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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

A GRANDE MÃE






Há muitas formas de saber que Ela está presente, talvez na maior parte das vezes ocorrendo dentro da "categoria" de um "ah!" deliciosamente silencioso, nas proximidades entre o coração e a divindade.
Por isso as suas Aparições repentinas; a sua voz que se torna clara ou até compreensível para nós, insistindo connosco para que a escutemos diariamente por mais tempo, com mais atenção, com mais profundidade; quando Ela nos dá sinais para confirmar a palavra que nos chega; as suas visitas não são raras. Elas são comuns. Nenhuma mãe se recusa a atender os filhos que clamam e estão a precisar d' Ela. Uma Mãe não ajuda apenas os filhos "perfeitos". 
Pelo contrário, Ela se mantem ao lado dos que tropeçam, balbuciam e sofrem.

Isso eu posso garantir por experiência: por mais longo que tenha sido o exilio a que tu tenhas sido forçada; por maior que seja a tua ferida; por mais revoltada que seja a condição em que a tua alma se encontra; não importa o que tenhas feito ou não tenhas feito - chama-A - e Ela se manifestará, da melhor maneira para que tu a compreendas.

Ela vem como uma Visão, ou oculta, temporariamente, do interior de outro ser humano que de repente te diz palavras espantosas e importantes, das quais estás absolutamente necessitada. 
Ela pode aparecer também através de um desconhecido que seja gentil de forma momentânea e diga algo revelador para ti, que surpreenda até aos dois e para ambos seja algo recreativo e muito positivo.
Ou talvez sintas o vento e o sol, a chuva; uma paisagem, que olhas ou uma criatura, ou um inocente ser; de repente respiras fundo, uma inspiração enorme que dá a sensação de que uma enorme compaixão celeste está respirando por ti - e isso enche as tuas asas e os teus pulmões até ao grau máximo e o teu espírito de repente se sente renovado, a Tua alma não está mais em apuros, mas nesse momento sentes uma súbita paz.

Nesses casos, como em outros, a Mãe, a Grande Mulher, esteve a teu lado em toda a sua plenitude e com todo o poder.



in, Libertem a Mulher Forte 
Clarissa Pinkola Estés



quinta-feira, 4 de julho de 2019

A Baby's Bill of Rights





I have a right to
be seen 
as an innocent and vulnerable human being
in need of 
caring care in many ways.

I have the right to
be understood 
as a fully embodied Soul

I have the right not to
 have to 
justify my existence

I have the right to
have my ongoing needs for 
shelter, quiet, calm voices, 
to hear the heartbeat of a mother, 
to be held, sung to, comforted.

I have the right to
 identify myself differently
 - a human being- 
rather than an alien or other legalese term

I have a right to 
keep my natal language 
and to also learn a new language

I have a right to 
be seen as a baby, 
not as chattel, 
not as a detainee

I have the right to 
sleep in a bed, 
to be protected from predators, 
to have a full night's sleep, 
to be fed nutritious food.

I have the right to 
receive medical care with 
a mother's insight and touch instead of 
a via a governmental or ruling hierarchy mandate.
 I have a right to live in sanitary conditions.

I have the right to
 be with my familiares, 
relatives, brothers and sisters, 
primos, cousins, tios y tias 
y mami y papi y abuelos.

I have the right not to 
be shamed because of 
my nationality, 
race or ethnicity or religion.

I have the right to 
grow up in dignity, 
to be treated with integrity,
 to be treated as others would want 
their precious children treated...

I have a right to 
have my first cry answered right away, 
not to be forced into distressed weeping 
and despairing sobbing, 
and finally dead silence 

I have the right to 
sunshine, clean air, clean water, 
to see the stars in the night, 
to songs and music and art, 
to have simple toys, 
to laugh and to be happy.



Clarissa Pinkola Estés






segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

TEACHINGS OF THE WILD WOMAN





Have you ever wondered how you managed to end up in such an odd family as yours? 
If you have lived your life as an outsider, as a slightly odd or different person, if you are a loner, one who lives at the edge of the mainstream, you have suffered. Yet there also comes a time to row away from all that, to experience a different vantage point, to emigrate back to the land of one’s own kind. Let there be no more suffering, no more attempting to figure where you went wrong. The mystery of why you were born to whomever you were born to is over, finis, terminado, finished.

