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sexta-feira, 30 de outubro de 2020

D'este viver aqui neste papel descripto

 





“Coitados, pensavam que eu gostaria de ler histórias de pessoas sem contrastes, em que os bons são sempre bons e os maus sempre maus, e a bondade e a maldade se acham divididas por uma muralha da China bem definida, e ainda bem, para sabermos de que lado convém estar. Mas não...“

António Lobo Antunes
in, D'este viver aqui neste papel descripto

"Se és diferente de mim, não me diminuis, enriqueces-me" 
Saint-Exúpery

"Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu próprio rosto."
Jorge Luís Borges


Trecho da apresentação da coletânea escrito por Maria José e Joana Lobo Antunes:

"As cartas que aqui se leem são transcrições integrais dos originais, apenas com a correção de gralhas e actualização ortográfica. Decidimos eliminar alguns nomes, usando letras que não as iniciais, para não ferir susceptibilidades das pessoas referidas e de suas famílias. [...] 
Julgamos que o interesse destas cartas vai muito além da identificação de todas as citações, poemas, livros e autores de que nelas se fala, e damos espaço ao leitor para as descobrir se assim entender. [...] 
Este é o livro do amor dos nossos pais, de onde nascemos e do qual nos orgulhamos. Nascemos de duas pessoas invulgares em tudo, que em parte vos damos a conhecer nestas cartas. 
O resto é nosso. [...]
As cartas deste livro foram escritas por um homem de 28 anos na privacidade de sua relação com a mulher, isolado de tudo e de todos durante dois anos de Guerra Colonial em Angola, sem pensar que algum dia viriam a ser lidas por mais alguém. Não vamos aqui descrever o que são estas cartas: cada pessoa irá lê-las de forma diferente, seguramente distinta da nossa.
Mas qualquer que seja a abordagem, literária, biográfica, documento de guerra ou história de amor, sabemos que é extraordinária em todos os aspectos. [...] 
A escolha de as publicar não é nossa: é a vontade expressa de nossa Mãe, destinatária e conservadora deste espólio até há pouco tempo.
Sempre nos disse que as poderíamos ler e publicar depois de sua morte, e esse momento chegou agora." 
Maria José Lobo Antunes
Joana Lobo Antunes
Lisboa, Março de 2005

A correspondência inicia-se em 07.01.1971 e encerra-se em 30.01.1973. 
Seu conteúdo relata a saudade de António Lobo Antunes, suas leituras (romances e poemas), as influências culturais, o nascimento da filha (Maria José), os lugares pelos quais vai passando, na geografia do exílio: Ilha da Madeira, Luanda, Gago Coutinho, Chiúme, Ninda (as Terras do fim do mundo) e Marimba.

No início de 1961, em Angola, começou uma guerra pela independência daquela, então, colónia portuguesa, e que em 1962 e 1963 se propagou à Guiné e a Moçambique. 
A guerra haveria de acabar em 1974 e as colónias tornaram-se definitivamente independentes em 1975.
Durante 14 anos foram mobilizados 300 mil jovens portugueses. Entre eles, o médico, António Lobo Antunes, entre 1971 e 1973.  

Este livro é uma viagem pela experiência humana em aspectos que suprimem, de forma nítida e contundente, as diferenças supostas entre a Memória do real e a sua ficção.
D’este viver aqui neste papel descripto: cartas da guerra (2005),  reúne a correspondência enviada por António Lobo Antunes à sua esposa Maria José, aproximadamente, 300 cartas. 
Foram escritas durante dois anos, no início da década de 1970, durante o período da Guerra Colonial em África, por um médico (combatente e participante de um batalhão operacional) à sua esposa. 
Tais cartas relatam o seu quotidiano, as suas emoções, as suas impressões, o seu testemunho, e servem como verdadeiras declarações de amor à mulher amada. 
É um conjunto de cartas reais, enviadas por um homem, um médico com 28 anos, directamente do “campo de batalha” para a sua amada – muito amada – esposa com a qual se casara 6 meses antes, e de quem se despedira, temporariamente, ao ter de cumprir o serviço militar obrigatório (durante o regime fascista e salazarista português), deixando-a grávida da primeira filha do casal, impedido de acompanhar a gestacao, o nascimento e os primeiros meses de vida da filha. 
"Porque não nos deixam ser felizes? 
Porque nos tiram assim alguns dos melhores anos da nossa vida?"

Assim, quando, alguns anos depois de ter estado no “campo de batalha”, o jovem médico português, António Lobo Antunes inicia a sua carreira literária, seus temas são a guerra, a solidão, a reconstrução do passado por uma memória fragmentada e o choque que a morte produz nos homens e nas sociedades, o trauma da guerra, o exílio e a condição humana, marcada pela ausência de pertencimento e pelo isolamento, diante das transformações sociais e da incapacidade de interação com o outro. 
Seus romances, embora se baseiem em dados considerados factuais e verídicos, buscam, ficcionalmente, discutir como a sociedade portuguesa foi conduzida à guerra, como se comportou durante o período e como se reorganizou após o fim do conflito. Propõe, ao longo das últimas três décadas, uma profunda reflexão sobre a história recente de Portugal e seus desdobramentos na organização cultural, política e social do país, e sobre o seu reposicionamento na nova ordem mundial. 

Os seus personagens emergem das trincheiras de guerra, do horror letárgico de memórias traumatizantes, de relatos sombrios e confusos sobre a própria identidade e refletem as dificuldades em se fazer compreender pelos outros e de incorporar, novamente, os parâmetros sociais estabelecidos, após a experiência do exílio, da repressão salazarista e da morte pressentida.


