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sexta-feira, 2 de junho de 2017
A Imortalidade
Simone de Beauvoir:
Com que contava para sobreviver - na medida em que pensava sobreviver: com a literatura ou com a filosofia?
Como sentia a sua relação com a literatura e a filosofia?
Prefere que as pessoas gostem da sua filosofia ou da sua literatura, ou quer que gostem das duas?
Jean-Paul Sartre:
Claro que responderei: que gostem das duas.
Mas há uma hierarquia, e a hierarquia é a filosofia em segundo e a literatura em primeiro.
Desejo obter a imortalidade pela literatura, a filosofia é um meio de aceder a ela.
Mas aos meus olhos ela não tem em si um valor absoluto, porque as circunstâncias mudarão e trarão mudanças filosóficas. Uma filosofia não é válida por enquanto, não é uma coisa que se escreve para os contemporâneos; ela especula sobre realidades intemporais; será forçosamente ultrapassada por outros porque fala da eternidade; fala de coisas que ultrapassam de longe o nosso ponto de vista individual de hoje; a literatura, pelo contrário, inventaria o mundo presente, o mundo que se descobre através das leituras, das conversas, das paixões, das viagens; a filosofia vai mais longe; ela considera que as paixões de hoje, por exemplo, são paixões novas que não existiam na Antiguidade; o amor...
Simone de Beauvoir:
Quer dizer que para si a literatura tem um carácter mais absoluto, a filosofia depende muito mais do curso da história; está mais submetida a revisões?
Jean-Paul Sartre:
Ela chama necessariamente revisões porque ultrapassa sempre o período actual.
Simone de Beauvoir:
De acordo; mas não há um absoluto no facto de ser Descartes ou de ser Kant mesmo se eles têm de ser ultrapassados de certa maneira?
Eles são ultrapassados mas a partir do que me trouxeram; há uma referência a eles que é um absoluto.
Jean-Paul Sartre:
Não o nego. Mas isso não existe em literatura.
As pessoas que gostam de Rabelais de todo o coração, lêem-no como se ele tivesse escrito ontem.
Simone de Beauvoir:
E de uma maneira absolutamente directa.
Jean-Paul Sartre:
Cervantes, Shakespeare, lemo-los como se eles estivessem presentes; Romeu e Julieta ou Hamlet, são obras que parecem ter sido escritas ontem.
Simone de Beauvoir:
Dá pois a primazia da sua obra à literatura?
No entanto, no conjunto das suas leituras e da sua formação, a filosofia desempenhou um enorme papel.
Jean-Paul Sartre:
Sim, porque a considerei como o melhor meio de escrever; era ela que me dava as dimensões necessárias para criar uma história.
Simone de Beauvoir:
Não se pode ainda assim dizer que a filosofia era apenas um meio em si.
Jean-Paul Sartre:
De início, foi.
Simone de Beauvoir:
Ao princípio, sim; mas depois quando se vê o tempo que passou a escrever L'Être et le Néant, a escrever a Critique de la Raison Dialétique, não se pode dizer que isso era simplesmente o meio de fazer obras literárias; foi também porque, em si, isso o apaixonava.
Jean-Paul Sartre:
Sim, interessava-me, é uma verdade.
Queria dar a minha visão do mundo ao mesmo tempo que a fazia viver por personagens nas minhas obras literárias ou em ensaios. Descrevia essa visão aos meus contemporâneos.
Simone de Beauvoir:
Em suma, se alguém lhe dissesse:
«É um grande escritor, mas, como filósofo, não me convence», preferi-lo-ia a alguém que lhe dissesse:
«A sua filosofia é formidável, mas como escritor pode mudar de ofício?».
Jean-Paul Sartre:
Sim, prefiro a primeira hipótese.
(...)
Jean-Paul Sartre:
De um modo geral, aliás, já não sei muito bem porque se escrevem romances.
Queria falar do que pensei ser a literatura e além disso do que abandonei.
Simone de Beauvoir:
Fale; é muito interessante
Jean-Paul Sartre:
Ao princípio, pensava que a literatura era o romance. Dissemo-lo.
