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sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Estão zangados? - Não! Estamos resolvidos, de bem...Com a vida!







 "- Estás à espera de quem?
- Já não espero ninguém! Estou só a usufruir a brisa passar...
- Não tens família?
- Tenho! Deixei de esperá-los...
- Estão zangados?
- Não! Estamos resolvidos, de bem...Com a vida!
- Como assim?
- Aprendi com os anos de caminho que não devemos esperar ninguém!
- Mas...Uma mãe deve esperar sempre os seus filhos...
- Por muitos anos achei que sim...Depois aprendi que só esperámos na ilusão de posse...
No dia em que entendemos que ninguém pertence a ninguém, que até os filhos são do Universo...
Passámos a Ser livres para receber, sejam os filhos ou tudo o que a vida nos reserva!
- E quando os filhos não chegam?
- Quem nada, nem ninguém espera, tudo é só vida a acontecer...
- É difícil de entender!
- Eu sei. Fomos iludidos a sentir amor como apego, quando a verdade é que o autêntico Amor é saber desapegar, Amor é liberdade para amar sem prender, para amar permitido ao outro voar!
- E não sentes solidão?
- Ela não existe para quem resgatou para si o direito de também continuar a voar...
E hoje, mesmo de forma diferente, aceito e ajusto e continuo a permitir-me ao meu voo!
- E quando não conseguires?
- Eu acredito que quem se permite a Ser livre, a morte chegará leve, quando o meu corpo físico deixar de poder voar, partirei de regresso a casa!
E sabes...
Acredito também que esse é o propósito da vida, nunca deixar de voar,
Para em Alma voo para Sempre Ser!
Até lá...
Vou continuar a usufruir simplesmente a brisa passar..."




quarta-feira, 8 de junho de 2022

We fall in love with 3 people over the course of our lifetime


João Cabral





We fall in love with 3 people over the course of our lifetime.

Each one has a specific reason.
Let me explain...

Our First Love usually happens at a young age and we eventually grow distant or call it quits over the dumbest things.
When you get older and more mature you look back and think it was not love. But it actually was.... It was love for what you knew love to be at that point in time.

You have to always remember there are different depths of love.


Now our 2nd Love and this is the hard one....

You get hurt when you fall in love with this person. This one teaches us lessons that we learn from and makes us stronger as a individual.
This love includes a substantial amount of pain, betrayal, abuse, lies, and emotional damage.
But believe it or not, this is the one where we grow the most. We realize what we truly know about love and what we don’t know about love.

So now we put our walls up because we are extremely protective of what the future might hold for us when it comes to relationships.
And naturally we become closed off, suspicious, very careful and slightly scared. But now we know exactly what we want out of a partner and what we definitely do not want.



Our 3rd and final love.

This one comes out of nowhere. No warning. No sign whatsoever. You don’t go looking for this love. It actually finds you. You can put up all the walls in the world, and they will come crashing down just as fast as you built them up in the first place.
You’ll find yourself caring about that person without even trying.

They look nothing like your usual type, but you get lost when you look in their eyes. You don't see any flaws. You see flawless imperfections. You find yourself telling them everything about you and what has molded you into the person you are today.

You want a life with them. You want slow dances in the kitchen, you want walks on the beach under a starry night sky, you want to marry them and have beautiful children that resemble the both of you perfectly.

And every night when you close your eyes before you go to sleep, you catch yourself praying to God and thanking him for the reasons why it has never worked out with anyone else before.


~ Cody Bret & Kate Rose




segunda-feira, 8 de junho de 2020

Quando as mulheres rompem






Este mês a energia está especialmente intensa…é um mês de Eclipses…três seguidos.
Portais que se abrem para fazer uma viagem ao Passado e ao Futuro.
E como o primeiro foi um Eclipse Lunar, no dia 5 de Junho, a viagem começa por ir ao Passado.
As emoções já começaram aqui a pipocar uns dias antes.
E levaram-me até um livro que li, em 2004, um ano depois de me divorciar.
“Quando As Mulheres Rompem”, da escritora francesa Isabelle Yhuel.
Em 2003, com o meu divorcio no início do ano, tive a minha Primeira Noite Negra de Alma.
E este livro foi fundamental para me ajudar a processar a experiência.
Aprendi que é necessário aceitar morrer, para poder renascer.

Tornei-me numa mulher que rompe, que se divorcia, que parte.
Que vira as costas ao ninho que construiu.
Que abandona hábitos confortáveis e segurança, e se lança num futuro desconhecido.
Que perde bons níveis de vida, protecções, e se sujeita ao inimaginável.
  • E apesar disto tudo, o que me impulsiona?
  • Em nome de que exigência actuo?
  • Qual é a minha busca?
  • Porque é que vem um dia em que passo à acção e mando a vida passear?
  • Onde é que isto me leva?

