim, tudo aquilo que, dizem as esquerdas e desinformados em geral, Guevara simbolizaria.

Humberto Fontova mostra como essas e muitas outras incoerências foram e ainda são resultado do verdadeiro caso de amor que existe entre os meios intelectual e midiáticos, especialmente o norte-americano, e a ditadura de Fidel Castro, citando por exemplo o jornal New York Times, que repetiu com Castro exactamente o que já tinha feito, na década de 1930, encobrindo os crimes do regime de Stalin.

Um dos maiores biógrafos “chapa-branca” de Guevara citado várias vezes por Fontova, o mexicano Jorge Castãneda, antigo esquerdista radical há alguns anos convertido ao socialismo light de cunho social-democrata actualmente predominante na política latino-americana e nos EUA, esteve envolvido num episódio no mínimo curioso.
Convidado para um evento na Venezuela, promovido pela oposição ao ditador Hugo Chávez, Castãneda criticou o facto de que “Chavez estava tentando criar outra Cuba” na América Latina.
Para quem dedicou grande parte de sua vida a bajular o tirano Castro e vassalos do ditador como Guevara, esta é uma reviravolta e tanto.

A imensa incompetência de Guevara à frente do ministério da economia destruiu a infraestrutura cubana, desorganizando até hoje um dos países mais prósperos das Américas, levando o caos e a miséria a uma população cristã e orgulhosa, favorecendo a sua submissão ao projecto de poder totalitário ambicionado por Fidel Castro. 
A este respeito, o Fontova mostra com números e informações detalhadas como Cuba era económica e socialmente antes da chegada ao poder de Castro e Guevara, e como ficou depois.

Ele revela episódios pouco conhecidos, como o envolvimento de Guevara numa série de atentados terroristas frustrados nos EUA, logo após a chegada ao poder em Cuba, época em que os americanos ainda tinham ilusões quanto aos objectivos de Fidel Castro; o real significado da Crise dos Mísseis – que funcionou como um “sinal verde” para Castro impor seu regime totalitário a Cuba, já que teve a garantia dos EUA de que sua ditadura não seria incomodada –; a chamada “invasão da Baía dos Porcos” e a dura repressão contra a revolta popular mantida durante metade da década de 1960 pela população rural cubana contra o regime de Fidel Castro, como reacção à colectivização forçada.

As aventuras externas de Guevara, primeiro no Congo e depois na Bolívia, em missões militares permeadas de muita retórica revolucionária vazia e nenhuma competência até mesmo para assuntos práticos elementares (como, por exemplo, ler uma bússola para não se perder na selva), resultaram primeiro no descrédito de Guevara como um líder revolucionário viável, após o fracasso no Congo, e, depois, com a sua morte na Bolívia, encerrando assim a sua vida e carreira de revolucionário que se pretendia genial.
Curioso notar que tanto no Congo quanto na Bolívia, Guevara foi confrontado por forças das quais faziam parte cubanos que haviam deixado o seu país após o início dos desmandos do "Che" e Castro, e que demonstraram muito mais competência militar do que Guevara, cuja tão falada habilidade táctica e estratégica se encontra guardada junto com os seus outros méritos, ou seja, na propaganda.

O senso comum que transformou um homem medíocre num Deus no templo da ideologia comunista.

O documentário “Guevara, Anatomia de um mito”, com imagens e depoimentos sobre Ernesto Guevara desde os seus tempos de desocupado na Guatemala até à sua morte na Bolívia, complementam de forma muito eficiente e sóbria o trabalho de Fontova.

Só não vê quem não quer...


p.s.- Lembrei-me agora:
Já alguém viu o filme,"Revolução dos Bichos"?
É um excelente filme.
Baseado no livro de George Orwell.
Foi baseado numa crítica à URSS... e os personagens são inspirados em figuras reais, "Napoleão" é retratado como a figura de Stálin, enquanto que o "Rabicho" se espelha em Trótsky.
O livro foi escrito depois do 20º Congresso, onde Gorbachev denuncia os "crimes de Stálin"...

Mikhail Bakunin (pensador anarquista russo), dizia que o governo socialista que Marx propôs iria transformar-se na pior das ditaduras, afinal, o poder corrompe qualquer um e foi o que aconteceu!

O comunismo mata rápido; o capitalismo, mata aos poucos !

O comunismo estagna qualquer sociedade por não ser um regime politico-económico que dê ao povo, individualidade de agir e fazer, e o capitalismo por outro lado, dá a liberdade de agir e fazer, mas inibe e disfarça as consequências e os efeitos das causas da acção, criando crises uma maior que a outra, até que a sociedade entre em colapso total por consumir todos os recursos naturais, levando ao esgotamento das matérias - primas.

Grandes civilizações como a romana surgiram, cresceram, e se desenvolveram, chegaram ao seu apogeu e entraram em declínio, não só por factores políticos que as levaram ao seu colapso, mas também, porque consumiam muito os recursos naturais que dispunham na sua região, sendo obrigados a expandirem-se cada vez mais em busca desses mesmos recursos, para suprimirem as suas necessidades.

Outras civilizações como a Maia e a Asteca sofreram deste mesmo problema, porque devido à necessidade de mais recursos minerais e florestais, os impérios iam cada vez mais longe para suprir as suas necessidades, originando não só crises politicas, como também económicas, que abalavam e abalaram todos os impérios durante a história.

Os EUA e os seus aliados ocidentais, são a prova mais contundente que temos hoje em dia.
As reservas de petróleo do Texas já não são mais suficientes para suprirem as suas necessidades internas  e para exportarem para os seus aliados.
Precisam das suas guerras para irem buscar cada vez mais longe o tão valioso ouro negro que mantém a civilização deles em pé, até quando, não sei, mas os efeitos e as crises acentuam-se. Novas tecnologias ainda são coisas de um futuro distante.
O petróleo é que mantém a civilização em que vivemos hoje.

Entretanto, milhões e milhões de inocentes morrem...