Simone de Beauvoir:
Sim, uma narrativa, e ao mesmo tempo via-se o mundo através. Isto dá qualquer coisa que nenhum ensaio sociológico, nenhuma estatística, pode dar.
Jean-Paul Sartre:
Dá o individual, dá o pessoal, dá o particular. Um romance dará esta sala, por exemplo, a cor dessa parede, desses cortinados, da janela, e só ele o pode dar.
E foi do que eu gostei, os objectos serem nomeados e muito próximos no seu carácter individual.
Eu sabia que todos os sítios descritos existiam ou tinham existido, que por conseguinte era mesmo a verdade.
Simone de Beauvoir:
Embora você não gostasse muito das descrições literárias. Nos seus romances há descrições, de vez em quando, mas sempre muito ligadas à acção, à maneira como as pessoas as vêem.
Jean-Paul Sartre:
E breves.
Simone de Beauvoir:
Sim. Uma pequena metáfora, três palavrinhas para indicar qualquer coisa, não verdadeiramente uma descrição.
Jean-Paul Sartre:
Porque uma descrição não é tempo.
Simone de Beauvoir:
Sim. Pára.
Jean-Paul Sartre:
Pára, não dá o objecto como ele aparece no momento, mas o objecto tal como ele é há cinquenta anos.
É estúpido!
Simone de Beauvoir:
Ao passo que indicar o objecto no movimento da narrativa está bem!
Jean-Paul Sartre:
Está bem, sim.
Diálogos entre Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir
in, "A Cerimónia do Adeus"
quinta-feira, 11 de maio de 2017
O Inferno são os outros
Florentinus Joseph
A afirmação de Jean-Paul Satre «O Inferno são os outros», é precisamente a voz do ego.
A pessoa que sofre de paranóia vive intensamente este Inferno, mas todas as pessoas que ainda são dominadas por padrões egóicos também o sentem em certa medida.
Quanto mais forte for o ego de um indivíduo, mais provável é que a sua perceção das outras pessoas seja a principal fonte de problemas na sua vida.
É também mais do que provável que dificulte a vida aos outros.
Mas é claro que ele não é capaz de ver isso.
São sempre os outros que parecem agir incorretamente com ele.
Eckhart Tolle
in, Um Novo Mundo
pág. 101
domingo, 9 de abril de 2017
Seu passado sofria sem cessar os retoques do presente
Os dias mais recuados de sua infância, o dia em que dissera:
"Serei livre", o dia em que dissera: "Serei grande", apareciam-lhe, ainda agora, com seu futuro particular, como um pequenino céu pessoal e bem redondo em cima deles, e esse futuro era ele, ele tal e qual era agora, cansado e amadurecido.
Tinham direitos sobre ele e através de todo aquele tempo decorrido mantinham suas exigências, e ele tinha amiúde remorsos abafantes, porque o seu presente negligente e céptico era o velho futuro dos dias passados.
Era a ele que eles tinham esperado vinte anos, era dele, desse homem cansado, que uma criança dura exigira a realização de suas esperanças; dependia dele que os juramentos infantis permanecessem infantis para sempre, ou se tornassem os primeiros sinais de um destino.
Seu passado sofria sem cessar os retoques do presente; cada dia vivido destruía um pouco mais os velhos sonhos de grandeza, e cada novo dia tinha um novo futuro; de espera em espera, de futuro em futuro, a vida dele deslizava docemente...em direcção a quê?
Jean-Paul Sartre
in, " A Náusea"
quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
Existimos em Função do Futuro
Tentai apreender a vossa consciência e sondai-a.
Vereis que está vazia, só encontrareis nela o futuro.
Nem sequer falo dos vossos projectos e expectativas: mas o próprio gesto que surpreendeis de passagem só tem sentido para vós se projectardes a sua realização final para fora dele, fora de vós, no ainda-não.
Mesmo esta taça cujo fundo não se vê - que se poderia ver, que está no fim de um movimento que ainda não se fez -, esta folha branca cujo reverso está escondido (mas poderia virar-se a folha) e todos os objectos estáveis e sólidos que nos rodeiam ostentam as suas qualidades mais imediatas, mais densas, no futuro.