Questionar-me desta forma é interrogar a minha consciência, é pensar que tenho uma intuição precisa das minhas condições, dos meus actos, que se pode explicar a mim mesma.
É também ter consciência de que os meus actos adultos de ruptura estão inevitavelmente ligados ás minhas primeiras rupturas de infância.
E é quando surge mais uma grande questão:
  • Nas minhas rupturas amorosas com os homens, o que é que se insinua proveniente das minhas primeiras rupturas infantis?
É a redução ao estado primitivo da matéria.
Os meus instintos que visceralmente agem em mim, me guiam.
Talvez estas rupturas ao longo da vida, sejam tempos de pausa, que me oferecem a possibilidade de me desapegar desses instintos primitivos, desses pactos inconscientes que fiz na infância de forma a poder sobreviver, mas que tanto me prejudicam ao longo da minha vida adulta.
E é quando descubro que essa é a Verdadeira Liberdade!
O Libertar-me desses pactos inconscientes que fiz na infância, o libertar-me de rupturas passadas e presentes, para poder atingir a Plenitude de Ser: um lugar onde as rupturas não são mais necessárias, onde não haja mais necessidade de abandonar, de conquistar, de competir, de querer, de explicar…

No meu divorcio, a ruptura foi um flirt com a guerra.
A guerra com o que era o marido, e também uma guerra comigo própria.
Para largar e deixar ir, foi preciso, a certo momento, detestá-lo, apenas ver os seus defeitos, as suas falhas…quase que fiz dele um inimigo. Calei em mim a parte terna, a que ainda estava tão ligada àquele homem que amei, mas que tinha de abandonar.
Foi preciso matá-lo, e matar-me um pouco a mim também.
E depois, fazer o luto.

Depois de uma ruptura, devido à sua violência, a tendência é recalcar o passado, não pensar mais nele, e esquecê-lo, apaga-lo da nossa vida…ou tentar, pelo menos. Mas isto é o contrário de fazer o luto.
E o luto tem de ser feito, para podermos seguir em frente.
Para nos libertarmos desse passado, temos de lá regressar.
O trabalho do luto é indispensável para prosseguir a vida de forma fecunda; é um trabalho de processamento e enriquecimento. Ao fazermos o luto, estamos a integrar o ex e a situação que já não existe mais para nós. O luto é o trabalho que nos permite trazer à Luz, uma a uma, cada uma das lembranças ligadas a esse ex que desapareceu da nossa vida, o que nos permite depois separarmo-nos dele pacificamente, voltarmos ao nosso centro, organizar a nossa vida a viver sozinhas, e a sentir de novo prazer e interesse. O ex perdura no nosso interior, não é excluído, mas deixa de nos provocar dor, sofrimento e mal-estar. A ligação é cortada, mas sem excluir o outro. A relação passada é vivida como um capítulo fechado da nossa história, que nos enriqueceu, que nos trouxe lições preciosas para o nosso crescimento e evolução como Seres Humanos, mas passa a ser vista e sentida como uma etapa, um pedaço de vida num caminho interior.
Simultaneamente, dou início à ruptura, abandono, quebro, despedaço, parto e…ao mesmo tempo, sinto-me guiada por um instinto poderoso.
  • Qual o EU que, no meu interior, me conduz ao rompimento?
Sempre que as rupturas acontecem, ressurgem as questões da minha infância.
E tentar compreender tudo isto é tirar pleno proveito desses momentos para morrer, e renascer para uma outra coisa, nova e mais inteira.
As rupturas para mim são como retiros para dentro de mim mesma.
Faço a triagem do que quero guardar, do que quero deitar fora.

Ao observar as mulheres em geral, chego à conclusão que vivemos a ruptura de formas diferentes:
  1. Há as que abandonam para não serem abandonadas.
  2. Há as que partem para fugir de um homem, de um modo de vida que já não suportam. Acreditam que o seu casamento foi um erro, um malogro, um longo sofrimento, sentem que não têm escolha, e para sobreviver, para conservar a sua integridade psíquica, viram as costas ao passado, por vezes sem fechar totalmente a porta.
  3. Há as que trocam um homem por outro. Ainda não fecharam a porta da antiga casa, e já constroem um lar noutro lugar.
  4. E há as que deixam um homem como consequência de um lento desamor, sem uma visão particularmente negativa do que partilharam com ele. Simplesmente chegou a hora de fechar o ciclo e iniciar um outro noutro lugar. Elas querem instalar-se sozinhas, conquistar uma Liberdade, correndo o risco de tratar por tu a solidão. É uma ruptura que não fica instalada nos choros e lamentos, mas que se torna numa experiência verdadeiramente enriquecedora, abrindo novos horizontes, e mergulhando de forma profunda no seu Verdadeiro Ser. Elas não se contentam com um presente protector, confortável e familiar. Elas não estão satisfeitas, sentem a amargura a surgir, e por isso partem em busca de uma vida que seja um itinerário, uma procura, uma descoberta. Elas têm fome de sentido, de propósito, que lhes permite ser o que desejam ser.

