Mostrar mensagens com a etiqueta Mulheres. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mulheres. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 21 de março de 2022

Niketche — uma história de poligamia

 




Mulher é terra. 
Sem semear, sem regar, nada produz 
(Provérbio zambeziano) 




Niketche — Uma História De Poligamia,  é um livro da escritora moçambicana Paulina Chiziane, publicado em 2002. 
Ele discute o relacionamento polígamo e a submissão feminina na cultura africana. 

O título do livro refere-se a uma dança tradicional, dançada no ritual de iniciação sexual das meninas, praticada no norte de Moçambique. Essas aulas de iniciação, durante as férias da escola, iniciam aos 8 a 10 anos e encerram aos 13 anos.
Uma dança que a escritora própria define como a dança do sol e da lua, dança do vento e da chuva (...) que imobiliza o corpo e faz a alma voar (p.160)  

Conta a história da narradora-personagem Rami, que se une às quatro amantes de seu marido, Tony, para formarem uma grande família. Desse modo, elas aceitam dividir o amor do mesmo homem.

Rami, casada há vinte anos com Tony, um alto funcionário da polícia, de quem tem 4 filhos, descobre que o partilha com várias mulheres, com as quais ele constituiu outras famílias, com um total de 16 filhos. O seu casamento, de «papel passado» e aliança no dedo, resume-se afinal a um irónico drama de que ela é apenas uma das personagens. 
Numa procura febril, Rami obriga-se a conhecer «as outras». 
O seu marido é um polígamo! 
Na via dolorosa que então começa, séculos de tradição e de costumes, a crueldade da vida e as diferenças abissais de cultura entre o norte e o sul da terra que é sua, esmagam-na. 
E só a sabedoria infinita que o sofrimento provoca lhe vai apontando o rumo num labirinto de emoções, de revelações, de contradições e perigosas ambiguidades. 
Por várias vezes, a Rami se olha ao espelho e mantém diálogos consigo própria, num processo de autodescoberta e evolução pessoal.


  1. Poligamia e monogamia, que significado assumem? 
  2. Cultura, institucionalização, hipocrisia, comodismo, convenção ou a condição natural de se ser humano, no quadro da inteligência e dos afetos? 

Paulina Chiziane estende-nos o fio de Ariadne e guia-nos com o desassombro, a perícia e a verdade de quem conhece o direito e o avesso da aventura de viver a vida. 

 "Niketche", dança de amor e erotismo, é um espelho em que nos vemos e revemos, mas no qual, seguramente, só alguns de nós admitirão refletir-se.
  
O livro é marcado pelo fluxo de consciência da personagem Rami, que analisa seu lugar de mulher na sociedade moçambicana do período pós-guerra civil, após o ano de 1992. 

Depois da Guerra da Independência, entre 1964 e 1975, houve a Guerra Civil entre 1977 e 1992, e após assinarem o Acordo Geral de Paz, em 1992, a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) continuou sendo uma força política de oposição ao governo da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). Apesar do cessar-fogo, os conflitos entre os integrantes desses dois partidos continuaram, de forma a ameaçar a paz. 
Portanto, é nesse contexto de instabilidade política e social que a narrativa Niketche — uma história de poligamia se desenvolve. 
Como outras obras do período pós-independência, este livro busca valorizar a diversidade cultural, de forma a mostrar que ela deve ser usada não para separar, mas para fomentar a união do país. 
      
As mulheres de Tony são de localidades moçambicanas como Matutuíne, Zambézia, Nampula e Cabo Delgado, mas a ação principal acontece no sul de Moçambique, na cidade de Maputo.
As mulheres protagonistas representam a pluralidade cultural das identidades geográficas de Moçambique enquanto que, o único protagonista masculino, Tony, representa a Nação na sua totalidade.

A diferença de tratamento entre as mulheres do Norte e as do Sul é neste livro descrita como o oposto uma da outra. As do Norte são partilhadas, e as do Sul são tratadas como gado e submetidas ao Lobolo, tradição polígama de tribos do Sul.
Lobolo, ou dote, é um pagamento feito pelo homem, à família da mulher, ao se casar. Mas, este casamento é apenas tradição e cultura, não tem vínculo legal. Apenas dá responsabilidades ao marido em relação à esposa e aos filhos. Ou seja, o homem tem de lobolar a mulher, que nada mais é do que cuidar e financiar tudo o que diga respeito à mulher e aos filhos.
Quando as mulheres ficam viúvas, elas ficam sem nada, a família do marido fica com tudo, rapam-lhes a cabeça, e é realizado o ritual Kutchinga, que é uma cerimónia de purificação sexual, em que são obrigadas a fazer sexo com o irmão mais velho do marido defunto e passam a ser sua propriedade.

A Rami era casada com o Tony, legalmente, e era lobolada pelo Tony.
As outras quatro, eram amantes em segredo, e não tinham direito a nada.
Por exigência da Rami, elas passaram a ser loboladas pelo Tony, ou seja, passaram a ter direito a serem cuidadas e financiadas pelo Tony, e os seus filhos passaram a ser reconhecidos como descendentes do Tony, mas não legalmente, apenas na tradição tribal.

No Norte a Poligamia é aceite e natural, e no Sul é praticada em segredo, devido à influência da religião católica do colonizador português, e também para não assumir responsabilidades, paternais e financeiras, com as outras mulheres.


"Em algumas regiões do norte de Moçambique, o amor é feito de partilhas. Partilha-se mulher com o amigo, com o visitante nobre, com o irmão de circuncisão. Esposa é água que se serve ao caminhante, ao visitante. A relação de amor é uma pegada na areia do mar que as ondas apagam. Mas deixa marcas. Uma só família pode ser um mosaico de cores e raças de acordo com o tipo de visitas que a família tem, porque mulher é fertilidade. É por isso que em muitas regiões os filhos recebem o apelido da mãe. Na reprodução humana, só a mãe é certa. No sul, a situação é bem outra. Só se entrega a mulher ao irmão de sangue ou de circuncisão quando o homem é estéril."

 

O romance tem uma clara mensagem para todas as mulheres serem "mais amigas , mais solidárias" para se unirem numa só força e lutar uma batalha comum de independência e de amor justo e leal. 
No entanto a autora que fala através da voz de Rami, declara abertamente ser contra a poligamia. 

As mulheres unidas nunca podem ser vencidas. 
A união que as mulheres representam no livro é a união nacional. 
Cada mulher tem a sua origem numa diferente área geográfica do país. 
As diferenças entre norte e sul estão expressadas ao longo das páginas com um certo tom de rivalidade sobretudo em relação ao homem nação. 


"O coração do meu Tony é uma constelação de cinco pontos. Um pentágono. Eu, Rami, sou a primeira dama, a rainha mãe. Depois vem a Julieta, a enganada, ocupando o posto de segunda dama. Segue-se a Luísa, a desejada, no lugar de terceira dama. A Saly a apetecida, é a quarta. Finalmente a Mauá Sualé, a amada, a caçulinha, recém-adquirida. O nosso lar é um polígono de seis pontos. É polígamo. Um hexágono amoroso."



A solução apresentada no final do livro é uma alternativa feminista ao sistema nacional de tipo patriarcal, em que as mulheres se libertam das tradições, se tornam financeiramente independentes dos homens, e têm a liberdade de escolher como querem viver as suas vidas e, com quem.

                 




quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Enquanto mulheres, participamos ativa e passivamente no patriarcado





Ao tentar perceber como, enquanto mulheres, participamos ativa e passivamente no patriarcado e em como poderíamos recusar essa participação, facilmente ficamos bloqueadas com um sentimento de "não há saída". 

Na verdade, a nossa participação acontece de várias formas e primeiro precisamos de ser capazes de passar pelo processo de nomeação dessas formas de colaboração para podermos depois começar a pensar em e vislumbrar maneiras REAIS de nos libertarmos.

Esta manhã, eu, Shekhina, fiz um brainstorming com o objetivo de nomear algumas das formas como participamos ativa e passivamente e algumas das maneiras pelas quais estamos literalmente aprisionados/escravizados pelo patriarcado.




