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terça-feira, 10 de agosto de 2021

Um anjo atirou-se do céu e morreu

 





a notícia abriu ontem os telejornais :
' um anjo atirou-se do céu e morreu, estão ainda por esclarecer os motivos '
a seguir mostraram a praia onde o anjo jazia. 
pouco mais era do que um novelo de luz a apagar-se na areia, as asas desfeitas pelo embate, a mancha incorpórea de uma qualquer substância divina irrompendo da túnica branca, mas sem que uma única gota de sangue a manchasse ou desfigurasse. 

à sua volta, a multidão conspirava. 
  • porquê estatelar-se no meio de uma praia mortal, se ao seu dispor tinha as extensões imortais do azul? 
  • por que razão escolher um destino perene e humano, se ao seu alcance estavam os cumes do céu, as benesses de deus, os esplendores perpétuos da luz? 

não é todos os dias que se assiste à queda de um anjo e é normal que a multidão se questione se o paraíso terá, afinal, precipícios, abismos, que a câmara ofereça o banquete da morte de um anjo em directo, que a repórter se esmere por recolher impressões, que a notícia dê azo a comentários em estúdio sobre a justiça divina e a sua eficácia, que ninguém compreenda por que razão uma criatura, por natureza mansa e benigna, se atrofia desta forma ridícula, quase perversa, na orla costeira de um mapa terrestre.
espero que todos se afastem, que a multidão se dissipe, que as câmaras se apaguem, que a noite derrame o seu manto sobre ele e o cubra de estrelas. 

então, devagar, aproximo-me. é ele, não há dúvida, o meu anjo da guarda, saberia reconhecê-lo entre mil, mesmo sem nunca o ter visto, o anjo que há anos mantenho num pedestal de ficção, 
ou de fé, 
hoje já não tenho a certeza de nada, 
e ao qual pedi vezes sem conta uma prova da sua presença ao meu lado. 

com jeito, endireito-lhe as asas, sacudo-lhe a areia do manto, pego-lhe ao colo e levo-o para casa. 
afinal, foi do meu coração, e não dos abismos do céu, foi do meu coração que se atirou ontem à noite, quando 
fora de mim
lhe disse que tinha deixado de acreditar em anjos da guarda.

já era tarde quando chegámos a casa, mas nenhum dos dois tinha sono.
abri-lhe a espreguiçadeira no meio do terraço e estendi-lhe uma manta, para o defender do ar fresco da noite, que teimava em insinuar-se nas cartilagens macias.
que farsa!
sorriu-me o anjo, já instalado no seu trono de verga, por debaixo das bunganvílias que tínhamos posto os dois a crescer em vasos de barro, fazia já algum tempo, e a seguir pediu-me um copo de vinho.
fui buscar a garrafa e brindámos
à morte do anjo
disse ele.

as suas asas guardavam ainda a salmoura das ondas, à tona das penas a areia brilhava, um fino vapor cobria-lhe os olhos, o azul mareava-lhe as pálpebras, reparei que pendurara uma concha ao pescoço, presa ao fio dos meus dias, e que nada na sua brancura fora tomado pelas sombras terrestres.
pediu-me para ler o meu texto e mostrei-lho.
que pena não ser capaz de escrever
disse o meu anjo da guarda.
enchi-lhe o copo outra vez e de novo brindámos à farsa
tchim tchim!

a seguir, perguntei-lhe
porquê?
porque queria sentir, como tu sentes, a humanidade a escorregar-me dos dedos e perceber o porquê das paisagens e das metáforas que cria
disse ele.

fez-se um breve silêncio entre nós, bebemos os dois mais um pouco de vinho, a seguir perguntou-me
tens a noção da quantidade de equívocos que as palavras convocam?
assenti, com um ligeiro aceno das mãos.
deixa-me lá ler isso outra vez...
abri-lhe a janela e de novo o deixei à mercê da praia mortal, da multidão e das câmaras, do suor das palavras, da repórter excitada com a notícia da morte de um anjo em directo, da orla humana do mundo, do ónus da prova.
imagina que eu tinha mesmo morrido? o que farias sem mim?
perguntou-me, com alguma ironia.
foi a minha vez de sorrir.
nenhuma das minhas palavras seria capaz de te matar
respondi.

a seguir, pousei o meu copo de vinho no chão, abri mais ainda a janela, a paisagem e o coração, empurrei-lhe a espreguiçadeira para mais perto das estrelas e deitei-me ao seu lado.
quando estávamos quase a dormir, embalados pelo contágio do céu, perguntou-me
diz a verdade, alguma vez duvidaste da minha existência?
por debaixo da manta, estendi-lhe os meus dedos. benignamente, o meu anjo da guarda amparou-os na luz da sua presença, enquanto eu lhe sussurrava ao ouvido
não, mas todos os dias duvido que seja capaz de traduzir o que aprendo contigo...




Inês de Barros Baptista




domingo, 12 de abril de 2020

Páscoa






pai chão. 
sexta-feira. o dia em que, dizem, mataram o cristo. 
não sei se mataram. oiço-o, vivo, a pulsar por aí. 
vejo-o, sol, a romper e a aclarar as manhãs. 
sinto-o, presente, nos que se alinham com a substância divina.
homem.
gerado não criado e consubstancial ao pai.
milagre.
metáfora.
chão que pisamos, nós todos, por via da mãe.
o mistério da fé que permanece mistério 
apenas para os que não acreditam. 
não que o mataram, mas que nasceu, numa jerusalém do amor, 
o país sem fronteiras dos que abrem os braços aos outros.
a paixão da entrega, a confiança no bem, o reino que não terá fim, 
sempre que ressuscitarmos para a vida.
a paz esteja contigo.
a páscoa.

'pessah', em hebraico, 
que significa passagem e nós a caminho. 
passageiros sempre em trânsito, 
de um lado para o outro, 
de uma estação para a seguinte, 
de colo em colo, mão em mão, 
criando pontes, laços, afectos.

anunciamos a nossa morte, 
proclamamos a nossa ressurreição, 
guia-nos a consciência do nosso mistério ou,
 se assim não for, 
seguimos surdos e cegos, 
às apalpadelas no escuro.
sem pai e sem mãe 
e sem céu e sem chão.
crucificados.
e aquém, muito aquém, do amor. 


Inês de Barros Baptista





sexta-feira, 4 de março de 2016

Meu querido Ego



Mentiria se dissesse que me quero livrar de ti ou até fazer de conta que não és o habitante por excelência deste meu humano umbigo. Sim, eu sei e reconheço a tua força, o teu desejo de poder, a sede de protagonismo, a voracidade com que me saltas das entranhas e com que exiges possuir todas as coisas e, até, controlá-las à medida da ambição que existe em ti.

Há quem diga que é defeito de fabrico e eu acredito, que o Ego humano se auto-criou para iludir uma verdade que lhe escapa, que se enraízou na carne convencido de que, assim, tudo pode obedecer-lhe, que basta um gesto para atingir aquilo que quer, que é rei e senhor deste mundo da matéria e que tudo manipula em seu proveito.

Sei a raiva que te assola de cada vez que as coisas falham, a frustração em que te afogas quando a vida não te corre de feição, a tristeza em que mergulhas quando alguém te  lambe as feridas, a auto-comiseração que legitima que tenhas pena de ti próprio e me apareças com esse ar de coitadinho a pedir colo.

