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terça-feira, 24 de outubro de 2017

A Sibila





Nos mais profundos meandros da sua natureza, houvera sempre grandes inquietudes que apenas se traduziam em invejas e azedumes que dirigia não só às classes mais dignificadas, como a todos aqueles que lhes tentavam o acesso. Um misto de receio de impotência e impulso lutador debateu-se sempre no mais fundo do seu ser.
Não sabia ambicionar; sabia impor-se numa exigência de triunfo imediato.
Não tinha imaginação para arquitectar, esperar; apenas compreendia o momentâneo, e era isso que ela queria adquirir.
Tudo o que não obedece a um plano, dura apenas o tempo da realização; e não tem glória, nem esse cunho das coisas humanas que trazem consigo um alento de superação e eternidade.

...

Se alguém a ofendesse muito, perdoava, retribuía ou esquecia?
- Perdoava a uma criança, retribuía a uma mulher, tratando-se de homem, esquecia.

...

Talvez que a harmonia entre ambas ficasse ligeiramente estremecida.
E seria sempre entre elas uma prevenção, uma tensa observação, um fino entender de cogitações pouco claras, de parte a parte. Entendiam-se bem, sem mutuamente se estimarem; partilhavam segredos, detestando-se, como se eles tivessem sido arrancados por violência ou traição.
Contudo, seriam capazes da mais inteira admiração uma pela outra, experimentando até uma coragem quase insolente, uma afeição viva e resgatadora, que estavam muito próximas do ódio.

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Mas, fatigada daquela constante escravidão de personalidade, farta de simular frivolidade, um riso mais sonoro, uma cor mais brilhante, retirou-se, não sem verter algumas lágrimas sobre a vencida que era também uma liberta.
- É uma fatalidade que pesa sobre nós, as mulheres.
Não sabemos viver sós, enquanto o homem procura o isolamento, mesmo quando se dirige para a multidão - disse ela.
Há raros momentos de clarividência, mesmo nas criaturas mais triviais, e é sempre o sofrimento que as provoca.

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A prosperidade trazia-lhe também espinhos- os inimigos, aqueles que nascidos na mesma condição, não sofreram ver-se ultrapassados, ou os que, tendo visto aluir-se-lhes os degraus sob os pés, lançavam a poeira daquelas belas ruínas aos olhos dos que conquistavam direitos.
Essa poeira deslumbrava Quina, perturbava-a a ponto de a inferiorizar, de a transformar nalguma coisa miserável e ingenuamente timorata. Não lhe bastava, para se corrigir, a frieza espiritual de sua mãe e de Estina, que em ser solitárias, em obedecer a si próprias, em recusar influências, encontravam a paz.
Mas Quina amava o mundo, as suas manifestações de poder, de grandeza e superficiais ouropéis; amava, se não a multidão, os que venciam, o espalhafato e a exterioridade. admirava todas as coisas bafejadas pelo êxito; invejava tudo quanto lhe parecia culminância de situações, de felicidade - moda, classe, saber.
Isto condenou-a.
Esse apego apaixonado ao momento manteve-a sempre ao nível do efémero.
Criou asas, sem jamais poder voar.
Havia nela uma admirável capacidade de entusiasmo que podia arrastá-la ao sobre-humano. Mas o instinto prático pesava-lhe como chumbo no coração, e ela subordinava aos interesses a chama que Prometeu furtou e cujo valor ela nunca compreendeu.
Todos os seus passos acabavam por deixar um rasto de auto-suficiência tão inocente quanto grotesca, e todas as suas acções traziam consigo um selo de vaidade e ânsia de louvor que as tornavam desde logo inúteis, ridículas e falsas. Como veículo do sobrenatural, ela achava-se mais venerável do que as forças de que se propunha ser intermediária; e quando se sentava à cabeceira de um moribundo, dizendo-lhe "durma, descanse, que eu estou aqui", procurava-lhe no olhar velado o sereno êxtase que a sua presença lhe provocava, e lágrimas de alegria caíam-lhe pelas faces.

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E um dos aspectos mais característicos de Quina era desprezar por princípio todas as mulheres. Não que pessoalmente as odiasse, mas, na generalidade, atribuía-lhes uma categoria deprimente, e, como elemento social, não as considerava. A verdade era que, toda a vida, ela lutara por superar a sua própria condição, e, conseguindo-o, chegando a ser apontada como cabeça de família, conhecida na feira e no tribunal, procurada por negociantes, consultada por velhos lavradores que a tratavam com a mesma seca objectividade usada entre eles, mantinha em relação às outras mulheres uma atitude não desprovida de originalidade. Amadas, servindo os seus senhores, cheias de um mimo doméstico e inconsequente, tornadas abjectas à custa de lhes ser negada a responsabilidade, usando o amor com instinto de ganância, parasitas do homem e não companheiras, Quina sentia por elas um desdém um tanto despeitado e mesmo tímido, pois havia nessa condição de escravas regaladas alguma coisa que a fazia sentir-se frustrada como mulher.
Na generalidade, amava o homem como chefe de tribo e pelo secular prestígio dos seus direitos. Mas ria-se de todos eles, um por um, pois lhes encontrava inferioridade que ela, pobre fêmeazinha sem mais obrigações do que as de chorar, parir e amar abstractamente a vida, pudera vencer, não tanto por desejo de despique como por impulso de carácter, e utilizando para isso, sabiamente, tanto as suas fraquezas como os seus dons.