"(...) No meio disto tudo começam a sobressair alguns personagens lendários. Um dos mais representativos é o Major, o segundo comandante, gordo e grande, senhor de máximas lapidares. Uma delas, que o retrata por inteiro, é a seguinte: 
«criada em que o patrão não se ponha, nunca chega a criar amor à casa». Como prova, o facto de a sopeira se ter ido embora assim que ele veio para o Ultramar. A essa criada («muito boa») ofereceu ele umas meias pretas («nº. 9, com pontos e vírgulas») com a condição de ela as vestir à sua frente. Chama a isso «acção psico-social» e diz que melhora imenso os almoços. À criada anterior deu ele, num momento de euforia, uma palmada no rabo, dizendo ao mesmo tempo "dá cá uma beijoca». A serva saiu aos gritos, voltou no dia seguinte com a mãe indignada, e a mulher do major esteve um mês sem lhe falar. Divide o acto segundo o qual a face do homem entra em contacto com o baixo-ventre da mulher em três categorias «picotage», «chaffurdage e «toute la langue», e é capaz de beber 3 garrafas de vinho rosé ao jantar e de cantar toda a Madame Butterfly. Gosta de ver as raparigas de meias pretas e cuecas encarnadas, «as cores da artilharia», e quando foi chefe da polícia da Madeira deitou todas as putas locais no sofá («de couro preto») do escritório. Às pretas, e como a carapinha lhe causa uma repugnância invencível, «ponho-lhes a cabeça debaixo do braço mas primeiro dou-lhes banho durante meia hora, ensaboo-as muito bem».
Como vês, pessoas de alto nível espiritual não me faltam. 
A máxima, então, é deliciosa. A palavra que ele emprega mais é «à ganância», que quer dizer grande quantidade. Mulheres «à ganância», tiros «à ganância", etc.(...)"


Os romances iniciais de Lobo Antunes ( Memória de Elefante - 1979; Os Cus de Judas - 1979; e Conhecimento do inferno - 1980) relatam situações vividas por seus narradores-personagens, autores, aparentemente, de relatos pseudo-autobiográficos, resultantes da guerra em África ou da vivência em Lisboa após o trauma sofrido no exílio.
A barbárie, o horror da morte, a crítica direta ou velada ao sistema e às instituições e o contato com o outro e com o que este representa como indivíduo ou como inimigo portador de ideologia e cultura diferentes são descritos nos seus livros. Os romances surgem como um espelho, capaz de retratar a política expansionista portuguesa.

Em alguns romances posteriores, de maneira direta pelo viés da autoficção, como, por exemplo, em Sôbolos Rios Que Vão, torna-se, ele mesmo, personagem dos seus romances. Noutros, resgata memórias, inventa outras, busca solucionar, através da ficção, o que a vida construiu sem resposta (aparente/aceitável), sem volta, sem saída.

A memória consagra as lembranças, a história evoca os vultos; 
a memória regista impressões, a história elenca factos; 
a memória confunde passagens, a história sinaliza as datas; 
a memória busca personae, a história congrega os nomes; 
a memória é lúdica, a história é cronológica; 
a memória motiva, a história impulsiona; 
a memória é literária, a história codifica; 
a memória simboliza, a história significa. 
Tal como se fossem faces da mesma moeda, porém, com valores díspares.

A Guerra Colonial ou Guerra do Ultramar inicia-se nos primeiros meses do ano de 1961. 
Para os africanos, ficaria conhecida como Guerra de Libertação Nacional. 
Os conflitos entre portugueses e africanos iniciados nessa data irão durar até ao histórico dia 25 de abril de 1974, quando ocorre a Revolução dos Cravos.


O título da obra D’este viver aqui neste papel descripto é a citação de um verso escrito pelo poeta Ângelo de Lima (1872-1921) ao Prof. Miguel Bombarda. 
Esta referência encontra-se na página 237, na 143ª carta escrita por Lobo Antunes:

12.7.71
"Minha querida joia
Mais uma longa e triste segunda-feira, “deste viver aqui neste
papel descripto”, como o Ângelo de Lima diz numa carta ao
dr. Miguel Bombarda. Deste viver aqui neste papel descripto.
[...] Entretanto a história parece definitivamente empanada.
Raios a partam – mas que posso eu fazer? Que bonito é “deste
viver aqui neste papel descripto”!


Enquanto espera pelas cartas da esposa, Lobo Antunes percebe que a relação entre os soldados e os habitantes dos lugares pelos quais a tropa vai passando em Angola se dá, ora pelo confronto, mutilação e morte de rebeldes e soldados, ora pela postura de subserviência dos angolanos para com os portugueses.
O autor ainda revela na carta que os africanos são apelidados conforme suas compleições físicas e pela maneira como suas características e personalidade são notadas pelos soldados e oficiais da tropa. 

 António Lobo Antunes mostra todo o seu amor e desejo pela esposa, o sofrimento por estar longe, separados por milhares de quilómetros, a saudade e a angústia.
Mas mais que todo esse amor,  saudade e desejo, António Lobo Antunes mostra-nos também a guerra, a vida militar em Angola, o stress da guerra, o isolamento, estar constantemente em alerta, não dormir e não conseguir descansar durante dias seguidos, comer mal, não ter água e condições mínimas de higiene, as idas aos aquartelamentos longínquos, participar em ações de guerra, assistir a ferimentos graves e a mortes tanto de um lado como noutro.
Apesar de tudo isto António Lobo Antunes também relata o seu dia a dia, o seu relacionamento com os outros militares, com a sociedade civil (portuguesa e angolana), os seus serviços extras como médico a dar consultas à população, mostra também a sua preocupação com as coisas materiais, a procura de casa em Lisboa para viverem, a falta de dinheiro, os exames da faculdade da esposa e evidentemente a gravidez da mesma e a sua relação com a restante família. 
Também a parte literária não é esquecida, nestas cartas pede livros, dá a sua opinião sobre esses mesmo livros e autores, e fala já com a sua ironia da vida literária em Portugal, mas acima de tudo vai confidenciando à sua esposa como lhe vai correndo a escrita de um seu primeiro livro.

São as palavras de um apaixonado que é colocado numa situação extrema, de separação, isolamento e dureza incomparável, mas é ao mesmo tempo duro e assertivo, um testemunho de um período tenebroso que milhares de jovens que tal como António Lobo Antunes tiveram de atravessar e que do qual muitos não regressaram ou então regressaram com feridas profundas, tanto físicas como psicológicas e que infelizmente foram muito maltratados por quem mais os devia proteger após a guerra.



