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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Palavras


Freepik




 Palavras 
que apenas desconjuntadas 
se deixam escutar 
as nossas 
nascidas em gargantas 
sob o cerco 
de venenos carnívoros 
estremecendo no espaço 
como ao vento 
a roupa 
mas mais vagarosas 
mais lavradas por um 
pessoalíssimo fogo 
palavras difundidas a direito 
sobranceiras à gravidade 
e os dias 
barrados à entrada 
como em certos lugares 
os bêbedos 
palavras 
seladas com um gesto 
única pontuação 
entre os descendentes 
da fome 
braço que se dobra 
para ampliar em si 
o destino 
de um corpo alheio 
e será
sempre assim
o encontro
uma paisagem destruída
e nós
os alheados
da carnificina


Vasco Gato





sábado, 21 de março de 2026

matéria alquímica


 




A paisagem move-se no poder 
da observação. As coisas 
parecem recusar os seus nomes, 
não estão contentes. 
Então é necessário recomeçar o mundo. 

Mordo o pão gelado pela estação 
e penso na minha condição imóvel. 
O sol atinge-me como uma pedra 
que subitamente viesse 
esmagar o coração. 

A dor é uma poderosa matéria alquímica. 

A paisagem abre-se mais e mais 
no meu sangue. Por vezes 
paro diante da enorme cascata. 
Haverá um qualquer lugar 
por trás dessas águas pesadas. 
Uma região intocada. 

Estudo a forma como uma palavra germina. 

De novo as coisas na paisagem 
lançam-se a protestar. As palavras 
são como pregos. É preciso arrancá-las 
quando a ferrugem ameaça. 
É preciso espreitar consecutivamente 
o mundo.

Não há ponte entre duas margens,
só quem habita a corrente
pode aspirar a todas as moradas.


Vasco Gato





segunda-feira, 16 de março de 2026

Fera Oculta








 I

Durante essa tua natação de fera oculta
há um papiro que se desdobra na minha boca
e nunca o futuro teve o sabor
de palavras tão sobejamente pronunciadas
família rapaz umbigo
palavras com que se poderia redigir
tão pouca coisa
se não fosse a reinvenção da tua chegada
inscrita no mundo como pedra preciosa
que não é pedra
antes um modo inalienável de reluzir
pelos braços fora

Sei que haverás de te deslocar
timidamente
por estas ruas e prédios que bocejam
dos nomes que lhes deram
e que contigo terão uma razão mais forte
para conspirarem na longa malha
inanimada
em que se decidem os bichos
a que chamamos homens
e que tão pobremente os têm habitado — garanto-te —
à excepção de uma ou outra carne
mais obstinada em escapar
à bala comum

Para tudo isso terás tempo
ainda que rapidamente te dês conta
de que tudo é já tão tarde
eu próprio lamento o tempo que esperei
e que não terei para testemunhar
o incêndio dos teus olhos
o fruto magro que hás-de roer noite dentro
nalgum bairro de pormenor
quando o escasso amor que te deram
for o alimento oportuno
de um amor mais desenvolto
— estranho comércio, sim —
o tempo que não terei para nos lançarmos
os dois ao mar
nalguma noite desesperada
partilhando o sal de tudo largar
esse gosto tão raro
tão sigilosamente próximo

Perdoa a falta de graça
o tom melancólico a guerra
mas é que vivo numa época
que como muitas antes dela
repetiu os subsídios ao nojo
bateu o sangue em castelo
para se levar ao forno da ambição
deu uma sova às pequenas respirações
— sim, intersticiais, subtis, difíceis —
sem as quais um corpo é apenas
um estorvo à sua própria morte
percebes isso?
um estorvo à sua própria morte

Porque essas finuras de que te falo
são sem dúvida a única ousadia
frente à inevitável conflagração do espaço
— perdoa uma vez mais, eu reformulo —
tudo isto que ainda não vês mas verás
tudo isto que ainda não tocas mas tocarás
não durará mais do que a sua própria
experiência
e é essa a única lei
e é esse o único hino
país tão desabitado que festejas
cada desembarque como se te trouxessem
oceano

Se a eternidade fosse um espelho
o que mostraria?
Isto agora porque é aqui
que vive a luz e é esta a paisagem
que nenhum deus pode apagar
senão à custa da sua fome
não receies por isso deus nenhum
nem eternidade nenhuma
a tua carne é o único tesouro
— sei-o enquanto nadas —
digno de ser embrulhado pela treva