Rest for a moment at the bow and refresh yourself in the wind coming from your homeland. For years women who carry the mythic life of the Wild Woman archetype have silently cried, “Why am I so different? Why was I born into such a strange [or unresponsive] family?” Wherever their lives wanted to burst forth, someone was there to salt the ground so nothing could grow.

They felt tortured by all the proscriptions against their natural desires. 
If they were nature children, they were kept under roofs.
If they were scientists, they were told to be mothers.
If they wanted to be mothers, they were told they’d better fit the mold entirely.
If they wanted to invent something, they were told to be practical.
If they wanted to create, they were told a woman’s domestic work is never done.
Sometimes they tried to be good according to whichever standards were most popular, and didn’t realize till later what they really wanted, how they needed to live. 

Then, in order to have a life, they experienced the painful amputations of leaving their families, the marriages they had promised under oath would be till death, the jobs that were to be the springboards to something more stultifying but better paying. They left dreams scattered all over the road.
Often the women were artists who were trying to be sensible by spending eighty percent of their time doing labor that aborted their creative lives on a daily basis.
Although the scenarios are endless, one thing remains constant: they were pointed out very early on as “different’’ with a negative connotation.
In actual fact, they were passionate, individual, inquiring, and in their right instinctive minds.



Clarissa Pinkola Estes





sábado, 12 de agosto de 2017

................chorar





Fico perplexa com o fato de as mulheres hoje em dia chorarem tão pouco e, quando o fazem procuram justificativas.
Fico preocupada quando a vergonha ou desabito começam a eliminar uma função natural.
Ser uma árvore florida e estar cheia de seiva é essencial, se não você pode se quebrar.
Chorar faz bem, e é certo.
Chorar não cura o dilema, mas permite que o processo continue em vez de entrar em colapso. 

Clarissa Pinkola Estes




domingo, 4 de junho de 2017

.......................... o colectivo é hostil





Quando o colectivo é hostil à vida natural da mulher, em vez de aceitar os rótulos desrespeitadores ou pejorativos que lhe são aplicados, ela pode e deve, como o patinho feio, resistir, aguentar e procurar o meio a que pertence - e de preferência sobreviver a quem a rejeitou, tornando-se maior e melhor do que os que a rejeitaram.
(...)
Eu gostaria de poder afirmar que nesta altura já não existem todas essas armadilhas para as mulheres, ou que elas já estão tão calejadas que detectam essas armadilhas de longe.
No entanto isso não acontece.
Nós ainda temos predadores na nossa cultura, e eles ainda tentam sabotar e destruir toda a consciencialização e todas as tentativas de alcançar a totalidade (de uma mulher).

Há uma grande verdade no ditado que diz que é preciso lutar de novo pela liberdade em cada vinte anos. Às vezes tenho a impressão de que é preciso lutar por ela de cinco em cinco minutos.


in, MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS
CLARISSA PINKOLA ESTES




quinta-feira, 27 de abril de 2017

A solidão Voluntária





A solidão não é ausência de energia ou de ação como alguns pessoas pensam, mas uma abundância de  recursos selvagens interiores que a alma nos transmite. Em tempos antigos, tal como sabemos através dos escritos dos médicos-curandeiros religiosos e místicos, a solidão deliberada era não apenas paliativa mas também preventiva. Era escolhida para curar a fadiga e evitar o cansaço. Também era utilizada para se poder entrar em contacto com um oráculo, como um meio para ouvir o eu interior e pedir conselhos a um guia impossíveis de  escutar  no meio do barulho da vida quotidiana...
Se praticarmos habitualmente a solidão de forma deliberada, promovemos o nosso diálogo com a alma profunda que se aproxima de nós. E  fazemos isso não só para "estar perto " da natureza  genuína  da alma mas também, como na tradição mística desde  tempos imemoriais, para tirar dúvidas e para que a alma nos aconselhe.



Clarissa Pinkola Estés
in, Mulheres que Correm com Lobos




domingo, 2 de abril de 2017

SOLEDAD DELIBERADA





Para poder conversar con lo femenino salvaje una mujer tiene que abandonar transitoriamente el mundo y sumirse en un estado de soledad en el sentido más antiguo de la palabra. Hace tiempo, el adjetivo inglés alone (solo), equivalía a dos palabras: all one , es decir, “todo uno”. Ser todo uno significaba ser una unidad total, una unicidad, tanto con carácter esencial como transitorio. Éste es precisamente el objetivo de la soledad, ser totalmente uno mismo. Es la mejor cura para el estado de extremo cansancio tan habitual en las mujeres modernas, el que las induce a “saltar a la grupa de su caballo y lanzarse al galope en todas direcciones “.

