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segunda-feira, 31 de julho de 2023

Amor Epidérmico





Seus pais foram jantar fora e deixaram o apartamento só para você, seu namorado e a tv a cabo. Que inconsequentes! Em menos de um minuto vocês deixam a televisão falando sozinha e vão ensaiar umas cenas de amor no quartinho dos fundos. De repente, escutam o barulho da fechadura. Seu pai esqueceu o talão de cheques. Passos no corredor. Antes que você localize sua camiseta, sua mãe se materializa na porta. Parece que ela está brincando de estátua, mas não resta dúvida que entrou em estado de choque. Você diz o quê? Mãe, a carne é fraca.

A desculpa é esfarrapada mas é legítima. Nada é mais vulnerável que nosso desejo. Na luta entre o cérebro e a pele, nunca dá empate. A pele sempre ganha de W.O.

Você planeja terminar um relacionamento. Chegou à conclusão que não quer mais ter a seu lado uma pessoa distante, que não leva nada à sério, que vive contando piadinhas preconceituosas e que não parece estar muito apaixonado. Por que levar a história adiante? Melhor terminar tudo hoje mesmo. Marca um encontro. Ele chega no horário, você também. Começam a conversar. Você engata o assunto. Para sua surpresa, ele ficou triste. Não quer se separar de você. E para provar, segura seu rosto com as duas mãos e tasca-lhe um beijo. Danou-se.

Onde foram parar as teorias, os diálogos que você planejou, a decisão que parecia irrevogável? Tomaram Doril. Você agora está sob os efeitos do cheiro dele, está rendida ao gosto dele, está ligada a ele pela derme e epiderme. A gravação do seu celular informa: seus neurônios estão fora da área de cobertura ou desligados.

Isso nunca aconteceu com você? Reluto entre dar-lhe os parabéns ou os pêsames. Por um lado, é ótimo ter controle absoluto de todas as suas ações e reações, ter força suficiente para resistir ao próprio desejo. Por outro lado, como é bom dar folga ao nosso raciocínio e deixar-se seduzir, sem ficar calculando perdas e danos, apenas dando-se ao luxo de viver o seu dia de Pigmaleão.

A carne é fraca, mas você tem que ser forte, é o que recomendam todos. Tente, ao menos de vez em quando, ser sexualmente vegetariano e não ceder às tentações. Se conseguir, bravo: terá as rédeas de seu destino na mão. Mas se não der certo, console-se. Criaturas que derretem-se, entregam-se, consomem-se e não sabem negar-se costumam trazer um sorriso enigmático nos lábios. Alguma recompensa há de ter.


Martha Medeiros





quinta-feira, 14 de abril de 2022

O amor que a vida traz





Você gostaria de ter um amor que fosse estável, divertido e fácil. O objeto desse amor nem precisaria ser muito bonito, nem rico. Uma pessoa bacana, que te adorasse e fosse parceira já estaria mais do que bom. Você quer um amor assim. É pedir muito? Ora, você está sendo até modesto.

O problema é que todos imaginam um amor a seu modo, um amor cheio de pré-requisitos.
Ao analisar o currículo do candidato, alguns itens de fábrica não podem faltar. O seu amor tem que gostar um pouco de cinema, nem que seja para assistir em casa, no DVD. E seria bom que gostasse dos seus amigos.
E precisa ter um objetivo na vida. Bom humor, sim, bom humor não pode faltar.
Não é querer demais, é? Ninguém está pedindo um piloto de Fórmula 1 ou uma capa da Playboy. Basta um amor desses fabricados em série, não pode ser tão impossível.

Aí a vida bate à sua porta e entrega um amor que não tem nada a ver com o que você queria. 
Será que se enganou de endereço? Não. Está tudo certinho, confira o protocolo. Esse é o amor que lhe cabe. É seu. Se não gostar, pode colocar no lixo, pode passar adiante, faça o que quiser. A entrega está feita, assine aqui, adeus.

E agora está você aí, com esse amor que não estava nos planos. 
Um amor que não é a sua cara, que não lembra em nada um amor idealizado. E, por isso mesmo, um amor que deixa você em pânico e em êxtase.
Tudo diferente do que você um dia supôs, um amor que te perturba e te exige, que não aceita as regras que você estipulou. Um amor que a cada manhã faz você pensar que de hoje não passa, mas a noite chega e esse amor perdura, um amor movido por discussões que você não esperava enfrentar e por beijos para os quais nem imaginava ter tanto fôlego.
Um amor errado como aqueles que dizem que devemos aproveitar enquanto não encontramos o certo, e o certo era aquele outro que você havia solicitado, mas a vida, que é péssima em atender pedidos, lhe trouxe esse e conforme-se, saboreie esse presente, esse suspense, esse nonsense, esse amor que você desconfia que não lhe pertence.