II

Sem saber ainda os traços do teu rosto
sei que me reconhecerei em ti
não fisionomicamente
mas no que é comum a todos os corpos
esses tropeços primeiros que a memória não segura
para que nada possa ser comparado
com o júbilo da encarnação
com a extrema vulnerabilidade
capaz de concentrar em si
as apostas circundantes

Gostaria no entanto de te receber
num outro lugar
não neste boi tombado
que dá pelo nome de vinte e um
peso morto arrastado pelos cornos
apenas para que não o devassem
as moscas
— aprenderás a amar também o trabalho alquímico
das moscas
a sua centralidade nas salas
como se pudessem medir todo o espaço
e concluir que é no meio —
um outro lugar mais consentâneo
com o uso dos dentes
com a urgência de cuidar
com as loucas passadas dos cães

Sinto já a força dos teus dedos sucintos
em torno do meu polegar
o calor que esbanjamos em cada gesto
na imensa consanguinidade
das coisas vivas
não há como fugir-lhe
vamos de mãos dadas com o que nos rodeia
em ininterrupta dedicatória
os dados são lançados e apanhados
sem tocar a mesa
e a sorte sai conforme
a sorte que se der
pois de tudo se sabe apenas
a medida da sua entrega

De ti carregarei até ao fim
o anúncio cardíaco em pleno silêncio
a ruína de uma espécie de solidão
que se julgava inamovível
e que a correnteza dos teus tambores
os cascos do teu nome incógnito
esboroaram num segundo
para no seu lugar
instaurarem uma costura
que nos entrança pelos pulmões
o número 3 deitado / como barca frente às vagas
a equipagem para o futuro

Ouço-te nadar sempre nestes meus dias
de náufrago posto em estrela
sobre as águas
e assim estarás tu também
no teu elemento
os dois talvez quietos
e ser ela quem nos encurta aos dois
para o seu ventre alucinado
a mulher que transpôs comigo
o limiar do cinismo
a angústia do salão espelhado
a tua mãe

III

Os momentos em que a claridade
é um capricho dos eléctricos
e os corpos se demoram nas praças
como se de fato houvesse alma
e devêssemos salva-la
da crueldade e do tédio
são esses os momentos que te desejo
nalguma cidade futura
nalguma encruzilhada de gente
mas sobretudo que haja eléctricos ainda
pois é à janela levantada
de um eléctrico
que a realidade é premente
e o vento toda história do mundo.

Vem isto a propósito
do cansaço em que ando
e que nada tem a ver com a matéria
da existência
– da qual és ainda magma –
antes com este logro quotidiano
em que um homem e uma mulher
se esfalfam para manter à tona
a ampulheta instável dos seus nomes
quando esse punhado de areia
subtraído à erosão dos deuses
merecia o sopro pleno
de um dia sem rodeios
um batismo mais vasto e súbito
que não prendesse cada coisa
aos seus próprios pés

Se algo tiveres absolutamente de fazer
que seja a travessia
das cerradas cordilheiras interiores
em que acabarás por tropeçar
não que sejas empurrado para lá
mas porque vivem numa espécie
de maturação do sangue
que mais do que a pretensa inclinação
dos teus músculos
deverás escutar
os animais noturnos as febres
a tua solidão pactuada
com a longínqua saga
dos que se despenham
em busca de um estrondo musical
pequeníssima nota reverberada
entre pálpebras
que só os escafandristas
puxam para a altura do olhar

Ter dos teus lábios essa sílaba nítida
de língua nenhuma
mera articulação de uma água antiga
que me pende sobre a cabeça
essa a espada que me falta
e que me permitirá afugentar
a angústia da pouca vida
que sempre nos pertence
recuando aos vocábulos indefesos
com que a paisagem
nos entra pela garganta
e nos alaga os pulmões

Ninguém sabe ao certo
com que esmero será capaz de arrombar
a frágil película das horas
e pilhar esses instantes de fraternidade
com o espanto de existir
porque é verdadeiramente digno de pasmo
que uma coisa se precipite
contra a lápide da sua própria duração
e se ache na veleidade de dizer
que está aqui
ponto de chegada
na atribulada imaginação do espaço