Conheço quase todos os teus truques, a voz mansa em que me falas quando queres que eu acredite que te podes elevar e elevar-me, os álibis que pões à minha disposição quando te finges genuíno e generoso, as mil máscaras que vais tirando e pondo, na esperança de que alguma me convença a atribuir-te o papel principal na minha vida.

A verdade, querido Ego, é que tenho a pouco e pouco abandonado a vontade de ceder às tuas birras, de me envolver nas tuas guerras, de dar ouvidos às razões que sempre evocas e que, sim, são sempre as mesmas e me querem fazer crer que resultam de alguns traumas muito antigos, de complexos da infância, de coisas mal resolvidas, de culpas várias e de outros tantos artifícios.
E, no entanto, e estranhamente, isso tem feito com que, cada vez mais, eu seja condescendente. E isso irrita-te. Preferes que eu te faça frente, isso sei eu, que continue a guerrear e que assim tu me venças pelo cansaço. Gostarias muito mais que, de cada vez que me saltas das entranhas, eu me armasse e desse luta, isso sei eu...

Mas, sabes, descubro, a pouco e pouco, que é na paz que podemos entender-nos. E que, já que os territórios que circundam o umbigo te pertencem - por defeito de fabrico ou outra coisa - vou deixar-te reinar neles tranquilamente.
Afinal, o teu reino é apenas um minúsculo buraquinho sem a menor  das importâncias... e, desse minúsculo centro, não há nada que tu possas controlar ou exigir-me, nem quando esperneias muito ou me vens, lavado em lágrimas, com discursos comoventes de carências e assim.

Se a luta perpetua a guerra, a paz chega pela rendição.


Inês de Barros Baptista




terça-feira, 20 de outubro de 2015

................celebrar os que morrem vivos




É bom celebrar os que morrem vivos, 
e os que morrem vivos 
são aqueles que nunca esquecemos e que, 
por isso, não morrem nunca.


Os que morrem vivos são os que nos permitem continuar a sentir a sua presença, mas que ao mesmo tempo nos pedem que em troca lhes demos, a pouco e pouco, a liberdade do desapego.

Os que morrem vivos são os que vivem para sempre nas nossas memórias, os que acompanham tudo aquilo que fazemos, pensamos, sentimos e, por isso, é muito bom quando somos finalmente capazes de não pensar neles com desespero ou tristeza, é muito bom quando sentimos que estão mesmo ali, do outro lado do véu, e que não se privam de nada para vir acudir às nossas saudades e aos nossos ataques de choro.

Os que morrem vivos são todos aqueles que nos garantem que nada tem fim e que o amor que a todos nos une é infinito e eterno.

Os que morrem vivos são aqueles que não merecem ver-nos em lágrimas, por puro egoísmo, mas a rir, a rir muito alto por sabermos que estão tão felizes agora.

Os que morrem vivos são os que só nos fazem falta quando caímos nessa ilusão de que nos deixaram sozinhos.

Os que morrem vivos são os que todos os dias se manifestam nas coisas mais simples, os que nos tocam a alma, os que nos pedem que os deixemos viver longe da nossa vista e tranquilamente se instalam cá dentro, no coração, os que já não precisam dos nossos abraços porque são eles próprios o céu, de braços abertos, à nossa volta.


Inês de Barros Baptista

sábado, 26 de setembro de 2015

....................................aleluia



Que o torpor da morte 
não nos mergulhe no desespero de uma ausência, 
mas antes na doce tranquilidade da espera 
e no milagre de continuados renascimentos. 

Há anos que não vou à missa, os dogmas em que a igreja se encerra estreitaram-me as margens do voo faz já muito tempo, prefiro a eternidade do espaço e do tempo às lei do jejum, a fé ampliada no peito às genuflexões em veludos de confessionário, quando os homens se deixam levar pela bondade e abrem os braços, vejo neles a mesma penugem que cobre as asas dos anjos.

Que me perdoem os crentes, que buscam na liturgia a redenção dos pecados e na hóstia o encontro com deus, a mim faz-me sentido o mundo inteiro e cada um dos seres que o habitam morrendo e ressuscitando a cada dia que passa, faz-me sentido o céu mudando de tonalidade ao longo do dia, a comunhão de todos os seres numa essência comum, faz-me sentido experienciar deus nos gestos mais simples do quotidiano.

Cristo não é sequer - para mim - uma metáfora do mártir, mas um homem comum que soube elevar-se acima dos condicionamentos e das contrariedades e dos caprichos e que, benignamente, deixou que a sua luz ficasse ao alcance de todos aqueles que escolhem viver de olhos abertos.

Aleluia e talvez o significado da morte não seja mais do que um momento de pausa, um intervalo entre o que fomos e o que iremos ser, a consciência de que a cada instante das nossas vidas somos tudo o que somos e de que há uma páscoa presente em cada uma das nossas células. 

E se é certo que os homens precisam de histórias, que precisam de uma linguagem de símbolos para se situarem na realidade dos mitos, não é menos verdade que a alma se sobrepõe aos arquétipos. 

De que nos serve a celebração do mistério pascal se ao longo do resto do ano, se ao longo do resto da vida, não formos capazes de ressuscitar do sono mortal de todas as noites e de, a cada manhã, nos descobrirmos abençoados pelas infinitas possibilidades de recomeçarmos tudo de novo?


Inês de Barros Baptista

sábado, 4 de julho de 2015

....................o cansaço dos outros




Um amigo dizia-me que estava cansado das exigências de uma relação.
Nem sempre percebo, quando os outros me falam dos seus vários cansaços, ou até de outras coisas que sentem, por isso também não sei se percebi qual era, afinal, o cansaço a que ele se referia.
Porque é dele, não é meu.

Temos esta mania de que somos capazes de vestir a pele dos outros e de sentir o que eles sentem. 
Não somos. 
Mesmo assim, procurei na minha pele o cansaço. Procurei todas as relações que me desgastam ou que sinto que exigem de mim o que acredito que não tenho para dar. Não houve uma só que escapasse!
A relação com a minha mãe, por exemplo. cansa-me ouvi-la a desfiar as doenças e a contar-me das idas ao médico e a pedir-me que dê atenção ao seu sofrimento.
Cansa-me, a relação com o meu pai, quando me faz mil perguntas sobre o que ando ou não ando a fazer, quando parece exigir que eu faça mais e melhor e me diz que tem pena de me sentir tão aquém das minhas capacidades.
Cansa-me, a relação com a minha filha mais velha, ultimamente numa montanha de altos e baixos, ora a rir-se que nem uma histérica, com a música aos gritos, ora a chorar-me nos braços e a perguntar-me "porquê" porquê? porquê?"
Cansa-me, a relação com o meu filho, às vezes tão malcriado que só me apetece dar-lhe tabefes na cara, abaná-lo e perguntar-lhe se acha que a vida é só futebol, obrigá-lo a estudar, pedir-lhe satisfações quando tem negativas nos testes.
Cansa-me, a relação com as duas mais novas. quando uma quer saber, naquele exacto momento, se pode convidar vinte amigos para os anos - que só irá fazer dali a seis meses - e a outra me esgota a paciência, quando demora vinte minutos a engolir um prato de sopa.
Cansa-me, sim, o quotidiano de que também são feitas as relações.
Cansa-me ter de gerir as rotinas, as expectativas, as ilusões e as desilusões, os contratempos, os desacertos, os ritmos...
Cansam-me, acima de tudo, os mil pensamentos que caem, a cada segundo, sem que eu sequer me aperceba.
No fundo, o que mais me cansa é pensar.

