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segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Palavras de água


 Resat Kuleli



Fechei-me dentro dos muros 
onde o meu corpo não cabia 
contente de ser prisioneira 
do cárcere que eu transcendia. 

E fui no vento que tudo 
tudo o que havia varria, 
contente de ser mais veloz 
que o vento que me impelia. 

Fiquei suspensa dos ramos 
que os meus cabelos prendiam 
contente de ser o destino 
da árvore em que me fundia. 

E dei-me como leito às águas 
dos sonhos que me transcorriam 
contente de ser o curso 
da água em que me esvaía.


Natália Correia
Superação 
in, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias



terça-feira, 24 de setembro de 2024

Sete luas






Há noites que são feitas dos meus braços 
E um silêncio comum às violetas. 
E há sete luas que são sete traços 
De sete noites que nunca foram feitas. 

Há noites que levamos à cintura 
Como um cinto de grandes borboletas. 
E um risco a sangue na nossa carne escura 
Duma espada à bainha dum cometa. 

Há noites que nos deixam para trás 
Enrolados no nosso desencanto 
E cisnes brancos que só são iguais 
À mais longínqua onda do seu canto. 

Há noites que nos levam para onde 
O fantasma de nós fica mais perto; 
E é sempre a nossa voz que nos responde 
E só o nosso nome estava certo. 

Há noites que são lírios e são feras 
E a nossa exatidão de rosa vil 
Reconcilia no frio das esferas 
Os astros que se olham de perfil.


Natália Correia




sábado, 14 de setembro de 2024

Do sentimento trágico da vida


Rehulian Yevhen 




Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.


Natália Correia




quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Cântico do País Emerso








 Os previdentes e os presidentes tomam de ponta
Os inocentes que têm pressa de voar
Os revoltados fazem de conta fazem de conta...
Os revoltantes fazem as contas de somar.

Embebo-me na solidão como uma esponja
Por becos que me conduzem a hospitais.
O medo é um tenente que faz a ronda
E a ronda abre sepulcros fecha portais;

Os edifícios são malefícios da conjura
Municipal de um desalento e de uma Porta.
Salvo a ranhura para sair o funeral
Não há inquilinos nos edifícios vistos por fora

Que é dos meninos com cataventos na aérea
Arquitetura de gargalhadas em cornucópia?
Almas bovinas acomodadas à matéria
Pastam na erva entre as ruínas da memória,

Homens por dentro abandalhados em unhas sujas
Que desleixaram seu coração num bengaleiro;
Mulheres corujas seriam gregas não fossem as negras
Nódoas deixadas na sua carne pelo dinheiro;

Jovens alheios à pulcritude do corpo em festa
Passam por mim como alamedas de ciprestes
E a flor de cinza da juventude é uma aresta
Que me golpeia abrindo vácuos de flores silvestres

E essa ansidedade de mim mesma me virgula
Paula de pátria entressonhada. É um crisol.
E, o fruto agreste da linfa ardente que em mim circula
Sabe-me a sol. Sabe-me a pássaro. Pássaro ao sol.

Entre mim e a cidade se ateia a perspectiva
De uma angústia florida em narinas frementes.
Apalpo-me estou viva e o tacto subjectiva-me
a galope num sonho com espuma nos dentes.

E invoco-vos, irmãos, Capitães-Mores do Instinto!
Que me acenais do mar com um lenço cor da aurora
E com a tinta azulada desse aceno me pinto.
O cais é a urgência. O embarque é agora.


Natália Correia


terça-feira, 13 de setembro de 2022

O Progresso de Édipo











Estranheza de ser. De agoniado
Espanto sou feita num sonho naufragado.
Tempo emprestado com um astro louco ao fundo.

Sitiada por trevas não descanso
De indagar minha essência e só me alcanço
Na loucura de não ser deste mundo. 


...


Na febre de buscar o senso à vida
Descubro-me dor de alma inacabada.
Poeira em forma breve reunida
No seu nexo de chama encarcerada. 