IV

Que não te enganem
os que compram as horas por atacado
para do teu suor extraírem
a bandeira de um país que nunca será o da atenção
que nunca será o da morada
mas sempre e sempre
o território homeopático da extinção
em que os troféus são
joelhos vergados à condição de cera
para os soalhos do progresso
cujo verdadeiro nome é
despovoamento

Vender-te-ão o conforto
a perseverança o brio
como se tivéssemos por fito
a acumulação do tempo
sem o fruirmos boca a boca
desesperadamente
garantir o futuro dir-te-ão
sem repararem na estupidez do repto
pois que poder temos nós
sobre as válvulas biológicas
do nosso prazo
para nos arrogarmos a garantir
o que quer que seja
quanto mais o sumo fruto da inexistência
esse futuro-cano-enfiado-na-boca
para ser disparado sem falta
de manhã e ao deitar

Em volta sucedem-se clarões
e abismos inóspitos
os elementos torcem-se na pesca à linha
dos lugares fundamentais
há uma convulsão de panoramas
para o brevíssimo turismo
dos olhos
mas o importante é a matemática mesquinha
do sangue que furtamos uns aos outros
a medalha de carne pútrida
com que esperamos aparecer
na fotografia da época

Que se foda a época
digo-te já
que se foda a sépia dos futuros
eu quero aparecer no dia
do teu nascimento
desarmado como uma árvore
sem outra missão que não
amparar-te o susto
e dizer-te baixinho
bem-vindo ao continente dos frágeis
podes parar de nadar.


Vasco Gato




quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Golpe de Teatro

 

Daz Smith



Deu-se um golpe de teatro, a vida, 
afinal, tinha outras coisas para mostrar. 
Estava tudo quieto (não falávamos) 
e quanto mais a burocracia dos dias 
se eternizava nos próprios dias, 
mais socos desferíamos no amor, 
outrora fatal. Foste a correr dar 
um mergulho no rio da boa vontade, 
de boa vontade regressaste, cãozinho 
amestrado de circo a saltar de um 
banco para outro, e depois a grande 
sensação, por dentro de um aro 
de fogo. O golpe de teatro foi voltares 
ao mesmo, só que a tua vida 
passou a ser uma violência prática, 
como as funerárias junto aos hospitais.


Helder Moura Pereira
in, Golpe de Teatro




quinta-feira, 11 de abril de 2024

SE








E se ninguém me der força
E se ninguém confiar
E se eu for invisível
E se ninguém me enxergar
E se eu perder a fé
Se eu não ficar de pé
Se eu voltar a cair
Se a lágrima escorrer
Se, por medo de sofrer
eu pensar em desistir.

E se quando eu cair
ninguém me estender a mão.
E se quando eu me perder,
sem rumo, sem direção,
Se eu não achar o caminho
Se eu estiver sozinho
no labirinto da vida.
E se tudo for escuro
Se eu não vir um futuro
na estrada a ser seguida.

E se esse tal futuro
for pior do que o presente
E se for melhor parar
do que caminhar pra frente
E se o amor for dor
E se todo sonhador
não passar de um pobre louco
E se eu desanimar,
Se eu parar de sonhar
queda a queda, pouco a pouco.

E se quem eu mais confio
me ferir, me magoar
E se a ferida for grande
E se não cicatrizar
Se na hora da batalha
minha coragem for falha
Se faltar sabedoria
Se a derrota chegar
E se ninguém me abraçar
na hora da agonia.

E se for tarde demais
E se o tempo passar
E se o relógio da vida
do nada se adiantar
E se eu avistar o fim
chegando perto de mim,
impiedoso e veloz,
sem poder retroceder,
me fazendo perceber
que o SE foi meu algoz.

E se eu pudesse voltar…
Se o SE fosse diferente
Se eu dissesse pra mim mesmo:
Se renove, siga em frente.
Se arrisque, se prepare
E se cair jamais pare
Se levante, se refaça,
Se entenda, se reconheça
E, se chorar, agradeça
cada vez que achou graça.

Se desfaça da preguiça,
do medo, da covardia
Se encante pela chance
de viver um novo dia
Se ame e seja amor
Se apaixone, por favor,
Se queira e queira bem,
Se pegue, se desapegue
Se agite, desassossegue
E se acalme também.

Se olhe, se valorize
E se permita errar
Se dê de presente a chance
de pelo menos tentar
Se o SE for bem usado,
o impossível sonhado
pode se realizar.