Aquele amor em formato de coração, amor com licor, amor de caixinha, não apareceu.
Olhe para você vivendo esse amor a granel, esse amor escarcéu, não era bem isso que você desejava, mas é o amor que lhe foi destinado, o amor que começou por telefone, o amor que começou pela internet, que esbarrou em você no elevador, o amor que era para não vingar e virou compromisso, olha você tendo que explicar o que não se explica, você nunca havia se dado conta de que amor não se pede, não se especifica, não se experimenta em loja – ah, este me serviu direitinho!

Aquele amor corretinho por você tão sonhado vai parar na porta de alguém que despreza amores corretos, repare em como a vida é astuciosa. Assim são as entregas de amor, todas como se viessem num caminhão da sorte, uma promoção de domingo, um prémio buzinando lá fora, mesmo você nunca tendo apostado.
Aquele amor que você encomendou não veio, parabéns!
Agradeça e aproveite o que lhe foi entregue por sorteio.



Martha Medeiros






sábado, 5 de fevereiro de 2022

TESTE DRIVE PARA O AMOR





Existem muitas maneiras de duas pessoas apaixonadas se conhecerem melhor: irem juntas ao cinema, sairem para um chope, passearem de bicicleta, fazerem festa com os amigos, motel. É a programação clichê da maioria dos namorados.
Mas será que isso basta para conhecer alguém? 
Um homem e uma mulher podem tomar quatrocentos litros de chope juntos e continuarem sabendo muito pouco um do outro. Uma coisa é saber o que ele pensa, e isso pode ser feito numa mesa de bar. Outra é saber como ele é, e isso requer mais intimidade, e não é de sexo que se está falando. É de convivência 24 horas.

Como descobrir, antes de casar ou morar junto, se ele ronca, se ela demora no banho, se ele usa fio dental, se ela acorda de mau humor, se ele sabe lidar com o inesperado, se ela é mesmo independente?
Pegando a estrada. 
Viajar juntos é o grande teste para um casal. 

Passar alguns dias acampando, ou num hotel, numa casa alugada, não importa onde, desde que seja um território neutro onde se possa repartir os bons e maus momentos, descobrir as manias de cada um, os hábitos que foram herdados dos pais, a verdadeira face oculta, que dificilmente se revela numa festa de sábado. Ela sempre aparecia cheirosa nos encontros. Perfumaria. Viajando juntos, você descobre que ela é adepta do banho de gato, uns respingos e deu. Dorme com uma baba no cabelo, que é pra não ressecar. Usa a mesma camiseta cinco dias seguidos e sua escova de dentes completou três aninhos em agosto. Ele sempre falou que honestidade era sua maior virtude. Nota-se. Na estrada, tentou subornar dois guardas. Chegando na casa que alugaram, ele deu um jeito de emperrar uma janela para pedir um abatimento no preço. Ao fazerem as primeiras compras no mercadinho da cidade, você o flagrou escondendo uma barra de chocolate no casaco e passando pelo caixa sem pagar. Um exemplo de dignidade.

É claro que, na maioria das vezes, uma viagem confirma que a pessoa que elegemos é mesmo maravilhosa, e novas qualidades são descobertas. Mas é conveniente não reservar a surpresas para a lua-de-mel. Pequenas viagens de fim-de-semana, ao longo do relacionamento, podem ser muito reveladoras. Você já sabe que ele gosta de filmes de ação e que ela prefere comer peixe, mas os dois só saberão dos detalhes da personalidade de cada um se criarem uma pequena rotina doméstica, fora da vida social.

Isso é brincar de casinha?
Que seja.
Ainda é o melhor teste para saber se o amor resistirá a uma vida de verdade.



Martha Medeiros




quarta-feira, 13 de outubro de 2021

.............................. dor emocional






Diante da dor emocional, só há uma ordem a respeitar: paciência.

De nada adianta inventar alegrias fajutas e se oferecer para a cobiça do mundo sem antes estar com a alma serenada e forte.
É preciso saber esperar, do contrário a gente se atrapalha e só reforça a miséria existencial que preenche as madrugadas.

Basta de tanta gente evitando pensar, evitando chorar, evitando olhar para dentro de si mesmo, sorrindo de um jeito tão triste que só faz demorar ainda mais o reencontro com o sorriso verdadeiro — aquele aguardando a hora certa de voltar.



Martha Medeiros





sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Há quem queira apenas estar bem consigo mesmo





Nem todo mundo quer casar, quer filhos, quer fazer faculdade.
Nem todo mundo quer ser campeão, presidente, celebridade.

Há quem queira apenas viver de um jeito que não seja julgado por ninguém, há quem queira apenas se expressar de um modo menos exuberante e mais íntimo, há quem queira apenas passar pela vida nutrindo a própria identidade, não se preocupando em colecionar seguidores, admiradores e afetos de ocasião.

Sem jogar pra torcida, há quem queira apenas estar bem consigo mesmo.