Nascer é um deus que prega uma partida
À inteligência universal do nada?
E ao fim a morte … talvez uma saída?
Ou nos confins do ser esperançosa entrada?

Estranha a mim na assombração do enigma
Ubíqua estou atada ao tempo, o estigma
A procurar-me sob a máscara, o rosto.

Mais se crispa o mistério na procura
De Deus nenhum sinal. Só à loucura
Do universo meu coração exposto


...


Melhor é ir. Atravessar o muro,
Seguir na barca que passa o golfo escuro
E ao Grande Enigma abandonar os remos.




Natália Correia
in, O Progresso de Édipo - Poema Dramático


domingo, 26 de dezembro de 2021

Falavam-me de Amor







Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia
in O Dilúvio e a Pomba





segunda-feira, 13 de setembro de 2021

ANTES SER A SERPENTE, QUE A EVA DOMESTICADA

 




Eu não vou ficar como elas, amarelecida numa fotografia de piquenique, antepassada de mim mesma. 
Eu não vou ficar estupidamente feliz num retrato de casamento, um único momento de glória, ao lado de um homem que não conheço, que nunca conhecerei mas que me vai fazer muitos filhos e mandar-me calar quando eu disser asneiras. 
Eu vou ter as ancas magnéticas, os seios livres, ofertados, os calcanhares vibráteis como cordas, transmitindo o chamamento da minha sede de ser amada e amar na vertigem de ser amada. 

Natália Correia
in, A Madona



 

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Queixa Das Almas Jovens Censuradas


 




Dão-nos um lírio e um canivete 
E uma alma para ir à escola 
Mais um letreiro que promete 
Raízes, hastes e corola 

Dão-nos um mapa imaginário 
Que tem a forma de uma cidade 
Mais um relógio e um calendário 
Onde não vem a nossa idade 

Dão-nos a honra de manequim 
Para dar corda à nossa ausência. 
Dão-nos um prémio de ser assim 
Sem pecado e sem inocência 

Dão-nos um barco e um chapéu 
Para tirarmos o retrato 
Dão-nos bilhetes para o céu 
Levado à cena num teatro 

Penteiam-nos os crânios ermos 
Com as cabeleiras das avós 
Para jamais nos parecermos 
Connosco quando estamos sós 

Dão-nos um bolo que é a história 
Da nossa história sem enredo 
E não nos soa na memória 
Outra palavra que o medo 

Temos fantasmas tão educados 
Que adormecemos no seu ombro 
Somos vazios despovoados 
De personagens de assombro 

Dão-nos a capa do evangelho 
E um pacote de tabaco 
Dão-nos um pente e um espelho 
Pra pentearmos um macaco 

Dão-nos um cravo preso à cabeça 
E uma cabeça presa à cintura 
Para que o corpo não pareça 
A forma da alma que o procura 

Dão-nos um esquife feito de ferro 
Com embutidos de diamante 
Para organizar já o enterro 
Do nosso corpo mais adiante 

Dão-nos um nome e um jornal 
Um avião e um violino 
Mas não nos dão o animal 
Que espeta os cornos no destino 

Dão-nos marujos de papelão 
Com carimbo no passaporte 
Por isso a nossa dimensão 
Não é a vida, nem é a morte.


Natália Correia 
in, Dimensão Encontrada




Luca Argel - Queixa das Almas Jovens Censuradas | Um Disco para José Már...

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Queixa das almas jovens censuradas





Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte.



Natália Correia
in, Antologia Poética





quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Projecto de Bodas






Hoje apetece que uma rosa seja 
o coração exterior do dia 
e a tua adolescência de cereja 
no meu bico de Isolda cotovia. 

Hoje apetece a intuição dum cais 
para a lucidez de não chegar a tempo 
e ficarmos violetas nupciais 
com a lua a celebrar o casamento. 

Apetece uma casa cor-de-rosa 
com um galo vermelho no telhado 
e os degraus duma seda vagarosa 
que nunca chegue à varanda do noivado. 