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Era bastante tolo para ser um bom criado fidalgo, mas, a mim, só um igual me pode servir. Alguém que compreenda que, num contrato de aptidões que mutuamente se apoiam, não existe o servo nem o amo, mas uma permuta de forças igualmente dignas, - meditou ela.

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Com um pensamento que, a ser-lhe dado voz, teria a entoação de um rugido, ela libertava-se; a sua alma ascendia daquele pânico incoerente, e o medo deixava a sua presa. Se a morte lhe tocasse a fronte, achá-la-ia mais fria do que se já se tivesse entranhado nela. Estava serena e cheia de paz, não tinha pensamentos. Apenas lhe ocorriam formas vagas e cheias de doçura, coisas de que tinha a consciência profunda de serem belas, sem as compreender. E, durante, algum tempo, ela experimentava um estado de felicidade magnificente, mas sem exaltação. Não era esse humano conhecimento de felicidade a satisfação dos sentidos, o dominar dos desejos, a auto-convicção duma responsabilidade cumprida, o riso de gratidão pela dádiva da vida. Era a renúncia total do estado humano. Era a desesperança mais gloriosa, porque era adicionada por qualquer pena, mágoa ou saudade.
era, enfim, a liberdade de Prometeu.

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Durante as longas horas da sua doença, Quina viveu uma plenitude espiritual, rara e até única na sua vida. Não através do pensamento, porque o pensamento é uma criação artificial do espírito; mas o seu estado de harmonia moral, de vivência íntima, semelhante a essa profundidade silenciosa de certas águas onde subtis correntes provocam vibrações encadeadas e intermináveis que bastam para as renovar, era mais do que um estado de razão - era uma flutuação de sentidos tão finos que a concretização da ideia mais fugaz e simples chegava para os perturbar.
E então a vida, não na sua particularidade e recordação, mas a pesada e quente vitalidade das suas veias, do seu sangue e tecidos conjugados num cumprir rítmico, porém imperceptível, ela compreendia-a como alguma coisa totalmente alheia a si, indiferente a si, inumana - diria.

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Usava as coisas ricas, sem porém as gozar. Sentia que elas a amoleciam, que as mais valorosas qualidades da sua personalidade, perdiam o brilho, como as pérolas que se não usam e envelhecem. E, então, o espírito completava aquela obra, sofismava, extraía cépticas sabedorias, sentenças cheias de fatalismo epicurista, subtilezas egoístas, esse mundo caquético dos que se não renovam para não terem que se negar e destruir.

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Ela fora sempre muito sensível à sinceridade, quando afinal a sinceridade é uma impotência de espírito e a mais deselegante das virtudes.

...

Quina abriu os olhos, e disse em voz audível algumas palavras que não eram delírio, nem oração, porque o tempo de oração estava no fim, e toda a sua alma se projectava num abismo inefável, se dispersava para entrar na composição magnífica do cosmos.


Agustina Bessa - Luís
in, A Sibila









terça-feira, 23 de maio de 2017

Silêncio, silêncio…






Fechem as máquinas de falar, desandem os botões da verbosidade, façam má cara aos visitantes, despeçam os oradores oficiais, cancelem o contrato dos conferencistas.
Silêncio, silêncio…

Escondam o rosto um momento, desçam as cortinas, preguem as janelas, chorem, se quiserem, mas silêncio! Dai tempo a ouvir um anjo que passa, uma cigarra que canta, uma pedra que rola, uma flor que morre.

Também isto é sério, também isto é justo, também isto é revelação, e caridade, e inteligência.
Dai tempo a vós próprios, que sois vivos e que o podeis saber.
E silêncio.


Agustina Bessa-Luis 
in, Embaixada de Calígula





segunda-feira, 10 de abril de 2017

A Crítica é Menos Eficaz do que o Exemplo




A crítica é menos eficaz do que o exemplo.
É de considerar se a grande sugestão para usar da crítica nos nossos tempos e que põe em causa todos os valores consagrados, não é o resultado duma anemia profunda do acto de vontade de toda uma sociedade.
Todos temos consciência de como o exemplo se tornou interdito, como o indivíduo, na sua excepção perturbadora, é causa de mal-estar. Dir-se-ia que a fraqueza, a breve virtude, a mediocridade, de interesses e de condições, têm prioridade sobre o modelo e a utopia.
A par desta dimensão rasa do despotismo do demérito, levanta-se uma rajada de violência.
É de crer que a violência é hoje a linguagem bastarda da desilusão e o reverso do exemplo; representa a frustração do exemplo.