La soledad no es ausencia de energía o acción tal como algunos creen, sino una abundancia de provisiones salvajes que el alma nos transmite. En tiempos antiguos, tal como sabemos a través de los escritos de los médicos—sanadores religiosos y místicos, la soledad deliberada era no sólo paliativa sino también preventiva. Se utilizaba para curar la fatiga y prevenir el cansancio. También se usaba como oráculo como medio para escuchar el yo interior y pedirle unos consejos y una guía imposibles de escuchar en medio del estruendo de la vida cotidiana.

Las mujeres de la antigüedad y las modernas aborígenes solían crear un lugar sagrado para esta clase de comunión y búsqueda. Dicen que tradicionalmente se establecía durante el período menstrual de las mujeres, pues en estos días una mujer vive mucho más cerca de su propio conocimiento que de costumbre; el espesor de la membrana que separa la mente inconciente de la conciente se reduce considerablemente. Los sentimientos, los recuerdos, las sensaciones que normalmente están bloqueados penetran en la conciencia sin ninguna dificultad.
Si una mujer se adentra en la soledad en este período, tiene más material para examinar.

No obstante, en mis intercambios con las mujeres de las tribus de Norte, Centro y Sudamérica así como con las de algunas tribus eslavas, descubro que los “lugares femeninos” se utilizaban en cualquier momento y no sólo durante la menstruación; más aún, cada mujer disponía de su propio “lugar femenino”, el cual consistía a menudo en un determinado árbol o punto de la orilla del río o en algún espacio de un bosque o un desierto natural o una gruta marina.

Mi experiencia en el análisis de las mujeres me lleva a pensar que buena parte de los trastornos premenstruales de las mujeres modernas no es sólo un síndrome físico sino también una consecuencia de su necesidad insatisfecha de dedicar el tiempo suficiente a revitalizarse y renovarse.

Siempre me río cuando alguien menciona a los primeros antropólogos, según los cuales en muchas tribus las mujeres que menstruaban se consideraban “impuras” y eran obligadas a alejarse del poblado hasta que “terminaban”. Todas las mujeres saben que, aunque hubiera un forzoso exilio ritual de este tipo, cada una de ellas sin excepción, al llegar este momento, abandonaba la aldea con la cabeza tristemente inclinada, por lo menos hasta que se perdía de vista, y después rompía repentinamente a bailar y se pasaba el resto del camino muerta de risa.

Si practicamos habitualmente la soledad deliberada, favorecemos nuestra conversación con el alma salvaje que se acerca a nuestra orilla. Y lo hacemos no sólo para “estar cerca” de la naturaleza salvaje del alma sino también, como en la mística tradición de tiempos inmemoriales, para hacer preguntas y para que el alma nos aconseje.

¿Cómo se evoca el alma?
Hay muchas maneras: por medio de la meditación o con los ritmos de la carrera, el tambor, el canto, la escritura, la composición musical, las visiones hermosas, la plegaria, la contemplación, el rito y los rituales, el silencio e incluso los estados de ánimo y las ideas que nos fascinan. Todas estas cosas son llamadas psíquicas que hacen salir el alma de su morada.



in, Mujeres que Corren con Lobos
Clarissa Pinkola Estés





domingo, 8 de janeiro de 2017

Nem mil exércitos de ego poderão detê-la




Quando uma mulher toma a decisão de abandonar o sofrimento, a mentira e a submissão.
Quando uma mulher diz do fundo de seu coração:
"Basta, cheguei até aqui ".
Nem mil exércitos de ego e nem todas as armadilhas da ilusão poderão detê-la na busca de sua própria verdade.

Aí se abrem as portas de sua própria alma e começa o processo de cura.
O processo que a devolverá pouco a pouco a si mesma, a sua verdadeira vida.
E ninguém disse que esse caminho seria fácil, mas é "o Caminho".

Essa decisão em si abre uma linha directa com a sua natureza selvagem, e é aí onde começa o verdadeiro milagre.


