Mostrar mensagens com a etiqueta No Sofá com um poeta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta No Sofá com um poeta. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 26 de março de 2026

Tudo à minha volta


Guilherme Veloso




Tudo à minha volta cumpre
um destino silencioso e incompreensível
a que algum deus fugaz preside.
Fora de mim, nas costas da cadeira

o casaco, por exemplo, pertence
a uma ordem indistinta e inteira.
Dava bem todo o meu sentido prático
pela sua quieta permanência em si e na cadeira.

A realidade dos livros em cima da mesa
parece tão estritamente real!
As filhas falam, barulhentas e reais,
e eu próprio, em qualquer sítio, sou real.

Sob este rio real
o rio que me arrasta, de palavras,
como dentro de mim ou fora de mim?
O que pensa? Estou lá, ou está lá alguém,

como está neste lugar (qual?),
e como os livros na mesa?
O que fala falta-me
em que coração real?

É duro sonhar e ser o sonho,
falar e ser as palavras!
E, no entanto, alguém fala enquanto fujo,
e falo do que, em mim, foge.

Sem que palavras alguma coisa é real?
As filhas sabem-no não o sabendo
e falam alto fora de mim
sem falarem nem não falarem.

Em mim tudo é em alguém
em qualquer sítio escuro
como se houvesse um muro
entre o que fala (quem?)


Manuel António Pina 
in, "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011"




domingo, 5 de outubro de 2025

Sem Fim


Jason Peterson




Sempre e sem fim a vida... 
tão pesada de incerteza 
tão plena de impossíveis 
mas a tamanha altura erguida! 

Um invisível suporte
- foi-se-lhe o fio e o norte! -
sem fim aos céus sem nome 
projecta o sonho incansável 
dum reviver sem retrocesso 
dum atingir sempre passando. 

Plenitude atingida 
quer dizer nova largada 
sempre e sem fim rediviva 
a chama que não se apaga
- que a vida não tem sentido 
se dum momento parado 
se faz água estagnada 
charco em que se adormeça 
das canseiras do caminho. 

Fonte sem par 
nuvem sem forma 
a força que não se extingue 
alevanta o seu pendão 
de combate sem naufrágio
- que quanto mais as balas dão 
as setas vão a morte voa 
mais clara a nota soa 
do clamor de vitória! 

Que não há vida sem mortes 
avanço sem retrocesso 
montanha sem precipícios! 
E quanto mais sobe a vida 
na projecção dum destino 
envolto em bruma de signos 
de astrais irreais desígnios 
maior a queda se ousa 
e mais se ganha a vitória 
do quase certo de perdê-la. 

Sonhos de mares de procela 
sem bússola nem equipagem 
sem velas e sem navio! 
Mares da angústia vencida 
calcada por um desígnio 
de não parar sequer no fim! 

E lá ao longe na bruma 
num longe que sempre e sem fim 
renasce sempre mais longe 
quando vai ser atingido 
envolto em voos de chamas 
o cume sem onde espera. 
Lá 
onde sem fio 
onde sem norte 
o rumo se tece e manda.


Adolfo Casais Monteiro





domingo, 17 de agosto de 2025

Junto À Água

 

Casarsa





Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada,as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.v
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa,às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas,à poeira
das primeiras,das únicas lágrimas.
Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância,que o teu silêncio me chamasse!
E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza,e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos
e sem escuridão,sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.
Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.


Manuel António Pina




domingo, 15 de junho de 2025

Mundo Interior


Antonius Andry Suharto Djumantara





 Ouço que a Natureza é uma lauda eterna 
De pompa, de fulgor, de movimento e lida, 
Uma escala de luz, uma escala de vida 
De sol à ínfima luzerna. 

Ouço que a natureza, - a natureza externa, -
Tem o olhar que namora, e o gesto que intimida 
Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna 
Entre as flores da bela Armida. 

E contudo, se fecho os olhos, e mergulho 
Dentro em mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo 
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho, 

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo, 
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme, 
Um segredo que atrai, que desafia - e dorme.