Agustina Bessa-Luís
in, "Contemplação Carinhosa da Angústia"





sexta-feira, 3 de março de 2017

Real Amizade




A melhor prova duma real amizade está em evitar os compromissos entre aqueles que se estimam.
Ainda que devendo muito aos que muito me louvam, eu não quero ser-lhes obrigada pela gratidão. Mas sim grata porque estou com eles, devido a circunstâncias que a todos nós agradam e são um laço mais entre nós, sem constituírem um dever.
Eu pretendo dizer da amizade o que Diógenes dizia do dinheiro: que ele o reavia dos seus amigos, e não que o pedia. Pois aquilo que os outros têm pelo sentimento comum não se pede, é património comum.
Neste caso, a amizade.


Agustina Bessa-Luís, 
in, "Dicionário Imperfeito"


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A Doutrina Perfeita





Muitas vezes as pessoas dirigem-se a mim, dizendo: «você, que é independente». Não sou assim; continuamente devo ceder a pequenas fórmulas sofisticadas que corrompem, que dão um sentido inverso à nossa orientação, que fazem com que a transparência do coração se turve. Continuamente a nossa insegurança, o egoísmo, o espírito legalista, a mesquinhez, a vaidade, toda a espécie de circunstâncias que tomam o partido da vida como desfrute à sensação se sobrepõem à luz interior. Só a fé é independente. Só ela está para além do bem e do mal. 

Estar para além do bem e do mal aplica-se a Cristo. «Perdoa ao teu inimigo, oferece a outra face» - disse Ele. Não é um conselho para humilhados, não é um preceito para mártires. Nisso aparece Cristo mal interpretado, a ponto de o cristianismo ter sido considerado uma religião de escravos. Mas esquecemos que Cristo, como Homem, teve a experiência-limite, uma visão do inconsciente absoluto, o que quer dizer que a sua consciência foi saturada, para além do bem e do mal. Esse homem que perdoa ao seu inimigo não o faz por contrariedade do seu instinto, por reparação dos seus pecados; mas porque não pode proceder de outra maneira.

A sua natureza simplificou-se; nada o pode abalar, porque ele desesperou para sempre da sua controvérsia e, possivelmente, da sua humanidade. A agonia do Homem é isto - a sua conversão à luz interior. Qualquer doutrina que professe a luta, seja doutrina social ou religiosa, impõe-se facilmente às massas, porque a luta bloqueia a evolução profunda do homem, a qual é motivo da sua angústia. Um sábio, grande figura bíblica, disse: «A causa do temor não é outra coisa senão a renúncia aos auxílios que procedem da reflexão». Ligados todos por uma igual cadeia de trevas, os homens julgam superar os factos por meio duma acção violenta. Dispersam os seus fantasmas prodigiosos durante algum tempo, mas logo são surpreendidos por inesperados terrores. A melhoria das suas condições de trabalho, o direito ao lazer e à cultura, a protecção à saúde e à velhice, tudo isso foi uma necessidade imposta pelos factos, mas só actua como lei se for manifestado pela reflexão. A doutrina perfeita nem ofende a multidão nem se arroja a seus pés. Não é feita de belas palavras nem dum folclore de atitudes. A natureza combate pelos justos. Essa natureza é a fé.



Agustina Bessa-Luís 
in, "Contemplação Carinhosa da Angústia"






terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Novo Ano




Eu desejaria que o Novo Ano trouxesse no ventre morte, peste e guerra. Morte à senilidade idealista e à retórica embalsamada; peste para um certo código cultural que age sobre os grupos e os transforma em colectividades emocionais; guerra à recuperação da personalidade duma cultura extinta que nada tem a ver com a cultura em si mesma.

Eu desejaria que o Novo Ano trouxesse nos braços a vida, a energia e a paz. Vida o suficientemente despersonalizada no caudal urbano para que os desvios individuais não sejam convite ao eterno controlo e expressão das pessoas; energia para desmascarar o sectarismo da sociedade secularizada em que o estado afectivo é mais forte do que a acção; paz para os homens de boa e de má vontade.



Agustina Bessa-Luís
in, "Caderno de Significados" 


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Crónica de Natal





Todos os anos, por esta altura, quando me pedem que escreva alguma coisa sobre o Natal, reajo de mau modo. «Outra vez, uma história de Natal! Que chatice!» — digo. As pessoas ficam muito chocadas quando eu falo assim. Acham que abuso dos direitos que me são conferidos. Os meus direitos são falar bem, assim como para outros não falar mal. Uma vez, em Paris, um chauffeur de táxi, desses que se fazem castiços e dizem palavrões para corresponder à fama que têm, aborreceu-me tanto que lhe respondi com palavrões. Ditos em francês, a mim não me impressionavam, mas ele levou muito a mal e ficou amuado. Como se eu pisasse um terreno que não era o meu e cometesse um abuso. Ele era malcriado mas eu - eu era injusta. Cada situação tem a sua justiça própria, é isto é duma complexidade que o código civil não alcança. 