Se for honesta, não é a relação com a minha mãe que me cansa, mas a ideia de que é cansativo ter uma mãe sempre a queixar-se e a expectativa de que seria tão bom se parasse. Que descanso seria, se o meu pai nunca mais me perguntasse mais nada, porque só de pensar que vai perguntar, já fico cansada. Se a filha mais velha não andasse aos altos e baixos, e os meus pensamentos aos altos e baixos, aos altos e baixos, aos altos e baixos, cansava-me menos. Se não pensasse que o meu filho devia pensar noutras coisas, não me cansava a pensar nas coisas em que acho que ele devia pensar.

Confuso? Talvez.
Mas reparo que o cansaço, o cansaço maior, vem do que exijo de mim. Que a relação que mais me desgasta, e afinal a única que posso mudar, é a que tenho comigo. Cansa-me, aquele eu que se queixa e que me pede que dê atenção ao seu sofrimento. Cansa-me o eu que me diz que estou aquém das minhas capacidades e que devia fazer muito mais do que faço, cansa-me o eu que vem dar aos meus braços num pranto e que me pergunta "porquê? porquê? porquê?". Cansa-me acreditar que devia pensar noutras coisas e, afinal, pensar sempre nas mesmas. Cansa-me antecipar, talvez não festas de anos, mas futuros para todos os planos, pormenores para cada um dos meus sonhos, cansa-me sobretudo pensar que provavelmente não sairão como quero, não serão como sonho. Cansa-me demorar tanto tempo a engolir tantas coisas e mastigar outras tantas...

Canso-me, canso-me imenso, canso-me tanto, quando a relação que tenho comigo não me satisfaz, quando penso em tudo o que queria fazer, em vez de estar atenta ao que faço, ou quando penso que devia ter feito isto ou aquilo de outra maneira, quando penso em desfazer o que fiz e, em pensamento, desfaço e refaço e desfaço e refaço e desfaço e refaço... canso-me.
Quando penso mais logo, mais tarde, quando penso "e se?", "e depois?", quando vou buscar provas, acontecimentos, razões para me convencer de que tudo o que penso é verdade.

E então não sei se era deste cansaço que o meu amigo me falava ontem, se era desta exigência da mente, que nos faz estar sempre a pensar numa coisa qualquer, deste constante ir e vir que temos connosco, desta relação entre o corpo e a mente e o espírito, de todas as partes a que é preciso atender para sermos um todo.
Este cansaço de todos os dias nos vermos ao espelho, de nos relacionarmos com facetas de nós de que não gostamos, este cansaço de nos sentirmos humanos e frágeis e cheios de defeitos e a canseira que é, levarmos com isto todos os dias, sem nunca podermos fugir à relação que temos connosco e, acima de tudo, aos pensamentos que nunca paramos de ter: sobre nós próprios e sobre os outros.


Inês de Barros Baptista

domingo, 26 de abril de 2015

Terra



Hoje voltei a lembrar-me.
Já noutro dia me tinha lembrado, quando cheguei ao ar livre e me cheirou a terra molhada.
E precisei de tocá-la, porque só o cheiro não chegava, tinha de tê-lo colado aos meus dedos, apeteceu-me esfregar a cara, o corpo, a pele toda, queria que tudo tivesse a textura da terra, como daquela vez na cabana, em que suei e gemi de encontro ao seu ventre.
Ando a revolver as águas maternas, talvez seja por isso que choro.
Ultimamente tenho chorado.
Tem chovido e o cheiro da terra devolve-me ao útero, reconduz-me às entranhas, aos lagos fecundos e femininos do corpo, às dores ancestrais das mulheres, à gestação dos afectos, à humidade do mundo.
Mães. É disso que tenho andado a tratar e, neste momento, tenho uma a queixar-se, uma mãe de papel que se queixa da ausência do pai, da ausência dos pais, como se assim só fosse metade.
Metade de mãe.
Levará o seu tempo até que descubra onde é que se parte, pode até ser que nunca descubra, ainda não sei.
Chove e a terra traz-me a promessa: não há nada que me separe. E volto ao colo que me dá, de cada vez que me rendo. Volto a lembrar-me de tudo, até sem saber o que é tudo. Das viagens que faço de olhos fechados, do embalo das marés, da vulnerabilidade das aves, da orfandade dos anjos, coisas que invento, talvez seja disso que constantemente me lembro.
Voltei a lembrar-me de mim, de me terem rasgado as entranhas, dos hinos de espanto e louvor que vieram dar ao meu colo, de as cicatrizes, umas por cima das outras, serem a prova inquívoca de que as dores saram.
Voltei a lembrar-me de todas as mães que já tive. Das mães todas que tenho.
Heranças, memórias, paisagens, pinhais e tenho uma mãe que plantou um no campo, manso como convém a quem procura um abrigo debaixo da copa das árvores, mais uma mãe de papel expiando o contágio da carne, nunca sei se é na ficção que imito a realidade ou se é com a vida que atiro para cima das minhas mães de papel, para que me aliviem da carga.
Não sei, mas voltei a lembrar-me.
Naquele dia, voltei a lembrar-me e hoje, mais uma vez, a chuva promete voltar e molhar tudo em volta: a relva, as memórias, as pálpebras.
Há uma série de coisas que me atravessam a alma quando verto palavras, quando quero converter o que sinto na escrita, há sempre uma parte que falta, um lugar indizível ao qual as palavras não têm acesso, um intervalo entre a voz e o peito.
Averiguar a verdade é inútil, portanto. 
É inútil esquecer-me de tudo e foi disso mesmo que hoje voltei a lembrar-me.


Inês de Barros Baptista

terça-feira, 21 de abril de 2015

................despregar os olhos da cruz




Que o sofrimento engrandece e que aumenta exponencialmente as hipóteses de nos tornarmos mais fortes, mais sábios e mais evoluídos, já todos sabemos.
E não é para quem quer, é só para quem pode, como se se tratasse de um luxo, de um mérito reservado aos eleitos, de uma qualidade dos mártires, embora também assole, afinal, todo e cada um ser mortal que se preze, feito da carne comum que a todos nos cobre.

Sofrer. Sofrer muito.
Sofrer até que não haja mais nenhuma célula que não lateje de dor.
Sofrer nem sequer até dizer chega, porque não há nada que chegue, nem sempre há algo que faça passar, alguma coisa que cure, que alivie, a não ser sofrer ainda mais e aguentar firme, enquanto mágoas e dores nos rasgam por fora, ao mesmo tempo que nos comem por dentro.

Temos todos dias assim, vidas assim, manias assim.
A imagem de Cristo na cruz, com as mãos e os pés esventrados por pregos e coroada de espinhos, deixou-nos gravada nos genes esta certeza de que só quem sofre até aos limites pode algum dia vir a alcançar as alturas, o paraíso, o reino dos céus.

Experimentem passar os vossos dias na calma beatitude dos que não padecem de qualquer espécie de mal, dos que não se queixam de nada, não são acometidos por espasmos nem febres e verão como é pouco o respeito que colhem em troca. 

Quem não sofre, por pouco que seja, não é digno de compaixão, de carinho, de mimos. 
Tão pouco é normal, já que o normal, humanamente falando, é sofrer.
E então agarramo-nos à normalidade, agarramos-nos ao sofrimento, carregamos cruzes às costas até ficarmos em sangue, esventramos os pés e as mãos e o peito e exibimos as feridas como se fossem medalhas de guerra.
E assim vamos ganhando algum mérito, conquistando a compaixão dos que nos rodeiam, que nos pegam ao colo e que nos fazem festas e que nos limpam as lágrimas, ao mesmo tempo que dizem "pronto, pronto, já passa". 