A lista é, naturalmente, incompleta, então sinta-se livre para adicionar a sua própria nomeação e/ou discutir esta lista:


  • Nós mulheres estamos presas no sistema patriarcal por termos de ganhar a vida fazendo trabalhos que sustentam direta ou indiretamente o paradigma patriarcal do poder sobre a Vida e sobre as mulheres e outros seres humanos que podem literalmente envolver a destruição da Terra;
  • por termos de utilizar máquinas (por exemplo, automóveis) ou tecnologias que destroem vidas;
  • sermos forçadas pela própria situação económica a comprar produtos produzidos por crianças e/ou mulheres e homens mal remuneradas/os e/ou implicar destruição da Terra (tais como alimentos cultivados com pesticidas);
  • termos que entrar em espaços públicos sob a ameaça perpétua, mas muitas vezes não reconhecida, de estupradores, assaltantes sexuais ou homens violentos (esta é a situação de todas as mulheres em todo o mundo a cada momento, dia e noite);
  • estarmos num relacionamento com um parceiro abusivo que por algum motivo não podemos deixar;
  • sermos forçadas a aceitar religiões e ideias, sistemas, práticas e políticas/sociais/ económicas e culturais destrutivas;
  • termos que aceitar que as nossas crianças sejam educadas em escolas e sistemas educativos patriarcais;



2. Nós, mulheres, participamos ativa e voluntariamente no patriarcado, ou pelo menos conscientemente, vivendo padrões de mestre/perpetrador/opressor: 


  • comprando de forma voluntária máquinas, tecnologias, objetos, alimentos, roupas, lazer, entretenimento, produtos que são gratuitamente produzidos por crianças e/ou mulheres e homens e/ou produtos que envolvem destruição da Terra e/ou outras formas de vida;
  • sendo líderes políticas em partidos com outras agendas diferentes de abordar e expor o patriarcado em cada palavra e ação e libertar a humanidade e a Terra desse tipo de sistema;
  • Voluntariamente tendo empregos que sustentam a destruição patriarcal e o paradigma do poder sobre a vida e sobre as mulheres e outros seres humanos;
  • unindo-nos voluntariamente aos movimentos religiosos (tradicionais e da Nova Era) que não têm como objetivo principal libertar e curar a humanidade e a Terra do patriarcado;
  • utilizando textos científicos, religiosos, espirituais, filosóficos, educacionais e ideológicos que não abordem e exponham explicitamente a negatividade da autoridade patriarcal;
  • aceitando de bom grado que as nossas crianças recebam brinquedos de guerra, joguem jogos destrutivos e participem em desportos competitivos e que as nossas filhas recebam bonecas que parecem objetos sexuais;
  • aceitando de bom grado que as nossas crianças e adolescentes passem o dia no computador, em frente da televisão ou ouvindo música;
  • entoando com entusiasmo ideias masculinas sobre "o masculino e o feminino" (especialmente a ideia de que o feminino é emocional, irracional, intuitivo, recetivo e o masculino é lógico, racional, factual e ativo);
  • competindo com e degradando outras mulheres;
  • silenciando as mulheres que falam contra a violência masculina, os abusos sexuais, as violações e as guerras, a violência contra a Terra e contra outras formas de vida;
  • participando voluntariamente/vivendo a sexualidade pornográfica;




3. Nós mulheres participamos do patriarcado passivamente, aceitando viver com parceiros íntimos que não estão ativamente empenhados em libertar a humanidade e a Terra do patriarcado;


  • não falando contra a violência masculina, o abuso sexual, o estupro, as guerras e a violência contra a Terra e outras formas de vida;
  • não abordando explicitamente e expondo o paradigma patriarcal do poder sobre a vida e as mulheres como a raiz de todo o mal;
  • não designando explicitamente o patriarcado como a raiz da maior parte do sofrimento no mundo;
  • temendo a rejeição emocional e a agressão do parceiro se nos recusarmos a ter relações sexuais por um longo período enquanto ainda desejamos o contacto emocional e/ou sensual (esta é a situação de muitas mulheres também em relações íntimas que são "amorosas" e baseadas na igualdade);
  • não nos juntando a outras mulheres para libertar e curar a humanidade e a Terra do patriarcado;
  • não questionando o patriarcado;
  • tácita ou abertamente sentindo e pensando que não é possível mudar nada;
  • confiando que a mudança virá e que nos estamos a mover para algo de bom sem fazermos seja o que for para que isso aconteça;
  • acreditando que mudando-nos a nós mesmas mudamos o patriarcado;
  • confiando que seja como for o bem ganhará;
  • acreditando que o sistema não pode ser tão mau quanto nós pensamos que é;
  • sentindo-nos intelectualmente inferiores aos homens;
  • não nos sentindo fisicamente bonitas e/ou suficientemente boas em geral.



Bem, esta foi a minha lista desta manhã.
De que foi que me esqueci ou, em que estou errada?



Shekhina Weaver



sexta-feira, 2 de julho de 2021

Força, Autenticidade e Poder de uma Mulher

Natalia Drepina



 

Força, autenticidade e poder de uma mulher não estão nas suas roupas, fotos, caras e bocas;
Sua beleza e sensualidade não se resumem a um traje da moda, em quantos homens seduzem, nem por generosos decotes...

O poder de uma mulher vem de dentro, a química está no seu olhar; e a magia que seduz, atrai e encanta está na simples forma de ser ela mesma na mais profunda verdade de seu ser.



Carolina Salcides




 

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

A Mulher não é a Eva






A mulher afirma-se pela fala, tem uma capacidade de verbalização característica, tanto pela positiva, como pela negativa. Como o homem sabe disso, manda-a calar. O falar parece ser, às vezes, uma substituição do pensar, mas não: trata-se da expressão de um pensamento.
Há um pensar que leva a agir, um pensar que leva a falar, um pensar que leva ...ao silêncio. Esse é o pensar profundo que se transforma em acto e obra.
A tagarelice é o pensar que não assentou.

A tradição obrigou a mulher a ficar dentro de uma caixa de vidro na qual era visível, mas não audível. Então ela falou desesperadamente, mas sem qualquer efeito. Quando partiu essa prisão de vidro, a sua voz transformou-se num acto revolucionário
A mulher moderna é o efeito dessa explosão, da saída da clausura que é a casa, a família, a beleza obrigatória. 
Quando toma a palavra, rompe essa teia que a envolvia numa rede de silêncio e de idealização.
A mulher não é a Eva, representativa da origem do mal da humanidade, nem a figura platónica que o petrarquismo elevou a ídolo.


ANA HATHERLY





segunda-feira, 8 de junho de 2020

Quando as mulheres rompem






Este mês a energia está especialmente intensa…é um mês de Eclipses…três seguidos.
Portais que se abrem para fazer uma viagem ao Passado e ao Futuro.
E como o primeiro foi um Eclipse Lunar, no dia 5 de Junho, a viagem começa por ir ao Passado.
As emoções já começaram aqui a pipocar uns dias antes.
E levaram-me até um livro que li, em 2004, um ano depois de me divorciar.
“Quando As Mulheres Rompem”, da escritora francesa Isabelle Yhuel.
Em 2003, com o meu divorcio no início do ano, tive a minha Primeira Noite Negra de Alma.
E este livro foi fundamental para me ajudar a processar a experiência.
Aprendi que é necessário aceitar morrer, para poder renascer.

Tornei-me numa mulher que rompe, que se divorcia, que parte.
Que vira as costas ao ninho que construiu.
Que abandona hábitos confortáveis e segurança, e se lança num futuro desconhecido.
Que perde bons níveis de vida, protecções, e se sujeita ao inimaginável.
  • E apesar disto tudo, o que me impulsiona?
  • Em nome de que exigência actuo?
  • Qual é a minha busca?
  • Porque é que vem um dia em que passo à acção e mando a vida passear?
  • Onde é que isto me leva?