Machado de Assis
in, Ocidentais



sábado, 8 de março de 2025

poema sem título



Ruy Belo
27/2/1933 - 8/8/1978





Um dia alguém numa grande cidade longí­nqua dirá que morri
di-lo-á decerto com pena mas sem o alívio que eu próprio decerto senti
primeiro ao solucionar de vez esse problema de respiração que a vida é
desde a convulsão da criança que a meio do copo deixou ir leite para a traqueia
até a instantânea atrapalhação do mergulhador a quem de súbito falta o ar comprimido
só dispõe da reserva e lhe faltava tanto que ver no fundo sonhador do mar
depois senti alívio porque às vezes a meio por exemplo da aragem na face
eu pensava na morte como problema metafísico a resolver pelo menos com higiene
se não com dignidade com acerto como mais um problema à medida do homem
Eu estava do lado dos vivos estou do lado dos mortos
o grande problema era saber se me doía ou se não me doía
agora nem sei se me doeu ou não ou fui um mero espetáculo de mau gosto
para a única pessoa encarregada de me ajudar nesse momento
Ninguém a princípio terá sabido que eu morrera só minha
mulher avisada de longe virá e me porá a mão sobre a testa
os demais não não disponho do olhar para me defender
o tempo depressa se passa são trâmites legais até me terem deixado
debaixo do chão bem debaixo do chão sem frases lidas
ou gravadas sem sentimento nenhum
Uns dias depois um pequeno grupo junto a uma grande janela
olhará a neblina da manhã de janeiro
e terá mãos que eu tive para os meus problemas de vivos
Onde eu estive sobre uma mesa com uma perna cruzada
suaves começarão a suceder-se e acumular-se os dias
como cartas revistas linguísticas ou livros adormecidos
despertos apenas no momento fugaz da leitura
A vida será indistinta virá até nós como árvores
rodará em volta como um lençol até cobrir-nos os ombros
Falareis de mim não posso impedir que faleis de mim
mas já nada disso me pesa como o simples facto de ter de ser vosso amigo
Estou só e só para sempre e só desde sempre
mas antes por direito de opção. Agora não
Deixaram-me aqui doutor em tantas e tão grandes tristezas portuguesas
e durmo o sono das coisas convivo com minerais preparo a minha juventude definitiva
Era como eu esperava mas não posso dizer-vos nada
pois tendes ainda o problema e a cara da pessoa viva


Ruy Belo




quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Aniversário






Eu percebo: como estou me tornando
mais incerto, confuso,
dissolvendo-me no ar
cotidiano, bruto
pedaço de mim, desgastado
e em frangalhos.

Eu compreendo: vivi
mais um ano, e isso é muito duro.
Pulsar o coração todos os dias
quase cem vezes por minuto!

Viver um ano requer
morrer muito muitas vezes.


Ángel González




sábado, 26 de outubro de 2024

Todos vocês parecem felizes…

 

Martin-Dm



… e sorriem, às vezes, quando falam.
E até dizem uns aos outros
palavras de amor. Mas
amam-se
de dois em dois
para
odiar de mil
em mil. E guardam
toneladas de asco
por cada
milímetro de felicidade.
E parecem – nada
mais que parecem – felizes,
e falam
com o fim de ocultar essa amargura
inevitável, e quantas
vezes não o conseguem, como
não posso ocultá-la
por mais tempo: esta
desesperante, estéril, longa,
cega desolação por qualquer coisa
que – não sei para onde – lentamente, me arrasta.


Ángel González




segunda-feira, 2 de setembro de 2024

HELENA


Alexandra PP





 Teu inferno é ontem, é cada instante
em que, sem saber, te perdeste
e cada instante em que te salvaste.
Quando o jovem que foste está já longe,
amar é a vingança do passado.
Vem de uma guerra onde foste vencido,
de acampamentos e armas que um dia abandonaste
na Tróia que tens dentro de ti mesmo.
Hão-de buscar-te de noite os aqueus
e apertar o cerco. Voltarás,
por uma mulher, a perder a cidade.
Helena é estes sonhos
que a vida foi apropriando.
Defende-a outra vez, a última.
E fá-lo com valentia, desarmado.