Com sorte, somos aquele ou aquela "que já sofreu tanto" e isso, de certa forma, dá-nos estatuto, dá-nos credibilidade, dá-nos alento e razões para não abrirmos mão de tudo o que nos queima por dentro. Não concebemos sequer a possibilidade de o sofrimento ser só uma ideia, um conceito, um preconceito, uma herança. e sofremos até quando não queremos sofrer. sofremos para não sofrer mais.

Despregar os olhos da cruz é negar a nossa própria humanidade e é por isso que nos é tão difícil fazê-lo.
Quem seríamos nós, sem dores e sem feridas?
Quem seríamos nós, se não houvesse mais nada de que nos queixássemos?
Quem seríamos nós, se Cristo afinal não tivesse sido cruxificado?

E, no entanto, todos nós temos dias assim, pedaços de vida sem dor, momentos em que despregamos os olhos das feridas, alturas em que sofrer nos parece, afinal, o maior dos absurdos e o desperdício mais estúpido.
Quase me atreveria a dizer que, quando largamos as nossas dores, quando as esquecemos, quando nem sequer nos lembramos que as temos, não sabemos quem somos. 
A leveza que toma conta de nós parece irreal, levitamos como se não houvesse mais peso, tornamo-nos anormalmente felizes.

Humanamente, porém, é impossível que o sofrimento nos tenha deixado para sempre a gozar dessa anormalidade, ou então seríamos anjos ou qualquer outra coisa que a matéria não pudesse atingir.
Mas somos humanos, pois é. 
Não deixou de haver carne nem sangue, não deixou de haver cruz, não se escoou do nosso corpo a memória das dores ancestrais, nem nós saberíamos o que fazer se o lugar onde sempre as guardámos desaparecesse sem deixar rasto do nosso mapa genético. 

E, de novo, sofremos.
Sofremos tanto, sofremos por tudo, sofremos por nada, sofremos até quando não sabemos por que é que sofremos, quase como se a dor fosse uma prova de vida, uma garantia de que continuamos aqui, uma maneira de ocuparmos o tempo, um mérito que um dia nos fará ser merecedores da redenção e da glória dos céus.

E então desprego os olhos da cruz, palpo o meu corpo e não encontro uma única chaga, não há sequer cicatrizes de feridas antigas, não me dói nada.
Desfaço a noção que tenho de mim como um punhado perene de ossos, de órgãos, de células, de músculos e nada lateja.
Ponho as mentiras de lado e desligo os ecrãs onde, repetidamente, se projectam todos os filmes desde que nasci até hoje e alguns outros que nem sequer aconteceram ainda.
Escrevo 'paixão' na certeza de que as palavras nem sempre falam verdade.
É sexta feira e a paixão de hoje exala um hálito trágico que não vou respirar.
E escolho escrevê-la sem recorrer à memória de nada, mas apenas à terra que habito.
Pai chão.
E Cristo surge-me então como uma luz de presença benigna.
E o milagre da cura é segui-la sem deixar que se apague, já que é apenas no escuro que o sofrimento se acende.


Inês de Barros Baptista

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O mau da fita


Ontem à noite, estava com a neura e fui ver um filme...
E como em todos os filmes, tinha o vilão, o mau da fita...
O que me fez pensar...
Na nossa vida, no filme da nossa vida, também é assim...temos os bons da fita e...os maus da fita!

"Há sempre um mau da fita nos filmes que inventamos. 
Ao contrário do galã, que nos leva ao paraíso, o mau da fita é o que nos atira para o inferno e nos faz a vida negra. 
Duro de roer, insensível, cheio de vícios, incarna sempre a nossa sombra.
Mas, até que o saibamos ver, e desmontar, ele servirá, na perfeição, como um bode expiatório.
É dele a culpa de nos sentirmos mal amados, é dele a responsabilidade de chorarmos pelos cantos, é dele a incapacidade de não ver como é cruel, é dele a falha de não ser iluminado.

No último filme de amor, o mau da minha fita era promíscuo.
O mau da minha fita era desequilibrado.
O mau da minha fita era cruel.
O mau da minha fita era o culpado por toda a minha tristeza.
O mau da minha fita era um traidor.
O mau da minha fita era mal agradecido.
O mau da minha fita era 'doente' e eu... era a 'saudável'.
A boazinha. A querida linda e esforçada por salvá-lo. A sempre boa rapariga, que jurava entregar a sua causa ao serviço do amor. Que se queixava por dar tanto e receber, afinal, tão pouco em troca. A que dormia com a esperança de que um dia o mau da fita se tocasse e se transformasse em bom e que a acordasse com um beijo e a levasse ao paraíso.

Espelho meu, espelho meu, quanto do que vejo em ti é meu?

Demoramos a acordar.
E, no entanto, aquilo que eu vejo em ti é o que eu tenho.
A promiscuidade é minha e, neste caso, a sombra não está no sexo, está na língua, que se enfia nos ouvidos de terceiros a falar de intimidades, que nem sequer são só minhas.
O desequilíbrio é meu, tão balalão, tão balalança, agora sim, agora não, assim não quero, assim está bem.
a crueldade é simplesmente amar-me pouco, quando podia amar-me tanto e, a haver culpa, ela é provavelmente humana, essa culpa que nos torna, a todos nós, reféns do amor dos outros.
A traição, afinal, não é mais do que trocar-me, deixando que o mau da fita ocupe todo um primeiro plano, enquanto eu fico - coitadinha! - a carpir nos bastidores.
E, sim, sou muito mal agradecida de cada vez que não vejo que a descida a este abismo e o encontro com a sombra é uma benção, um sinal para que acorde!
Que padeço da mesmíssima 'doença' de todos os comuns mortais, crónica e cheia de recaídas, e que a cura é perdoar-me, senão de uma só vez, a pouco e pouco.

Perdoar a má da fita, pelos seus filmes e dramas. 
"quando não me amo, eu doo".
E reparo que não me doo, não me doo no instante em que sou boa e pego na má ao colo - em vez de a querer castigar por ser tão irresponsável, tão promíscua, tão 'doente', ou em vez de a querer esconder num quarto escuro, cheia de medo de que possam descobri-la, acusá-la, condená-la.
Não me doo no instante em que me amo.
Não me doo quando perdoo.

E assim acaba o filme.

E fica só o amor."


Inês de Barros Baptista

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

quanto vale uma sombra?



Depois de anos e anos a rabiscar dias de luz, histórias de fadas e frases lindinhas, talvez tenha enfim sentido merecer resgatar à penumbra a minha parte de ser que resistia, com todas as forças, esforços inúteis e muitas dores, a mostrar-se como também é: sombria, tantas vezes montada numa vassoura de bruxa a criar poções venenosas - para si e para os outros -, praguejando contra as injustiças do mundo que denunciam a máscara 'lindinha' com que se enfeita e se defende dos outros.

Garanto-vos que tem sido duro. duríssimo, mesmo!
Mas se é verdade, que 'regra geral, a nossa sombra ganha poder até por volta dos quarenta anos', altura em que 'tem poder suficiente para começar a manifestar-se', tudo chegou para mim na altura em que era certo chegar. E então estou muito grata por ter dado por isso, por mais duro que esteja a ser o processo.