Martha Medeiros






sexta-feira, 6 de agosto de 2021

ATÉ A RAPA






Olhe para um lugar onde tenha muita gente: uma praia num domingo de 40 graus, uma estação de metro, a rua principal do centro da cidade. Pois metade deste povaréu sofre de dor-de-cotovelo.

Alguns trazem dores recentes, outros trazem uma dor de estimação, mas o certo é que grande parte desses rostos anónimos têm um amor mal resolvido, uma paixão que não se evaporou completamente, mesmo que já estejam em outra relação.

Por que isso acontece?
Eu tenho uma teoria, ainda que eu seja tudo, menos teórica no assunto.
Acho que as pessoas não gastam seu amor. Isso mesmo. Os amores que ficam nos assombrando não foram amores consumidos até o fim.
Você sabe, o amor acaba.

É mentira dizer que não.
Uns acabam cedo, outros levam 10 ou 20 anos para terminar, talvez até mais. Mas um dia acaba e se transforma em outra coisa: amizade, parceria, parentesco, e essa transição não é dolorida se o amor foi devorado até a rapa.

Dor-de-cotovelo é quando o amor é interrompido antes que se esgote. 
O amor tem que ser vivenciado. Platonismo funciona em novela, mas na vida real demanda muita energia, sem falar do tempo que ninguém tem para esperar. E tem que ser vivido em sua totalidade. É preciso passar por todas as etapas: atração-paixão-amor-convivência-amizade-tédio-fim.

Como já foi dito, este trajeto do amor pode ser percorrido em algumas semanas ou durar muitos anos, mas é importante que transcorra de ponta a ponta, senão sobra lugar para fantasias, idealizações, enfim, tudo aquilo que nos empaca a vida e nos impede de estar aberto para novos amores.

Se o amor foi interrompido sem ter atingido o fundo do pote, ficamos imaginando as múltiplas possibilidades de continuidade, tudo o que a gente poderia ter dito e não disse, feito e não fez.

Gaste seu amor. Usufrua-o até o fim. Enfrente os bons e os maus momentos, passe por tudo que tiver que passar, não se economize. Sinta todos os sabores que o amor tem, desde o adocicado do início até o amargo do fim, mas não saia da história na metade. Amores precisam dar a volta ao redor de si mesmo, fechando o próprio ciclo.

Isso é que libera a gente para ser feliz de novo.


Martha Medeiros






terça-feira, 22 de junho de 2021

Sem Resposta







o que é mais sagrado, um amor 
que permanece inalterado 
ou a paixão, que te enfarta três vezes ao dia?

o que é mais danoso, um amor 
que deixa a vida em ponto morto 
ou a paixão, que te leva contra um poste?

o que é mais procurado, um amor 
oferecido em classificados ou a paixão, 
que nunca está onde se espera?

o que é mais calamitoso, um amor 
gelatinoso ou a paixão explosiva?

não há resposta que nos sirva.


Martha Medeiros
in, Cartas Extraviadas






sexta-feira, 16 de abril de 2021

NA HORA CERTA





Já se falou que um romance, para vingar, precisa acontecer entre pessoas que tenham muitas afinidades.
Outros defendem que os temperamentos é que têm que combinar. 
Outros, ainda, dizem que não pode haver tanta diferença de idade, ou situação financeira discrepante. Amor à distância? Ele em Rondônia e você em Floripa? É dar muito crédito ao cupido, melhor esquecer e procurar algo mais perto do seu quintal.

Falam, falam, falam. E quanto mais se fala, menos escutamos.
Mergulhamos fundo em relações caóticas, o que quase todas são, pois dificilmente dois seres humanos se reconhecerão como almas gémeas, esse troço que dizem que existe, mas que aqui nunca bateu a campainha.

O jeito é virarmos experts no gerenciamento do caos.
E lá vamos nós amar, sofrer, viver em êxtase, viver aos prantos, apaixonados e desapaixonados, tontos pelos altos e baixos dos nossos desejos, os explícitos e os secretos. 
É isso ou sair do jogo, resignando-se à única relação que pode durar para sempre: você com sua (bendita ou maldita) solidão.

Todo esse preâmbulo não é para desanimar ninguém.
Sou da turma que diz: vá! Tenta com o bonitão e com o feioso, com o surfista e com o tiozão, com o socialista e com o neoliberal (quer tentar com a bancada evangélica, sorte aí). Vá ao encontro dos seus iguais, e também diga sim para os que você pressente que, após duas semanas, nunca mais. O amor pode estar escondido onde você nunca imaginou encontrá-lo, então use as ferramentas que te deram e boa sorte na extração. Não conheço outra aventura na vida mais educadora e mais estimulante – muitas vezes, mais frustrante também, mas qual é a alternativa?

Desistir de amar não é uma alternativa, é apenas uma estratégia para se proteger de futuras decepções. 
O amor dá certo até quando dá errado, pelo simples fato de ter acontecido.
Mas se você pleiteia a eternidade conjugal, lembre que ficha corrida ("inteligente, bonito, divertido") não garante nada. O sucesso depende apenas de algo que em bom português se chama timing: surgir na hora certa.