Mas dizia eu: «Outra vez o Natal, e toda essa boa vontade de encomenda!» Ponho-me a percorrer as imagens que são de praxe, anjos trombeteiros, pastores com capotes de burel e meninos pobres do tempo da Revolução Industrial inglesa. Pobres e explorados, mas, entretanto, não excluídos do trato social através dos seus conflitos próprios, como se pode observar nos livros de Dickens. Actualmente as crianças estão mais isoladas dum processo de libertação adequada à sua normalidade. Não há qualquer lógica entre o pensamento que elas sugerem e a acção que lhes é imposta. Mas isto são considerações de Natal? Confessem que preferem uma história, uma coisa leve, talvez um pouco insensata e graciosa. Pois bem, falemos de pastores.

Um amigo meu passou uns dias na serra da Estrela para se curar duma depressão, uma dessas doenças que são produzidas pela sociedade burocrática onde todos se destroem em boa paz. Cuidou ele que a solidão e a vida rude o haviam de transformar. Mas o sofrimento, que não é disciplina nem necessidade, torna-se em crítica mesquinha. Ele andava pelos montes, com ar de censura e escândalo, perguntando às pessoas como podiam viver sem ir ao teatro e sem comer costelas panadas. Alumiando-se com azeite e deitando-se ao sol-pôr para não o gastar. Sobressaltava-o muito aquela imobilidade da serra com os rebanhos que pareciam pedras e os pastores com o cão de pêlo assanhado. Sentava-se ao lado deles e travava conversa.
— Olhe lá: você nunca sai daqui? — perguntava. E o pastor respondia:
— Eu, não senhor.
— E então, não se aborrece?
— Eu, não senhor — tornava o homem.
— Mas não se aborrece mesmo, sempre sozinho, a ver só ovelhas, aqui no cimo da serra? — insistia o meu amigo.
Então o pastor, apertado naquele inquérito, fez um esforço para compreender a desordem que provocava no espírito do homem da cidade, e disse, apontando, com um ligeiro movimento do queixo, as ovelhas:
— Ah! Elas às vezes bolem...
Queria desculpar-se, se o conseguiu ou não, não sei. O meu amigo não andou muito tempo por lá. Deu um jeito a um tornozelo e tiveram que o levar de padiola até à localidade, onde arranjou melhor transporte para o hospital. Disse daquilo cobras e lagartos. Também é preciso ver que não era homem para grandes descobertas. Até acha que as descobertas foram um erro histórico. Mas que tem o Natal a ver com isto? – direis. Descubram.

Agustina Bessa-Luís 
in "Crónica da Manhã"


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A Construção da Personalidade Criadora




A harmonia do comportamento social requer, todos o sabemos, tanto o isolamento como o convívio. Excessiva comunicação, debates exagerados de assuntos que requerem meditação e peso moral, avesso muitas vezes à cordialidade natural das afinidades electivas, não enriquecem o património de uma sociedade. Antes embotam e alteram o terreno imparcial da sabedoria.
A solidão favorece a intensidade do pensamento; por outro lado, torna de certo modo celerado o homem que lida com a força material, com a técnica, com os outros homens. O impulso é a força que actualiza estas duas atitudes. Os ricos de impulso que se prontificam a uma reacção agressiva ou escandalosa, esses são associais especialmente difíceis. Todo o revolucionário é associal, se o impulso for nele um desvio da vida instintiva, e não uma atitude de homem capaz de obedecer e mandar a si próprio.
«A felicidade máxima do filho da terra há-de ser a personalidade» - disse Goethe. Personalidade criadora, obtida à custa do ajustamento das nossas próprias leis interiores, que não serão mais, no futuro, forças repelidas ou encobertas, mas sim valiosas contribuições para o tempo do homem. Quando tudo for analisado e conhecido, só o justo há-de prevalecer.


Agustina Bessa-Luís 
in, "Alegria do Mundo"




terça-feira, 1 de novembro de 2016

A Idade do Divórcio




Devia haver uma idade para o divórcio como há para o casamento.
As desilusões domésticas têm o seu tempo para se transformarem em cicatrizes que vão desaparecendo com o passar dos anos.
Por isso é que nos velhos casais há uma recordação da vida em comum que se assemelha à santidade. Contam peripécias leves e dão ao passado um colorido quase caricato pela força do distanciamento em que se encontram.
A verdade é que sofreram os mesmos desenganos e turbulências que os jovens arrumam e põem de lado sem dar tempo a transformarem-nos em recalques.