Já aqui disse que tenho sido dependente de uma série de coisas e a relação amorosa foi só uma delas. Nalguns aspectos, serve-me que nem uma luva, a máscara da sedutora.
Mas é duro admitir, sem paliativos, que sou 'perigosa, venenosa, perversa', porque o meu 'ataque está mascarado de amor'.
É reconfortante estar a descobrir que a cura é estar disposta a sentir o vazio e a compreender que aquilo que procuro está aqui, dentro de mim.

(...)

Foi então necessário quarenta e tal anos vividos, olhar para mim de frente, sem filtros. E assim surgiu a traição que mais cruamente doeu, a que nem nunca me passou pela cabeça que fosse possível, a que na minha mente ainda rotulo de 'feia', 'injusta', 'nojenta', 'prepetrada às escondidas', 'mantida em segredo' e... 'dupla'!
E porque a verdade tinha de vir ao de cima, caso contrário não poderia vivê-la, saltou da sombra uma outra mulher que sempre abafei com todas as forças, e que sempre fiz por calar com muita vergonha: a controladora, a que espia a vida dos outros para os apanhar em falta, a 'cusca'.
Aliada a uma outra que é atenta e que apanha aqui e ali as peças de um puzzle, foi fácil montá-lo. Difícil, agora, é conseguir desmontá-lo.
E a primeira premissa a ter em conta - forma gentil de nos apontar caminhos para podermos sair das nossas esquizofrenias -  é que os meus padrões de moralidade e de rectidão não são sempre os mesmos padrões de moralidade e de rectidão por que os outros se regem.
Nem têm de ser. Nem posso fazer nada para que sejam.
Provo isso a mim mesma sempre que o tento, porque entro em guerra.
Se aqui o 'porquê?' é inútil, o 'para quê?' é transformador: para eu ser fiel a mim mesma!
O que significa que o próximo por quem sempre esperei sou eu mesma: numa versão que, a cada instante, pode ser corrigida e melhorada. e me permite ser 'obreira' e criativa a tempo inteiro, porque nunca há-de estar pronta: haverá sempre uma próxima mulher a ser conquistada!


Sim, querido Emídio, 'este crescimento da nossa humanidade irá pedir de nós muito mais do que aquilo que se encontra dentro dos limites da nossa zona de conforto. mas irá garantir a nossa realização plena como seres humanos, seres espirituais e seres completos.'

E por isso, à pergunta 'quanto vale uma sombra?' eu respondo: vale ouro!
Cada sombra que olhamos de frente vale ouro!
Vale bem a dor e o esforço de o escavarmos do fundo das nossas entranhas.
De o resgatarmos, já não mais embaciado pela penumbra, mas brilhando em tudo o que somos.

Inês de Barros Baptista

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

gostamos de sofrer?




Gostamos!
Mas gostaríamos tanto mais de gostar de não gostar!
E isto não é nem sequer contraditório, mas um paradoxo humano, declarado como aparentemente verdadeiro, mas que nos leva a uma situação que contradiz a nossa intuição comum.
E a nossa intuição comum diz-nos o quê?
Diz-nos que o sofrimento é inerente à condição humana: ninguém lhe escapa, é impossível não sofrer!

Aliás, não será o sofrimento inerente a qualquer espécie?
Será que os animais não sofrem?
Um cão que já mal anda, por causa das artroses, um pato atropelado que ficou a respirar no meio da estrada, um leão sangrando com o tiro de uma caçada?
Será que as árvores, quando as cortam, ou que as flores, quando as esmigalham, ou que o mar, quando o atulham de venenos, ou que a Terra, esventrada com alicerces de aço e coberta de cimento e de alcatrão, não sofrem nada?...
Ou será que somos nós, humanos tontos e apegados à ideia e à emoção do sofrimento, que o fazemos alastrar às outras espécies?

Não sei dizer.
E hoje, como quase sempre, são muito mais as perguntas que as respostas.
Intuo, porém, que o sofrimento, por si só, não causaria o mal que causa, nem alastraria tanto, se não protagonizasse quase sempre as nossas histórias, mas fosse um simples figurante. mas, ah!, gostamos tanto dele e estamos tão acostumados à sua presença em nós, há milhares e milhares de anos que corre no nosso sangue, há tanto tempo que nos dizem que não há como escapar-lhe, há dois mil anos que andamos com a cruz às costas, exaltando o sofrimento quase como condição sine qua non para sermos merecedores do paraíso que somos incapazes de o ver apenas como um simples figurante no grande filme do cosmos. sofrer, de certa forma, faz de nós mártires.
Quase nos sentimos santos, quando aguentamos sofrer tanto, quase chega a parecer mal, alguém dizer que já não sofre.
E assim o alimentamos, para que ele nunca mais nos largue e confirme a intuição de que sofrer é inerente à nossa condição humana.

Ok.
Sofrer é inerente à nossa condição humana.
Se aceitarmos, simplesmente, que assim é, sem emoções, considerações ou juízos de maior, hão-de convir que isso não nos causa stress.
A tendência, no entanto, não é essa, mas possuí-lo, experimentá-lo até à náusea, alimentá-lo uma e outra e outra vez, conservá-lo, provar da sua existência, mais não seja para podermos dar razão à nossa mente.
Que estranha dependência é esta?
Que desgosto pode ser este gosto por sofrer?
E aonde é que isto nos leva, se não a mais sofrimento?
De que vazio temos nós medo que se abra aqui no peito quando, enfim, descobrirmos que aquilo de que gostamos - mesmo, mesmooo! - é de gostar de não sofrer?


Inês de Barros Baptista

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

difícil, eu sei


Nuno Lobito

Ali está a sombra, enorme, voraz, de frente para nós, sabemos que é nossa, mas é tão mais fácil continuar a 'atirá-la' para cima do outro! muito mais simples fazermos de conta que não saiu das nossas entranhas, que não é a nós que se quer revelar, que não é para nós que se exibe, que não é em nós que sangra e que apodrece e nos contamina, nem sabemos dizer há já quanto tempo.

Tão difícil, eu sei, o ruído cá dentro a ser ensurdecedor e, de imediato, o projectamos para fora.
A sombra a gritar-nos cá dentro e nós exigindo que os outros se calem. a sombra a tirar-nos a nossa energia, e nós apontando o dedo a quem a dispersa. a sombra, intimidando-nos com o seu imenso poder, e nós tentando justificar as razões por que se intimidam os outros. a sombra a dizer-nos
'sou o teu ego ferido'
E nós a escarafunchar nas feridas dos outros, para ver se dói menos. a sombra a pedir-nos carinho, atenção, e nós a morrer de pavor de que nos roube o coração. a sombra a querer fazer as pazes connosco e nós sem ceder, alimentando esta guerra vezes sem conta.

Difícil, eu sei. olhar para ti e descobrir que sou eu que ali estou.
Muito mais fácil olhar para mim e negar que sou como tu. muito mais fácil olhar sempre para aquilo que nos separa uns dos outros e tão poucas vezes para tudo aquilo que nos une, sobretudo quando é a sombra aquilo que nos torna iguais uns aos outros.

Difícil, estar realmente disposto a ser implacável, estar realmente seguro de que vale a pena ficar frente a frente com as nossas sombras, ter a coragem de reformular todas as acusações, agora na primeira pessoa, de re-conjugar todas as dores no presente, de acreditar que há uma paz imensa na sombra, de cada vez que irrompe das trevas e que ilumina mais um aposento do nosso castelo.