Na 70ª carta:

17.4.71
"Meu amor querido

Adoro-te minha gata de Janeiro meu amor minha gazela meu
miosótis minha estrela aldebaran minha amante minha Via
Láctea minha filha minha mãe minha esposa minha
margarida meu gerânio minha princesa aristocrática minha
preta minha branca minha chinezinha minha Paulina
Bonaparte minha história de fadas minha Ariana minha
heroína de Racine minha ternura meu goto de luar meu Paris
minha fita de cor meu vício secreto minha torre de
andorinhas três horas manhã minha melancolia minha polpa
de fruto meu diamante meu sol meu copo de água minhas
Escadinhas da Saudade minha morfina ópio cocaína minha
ferida aberta minha extensão polar minha floresta meu fogo
minha única alegria minha América e meu Brasil minha vela
acesa minha candeia minha casa meu lugar habitável minha
mesa posta minha toalha de linho minha cobra minha figura
de andor meu anjo de Boticelli meu mar meu feriado meu
domingo de Ramos meu setembro de vindimas meu moinho
no monte meu vento norte meu sábado à noite meu diário
minha história de quadradinhos meu recife de Manuel
Bandeira minha Passargada meu templo grego minha colina
meu verso de Hölderlin meu gerânio meus olhos grandes de
noite minha linda boca macia dupla como uma concha
fechada meus seios suaves e carnudos meu enxuto ventre liso
minhas pernas nervosas minhas unhas polidas meu longo
pescoço vivo e ágil minhas palavras segredadas meu vaso
etrusco minha sala de castelo espelhada meu jardim minha
excitação de risos minha doce forquilha de coxas minha
eterna adolescente minha pedra brunida meu pássaro no mais
alto ramo da tarde meu voo de asas minha ânfora meu pão
de ló minha estrada minha praia de Agosto minha luz caiada
meu muro meu soluço de fonte meu lago minha Penélope
meu jovem rio selvagem meu crepúsculo minha aurora entre
ruínas minha Grécia minha maré cheia minha muralha
contra as ondas meu véu de noiva minha cintura meu
pequenino queixo zangado minha transparência de tules
minha taça de oiro minha Ofélia meu lírio meu perfume de
terra meu corpo gémeo meu navio de partir minha cidade
meus dentes ferozmente brancos minhas mãos sombrias
minha torre de Belém meu Nilo meu Ganges meu templo
hindu minha areia entre os dedos minha aurora minha arpa
meu arbusto de sons meu país minha ilha minha porta para
o mar meu mangerico, meu cravo de papel minha Mandragoa
minha morte de amor minha Ana Karénine minha lâmpada
de aladino minha mulher."






quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Os mediocridade que nos tranquiliza

 





A escritora Gertrude Stein insistia com os jovens escritores americanos de quem era protectora, Hemingway, Fitzgerald, tantos outros, da importância que teria para eles viverem em Paris. A sua explicação era simples:

– Não é tanto o que Paris dá

(insistia ela)

é o que Paris não tira. Esta frase traz-me sempre à ideia a pergunta que Alexandre Dumas

(gosto de Alexandre Dumas)

faz no seu diário:

“Porque motivo há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?”

Fica a reflectir acerca disto durante uns parágrafos e acaba por concluir que só pode ser um problema de educação. Por exemplo os desenhos das crianças em geral são magníficos, os dos adultos, excepto no caso de serem artistas de talento, uma bodega. Claro que é um problema de educação: uma criança criativa é herética e subversiva

(até rima, olha)

e claro que isso assusta os professores que exigem dos alunos uma normalização que conduz inevitavelmente à mediocridade que tanto tranquiliza os pais. Queremos que os filhos tenham vidinhas, sejam tristemente independentes, consigam um bom casamento, uma, tanto quanto possível, boa casa, um ordenado simpático, filhos bem educados. Claro que admitimos Gauguin ou Mozart desde que não façam parte da família. Em geral as famílias defendem-se criando um maluquinho. Todas têm aquilo que consideram o maluco da família e, quando o maluco, por qualquer motivo, deixa de o ser, apressam-se a arranjar outro antes que a estrutura se desagregue. Não há nada que assuste mais as pessoas do que a criatividade, nada que as apavore mais do que a diferença.

A sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais e eles aí estão: dirigem os países, as grandes empresas, os ministérios, etc. Eu oiço-os falar e pasmo não haver praticamente um único líder que não seja pateta, um único discurso que não seja um rol de lugares comuns. Mas os que giram em torno deles não são melhores. Desconhecemos até os nossos grandes homens: quem leu Camões por exemplo? Quase ninguém. Quem sabe alguma coisa sobre Afonso de Albuquerque? Mas todos os dias há paleios cretinos acerca de futebol em quase todos os canais. Porque não é perigoso. Porque tranquiliza

Os programas de televisão são quase sempre miseráveis mas é vital que sejam miseráveis. E queremos que as nossas crianças se tornem adultos miseráveis também, o que para as pessoas em geral significa responsáveis. Reparem, por exemplo, em Churchill. Quando tudo estava normal, pacífico, calmo, não o queriam como governante. Nas situações extremas, quando era necessário um homem corajoso, lúcido, clarividente, imaginativo, iam a correr buscá-lo. Os homens excepcionais servem apenas para situações excepcionais, pois são os únicos capazes de as resolverem. Desaparece a situação excepcional e prescindimos deles. 

Gostamos dos idiotas porque não nos colocam em causa. Quanto às pessoas de alto nível a sociedade descobriu uma forma espantosa de as neutralizar: adoptou-as. Fez de Garrett e Camilo viscondes, como a Inglaterra adoptou Dickens. E pronto, ei-los na ordem, com alguns desvios que a gente perdoa porque são assim meio esquisitos, sabes como ele é, coitado, mas, apesar disso, tem qualidades. Temos medo do novo, do diferente, do que incomoda o sossego. 