Em todas as rupturas, numas mais do que outras, uma hora depois de tomar a decisão torço-me de dor, tenho medo, mas vou em frente porque quero saber o que surgirá dentro de mim, quero saber que lado meu ainda me é desconhecido.
No passado, reclamei a protecção dos homens para atravessar a vida.
Era uma armadilha mas, nenhum de nós o sabia.
Hoje, tento libertar-me dela.
Não vivo mais dependente do olhar de um homem.
Não amo mais de forma infantil, com uma necessidade de ser amada para preencher um vazio interno que vinha da minha infância reprimida. Fiz-me escrava de um marido, e prisioneira de uma imagem que ele projectava sobre mim.
Na vida, há renuncias que são necessárias.

Nas rupturas não eram os homens que deixei para trás que me fazia falta.
Eu é que me faltava a mim própria.
Estava ferida, fragmentada, fissurada…com medo que essas minhas fissuras se transformassem em abismos que me levassem à morte.
Rebolei no chão, chorei, gritei, sufoquei, solucei, desesperei, babei…era uma criança ferida.
Lembro-me de ter ido à ilha do Baleal, e na beira do penhasco, açoitada pelo vento e pela chuva, era apenas eu a resistir a que o vento me devorasse, mas sem vontade que me levasse. Ali naquele penhasco, não tive o desejo de morrer – as chapadas da tempestade são demasiadas na vida, a intensidade, mas lembro-me de sentir o meu corpo a retesar-se para aguentar, e amolecer para receber a tormenta sem nela naufragar. 
É a vida que me segura.
Fui para casa, e comecei a criar as minhas regras numa casa sem homem.
E numa casa sem homem, descobri que ainda era uma mulher.
E fiz uma promessa a mim própria: 
“Que eu não duvide mais da minha condição humana, que viva a partir da ruptura, que eu olhe o mundo tal como ele é e não como eu gostaria que fosse”

Pode falar-se de ruptura sem falar de amor?
Para romper, é preciso primeiro ter caído nos braços e no coração de um homem, que ele tenha caído no nosso, é preciso Paixão. Uma queda vertiginosa, mas excitante, como tudo o que é imprevisto na nossa vida. Mas, tudo isto tem pouco a ver com a realidade.
Somos o fruto dos elementos que, desde o nosso nascimento, construíram a nossa vida psíquica: pai, mãe, irmãos, família, escola, acontecimentos exteriores, tudo o que estruturou o nosso consciente e o nosso inconsciente. E esperamos que o estado amoroso venha reparar, preencher, toda as falhas e fissuras, todas as decepções, conscientes e inconscientes, vividas na nossa vida de criança e de adolescente.
Assim, inconscientemente, uma mulher pedirá ao seu marido, ao seu amante, aquilo que a Mãe nunca lhe deu. Um homem procura numa mulher aquilo que nunca conseguiu encontrar no pai. E, sem que saibam, o inconsciente  irá guiá-los nas suas relações amorosas, e passam a procurar companheiros que encaixem nos seus sintomas.
Não é de estranhar que a maior parte das relações acabem em rupturas.
Os amantes julgam-se dois num só, nus, transparentes um para o outro, quando na realidade são uma multidão de “Eus”, conscientes e inconscientes; feridos, frustrados, fragmentados, uma metade à procura da sua outra metade…vivem na expectativa ausente e insana, frente a um Ser igualmente múltiplo e complexo. 
Nestas situações, a ruptura é um momento de extrema lucidez!
A cegueira acaba, os olhos abrem-se.
E nada mais resta, a não ser partir.
Porque, nunca duas metades virão a ser algo inteiro.

Quando somos metade de nós próprias, nós não existimos, nós dissolvemo-nos no outro.
Até aos 36 anos sempre disse que só poderia ser feliz com um grande amor na minha vida.
A minha felicidade dependia de amar e ser amada por um homem.
Que ilusão gigante!
E é nestas alturas que o caos é necessário. Para parar, afrouxar…mais vale conter-se que apressar-se. É preciso saber perder para poder vir a ganhar. Não se pode desejar uma mudança interior, uma metamorfose, sem aceitar pagar o preço. Uma vida não se pode construir evitando constantemente o risco de vir a sofrer.