Inês de Barros Baptista

sábado, 6 de outubro de 2012

deixas-me entrar?



"Não sei bem em que altura fechamos as portas.
Mas que as fechamos, não tenho nenhuma dúvida.
Uma por uma, escondemos as feridas e trancamos as sombras, achando que assim não corremos mais riscos, que ficamos a salvo do perigo de virem comer-nos a alma ou pedir-nos satisfações por não lhes termos dado colo, importância, atenção.
Nem nos apercebemos como vão exalando bolor, humidade, como vão conseguindo escapar-se através das pequenas frinchas das portas, como poluem o ar à nossa volta e nos sufocam, tornando opaca a visão, enchendo de névoa as memórias, para que, quando voltamos a elas, ou quando alguém nos faz o favor de as trazer de volta ao presente, não sejamos capazes de identificar de onde vêm.

Cremos que assim é mais fácil.
Aparentemente, é mais fácil.
O que seria de nós se, de cada vez que nos cortamos, que nos arranhamos ou que ficamos com uma nódoa negra num braço, fosse preciso muito mais do que um penso, muito mais do que estancar o golpe com água oxigenada?
O que seria se uma pomada fosse insuficiente e se cada nódoa negra no corpo nos obrigasse a sentir como a sombra lateja cá dentro?

Hoje sei que será um alívio!
Quando de facto formos capazes.
Quando tivermos coragem de esventrar cada golpe até ao seu âmago, quando nos arranharmos a ponto de descobrir onde foi que roçámos a pele pela primeira vez e que ardeu, onde foi que se deu esse primeiro embate que nos moeu a carne por dentro... iniciamos o processo da cura.

Dizem-nos que é precisa muita coragem para o fazermos e eu compreendo.
Quem é que perante uma crosta, aparentemente sarada, se atreve a pegar numa faca para descobrir que a ferida, afinal, purga no osso?
Quem não prefere o conforto de uma porta fechada à náusea da humidade e do bolor que vai sentir quando a vir escancarada?
Quem é que não acha que é preferível esquecer a querer descobrir a verdade?

E a verdade é que a dor que sentimos agora já foi há que tempos.
E há que tempos que queremos esquecê-la, em vez de curá-la.
Há anos e anos e anos que passamos pomadas, fazendo desaparecer da superfície as manchas que alastram por dentro.
Há anos e anos e anos que pomos pensos nas feridas, para não as vermos sangrar, achando assim que estancamos as hemorragias da alma.
E eu, que sempre me achei corajosa, vejo-me agora a querer recusar a entrada à Inês pequenina que, ferida de morte, me pede: deixas-me entrar?

E, se eu não deixar, ela não força.
É pequenina e já sabe que, se medir forças comigo, vai-se magoar.
Acredito até que não passe da soleira da porta, mas já sei que vai ficar lá.
Vou ouvi-la a chorar e posso afastar-me e talvez ela chore um pouco mais alto e talvez eu me afaste ainda mais.
E não sei qual é a dor que dói mais: se a da que chora, se a da que não quer ouvi-la a chorar.
E da utilidade que tem ou não tem, ficarmos em pranto nos braços uma da outra... ainda não sei... mas quero descobrir e, para isso, tenho de a deixar entrar.
E de lhe dizer que é muito bem vinda.


Inês de Barros Baptista

sexta-feira, 8 de junho de 2012

só a mim posso pedir que me dê tudo




É de mim e só de mim que não posso e que não quero: desistir. 

Tudo o resto é perene e passageiro. 
Só eu perduro, numa essência que me é própria e sobrevive a qualquer estrago da matéria. 
É de mim, e só de mim, que não posso prescindir. 
Só a mim, e a mais ninguém, que concedo o privilégio de ocupar todo o meu centro e daí, benignamente, irradiar para o mundo inteiro. 
Ou então sombriamente, porque em mim também há sombra, a escurecer rente ao luar, mas sem me tornar minguante.

Em mim estão a que chega e a que parte, a que agarra e a que liberta, a que expande e a que retrai, a que cria e a que destrói, a que acorda e a que adormece, e sou sempre eu que me convoco a cada instante, na frequência que escolher: mais para baixo ou mais para cima na espiral do infinito, onde o fundo é lá no fundo e o céu muito acima deste seu cume visível.

Só eu escolho a quem me entrego, onde me enrolo, com quem me dou, quando é que rio, como é que choro, porque me engano, que trilho sigo. E nem sempre isso quis dizer que me entrego a quem me acolhe, que me enrolo onde é macio, que me dou com quem devolve, que me rio quando há motivo... Às vezes choro e esqueço tudo, até que os olhos são os meus e que só molham o que eu escolho que me magoe. 
Quando me engano, só me engano se insistir que o erro é mau e que não tenho esse direito e surgir culpa. e quando o trilho desemboca num abismo, fui sempre eu que escolhi a visão sobre as vertigens, em vez da orla no meu corpo de

                                                                          mulher

É de mim que me demito, quando cedo ao que é alheio, a mim que traio quando pactuo com uma mentira, só de mim pode vir esse consolo de sentir que sou inteira, só em mim posso encontrar o que procuro e que, afinal, não é nada que não seja desde sempre a minha essência. 
Sou eu que vibro, é em mim que pulsa a vida, foi minha a escolha de me ter dado este nome e a forma humana do amor: carne e sangue que só doem quando há medo. 

é a mim, e só a mim, que devo tanto,  
só a mim posso pedir que me dê tudo.



Inês de Barros Baptista

segunda-feira, 26 de março de 2012

SER




Eu sei que tu gostavas que fosse outra a minha escolha.
Como bom ego que és, sei até que gostarias de ser tu a escolher o que eu não sou. Afinal, não é isso que tens feito desde sempre? Ainda eu mal tinha chegado e já te tinha à minha espera, desejoso de cumprires o teu papel e que eu me moldasse a ele, sem questionar se era esse o meu caminho e apenas aceitando as tuas ordens.
E porque sabes, talvez melhor do que ninguém, que quando um ego cumpre bem a sua parte um Ser se esquece ser do Todo, aproveitaste toda e cada situação da minha vida para me levares a acreditar que eu era essa pessoa: uma pessoa sustentada pelas tuas directivas e refém dos teus caprichos.

Acontece-nos a todos, comigo não foi excepção.
E então, a pouco e pouco, fui delegando os meus poderes nas tuas mãos, entregando a minha arte aos teus disfarces, pondo os meus dons ao serviço desse teu querer dar nas vistas, pactuando com as mentiras que inventavas e que logo transformavas em verdades, respirando as tuas mágoas, fazendo minhas essas dores que tu carregas e para as quais pedes alívio, experienciando as tuas falhas, dando corpo aos teus fantasmas e reconheço que, na maior parte das vezes, tens sido bem sucedido.
Fazes tão bem a tua parte que é frequente dar por mim a esquecer-me do meu todo. Mas ele é anterior a ti e esse Ser continuará a existir quando morreres, é de sempre e para sempre, é o que eu sou e que nada nem ninguém pode moldar.
Nem um ego poderoso como tu - como todos, afinal - pode agarrar naquilo que eu sou e dar-lhe a forma que deseja.

Não vim aqui para te agradar, para te cumprir, para te dar voz.
Não vim dar uma volta até à Terra para que possas passear-te às minhas custas, divertir-te à minha conta, para que fales a meu respeito, para que sofras em meu nome.
Não vim bater à tua porta nem viver à tua sombra, alimentar-me dos teus medos,  sucumbir às tuas ordens, quando cheguei já era a Luz que me trazia e por mais que te esforces a apagá-la, a batalha está perdida.