Os dois se encontram quando programaram os mesmos filmes para assistir até o fim dos dias. 
Os dois se encontram quando têm problemas parecidos que nunca serão resolvidos e tudo bem. 
Os dois se encontram quando a libido continua tão valorizada quanto o cérebro. 
Os dois se encontram quando ambos já abriram mão de suas idealizações, mas ainda gostam de conversar sobre elas.


Esses dois abençoados estão aptos para o amor eterno pela simples razão de terem se conhecido quando desejavam a mesma coisa da vida.
Querer o mesmo é que dá match.



Martha Medeiros





domingo, 7 de fevereiro de 2021

A NOITE INTEIRA







Qual seu conceito de luxo? Você não responderá que é um iate ancorado no píer de Portofino nem dirá que é uma penthouse em Nova York de frente para o Central Park - mesmo que seja. Não vai dar essa bandeira, já aprendeu que ostentar é cafona. Dirá que luxo é ter tempo, resposta óbvia e condizente com os dias apressados de hoje, ou dirá que luxo é ter amigos de verdade, e de fato é, já que colecionar seguidores é um delírio cujo efeito ainda foi pouco pesquisado. Pode também falar sobre a família, instituição que anda em alta, ou enaltecer a saúde, sem a qual nada prospera. Mas, se fosse obrigado a transcender as respostas óbvias, o que responderia? O meu luxo: dormir uma noite inteira sem despertar no meio.

Não precisam ser 10 horas sequenciais, não sou de extravagâncias. Estou falando em desmaiar por seis horas seguidas, desfalecer por sete horas ininterruptas. Às vezes, acontece. Às vezes? Pois é. Deveria ser corriqueiro, não esporádico.

Geralmente, deito cedo. Entre 23h e 23h30min já estou em sono profundo. Até que, por volta de duas da manhã, sede! Preciso de um gole d´água (maldito vinho do jantar). Às quatro, um inexplicado suor escorre pelo corpo. E, logo depois, um arrepio de frio. Puxo o lençol até o pescoço, para dali a 10 minutos jogá-lo no chão e logo juntá-lo de novo e me cobrir com o edredom, e assim sucessiva e esquizofrenicamente.

Se não acordo com a sede ou com os calorões, acordo com o canto dos pássaros - o dia começa mais cedo para eles. Ou é um mosquito que resolveu passear rente ao meu ouvido. Ou são as trovoadas lá fora. A filha que chegou de madrugada. O gato que mia. O WhatsApp que apita. Uma música no andar de cima. A buzinada de algum notívago comemorando a vitória do seu time - às três da manhã! Se nada disso desperta você, parabéns, sono pesado é uma bênção. Tomara que a criatura com quem você divide a cama seja tão abençoada quanto, mas duvido.

O mais provável é que sua pessoa amada vá ao banheiro duas vezes por noite, vire de um lado para o outro, ronque, tenha cãibras, fale durante o sono, acenda a luz pra ir atrás de um ansiolítico, encasquete que não trancou a porta da frente, escute um barulho lá fora e pergunte: "Você também escutou esse barulho lá fora?" e você "hã? que barulho?" e ela, "esquece, acho que me enganei, dorme, amor", deixando você mais acesa que um farol noturno no meio do oceano - quem inventou essa história de que precisamos dormir ao lado de quem amamos? Romantismo tem limite.

E eu nem falei de casais com bebês recém-nascidos.


Dormir uma noite de ponta a ponta sem acordar uma única vez. Melhor que iate, cobertura em Nova York, bangalô nas Maldivas, uma adega de vinhos italianos, centenas de curtidas no seu post. Luxo mesmo é, depois de um dia eletrizante, apagar sem sobressaltos.



Martha Medeiros





segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

O Tempo





Na hora da saudade, da tristeza, do desamparo,
é com ele que contamos: o tempo.

Queremos dormir e acordar dez anos depois
curados daquela ideia fixa que se instalou no
peito, aquela obsessão por alguém que já
partiu de nossas vidas.

No entanto, tudo o que nos invadiu com
intensidade, tudo o que foi realmente
verdadeiro e vivenciado profundamente
não passa. Fica. Acomoda-se dentro da
gente e de vez em quando cutuca, se mexe,
nos faz lembrar da sua existência.

O grande segredo é não se estressar com
este inquilino incômodo, deixá-lo em paz no
quartinho dos fundos e abrir espaço na casa
para outros acontecimentos.


Martha Medeiros




quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Álbum de Família





Família é sempre um prato cheio – e agridoce. 
Amor e ódio, atração e rejeição, acolhimento e desprezo, idealizações e desilusões, carinho e perversidade: um cardápio sortido de emoções contraditórias distribuídas sobre a mesa. 
Em volta dela, nós, famintos por compreensão e tendo que ser diplomáticos e civilizados até que uma provocação nos faça perder as estribeiras.