A criatividade foi sempre uma ameaça tremenda: e então entronizamos meios-artistas, meios-cientistas, meios-escritores. Claro que há aqueles malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar sossegava. De Gaulle, goste-se dele ou não, inquietava. Eu faria um único teste aos políticos, aos administradores, a essa gentinha. Um teste ao seu sentido de humor. Apontem-me um que o tenha. Um só. Uma criatura sem humor é um ser horrível. Os judeus dizem: os homens falam, Deus ri. E, lendo o que as pessoas dizem, ri-se de certeza às gargalhadas. E daí não sei. Voltando à pergunta de Dumas

– Porque é que há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?

não tenho a certeza de ser um problema de educação que mais não seja porque os educadores, coitados, não sabem distinguir entre ensino, aprendizagem e educação. A minha resposta a esta questão é outra. Há muitas crianças inteligentes e muitos adultos estúpidos, porque perdemos muitas crianças quando elas começaram a crescer. Por inveja, claro. Mas, sobretudo, por medo.


ANTÓNIO LOBO ANTUNES





sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Ontem voltei a ser feliz





Ontem jantei com uma mulher muito atraente. E nova. Mais ou menos trinta anos, loira natural, olhos verdes, uma pele e um sorriso lindos, boa figura

(cerca de um metro e setenta)

bem vestida, inteligente, com imensa graça, médica e tudo. E, por cima disto, um pai infinitamente sedutor: eu. A certa altura ela

(Chama-se Isabel, queria chamar-lhe Eva em homenagem à minha avó germânica mas a minha mãe tirou-me logo as peneiras com uma simples pergunta

– E se ela for feia?

porque, de facto, Eva e feia são duas coisas que não se aguentam bem juntas, de modo que mudei logo para Isabel)

a certa altura do jantar a Isabel começou a recordar-se de quando, em pequena, eu a levava ao Hospital Miguel Bombarda tal como o meu pai, éramos nós miúdos, nos levava também, e por ali andávamos com ele numa mistura de espanto e medo. Quer o meu pai quer eu gostámos imenso de trabalhar naquele sítio. As pessoas internadas fascinavam-me, aprendi o mais importante da vida com elas, com a sua criatividade, o seu humor, o seu sofrimento. A Isabel, então com cinco ou seis anos, lembrava-se de uma série de vinhetas extraordinárias. Por exemplo do doente

(classificavam-nos como doentes)

e orelha pegada a uma parede, à escuta, na careta franzida de quem espera ouvir. À nossa frente caminhava um enfermeiro a quem o doente pediu que encostasse também a orelha. O enfermeiro encostou, desencostou, disse ao doente

– Não ouvi nada

foi-se embora e ele para mim, apontando a parede, resignado

– Anda há horas nisto.

E continuou atento, imóvel, aguardando, porque aquilo, pensando bem, não era um hospital mas a Alice no País das Maravilhas a sério. Recordo-me da senhora que em lugar de

– Bom dia

me saudava

– Cri cri cri foguete

que me parece muito mais apropriado, ou do pintor francês que quando o meu pai lhe perguntou se tinha filhos respondeu indignado

– Não senhor doutor eu não fabrico cadáveres

ou da velhota grávida do Menino Jesus, sempre a tricotar casaquinhos de malha para a Divina Criança, ou do homem

(acho que já falei nele)

que me transmitiu, numa simples frase, a técnica da criação artística, que ainda hoje utilizo, ao informar-me

– Sabe, o mundo começou a ser feito por detrás

o que me ajudou a resolver, de golpe, uma série de dificuldades, ou do Valdemiro, que me ensinou a voar

– Cuidado com os ramos mais altos ou do sujeito que ligou para a Urgência declarando

– Daqui a meia hora estou aí para matar o chefe de equipa

bem vestido, bem penteado, de gravata e pistola na mão, disse-lhe

– Mate-me mas primeiro sente-se ao meu colo um bocadinho

e sentou-se de pistola na mão, e depois abraçou-me, e depois desatou a chorar porque a vida não é verdade, porque a vida senhor doutor, porque a vida, porque a vida, porque a vida, o enfermeiro pegou na pistola

– Isto tem mesmo balas sabia?

comigo cheínho de vontade de chorar por ele também. Meu Deus o que as pessoas sofrem, somos todos tão frágeis, tão à mercê de tudo, estamos tantas vezes tão infinitamente sós. No Hospital Miguel Bombarda, onde o professor Miguel Bombarda foi assassinado a tiro, ele, agonizante, impediu que matassem o seu assassino ordenando

– Deixem-no, é um pobre

e, de facto, somos todos tão pobres, estamos todos, tantas vezes, tão sós. Felizmente resta a esperança que as paredes, mesmo apesar de andarem há horas nisto, nos coloquem a palma no joelho e garantam, numa ternura que nos anima de novo

– Descanse que daqui a nada elas conversam consigo.



António Lobo Antunes





quarta-feira, 27 de junho de 2018

Somos um enorme convento de carmelitas autistas





... vi sete pessoas sete à espera na paragem do autocarro, todas de olhos baixos, a picarem o seu quadradinho de plástico com o indicador, alheadas do universo. Não somos um país, somos um enorme convento de carmelitas autistas em silenciosa comunicação com o seu écranzinho que os põe em contacto com um estranho universo inexistente, cheio de palavras e imagens irreais.