Sabes porquê?
Porque o que em mim é imortal é aquilo de que tens medo.
Porque, tu sim, estás condenado a ter princípio e a ter fim.
Não és mais do que o minúsculo intervalo que a minha humanidade ocupa aqui, não és senão aquilo com que eu pactuo quando tomo a tua parte pelo meu todo, nada mais para além da mente a querer disfarçar-se de alma.

E, no entanto, quando a escolha vem da alma não há ego que a derrube.
Podes até continuar a atrapalhar-me, podes vir com as ladainhas do costume, podes baixar a frequência do amor e fazê-lo parecer medo, podes chorar, podes ser dono e senhor de uma pessoa, mas não tens qualquer poder sobre o meu SER.
Se a tua parte é fazeres-me esquecer que sou o todo, há um todo que me lembra, a cada dia, que tu não fazes parte dele.

Isso!, estrebucha e nega, mas tu és simplesmente aquilo que és: um ego que se quer fazer passar por mim, mas que não é quem eu sei SER.



Inês de Barros Baptista

lindos, maravilhosos, poderosos... nós todos





Coitadinhos de quem? De nós? Porquê? Coitadinho de si porquê?
Ah... porque lhe tiraram 10% do ordenado! Porque tem um emprego de merda? Porque a vida não está fácil? Porque o seu casamento vai mal? Porque lhe apareceu um tumor? Porque morreu a sua prima? Porque o país está entregue a um bando de ladrões? Porque não tem dinheiro para  mandar catar um cego? Porque é tudo uma treta e ninguém é capaz de mudar nada!

Ah! coitadinho de si, de facto.
Coitadinhos de nós todos, sim, que para aqui andamos a carpir as nossas mágoas e a mastigar tantos queixumes neste mundo tão injusto!
É mesmo de ter pena, estou de acordo, muita pena de nós próprios e da vidinha que levamos, sempre aquém dos nossos sonhos.
Afinal, fosse o estado um patrão compreensivo e generoso e tinha-o antes aumentado.
Houvesse a sorte de lhe oferecerem outro emprego e a vida toda era mais fácil...
Ah, e se o marido não andasse aí com outras, ou se a mulher não se queixasse tantas vezes - e sempre das mesmas coisas - o amor seria lindo!
Se ao menos não lhe tivesse aparecido esse tumor que lhe põe a vida em perigo... e a prima?
Que tragédia, alguém morrer assim tão novo!
Não fosse este bando de ladrões e o dinheirinho ia chegando para comprar mais qualquer coisa, era ou não era? Ah pois era, houvesse quem pegasse nisto e desse um rumo a esta merda e talvez fosse possível, começar a ver a luz lá no fundinho do túnel...

Há muitos dias em que caio nesta armadilha e em que sou, também eu, a coitadinha do meu filme. Nada me anima, nesses dias, em que me enredo em argumentos fatalistas e me presto a ter pena de mim própria.
Tudo me pesa, é tudo mau, atribuo culpas a quem quer que esteja à mão: aos outros quando gritam e me esfrangalham os nervos; aos fornecedores que não me pagam o que devem; à chuva do Inverno que me deu cabo do telhado; à fila vagarosa de carros à minha frente - e eu com pressa...
A lista seria interminável e caberia, toda ela, na designação comum das 'coisas que me fazem mal'.

Felizmente há outros dias.
Dias em que nada pesa e tudo é leve e fico só maravilhosa e admirando o meu poder.
Deixo de ser personagem, saio do filme e realizo, a cada agora, o que só eu posso mudar. e, mudando, o mundo muda à minha volta.
E assim somos nós todos, sem excepções: maravilhosos, poderosos e capazes de mudar, a cada instante, o nosso mundo.
A cada dia mais um pouco, a cada pouco mais um tanto, sobretudo quando infringimos a regra de ter pena de nós próprios.
Ah pois é, experimentem lá e vão ver como é tão bom, nem que dure só um minuto...



Inês de Barros Baptista

sábado, 18 de fevereiro de 2012

acabaram-se as 'desculpas'




Eu sei que posso e também sei que ainda cedo.

Às desculpas e aos pretextos, ao nevoeiro e às circunstâncias, ao que é alheio e levo a peito, aos subterfúgios do meu ego, à voz da mente que transforma as emoções em armadilhas.

Mas também sei, e também posso, diluir essa ilusão de pensar que estou num 'filme' onde o guião até parece que não é escrito por mim e por toda e cada vez que me demito de assumir o papel principal na minha vida.

Passei anos e anos a dar protagonismo aos outros e a inventar para mim mesma que as suas imperfeições eram a causa de toda a minha infelicidade.
Ou que os momentos tão perfeitos que às vezes me proporcionavam eram motivo de alegrias.

Deixei-me formatar por mil padrões e resignei-me, tantas vezes, pelo facto de 'ser assim', como se 'ser assim' ficasse sempre aquém disso tudo que sei ser, exigindo a mudança a toda a gente à minha volta e negando o meu maior poder de todos, que é o de mudar-me a mim, mudar-me em mim e transcender-me ou, simplesmente, juntar numa só todas as que sinto ser e, em vez de 'ser assim' - a balançar entre elas todas - tornar-me finalmente inteira.

E leva tempo, eu sei que leva, como as marés e como a lua e como tudo, avança-se e recua-se, recua-se e avança-se, enche-se a mingua-se, esvazia-se e volta a encher-se, mas nunca, como agora, tive tanto a consciência de que a tristeza e a alegria não dependem de ninguém, porque ambas estão em mim e só eu posso 'accioná-las'.

Nunca, como agora, fui tão sábia em teorias e cada vez me culpo menos por nem sempre as pôr em prática - nem a maré está sempre cheia, nem a lua sempre intacta.

Nunca, como agora, me senti, ao mesmo tempo, tão assustada e tão tranquila...

Sim, é muito assustador quando enfim realizamos que se acabaram as desculpas.
Que não há nada nem ninguém que tenha a culpa, que desejar que à nossa volta o mundo mude é só mais um pretexto para não mudarmos nada em nós, que esperar que os outros mudem é tão inútil como esperar que a chuva aqueça ou que o sol molhe.

E, por isso, e ao mesmo tempo, é tão tranquilo ter a certeza de que nada nem ninguém tem um poder maior que o meu.
E que esta imensa solidão que vem à tona, quando nada nem ninguém pode fazer nada por mim, é só a mente a colocá-la no ângulo do ego carente.

Porque ninguém fica só quando se tem por companhia, ninguém é só quando se oferece, por inteiro, a si próprio e aos outros, ninguém pode mais dar como desculpa o facto de não 'ter' amor, porque amor é só para SER.

E eu sei que posso e sei que cedo.
Ainda cedo e ainda posso, sob o pretexto do medo,  queixar-me que não 'tenho' amor.
Tudo muito assustador e tão tranquilo, ao mesmo tempo:
ter a noção que, simplesmente, são desculpas e que só eu tenho o poder para as dissolver, sempre que vêm à tona.


Inês de Barros Baptista

eu estou bem, obrigada, e vocês?