A questão é que entre família não há divórcio. Não existe ex-pai, ex-mãe, ex-filho, mesmo que se suma do mapa, mesmo que peguemos a estrada para o mais longe possível. DNA é praga. Não tem rota de fuga. Nasceu, está danado. Então, melhor condescender do que se estressar. 

Há famílias mais serenas do que outras, mais afetuosas do que cínicas, mais cinematográficas do que teatrais. Ainda assim, sempre haverá um papel para cada um de seus membros: o de vilão, o de vítima, o de playboy, o de trabalhador, o de folgado, o de frágil, o de problemático, todos apegados aos motivos que os levaram a ser como são.

E eles se acusarão a vida inteira, e se defenderão, e nunca haverá um consenso, e de nada adiantará tanto berro: de dramáticos passarão a patéticos, inevitavelmente.
Tragédia e comédia cedo ou tarde dão-se as mãos, elas que também são da mesma família.



Martha Medeiros




quarta-feira, 25 de novembro de 2020

ENTRE AMIGOS






Para que serve um amigo? 
Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.

Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.

Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.

Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.

Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.

Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.

Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.

Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o réveillon.

Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.

Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.

Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.




Martha Medeiros 




quinta-feira, 22 de outubro de 2020

A FITA MÉTRICA DO AMOR






Como se mede uma pessoa? 
Os tamanhos variam 
conforme o grau de envolvimento.


 
Ela é enorme pra você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado. É pequena pra você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.

Uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto. É pequena quando desvia do assunto.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês.

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições? 
Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.
É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações. Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes.

Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. 
É a sua sensibilidade sem tamanho.


Martha Medeiros





sábado, 10 de outubro de 2020

De Cara Lavada








toda mulher tem um homem que se foi
um homem que a deixou por outra
um homem que a deixou por um câncer  
um homem que nem mesmo a notou
um homem que a deixou por um ideal
um homem que sumiu num temporal
um homem que não passou de dois drinques
toda mulher tem um homem que se foi
um homem que foi pego em flagrante  
um homem que prometeu um brilhante  
um homem que  saiu  pra jogar
toda a mulher tem um homem
que esqueceu de voltar


Martha Medeiros
in, Poesia Reunida




AS MULHERES VÃO EMBORA



 “Toda mulher tem um homem que se foi”. 

Assim começa um poema que escrevi cerca de 20 anos atrás, reforçando a ideia de que eles saem para comprar cigarro e esquecem de voltar. A sociedade sempre aceitou como natural a figura do homem que um dia se enrabicha por outra e abandona a família, ou, dizendo de forma menos cafajeste, a do homem que deixa de amar a esposa e reconstrói sua vida. Pertencia só a eles a liberdade de ir e vir. Tinham dinheiro no bolso e eram donos de seus narizes: às mulheres restavam as lágrimas e uma pensão para os filhos, tivessem um bom advogado.

Hoje, as mulheres também vão embora. Não precisam alegar que irão comprar cigarro na esquina, a sinceridade é mais saudável: elas se vão porque a relação se desgastou, se vão para escapar de um parceiro agressivo, se vão porque se apaixonaram por outro, se vão porque evoluíram profissionalmente e novas oportunidades surgiram. Se vão porque assim decidiram.

Diante da secular hegemonia masculina, nossa independência ainda é uma novidade, nem todos se acostumaram. Mas homens esclarecidos e sagazes nos respeitam. Sofrem, como nós sofremos com a partida deles. Choram. A dor da perda é a mesma. Vez que outra, os mais inconsoláveis rogam praga: “você vai ficar sozinha para o resto da vida!”. Cuidado. Em vez de inibi-la, a ameaça pode entusiasmá-la: o que não falta é mulher sonhando em sair de uma relação para viver só para seus livros, filmes e amigos, livre como o vento soprando nas montanhas.

Pena que não há poesia na ignorância. Uma mulher que se vai, para muitos, é uma afronta. Homens mal preparados para a igualdade não sabem lidar com a rejeição. Em vez de buscarem uma terapia para ajudar, eles buscam a arma que escondem em cima do armário, buscam uma faca na gaveta da cozinha e aumentam os índices de feminicídio. É só ler os jornais, acompanhar as estatísticas. É sempre a mesma razão banal: matou porque ela teve a audácia de largá-lo.

Extra, extra! As mulheres vão embora. Ganham o próprio salário e vão embora. Leem, se informam, se unem, se reconhecem em outras mulheres, e se for necessário, vão embora. São mães e vão embora sem fugir de suas responsabilidades: estão protegendo os filhos de um ambiente hostil. Amaram seus homens, foram felizes com eles, e quando deixaram de ser, foram embora. Nada de novo, é o que os homens sempre fizeram. Novidade seria se eles fossem assassinados por causa disso.