O ser humano não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter.
E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente?
O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um Tendo-sido-Futuro.
E, para explicar o próprio passado, não será a primeira tarefa do historiador procurar o futuro?
Jean-Paul Sartre
in, "Situações I"
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
O tempo
O tempo não será constantemente irreversível?
Há momentos em que podemos fazer o que queremos - ir para diante ou voltar para trás, que tanto faz uma coisa como outra; e há outros em que se diria que as malhas se apertaram, e, nesse caso, impõe-se não falhar a cartada, porque a ocasião não se repetiria.
Jean-Paul Sartre
in, A Náusea
sexta-feira, 6 de maio de 2016
A Temporalidade
A temporalidade é evidentemente uma estrutura organizada, e esses três pretensos "elementos" do tempo, passado, presente , futuro, não devem ser considerados como uma colecção de "dados" cuja soma deve ser feita - por exemplo, como uma série infinita de "agora", alguns dos quais ainda não são, outros que não são mais -, mas como momentos estruturados de uma síntese original.
Senão encontraremos, em primeiro lugar, este paradoxo: o passado não é mais, o futuro ainda não é, quanto ao presente instantâneo, todos sabem que ele não é tudo, é o limite de uma divisão infinita, como o ponto sem dimensão.
Jean-Paul Sartre,
in, "O Ser e o Nada"
domingo, 17 de janeiro de 2016
A Náusea sou eu
Os homens.
É preciso amar os homens.
Os homens são admiráveis.
Sinto vontade de vomitar – e de repente aqui está ela: a Náusea.
Então é isso a Náusea: essa evidência ofuscante?
Existo – o mundo existe -, e sei que o mundo existe.
Isso é tudo.
Mas tanto faz para mim.
É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta.
Gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir.
Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca…
E subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi.
A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu.
Jean-Paul Sartre
in, A Náusea
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Antes de Vivermos, a Vida é Coisa Nenhuma
O homem começa por existir, isto é, o homem é de início o que se lança para um futuro e o que é consciente de se projectar no futuro.
O homem é primeiro um projecto que se vive subjectivamente, em vez de ser musgo, podridão ou couve-flor; nada existe previamente a esse projecto; nada existe no céu ininteligível, e o homem será em primeiro lugar o que tiver projectado ser.
Não o que tiver querido ser.
Porque o que nós entendemos ordinariamente por querer é uma decisão consciente, e para a generalidade das pessoas posterior ao que se elaborou nelas.
Posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me: tudo isto é manifestação de uma escolha mais original mais espontânea do que se denomina por vontade.
(...)
Escreveu Dostoievsky:
"Se Deus não existisse, tudo seria permitido."
É esse o ponto de partida do existencialismo.
Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, e, por conseguinte, o homem encontra-se abandonado, porque não encontra em si, nem fora de si, a que agarrar-se.
Ao começo não tem desculpa.
Se, na verdade, a existência precede a essência, não é possível explicação por referência a uma natureza humana dada e hirta; dito de outro modo, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade.
Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos em face de nós valores ou ordens que legitimem a nossa conduta.
Assim, não temos nem por detrás de nós nem à nossa frente, no domínio luminoso dos valores, justificação ou desculpas. Estamos sozinhos, sem desculpa.
É o que exprimirei dizendo que o homem está condenado a ser livre.
Se suprimi Deus Pai, cumpre que alguém invente os valores.
Temos de tomar as coisas como elas são.
Aliás, dizer que inventamos os valores não significa senão isto: a vida não tem sentido a priori.
Antes de vivermos, a vida é coisa nenhuma, mas é a nós que compete dar-lhe um sentido, e o valor não é outra coisa senão o sentido que tivermos escolhido.
Jean-Paul Sartre,
in "O Existencialismo é um Humanismo"
sábado, 23 de maio de 2015
Estou condenado a ser livre
Realmente, só pelo facto de ser consciente das causas que inspiram as minhas acções, estas causas já são objectos transcendentes para a minha consciência; elas estão fora.