Questionar-me desta forma é interrogar a minha consciência, é pensar que tenho uma intuição precisa das minhas condições, dos meus actos, que se pode explicar a mim mesma.
É também ter consciência de que os meus actos adultos de ruptura estão inevitavelmente ligados ás minhas primeiras rupturas de infância.
E é quando surge mais uma grande questão:
  • Nas minhas rupturas amorosas com os homens, o que é que se insinua proveniente das minhas primeiras rupturas infantis?
É a redução ao estado primitivo da matéria.
Os meus instintos que visceralmente agem em mim, me guiam.
Talvez estas rupturas ao longo da vida, sejam tempos de pausa, que me oferecem a possibilidade de me desapegar desses instintos primitivos, desses pactos inconscientes que fiz na infância de forma a poder sobreviver, mas que tanto me prejudicam ao longo da minha vida adulta.
E é quando descubro que essa é a Verdadeira Liberdade!
O Libertar-me desses pactos inconscientes que fiz na infância, o libertar-me de rupturas passadas e presentes, para poder atingir a Plenitude de Ser: um lugar onde as rupturas não são mais necessárias, onde não haja mais necessidade de abandonar, de conquistar, de competir, de querer, de explicar…

No meu divorcio, a ruptura foi um flirt com a guerra.
A guerra com o que era o marido, e também uma guerra comigo própria.
Para largar e deixar ir, foi preciso, a certo momento, detestá-lo, apenas ver os seus defeitos, as suas falhas…quase que fiz dele um inimigo. Calei em mim a parte terna, a que ainda estava tão ligada àquele homem que amei, mas que tinha de abandonar.
Foi preciso matá-lo, e matar-me um pouco a mim também.
E depois, fazer o luto.

Depois de uma ruptura, devido à sua violência, a tendência é recalcar o passado, não pensar mais nele, e esquecê-lo, apaga-lo da nossa vida…ou tentar, pelo menos. Mas isto é o contrário de fazer o luto.
E o luto tem de ser feito, para podermos seguir em frente.
Para nos libertarmos desse passado, temos de lá regressar.
O trabalho do luto é indispensável para prosseguir a vida de forma fecunda; é um trabalho de processamento e enriquecimento. Ao fazermos o luto, estamos a integrar o ex e a situação que já não existe mais para nós. O luto é o trabalho que nos permite trazer à Luz, uma a uma, cada uma das lembranças ligadas a esse ex que desapareceu da nossa vida, o que nos permite depois separarmo-nos dele pacificamente, voltarmos ao nosso centro, organizar a nossa vida a viver sozinhas, e a sentir de novo prazer e interesse. O ex perdura no nosso interior, não é excluído, mas deixa de nos provocar dor, sofrimento e mal-estar. A ligação é cortada, mas sem excluir o outro. A relação passada é vivida como um capítulo fechado da nossa história, que nos enriqueceu, que nos trouxe lições preciosas para o nosso crescimento e evolução como Seres Humanos, mas passa a ser vista e sentida como uma etapa, um pedaço de vida num caminho interior.
Simultaneamente, dou início à ruptura, abandono, quebro, despedaço, parto e…ao mesmo tempo, sinto-me guiada por um instinto poderoso.
  • Qual o EU que, no meu interior, me conduz ao rompimento?
Sempre que as rupturas acontecem, ressurgem as questões da minha infância.
E tentar compreender tudo isto é tirar pleno proveito desses momentos para morrer, e renascer para uma outra coisa, nova e mais inteira.
As rupturas para mim são como retiros para dentro de mim mesma.
Faço a triagem do que quero guardar, do que quero deitar fora.

Ao observar as mulheres em geral, chego à conclusão que vivemos a ruptura de formas diferentes:
  1. Há as que abandonam para não serem abandonadas.
  2. Há as que partem para fugir de um homem, de um modo de vida que já não suportam. Acreditam que o seu casamento foi um erro, um malogro, um longo sofrimento, sentem que não têm escolha, e para sobreviver, para conservar a sua integridade psíquica, viram as costas ao passado, por vezes sem fechar totalmente a porta.
  3. Há as que trocam um homem por outro. Ainda não fecharam a porta da antiga casa, e já constroem um lar noutro lugar.
  4. E há as que deixam um homem como consequência de um lento desamor, sem uma visão particularmente negativa do que partilharam com ele. Simplesmente chegou a hora de fechar o ciclo e iniciar um outro noutro lugar. Elas querem instalar-se sozinhas, conquistar uma Liberdade, correndo o risco de tratar por tu a solidão. É uma ruptura que não fica instalada nos choros e lamentos, mas que se torna numa experiência verdadeiramente enriquecedora, abrindo novos horizontes, e mergulhando de forma profunda no seu Verdadeiro Ser. Elas não se contentam com um presente protector, confortável e familiar. Elas não estão satisfeitas, sentem a amargura a surgir, e por isso partem em busca de uma vida que seja um itinerário, uma procura, uma descoberta. Elas têm fome de sentido, de propósito, que lhes permite ser o que desejam ser.

Em todas as rupturas, numas mais do que outras, uma hora depois de tomar a decisão torço-me de dor, tenho medo, mas vou em frente porque quero saber o que surgirá dentro de mim, quero saber que lado meu ainda me é desconhecido.
No passado, reclamei a protecção dos homens para atravessar a vida.
Era uma armadilha mas, nenhum de nós o sabia.
Hoje, tento libertar-me dela.
Não vivo mais dependente do olhar de um homem.
Não amo mais de forma infantil, com uma necessidade de ser amada para preencher um vazio interno que vinha da minha infância reprimida. Fiz-me escrava de um marido, e prisioneira de uma imagem que ele projectava sobre mim.
Na vida, há renuncias que são necessárias.

Nas rupturas não eram os homens que deixei para trás que me fazia falta.
Eu é que me faltava a mim própria.
Estava ferida, fragmentada, fissurada…com medo que essas minhas fissuras se transformassem em abismos que me levassem à morte.
Rebolei no chão, chorei, gritei, sufoquei, solucei, desesperei, babei…era uma criança ferida.
Lembro-me de ter ido à ilha do Baleal, e na beira do penhasco, açoitada pelo vento e pela chuva, era apenas eu a resistir a que o vento me devorasse, mas sem vontade que me levasse. Ali naquele penhasco, não tive o desejo de morrer – as chapadas da tempestade são demasiadas na vida, a intensidade, mas lembro-me de sentir o meu corpo a retesar-se para aguentar, e amolecer para receber a tormenta sem nela naufragar. 
É a vida que me segura.
Fui para casa, e comecei a criar as minhas regras numa casa sem homem.
E numa casa sem homem, descobri que ainda era uma mulher.
E fiz uma promessa a mim própria: 
“Que eu não duvide mais da minha condição humana, que viva a partir da ruptura, que eu olhe o mundo tal como ele é e não como eu gostaria que fosse”

Pode falar-se de ruptura sem falar de amor?
Para romper, é preciso primeiro ter caído nos braços e no coração de um homem, que ele tenha caído no nosso, é preciso Paixão. Uma queda vertiginosa, mas excitante, como tudo o que é imprevisto na nossa vida. Mas, tudo isto tem pouco a ver com a realidade.
Somos o fruto dos elementos que, desde o nosso nascimento, construíram a nossa vida psíquica: pai, mãe, irmãos, família, escola, acontecimentos exteriores, tudo o que estruturou o nosso consciente e o nosso inconsciente. E esperamos que o estado amoroso venha reparar, preencher, toda as falhas e fissuras, todas as decepções, conscientes e inconscientes, vividas na nossa vida de criança e de adolescente.
Assim, inconscientemente, uma mulher pedirá ao seu marido, ao seu amante, aquilo que a Mãe nunca lhe deu. Um homem procura numa mulher aquilo que nunca conseguiu encontrar no pai. E, sem que saibam, o inconsciente  irá guiá-los nas suas relações amorosas, e passam a procurar companheiros que encaixem nos seus sintomas.
Não é de estranhar que a maior parte das relações acabem em rupturas.
Os amantes julgam-se dois num só, nus, transparentes um para o outro, quando na realidade são uma multidão de “Eus”, conscientes e inconscientes; feridos, frustrados, fragmentados, uma metade à procura da sua outra metade…vivem na expectativa ausente e insana, frente a um Ser igualmente múltiplo e complexo. 
Nestas situações, a ruptura é um momento de extrema lucidez!
A cegueira acaba, os olhos abrem-se.
E nada mais resta, a não ser partir.
Porque, nunca duas metades virão a ser algo inteiro.