Até que se aprende que podemos bastar-nos a nós próprias!
E aqui começa outro problema, porque deixa de haver espaço para o outro, para o diferente...para a Complementaridade. Consegue-se sair do Triângulo Dramático, a competição entre duas pessoas para provar quem é o Certo-Bom-Inocente...e passa-se a ser fechado ao diferente de mim, em que eu só me basto. Assim, não há polaridade, e por consequência não há evolução e crescimento, mas sim Estagnação.

Agora sei que é preciso emprestar-se aos outros, e dar-se a si mesma.
Romper é voltar a ser senhora de si mesma, é deixar de ceder-se ao outro porque se perde demasiado de si. Torna-se necessário partir.

Normalmente, a questão do dinheiro e do status social, assim como a dependência emocional e financeira, são as principais razões que fazem as mulheres ficar em casamentos mortos. São mulheres que investem demasiado afectivamente no conforto que dá o dinheiro, criam apegos fortíssimos com a vida financeira que conquistaram juntos, e por isso ficam seja lá em que condições for. Para uma mulher decidir romper e partir, ela tem de ser capaz de  aceitar o empobrecimento na sua vida após a ruptura. A sociedade favorece a todos os níveis o casamento e a família, enquanto estruturas que garantem uma estabilidade económica e social. É por isso que as pessoas se casam, para terem garantias.

Foi terrivelmente doloroso compreender que entre os meus sonhos e a minha realidade existia um abismo imenso. Encarei os factos: casamento, maternidade, aborto, divórcio, ruptura com a minha mãe e família, perda de amigos. Foi um duro período ascético, de que hoje me recordo com satisfação, pois ensinou-me a viver sozinha e o que significava ser fiel a mim mesma.
E foi quando comecei a fazer as perguntas certas a mim própria:
  • Quem sou eu? 
  • O que é o amor? 
  • Algum dia amei de verdade alguém?

Esta história da ruptura  é quase uma declaração de amor.
Se amamos alguém, amamo-lo tal como é. Não o queremos influenciar, porque se o conseguíssemos, já não seria ele. É melhor renunciar ao Ser que amamos do que modifica-lo, lastimando-o ou dominando-o.
Estamos presas na grande corrente da vida, na lenta maturação que nos faz mudar, evoluir, transformar, ou seja, viver a nossa presença de modo diferente do passado. Nós rompemos também por isso, porque nos sentimos prisioneiras, porque constatamos que será impossível com o companheiro com que estamos, crescer e evoluir o que precisamos, modificar o nosso presente, conduzir-nos a esse estado em que nós próprias ficaríamos surpreendidas. As mulheres abandonam o homem que se torna um obstáculo entre elas e a vida, que as impede de se esquecerem do que aprenderam para dar lugar às outras que elas são sem o saber. A ruptura seria então a emergência violenta do nosso outro Eu desconhecido, da outra lógica em nós,  a nossa estranheza, a nossa heterogeneidade, os critérios que nos habitam debaixo da superfície uniformizada. É a ruptura como uma chamada à ordem para os que esqueceram a existência em si dos seus diferentes EUS e da necessária tensão que os organiza.

Por um lado temos a necessidade da busca de si mesmo.
Mas por outro, também temos a necessidade da busca do outro, do amor e da sexualidade.
E esta problemática diz respeito a todo o Ser Humano.
Mas, de forma mais acentuada nas mulheres.
No início da sua vida adulta, mais do que os rapazes, as raparigas podem ter a impressão de que se vão realizar encontrando o outro, e esta ideia está nelas ligada não ao seu lado feminino, mas ao lado maternal. Elas pensam encontrar-se ao criar um bebé, o que se revela um erro de objectivo, imaturidade e amor infantil. Outras mulheres pensam realizar-se através do sucesso profissional do homem com quem casaram e que fazem a carreira do marido em busca de um status social do casal. 
Mas, não será isto renunciar a todo o ideal pessoal movidas por um sentimento de inferioridade? 
Como elas não têm confiança no seu próprio futuro, sentem-se satisfeitas quando conseguem o sucesso da carreira dos maridos. São casais virados para o exterior, sem grande interesse pela vida psíquica. 
Felizmente, as mulheres de hoje já começam a ser mais conscientes de si mesmas, e deixam um homem por o sentirem como um travão ao seu desenvolvimento e evolução.
Começam a tomar a responsabilidade do seu próprio destino, com coragem e determinação.