Mulheres que Correm com os Lobos 
Clarissa Pinkola-Estés


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A mulher corajosa não tem medo de investigar o pior




A mulher corajosa não tem medo de investigar o pior.
Isso garantirá um aumento do poder da sua alma através das percepções e oportunidades para examinar de novo a sua própria vida e o seu próprio eu.
Neste tipo de exploração da terra da sua psique brilha nela a mulher selvagem.
Não teme a escuridão mais escura, porque na verdade pode ver no escuro.
Ela não teme os despojos, os desperdícios, a podridão, o fedor, o sangue, os ossos frios, as mulheres jovens morrendo ou os maridos assassinos.
Ela pode ver tudo, pode resistir a tudo, porque pode também ajudar.


 ~ Clarissa Pinkola Estes


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A Mulher-Esqueleto


Elena de Petra



Clarissa Pinkola Estés, no seu livro Mulheres que Correm com os Lobos e especificamente na história intitulada: A Mulher-Esqueleto, fala que o ser humano para viver em harmonia com os outros, nas suas relações de afecto, precisa de enfrentar o que ele mais teme, foge e que não tem como escapar – A natureza de vida-morte-vida do amor.
Esta história é verdadeiramente a história de caça a respeito do amor.

Gostaria de ressaltar que nas histórias de Clarissa, existem materiais que podem ser
compreendidos como um espelho refletindo tanto a doença quanto a saúde da nossa própria vida interior – da nossa psique.

Segundo a autora, para cada relação de amor duradoura, um terceiro parceiro se faz presente nessa união, quer queiramos ou não. Esse terceiro parceiro é justamente a mulher-esqueleto ou como ela é chamada: A Morte.
Contudo, a morte não é um mal como é conhecida no Ocidente – nessa apresentação ela é uma divindade.

Esta mulher-esqueleto precisa ser acolhida pelos dois amantes para criar um amor duradouro.
Nessa relação ela sabe exactamente quando algo precisa morrer, ou quando um ciclo precisa se fechar para que outro surja. 

Quando olhamos e abraçamos a mulher esqueleto, vemos que o amor não é algo que vamos “obter”, mas sim algo gerado em ciclos de morte e de vida com seus fluxos e refluxos.

Nos dias actuais, observamos nas relações de amor justamente esse medo da natureza da vida-morte-vida, especificamente do aspecto morte. Qualquer que seja o final, o ser humano teme e esquece que num único relacionamento amoroso existem muitos finais.

Outro aspecto importante é que numa relação amorosa passamos boa parte do tempo a fingir que podemos amar sem que morram as nossas ilusões, expectativas, a voracidade de querer tudo, de querer que nada mude e de querer que tudo permaneça lindo no amor.
A tentativa de querer forçar o amor somente no seu aspecto positivo é o que faz com que o amor acabe por morrer para sempre.

Para Clarissa, amar significa emergir de um mundo de fantasias para um mundo real, onde o amor duradouro é possível. Amar significa ficar com, mesmo quando cada célula manda fugir.
E a nossa tendência é fugir dos relacionamentos no momento em que verdadeiramente conhecemos o outro, quando vemos seus limites e suas fragilidades ou mesmo quando o prazer sexual diminui. Mas é nessa hora em que algo precisa morrer – nossas ilusões – para que o novo possa nascer: o verdadeiro amor. E é nesse momento também que perdemos a oportunidade de demonstrar coragem e de conhecer o amor.

Quando num relacionamento amoroso, por ventura, chega o momento onde as coisas ficam complicadas, embaraçadas, receamos que o fim esteja próximo. Isso é um equivoco. Esse é só um ciclo que precisa morrer e é preciso encarar de frente a mulher-esqueleto, pois ela está presente na relação, o vinculo já está formado – Ainda bem!

O amor em sua plenitude é uma série de mortes e de renascimentos. 
Deixamos uma fase, um aspecto do amor e entramos em outra.
A paixão morre e volta, a dor é espantada para longe e vem à tona mais adiante.
Amar significa abraçar e ao mesmo tempo suportar inúmeros finais e inúmeros recomeços – todos no mesmo relacionamento.