Em vão tentaria apreendê-las.
Escapo delas pela minha própria existência.
Estou condenado a existir para sempre além da minha essência, além das causas e motivos dos meus actos.
Estou condenado a ser livre.
Isso quer dizer que nenhum limite para a minha liberdade pode ser estabelecido, excepto a própria liberdade, ou, se preferir; que nós não somos livres para deixar de ser livres.
Jean-Paul Sartre
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Sartre
Para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tão-pouco de dentro, que possa receber ou aceitar.
Está inteiramente abandonada, sem auxílio de nenhuma espécie, à insustentável necessidade de se fazer ser até ao mais ínfimo pormenor.
Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu nada de ser.
(...)
O homem não pode ser ora livre, ora escravo; ele é inteiramente e sempre livre, ou não é.
Jean-Paul Sartre
in, "O Ser e o Nada"
segunda-feira, 22 de julho de 2013
...ser autêntico
"Quem é autêntico,
assume a responsabilidade por ser o que é
e se reconhece
assume a responsabilidade por ser o que é
e se reconhece
livre de ser o que é".
Jean Paul Sartre
Os Homens
Os homens.
É preciso amar os homens.
Os homens são admiráveis.
Sinto vontade de vomitar – e de repente aqui está ela: a Náusea.
Então é isso a Náusea: essa evidência ofuscante?
Existo – o mundo existe -, e sei que o mundo existe.
Isso é tudo.
Mas tanto faz para mim.
É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta.
Gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir.
Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca…
E subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi.
A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu.
Jean-Paul Sartre
.....Sartre!
O importante não é aquilo que fazem de nós,
mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
Jean-Paul Sartre
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
A Náusea (Jean-Paul Sartre)
“Os homens. É preciso amar os homens. Os homens são admiráveis. Sinto vontade de vomitar – e de repente aqui está ela: a Náusea.
Então é isso a Náusea: essa evidencia ofuscante? Existo – o mundo existe -, e sei que o mundo existe. Isso é tudo. Mas tanto faz para mim. É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta.
Gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca… e subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi.
A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu.”
Introdução
Em "A Náusea", Sartre mostra-nos Antoine Roquentin, um historiador letrado e viajado, que chega à cidade de Bouville ("boul" indicando "lama" e metaforicamente "impureza") para escrever a biografia do marquês de Rollebon, figura pitoresca e de excentricidade fascinante, que vivera na cidade durante o século XVIII. Ao iniciar logo se desencanta de forma irreversível não só pela biografia, como também pela própria sociedade e condições humanas com as quais se depara em Bouville.
Roquentin é, então, acometido por uma estranha sensação de aversão ao ser humano e sua condição existencial - a "náusea".
Cercada de um niilismo exacerbado e elucubrações de alta profundidade intelectual, "A Náusea" nos mostra um protagonista despadronizado e repelido pelas próprias contestações que faz a respeito da existência e sua falta de sentido, ou seja, a respeito da gratuidade e ilogicidade da existência, por si só desprovida de essência. Trata-se, portanto, da saga de um personagem conturbado e por vezes beirando a loucura, tal é a nudez existencial a que ele se expõe.
Mecanismos de busca essencial
Para Antoine Roquentin a existência é gratuita e ilógica e essa constatação por cada um de nós é algo terrível e fora de aceitabilidade. Decorre dessa falta de essência verdadeira uma busca de cada ser humano por sua essência artificial e iludida, havendo, para esse fim, uma série de mecanismos que tornam a existência mais suportável.
Um desses mecanismos próprios de cada um é o que ele chama de "captura do tempo". Trata-se de uma organização memorial para tornar pequenos fatos, simples existências, marcos de um sentimento aventureiro, fazendo desse "grande" facto um polarizador atractivo dos fatos precedentes, como se esses tivessem levado ao grande fim. Dessa forma, organiza-se a memória humana a partir de fins, na ordem inversa. Esse mecanismo é apontado por Roquentin como uma poderosa instrumentação da mentira, a qual ele mesmo usou sem se dar conta, num ato involuntário de sua própria condição de homem.