A ruptura é o testemunho da força da mulher, da diversidade dos seus investimentos: feminino, maternal e profissional. E quando percebem que, não podem, por causa de um homem, seguir simultaneamente  os diferentes investimentos que escolheram, rompem e vão embora.
Estes diferentes investimentos que coabitam dentro de uma mulher, faz-nos pensar em Humanismo, visto que os humanistas achavam fundamental interessar-se ao mesmo tempo por diferentes domínios, as ciências, a poesia, a literatura, a música, etc.
As mulheres, pelo seu ecletismo, são humanistas em potência.

E se nós, mulheres, mudássemos algum tempo para o outro lado, para o lado deles?
Desde muito cedo que sempre coloquei os homens frente a nós, como se eles fossem entidades fixas e invariáveis; enquanto nós, as mulheres, éramos as personalidades mutantes, mutáveis. 
Nós temos o poder de mudar, despojando-nos indefinidamente de uma pele, de outra, e de outra, na busca para atingir este âmago que nos revelaria mais de nós próprias; âmago que nunca atingiremos, mas que nos leva a essa busca que faz com que as nossas vidas sejam mais exigentes, desanimadas, desiludidas, tensas, violentas, vencidas e depois, de novo, frescas, leves, serenas, saborosas, animadas.
Mas os homens, felizmente para nós, não são essas estátuas inertes que eu pensava quando os etiquetava como “eles, os homens”. Quando um homem parte e se encontra só, na sua própria companhia, o que é feito da sua busca? São poucos, bichos em extinção infelizmente, pertencem a uma espécie raríssima. 

A maioria dos homens não abandona o lar da família; ele ajusta-se à clássica relação triangular: o homem, a mulher e a amante. E se saírem, é para se instalarem com outra mulher. Apenas alguns, muito poucos, de constituição marginal, partem voluntariamente, e voluntariamente se instalam sós por tempo indeterminado. 
Existe a eterna injustiça que caracteriza os homens como sedutores contínuos dos vinte aos setenta. Além disso, quando decidem instalar-se sozinhos aos cinquenta ou sessenta, mantêm a confiança das suas rugas de sedução, para encontrarem, quando desejarem, uma nova companheira com quem irão partilhar a sua vida. Já no caso das mulheres, no mesmo nível etário,  “perdem valor no mercado”… 
Para além disto, os homens preocupam-se pouco com as perturbações que uma ruptura  provoca na sua vida material, achando mesmo que pode melhorar visto que deixam de ter despesas altíssimas com viagens a dois, presentes, jantares em restaurantes de luxo e outras despesas generosas para embelezar as suas companheiras.
Contudo, ao contrário das mulheres que partem para se abrirem ao desconhecido, os homens não vêm a mulher como um obstáculo à sua maturação. Pelo contrário, a vida em casal proporciona-lhe facilidades para mergulhar ainda mais nos seus interesses, sem se preocupar com questões do quotidiano para gerir, visto que a mulher ocupa-se de tudo isso. 
Também um homem raramente se isola longe das mulheres. Não sente necessidade nenhuma disso, antes pelo contrário. Quando um homem vive só, rapidamente arranja aventuras, o que lhe é vital para manter uma relação saudável com a sua virilidade. Além disso, no geral, os homens fazem sexo de igual forma, quer estejam apaixonados ou não. A diferença está apenas no acordar – quando estão apaixonados sentem prazer em acordar ao lado da pessoa amada, e quando não estão apaixonados, evitam acordar com a mulher com quem tiveram sexo.
Quando um homem decide viver sozinho, não tem como objectivo  obrigar-se a uma disciplina para se elevar e evoluir; o celibato marca um período transitório que conclui uma história de amor qualificada como falhada, antes que apareça a mulher tão esperada, a que será a definitiva, a Única, a mulher da sua vida junto da qual não lamentarão o seu estado de celibatário, aquela junto da qual se sentirão livres e apaixonados…tanta ilusão!
E enquanto esperam, levam uma vida de solteiros que lhes faz recordar a sua vida de estudantes.

É preciso audácia para desenvolver a personalidade ao preço de conflitos com os outros e consigo própria, pois mudar a sua vida é também correr o risco de descobrir de seguida que as suas novas escolhas, também elas, serão apenas temporárias, não porque foram um erro, mas porque correspondem apenas a uma etapa, que nos conduzirá à etapa seguinte. Portanto, mudar implica que se aceite a noção de precariedade, quando se queria pensar que finalmente se encontrou a vida certa. Mas, enquanto permanecer confinada num casulo artificial, que sabemos já não nos alimentar, será isso a própria negação de toda a evolução psíquica?