Os humanos já não falam: dialogam em silêncio com o nada, isto é com o que pensam ser os outros e o mundo, trocando banalidades arrasadoras com criaturas e acontecimentos tão fantasmáticos quanto elas. Não se relacionam entre si: relacionam-se com silhuetas vazias, interessam-se por acontecimentos ocos, os afectos transformam-se em siglas, a ternura em bjs sem carne, meia dúzia de consoantes e de k estratégicos substituem os sentimentos e as emoções. Os corpos transformam-se em silhuetas, a partilha em frases feitas, o amor no supermercado do face book onde as pessoas se apaixonam por criaturas irreais, ou seja fotografias minúsculas e ideias sem carne, encharcando os iphones de lugares comuns patetas nos quais se sente o enorme peso de uma solidão irremediável. Tenho muito dó desses infelizes fantasmas procurando desesperadamente outros infelizes fantasmas na esperança de uma relação fantasmática que, ao fim e ao cabo, não é possível porque não se pode amar uma ausência sem espessura de gente. O poeta Fernando Pessoa, por exemplo, parece-me não uma criatura mas um nada falante. Não é ao artista que me refiro agora, é ao homem que tentava existir através da bebida na esperança de obter, por intermédio de um substituto do leite materno, a densidade carnal que não tinha e, portanto, os seus escritos não respiram. Fingem que respiram, num sofrimento imenso. As criaturas dos iphones não pensam, não lhes interessa pensar, interessa-lhes existir no vazio, relacionando-se com vazios tão brancos quanto os deles, procurando desesperadamente bjs sem substância. Conversam com ninguéns em diálogos de uma pobreza afectiva absoluta que é o único anteparo de que são capazes para tentarem lutar contra a depressão, porque ao princípio não era o Verbo, era a Depressão, e as nossas almas tão sozinhas, tão pobres. O que queremos de facto, o que esperamos ainda é encontrar um modo de nos acharmos menos desamparados, menos indefesos, menos perdidos, e esperamos, como crianças que esqueceram o caminho para casa, que um bj nos aponte o caminho. E não aponta porque nenhum bj se transforma em beijo, é uma metamorfose impossível. Toma o meu bj, dá-me o teu bj em troca. E ficamos cada um com o bj do outro na palma a pensar

– O que faço eu com isto?

enquanto as duas letras se dissolvem ou se evaporam num écranzinho que não responde. Na fila dos automóveis de regresso a casa ao fim do dia vemos as pessoas sentadas no carro, olhando fixamente em frente, imóveis e sérias. Se repararmos nos olhos delas estão todas mortas atrás dos olhos. Não faz mal: o iphone está aqui no bolso; em chegando a casa ligo-o e encontro outros desgraçados, tão defuntos quanto eu, à espera de um colo que não existe. Há uma ausência apenas e lá ao fundo, na cozinha, uma torneira que não veda bem a pingar no lava-loiças o ritmo angustiado do nosso desespero. Talvez um bj ajude um bocadinho a torná-lo suportável: é que somos tão pobres que nos contentamos com uma côdeazita de nada. E amanhã encontraremos na fronha algumas migalhas que sobraram. Se as metermos na boca têm um gosto a lágrimas.


ANTÓNIO LOBO ANTUNES





quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A IDEALIZAÇÃO DO AMOR





Eu estava a pensar na forma como se poderá entender o amor, à luz da minha formação. Da minha perspetiva, depende daquilo que o outro representa, se o outro é um prolongamento nosso, é uma parte nossa, como acontece muitas vezes, ou é uma idealização do eu de que falaria o Freud. No sentido psicanalítico poder-se-ia dizer que o amor corresponde ao eu ideal e, portanto, à procura de qualquer coisa de ideal que nós colocamos através de um mecanismo de identificação projectiva no outro.

Portanto, à luz de uma perspectiva científica, como é apesar de tudo a psicanalítica, o problema começa a pôr-se de uma forma um bocado diferente. Nesse sentido e na medida em que o objecto amado é sempre idealizado e nunca é um objecto real, a gente, de facto, nunca se está a relacionar com pessoas reais, estamos sempre a relacionarmo-nos com pessoas, ideias e com fantasmas. A gente vive, de facto, num mundo de fantasmas: os amigos são fantasmas que têm para nós determinada configuração, ou os pais, ou os filhos, etc.

(...)

O amor é uma coisa que tem que ver de tal forma com todo um mundo de fantasmas, com todo um mundo irreal, com todo um mundo inventado que nós carregamos connosco desde a infância, que até poderá haver, eventualmente, amor sem objeto. O amor não será, assim, necessariamente, uma luta corpo a corpo, ou uma luta corporal, mas pode ter que ver realmente com outras coisas, uma idealização, um desejo de encontrar qualquer coisa de perdido, nosso, que é normalmente isso que se passa, no amor neurótico, ou mesmo não neurótico. Quer dizer, é a procura de encontrarmos qualquer coisa que a nós nos falta e que tentamos encontrar no outro e nesse caso tem muito mais que ver connosco do que com a outra pessoa. Normalmente, isso passa-se assim e também não vejo que seja mau que, de facto, se passe assim.


ANTÓNIO LOBO ANTUNES





segunda-feira, 31 de julho de 2017

Dia da Morte do Meu Pai





A escritora Gertrude Stein insistia com os jovens escritores americanos de quem era protectora, Hemingway, Fitzgerald, tantos outros, da importância que teria para eles viverem em Paris. A sua explicação era simples:

Não é tanto o que Paris dá

(insistia ela)

é o que Paris não tira. Esta frase traz-me sempre à ideia a pergunta que Alexandre Dumas

(gosto de Alexandre Dumas)

faz no seu diário:

“Porque motivo há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?”

Fica a reflectir acerca disto durante uns parágrafos e acaba por concluir que só pode ser um problema de educação. Por exemplo os desenhos das crianças em geral são magníficos, os dos adultos, excepto no caso de serem artistas de talento, uma bodega. Claro que é um problema de educação: uma criança criativa é herética e subversiva