Palavras de Clarissa:
“Para amar é preciso não só ser forte, mas também sábio. A força vem do espírito. A sabedoria, da Mulher-esqueleto” 

E com um poema da mística mexicana Rosario Castellanos:

…dadme La muerte que me falta…
…dá-me a morte que preciso…



Gianini Ferrari 
Psicóloga Clínica


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A volta ao lar: O retorno ao próprio Self




Existe o tempo dos homens e o tempo selvagem.
Quando eu era criança nas florestas do norte, antes de aprender as quatro estações do ano, eu imaginava que havia dezenas de estações: o tempo das tempestades nocturnas, o tempo de relâmpagos silenciosos no horizonte, o tempo de fogueiras nos bosques, o tempo de sangue na neve; o tempo das árvores de gelo, o das árvores encurvadas, o das árvores chorando, o das árvores cintilantes, o das árvores empanadas, o das árvores ondulando apenas as folhas mais altas e o das árvores deixando cair seus frutos. Eu adorava as estações da neve de diamantes, da neve fumegante, da neve que chia e até mesmo da neve suja e da neve endurecida, pois estas últimas indicavam que estava chegando o tempo dos botões em flor no rio.
...
A psique e a alma das mulheres também têm seus próprios ciclos e estações de actividade e de solidão, de correr e de ficar, de se envolver e de se manter distante, de procura e de descanso, de criar e de incubar, de participar do mundo e de voltar ao canto da alma. Enquanto somos crianças e meninas, a natureza instintiva percebe todas essas fases e ciclos. Ela Paira bem perto de nós, e nós estamos conscientes e activas em Períodos diversos, segundo a nossa decisão.

As crianças são a natureza selvagem e, sem que recebam ordens para isso, elas se preparam para a chegada dessas estações, saudando-as, vivendo com elas e guardando desses tempos recuerdos, lembranças: a folha cor-de-carmim dentro do dicionário; as penas de pássaros; as bolas de neve no congelador; aquela vagem, varinha, osso ou pedra especial; a concha diferente; a fita do enterro do passarinho; um diário de perfumes da época; o coração tranquilo; o sangue que se excita; e todas as imagens nas suas mentes.
Houve um tempo em que vivíamos em harmonia com esses ciclos e estações ano após ano, e eles viviam em nós.
Eles nos acalmavam, faziam com que dançássemos, nos sacudiam, nos tranquilizavam, faziam com que aprendêssemos instintivamente. Eles faziam parte da pele da nossa alma — um pêlo que envolve a nós e ao mundo natural e selvagem — pelo menos até o momento em que nos diziam que na verdade havia apenas quatro estações no ano, e que as próprias mulheres tinham apenas três estações — a infância, a idade adulta e a velhice. E supostamente isso era tudo.

No entanto, não podemos nos permitir perambular como sonâmbulas envoltas por essa invenção frágil e desatenta, pois ela faz com que as mulheres se desviem dos seus ciclos naturais e profundos e, portanto, sofram de aridez, exaustão e nostalgia.
É muito melhor que voltemos aos nossos próprios ciclos exclusivos e profundos, a todos eles, a qualquer um deles. 

O conto que se segue trata dos ciclos mais importantes da mulher, a volta ao lar, ao lar selvagem, ao lar da alma:

Versões desta história são contadas entre os celtas, os escoceses, as tribos do noroeste da América do Norte, os povos da Sibéria e da Islândia.
A história geralmente se intitula "A Mulher-foca" ou "Selkie-o, Pamrauk, a pequena foca"; "Eyalirtaq, a carne de foca".
Chamo a minha versão analítica e para representação de "Pele de foca, pele da alma".
A história nos fala de onde realmente viemos, do que somos feitas e de como todas nós precisamos, com regularidade, usar nossos instintos e descobrir o caminho de volta ao lar.1

(conto na pág. 194)

A perda do sentido da alma como iniciação

A foca é um dos mais belos de todos os símbolos da alma selvagem.
À semelhança da natureza instintiva das mulheres, as focas são criaturas singulares que evoluíram e se adaptaram através dos séculos. Como a mulher-foca, as focas verdadeiras só vêm à terra firme para procriar e amamentar. A mãe foca é extremamente devotada ao seu filhote por cerca de dois meses, dando-lhe amor e protecção e alimentando-o exclusivamente com as reservas do seu próprio corpo.
Durante esse período, o filhote de quinze quilos tem seu peso quadruplicado. Depois, a mãe nada para mar aberto e o filhote já crescido e capaz começa uma vida independente.
...
O símbolo da foca para a alma é ainda mais irresistível porque há nas focas uma "docilidade", uma facilidade de acesso bem familiar aos que vivem na proximidade delas. As focas têm uma certa qualidade canina: são afectuosas por natureza. Irradia delas uma espécie de pureza. No entanto, elas também podem ser muito rápidas para reagir, recuar ou retaliar quando ameaçadas.
A alma também é assim. Ela paira por perto. Ela alimenta o espírito. Ela não foge quando percebe algo de novo, de incomum ou de difícil.
Pode ocorrer, porém, especialmente quando a foca não está acostumada a seres humanos e fica ali deitada num daqueles estados de beatitude que parecem acometer as focas de quando em quando, que ela não preveja as atitudes do ser humano. Como a mulher-foca da história, e como a alma de mulheres jovens e/ou inexperientes, ela não percebe as intenções dos outros e o perigo em potencial.
E é sempre aí que a pele da foca é roubada.