Quando as mulheres rompem, elas procuram aquela terra desconhecida em que cada uma chegará à sua própria identidade. Elas não estão certas da sua existência, mas vale a pena tentar. 
  • Mas, porque precisam de romper? 
  • Não o poderiam fazer com os homens que amam? 
  • Porque não fazer essa viagem a dois? 
Porque o homem não quer embarcar na viagem com ela. Ele quer ser o navegador, enquanto ela é o porto de abrigo, o repouso do guerreiro, aquela que espera pacientemente o seu regresso.
Os homens têm medo das mulheres que buscam.
Até aqui, na grande maioria dos casos, eram eles que partiam em busca do Graal, em busca do tesouro, eram eles que corriam os riscos, desafiavam a morte. E por isso têm muita dificuldade em aceitar que a mulher queira construir a sua própria embarcação e navegá-la.
Depois, há os homens que nunca foram aventureiros, e que não toleram tal hipótese de risco. Esses não sentem nenhuma vocação para se conhecerem a si mesmos, constroem tranquilamente a sua vida na linha do que fizeram os seus ascendentes. A sua identidade forma-se a partir do grupo: família, escola, comunidade, e posição social. E os interesses do grupo prevalecem sobre qualquer noção de individualidade. 
Mas há mulheres que constroem a sua identidade, não a partir do que vem do exterior, mas do seu interior. Talvez porque, antigamente, no sistema de filiação, elas eram travadas a procurarem a sua própria identidade, e incentivadas a viverem em total dependência de um marido.

As mulheres não partem porque querem mas por obrigação, porque o homem com quem vivem as tenta manter naquilo que são, enquanto elas se querem transformar naquilo que poderão vir a ser. As mulheres vêem-se obrigadas a deixar os homens para serem fiéis a si próprias.

Um dia, homens e mulheres encontrarão uma outra forma de entendimento para que cada um, masculino e feminino, possa aprender ensinando o outro.
Porque, se não for no respeito e no interesse autêntico pelo outro, será absurdo falar de busca de identidade. Sem esquecer o sal da vida: o Amor…

Se as mulheres querem ser mais lúcidas, não se trata de vontade de dominar, elas também sabem ceder à sua impulsividade; se elas se pretendem mais ponderadas, isso é apenas até se inflamarem de novo na paixão; se procuram a meditação, é para se exaltarem de seguida e devolver às coisas e aos seres a sua dose latente de maravilhoso. 



Não se trata de 
viver em oposição ao outro, 
ao homem, 
nem para se tornar alguém definido, 
mas sim para, 
numa aprendizagem infinita, 
nos revelarmos plurais a nós próprias.











quarta-feira, 13 de maio de 2020

Como lidar com o isolamento





"Mestre, como posso enfrentar o isolamento?
Limpa a tua casa. A fundo. Em cada canto. Mesmo os que nunca sentiste a coragem e a paciência para limpar. Torna a tua casa brilhante e bem cuidada. Remove poeira, teias de aranha, impurezas. Mesmo no lugar mais oculto. A tua casa representa-te: se cuidas dela, também te cuidas.

- Mestre, mas o tempo é longo. Depois de cuidar de mim na minha casa, como posso viver o isolamento? -Conserta o que pode ser corrigido e remove o que não precisas mais. Dedica-te à colcha de retalhos, cose o início das calças, costura bem as bordas desgastadas dos vestidos, restaura uma peça de mobiliário, repara tudo o que vale a pena reparar. O resto, deita fora. Com gratidão. E com a consciência de que o seu ciclo terminou. Consertar e remover o que está fora de ti permite corrigir ou remover o que está por dentro.

- Mestre e depois o quê? O que posso fazer o tempo todo sozinho? -Semeia. Até uma pequena semente num vaso. Cuida de uma planta, rega-a todos os dias, fala com ela, dá um nome, remove as folhas secas e as ervas daninhas que podem sufocá-la e roubar energia vital preciosa. É uma maneira de cuidar das tuas sementes interiores, dos teus desejos, das tuas intenções, dos teus ideais.

-Mestre e se o vazio vier visitar-me? ... Se vier o medo da doença e da morte? -Fala com eles. Prepara a mesa para eles também, reserva um lugar para cada um dos teus medos. Convida-os para jantar contigo. E pergunta-lhes por que vieram de tão longe para a tua casa. Que mensagem eles te querem trazer. O que eles te querem comunicar.

- Mestre, acho que não posso fazer isso ...