(até rima, olha)

e claro que isso assusta os professores que exigem dos alunos uma normalização que conduz inevitavelmente à mediocridade que tanto tranquiliza os pais. Queremos que os filhos tenham vidinhas, sejam tristemente independentes, consigam um bom casamento, uma, tanto quanto possível, boa casa, um ordenado simpático, filhos bem educados. Claro que admitimos Gauguin ou Mozart desde que não façam parte da família. Em geral as famílias defendem-se criando um maluquinho. Todas têm aquilo que consideram o maluco da família e, quando o maluco, por qualquer motivo, deixa de o ser, apressam-se a arranjar outro antes que a estrutura se desagregue. Não há nada que assuste mais as pessoas do que a criatividade, nada que as apavore mais do que a diferença. A sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais e eles aí estão: dirigem os países, as grandes empresas, os ministérios, etc. Eu oiço-os falar e pasmo não haver praticamente um único líder que não seja pateta, um único discurso que não seja um rol de lugares comuns. Mas os que giram em torno deles não são melhores. Desconhecemos até os nossos grandes homens: quem leu Camões por exemplo? Quase ninguém. Quem sabe alguma coisa sobre Afonso de Albuquerque? Mas todos os dias há paleios cretinos acerca de futebol em quase todos os canais. Porque não é perigoso. Porque tranquiliza. Os programas de televisão são quase sempre miseráveis mas é vital que sejam miseráveis. E queremos que as nossas crianças se tornem adultos miseráveis também, o que para as pessoas em geral significa responsáveis. Reparem, por exemplo, em Churchill. Quando tudo estava normal, pacífico, calmo, não o queriam como governante. Nas situações extremas, quando era necessário um homem corajoso, lúcido, clarividente, imaginativo, iam a correr buscá-lo. Os homens excepcionais servem apenas para situações excepcionais, pois são os únicos capazes de as resolverem. Desaparece a situação excepcional e prescindimos deles. Gostamos dos idiotas porque não nos colocam em causa. Quanto às pessoas de alto nível a sociedade descobriu uma forma espantosa de as neutralizar: adoptou-as. Fez de Garrett e Camilo viscondes, como a Inglaterra adoptou Dickens. E pronto, ei-los na ordem, com alguns desvios que a gente perdoa porque são assim meio esquisitos, sabes como ele é, coitado, mas, apesar disso, tem qualidades. Temos medo do novo, do diferente, do que incomoda o sossego. A criatividade foi sempre uma ameaça tremenda: e então entronizamos meios-artistas, meios-cientistas, meios-escritores. Claro que há aqueles malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar sossegava. De Gaulle, goste-se dele ou não, inquietava. Eu faria um único teste aos políticos, aos administradores, a essa gentinha. Um teste ao seu sentido de humor. Apontem-me um que o tenha. Um só. Uma criatura sem humor é um ser horrível. Os judeus dizem: os homens falam, Deus ri. E, lendo o que as pessoas dizem, ri-se de certeza às gargalhadas. E daí não sei. Voltando à pergunta de Dumas

– Porque é que há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?

não tenho a certeza de ser um problema de educação que mais não seja porque os educadores, coitados, não sabem distinguir entre ensino, aprendizagem e educação.
A minha resposta a esta questão é outra.
Há muitas crianças inteligentes e muitos adultos estúpidos porque matámos o máximo de crianças que perdemos quando elas começaram a crescer. Por inveja, claro. Mas, sobretudo, por medo.



ANTÓNIO LOBO ANTUNES





domingo, 21 de maio de 2017

Conto até cem e,






Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora.
Não chegaste antes dos cem.
Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora.
Não chegaste antes do um.
Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora.
Não chegaste antes dos dez automóveis pretos.
Nem antes dos quinze táxis vazios.
Nem antes dos sete homens carecas.
Nem antes das nove mulheres loiras.
Nem antes das quatro ambulâncias.
Nem sequer antes dos três corcundas e,
entretanto, começou a chover.


António Lobo Antunes





quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Na casa não mexia: agrada-me que seja como é!



Claro que tens defeitos: alguns divertem-me, outros enternecem-me, nenhum me incomoda, talvez por serem os defeitos das tuas qualidades da mesma maneira que um automóvel possui os travões adequados à potência do motor.
Se fosse Deus não mudava grande coisa em ti: talvez trocasse um móvel de posição, alterasse uma jarra, substituísse um quadro.
Na casa não mexia: agrada-me que seja como é.


António Lobo Antunes 
in, Quarto Livro de Crónicas


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

......têm de ter sempre uma de reserva...sozinhos é que não





Os homens nunca dizem: 'Já não gosto.'
Dizem: 'O problema não está em ti, está em mim. Preciso de pensar, preciso de espaço...'.
As mulheres são muito mais diretas: 'Deixei de gostar de ti.' E pronto.
Os homens nunca o dizem porque querem que a mulher fique de reserva.

― António Lobo Antunes 


A melhor maneira de lidar com os outros,
é tomá-los por aquilo que eles acham que são
e deixá-los em paz. 
 
― António Lobo Antunes

quinta-feira, 21 de julho de 2016

......................o sorriso que ficou ao cimo dos degraus




Julgo ter sido o Avelaria que contou num livro dele a história de um homem que diz para o outro: "Descobri que a minha mulher deixou de gostar de mim quando não veio mais despedir-se à escada". E o outro pergunta-lhe:
"Não terás sido tu que te esqueceste de olhar para trás?"
Muitas vezes esquecemo-nos de olhar para trás e ver o sorriso que ficou ao cimo dos degraus.
Vamos embora sem levar esse sorriso e o pobre sorriso fica abandonado e murcha.

António Lobo Antunes


sábado, 20 de junho de 2015

Não tenho jeito para viver



Uma das boas coisas que fiz estes dias foi reler algumas das entrevistas do Lobo Antunes.
Conheço poucas pessoas, cujas entrevistas sejam pautadas por frases tão balísticas.
Sem qualquer pretensão de citação, ficam-me na memória como os melhores paladares da vida.
Na última entrevista de Lobo Antunes à Visão, o título escolhido foi uma dessas frases, que pronunciada à laia de conversa, é suficientemente paralisante para levar o jornalista a afiar o lápis na sua própria mandíbula.

"Não tenho jeito para viver." 
António Lobo Antunes

E quando se diz uma frase destas, para lá de toda a psicologia subjacente...a verdade é que não se devia ser obrigado a dizer mais coisa nenhuma.

Não sei se é só a mim que me comove, mas sou capaz de passar horas a lamber uma frase.
Imagino que há frases que só podem ser pronunciadas com significância, por dois tipos de pessoas, as muitos simples, e as altamente complexas.