Ao trabalhar com histórias de "cativeiro" e de "roubos de tesouros" bem como com a minha experiência de análise de muitos homens e mulheres, cheguei à conclusão de que ocorre no processo de individuação de praticamente todo mundo pelo menos um caso de roubo significativo.

  • Algumas pessoas o caracterizam como o roubo da sua "grande oportunidade" na vida. 
  • Os apaixonados o definem como o roubo da alma, uma apropriação do espírito da pessoa, um enfraquecimento do sentido de identidade. 
  • Outros descrevem o facto como uma distracção, uma ruptura, uma interferência ou interrupção de algo que lhes era vital: sua arte, seu amor, seu sonho, sua esperança, sua crença na bondade, seu desenvolvimento, sua honra, seus esforços.


A maior parte do tempo, esse roubo crucial se abate sobre a pessoa vindo de onde ela não espera. Ele cai sobre as mulheres pelos mesmos motivos que ocorrem nessa história do povo inuit: em virtude da ingenuidade, da percepção falha quanto às motivações dos outros, da inexperiência em projectar o que poderia acontecer no futuro, da falta de atenção a todas as pistas do ambiente e em virtude de o destino estar sempre entretecendo lições em sua trama.

As pessoas que se permitem ser roubadas não são más. Tampouco erradas. Não são tolas.
No entanto, elas são sob um certo aspecto inexperientes ou estão imersas numa espécie de cochilo psíquico. Seria um erro atribuir esses estados apenas à juventude. Eles podem ocorrer em qualquer um, independente da idade, da filiação étnica, do grau de instrução ou mesmo das boas intenções. Está claro que o facto de ser roubado evolui definitivamente para uma misteriosa oportunidade de iniciação arquetípica3 para aqueles que se vêem enredados na situação... o que se aplica a quase todo mundo.
...
A história da "Pele de foca, pele da alma" é de extrema riqueza, pois fornece instruções claras e precisas para os passos exactos que devemos dar a fim de desenvolver e descobrir nosso próprio modo de cumprir essa tarefa arquetípica.
Uma das questões mais cruciais e de maior potencial destrutivo enfrentadas pelas mulheres consiste no facto de elas começarem vários processos de iniciação psicológica sem iniciadores que tenham eles próprios completado o processo. Elas não conhecem pessoas maduras que saibam como prosseguir. Quando os próprios iniciadores são pessoas cuja iniciação está incompleta, eles omitem aspectos importantes do processo sem perceber, e às vezes causam grandes males ao iniciando por trabalharem com uma ideia fragmentada da iniciação, uma ideia que frequentemente está contaminada de uma forma ou de outra.4

Na outra extremidade do espectro está a mulher que passou pela experiência do roubo e que está a lutar por ter maior conhecimento e domínio da situação, mas que se desnorteou e não sabe que existem outros aspectos a serem praticados para completar o aprendizado, voltando, portanto, ao primeiro estágio, o de ser submetida ao roubo, repetidas vezes.
Não se sabe por meio de que circunstâncias, ela ficou emaranhada nas rédeas. Basicamente, está a faltar-lhe orientação. Em vez de descobrir as necessidades de uma alma saudável e selvagem, ela se torna vítima de uma iniciação incompleta.

Como canais de iniciação matrilineares - os das mulheres mais velhas que ensinam as mais jovens certos factos e procedimento psíquicos do feminino selvagem - foram fragmentados e interrompidos por tantas mulheres e durante tantos anos, que é uma bênção poder dispor da arqueologia dos contos de fada para ter essa aprendizagem. Podemos imaginar de novo tudo o que precisamos saber a partir desses modelos profundos, ou podemos comparar as nossas ideias a respeito dos processos psicológicos essenciais das mulheres com aquelas encontradas nas histórias. Nesse sentido, os contos de fadas e os mitos são os nossos iniciadores/as. Eles e elas são os sábios/as que ensinam aos que vieram depois deles/as.