- A tua questão não é isolar os problemas, mas o medo de enfrentar os teus dragões internos, aqueles que sempre quiseste afastar de ti. Agora não podes fugir. Olha nos olhos deles, ouve e descobrirás que te colocaram contra a parede. Eles isolaram-te para que pudessem falar contigo. Como as sementes que só podem brotar se estiverem sozinhas."





domingo, 1 de março de 2020

Onde estão as minhas moedas?





Em uma noite qualquer, de uma época qualquer, alguém teve um sonho: sonhou que recebia algumas moedas das mãos de seus pais. Não sabemos se eram muitas ou poucas, se eram milhares, centenas, uma dezena ou apenas um par. Também desconhecemos o metal de que eram feitas, se ouro, prata, bronze ou talvez ferro. Enquanto sonhava que seus pais lhe entregavam as moedas, esse indivíduo teve uma sensação de calor em seu peito. Foi invadido por uma grande alegria. Estava contente, encheu-se de ternura e dormiu serenamente o restante da noite.
Na manhã seguinte, quando despertou, a sensação de serenidade e satisfação persistia. Então, decidiu caminhar até a casa de seus pais. Quando ali chegou, olhou-lhes nos olhos e disse:
“Na noite passada, vocês vieram até mim em sonho e depositaram em minhas mãos algumas moedas. Não me lembro se eram muitas ou poucas. Também não sei de que metal eram feitas, se eram de metal precioso ou não. Não importa, porque me sinto pleno e feliz. E venho lhes dizer: Obrigado, elas são suficientes. São as moedas de que necessito e as que mereço. Assim, eu as tomo com gosto, pois vêm de vocês. Com elas serei capaz de seguir meu próprio caminho.” 
Ao ouvir isso, os pais, que como todos os pais se engrandecem por meio do reconhecimento dos filhos, sentiram-se ainda maiores e generosos. Interiormente sentiram que podiam seguir dando a seu filho, porque a capacidade de receber amplia a grandeza e o desejo de dar. Então, disseram:
“Você é um bom filho. Pode ficar com todas as moedas, pois pertencem a você. Pode gastá-las como quiser, e não precisa devolvê-las. São seu legado, único e pessoal, são para você.” 

Então o filho também se sentiu grande e pleno. Descobriu-se completo e rico e pôde em paz deixar a casa dos  pais. Na medida em que se afastava, andava com firmeza, com os pés firmes sobre o solo. Seu corpo também estava bem situado no solo, e diante de seus olhos um caminho claro e um horizonte promissor se abriam. Enquanto percorria o caminho da vida, foi encontrando pessoas diferentes, que o acompanhavam durante um trecho, às vezes mais longo, às vezes mais curto. Alguns o acompanharam pela vida toda. Eram sócios, amigos, companheiros, vizinhos, colaboradores e inclusive adver­sários. Em geral, o caminho se apresentava sereno, agradável, em sintonia com seu espírito e com sua natureza pessoal. E, ainda que não estivesse livre dos pesares naturais impostos pela vida, o sentia como o caminho de sua vida.
De vez em quando, olhava para trás, para seus pais, e relembrava com gratidão as moedas recebidas. E, quando observava o percurso de sua vida ou olhava para seus filhos ou se recordava de tudo que conquistou no âmbito pessoal, familiar, profissional, social ou espiritual, a imagem de seus pais surgia e ele se dava conta de que tudo aquilo fora possível graças ao que havia recebido deles, e que com seu êxito e com suas conquistas os honrava. Dizia a si mesmo:
"Não há fertilizante melhor que as próprias origens", e então seu peito voltava a se encher da mesma sensação abrangente que lhe havia preenchido na noite em que sonhou que recebia as moedas.