Eduquemos bem nossos meninos de 8, de 10, de 15 anos: mulheres não são propriedade alheia, elas vão embora. 

Cientes dessa realidade, quando adultos eles se tornarão os melhores companheiros, os mais inteligentes, os mais amorosos, aqueles que darão a suas parceiras todos os motivos para ficar.



Martha Medeiros





segunda-feira, 5 de outubro de 2020

OS PADRÕES







Ela tem 26 anos, é formada em Direito e trabalha num importante escritório. Namora um engenheiro de 28, os pais de ambos são amigos e a festa de casamento já está sendo planejada pelas duas famílias. Deram entrada num apartamento e dentro de dois anos ela quer engravidar. Enfim, é uma garota fora do padrão, pois, hoje, quem está na casa dos 20 e 30 se encontra mais perdido que cebola em salada de frutas. Entrou numa faculdade e desistiu, tentou montar uma confecção e não deu certo, namorou cinco anos e não se envolveu, namorou três semanas e foi morar junto, separou e foi viver fora, voltou e continua sem planos, mas tudo bem, é uma criança, recém fez 40. Seria este o novo padrão?

Mas tem aqueles que não se sentem perdidos, apenas não têm como meta juntar dinheiro, preferem realizar um trabalho que faça diferença na sociedade. Não pretendem se sacrificar para comprar um teto próprio. Não sonham em ter carro. Não planejam formar família, ainda que, um dia, possa acontecer. Pra já, querem apenas estabelecer conexões, viajar, ter experiências.

Talvez seja este o novo padrão: jovens atuantes, mas que não almejam chegar lá, pois “lá” é uma abstração. Diferente dos paralisados. Estes também sonham em produzir alguma coisa, só não sabem por onde começar. Grudam o rosto no celular, só se relacionam de forma virtual, deixaram os amigos de infância pelo caminho e andam no máximo com um ou dois apáticos que também não sabem onde fica a saída de emergência dessa bolha. Precisam de um empurrão imediato.

Parece uma sorte termos superado esta fase, não? Crescemos. Hoje temos uma vida estruturada e resolvida. Relação estável, endereço fixo, salário digno. Fazemos terapia, praticamos esportes e postamos maravilhas nas redes sociais: somos o protótipo da pessoa ajustada.
Tão ajustada quanto a arquiteta que se divorciou do marido e hoje se relaciona com uma parceira do mesmo sexo. Tão ajustada quanto o jornalista que abandonou a profissão para se aventurar na política. Tão ajustada quanto o avô que fuma baseado, o padre que corre maratona escutando rock, a filósofa que dá cursos de sexo tântrico. A maturidade também não tem uma única face.

O padrão único era cômodo. Jovens e adultos habitando um mundo previsível e imutável, testado e aprovado, que duraria para sempre, não tivessem sido atropelados pelo alcance ilimitado da informação, pela instantaneidade do tempo, pela diversidade dos costumes. 

Adeus, padrão. Não existe mais padrão. Agora cada um vive a seu modo, cada um inventa seu próprio destino. É um universo mais difícil, nem testado, nem aprovado, onde tudo pode ser realizado e não há garantia de final feliz, mas o durante tem sido inspirado. 
Não sei por que acho isso bom, mas acho.


Martha Medeiros




segunda-feira, 28 de setembro de 2020

SUBLINHADOS







Eu não parava de elogiar o livro. Afirmei que havia sido uma de minhas leituras mais desconcertantes, que vários trechos haviam mexido demais comigo, e minha amiga ali, de boca aberta, testemunhando meu entusiasmo. Eu estava de fato empolgada, tanto que, quando percebi a bobagem que estava fazendo, era tarde demais. "Me empresta?", ela perguntou.

Não que ela fosse do tipo que some com os livros da gente. É ajuizada, devolve. Mas aquele exemplar específico estava todo sublinhado. Eu havia destacado longos parágrafos, distribuído pontos de exclamação nas margens, feito anotações próprias acerca das ideias do autor. Ou seja, eu não havia lido o livro, eu havia me relacionado com ele. Intimamente. E isso iria parar nas mãos de uma pessoa com quem eu não tinha a mesma intimidade.

O vínculo que estabeleço com meus livros está longe de ser solene. Eu não só sublinho bastante (à caneta!), como dobro as pontas das páginas e anoto, no reverso branco das capas, coisas aleatórias que me passam pela cabeça durante a leitura: lembranças de sonhos, números de telefone, listas de tarefas, enfim, sou uma herege completa. Meus livros, minhas regras.

Empresto-os, fazer o quê, mas não é uma situação confortável. Se um nude meu vazasse, não me sentiria tão exposta.

Estou exagerando? Muito, é um cacoete. Sei que nada disso é uma tragédia. Foi o que eu disse a uma amiga, na vez em que a indiscreta fui eu: pedi emprestado um livro dela, sem saber que tínhamos o mesmo hábito. O livro revelava sua alma atormentada, marcada a esferográfica vermelha.