Portanto, é para as mulheres semi-iniciadas ou iniciadas de modo incompleto que a dinâmica apresentada em "A pele da foca, pele da alma" é mais ilustrativa. Quando se aprendem todos os passos que devem ser dados para completar a volta cíclica a casa, mesmo uma iniciação atamancada pode ser desbloqueada, refeita e concluída correctamente.



Notas da Autora:

1 O tema dessa história, a descoberta do amor e do lar e o encontro com a natureza da morte, é uma dentre muitas variantes encontradas em todo o mundo. (Além disso, o recurso de narração de ter
de quebrar as palavras congeladas dos lábios do narrador, descongelando-as diante do fogo para ver o
que foi dito, é conhecido em todos os países frios do mundo.)
2 Diz-se também entre os mesmos observadores que a alma não encarna no corpo, ou dá à luz o espírito, até que ela se certifique de que o corpo que irá habitar está realmente progredindo. É por isso que muitas vezes não se dá o nome à criança antes que se tenham passado sete dias do nascimento, duas fases da lua ou mesmo mais tempo, comprovando-se, portanto, que a carne está suficientemente forte para receber a alma, que por sua vez dá à luz o espírito. Além disso, as mesmas pessoas defendem a ideia sensata de que, por isso, não se deve jamais bater numa criança, pois a violência espanta o espírito do seu corpo, e é muito longo e árduo o processo para recuperá-lo e devolvê-lo ao seu lar de direito.
3 O processo iniciático — a palavra iniciação provém do latim initiare, que significa começar,
apresentar, instituir. Uma iniciando é aquela que está começando um novo caminho, que se dispôs a
ser apresentada e instruída. Uma iniciadora é aquela que se dedica ao profundo trabalho de transmitir o que sabe acerca do caminho, que mostra o modo de agir e orienta a inicianda para que ela supere os desafios e com isso aumente seu poder.
4 Em iniciações malfeitas, às vezes a iniciadora procura apenas os pontos fracos da inicianda e
ignora os outros 70% da iniciação, ou se esquece deles: o fortalecimento do talento e dons da mulher.
Com frequência, a iniciadora cria dificuldades sem fornecer apoio, inventa perigos e depois descansa.
Essa é uma transferência de um estilo fragmentado de iniciação masculina; um estilo que acredita que a vergonha e a humilhação fortaleçam a pessoa. Ela apresenta a dificuldade, mas não o apoio. Ou dá grande atenção a questões de procedimento, mas as necessidades críticas da vida dos sentimentos e da alma são tratadas num plano secundário. Dos pontos de vista da alma e do espírito, uma iniciação cruel ou desumana jamais reforça a fraternidade ou o sentido de vínculo. Isso foge à compreensão.
Na falta de iniciadoras competentes, ou com iniciadoras que sugerem e apoiam procedimentos abusivos, a mulher procura a auto-iniciação. Trata-se de uma iniciativa admirável e uma realização deslumbrante se ela chegar a atingir três-quartos do proposto. É extremamente elogiável já que ela deve prestar grande atenção à psique selvagem para saber o que vem em seguida, e depois, e depois, e acompanhá-la sem a certeza advinda de saber que foi assim que se fez, tendo produzido o efeito desejado milhares de vezes antes.



Clarissa Pinkola Estes 
in, Mulheres que Correm com os Lobos
Cap. 9 - A volta ao lar: O retorno ao próprio Self


quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Os lobos...e as Mulheres




Os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm certas características psíquicas em comum: percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção.
Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e têm grande preocupação para com os seus filhotes, seu parceiro e sua matilha.
Têm experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação.
Têm uma determinação feroz e extrema coragem.

Clarissa Pinkola Estés
in, Mulheres que Correm com Lobos


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Depois do zen



...Depois do zen, as montanhas eram montanhas, e as árvores eram árvores.
Enquanto a mulher estava na montanha, aprendendo, tudo era mágico.
Agora que ela desceu da montanha, o pêlo supostamente mágico foi queimado no fogo que destrói a ilusão, e chegou a hora de "depois do zen".
A vida deve voltar ao plano prático.
Mesmo assim, a mulher tem o tesouro da sua experiência na montanha...