Não acredito na classe média de algumas frases.
Acredito sim, que podia ir ao café na aldeia de Lameiros em São Luís, e ouvir o Ti Manel a dizer, enquanto puxa a cadeira: - Não tenho jeito para viver.

E depois imagino, uma alma forjada em vida, uma mente irrequieta, uma inteligência dilacerante, numa voz seca e enfastiada pronunciando: - Não tenho jeito para viver!

Perdoem-me os medianos que não se acusam, mas sonho viver para pronunciar frases assim.
Não no contexto de uma entrevistaDe vez em quando acerca-se de mim uma noção muito clara: eu não fui feito para viver. Sempre houve alguma coisa que me faltou. Sempre presente, desde que me lembro, esta incapacidade de ser confortavelmente social, de me adaptar com naturalidade às coisas. Uma estranheza particular. Uma solidão particular. Por vezes o desajuste é tão profundo que tenho vontade de deixar a vida pousada sobre a cómoda do quarto e sair de mansinho, sem ninguém dar por mim., mas no mais banal contexto da vida.
E hei-de fazê-lo, sem qualquer necessidade de imortalizar a frase, lápis ou caderno.
Vou dizê-las com a mesma displicente autoridade, do António Lobo Antunes e do Ti Manel.

Terei nesse instante pronunciado, a mais suculenta certeza, que consegui resgatar à vida, tudo o que lhe é Essência.


Isabel Saldanha



"De vez em quando acerca-se de mim uma noção muito clara: 
eu não fui feito para viver. 
Sempre houve alguma coisa que me faltou. 
Sempre presente, desde que me lembro, 
esta incapacidade de ser confortavelmente social, 
de me adaptar com naturalidade às coisas. 
Uma estranheza particular. 
Uma solidão particular. 
Por vezes o desajuste é tão profundo 
que tenho vontade de deixar a vida pousada sobre a cómoda do quarto 
e sair de mansinho, 
sem ninguém dar por mim."

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Porra!!!!!!



"Porra porra porra porra porra, dizia eu no interior de mim mesmo, porque não achava dentro de mim outras palavras que não fossem essas, espécie de débil protesto contra a tristeza cerrada que me enchia.
Sentia-me muito indefeso e muito só e sem vontade, agora, de chamar por ninguém porque (sabia-o) há travessias que só se podem efectuar sozinho, sem ajudas, ainda que correndo riscos de ir a pique numa dessas madrugadas de insónia que nos tornam Pedro e Inês em cripta de Alcobaça, jacentes de pedra até ao fim do mundo."

António Lobo Antunes

sexta-feira, 15 de maio de 2015

.....................as palavras estão muito gastas.



Há momentos e situações em que o olhar comunica mais que as palavras, isso também é intimidade.
Creio que sou capaz de dizer muitas coisas sem falar, é o outro que também tem de compreender e de saber interpretar.
Quando se estabelece essa relação de intimidade e de amizade, não é necessário falar.
(…)
Frequentemente é melhor não o fazer porque as palavras estão muito gastas.

— António Lobo Antunes

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Amigos não morrem



Os amigos não morrem: andam por aí, entram por nós dentro quando menos se espera e então tudo muda: desarrumam o passado, desarrumam o presente, instalam-se com um sorriso num canto nosso e é como se nunca tivessem partido.
É como, não: nunca partiram.

António Lobo Antunes

sábado, 31 de janeiro de 2015

O escritor e o seu daimon



Nas entrevistas, António Lobo Antunes apresenta-se como um escritor que, vive dentro de si a experiência da co-naturalidade com o acto criador, recuperando ideias que hoje já não subsistem, nem sequer nos nossos mitos: as ideias de inspiração, de génio, de entusiasmo (no sentido grego de possessão pelo divino).

A entrevista que lhe fez Isabel Lucas, publicada numa edição do Ípsilon, fornece matéria abundante para a análise desta mitologia.

O discurso de António Lobo Antunes obriga-nos a uma metódica suspeita:
lido em primeiro grau, em que o pressuposto é o de que ele acredita nas suas próprias palavras e se situa num registo de verdade, teríamos o mais ingénuo dos escritores;
lido em segundo grau, em que o pressuposto é o da distância em relação às suas próprias palavras, teríamos o mais teatral e parodiante dos escritores, quando sobe ao palco das entrevistas.
A segunda hipótese é muito mais interessante do que a primeira, e a mais verosímil.

Seria um insulto ao escritor e à sua obra acreditar que ele acredita que “é o livro que se escreve a si mesmo” e que isso decorre de um mistério que ele formula desta maneira, ao responder a uma pergunta sobre o nascimento do livro agora publicado:
“Não sei o que me passou pela cabeça.”
Esse mistério, facilmente reconhecível por quem está familiarizado com os mitos românticos, é o do génio como potência criadora ex-nihilo, irredutível a todas as regras e impossível de analisar racionalmente.

O génio romântico é considerado ou considera-se a si mesmo como fonte criadora, como um deus.
É esta concepção teológica da criação literária — em que o escritor, possuído por um daimon, é um intermediário entre os homens e os deuses — que António Lobo Antunes reclama desde há muito tempo nas entrevistas.
E reclama-o não apenas para si, mas para os escritores em geral, essas criaturas que “parece que têm contacto com outra instância qualquer”.

Seríamos grosseiros, ou pelo menos ingénuos, se levássemos as suas palavras a sério e não as lêssemos como uma enorme paródia, retomada em cada entrevista, dissimulada na gravidade e no pathos que o autor coloca na sua representação do papel do escritor possuído pela genialidade, levado por uma escrita demoníaca, ditada por uma lei interior que alude ao que Hegel chamava “reino animal do espírito”.

Daí este desejo:
“Só gostava de viver mais uns tempos porque tenho mais uns livros dentro de mim.”
Os livros estão “dentro de mim” como pura potência que só se transforma em acto por mediação dessa divindade tutelar a que os latinos chamavam o genius e que presidia ao nascimento do indivíduo.