Tentei convencê-la: "fique tranquila, você acha que prestarei atenção no que você sublinhou?" Claro que prestei atenção nos sublinhados dela, ora. Fiz conjecturas. Especulações. Por que, santo Cristo, uma passagem violenta havia calado fundo em seu coração? Perdi a concentração na história, de tão envolvida que fiquei com os impactos que ela teve durante o decorrer da narrativa. Era justo com a pobrezinha?

Ter tido acesso a seus sublinhados foi um voyeurismo culposo, sem intenção de futricar, mas aconteceu, acidentalmente. É sempre acidental, o que não deixa de ser invasivo. Portanto, vida longa aos sebos. O primeiro proprietário do livro, se também era dado a rabiscos, terá seu anonimato protegido, o que é bem diferente de emprestar o livro para um conhecido e, ao recebê-lo de volta, ter que enfrentar aquele olhar cúmplice de quem gostaria de dizer, mas não diz: "eu sei o que perturbou você".

Por essas e outras, está lançada a campanha #compreseusproprioslivros. Ou, ainda mais importante: #frequentebibliotecas.
Assim, você fará a suprema gentileza de não se intrometer na mais fechada relação a dois.



Martha Medeiros






terça-feira, 18 de agosto de 2020

AS FAKE NEWS DO AMOR






"Quando existe amor, a relação se torna fácil.".

Nunca. É sempre um desafio, mesmo entre pessoas experientes e bem resolvidas. A maturidade ajuda, é verdade, mas supor que exista uma relação em que um não queira esganar o outro de vez em quando é acreditar muito em conto de fadas. Aliás, os contos de fadas só mostram o idílio pré-nupcial, nunca revelam as discordâncias, as concessões e a exaustão daquela parte chamada "felizes para sempre".

"Para sempre?"

Aos que conseguem se divertir e evoluir juntos por 40 anos, por 50 anos ou mais, meu respeito e minha admiração, mas a persistência pode ter motivos menos nobres, como preguiça, medo, preservação de patrimônio, manutenção do status social. "Duração" não é um valor em si. Quando temos coragem de encerrar um ciclo e nos abrimos para novos começos é que podemos de fato ir mais longe. Dois, três, quatro grandes amores durante a vida? Frivolidade nenhuma. Bendita oportunidade de expandir nosso autoconhecimento.

"Só relações sérias e firmes é que importam."

Todas as relações que nos emocionam de alguma forma e que aprimoram a arte da convivência amorosa são "sérias", incluindo as breves, soltas, leves, que não fazem a gente sentir que está arrastando uma bola de chumbo acorrentada aos pés.

"É num relacionamento que encontramos palavras de incentivo e carinho."

E é também onde somos mais atacados e criticados - intimidade demais dá nisso: bullying conjugal. O amor é para os fortes.

"O melhor de uma relação amorosa: sexo à vontade, quando quiser."

Você deve ser jovem, aproveite. Eu, que também já fui meio tarada, ultimamente ando a fim de lançar a campanha "Conchinha é o novo sexo". Meu namorado discorda 100%.

"É impossível ser feliz sozinho."

João Gilberto era um gênio, mas este romantismo às vezes confunde as pessoas. Muita gente ainda acredita que é preciso formar um casal a qualquer custo. Fundamental é mesmo o amor? Sim, mas só nos casos em que o amor é melhor do que a nossa solidão. Se não for, não é preciso se conformar com qualquer coisa.

"O amor é o lugar em que você pode ser absolutamente sincero."

Aconselhar, pedir, chorar, se abrir? Pode. Confidenciar seus traumas infantis? Que fofo. Pode. Dar uma opinião franca sobre os parentes um do outro, meter a colher sobre a educação dos enteados? Não pire. Narrar as fantasias eróticas que costuma ter com o garçom da churrascaria? Se você é do tipo que produz provas contra si mesmo, vá em frente. Falar tudo, tudo, tudo o que você pensa sobre sua alma gêmea, a fim de demonstrar a ela sua atenção plena?
Acredite: ela prefere sua desatenção prudente e educada.


Um brinde ao fascinante amor de verdade, 
que não é menos amor, 
é apenas um amor mais generoso e eficaz. 
E alma gêmea não existe, 
também é boato.




Martha Medeiros





domingo, 2 de agosto de 2020

A VIDA E O TEMPO






As pessoas têm reclamado da quantidade de vida que estão desperdiçando durante o isolamento social. A sensação é de que 2020 já era, foi um ano morto. Há quem inclusive faça piada dizendo que não trocará de idade, manterá a do ano passado, até que possa festejar seu aniversário de novo.

É natural acreditar que a vida é o que acontece enquanto estamos ocupados. Ao cumprir inúmeras tarefas, utilizando todas as horas do dia com atividades práticas, parece que conseguimos manter a morte a distância - brincando de Deus, nosso hobby.