Quando somos metade de nós próprias, nós não existimos, nós dissolvemo-nos no outro.
Até aos 36 anos sempre disse que só poderia ser feliz com um grande amor na minha vida.
A minha felicidade dependia de amar e ser amada por um homem.
Que ilusão gigante!
E é nestas alturas que o caos é necessário. Para parar, afrouxar…mais vale conter-se que apressar-se. É preciso saber perder para poder vir a ganhar. Não se pode desejar uma mudança interior, uma metamorfose, sem aceitar pagar o preço. Uma vida não se pode construir evitando constantemente o risco de vir a sofrer.

Até que se aprende que podemos bastar-nos a nós próprias!
E aqui começa outro problema, porque deixa de haver espaço para o outro, para o diferente...para a Complementaridade. Consegue-se sair do Triângulo Dramático, a competição entre duas pessoas para provar quem é o Certo-Bom-Inocente...e passa-se a ser fechado ao diferente de mim, em que eu só me basto. Assim, não há polaridade, e por consequência não há evolução e crescimento, mas sim Estagnação.

Agora sei que é preciso emprestar-se aos outros, e dar-se a si mesma.
Romper é voltar a ser senhora de si mesma, é deixar de ceder-se ao outro porque se perde demasiado de si. Torna-se necessário partir.

Normalmente, a questão do dinheiro e do status social, assim como a dependência emocional e financeira, são as principais razões que fazem as mulheres ficar em casamentos mortos. São mulheres que investem demasiado afectivamente no conforto que dá o dinheiro, criam apegos fortíssimos com a vida financeira que conquistaram juntos, e por isso ficam seja lá em que condições for. Para uma mulher decidir romper e partir, ela tem de ser capaz de  aceitar o empobrecimento na sua vida após a ruptura. A sociedade favorece a todos os níveis o casamento e a família, enquanto estruturas que garantem uma estabilidade económica e social. É por isso que as pessoas se casam, para terem garantias.

Foi terrivelmente doloroso compreender que entre os meus sonhos e a minha realidade existia um abismo imenso. Encarei os factos: casamento, maternidade, aborto, divórcio, ruptura com a minha mãe e família, perda de amigos. Foi um duro período ascético, de que hoje me recordo com satisfação, pois ensinou-me a viver sozinha e o que significava ser fiel a mim mesma.
E foi quando comecei a fazer as perguntas certas a mim própria:
  • Quem sou eu? 
  • O que é o amor? 
  • Algum dia amei de verdade alguém?

Esta história da ruptura  é quase uma declaração de amor.
Se amamos alguém, amamo-lo tal como é. Não o queremos influenciar, porque se o conseguíssemos, já não seria ele. É melhor renunciar ao Ser que amamos do que modifica-lo, lastimando-o ou dominando-o.
Estamos presas na grande corrente da vida, na lenta maturação que nos faz mudar, evoluir, transformar, ou seja, viver a nossa presença de modo diferente do passado. Nós rompemos também por isso, porque nos sentimos prisioneiras, porque constatamos que será impossível com o companheiro com que estamos, crescer e evoluir o que precisamos, modificar o nosso presente, conduzir-nos a esse estado em que nós próprias ficaríamos surpreendidas. As mulheres abandonam o homem que se torna um obstáculo entre elas e a vida, que as impede de se esquecerem do que aprenderam para dar lugar às outras que elas são sem o saber. A ruptura seria então a emergência violenta do nosso outro Eu desconhecido, da outra lógica em nós,  a nossa estranheza, a nossa heterogeneidade, os critérios que nos habitam debaixo da superfície uniformizada. É a ruptura como uma chamada à ordem para os que esqueceram a existência em si dos seus diferentes EUS e da necessária tensão que os organiza.

Por um lado temos a necessidade da busca de si mesmo.
Mas por outro, também temos a necessidade da busca do outro, do amor e da sexualidade.
E esta problemática diz respeito a todo o Ser Humano.
Mas, de forma mais acentuada nas mulheres.
No início da sua vida adulta, mais do que os rapazes, as raparigas podem ter a impressão de que se vão realizar encontrando o outro, e esta ideia está nelas ligada não ao seu lado feminino, mas ao lado maternal. Elas pensam encontrar-se ao criar um bebé, o que se revela um erro de objectivo, imaturidade e amor infantil. Outras mulheres pensam realizar-se através do sucesso profissional do homem com quem casaram e que fazem a carreira do marido em busca de um status social do casal. 
Mas, não será isto renunciar a todo o ideal pessoal movidas por um sentimento de inferioridade? 
Como elas não têm confiança no seu próprio futuro, sentem-se satisfeitas quando conseguem o sucesso da carreira dos maridos. São casais virados para o exterior, sem grande interesse pela vida psíquica. 
Felizmente, as mulheres de hoje já começam a ser mais conscientes de si mesmas, e deixam um homem por o sentirem como um travão ao seu desenvolvimento e evolução.
Começam a tomar a responsabilidade do seu próprio destino, com coragem e determinação.

A ruptura é o testemunho da força da mulher, da diversidade dos seus investimentos: feminino, maternal e profissional. E quando percebem que, não podem, por causa de um homem, seguir simultaneamente  os diferentes investimentos que escolheram, rompem e vão embora.
Estes diferentes investimentos que coabitam dentro de uma mulher, faz-nos pensar em Humanismo, visto que os humanistas achavam fundamental interessar-se ao mesmo tempo por diferentes domínios, as ciências, a poesia, a literatura, a música, etc.
As mulheres, pelo seu ecletismo, são humanistas em potência.

E se nós, mulheres, mudássemos algum tempo para o outro lado, para o lado deles?
Desde muito cedo que sempre coloquei os homens frente a nós, como se eles fossem entidades fixas e invariáveis; enquanto nós, as mulheres, éramos as personalidades mutantes, mutáveis. 
Nós temos o poder de mudar, despojando-nos indefinidamente de uma pele, de outra, e de outra, na busca para atingir este âmago que nos revelaria mais de nós próprias; âmago que nunca atingiremos, mas que nos leva a essa busca que faz com que as nossas vidas sejam mais exigentes, desanimadas, desiludidas, tensas, violentas, vencidas e depois, de novo, frescas, leves, serenas, saborosas, animadas.
Mas os homens, felizmente para nós, não são essas estátuas inertes que eu pensava quando os etiquetava como “eles, os homens”. Quando um homem parte e se encontra só, na sua própria companhia, o que é feito da sua busca? São poucos, bichos em extinção infelizmente, pertencem a uma espécie raríssima. 

A maioria dos homens não abandona o lar da família; ele ajusta-se à clássica relação triangular: o homem, a mulher e a amante. E se saírem, é para se instalarem com outra mulher. Apenas alguns, muito poucos, de constituição marginal, partem voluntariamente, e voluntariamente se instalam sós por tempo indeterminado. 
Existe a eterna injustiça que caracteriza os homens como sedutores contínuos dos vinte aos setenta. Além disso, quando decidem instalar-se sozinhos aos cinquenta ou sessenta, mantêm a confiança das suas rugas de sedução, para encontrarem, quando desejarem, uma nova companheira com quem irão partilhar a sua vida. Já no caso das mulheres, no mesmo nível etário,  “perdem valor no mercado”… 
Para além disto, os homens preocupam-se pouco com as perturbações que uma ruptura  provoca na sua vida material, achando mesmo que pode melhorar visto que deixam de ter despesas altíssimas com viagens a dois, presentes, jantares em restaurantes de luxo e outras despesas generosas para embelezar as suas companheiras.
Contudo, ao contrário das mulheres que partem para se abrirem ao desconhecido, os homens não vêm a mulher como um obstáculo à sua maturação. Pelo contrário, a vida em casal proporciona-lhe facilidades para mergulhar ainda mais nos seus interesses, sem se preocupar com questões do quotidiano para gerir, visto que a mulher ocupa-se de tudo isso. 
Também um homem raramente se isola longe das mulheres. Não sente necessidade nenhuma disso, antes pelo contrário. Quando um homem vive só, rapidamente arranja aventuras, o que lhe é vital para manter uma relação saudável com a sua virilidade. Além disso, no geral, os homens fazem sexo de igual forma, quer estejam apaixonados ou não. A diferença está apenas no acordar – quando estão apaixonados sentem prazer em acordar ao lado da pessoa amada, e quando não estão apaixonados, evitam acordar com a mulher com quem tiveram sexo.
Quando um homem decide viver sozinho, não tem como objectivo  obrigar-se a uma disciplina para se elevar e evoluir; o celibato marca um período transitório que conclui uma história de amor qualificada como falhada, antes que apareça a mulher tão esperada, a que será a definitiva, a Única, a mulher da sua vida junto da qual não lamentarão o seu estado de celibatário, aquela junto da qual se sentirão livres e apaixonados…tanta ilusão!
E enquanto esperam, levam uma vida de solteiros que lhes faz recordar a sua vida de estudantes.

