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quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

O barco vazio








Se ao conduzirmos a nossa embarcação ao longo do rio vier embater contra nós um barco vazio, sabemos que é inútil nos ofendermos com isso. Aceitamos, nesses casos, que a vida é tecida de tais experiências, para as quais não temos rápidas explicações. Dizemos a nós próprios que a vida se constrói num campo aberto e a sua evolução não chega a ser controlável a cem por cento e, muitas vezes, nem previsível é. 

Nos encontros e desencontros, nos afastamentos e nas colisões, no que se enlaça ou no que se dissolve maturámos que há uma margem que nos escapa da mão, que nos recorda que não estamos sós e, de forma surpreendente e contínua, atesta que a soma que a vida perfaz é maior do que a nossa parte apenas. 

Concluímos, assim, que o embate com um ou outro barco vazio é condição da própria travessia. Mais. Sentimos pouco a pouco que ganhámos em integrar esses acontecimentos, em torná-los estações da viagem e etapas de um conhecimento interior que cresce. Para quem sabe ler em profundidade, um barco vazio vem carregado de sinais úteis à navegação. Não é necessariamente um escolho inútil que se tem de suportar ou a expressão do absurdo quotidiano que nos acompanha.

Na verdade, a vida dá a mão a elementos tão distintos para a sua dança.
Há uma plasticidade e uma resiliência que o embate com os barcos vazios moldam em nós, e precisamos de ambas. Há aí, mesmo se com estrondo, ainda que em contraciclo, um chamamento a olhar a realidade para lá da nossa cápsula. A contemplá-la não no linear, no reconhecível e uniforme, mas na complexidade mutante e instável do seu desenho. Numa primeira reação podemos considerar que é mais difícil amar a vida assim e, porventura, temos até razão. Mas o amor maior - devemos também descobrir - é aquele capaz de amar a fragilidade e a imperfeição. É aquele que abraça inclusive as próprias contradições. 

Este verão li "O Nó Do Problema", de Graham Greene, e numa das páginas inesquecíveis, que dá a chave a todo o romance, o escritor fala, por exemplo, do estranho modo que Deus tem de amar o Ser Humano. Deus não nos ama porque somos amáveis e dignos desse amor. Deus não nos ama porque merecemos. Ao contrário, defende Greene,  ama-nos sabendo que não merecemos, que não estaremos à altura, que não nos aperceberemos sequer da natureza e da dimensão desse amor. Mas neste desfasamento é-nos revelado o essencial do que precisamos conhecer e praticar.

Nos embates da vida, naqueles mais desafiadores ( e também por isso mais áridos, decepcionantes e sofridos), naqueles que mais nos obrigam a renascer, nem sempre conseguimos perceber imediatamente que o barco que veio contra nós na corrente é, afinal, um barco vazio. Procuramos encontrar um culpado pelo embate, e não nos damos logo conta de que a gramática da culpa não funciona. 

Seria mais consolador encontrar um bode espiatório, individuar um comandante a quem atribuir a responsabilidade pelo nosso desgosto, pela convulsão provocada, pela aflição em que entrámos. Seria mais rápido poder denunciar de forma inequívoca um hipotético tripulante hostil a quem atribuir uma qualquer má vontade. 
Mas quedar-se nessa atitude é um exercício de simplificação que distorce a essência da vida, que não é só lógica e mecânica, que não se esgota na dialética do conflito, que não deixa nunca de vir ao nosso encontro como mistério, abertura e possibilidade. 

Por isso, é cheio de sabedoria o poema oriental e antigo que propõe o seguinte:

"Aprende antes a pensar que todos os barcos estão vazios
e quando atravessares os rios do mundo
coisa alguma te poderá perturbar."



José Tolentino Mendonça




quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Tempo de Férias







Sentamo-nos à beira-mar à procura do aberto, de uma brisa marítima, da frescura da água, de uma respiração diferente. Não somos feitos para o ar condicionado ou para a vida entre paredes. A nossa alma precisa de espaços amplos, de vastidão. Mesmo quando parece que nadamos como peixe na água no férreo quotidiano ofegante, nas tarefas que nos absorvem, no vórtice das rotinas, nesse labirinto das coisas que se impõem. Mesmo quando se diria que o horizonte mais imediato nos dessedenta, precisamos do contacto com o incomparável, do confronto com o silêncio (e não só aquele exterior), da degustação de uma medida maior, pois a vida que, no fundo, desejamos não se reduz àquilo que apressadamente escrevemos em estreitas sílabas. 
Por isso, nos nutrimos tanto destas deslocações, que não são apenas geográficas

Para apreendermos o que trazemos em nós há que encontrar outros pontos de vista, outros ângulos e perspetivas. 
Agindo tão em cima dos acontecimentos, tão capturados pela sua obsidiante intensidade nem sempre conseguimos ver ou, ver bem. 