Agustina Bessa-Luís
in, "Antes do Degelo"


terça-feira, 7 de junho de 2016

Os que Morrem por Amor




Os que morrem por amor continuam a pertencer à lenda. Os seus funerais arrastam uma multidão piedosa, tal como decerto aconteceu na cidade de Verona, há seiscentos anos. Ainda que nesse tempo os costumes fossem bastante fáceis, a prática erótica da juventude era muito mais modesta. Reflectindo melhor, é de crer que a própria licença produzisse um tipo de pessoas orgulhosas da sua intimidade afectiva; o que, se não é virtude, algo se parece. Este orgulho da própria intimidade conduz a uma atitude hostil em relação a tudo o que pode burocratizar os sentimentos. Há um sociólogo inclinado a crer que existe muito de romantismo burocrático no amor moderno. É possível. E quando aparecem os contestatários dessa espécie de burocracia, como são os Romeus e Julietas do Candal, a cidade fica-lhes agradecida. No campo dos afectos trata-se da luta obstinada que resulta do choque entre a vida privada e o regime governativo; entre um corpo animado de impulsos e uma autoridade explicada por leis. Através de inquéritos feitos nos meios juvenis para inquirir das transformações que se efectuam no âmbito das relações afectivas, deparam-se declarações bastante confusas. Elas pairam entre uma sinceridade elementar que descura a experiência e teorias perfeitamente viciadas nos lugares-comuns do século. Entre outras coisas, afirmam que o amor é o último terreno não colonizado e, por isso, o único que oferece alguma possibilidade de salvação. Tudo isto não passa de rumor e timidez moral. Tem pouco conteúdo e pouca verdade. 

O amor está relacionado com a memória. Ama-se só o que nos recorda alguma coisa ou alguém. A memória é um estado de afeição. Em amor, a improvisação não existe. Ele é a pintura emocional duma pintura mental. Portanto, é o terreno mais colonizado que existe. Mas também é certo que o amor se encontra cada vez mais ligado ao processo de humanização. A sensibilidade é uma criação do homem; e o amor é uma ocupação da sensibilidade. Nas sociedades primitivas havia instinto maternal e instinto de conservação. O amor resulta do equilíbrio dos dois. Em dados momentos históricos dá-se uma espécie de regresso e a violenta reacção contra a sensibilidade como invenção produtora de civilização. Procura-se o tom do entusiasmo na libertação do instinto. Mas o verdadeiro entusiasmo é sóbrio. As épocas aparentemente muito inovadoras são épocas que escondem a perturbação e o medo, atrás dum falso entusiasmo. As grandes ideias partem da energia eficaz, e não da agitação mais ou menos vegetal.
De repente, um jovem mata-se por amor. E aquela turba, que estava entregue aos seus empregos e aos seus negócios, fica suspensa duma interrogação: «É possível que alguém se mate por amor numa sociedade já afastada dos traumatismos da repressão?» É possível. Até porque a extrema libertação dos costumes conduz à instabilidade quanto ao comportamento do outro. É um facto. Desejamos a nossa liberação, mas não a de quem nós amamos. 

Mas, sobretudo, morrer por amor é exemplo duma realidade sensível. Uma realidade sensível recebe a sua existência pelo que participa na natureza das coisas e das pessoas. Isto é o amor. E por isto mesmo havia um pouco de alegria discreta na multidão que enchia o jardim junto da morgue. O entusiasmo quebrava o luto e ardia até ao alto das frondosas árvores.


Agustina Bessa-Luís
in, "Crónica da Manhã"


domingo, 29 de maio de 2016

A Saturação da Servidão




Hoje estão em causa, não as paradas, que é tudo em que as multidões são adestradas, ou a guerra, a que se convidam; está em causa toda uma dinâmica nova para criar o habitat duma humanidade que atingiu a saturação da servidão, depois de há milénios ter dado o passo da reflexão.
As pessoas interrogam-se em tudo quanto vivem.
A saturação da servidão não é uma revolta; é um sentimento de desapego imenso quanto aos princípios que amaram, os deuses a que se curvaram, os homens que exaltaram. 
(...)
Mas foi crescendo a saturação da servidão, porque a alma humana cresceu também, tornou-se capaz de ser amada espontaneamente; tudo o que servimos era o intermediário do nosso amor pelo que em absoluto nós somos. Serviram-se valores porque neles se representava a aparência duma qualidade, como a beleza, o saber, a força; esses valores estão agora saturados, demolidos pela revelação da verdade de que tudo é concedido ao corpo moral da humanidade e não ao seu executor. 
Um grande terror sucede à saturação da servidão.
Receamos essa motivação nova que é a nossa vontade, a nossa fé sem justificação a não ser estarmos presentes num imenso espaço que não é povoado pela mitologia de coisa alguma.
Somos novos na nossa velha aspiração: a liberdade é doce para os que a esperam; quando ela for um facto para toda a gente, damos-lhe outro nome.