É preciso audácia para desenvolver a personalidade ao preço de conflitos com os outros e consigo própria, pois mudar a sua vida é também correr o risco de descobrir de seguida que as suas novas escolhas, também elas, serão apenas temporárias, não porque foram um erro, mas porque correspondem apenas a uma etapa, que nos conduzirá à etapa seguinte. Portanto, mudar implica que se aceite a noção de precariedade, quando se queria pensar que finalmente se encontrou a vida certa. Mas, enquanto permanecer confinada num casulo artificial, que sabemos já não nos alimentar, será isso a própria negação de toda a evolução psíquica?

Quando as mulheres rompem, elas procuram aquela terra desconhecida em que cada uma chegará à sua própria identidade. Elas não estão certas da sua existência, mas vale a pena tentar. 
  • Mas, porque precisam de romper? 
  • Não o poderiam fazer com os homens que amam? 
  • Porque não fazer essa viagem a dois? 
Porque o homem não quer embarcar na viagem com ela. Ele quer ser o navegador, enquanto ela é o porto de abrigo, o repouso do guerreiro, aquela que espera pacientemente o seu regresso.
Os homens têm medo das mulheres que buscam.
Até aqui, na grande maioria dos casos, eram eles que partiam em busca do Graal, em busca do tesouro, eram eles que corriam os riscos, desafiavam a morte. E por isso têm muita dificuldade em aceitar que a mulher queira construir a sua própria embarcação e navegá-la.
Depois, há os homens que nunca foram aventureiros, e que não toleram tal hipótese de risco. Esses não sentem nenhuma vocação para se conhecerem a si mesmos, constroem tranquilamente a sua vida na linha do que fizeram os seus ascendentes. A sua identidade forma-se a partir do grupo: família, escola, comunidade, e posição social. E os interesses do grupo prevalecem sobre qualquer noção de individualidade. 
Mas há mulheres que constroem a sua identidade, não a partir do que vem do exterior, mas do seu interior. Talvez porque, antigamente, no sistema de filiação, elas eram travadas a procurarem a sua própria identidade, e incentivadas a viverem em total dependência de um marido.

As mulheres não partem porque querem mas por obrigação, porque o homem com quem vivem as tenta manter naquilo que são, enquanto elas se querem transformar naquilo que poderão vir a ser. As mulheres vêem-se obrigadas a deixar os homens para serem fiéis a si próprias.

Um dia, homens e mulheres encontrarão uma outra forma de entendimento para que cada um, masculino e feminino, possa aprender ensinando o outro.
Porque, se não for no respeito e no interesse autêntico pelo outro, será absurdo falar de busca de identidade. Sem esquecer o sal da vida: o Amor…

Se as mulheres querem ser mais lúcidas, não se trata de vontade de dominar, elas também sabem ceder à sua impulsividade; se elas se pretendem mais ponderadas, isso é apenas até se inflamarem de novo na paixão; se procuram a meditação, é para se exaltarem de seguida e devolver às coisas e aos seres a sua dose latente de maravilhoso. 



Não se trata de 
viver em oposição ao outro, 
ao homem, 
nem para se tornar alguém definido, 
mas sim para, 
numa aprendizagem infinita, 
nos revelarmos plurais a nós próprias.











domingo, 19 de abril de 2020

NAMORE UMA MULHER QUE LÊ






Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.

Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.

Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criado pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro.

Compre para ela outra xícara de café.

Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gostaria ou gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.

É que ela tem que arriscar, de alguma forma.
Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.

Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.

Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.

Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo.

Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.

Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.

Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.

Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.



Rosemary Urquico





sexta-feira, 8 de março de 2019

Metam as flores no... coração!





Hoje gostaria de falar-vos sobre os homens que neste dia substituem a moca de pregos (literal ou figurada) pelas flores.
Desde o início do ano, morreram 13 mulheres vítimas de violência doméstica, o que significa que, a cada cinco dias, morreu uma mulher às mãos de um agressor.
Há uns tempos, no Público, Rui Tavares fazia um exercício interessante, que vou adaptar: imaginem que tinha surgido uma doença nova, desconhecida, obscura, e a cada cinco dias, um português morria dessa doença. O país estaria em polvorosa. Ninguém falaria de outra coisa. Ninguém descansaria enquanto não fosse encontrada uma forma de combater e debelar a epidemia.

Acontece que a violência doméstica não é uma doença nova. É certo que com juizes machistas, violentos e retrógrados, a situação, em vez de evoluir positivamente, tem tendência a regredir.
Mas importa sobretudo olhar para a base do problema. Porque mais do que resolvê-lo com medidas repressivas e punitivas (o que também é fundamental), é preciso evitar que esta violência aconteça. O Dalai Lama diz que a violência não é um sinal de força, mas de desespero e de fraqueza.

Importa perceber o que se passa na cabeça destes homens. Como foram educados e que tipo de educação estamos a dar às nossas crianças? Como foram formados emocionalmente? Como desenvolveram (ou não) a sua auto-estima e autoconfiança? Qual a sua inteligência emocional? Qual a sua autonomia sentimental? Como surgem os sentimentos de posse e de superioridade?

Que impacto têm as piadas machistas na formação das mentalidades? São só piadas? Temos todos inteligência para “distinguir o trigo do joio” ou “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”? Que aposta na educação emocional fazemos nas nossas crianças? Queremos que elas sejam só bem sucedidas e com carreiras auspiciosas ou queremos, sobretudo, que elas sejam pessoas boas, que desenvolvam empatia pelos outros, que sejam confiantes e carinhosas, que se exprimam através do respeito?

Um homem não chora? Vamos continuar a dizer aos nossos rapazes que um homem não chora? Que um homem que chora é maricas? Que um homem não tem medo? Vamos continuar a contar-lhes anedotas que dizem que o lugar da mulher é na cozinha e depois dizemos-lhes que é só uma piada?

Vamos continuar a ensinar-lhes a fazer considerações contínuas sobre a aparência física das mulheres (que mamas, que cu, que tesão) e a usá-las como troca de galhardetes entre machos como se isso incrementasse os níveis de virilidade ou ensinar-lhes que isso são coisas que devem dizer antes às mulheres deles?
Vamos continuar a aceitar os piropos como brincadeiras inofensivas ou perceber de uma vez por todas o que eles revelam sobre uma sociedade em que, em pouco mais de dois meses, 13 mulheres morreram por culpa dos seus homens?


  • Que inseguranças têm estes homens? 
  • Que receio de perda da virilidade os atormenta? 
  • Que angústias lhes tolhe o espírito? 
  • Que ansiedade lhes pára o pensamento? 
  • Que raiva não aprenderam a controlar? 
  • Que revolta os faz agir barbaramente?


Neste Dia da Mulher, é disto que temos que falar.
Bardamerda para as flores e os jantares e as massagens no spa.
Enquanto continuarem a morrer mulheres às mãos da violência machista, bardarmerda para as comemorações pseudo-fofas que servem para disfarçar os incómodos de uma sociedade machista e patriarcal.

No Dia da Mulher é disto que queremos falar. Enfiem as flores no... coração.



Barbara Baldaia





domingo, 30 de dezembro de 2018

A Profecia da Curandeira





Escolhi um livro muito especial para começar a ler na Noite de Ceia.
Adoro começar a ler um livro místico nessa noite, e ficar a ler até tarde.
“A Profecia da Curandeira” do escritor peruano Hernán Huarache Mamani. 
Todas as mulheres deviam ler este livro.
O título original é “El Poder de la Mujer”.