Hoje apetece que o cigarro saiba 
a ter fumado uma cidade toda. 
Ser o anel onde o teu dedo caiba 
e faltarmos os dois à nossa boda. 

Hoje apetece um interior de esponja 
E como estátua a que moldar o vento. 
Deitar as sortes e, se sair monja, 
Navegar ao acaso o meu convento. 

Hoje apetece o mundo pelo modo 
Como vai despenhar-se um trapezista. 
Abrir mais uma flor no nosso lodo: 
Pedir-lhe um salto e retirar-lhe a pista. 

Hoje apetece que a cor dum automóvel 
Seja o Egipto de novo em movimento; 
E que no espaço duma gota imóvel 
Caiba a possível capital do vento. 

Hoje apetece ter nascido loiro 
Como apetece ter havido Atenas; 
E tu nas curvas rápidas de um toiro. 
E eu quase intangível como as renas. 

Hoje apetece que venhas no jornal 
Como um anúncio. Sem fotografia. 
E inventar-te uma lenda de cristal 
Para reflectir a minha biografia. 


Natália Correia
in, 'O Sol nas Noites e o Luar nos Dias'






quarta-feira, 7 de março de 2018

A DEFESA DO POETA




Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.



Natália Correia
in, Poesia Completa





quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

BALADA PARA UM HOMEM NA MULTIDÃO





Este homem que entre a multidão
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no Japão
a diferença é ele ignorar.

Muitos mortos foram necessários
para formar seus dentes um cabelo
vai movido por pés involuntários
e endoidece ser eu a percebê-lo.

Sentam-no à mesa de um café
num andaime ou sob um pinheiro
tanto faz desde que se esqueça
que é homem à espera que cresça
a árvore que dá dinheiro.

Alimentam-no do ar proibido
de um sonho que não é dele
não tem mais que esse frasco de vidro
para fechar a estrela do norte.
E só o seu corpo abolido
lhe pertence na hora da morte.


Natália Correia





quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A Altares não Prendas aqueles que são Deuses





Os deuses não nos querem de joelhos.
Se inábeis lhes erguemos um altar,
Afastam-se de nós. Ficam enfermos
E tomam a decisão de se calar.

Não pode Vénus sem movimentos livres
ir ao inferno buscar o seu amante.
Por isso elege, em deleitosos perigos,
Prazeres e sonhos, seu santuário errante.

Em cada deus exprime a eternidade
O empenho de ser ave e a ninfa é boa
Porque fluindo na fonte em liberdade
Na mão em concha nos leva a água à boca.

A altares não prendas aqueles que são deuses
Porque são soltos como gargalhadas
Qual das crisálidas os impulsos presos,
Para voar, rebentam as suas cascas.

Reprova o oráculo os que por crenças fátuas,
Matando o riso, vão do tempo à tumba.
A alegria é divina. As suas asas
Murcham se atadas a aras de renúncia.


Natália Correia
in, O Armistício





quarta-feira, 19 de julho de 2017

A Minha Poesia





Aquilo que dentro da minha produção poética pode eventualmente definir-me, entre os poetas da minha geração, é o resultado do esforço para conquistar um espaço independente, ou seja, a minha forma particular de universalizar.
Pertenço ao número dos que atribuem à poesia uma enorme responsabilidade: a de transformar o mundo.
A poetização das coisas não é senão o aperfeiçoamento delas.
É para isto que se faz poesia e não para com ela se fazer literatura.

Os transes de ironia e de revolta que muitas vezes tecem os meus poemas, são o regurgitar de um incontinente entusiasmo por um sonegado destino de amor e liberdade que o poeta escuta ao estimular a superação das coisas e dos seres e que não vê cumprida.
A luta contra o tempo gerando o sublime engendra-lhe o reverso que é a abjecção de se viver condicionalmente. 

Aquilo que Jaspers chama o incondicional e que emana de uma liberdade que não pode ser de outra maneira, que não é causa de leis naturais mas o seu fundamento transcendente e que é o sublime de cada um, resulta na maior traição, porque não é dado ao homem como sua existência, mas deslumbrado num estado de superação.
A luta pelo incondicional em choque com a minha condicionalidade, eis o que me parece caracterizar melhor a minha poesia.