O genius é ao mesmo tempo uma figura de invocação, como são as musas, e uma aptidão superior do espírito (portanto, interior).
E é precisamente porque os livros, “dentro de mim”, precisam de um grande intercessor, uma entidade que está fora e num plano superior, que um grande medo cresce:
“Tenho um medo permanente de isto ter acabado.”
“Isto” é o mistério da criação literária, o sem-nome da literatura quando ela é vista em chave teológica, como é o caso nesta paródia em muitos actos do génio e da criação que António Lobo Antunes encenou com suficiente verosimilhança para exaltar e confortar os que lêem as suas entrevistas segundo a hipótese do escritor ingénuo.

Os outros, os que lhe descobrem as manhas teatrais para o resgatar generosamente da ingenuidade e da mistificação, teriam vontade de lhe recitar a lei pessoana do fingimento do poeta:
“O poeta é um fingidor/ finge tao completamente…”.

 ANTÓNIO GUERREIRO

sábado, 13 de dezembro de 2014

..............é noite e as noites custam, a mim custam



Fica comigo.
Daqui a nada é noite e as noites custam, a mim custam, sobretudo quando os candeeiros da rua se acendem e as árvores e os prédios fronteiros logo diferentes, quase ninguém na rua, um miúdo com um cão lá ao fundo, uma tristeza parada na tonalidade do silêncio, estes móveis e estes retratos que não me ligam nenhuma, os teus passos na escada, tu no passeio: nem vou à janela olhar, não quero olhar.
Fica comigo só mais um bocadinho, dez minutos, meia hora, sei lá, o tempo inteiro.
Mesmo que não fales.
Mesmo que leias a revista do jornal.
Mesmo que não me toques.
Mesmo como se eu não existisse.
Há alturas, imagina, em que penso que não existo e depois vem a aflição, o medo, o meu pulso tão rápido, a voz da minha mãe, do fundo da infância.


António Lobo Antunes

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Somos casas muito grandes



Nós somos casas muito grandes, muito compridas. 
É como se morássemos apenas num quarto ou dois. 
Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas. 

António Lobo Antunes



Caraças...esta fez pensar...

Há pessoas, poucas, que nos "estragam" pela vida que nos mostraram, que nos deram, que vivemos.
E naquele momento em que partem, parece que não há vida que nos encaixe, que nos sirva, que nos reste, porque tudo nos sobra.
Sobra-nos espaço, sobra-nos vazio.

O Lobo Antunes diz nesta frase que publiquei aqui em cima, que as pessoas são como casas, nem todos os quartos estão habitados.
Pois...
Eu tinha quartos que não sabia que tinha até alguém os escancarar, e juntos os habitámos.
Entrámos, despojámo-nos, abrimos janelas com vistas conversadas de mundo, daquele que se via fora das janelas e janelas adentro, tivemos o prazer da pele ao sol, dos banhos de luar quente, do silêncio que era só paz, dos beijos que encostavam as almas.

Depois mais tarde, tudo desabitado - a lua fugiu do céu, o sol veste-se de luto e o silêncio enche-se de vazio por ser.
Bateram a porta por fora, carregaram as chaves num bolso esquecido da alma que emprestaram, ou que devolveram à morte que sobrevive.

Não me estragaram a vida, como senti na altura... apenas aumentaram a extensão de vazio que ocupa espaço, para que eu pudesse nesse vazio perder-me para me encontrar.
Desarrumaram-me uma casa que não sabia ter, trancaram o sol num roupeiro e arrumaram a lua numa gaveta sem estrelas, embrulhada num papel escrito na língua do silêncio - desabitaram-me. Desabitada, estragada na arquitectura que não sabia viver, sobrevivi, sobreviverei, como sempre.

Só me soçobrou espaço ocupado de vazio.
Sobrevivida ao vazio, saí bem mais apetrechada...
Hoje, vivo de braços abertos, sem medos... no caso de alguém me entrar em casa, me invada sem aviso, de chave mestra nas mãos feitas para só tratar bem, com um sol desempoeirado pendurado em cada gesto quente, um luar em cada olhar que me banhe, e cheio de beijos de alma que me habitem.
E que fique, e que eu queira que ele fique tanto ou mais do que ele queira ficar.
Que me habite sem hábito de certezas, na certeza que esse querer não é um hábito.
Que me habite com intensidade, com querer...e quando assim deixar de ser, que se vá embora.
Agora já não tenho medo desse vazio que fica...abraço-o e dou-lhe as boas vindas!

sábado, 30 de agosto de 2014

..............o que faço aqui?


"Não vale a pena falarmos, para quê, quanto mais falamos mais a gente se magoa um ao outro, fomo-nos distanciando tanto com o tempo, sinceramente nunca imaginei que isto acontecesse, não era assim ao princípio mas nunca é assim ao princípio.

As coisas começam a correr mal devagarinho, não damos conta e nisto, de repente, tão longe um do outro, linguagens diferentes, falta de paciência, silêncios que magoam, frases a que não se responde, uma irritação surda, uma impaciência que se tenta disfarçar sem a conseguir disfarçar totalmente, um desconforto mudo mas presente, cada vez mais presente, uma espécie de enjôo, uma espécie de desgosto, o que faço aqui, o que fazes aqui, qual o motivo de continuarmos juntos se não faz sentido, qual o motivo de teimarmos ainda?"

António Lobo Antunes

domingo, 15 de junho de 2014

Há momentos...



Há momentos e situações em que o olhar comunica mais que as palavras, isso também é intimidade. Creio que sou capaz de dizer muitas cosas sem falar, é o outro que também tem de compreender e de saber interpretar.
Quando se estabelece essa relação de intimidade e de amizade, não é necessário falar.
(...)
Frequentemente é melhor não o fazer, porque as palavras estão muito gastas.

António Lobo Antunes

...a simples hipótese de cumplicidade no olhar torna a vida fantástica !
...um olhar cúmplice diz o que os lábios calam.
Há momentos, olhares cúmplices, que se falar estraga...