Tem ensinamentos preciosos, passados por mulheres sábias peruanas, da comunidade de Ipana nos Andes Peruanos.
Verdadeiras Mestras Andinas!
Que ensinam que a Vida é uma Escola onde é necessário aprender a amar e a servir o próximo!

A Mama Qoyllurchiy diz que no passado, a mulher andina desempenhou um papel muito importante ao participar activamente na constituição de uma nova sociedade: o Tawantisuyo, a sociedade perfeita, o governo das quatro regiões ou o fabuloso Império do Ouro e da Prata dos Incas, como é conhecido pelos historiadores do Ocidente.

Ela fala que havia o Ajillawasi, um Centro Educativo Feminino, que existiu há mais de cinco séculos, e que era uma instituição criada pelas Mamakuna, onde as Mestras ensinavam a Pachamama, uma ciência que instruía sobre a compreensão e o respeito pela natureza.
Foi na base destes ensinamentos que os Incas, também chamados de “Filhos do Sol” foram instruídos. Foram eles que difundiram a Luz da Espiritualidade pelos Andes até à chegada dos Espanhóis.

Nos dias de hoje, existem muitas mudanças no mundo devido ao uso irresponsável da ciência e das tecnologias. A Terra vive uma autêntica catástrofe ecológica.
Pouco a pouco, muitas mulheres vão tomando consciência de que o nosso planeta corre um grande perigo, e instintivamente, estão a recuperar a Força e a Energia para encontrarem um caminho diferente, mais benéfico para o planeta, e voltarem a ter nas mãos as rédeas da Humanidade, que lhes foram temporariamente tiradas com o Sistema Patriarcal.
A mulher não tem ainda consciência do papel que irá desempenhar no futuro, assim como não está ainda consciente das imensas capacidades que possui e das quais entretanto se esqueceu.

Este livro é importante para mostrar o Caminho de Iniciação Andina que as mulheres sábias do povo Inca seguiram, mantendo em segredo os Conhecimentos Sagrados da Pachamama.
Mostra o que a mulher é capaz de fazer para reconquistar o papel que a Natureza lhe atribuiu. No longo trajeto de aprendizagem, é possível encontrar em nós próprias a força de vontade, a coragem, o conhecimento, e a energia necessárias para mudar o curso da história individual, fazendo de cada dor, de cada solidão, de cada tristeza, um mundo de alegria, de amizade e de plenitude.
Mostra também que, para favorecer o nascimento de uma nova relação, baseada na colaboração entre homem e mulher, é necessário destruir a prisão que alguns homens criaram com a finalidade de submeter a mulher.

A protagonista da história chama-se Kantu, uma jovem andina lindíssima. Pouco ou nada sabia dos seus ancestrais incas e tinha um estilo de vida moderno na grande cidade de Cuzco que a envolvia totalmente. Um dia, tudo se altera, quando no meio de uma violenta tempestade é atingida por um raio, o que a despertou para uma nova realidade. Inicia uma peregrinação mística pela antiga sabedoria xamânica da tradição espiritual inca, desafiando os seus próprios limites. Encontra-se com sábias curandeiras das montanhas, e nasce uma Kantu com uma nova Luz Interior, uma força poderosíssima que ignorava possuir e que lhe abre horizontes inesperados. Ao conhecer-se a si mesma, e às Forças subtis que governam a Criação, Kantu torna-se Senhora da sua Vida e descobre que o amor é a mais poderosa energia do Universo.
É uma história misteriosa e mágica, que faz despertar o Espírito Feminino neste Ciclo Cósmico, que será o início de uma época de Paz e Harmonia no Mundo.

O livro tem 267páginas para ler e reler devagar, divididas em 16 capítulos e um Epílogo:


  1. TU TENS O PODER

Fala da tempestade nas montanhas, em Coporaque no Perú, que vitimou Kantu com uma descarga eléctrica de um raio. Estava entorpecida caída no chão, e sentia-se impotente, indefesa e frágil. Os índios, com os chullos (gorro com orelhas) na cabeça e sandálias andinas feitas de câmaras de ar de pneus usados, são um povo sempre atento ao que se passa na comunidade e consideram o seu povo como uma família. Povo sensível ao sofrimento dos outros como se do próprio sofrimento se tratasse. Nas suas casas existe sempre pão, refúgio e bons conselhos para quem queira. E depressa socorreram Kantu, trataram dela, das suas feridas, deram-lhe a beber chás de ervas medicinais, esfregaram-lhe o peito com pomadas feitas com ervas medicinais, tudo feito por curandeiras cheias de força interior e um ânimo forte e indomável.

Segundo a Medicina da Pachamama (Mãe Cósmica, Mãe Natureza), as pessoas atingidas por um raio que sobrevivem estão destinadas a serem curandeiras. Essa Medicina da Pachamama é praticada pelos curandeiros Hampi Kamayok na sociedade Tawantinsuyo (a totalidade do território do Império Inca que se dividia em 4 regiões, e cuja capital era a cidade de Cuzco). Esses curandeiros tinham de possuir dons especiais e uma personalidade forte; curavam os seres humanos, combatiam as pragas e epidemias que atingiam os animais e as plantas. Viviam rodeados de uma aura de mistério e poder. Reuniam-se em congregações onde lhes eram transmitidas as fórmulas secretas, os rituais e as técnicas de cura e pertenciam quase sempre à casta sacerdotal. Tinham um processo de iniciação bastante rígido chamado Wamaq, com jejuns, privações, provas de resistência, exercícios físicos e mentais, para lhes ensinar a superar o medo do desconhecido. A sua alimentação era vegetariana à base de ervas, raízes, fruta e grãos de milho com o objetivo de purificar o corpo e atingir o controlo físico e mental. Eram guiados por um Amauta, um sábio capaz de lhes explicar os mistérios dos fenómenos humanos. Aprendiam a história dos seus antepassados, as lendas, os mitos, as cerimónias, o poder curativo das ervas medicinais, dos amuletos, das massagens, e também a compreender o mundo invisível. Alguns tinham o dom da clarividência, conheciam o Passado, o Presente e o Futuro, ao usarem folhas de coca, grãos de milho, vísceras de leitões e dos lamas; outros entravam em contacto com as forças da natureza e comunicavam com os relâmpagos, com o Sol e com a Lua; outros falavam com os espíritos dos antepassados; e outros comunicavam com os Apukuna, espíritos protetores dos homens que vivem nas montanhas altas. Depois da primeira invasão espanhola do Perú, estes curandeiros Hampi Kamayok quase se extinguiu e os seus conhecimentos perderam-se. Mas, a antiga tradição era transmitida de Pai para filho e os detentores de esta antiga sabedoria reuniam-se em segredo. Daí restou apenas um conhecimento rudimentar definido como Medicina Popular, chamada de Hampi Qhato.

Os curandeiros, parteiras, e adivinhos que usam essa nova medicina ainda hoje exercem conservando esses conhecimentos antigos, como é o caso dos Yatiri que vivem nas margens do Lago Titicaca no sul do Perú, e os Qamile na Bolívia, e percorrem as várias aldeias com os seus remédios, amuletos e ervas medicinais.