Outro mecanismo elucidado pelo protagonista é o mundo do conhecimento e das ciências, criado pelas "grandes mentes" ainda presas em sua busca essencial. Esse mundo, que trata da origem das espécies, da conservação da energia no universo e chega a conferir uma essência "preguiçosa" até às janelas, "com seu índice de refração", é ilusório e torna o ser humano um conhecedor de seu mundo, um dominador de si mesmo e dos outros, num processo de profunda ilusão. Fazendo uma analogia à alegoria da caverna, de Platão, o homem imagina-se conhecedor de todo um universo, enquanto, na verdade, busca conhecer minuciosamente cada parte (por menor que seja) de sua caverna, sem jamais vislumbrar seu exterior. É mais um engano, sadio para a manutenção da existência.
Um outro mecanismo apontado é o de ordenamento das glórias passadistas pela burguesia acrítica e inábil para a contestação meditativa. Assim, glórias de outras gerações, baseadas no capital e no valor epidérmico do mundo, são relembradas de forma a conferir uma essência, uma lógica, à existência dos burgueses do presente. Esse mecanismo detestável a Roquentin lhe rouba críticas muito contundentes, chamando de "salafrários" a todos os burgueses de Bouville, constituintes desse espécime humano alienado.
Dialogando com Descartes
Da célebre frase "Penso, logo existo", Sartre, pela voz de Antoine Roquentin, faz um aprofundamento filosófico bem à maneira do Existencialismo, do qual Sartre é figura proeminente. Assim, para o protagonista, a consciência da existência, o sentir-se existir, advém do fato do pensamento, ou seja, à medida que se pensa, sente-se existir. Essa consciência é algo horrível para Roquentin e torna-se ainda pior quando ele constata que a única forma para fugir à existência é fugir ao pensamento. Mas nos perguntamos: como fugir ao pensamento se a necessidade de fuga já é um pensamento, que, como qualquer outro, nos reconduz à existência? Estamos presos, portanto, à existência, pois o caminho do pensamento e a chegada ao sentimento de existir são indesvencilháveis. Eis aí uma bela explicação à referida "náusea", que intitula a obra, pois quem suportaria estar perfeitamente cônscio de sua prisão sem, ao menos, sentir-se "nauseado"?
Humanismo x Existencialismo
Uma das únicas personagens com quem Antoine Roquentin se relaciona no livro é o Autodidata, um humanista ferrenho que aprendeu grande parte de seu vário conhecimento nos livros da biblioteca municipal, onde trabalha. De orientação filosófica bastante adversa à de Roquentin, ele representa uma personificação do Humanismo. Resulta dos encontros dos dois na biblioteca uma série de discussões de alta profundidade intelectual, num gládio de alto nível entre as duas posturas - a do Humanismo (representada pelo Autodidata, credor das capacidades humanas diferenciais) e a do Existencialismo (representada por Roquentin, niilista, misantrópica e repleta de meditações pessimistas). Após discussões severas, o protagonista Roquentin chega, entretanto, à conclusão de que não vale mais a pena discutir, pois a mente do Autodidata definitivamente não está preparada nem disposta a ouvir seus intricados conceitos, os quais seriam a perdição absoluta de qualquer humanista. Um episódio bastante interessante a ser citado e que ocorre durante um dos encontros dos dois na biblioteca municipal é a morte de uma mosca, esmagada por Roquentin em frente ao Autodidata. Ignorando os pedidos do bibliotecário, Roquentin esmaga a mosca e declara consternado: "Simplesmente libertei-a de sua existência, era um favor a prestar a ela!". É, sem dúvida, um episódio que deixa bem clara a melancolia advinda do existencialismo sartriano.