Clarissa Pinkola Estés

domingo, 13 de dezembro de 2015

Natureza selvagem sagrada


Toni Carmine Salerno



Quando as mulheres reajustam o seu relacionamento com a natureza selvagem sagrada, elas são dotadas por se transformarem numa observadora permanente e interna, numa conhecedora, uma Visionária, um oráculo, uma inspiração, uma intuitiva, uma criadora, uma iniciadora, uma inventora, e uma boa ouvinte que guia, sugere, e incita vida vibrante no mundo interior e exterior ...

Clarissa Pinkola Estes

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A fúria da mulher...



Houve muita especulação quanto ao facto de uma mulher furiosa ser apavorante no seu poder.
No entanto, essa é uma projecção da angústia pessoal do observador, demasiada para que qualquer mulher a suporte.
Na sua psique instintiva, a mulher tem o poder, quando provocada, de se enfurecer com consciência – e isso realmente é algo poderoso.
A raiva é um dos meios inatos de que ela dispõe para começar a criar e a manter o equilíbrio que necessita, tudo o que ela realmente ama.
É seu direito e, em certas horas e sob certas circunstâncias, é seu dever moral.
Para as mulheres isso significa que existe a hora para mostrar os dentes, para mostrar a poderosa capacidade de defender o seu território, para dizer ”até aqui nem mais um passo, não passe a responsabilidade adiante, não se intrometa, tenho uma coisa a dizer, tudo isso vai decididamente mudar.

in, "MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS"
CLARISSA PINKOLA ESTES



quinta-feira, 19 de novembro de 2015

.....................encontrar a nossa matilha



Aproximar-se da natureza instintiva não significa desestruturar-se, mudar tudo da esquerda para a direita, do preto para o branco, passar o oeste para o leste, agir como louca ou descontrolada.
Não significa perder as socializações básicas ou tornar-se menos humana.

Significa exactamente o oposto.
A natureza selvagem possui uma vasta integridade.
Ela implica delimitar territórios, encontrar a nossa matilha, ocupar o nosso corpo com segurança e orgulho independentemente dos dons e das limitações desse corpo, falar e agir em defesa própria, estar consciente, alerta, recorrer aos poderes da intuição e do pressentimento inatos às mulheres, adequar-se aos próprios ciclos, descobrir aquilo a que pertencemos, despertar com dignidade e manter o máximo de consciência possível.


Clarissa Pinkola Estés

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Era uma vez uma mulher


Foto: Kirsty Mitchell 

" Era uma vez uma mulher.
Essa mulher era amada.
Por ser amada, era reconhecida como inteira em si mesma.
Por ser reconhecida, era livre para existir.
Essa mulher vivia com os pés na terra e a cabeça nas nuvens, possuía todos os atributos de uma deusa. Era humana e ao mesmo tempo divina e havia algo de selvagem em seus olhos que nenhuma civilização ou religião poderiam domar.
Por isso mesmo, essa mulher foi temida e, por ser temida, foi reprimida e banida do convívio dos demais. Ela foi queimada nas fogueiras da ignorância, amordaçada nas malhas da censura, presa nas correntes da indiferença.
Após tantos séculos de repressão, aqueles que a haviam desprezado acreditavam que sua luz havia finalmente se extinguido; que sua natureza selvagem e aterradora havia desaparecido por completo.
Porém, essa mulher faz parte da própria natureza, ela é a própria natureza e não pode ser aniquilada.
De sua completude temos apenas resquícios mas, ela sobrevive nas histórias e nos contos de fadas e no fundo da alma de todos, homens e mulheres que sentem um profundo sentimento de vazio e solidão em suas vidas."

Clarissa Pinkola Estes

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Eu gostaria de poder afirmar ...



"Eu gostaria de poder afirmar que a esta altura não existem mais armadilhas para as mulheres, ou que elas já estão tão calejadas que detectam essas armadilhas de longe. No entanto, isso não acontece.
Nós ainda temos o predador na nossa cultura a destruir toda a consciencialização e todas as tentativas de alcançar a totalidade.
Há uma verdade no ditado de que é preciso batalhar de novo pela liberdade a cada vinte anos.
Ás vezes, a impressão é de que preciso lutar por ela a cada cinco minutos."



in, "MULHERES QUE CORREM COM LOBOS"
Clarissa Pinkola Estés






quinta-feira, 19 de março de 2015

Como se nos conhecêssemos há séculos



As pessoas escolhem-se mutuamente;
às vezes elas vêm ao nosso encontro, 
mas com maior frequência 
tropeçamos umas nas outras 
e nos reconhecemos 
como se nos conhecêssemos há séculos.

 | Clarissa Pinkola Estés |