Kantu não acreditava em nada disto, levava uma vida ao estilo moderno em Cuzco, que hoje é uma cidade meio andina meio ocidental, a 3ª cidade mais importante do Perú, grande centro turístico e Capital Arqueológica da América do Sul. Na cidade vivem brancos, turistas ocidentais, mestiços e indígenas como a Kantu. Desde pequena que demonstrava muita intuição e sensibilidade para compreender as pessoas mas, não tinha nenhum interesse em cultivar essas faculdades e preferia dedicar-se à universidade.
Depois do acidente, aconteceram-lhe coisas muito estranhas: começou a ter visões do que estava para acontecer a outras pessoas, teve uma crise nervosa severa durante vários meses acamada que a medicina tradicional não curou. Foi quando a mãe a levou a Anselmo, o curandeiro da sua aldeia Coporaque, contra a sua vontade após muita insistência.
Anselmo usava as folhas de coca para diagnosticar o que se passava com Kantu.
Há milénios que os Quechua usam as folhas de coca para conhecer o passado, presente e futuro, para ler a mente do ser humano e para diagnosticar doenças físicas e espirituais, visto que a coca não é apenas um alimento e um remédio, mas é sobretudo uma substância que possui poderes mágicos, graças aos quais é possível entrar em contacto com o mundo dos espíritos. E foi quando lhe fez o diagnóstico.
“ As pessoas pensam que és louca porque começaste a ler o futuro. Tu podes ver o amanhã, podes predizer coisas bastante desagradáveis e isso irrita os outros. Aquilo que te provoca o mal-estar é a visão do futuro. A tua saúde está perfeita, o teu corpo está bem, mas aquilo que a tua alma consegue ver insinua-se na matéria do teu corpo e é isso que te está a provocar problemas. Possuis o Dom da Profecia! Podes vir a ser uma grande vidente! No teu caso, despertaram os poderes de que és dotada e que não sabes como controlar. Com a prática poderás desenvolvê-los e a controlá-los, recorrendo a eles apenas quando precisares”. 

Kantu não queria esse Dom, queria ser uma pessoa normal, e ter uma vida como antes.
Anselmo disse-lhe:
“Mas porque queres ser normal? Este é um dom que muito poucos possuem. Algumas mulheres, quando o desejam muito, podem adquirir essa capacidade com o tempo, mas são poucas aquelas que nascem com esta energia e este poder. A Mãe Natureza foi generosa contigo. Se quiseres posso ajudar-te a desenvolver este dom, mas se não quiseres posso restituir ao teu corpo o que chamas de normalidade, e anular este poder”
Kantu suplicou para que ele anulasse o poder da profecia e ele disse-lhe:
” A natureza ofereceu-te um dom, e tu, em vez de agradeceres e de aprenderes a utilizá-lo, preferes deitá-lo fora. No fundo, é sempre assim: por vezes, este dom é concedido a quem menos o deseja. Tu não sabes o poder que tens, e desconheces que o podes utilizar para ajudar os outros”. 

Os famosos Alto Misayoq, atualmente a hierarquia mais elevada dos médicos-sacerdotes no sul do Perú, chamam Paqos a estas pessoas que depois de serem atingidos por um raio se tornam sacerdotes-curandeiros.
Kantu fez o que Anselmo lhe disse para fazer, massagens, dieta específica, ingestão de ervas medicinais e as visões desapareceram, voltando a ter a vida normal de antes.
Foi assim que ela compreendeu que existem duas formas diferentes de abordar um problema: por um lado, a medicina tradicional exercida por médicos especialistas, e por outro a medicina popular praticada por curandeiros que recorrem a métodos transmitidos de geração em geração. Passou a confiar em Anselmo, por ter uma extraordinária capacidade de compreender as coisas e as pessoas, e por ter um profundo conhecimento, quer da psicologia masculina quer da feminina, que superava largamente o de muitas pessoas cultas. E assim nasceu uma verdadeira amizade entre eles.

Passou a visitar Anselmo para compreender melhor como um raio tem a capacidade de despertar dons nas pessoas. Anselmo explicou-lhe que:
 “a Natureza concede-nos grandes poderes, a todos os seres humanos, mas por regra ficam adormecidos dentro de nós. A vida que levamos, tudo o que fazemos, pensamos ou sentimos, faz com que pouco a pouco, se fechem os canais que nos permitem comunicar com a Natureza. De um modo geral, são as mulheres, seres mais espirituais e menos materialistas que os homens, que mais facilmente desenvolvem esses poderes. Tal como todas as mulheres, também tu possuis dentro de ti estes dons adormecidos. Um deles foi despertado graças à faísca que atingiu o teu corpo. Se te tivesse acertado em cheio tinhas morrido; estás viva porque apena te atingiu de raspão, mas abriu os canais que correm dentro de ti e que eu tive de voltar a fechar porque tu assim o quiseste. Tu foste dotada de uma capacidade, de um dom que despertou dentro de ti e que poderias ter utilizado e desenvolvido. Possuis uma grande força interior que podes usar em teu benefício e em benefício dos outros. Se quiseres, ainda vais a tempo de o fazer. Possuis um poder que só utilizarás quando for essa a tua vontade”. 

Mas Kantu lembrou-se dos problemas que a capacidade de prever o futuro lhe causou e foi embora. 

E assim começa esta viagem mágica com esta maravilhosa Kantu.




domingo, 22 de abril de 2018

Dia da Terra


Mulher Terra



É com a mulher que a Humanidade apreende.
É com a mãe terra, é com o ventre vulcânico revolucionário, guerreiro, combativo que trará a transformação do ser humano contra a exploração do homem pelo homem, a transformação dos sistemas políticos, sociais e económicos.
Assim, homens e mulheres poderão estar no topo do mundo e as relações de género no planeta terra serão mais socializadas e sem temores e o amor será mais puro, natural, respeitoso, amigável, construtivo, definido.

Nunca, em tempo algum desde a criação do mundo, com o estabelecimento do primeiro ser pensante que evoluiu do macaco para o homem, as relações de género, de raça, classe, castas, as relações sócio-político-económicas foram democráticas porque o inimigo interno do inconsciente humano sempre venceu na batalha do superior contra o inferior.

A revolução começa dentro de casa.
Mulheres indígenas criem suas organizações sob seus tetos sagrados e deixem os homens de suas famílias apreenderem com as guerreiras que vivem em nós.
E os amemos por toda a eternidade, porque o amor é a melhor virtude que o Criador inseriu na Terra.


ELIANE POTIGUARA 
in, “Metade Cara, Metade Máscara”





" Reverenciar PACHAMAMA 
o grande planeta Terra, 
lindo e azul 
é como respeitar a ancestralidade, 
é como um homem respeitar a uma mulher, 
é como ter compromisso com a verdade" 

Eliane Potiguara









quinta-feira, 8 de março de 2018

Mulher Pássaro





Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente 
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave


Vinicius de Moraes






segunda-feira, 27 de novembro de 2017

........................... não hei-de morrer como a mãe





E jurei que não haveria de morrer como a mãe, mãe.

E que nunca nenhum homem me levantaria a mão, nem me espetaria um hálito grosso de cerveja, nem me haveria de invadir, tocar, irromper em mim como um carroceiro sujo desembestado.
E não haveria de ir às compras, fazer almoços, aspirar porcaria, despejar cinzeiros, a fungar lágrimas escondidas.
E não me abriria nunca como as conchas, pela força enferrujada de uma faca de romba, a forçar-me a carne desistida. E não quereria ver, alguma vez, o que nunca vi mas adivinhei anos a fio, as noites todas em que pensava que a mãe estaria ainda viva ou já defunta, um boneco de pano nas mãos dele, pernas abertas e rosto para o lado, para a parede branca, um trapo a ferrar os lábios para não lhe ouvirmos um ai, não me hão-de romper com nenhum chicote de cavalo cego.

Queria dizer-lhe que nas minhas noites não há animais que me esporeiam, que não me fico em silêncio para não me ouvirem suspirar. Queria ter-lhe dito que me avisei a tempo e não hei-de morrer como a mãe, mãe.

Não fecho os olhos com força de cada vez que me deito,  não tenho de esconder um corpo lancinante, adormeço em paz, aquecida, confortada, e os braços são para abraçar, mãe, fique sabendo, as pernas são para enroscar, os peitos para encostar, ao de leve, a pele toda para arrepiar, os lábios para sorrir, os olhos para ver de frente, ver de perto, sem medo, mãe, porque é possível embora seja tarde para si, é possível não morrer as noites todas, sem medo de monstros de caverna, de pêlo grosso que nos fere a alma todas as noites, riscos de sangue novo por cima de riscos de sangue velho, todas as noites de uma vida, todas as noites dentes e saliva e um punho de garras, abertas fechadas abertas, que desaba sobre nós.



in, A Mulher em Branco
Rodrigo Guedes de Carvalho
pág. 128





segunda-feira, 20 de novembro de 2017

misogyny is not a male-only attribute





It is impossible to be feminist and not be appalled by the complicity of women in their own oppression.
But it is impossible to be a woman and not have some knowledge of how this works.
If one grows up in a culture in which one’s self-worth is measured primarily by one’s desirability to men, then your energy is consumed into this horizontal competition with other women that can never be totally won. 