 

Bráulio Bessa

terça-feira, 31 de outubro de 2023

A RAZÃO PLATÓNICA









Há uma doutrina da caverna que consiste em 
separar a luz e a sombra. Dizem que, para os que 
vivem na caverna, a luz é um sonho porque só 
conhecem a sombra. Mas dizem outros, como é 
que se pode saber que a luz existe quando nunca 
se saiu da sombra? Os teólogos, porém, acrescentam 
a estas dúvidas que também o homem, que 
nunca conviveu com os deuses, os pôde 
imaginar à sua imagem semelhança; e é 
por isso, acrescentam, que a luz surgiu quando 
o homem a criou à semelhança da sombra. Isto, 
porém, nada tem a ver com a realidade. Quando 
o dia nasce, vemos a luz que surge no horizonte em 
que o sol se anuncia; e aquilo que era a sombra 
que habita a noite dissipa-se quando o céu 
se torna azul. Mas os que acreditam na caverna 
voltam as costas à realidade; e quando o dia nasce 
põem-se à sombra, tapando os olhos à luz,
para concluir que a sua razão é única,
e o mundo a sua caverna.


Nuno Júdice
in, Fórmulas de Uma Luz Inexplicável




terça-feira, 12 de setembro de 2023

Compacto










Chamado a mostrar aquilo que faz, o poeta português tem a 
tendência de mostrar os dentes, sorri muito, dispondo-se assim a 
participar nessa acareação, nessa coisa que se fazia aos cavalos e 
era também exigido aos escravos, um exame superficial que 
permitia ao potencial comprador aferir se tinha ali um espécime 
em que valia a pena investir. Num certo sentido, também os 
poetas hoje parece que publicam os seus textos de modo, não a 
 a forma como pretendem fazer-se ler, mas a terem 
um pretexto para aparecer nas corridas, ser vistos, trabalhar nos 
campos de algodão da visibilidade e do mediatismo. Ora, sempre 
que me é pedido que escolha alguns dos meus textos ou poemas, 
faço os possíveis por tentar mostrar não os dentes mas o olho do 
cu, como faziam os bárbaros ou os pobres agricultores que eram 
chamados a participar numa batalha contra exércitos senhoriais 
dotados de sumptuosas forças de cavalaria e o raio. Viro-me, 
dobro-me, e exibo-o ao sol e aos fidalgos, eu que sou filho do 
acaso raivoso que me vai parindo diariamente e que não envergo 
qualquer outra distinção. E isto porque vejo o poema como um 
grito articulado para ser ouvido muito baixo, entre esses raros que 
estão mais atentos, e que vencem a euforia das épocas. Em 
relação à nossa, tenho este entendimento de que algo de nojento 
tomou conta de todos os espaços onde circula mais gente, e 
parece-me assim que, para reflectir a sua expressão, não vale a 
pena nem sorrir nem fazer caretas; o melhor é mesmo mostrar 
esta zona no corpo de cada um de nós que se livra do que há de 
inessencial, ou seja, das fezes. Não que o poema concorra para o 
regime das excrescências, mesmo das ornamentais que 
encontramos nos lugares hoje dedicados à arte. No fundo, o 
poema começa por livrar-se da etiqueta e do sufoco do que é feito 
para o bem das aparências. Trata-se de desafiar essa ordem
 infernal que se faz camuflar por meio de um sorriso, de um “like”, 
entre outras formas de anuência. Não temos muito do que estar 
contentes. Não vejo motivo para os poetas buscarem o seu lugar 
num ranking que necessariamente os desfavorece. O que me 
parece admirável num poema é o modo particular de traduzir 
certos aspectos deste inferno que nos envolve até se nos meter 
debaixo da pele, mesmo quando o que o poema exprime são as 
relações que lhe escapam, que nos servem de alívio, de 
maravilhamento. Se os poetas estão sempre numa relação 
desfavorável, se não têm armaduras com motivos florais e nem 
cavalos para os elevar acima do nível da geral infantaria, parece-
me que isso os coloca na relação ideal: a do um para um. E, face a 
tudo o que nos cerca hoje, tenho como principal orientação esse 
desejo de fazer a guerra às claras, de provocar o inimigo, fazê-lo 
exibir as suas verdadeiras cores, para que o conflito que 
geralmente nos faz de forma dissimulada seja assumido, para que 
tenha de se explicar, e não possa simplesmente impor como 
senso comum um conjunto de noções que tornam impossível a 
vida, e nos lançam no regime da mera sobrevivência.