Música e Existencialismo
Logo no início da obra, Roquentin é bruscamente retirado de sua incessante náusea por uma composição jazzística de nome "Some of These Days". A princípio, essa correlação entre alívio e música é bastante misteriosa para o protagonista, mas, aos poucos, ele acaba por entender sua razão. Depois, analisando a atitude daqueles que ele chama de "imbecis", ou seja, aqueles que vão às salas de concertos buscando o esquecimento dos problemas ou aqueles que buscam superar suas crises com os "Prelúdios de Chopin", Roquentin conclui que essas pessoas tentam se deixar tocar pela música, como se essa fosse capaz de penetrar os poros do corpo e os vazios da mente, provocando uma mudança de sensações. Na verdade, isso pode ser apontado como mais um mecanismo de esquiva da existência penosa e intratável, de forma que, ao invés de sofrer pura e simplesmente, cada ser humano busca um sofrimento ritmado, melódico, ou como o próprio Roquentin infere: "É preciso sofrer em compasso". Ele vê-se, portanto, inserido nesse contexto de humanidade, tendo sofrido do mesmo engano que qualquer outro ser humano sofre, ao deixar-se invadir pela música tantas vezes citada "Some of These Days".
A verdadeira existência
Ao final da obra, após ter reencontrado sua mulher Anny, pela qual ainda pensava nutrir fortes sentimentos, Antoine Roquentin descobre que já não havia entre eles mais nada, exceto a simples repugnância entre quaisquer duas existências, o que o abala extremamente e o leva e abandonar Bouville definitivamente. Antes de partir, entretanto, ele termina por fazer suas reflexões mais escaldantes de toda a obra. Usando de sua ampla visão e conhecimentos, ele divaga sobre o que é a existência definitiva e as relações entre as existências simplórias que encontramos por toda parte, sempre à espreita.
Para ele, por exemplo, a idéia da existência de uma árvore passa a ser gratuita e absurda como qualquer outra existência e o absurdo reside no próprio fato de se existir, isto é, torna-se um absurdo à medida que se existe, pois a existência é desprovida de uma lógica que a fundamente. Já no campo da matemática, uma circunferência encontra em si mesma uma lógica definida e clara - o giro completo de um segmento de reta lhe confere seu fundamento. Logo, o que existe é absurdo exatamente pelo fato de existir e deixa-se o absurdo à medida que se deixa a existência. Também o tempo é visto de uma forma intrigante, sendo nada mais nada menos que a nossa percepção sensitiva da mudança entre duas existências. O tempo, pouco conceituável fisicamente, torna-se filosoficamente algo de simplicidade interessante - entre duas existências e uma observação externa, configura-se a noção de tempo.
Para selar o pessimismo que é detonado a cada página, Roquentin diz ainda que, algum dia, ele vai esbarrar nas ruas com homens cujas línguas estejam transformadas em lacraias e suas feições completamente animalizadas, pois, em sua visão, a igualdade de todas as existências poderia tornar os homens cada vez mais "existentes", simplesmente "existentes", como as próprias lacraias o são. O marquês de Rollebon, origem de sua vinda a Bouville, tornara-se, para ele, uma simples fuga de si mesmo, um homem buscando abandonar sua existência e mergulhar na de outro, numa tentativa naturalmente frustrada. Uma das últimas coisas que ele faz em Bouville, antes de tomar seu trem, é sentar-se num banco e observar as existências que o rodeiam, seja a de um lago, a de uma árvore ou a de cada pessoa que ele observa.
Devemos ter em vista, ainda, que "A Náusea" é uma obra que cresceu numa mente inquieta e repleta de conceitos complicadíssimos e, até certo ponto, chocantes - a mente de Sartre. Cresceu também num solo fértil para tais contestações existenciais - um palco beligerante que encaminhava a Segunda Guerra Mundial (iniciada em 1939, um ano após a publicação da obra). Inegavelmente, a obra traz conceitos revolucionários e dissonantes de qualquer forma filosófica precedente, sendo amada por uns e renegada por outros, sem, todavia, perder sua importância no cenário da filosofia do século XX.
Marcelo Sobrinho Mendonça
náusea...de Sartre
É curioso, mas todas as pessoas que já tinham lido "A Náusea", de Sartre,quando lhes dizia que o ia ler, aconselhavam-me: “toma cuidado, que esse livro vai-te fazer mal”. Entretanto, teimosa e curiosa que sou, não podia crer que um livro fosse capaz, novamente, de levar-me à tristeza e à revolta.