Joan Margarit




terça-feira, 23 de abril de 2024

O PERVERTIDO






Durante a noite, ou à hora da sesta,
quando estávamos os dois juntos, via-me 
obrigada a contar umas histórias 
cínicas e mórbidas, sem qualquer 
decência, e sendo eu a protagonista.
Nunca pensei que acreditasse nelas,
pois ele mesmo pedia outro relato,
outra aventura sádica, excitante,
descarada, em que eu fosse sedutora
e seduzida por diferentes homens.
Pensei que era feliz com as mentiras 
que para ele engendrei com tanto esmero.
Mas começou a crer que as minhas palavras
eram memórias, e não fantasias,
e abandonou-me, com a desculpa 
de que o diabo estava entre as minhas pernas 
e ele não tinha nada de exorcista.


Amalia Bautista

segunda-feira, 22 de abril de 2024

O SENTIDO DO AZUL








Procuramos o sentido. Andamos às voltas. Por 
vezes, aparece um significado, mas tudo é vago, 
como se as palavras já não dissessem o que 
dizem. Por exemplo: quero saber o que significa 
este azul na parede. A casa está à direita, 
resistiu ao tempo; mas o azul aparece desbotado 
pelo sol do verão, pelos pela chuva do inverno, 
pela humidade salgada das maresias. E o que 
significa este azul não é o azul da cor de 
uma parede, tão-só. Há quem veja nele
a passagem dos anos, a fragilidade da vida;
mas há quem aponte os pedaços em que a cor 
desapareceu, deixando à vista o reboco, 
e se refira a um mundo em ruínas, ao que 
não é possível recuperar. Mas o pintor 
chega, encosta a escada à parede, dissolve
a cor no balde, e aproveita a semana sem 
chuva para pôr tudo igual. Talvez o novo 
azul não seja igual ao anterior; e quando 
olho o azul do céu, e o comparo ao da parede,
é como se fosse a sombra do outro. De 
certo modo, o azul deste céu parece-me
mais artificial do que o azul da parede. Digo 
então que o homem aperfeiçoa imagem 
que a natureza nos dá, como se já não 
fosse possível acreditar no céu. O
pintor, esse, foi-se embora. Depois, olho
para o alto: há nuvens aqui e ali, e alguns 
pássaros pontuam-no, como insólitas 
manchas no infinito. Faz ali falta um pintor 
para tapar os buracos, e voltar a pôr tudo 
igual. Mas onde está a escada para chegar 
lá cima? E quantos baldes de tinta seriam 
precisos? E fico à espera da noite, para 
não ver o azul com as imperfeições do céu.


Nuno Júdice
in, Fórmulas de Uma Luz Inexplicável




quarta-feira, 10 de abril de 2024

Alcoólicas






 I

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livro da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha púmblea, me casaco rosso
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

II

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.


Hilda Hilst 




terça-feira, 9 de abril de 2024

Desenho


Alfredo Aquino




Traça a reta e a curva,
a quebrada e a sinuosa
Tudo é preciso.
De tudo viverás.

Cuida com exatidão da perpendicular
e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo,
traçarás perspectivas, projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão.
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.

Construirás os labirintos impermanentes
que sucessivamente habitarás.

Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.

Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.


Cecília Meireles




segunda-feira, 8 de abril de 2024

Os meus melhores desejos






Que a vida te pareça suportável.
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido 
entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto como tu a ela.
Que não apanhes o vício 
de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve
sobre os teus pobres ossos.
Que a tua lembrança ponha lágrimas nos olhos 
de quem nunca te disse que te amava.


Amalia Bautista




sexta-feira, 5 de abril de 2024

Os Três Mal Amados

 

João Cabral de Melo Neto

 

 

Joaquim


O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto, mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
 