Mas aí vem essa crise sanitária que nos paralisa e nos joga na cara, diariamente, um número preocupante de óbitos. Manter a morte a distância não está mais relacionado com agitação, e sim com ficar paradinho dentro de casa, por mais que tanta gente não consiga compreender e tirar proveito disso.

Poderíamos ser menos obtusos se Filosofia fosse matéria escolar obrigatória, mas os alunos continuam tendo acesso apenas ao pensamento de seus ídolos, que certamente não são Aristóteles, Platão, Nietzsche ou Sêneca, que nunca gravaram uma live.

Nietzsche, por exemplo, dizia: "Aquele que não dispõe de dois terços do dia para si é um escravo". Deveríamos trabalhar oito horas e dedicar as outras 16 ao ócio, ao lazer, ao sono, à meditação. Tão lindo e tão irreal. Até início de março, gastávamos as 16 horas restantes em congestionamentos, farmácias, mercados, cartórios, bancos, lojas, consultórios, filas. Mas o cenário já não é este. Muita gente ainda precisa ir para a rua (pessoal da saúde dando expediente diário de 14h, 16h), mas eu e tantos outros estamos em home office e finalmente dispomos de dois terços do dia para fazer as refeições com mais calma, para ler, para "desperdiçar" com aquilo que equivocadamente chamamos de fazer nada.

Sêneca complementa: "Pequena é a parte da vida que vivemos. Pois todo o restante não é vida, mas somente tempo". Ou seja: nada está mais longe da vida do que o homem superocupado, que nunca se detém, não contempla seu passado, não desfruta o presente e está sempre de mãos vazias em relação ao futuro.

Filosofia em plena pandemia, sim.
Temos que extrair algo bom desse período.
Antes, sobravam só uns minutinhos para o que realmente valia a pena - telefonar para os avós, preparar um suco de laranja, contar uma história para uma criança.
Mudou. Podemos adicionar mais plenitude a este tempo que parece não passar. Não há pressa nem excesso de compromissos. A tarefa mais urgente é prestar atenção aos nossos sentimentos internos, que ficavam sem ser observados. Os dias andam repetitivos? Pois eles têm tudo para ser mais vívidos do que aquela agenda empanturrada que, por ora, deixou de nos atazanar.


Martha Medeiros





domingo, 1 de março de 2020

Mundo Interior





A casa da gente 
é uma metáfora da nossa vida, 
é a representação exata e fiel 
do nosso mundo interior.



Li esta frase outro dia e achei perfeito. Poucas coisas traduzem tão bem nosso jeito de ser como nosso jeito de morar. Isso não se aplica, logicamente, aos inquilinos da rua, que têm como teto um viaduto, ainda que eu não duvide que até eles sejam capazes de ter seus códigos secretos de instalação.

No entanto, estamos falando de quem pode ter um endereço digno, seja seu ou de aluguel. Pode ser um daqueles apartamentos amplos, com o pé-direito alto e preço mais alto ainda, ou um quarto e sala tão compacto quanto seu salário: na verdade, isso determina apenas seu poder aquisitivo, não revela seu mundo interior, que  se manifesta por meio de outros valores.

Da porta da rua pra dentro, pouco importa a quantidade de metros quadrados e,sim, a maneira como você os ocupa. Se é uma casa colorida ou monocromática. Se tem objetos adquiridos com afeto ou se foi tudo escolhido por um decorador profissional. Se há fotos das pessoas que amamos espalhadas por porta-retratos ou se há paredes nuas.

Tudo pode ser revelador: se deixamos a comida estragar na geladeira, se temos a mania de deixar as janelas sempre fechadas, se há muitas coisas por consertar. Isso também é estilo de vida.

Luz direta ou indireta? Tudo combinadinho ou uma esquizofrenia saudável na junção das coisas? Tudo de grife ou tudo de brique?

É um jogo lúdico tentar descobrir o quanto há de granito e o quanto há de madeira na nossa personalidade.
Qual o grau de importância das plantas no nosso habitat,
Que nota daríamos para o quesito vista panorâmica?
Quadros tortos enervam?
Tapetes rotos nos comovem?

Há casas em que tudo o que é aparente está em ordem, mas reina a confusão dentro dos armários. Há casas tão limpas, tão lindas, tão perfeitas que parecem cenários: faz falta um cheiro de comida e um som vindo lá do quarto. Há casas escuras. Há casas feias por fora e bonitas por dentro. Há casas com lareira que se mantém frias, há casas prontas para receber visitas e impróprias para receber a vida. Há casas com escadas, casas com desníveis, casas divertidamente irregulares.

Pode parecer apenas o lugar onde a gente dorme, come e vê televisão, mas nossa casa é muito mais que isso. É a nossa caverna, o nosso castelo, o esconderijo secreto onde coabitamos com nossos defeitos e virtudes.



Martha Medeiros