Ledo engano: após mergulhar nas páginas do livro, de facto, constatei que A Náusea é um livro denso, frio, nu. Melancólico. Nebuloso.
Sartre cruelmente nos pega pela mão e convida-nos a viajar no pensamento de Antoine de Roquetin. Se em determinados momentos ele toma a corajosa decisão de soltar um pouco o leitor para que ele caminhe sozinho , em outros, de maior número, chegamos mesmo a perder a nossa personalidade, tornando-nos, simplesmente, Roquentin.
Sartre relata a angústia não sem fazer com que nós, leitores, nos sintamos também amargurados.
Debate entre existencialismo (Antoine de Roquentin, o niilista, misantropo, pessimista) e o humanismo (personificado no Autodidata, um entuasiasta da Humanidade).
Mas não só: o interesse maior, aqui, é nos pormenores do ser humano urbano, a percepção frente à realidade, no vazio da existência em si.
Menos como Romance, mais como Filosofia em prosa, achei a obra estupenda.
A Náusea
"Algo me aconteceu, não posso continuar duvidando.
Veio como uma doença, não como uma certeza ordinária nem como uma evidência.
Instalou- se pouco a pouco, eu me senti estranho, algo incomodado, nada mais (…).
E agora cresce."
in,“A náusea”, p. 17
Jean- Paul Sartre ( Paris, 21/06/1905 – Paris, 15/ 04/ 1980) existencialista e marxista- humanista (correntes de pensamento que também sou simpatizante) marido da filósofa Simone de Beauvoir.
Não sabemos se Sartre escreveu “A náusea” sob o efeito de algum alucinogéno, mas o facto é que o livro é impressionante. Impressiona por causa das perfeitas descrições do personagem Antoine Roquentin passando mal, são vertiginosas. Roquentin, um escritor de 30 anos, depois de viajar muito pelo mundo, decide morar na cidade (imaginária) de Bouville, de repente começa a sentir- se estranho e começa a agir, a mudar de hábitos e pensamentos por causa do que sente. Vê as pessoas deformadas, tem vertigens, a sua percepção da realidade e das pessoas muda. É um homem solitário, seus únicos interlocutores são Anny, sua ex- namorada, uma zeladora com a qual mantém relações sexuais e o Autodidata, que é um personagem sem nome próprio, mas sabemos que é um leitor ávido, ele lê pela ordem alfabética dos autores na biblioteca da cidade; homossexual e pederasta; Roquentin o vê-o a tocar meninos na biblioteca, acabou aí a amizade e o Autodidata foi expulso da biblioteca.
Com os sentimentos à flor- da- pele, Roquentin passa a vivenciar sensações físicas que mudarão o sentido da sua vida. É o Existencialismo de Sartre gritando, pedindo a liberdade do “ser”. O homem só é homem com o seu conjunto de emoções, com as suas idiossincrasias, a vida só tem sentido assim.
Nunca senti como hoje a impressão de carecer de dimensões secretas, de estar limitado no meu corpo, aos pensamentos leves que sobem como bolhas. Construo as minhas recordações com o presente. Em vão trato de alcançar o passado: não posso escapar. (p. 62)
Sartre fala sobre uma verdade curiosa: a vida é menos interessante que a ficção. O dia a dia mata a aventura, além de tudo ser muito parecido, sem novidades. Quando a pessoa vive, não acontece nada. A decoração muda, o povo entra e sai, e isso é tudo. Nunca há começos. Os dias se sucedem aos dias sem tom nem som, numa soma interminável e monótona. Mas ao contar a vida é diferente, tudo muda; (p. 71) Todas as dificuldades dos personagens “parecem ser mais preciosas que as nossas, estão douradas pela luz das paixões futuras.” (p. 72) E pelo fim. Sabemos qual será o fim da história, controlamos o futuro.
“A Náusea”, que primeiro foi chamado de “Melancolia”, foi o primeiro romance filosófico de Sartre, começou a escrevê- lo em 1931 com 26 anos, a versão definitiva saiu em 1938.
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