Natália Correia




segunda-feira, 3 de julho de 2017

Mulher como Espelho do Homem





O homem sonha. Do fundo de uma perspectiva rasgada numa matéria opalescente uma mulher caminha para ele. É a sua alma. Psique! A mulher traz um espelho na mão. O homem vê-se no espelho. O seu rosto está banhado de uma luz semeada de pequenas asas vibráteis de platina. É a revelação inaudita do anjo que ele era e não sabia. O homem vê-se no espelho. O seu rosto está coberto de minúsculos animais viscosos que incessantemente saem do antro tenebroso do seu coração. É a revelação monstruosa do demónio que ele era e não sabia.

Eis a glória e a ignominia da mulher…
Glória, porque é da sua natureza anímica, apaixonante, pôr o homem em tensão para o sublime ou para o ignóbil que nele se libertam pela via da paixão.
Ignomínia, porque esta propriedade entusiasmante de mulher implica ser ela indispensavelmente objecto da subjectividade do homem.


NATÁLIA CORREIA
in, "Mulher: Antologia Poética "




segunda-feira, 12 de junho de 2017

O sol nas noites e o luar nos dias





De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.



Natália Correia
in, "Poesia Completa"





quarta-feira, 31 de maio de 2017

Ode à Paz





Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza, 
Pelas aves que voam no olhar de uma criança, 
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza, ...
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança, 
Pela branda melodia do rumor dos regatos, 
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia, 
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos, 
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria, 
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes, 
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos, 
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes, 
Pelos aromas maduros de suaves outonos, 
Pela futura manhã dos grandes transparentes, 
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra, 
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas 
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra, 
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna, 
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz. 
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira, 
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz, 
Abre as portas da História, 
deixa passar a Vida!



Natália Correia 
in, "Inéditos (1985/1990)"





sábado, 27 de maio de 2017

A Missão de Continuar a Vida






Ninguém se pode possuir inteiramente, porque se ignora, porque somos um mistério.
Para nós mesmos.
Podemos sim, ser mais conscientes de uma determinada missão que temos no mundo.
Todos nós somos uma missão. Somos a missão de continuar a vida, aperfeiçoando-a, festejando-a e não destruindo-a como se está a fazer hoje.

Eu não tenho certezas, mas tenho convicções e uma das minhas convicções mais firmes é que nascemos para a liberdade.

E, no entanto, veja o paradoxo: 
Essa liberdade, esse caminho para a liberdade está a ser cada vez mais obscurecido por aquilo que observamos no nosso mundo de hoje.
Nós chegamos a esta coisa terrível, o chamado equilíbrio nuclear, que é o jogo de escondidas de duas disponibilidades criminosas para suprimir a humanidade.
A humanidade está hoje pronta (parece que está sempre pronta!) para pôr luto por si própria.
Isto não é uma forma humana de viver.

Esta tragédia tem que ser a sua «húbris», que é, digamos, a arrogância que desencadeia a catástrofe punitiva. E o que me perturba muito, o que me assusta, é que países que subscrevem, que proclamam os direitos humanos, possam entrar num jogo fatal destes, um jogo que se destina a suprimir o homem.



 Natália Correia




quinta-feira, 4 de maio de 2017

O Mal da Nossa Literatura




O mal da nossa literatura é não ser bastante forte para enfrentar o desafio dos casos solitários.
Há momentos históricos em que a solidão pode passar por desinteresse da sociedade de que se participa. Atravessamos um desses momentos e a crise explica que ninguém queira expor-se ao risco de atraiçoar um pacto com uma literatura empenhada numa só direcção.
Esquece-se todavia que ser-se solitário é, na mais íntegra acepção, a forma mais fecunda de se ser solidário. Na grande solidão de Kafka formou-se um processo que envolvia o problema da liberdade intrínseca de cada um.


Natália Correia