Trecho de Os Três Mal-Amados (1943), 
João Cabral de Melo Neto

 


terça-feira, 26 de setembro de 2023

Gostam dos poemas



Ed Ruscha






Gostam dos poemas colhidos na arca frigorífica tê-los ali em 
porções doseadas com as instruções sobre o tempo médio para 
aquecer no fogão ou no microondas gostam muito de ler o nome 
como a etiqueta pendurada num pé um prego enferrujado sobre a 
passagem deles sumariamente julgada contida um morto já calmo 
metido num saco hermético selado plenamente abraçado pela 
terra e coroado por flores das mais castas gostam de lhe sentir os 
dentes se não puder ferrar quando brincam a pôr a mão no fogo 
sendo certo que não ateará a seara nem lhes deitará uma olhada 
que os faça sentir cercados podem estar descansados ler um
poema é um acto ao abrigo do máximo sigilo sem compromisso 
de qualquer espécie pode sair a meio cavar tirar o que lhe 
apetecer do contexto partilhar como legenda da próxima selfie 
suspendê-lo logo que se torne inconveniente não tem botão mas 
feche os olhos que é como desligar e até pode arrancar a página é 
o mais à vontade do freguês que possa imaginar e sim em breve 
haverá serviço ao cliente e um gabinete para que os utentes 
façam as suas reclamações também já estamos a tratar com as 
entidades competentes para estabelecer um sistema de garantia 
mas sobretudo que esteja já bem frio e o olhar ferocíssimo do 
poeta se detenha a partir daquela segunda data sem 
possibilidade de lhe crescerem unhas ou cabelos nem de 
assombrar seja quem for muito para breve será aprovada ainda 
uma directiva entre Estados para gerar confiança nos 
consumidores: poetas serão sempre servidos mortos



Diogo Vaz Pinto



domingo, 27 de agosto de 2023

O anoitecer









“O anoitecer é por toda a parte um grande serviço” (Ferreira 
Gullar), torna-nos enfim distantes, a cada um sua época, sua 
forma de discrição, os seus actos isolados, as sombras que 
ganham vida de sóis ausentes, esse alimento a partir das 
reservas, a noite como projecção do desconhecido, um território 
que cresceu de tantas migalhas e conjecturas, com uma 
paciência infernal, primeiro receoso, depois admirado desses 
sentidos que se calibram nesta zona autónoma, suspensa, 
florescendo como a imagem sobre a água numa transformação 
que não se aquieta, aqui os juízos degeneram, os corredores 
aparecem desfeitos, um quarto não liga já com os outros nem 
com o resto da casa, ou até do mundo, em vez da pauta para soar 
em conjunto alto, há como uma trepidação debaixo das palavras, 
em vez de coordenadas fixas as raízes levantam-se rasgando os 
mapas, nos espelhos vês a terra revolvida e espalhada por ali 
a “tua grave ossada à beira de um mar sujo e ignorado”, por uns 
momentos as luzes ao longe lembram um trânsito de feras, certos 
textos indecifráveis abrem as suas flores e percebe-se a extensão 
dos campos de silêncio aceso, as palavras perdidas retomam o 
rumo, cada um é lembrado do ponto onde estava como se lhe 
fosse devolvido o corpo, esse “clarão soterrado”, a noite diz-nos 
onde estamos face a nós mesmos, não há atalhos e ninguém 
escapa do seu canto, o pó levanta-se das coisas, ergue-se numa 
precária constelação, se entrámos a medo, somos agora nativos 
desses impulsos que percorrem toda uma cena de caça, capazes 
de um desequilíbrio de forças a partir de elementos mínimos, 
pingar de manchas pulsantes um espaço perfumado de ervas, 
sentir o odor misturar-se entre a fome e a morte tão próximo da 
fonte, como quem devorasse o próprio estômago, ou a língua, 
mastigar-se aflito, radiante, nu e mortal.
 

Diogo Vaz Pinto



domingo, 13 de agosto de 2023

UM CONCEITO INEXPRIMÍVEL

 







A imaginação que, segundo os estóicos,
se reduz a uma impressão divina, põe um problema
concreto a quem não acredita na alma. De facto,
se é só o corpo que existe, e não encontramos
nada de imaterial para além dele, a imaginação
deve ser posta de lado, tal como a alma de
que faz parte. Os estóicos, para quem ela
deixava no espírito a sua marca, procuravam
com o seu sacrifício aceder a esse mundo
metafísico onde a sensação não tinha outra
utilidade para além do pensamento que produzia,
e depois dele a imagem e o conceito expresso
a partir dela. E queriam morrer para atingir
mais depressa a esfera do divino. Porém,
os epicuristas riam-se deles e diziam que tudo
o que diziam não passava de palavras. E eles
ficavam a pensar: se as palavras são duras
como as pedras, e sólidas como a terra áspera
do verão, porque não ficamos em silêncio? E
alguém disse, ao vê-los de boca fechada,
que queriam prender a imaginação no interior
do seu corpo, onde se encontrava a alma; mas
quando a abriam para comer, concluiu o crítico,
mastigavam as palavras com a comida, e tudo
se juntava nesse corpo que, para eles, não
existia, para terminar no estrume
que devolviam à terra, como se a imaginação
não servisse para mais nada além
de adubo da primavera