Mudar de sítio oferece a possibilidade de distanciamento. 

E, não raro, longe da nossa casa conseguimos auscultar melhor o que a vida nos está a dizer. 
Na distância, as perguntas mais decisivas avizinham-se e não nos defendemos delas, como é nosso hábito. 
Perguntar-se porque estamos aqui e para quê. 
Se nos sentimos capazes de abraçar ou de recuperar o sentido original do caminho. 
Se nos descobrimos apenas utentes e consumidores ou testemunhas credíveis e multiplicadores de um dom. 
Se olhamos para a vida como um parto incessante ou uma contagem decrescente para o crepúsculo.

As férias podem ser mais que uma possibilidade de evasão. 


O verão não promove necessariamente a vida em fuga para alguma parte. Pelo contrário, pode constituir um tempo favorável para aquela escuta adiada, para um reencontro porventura mais sereno com esse mundo interno que nos habita. Na verdade, a vida está cheia de coisas que não escutámos devidamente. Muitas vezes, a dor e o peso que trazemos é esse: o que a dada altura devia ter sido escutado ou atendido e não o foi. 

É fácil não se dar conta daquilo que a esquadria utilitária dos nossos dias deixa de fora. 
As verdadeiras viagens transformam o nosso olhar.

O tempo é “o nosso momento”, a nossa oportunidade para aprender a viver com sabedoria. 
Nessa linha, o célebre poema do livro bíblico de Qohelet assegura: 

“Há tempo de nascer, e tempo de morrer; 
tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou...;
 tempo de chorar, e tempo de rir...; 
tempo de buscar, e tempo de perder...; 
tempo de guerra, e tempo de paz.” 

Este Qohelet é um austero mestre porque recusa o caminho da condescendência, mas é um mestre verdadeiro, porque não aborda a vida como se ela fosse uma ficção ou uma ideologia. Antes, acredita no valor da experiência, no fazer e refazer da existência em todas as suas estações, no gigantesco passo que representa o reconhecimento da vulnerabilidade e da necessidade de perdoar e de se ser perdoado, reconhecendo a própria ambiguidade que nos habita.

 

José Tolentino Mendonça




quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

OS AMIGOS


Venkat Reddy




Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor



José Tolentino Mendonça 
in, A Noite Abre Meus Olhos






quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

MENOS PARA TI





O que se diz do inverno pode dizer-se da juventude 
é uma estação abstracta 
numa hora qualquer acabamos com frio 
o desprovido transporte que por vezes 
demasiadas vezes é o daquela verdade 

Mas o jogo de alguma coisa 
está mais longe ou mais perto 

Nem tu sabes por quantos anos ainda 
voltarás aos bosques 
aos detalhes que ignoravas 
ao que resta do primeiro amor 
a que todos pensam ter sobrevivido 



José Tolentino Mendonça
in, A Noite Abre Meus Olhos





terça-feira, 21 de março de 2017

Murmúrios do mar




"Paga-me um café e conto-te 
a minha vida"

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
e uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu, não, nunca choraste
por amores que se perdem

os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
E temos saudades desse mar
Que derruba primeiro no nosso corpo
Tudo o que seremos depois

"pago-te um café se me contares
o teu amor"


José Tolentino Mendonça
in, Baldios




terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Da verdade do amor


A G A T A • S E R G E




Da verdade do amor se meditam 
relatos de viagens confissões 
e sempre excede a vida 
esse segredo que tanto desdém 
guarda de ser dito

pouco importa em quantas derrotas 
te lançou 
as dores os naufrágios escondidos 
com eles aprendeste a navegação 
dos oceanos gelados

não se deve explicar demasiado cedo 
atrás das coisas 
o seu brilho cresce 
sem rumor



José Tolentino Mendonça 
in, "Baldios"



domingo, 24 de janeiro de 2016

Os amigos





Os amigos
Esses estranhos que nós amamos 
e nos amam 
olhamos para eles e são sempre 
adolescentes, assustados e sós 
sem nenhum sentido prático 
sem grande noção da ameaça ou da renúncia 
que sobre a luz incide 
descuidados e intensos no seu exagero 
de temporalidade pura 
Um dia acordamos tristes da sua tristeza 
pois o fortuito significado dos campos 
explica por outras palavras 
aquilo que tornava os olhos incomparáveis 
Mas a impressão maior é a da alegria 
de uma maneira que nem se consegue 
e por isso ténue, misteriosa: 
talvez seja assim todo o amor.


José Tolentino Mendonça