Agustina Bessa-Luís
in, "Dicionário Imperfeito"

quinta-feira, 26 de maio de 2016

A Solidão é Necessária ao Convívio




As pessoas estão prontas a viver em bom entendimento, mas não querem ser viciadas em agradar.
A condição humana assenta num pressuposto equilibrado: a vida agrada a uns e desagrada a outros.
Há uma parte da solidão que não podemos compor, e é melhor que assim seja, porque é na solidão que assenta a diferença tão falada. É isso que se receia: que nos proíbam a solidão, esse pequeno espinho que afinal nos faz solidários na multidão.
Observem um grupo de pessoas que ri da mesma anedota: estão abertas a esse prazer do momento, mas não se distraem da faculdade de serem sós na sua fundamental forma de orgulho que é serem únicas.
A moral consta duma certa dose de cortesia para parecermos bons.
"Só Deus é bom."
Se percebermos esta conclusão, percebemos que imitar o bem é tudo o que humanamente nos é permitido.


Agustina Bessa-Luís 
in, "Dicionário Imperfeito"


domingo, 22 de maio de 2016

O Desejo do Homem é Contrário à Sua Unidade




Houve tempo em que o homem inventou o amor cortês para não perder a intimidade das mulheres. Elas estavam a ser atraídas pela formidável influência da Igreja que as recebia permitindo-lhes uma personalidade estável. As mulheres amam essa personalidade estável que Freud soube preservar nas suas relações com Marta, a mulher de toda a sua vida. Ler a correspondência de Freud com Marta é muito salutar neste mundo a abarrotar de esgotamentos nervosos e falsas ou reais confidências. Um dos seus clientes (Schonberg) causava-lhe grande preocupação. Um dia, a cunhada, vendo o doente cumprimentar uma senhora, disse: "O facto de ele ser outra vez bem educado com as mulheres é também um índice de melhoria". Freud não deixa de referir isto, que corresponde a uma personalidade venerável. As mulheres acham que é sinal de normalidade serem tratadas com cortesia. O desejo não lhes diz nada, comparado com uma palavra doce e conveniente. Isto não é uma síntese do comportamento dos homens e das mulheres. Mas sim uma certeza - o que não proíbe toda a espécie de averbamentos necessários à verdade.

Nietzsche, imoralista por definição, disse que não há nada mais contrário ao gosto do que o homem que deseja. É certo que o homem, nas suas acções, na sua bravura animal, mesmo perdido no labirinto dos sentidos, nos parece admirável e digno de encorajamento. Mas sabemos que o desejo é o seu lado mais anárquico e contrário à unidade do próprio homem. As mulheres reconhecem isso e desacreditam tanto o homem que deseja, como o que é desejável. Entretanto, é uma questão de gosto iludirmo-nos sobre o gosto.
E sobre o desejo também.



Agustina Bessa-Luís 
in, "Contemplação Carinhosa da Angústia"


quinta-feira, 19 de maio de 2016

O Português




Prefere ser um rico desconhecido, a ser um herói pobre. É melhor do que parece. O homem português é dissimulado, e fez da inveja um discurso do bom senso e dos direitos humanos.
Mas é também um homem de paixões moderadas pela sensibilidade, o que faz dele um grande civilizado.
Gosta das mulheres, o que explica o estado de dependência em que as pretende manter. A dependência é uma motivação erótica.
É inovador mas tem pouco carácter, como é próprio dos superiormente inteligentes, tanto cientistas, como filósofos e criadores em geral.
Mente muito, e a verdade que se arroga é uma culpa inibida. Vemos que ele se mantém num estado primitivo quando defende a sua área de partido, de seita e de família, à custa de corrupções e de crimes, se for preciso.
Gosta do poder mas não da notoriedade. Não tem o sentido da eternidade, mas sim o prazer da liberdade imediata. Não é democrata; excepto se isso intimidar os seus adversários.
Não tem génio, tem habilidade.
É imaginativo mas não pensador.
É culto mas não experiente.
Não gosta da lei, porque ela desvaloriza a sua própria iniciativa. É místico com a fábula e viril com a desgraça.
Admira mais a Deus do que tem fé Nele.

Agustina Bessa-Luís
in, "Caderno de Significados"



Os Portugueses são profundamente vaidosos. Quando me dizem que eu sou muito vaidosa, eu, nisso, sinto-me muito portuguesa.
Quando, por exemplo, os Franceses me dizem, com uma linguagem muito catedrática, "eu conheço muito bem os Portugueses através de toda essa onda de emigração, eles são muito humildes e dizem que o lugar onde gostariam de morrer seria em França", eu digo "tenha cuidado, o português mente sempre. É como o japonês, mente sempre." Porque tem receio de mostrar o seu complexo de superioridade. Ele acha que é imprudente e que é até disparatado, mas que faz parte da sua natureza. Portanto, apresenta uma espécie de capa e de fisionomia de humildade, modéstia, submissão. Mas não é nada disso, é justamente o contrário. Houve épocas da nossa História em que a sua verdadeira natureza pôde expandir-se sem cair no ridículo, mas há outras em que não. E então, para se defender desse ridículo, o português parece essa pessoa modesta, cordata, que não levanta demasiados problemas, seja aos regimes seja na sua vida particular.