Diogo Vaz Pinto



terça-feira, 15 de agosto de 2023

A uns passos do canto







Eu não tenho culpa se tens frio, querido
Não esperava a tua morte

Joyce Mansour

 
A uns passos do canto onde a cama
se afoga lentamente,
reuni o que restava da minha fé perdida
sobre espaços silenciosos, como se quisesse
medir a duração de Deus contra a sombra da tua retirada.
Tudo só ditava já um soluço
e eu fiz-te um gesto usando a imaginação
da morte, chamava
para servir-te chá num parêntesis,
afastando com a mão essa nuvem
de um olor que te prendeu uma flor no cabelo.

As chávenas arrefeciam e na porcelana
vimos os pássaros azuis apagar-se.
Pedi que o calor perdurasse,
e olhava em redor, vendo tudo cobrir-se
de ervas altas. Sobre a minha boca enterrada
senti passar a primavera, e algures
nós dois ainda soprando
sorrindo aguardando esse travo forte
tão doce uns séculos mais tarde.

 
Diogo Vaz Pinto
in, De Aurora para os Cegos da Noite



terça-feira, 20 de junho de 2023

Rosa


 




Podia esquecer tudo o que me disseste, ouvir
o canto do pássaro que passou nesta sala,
respirar o perfume do jardim que entra pela
janela, olhar para fora de mim, para aquilo
a que chamam o mundo. No entanto, o que
tenho pela frente são as lembranças que
procurei esquecer, a imagem de que não me
libertarei, a voz que ecoa na minha
memória, dizendo o nome tantas vezes
murmurado. E encosto-me a este instante,
contando o tempo que falta para que a
luz desapareça, e a noite me traga
o silêncio de onde nascem os sonhos.


Nuno Júdice 
in, "A pura inscrição do amor"



terça-feira, 30 de maio de 2023

Navegamos




 Navegamos,
e as coisas vão mexendo devagar,
como a colher roçando o interior da chávena,
a música que apenas segura as coisas,
a cidade rodando em torno de um eixo cego,
tudo em segredo,
entre águas enormes e anónimas,
navegamos rumo ao vazio que trazemos,
na sensação de que nada poderá 
levar-nos de volta.

Somos monstros feitos desse grito
que não damos,
bloqueados nesta deslocação imparável.
Contra o casco as vagas parece que riem 
do espetáculo da nossa compostura,
enjoados com água doce e morna 
que levamos no corpo,
as nossas vidas tão sem sabor,
e o medo de o entornarmos.

Evitaremos outro desastre refugiados
na cabina, ouvindo o rumor uns dos outros,
lendo sobre uma tempestade fantástica,
uma narração que faça a vida
parecer uma coisa distante.

O navio treme, a máquina trabalha,
e o nosso juízo sufoca entre os respingos 
e a agitação, o arcabouço do vento.
Tentamos lembrar-nos como se faz,

como se respira, e um relâmpago ao longe 
parece lamber os contornos de outro mundo.

Aqui, apenas o vago temor
de não sermos reais.
E se a morte deixou de assustar-nos 
é pela sensação de que não iria sujar-se,
não por nós. Para quê dar-se ao trabalho,
vir buscar-nos, e arrastar-nos depois 
para onde?


Diogo Vaz Pinto




quarta-feira, 17 de maio de 2023

ÉDIPO



François Xavier Fabre



 O que o homem procura não se encontra
nas linhas em que a eternidade se cruza com o
instante. Ele pensa que o acaso desenhou esse
limite; e engana-se quando desvia a linha para
junto do seu desejo, desafiando os deuses. Mas
o que o futuro lhe propõe não é o que
ele vê: só as sibilas o adivinharam, e a chave
da sua linguagem perdeu-se num fundo
de nuvem, por entre aves enlouquecidas e
ventos contrários. O homem insiste, porém;
e as suas mãos cavam a terra, abrindo caminho
até às raízes secas de um século antigo, onde
ele procura a solução do enigma que,
se lhe perguntarem, não sabe enunciar: «Quem
sou? Ou antes, quem imagino que sou, agora
que nenhuma resposta me é dada?» E volta
a tapar o buraco que abriu, escondendo as
pedras onde teria lido o seu destino, se
ainda tivesse a luz do dia para reconhecer
os sinais. No entanto, à noite, os passos
conduzem-no para o lugar de onde partiu,
como se fosse o único caminho que
lhe resta. E ao chegar a esse princípio,
descobre que é o seu fim, para não ter de
voltar a partir, nem de fazer a pergunta
para que não encontrará, nunca, a resposta.



