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sábado, 21 de setembro de 2019

ADEUS





Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.



EUGÉNIO DE ANDRADE
in, OS AMANTES SEM DINHEIRO





quarta-feira, 3 de julho de 2019

O Ofício





Recomeço.
Não tenho outro ofício.

Entre o pólen subtil
e o bolor da palha,
recomeço.

Com a noite de perfil
a medir-me cada passo,

recomeço,
pedra sobre pedra,
a juntar palavras;

quero eu dizer:
ranho baba merda


Eugénio de Andrade




segunda-feira, 1 de julho de 2019

DESDE O CHÃO





A pele porosa do silêncio 
agora que a noite sangra nos pulsos 
traz-me o teu rumor de chuva branca.

O verão anda por aí, o cheiro 
violento da beladona cega a terra. 
Cega também, a boca procura 
trabalhos de amor. Encontra apenas 
o nó de sombra das palavras.

Palavras…Onde um só grito 
bastaria, há a gordura 
das palavras. Palavras…, 
quando apetecem claridades súbitas, 
o sumo estreme, a ponta extrema 
do teu corpo, arco, flecha, 
corola de água aberta 
ao fogo a prumo do meu corpo.

Do chão ao cume das colinas, 
eis as areias. Cala-te. 
Deita-te. Debaixo dos meus flancos. 
A terra toda em cima. Agora arde. Agora.


Eugénio de Andrade
in, Obscuro Domínio






sábado, 28 de abril de 2018

Passamos pelas coisas sem as ver





Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.


Eugénio de Andrade






segunda-feira, 19 de março de 2018

Green God





Trazia consigo a graça 
das fontes quando anoitece. 
Era um corpo como um rio 
em sereno desafio 
com as margens quando desce. 

Andava como quem passa 
sem ter tempo de parar. 
Ervas nasciam dos passos, 
cresciam troncos dos braços 
quando os erguia no ar. 

Sorria como quem dança. 
E desfolhava ao dançar 
o corpo, que lhe tremia 
num ritmo que ele sabia 
que os deuses devem usar. 

E seguia o seu caminho, 
porque era um deus que passava. 
Alheio a tudo o que via, 
enleado na melodia 
duma flauta que tocava. 


Eugénio de Andrade 
in, "Poesia" 








quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Poema à Mãe





No mais fundo de ti, 
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 

e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz: 
Era uma vez uma princesa 
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 

Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.




Eugénio de Andrade
in, "Os Amantes Sem Dinheiro"







quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Os Amigos




Os amigos amei 
despido de ternura 
fatigada; 
uns iam, outros vinham, 
a nenhum perguntava 
porque partia, 
porque ficava; 
era pouco o que tinha, 
pouco o que dava, 
mas também só queria 
partilhar 
a sede de alegria — 
por mais amarga.


Eugénio de Andrade
in, "Coração do Dia"



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Até Amanhã



Sei agora como nasceu a alegria, 
como nasce o vento entre barcos de papel, 
como nasce a água ou o amor 
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma 
à roda do corpo que desperta, 
sílaba espessa, beijo acumulado, 
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito, 
um grito apertado nos dentes, 
galope de cavalos num horizonte 
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei. 
De coisas que te dou 
para que tu as ames comigo: 
a juventude, o vento e as areias.

Eugénio de Andrade



quinta-feira, 3 de novembro de 2016

.....................................solidão




Talvez a minha solidão seja excessiva, 
mas eu detestei sempre as coisas mundanas. 

Estar com as pessoas 
apenas para gastar as horas 
é-me insuportável.

| Eugénio de Andrade |



terça-feira, 1 de novembro de 2016

Soneto de Amor




Não me peças palavras, nem baladas, 
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio, 
Deixa cair as pálpebras pesadas, 
E entre os seios me apertes sem receio. 

Na tua boca sob a minha, ao meio, 
Nossas línguas se busquem, desvairadas... 
E que os meus flancos nus vibrem no enleio 
Das tuas pernas ágeis e delgadas. 

E em duas bocas uma língua..., — unidos, 
Nós trocaremos beijos e gemidos, 
Sentindo o nosso sangue misturar-se. 

Depois... — abre os teus olhos, minha amada! 
Enterra-os bem nos meus; não digas nada... 
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce! 


José Régio
in “Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, Eugénio de Andrade” 


sábado, 29 de outubro de 2016

Do Outro Lado




Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar.
Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes.

Eugénio de Andrade
in, Poesia e Prosa


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

..................................o teu corpo




Respiro o teu corpo
Sabe a lua-de-água.
Ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite.
Sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade


sábado, 25 de junho de 2016

Um dia destes vou-te matar





Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de
costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e …
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de
eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração.


Eugénio de Andrade


terça-feira, 7 de junho de 2016

As palavras



São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade 
in, O Coração do Dia



domingo, 5 de junho de 2016

De Manhã Vamos Todos Acordar Com Uma Pérola No Cu




Carta de Amor
a Eugénio de Andrade


Um dia destes 
vou-te matar 
Uma manhã qualquer em que estejas (como de costume) 
a medir o tesão das flores 
ali no jardim de S. Lázaro 
um tiro de pistola e... 
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto 
Podes invocar Safo, Cavafy ou S. João da Cruz 
todos os poetas celestiais 
que ninguém te virá acudir 
Comprometidos definitivamente os teus planos de eternidade

Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão 
Um dia destes vou-te matar... 
Uma certeira bala de pólen 
mesmo sobre o coração


Jorge de Sousa Braga
in, "De Manhã Vamos Todos Acordar Com Uma Pérola No Cu"


sábado, 14 de maio de 2016

Já gastamos as palavras



Às vezes tu dizias:os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque a teu lado
todas as coisas eram possíveis.


Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade.
Uns olhos como todos os outros.


Já gastamos as palavras.
Quando agora digo, meu amor...
já não se passa absolutamente nada.
E, no entanto, antes das palavras gastas, 
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse as palavras estão gastas.

Eugénio de Andrade



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O Porto é só…




O Porto é só uma certa maneira de me refugiar na tarde, forrar-me de silêncio e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a insurreição do olhar.

O Porto é só esta atenção empenhada em escutar os passos dos velhos, que a certas horas atravessam a rua para passarem os dias no café em frente, os olhos vazios, as lágrimas todas das crianças de S. Victor correndo nos sulcos da sua melancolia.

O Porto é só a pequena praça onde há tantos anos aprendo metodicamente a ser árvore, procurando assim parecer-me cada vez mais com a terra obscura do meu próprio rosto.

Desentendido da cidade, olho na palma da mão os resíduos da juventude, e dessa paixão sem regra deixarei que uma pétala poise aqui, por ser tão branca.


Eugénio de Andrade


domingo, 31 de janeiro de 2016

......................nem dás por mim



Que música escutas tão atentamente que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti que tudo canta ainda?
Queria falar contigo, dizer-te apenas que estou aqui, mas tenho medo, medo que toda a música cesse e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio com que teces os dias sem memória.
Com que palavras ou beijos ou lágrimas se acordam os mortos sem os ferir, sem os trazer a esta espuma negra onde corpos e corpos se repetem, parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim, ó cheia de doçura, sentada, olhando as rosas, e tão alheia que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade


domingo, 10 de janeiro de 2016

A Boca



A boca, onde o fogo de um 
verão muito antigo cintila. 
O que pode uma boca 
esperar senão outra boca?

―Eugénio de Andrade

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Creio que foi o sorriso








Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


Eugénio de Andrade