Nuno Júdice
in, Fórmulas de uma Luz Inexplicável





sexta-feira, 28 de julho de 2023

A cada um as suas armas









A cada um as suas armas, as mulheres que amou,
os homens que defendeu do juízo moral dos outros,
a cama onde um dia se viu abandonado,
rodeado de cruzes e velas.
Das linhas que tremo, roda-me a lâmpada
interior à carne, e a claridade
chega aos ossos numa duração insaciável.

Falar com a minha voz depois de tantas outras,
dos condenados a quem roubaste as cartas,
copiando aquele ritmo que se aferrava à carne
e dizias que os viste cair
depois de os teres seguido para a guerra, mas agora
que já ninguém faz luto pelos rouxinóis
e toda a gente escreve poemas,
não te podes valer de mentiras
nem de verdades,
já nem sequer do antepassado
enterrado num canto do pátio
— homem que teve os seus méritos.

Se a folha ainda me arranca um traço,
pisando-me os ossos da mão,
a distância é o meu único assunto.
De olhos fechados, entretenho-me
com a sensação de entrar em comboios remotos,
a tresandar a esquecimento para ser embalado
pela trepidação desse traço contínuo.

Terra e água num copo, a raiz amarga
que lá tenho escuta atentamente,
moendo tudo para épocas futuras.
Lá fora, o mar como um pássaro só
descansa, revê todos os finais,
mil capitães adormecidos enquanto os navios
se entrechocam docemente.
As noites passam em braços,
levanto a casa, feita de pedra negra.
Atraídos, os cometas caem longe
para que os sinta.
Os jardins escutam as flores,
a morte diz o nosso nome
e vimos esperá-la formando filas.


 
Diogo Vaz Pinto
in, De Aurora para os Cegos da Noite



quarta-feira, 19 de julho de 2023

A Meias




 




Bebo o meu café enquanto bebes 
do meu café. Intriga-me que faças isso. 
Se te posso pedir um 
(se podes tomar um igual) 
porque hás-de querer do meu? 
Que 
não. Que não queres. Escuso 
de pedir 
que não queres. Então 
começo um cigarro e tu fumas 
do meu cigarro dizes 
"tenho quase a certeza de 
não acabar um sozinha" por isso 
fumas do meu. 
Dá-te gozo esse roubar de 
leves goles furtivos 
dá gozo participar 
do prazer que eu possa ter 
contigo 
(e entre nós) 
dá-se agora tudo 
a meias. 


João Luís Barreto Guimarães
in, Poesia Reunida



quinta-feira, 25 de maio de 2023

Que queres que te diga



 Pasárgada
Fars, Irão



 

Que queres que te diga?
Não estamos velhos, se isso te consola.
Mas também já soa mais a conversa.
Uns passos fora e as paisagens
já nos arreganham os dentes.
Entre fósforos apagados e calcanhares de aquiles,
eriçaram-se flores na carcaça do animal
que ia levar-nos daqui.

Baixou uma névoa não sei de onde,
e ando há semanas fodido
com os correios que já não asseguram
serviço de e para Pasárgada.
Ouve o que te digo: esta coisa
da realidade
está a meter água por todos os lados
e quem não se mandar agora
já não sai.

Qual poesia, qual caralho!
Depois de bater tudo, de ver os magrelas
dos cães a guerrearem por côdeas
entre os sacos de lixo da morte,
o que te digo é: nem faças as malas.
Onde quer que a gente venha
a fincar a bandeira dos ossos,
o passado só irá atrapalhar.

 
 
Diogo Vaz Pinto
in, De Aurora para os Cegos da Noite