Agustina Bessa-Luís 
in, "Dicionário Imperfeito"

domingo, 9 de novembro de 2014

...............querer mudar o mundo



"Quando eu era criança, ouvia muitas vezes a expressão "querer mudar o mundo", como se fosse coisa de ingenuidade ou de pouco juízo.
Mas eu pensava :"Que é isso de mudar o mundo?
Porque não se pode fazer?"
E parecia-me aventura maravilhosa, tão bela como um tempo de ouro, em que todos fôssemos inteligentes para cada hora do dia. "

- Agustina Bessa-Luís


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Antes do meio século, não se tem uma história...



“...antes do meio século, meus amigos, ninguém tem história.
A história de uma mulher galante, dum político, dum artista ou até dum homem comum é, acima de tudo, a história da sua consciência, movida não só por circunstâncias, mas também pela sua realidade como ente de memória, como testemunha.
Aos quinze anos tem-se um futuro, aos vinte e cinco um problema, aos quarenta uma experiência; mas antes do meio século não se tem verdadeiramente uma história.”

AGUSTINA BESSA-LUÍS
 In, O SERMÃO DO FOGO

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

..............casamentos malparados


“SE hoje se ouve falar duma mulher que deixa o tecto conjugal, isso não merece mais do que um encolher de ombros.
Mesmo sem abandonar a constância do matrimónio, as mulheres deixam a casa e ...vivem mais na rua e no emprego do que entre as paredes designadas como um lar.
Mas o estado psíquico da mulher de ontem e de hoje, continua a ser o mesmo: a carência afectiva é responsável pelos inúmeros transtornos sociais que não podem ser produzidos pela acumulação de um azar – um casamento malparado.
Carência afectiva é, na sua servilidade, uma catástrofe social. 
O objecto do grande sonho da vida é o amor.
O amor raia o assunto do absurdo, e que não tem por fim ser explicado, nem se destina a significar qualquer propriedade útil, como ter filhos ou proporcionar prazer.
Um considerável número de mulheres amorosas não merecem o nome de libidinosas.”

Agustina Bessa-Luís 
in, O mistério da légua da póvoa


 "A MULHER NÃO PRECISA DE SE TRANSCENDER COMO O HOMEM PRECISA. 
COMPLETA-SE NELA PRÓPRIA." 
 Agustina Bessa-Luiz

sábado, 19 de julho de 2014

FELICIDADE...



"A obrigação de ser feliz...
Diante do horror do mundo, temos de ser felizes...

Estamos aniquilando a melancolia.
Inventaram a ciência da felicidade.
Livros de auto-ajuda, pílulas da alegria, tudo cria um 'admirável mundo novo' sem bodes, felicidade sem penas.
Isto é perigoso, pois anula uma parte essencial da vida: a tristeza."

Ele continua:
"Não sou contra a alegria em geral, claro...
Nem romantizo a depressão clínica, que exige tratamento.
Mas sinto que somos inebriados pela moda americana de felicidade.
Podemos crer que estamos levando óptimas vidas simpáticas e livres quando nos comportamos artificialmente como robôs, caindo no conto dos desgastados comportamentos 'felizes', nas convenções do contentamento.
Enganados, perdemos o espantoso mistério do cosmos, sua treva luminosa, sua terrível beleza...
O sonho americano de felicidade pode ser um pesadelo.

O poeta John Keats morreu tuberculoso, em meio a brutais tragédias, mas nunca denunciou a vida. Transformou sua desgraça numa fonte vital de beleza.
As coisas são belas porque morrem - ele clamava.
A rosa de porcelana não é tão bela como aquela que desmaia e fenece.

A melancolia, a consciência do tempo finito é o lugar de onde se contempla a beleza.
Há uma conexão entre tristeza, beleza e morte.
Só o melancólico cria a arte e pode celebrar a experiência do transitório resplendor da vida...
A melancolia, longe de ser uma doença, é quase um convite milagroso para transcender o 'status quo' banal e imaginar inéditas possibilidades de existência.
Sem a melancolia, a terra congelaria num estado fixo, previsível como metal."

ARNALDO JABOR



A Felicidade não está nas coisas materiais, porque queremos sempre mais e mais, no entanto certas coisas materiais dão-nos verdadeiros momentos de felicidade.
Mais um paradoxo da vida...

Aos 34 anos, tinha tudo o que sempre quis...uma boa casa no campo, um bom carro, os meus cães, etc...e nunca me senti tão infeliz, por descobrir que a felicidade não estava ali onde a tinha procurado.
Foi um ano terrível, entre os 34 e os 35...até entrar em colapso.
Foi o despertar para muita coisa...para grandes lições.
Para mim, o desprendimento e a felicidade, é usar as "coisas" para a minha felicidade, e não deixar que a minha felicidade dependa dessas mesmas coisas...

Tudo o que a vida me pode tirar, não é verdadeiramente meu...portanto, é aproveitar a existência de certas coisas na minha vida, até chegar a hora de as perder...