"É.
Pensar dá trabalho, na maior parte das vezes também dá asneira, sobretudo quando se pensa e repensa e se volta a pensar e às tantas o novelo na cabeça é tão grande que parece que já nem somos nós que pensamos, mas alguém que nos pensa, e que em vez de pensarmos somos pensados, prensados pela mente, entalados por tanta coisa que nos sufoca e, de repente, damo-nos conta que não é nada, pensar para quê?

Estar bem, obrigada, é tão raro, se forem a ver é tão português perguntar, então, como estás?
E nunca é estou bem obrigada, é sempre um esgar, um mais ou menos, um vai-se andando, um menos mal e hoje não é nada disso, pelo menos comigo, estou mesmo bem, obrigada, sem me obrigar a coisa nenhuma que não seja fluir e boiar e escrever de rajada o que me sai  directamente dos dedos e nem sequer me passa pela cabeça pensar se o que estou a escrever faz sentido ou não faz.

É.
Estou bem, obrigada, e vocês?
e, se hoje fosse outro dia,  um dia de esgar, um dia de mais ou menos, um dia de vai-se andando, um dia de mal me querer, talvez eu estivesse preocupada, stressada, a pensar qualquer coisa do género, ai tanta coisa para arrumar e eu aqui a escrever parvoíces, mas eu hoje estou bem, obrigada, e isso faz com que tudo, obrigada obrigada obrigada!, também esteja bem.

O que me leva, mais uma vez, a constatar que não dependo de nada nem de ninguém para estar bem - obrigada! - e que, ultimamente, este bem estar tem sido tranquilo e bom de sentir.

É.
Hoje é só isto, nada assim muito importante ou, pelo contrário, mais importante do que tudo o resto que até hoje já aqui escrevi, mais espontâneo, mais verdadeiro, sem que nada sufoque o meu peito, sem que nada me prense a cabeça, obrigada, estou bem, e então vou andando.

Ainda não sei o que vai ser o jantar, mas qualquer coisa se há-de arranjar, a tralha já já irei pô-la no lixo, a sala vai ficar arrumada e depois, amanhã, outro dia, quero pintar-lhe as paredes de branco.

Estar bem, afinal, é tão fácil, é só bem me quero bem me quero bem me quero e não dou sequer a hipótese de, em algum momento, não me querer mais ou me querer mal.
e vocês?..."


Inês de Barros Baptista

Amor...amor...amor...




...não houvesse esta mania de querer dar nomes a tudo e o amor, seguramente, não gerava mais equívocos.

...não houvesse tanta gente a defini-lo e a querer rimá-lo, a querer contê-lo e assegurá-lo, a precisar de o ter para si, a medi-lo e a pesá-lo, a oferecê-lo à boca cheia e a cobrá-lo de mãos vazias, a manipular-lhe o cheiro e o toque e o paladar, a compor-lhe melodias e a descompô-lo em várias partes, a procurar-lhe uma batida e a perdê-lo em pulsações, a confundi-lo com uma série de emoções que vão do ciúme à raiva, a manipular-lhe o gosto e a gastá-lo em ninharias, não fosse esta linguagem que quer dar significante ao que não tem nem pode ter significado, esta fragilidade humana de sentir que o amor pode não fazer sentido, a gramática a tornar a substância em substantivo, não fosse isto e o amor não era isto nem aquilo nem aqueloutro, apenas era aquilo que é: inominável.

...não fossem os romances, as novelas, os Romeus e as Julietas, os mitos que se criam em torno do grande amor da nossa vida - sempre na pessoa de outro - as ilusões do felizes para sempre e da morte a separar-nos do que é uno e indivisível, se não houvesse a biologia dos afectos nem a química dos corpos nem os traumas da genética nem as doenças dos homens, o amor tanto podia ter o nome de uma flor como a textura de uma pedra como a cor de uma floresta como o som da via láctea e seria, simplesmente, aquilo que é: inominável.

...se não houvesse nenhum nome para o amor, o amor não era nada e era tudo aquilo que houvesse.

...se, enfim, nos libertássemos de todas as definições e de todos os poemas e de tudo aquilo que dizem que o amor foi ou vai ser, todas as crenças e todas as frustrações, todas as sombras, se em vez de o nomear o respirássemos, se em vez de o envolver nas nossas histórias nos envolvéssemos com ele sem lhe chamar coisa nenhuma, se fosse fácil mais ninguém falava nele porque não era preciso.

...mas todos falam, todos falam no amor, todos falam do amor, todos chamam ao amor o nome amor, todos nomeiam tantas coisas quando dão nome ao amor, todos crêem no amor, todos o querem, há tantas definições afinal para a mesma coisa e não há nenhuma coisa, em bom rigor, para se dizer que o amor é.

...porque não é coisa nenhuma, apenas é: inominável.


Inês de Barros Baptista

Posse




Posse, é :

possuir algo ou alguém, pois...

reivindicar que coisas e/ou pessoas nos pertencem,
ah!... digo eu, a forçar uma pose desprendida, mas presa ainda - e como ainda tanta gente - a esta ilusão da posse.

Recuo e ocorrem-me coisas,imagens... e como eu me ria - como ainda hoje me rio - com a perspectiva de que alguém possa pensar que, de alguma forma, eu posso ser pertença sua.

cada vez mais, vou tomando consciência de que esta nossa humanidade é, de facto, um campo fértil para equívocos. 
E que a linguagem, com os seus pronomes possessivos e outros modos de pertença, nos faz crer na ilusão de sermos donos das coisas. 

'meus' e 'minhas' são designações que usamos, todos nós, a toda a hora.
E que a todos nós conferem o prazer e o poder de possuir, seja coisas ou pessoas.
Mas as coisas, e disso sabemos todos, são perenes e efémeras.

O que hoje é a minha casa pode amanhã ser um mero monte de escombros - basta haver um terramoto! -, o que hoje é o meu carro pode amanhã ter outro dono, o que hoje é o meu-seja-o-que-for pode amanhã ter-se perdido, desfazido, ou até não ter sentido ser mais meu, porque tudo é passageiro e da matéria pode um dia não sobrar mais nenhum rasto para lhe contar a história ou dar-lhe um título de propriedade.

Já as pessoas - a minha mãe e o meu pai, os meus irmãos e os meus filhos,  os meus amigos e amigas - são meus como?
Em que ilusão caímos todos, quando dizemos ao marido ou à mulher, à namorada ou ao namorado, 'sou só tua', 'és sempre meu'?

Ah, ao mesmo tempo é tudo tão engraçado, tudo tão sem importância quando, enfim, nos damos conta de que só nós nos pertencemos a um nível que está para além da linguagem. 
E que é precisamente quando não nos pertencemos, quando deixamos de exercer o nosso poder legítimo, quando damos aso ao medo e asas a esta fantasia de que estamos separados que vem à tona a ilusão de ter e querer possuir algo ou alguém que preencha e que complete o que, por si só, já é completo e preenchido.

Tudo muito divertido, realmente, quando olhamos de frente esta nossa humanidade e reparamos que nem a ela pertencemos, nem quando ela nos agarra e nos comprime e nos limita e nos faz acreditar, em frente ao espelho, em frente aos outros, que este é o 'nosso' corpo.

Tudo um pouco baralhado, sim, dentro da minha cabeça que talvez nem seja minha, tudo tão claro e transparente, quando transpondo a matéria eu me transcendo e me sinto pertencer e possuir tudo e nada ao mesmo tempo.

Tudo parecendo o que não é e sendo aquilo que não parece, quando escrevo aquilo que sinto e me dou conta que o que sinto estará sempre para além daquilo que escrevo.


Inês de Barros Baptista