For power is never simply a possession but an exercise; power is about how we understand ourselves. Feminism seeks to unpick all the tiny ways in which we are bound.
Everywhere we look, there are women hating other women for business or pleasure: those who don’t want a female boss; who don’t want positive discrimination; who like strip clubs and porn as much as the boys; who don’t want to worship in churches with female priests; who want to force other women to give birth to children they don’t want; who say FGM is “cultural”; and who get off on body shaming.

On and on it goes.
How can we be surprised that misogyny is not a male-only attribute?

Far from it.

As the American satirist HL Mencken defined it,
a misogynist is “a man who hates women as much as women hate one another”.

Which is immeasurably.



Suzanne Moore
in, The Guardian







domingo, 2 de julho de 2017

Se as Mulheres fossem Seres Humanos …










Se as Mulheres fossem Seres Humanos …
Seríamos uma mercadoria expedida da Tailândia
Para os bordéis de Nova Iorque?
Seríamos escravas sexuais, ou para reprodução?
Seríamos criadas para trabalhar toda a vida sem salário,
Queimadas quando o nosso dote não fosse suficiente
Ou quando um homem estivesse cansado de nós,
Morreríamos à fome quando viúvas (se sobrevivêssemos à sua pira funerária),
Ou seríamos vendidas para sexo, porque não servíamos para mais nada?

Seríamos vendidas para casar com sacerdotes para expiar os pecados da nossa família
Ou para melhorar as perspectivas terrenas da nossa família?
E, quando fossemos pagas pelo nosso trabalho, seria para realizar as tarefas mais servis e sermos exploradas até morrermos à  fome?
E seria o nosso sexo cortado para nos “limpar” (o nosso sexo é sujo?),
Para nos controlar, para diferenciar e definir a nossa cultura?
Seríamos traficadas como coisas para uso e entretenimento sexual por todo o mundo
e por todas as formas que a tecnologia torna possível?
Seríamos impedidas de aprender a ler e a escrever?
Se as Mulheres fossem Seres Humanos …

Teríamos tão pouco peso na tomada de decisões
E no governo dos países onde vivemos?
Seríamos escondidas sob véus, feitas prisioneiras em casa,
E apedrejadas e baleadas por nos recusarmos a viver assim?
Seriamos espancadas quase até à morte, ou até à morte
Pelos homens que nos são próximos?
Seríamos molestadas sexualmente pelas nossas famílias?
Seríamos violadas e alvo de genocídio para aterrorizar,
Expulsar e destruir as nossas etnias,
E violadas ainda nessa guerra não declarada que acontece todos os dias
Em todos os países do mundo no chamado tempo de paz?

Se as Mulheres fossem Seres Humanos…
Seria a nossa violação apreciada pelos nossos violadores?

E se fossemos seres humanos, estas coisas poderiam acontecer sem que virtualmente nada fosse feito a esse respeito?



Catharine A. MacKinnon
in, “Are Women Human” 









segunda-feira, 26 de junho de 2017

Não fujas que eu sei que tu gostas





A sua pombinha era eu. Chamava-me, vem cá menina, e a voz antecipando-se amolecida, ou então agarrava-me quando passava por ele pelas esquinas da casa, puxava-me contra si, encostava-se todo, crescia, eu atirava a cabeça para trás a barriga para a frente, crescia com ele, e gostava. A sua pomba gostava.
Nem me recordo bem. Foi primeiro um empurrão, estava eu a comentar que o vizinho do terceiro tinha enviuvado, que desperdício, tão novo e bem parecido, logo havia de encontrar… e veio o empurrão. Não caí. Olhei para ele surpreendida, protestei, supliquei. Desculpou-se, ou em jeito de desculpa agarrou-me, encostou-se como de costume, suámos ambos, gememos ambos. Nem sequer perdoei. Esqueci.

A estalada chegou na semana seguinte. A propósito de… A sopa gelada? Demasiado salgada? Os vincos na camisa do escritório? A conversa com a D. Adelina do quiosque que atrasou o jantar? Um olhar de esguelha para o vizinho? Já não sei. Apanhou-me o olho direito. Levei a mão ao rosto. Encolhi-me. Foi só uma. Baixei a cabeça. Comecei a chorar, primeiro muito devagar, as lágrimas lentas, logo mais velozes, o olho que ardia, os dois olhos escorrendo, como se vazando-se, o corpo a estremecer, sacudindo-o os soluços. As pombas não choram. Esperou alguns segundos, parado a ver-me, como se. Como se certificando-se de que eram lágrimas verdadeiras, sentidas. Arrependida. E logo os mesmos gestos, a mansidão na voz, vem cá pequenina, o seu corpo tenso, teso, forte, os braços protegendo-me, de quê, de mim própria talvez, era isso que ele dizia, tu não sabes, tu és uma ingénua, se não fosse eu, tu, minha pombinha, anda cá que eu faço-te um filho, faço-te quantos quiseres, põe-te a jeito, isso, deixa-te cair, isso, que eu agarro-te, isso… Isso.

Um ano daquilo. Dois anos daquilo. Nenhum filho. Estaladas, sim, empurrões, sim, pontapés, sim. Eu continuava a baixar a cabeça, encolhendo-me, tornando-me pequena, a proteger o rosto com as mãos, mas perdia-lhe o medo. Ganhava-lhe ódio. E, quando se encostava a mim, a pombinha já não pedia mais, já não gemia, já não atirava a cabeça para trás. Já não gostava. E começava a criar garras.

Lembro-me de que dantes me enternecia quando atravessava a praça da figueira, lágrimas rasando os olhos, as pombas arrulhando, os velhos dando-lhes sobras de pão, as pombas arrulhando, e eu, eu, uma de entre elas, arrepiando-me toda, esfomeando-me, ansiosa por chegar a casa e deixar-me escorregar e cair.

Anos daquilo. Quando o eléctrico me deixava na praça, já sentia asco. Anos daquilo. Quando o eléctrico parava, eu descia e já não olhava, já não ouvia. Não sentia nada, nada, a não ser uma estranha força que se apoderava dos meus pulsos, dos meus dedos, das minhas unhas, tenso o corpo, teso, preparando-se sem saber. A pombinha estava morta. E eu já nem chorava, em silêncio cirandava afiando as garras nas esquinas da casa. E espreitava a oportunidade.

Há muito fora enterrada, a pombinha, quando me partiu um braço. Levou-me às urgências. Marido consciencioso, grande cabrão, todo falinhas mansas para as enfermeiras, despindo-as com os olhos, trincando-as, dizimando-as com as palavras, a mim já só se encostava por desfastio, e o seu desejo, vago, vezeiro, ia encorpando o meu ódio, escorregou a minha pombinha, vejam só, tão desastradazinha que ela é, sim, pois, nas escadas. As pombas mortas não escorregam. A casa não tem escadas. Tem esquinas.
Não, pois já se me tinha morrido, aquela brutalidade. Não, pois se eu própria também já tinha morrido. Os mortos não matam, apenas continuam morrendo. Que podem dois mortos um contra o outro?

A sua pomba era eu. Passava por mim ou procurava-me pela casa, ao virar de uma esquina, poucas, porque a casa era pequena, ainda assim mais do que bastante, agarrava-me pela cintura, enfiava as mãos na minha camisola, debaixo da minha saia, anda cá, anda cá, não fujas que eu sei que tu gostas, e eu a fingir, diz lá se não, diz lá que não, e eu que não que não, minha pombinha, vou dar-te a volta à cabeça, a esse corpinho tão jeitoso, ia falando e tirando a roupa, a minha, a dele, e depois, depois, se eu gostava, como eu gostava, o corpo dele metamorfoseando-se numa só mão, o meu também, as duas mãos de um só corpo, nosso ou nem sequer, uma onda de espuma que me entontecia, as pernas trôpegas, a boca cheia, a pele revirada, os olhos ardendo insones, os órgãos enlanguescendo-se. Sangue, silêncio, sémen.

Inocente e culpada, tanto se me dá, tanto se me dá. É como disser.
Senhor doutor juiz.



Bénédicte Houart