Nuno Júdice
in, Fórmulas de uma Luz Inexplicável 




quinta-feira, 2 de março de 2023

Tão pouco que somos

 




Manhãs há que se despedaçam nas pálpebras,
revolvem a íris,
arrancam-nos do sono, dos seus bancos da névoa,
de qualquer torpor

Estranhas núpcias celebra o homem com a mais 
recôndita vida.
Enlaçados percorremos a noite, derrubamos as suas pontes,
queremos do amor os perfumes,
a trágica magia -

isto é:
lançamos as redes aos mares, somos um peixe de ouro 
que abandona as escamas,
o covil de todos os tráficos, a mutação das cores.

É um estar subterrâneo, liquidamente.
Podíamos adorar as florestas interiores, os labirintos 
da água,
estremecer com os golpes do remador, com as 
rapidíssimas visões no intervalo das luas.

Seguimos a corrente, a flutuação dos líquenes,
olhamos devagar -
serão aqueles sobre a falésia os pescadores de 
estrelas?
Eles, impassíveis,
veneradores do oceano e do Cruzeiro do Sul, eles 
que amaram a cintilação das Pléiades?

Despertamos de repente, ao descerrar das persianas.
Viajámos muito:
uma anémona, corais, um vestígio de náufragos, o nome 
eis quanto trazemos à luz.

Em pleno dia, já não recordamos - esfinges de 
sal e sol envelhecendo - 
tão pouco que somos.


José Agostinho Baptista





sábado, 15 de outubro de 2022

Ficarás comigo?








Ficarás comigo quando me levantar do chão
depois de desistir de ser manso
e calmo e pensar só em não mais
aquietar o mundo,
não mais poupá-lo às palavras que devem ser ditas
não mais desistir do que é correcto?

Ficarás comigo quando colocar em risco todas
as raízes e mesmo as nossas árvores e
houver um horizonte que possa ser só fogo,
tudo queimando
mesmo se te garanto que às vezes temos de arder?


Pedro Santo Tirso




sexta-feira, 13 de maio de 2022

Resgatado









 e era noite 
o espaço por mim habitado 
lugar onde imaginava 
os encontros do apóstolo com 
“os que jaziam 
na região sombria da morte” 

e era noite 
o tempo que me cobria quando 
na mente ecoavam as palavras 
que me tinham dito um dia: 
“entra apenas. permanece até ao fim. 
e sai mudado.” 

e era noite 
e eu buscava uma porta 
passagem 
para esse outro lugar 
onde aprenderia a pegar no fogo 
sem me queimar 

e era noite 
quando em meu peito repousaste a cabeça 
teus longos cabelos 
se espraiando em meu colo 
caindo por trás do pescoço que 
abandonaras nos meus braços 

e era noite 
quando mergulhei na luz do teu olhar 
e cometendo uma heresia 
disse: “eu sei que não sou digno 
que entres na minha morada 
mas diz uma palavra e serei salvo” 

e era noite 
quando dois rubros lábios 
me revelaram com três sílabas 
a porta nimbada de ternura que buscava

e resgatado ao deserto 
assim me entregaste de novo à vida.


Rui Amaral Mendes 
in, Frágil





domingo, 8 de maio de 2022

Do Fundo do Silêncio


Gregory Colbert 
in, Ashes and Snow






quando o tempo orbitava em torno do útero
 e as mãos fundavam um inocente contínuo com o presente
 desconhecia a essência inabitável do pretérito
 e as minudências de um tempo ausente e indefinido;
 
 mais tarde revelaram-me a oponibilidade do polegar e
 o mecanismo da flexão dos dedos
 e descobri um espaço ausente por dentro de um punho
 onde cuidei ser possível encerrar o futuro:
 
 desconhecia o sublime e transcendental movimento dos astros
 a ininterrupção primacial da luz
 e a circulação das folhas
 sob o vento que sopra onde quer.
 
 
 
Rui Amaral Mendes
in, “Do Fundo do Silêncio”




quinta-feira, 28 de abril de 2022

A vida


 Duncan Chard






A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória; 

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas. 


Nuno Júdice
in, Teoria Geral do Sentimento