"AMA TODAS AS COISAS COMO SE AS FOSSES PERDER. " 

Agustina Bessa-Luis

sábado, 14 de dezembro de 2013

As Mulheres e a Solidão


Não creio que as mulheres tenham problemas de solidão.
Estão preparadas para a solidão e, em geral, para toda a espécie de sofrimento; a natureza dotou-as com singulares poderes de resistência, o que os doutos alquimistas diziam ser humor frio e incapaz de maturidade intelectual.
Acho mesmo que a solidão é um estado natural da mulher; e por isso todos os movimentos ascéticos que envolviam retiro e culto da experiência espiritual, desde as vestais de Roma até às Damas do Amor Cortês, na Provença, partiam dum sentimento feminino muito acentuado.
Os homens não encaram bem esse protótipo de mulher espiritual, porque ele é o único que recria a independência feminina depois do primeiro Éden.
E diz-se primeiro Éden porque, segundo as Escrituras, houve, antes de Eva, uma mulher pura, inteligente e igual ao homem, de grande condição metafísica, porém cruel e sumamente poderosa. Chamava-se Lilith.
Em suma, o mito da mulher fatal, que o homem teme e, ao mesmo tempo, pretende conhecer como sua verdadeira metade.

O dilema é este: nós as mulheres, somos prosaicas, sobretudo quando somos naturais.
É próprio daqueles que são delicados e frágeis o serem terra-a-terra, porque isso lhes dá a impressão de estarem mais protegidos.
A realidade protege mais do que os sonhos, do que as coisas imaginárias.

Agustina Bessa-Luís
In "Dicionário Imperfeito"


"Com todo o respeito que tenho pela Grande Agustina Bessa-Luís, apesar de preferir a Natália Correia, defensora dos poetas sonhadores, neste texto noto um pouco do seu apego à Tradição Católica e muitas mulheres da minha geração e mais novas ainda pensam assim.

Para quê viver um amor só de carícias, sonhos, passeios no parque com a Lua Cheia, amores que são encontros esporádicos mas com muitas saudades quando voltam, amores que não se acomodam numa casa de quatro paredes, amores uma vez por semana e mais fortes, amores que são partilha de livros, como foi Lincoln com a sua primeira paixão?
Para quê?

O importante é sermos modernos, neoliberais e ao mesmo tempo tradicionais.
Quanta contradição.

O importante é um homem forte, com estabilidade financeira, escravo do Mundo Seguro do Mercado do Trabalho.
Que bonito os sonhos inexistentes.
Que bonita a falta de telepatia e sensações.
Para quê um menino da mamã, que foi sempre educado por mulheres, e inclinado para a arte e intervenção na Sociedade para trazer as utopias para o mundo?
Tem ele culpa de os pais se terem separado amigávelmente quando era bebé, de se sentir mais atraído pelo misterioso feminino do que pelo masculino tão vulgar, que o repugna com aquelas conversas de futebol e caserna pornográfica?

Algumas separações, são para sempre estranhos, já não se conhecem, precisamente porque foi forte a chama e não o corpo nem o dinheiro!

Os "romanos" que continuem a crucificar estes homens, esses "romanos" que estão bem inseridos e ganham o amor das mulheres.
São fortes.
Força, prática, cegueira para as Mulheres.
Força que dá em violência doméstica.
Quantos poetas bateram em mulheres?
E quantos senhores empresários bateram nas mulheres, depois de irem às tabernas e às prostitutas?
Já pensaram nisso?
Já pensou nisso, Senhora Agustina Bessa-Luís?

A humanidade, há séculos que não sai da cepa torta.


No entanto, sem fugir muito ao texto, a questão aqui...é deixar falar as mulheres...por si, e para si, como se sentem e o que pensam, e isto nada tem a ver com o que disse sobre a escritora,de quem gosto muito, que extrapola o que concerne este excerto e com o qual eu concordo, mas digo isto só porque é tempo de deixar falar as mulheres..."


Rosa Leonor Pedro

terça-feira, 22 de outubro de 2013

.........................Agustina


“Se hoje se ouve falar duma mulher que deixa o tecto conjugal, isso não merece mais do que um encolher de ombros.
Mesmo sem abandonar a constância do matrimónio, as mulheres deixam a casa e ...vivem mais na rua e no emprego, do que entre as paredes designadas como um lar.
Mas o estado psíquico da mulher de ontem e de hoje continua a ser o mesmo: a carência afectiva é responsável pelos inúmeros transtornos sociais que não podem ser produzidos pela acumulação de um azar – um casamento malparado.
Carência afectiva é, na sua servilidade, uma catástrofe social.
O objecto do grande sonho da vida é o amor.
O amor raia o assunto do absurdo, e que não tem por fim ser explicado nem se destina a significar qualquer propriedade útil, como ter filhos ou proporcionar prazer.
Um considerável número de mulheres amorosas não merecem o nome de libidinosas.”

Agustina Bessa-Luís 
in, "O mistério da légua da póvoa"


...Um considerável número de mulheres amorosas não merecem o nome de libidinosas....genial!