Outra noite qualquer, de outro tempo qualquer, outra pessoa teve o mesmo sonho, já que, cedo ou tarde, todos chegamos a ter esse mesmo sonho.
Vinham seus pais e depositavam algumas moedas em suas mãos. Nesse caso, também não sabemos se eram muitas ou poucas, se eram milhares, centenas, uma dezena ou apenas um par. Não sabemos de que metal eram feitas, se de ouro, prata, bronze, ou ferro...
Ao sonhar que recebia em suas mãos as moedas de seus pais, a pessoa sentiu certo incómodo. Sentiu-se invadida por uma amarga inquietude, por uma sensação de tormento e um dilacerante mal-estar. Dormiu o restante da noite remexendo-se agitado entre os lençóis. Ao despertar, o indivíduo, ainda agitado, sentiu um incómodo que parecia raiva, mas que também tinha algo de queixa e ressentimento. Sua expressão era de sofrimento e inconformismo. Revoltado e ligeiramente envergonhado, decidiu caminhar até a casa de seus pais. Ao chegar, olhando-os de soslaio disse:
“Na noite passada, vocês vieram a mim em sonhos e me entregaram algumas moedas. Não sei se eram muitas ou poucas, também desconheço de que metal eram feitas, se eram de metal precioso ou não. Não importa, porque me sinto vazio, prejudicado, ferido. Venho lhes dizer que suas moedas não são boas nem suficientes. Não são as moedas de que necessito nem as que mereço, nem as que me correspondem. Portanto, não quero e não aceito, ainda que tenham vindo de vocês e que cheguem a mim por meio de vocês. Com elas meu caminho seria muito duro ou muito triste e eu não conseguiria ir longe. Caminharei sem as suas moedas.” 
E os pais, que como todos os pais se sentem menores e sofrem quando não têm o reconhecimento dos filhos, retiraram-se diminuídos e tristes para o interior da casa. Com desgosto e angústia, compreenderam que podiam dar ainda menos do que haviam dado àquele filho, porque, diante da dificuldade de aceitar e receber, a grandeza e o desejo de dar se fazem pequenos e definham.
Fizeram silêncio, confiando que, com o passar do tempo e a sabedoria que a vida traz, talvez chegassem a endireitar os rumos falidos do filho.
É estranho o que aconteceu em seguida. Após ter pronunciado aquelas palavras perante os pais, o filho se sentiu impetuosamente forte, mais forte do que nunca. Tratava-se de uma força extraordinária: a força feroz, teimosa e gigante que surge da oposição aos feitos e às pessoas. Não se tratava de uma força genuína, como a que resulta da aceitação dos acontecimentos e está em concordância com as transformações da vida, mas de uma força apaixonada e intensa.
Era o tipo de força que configura a paisagem do sofrimento humano, aquela em que as pessoas tratam de se apoiar quando precisam de coragem e de humildade suficientes para aceitar a realidade tal como ela é e a nossos pais tal como são. A falsa força que nos concede a oposição das coisas, o ressentimento para com as pessoas e a postura de vítimas diante dos fatos vividos. Com o tempo, essa pessoa aprenderá que nenhum sofrimento concede direitos, nenhuma postura existencial edificada sobre feridas concede merecimentos e que o único sentido desse sofrimento, que não é dor, é fazer sofrer os demais, já que unicamente a dor genuína desperta a compaixão. 
Mas, naquele dia, o indivíduo abandonou a casa dos pais dizendo a si mesmo:
Nunca mais.
Sentia-se forte, mas também vazio e vulnerável.
Ainda que desejasse, não conseguia ficar em paz.

Na medida em que se afastava da casa de seus pais, sentiu seus pés se elevarem alguns centímetros do solo e seu corpo, um tanto flutuante, não podia se aperceber de seu peso real. E sentiu algo ainda mais surpreendente: cada vez que abria os olhos, tinha a impressão de que via a mesma coisa, um horizonte fixo e estático. O indivíduo foi desenvolvendo uma sensibilidade especial. Assim, quando encontrava alguém ao longo do caminho, o contemplava com uma enorme esperança e, inconscientemente, se perguntava:
“Será essa a pessoa que tem as moedas que mereço, das quais necessito e que me correspondem, as moedas que não aceitei de meus pais porque eles não souberam me concedê-las de maneira justa e conveniente? Será essa a pessoa que tem o que mereço?” 
Em certa ocasião, a resposta foi afirmativa, e tudo pareceu fantástico. O indivíduo se apaixonou e sentiu que tudo à sua volta era maravilhoso. E, sem se dar conta, começou a esperar que o outro tivesse e lhe desse aquilo que não aceitara de seus pais. Contudo, ainda que a esperança de encontrar as moedas lhe resultara a princípio inebriante, quando a paixão acabou se convertendo em uma relação e a relação durou tempo suficiente, o indivíduo descobriu que o outro não tinha o que lhe faltava, ou seja, aquelas moedas que não havia aceitado de seus pais.
“Que pena!”, disse.
E então se queixou amargamente de sua má sorte, culpando o destino. Ele se sentiu desenganado, submetido a um tormento emocional que tomou forma de desespero, desgosto, crise, turbulência, enfado, frustração.
É que, embora ainda não soubesse, o outro só podia lhe dar aquilo que tinha e aquilo que lhe correspondia por sua posição, ainda que queira lhe dar tudo e o ame plenamente, pois um casal é uma relação entre adultos fundamentada na igualdade de classe, na troca equilibrada e na sexualidade. 

Em certo momento de sua vida, esta pessoa teve um filho, e seu desgosto se tornou mais doce e esperançoso, mais moderado. Então, tornou a se perguntar:
“Será que este filho tão amado que espero tem as moedas que mereço, das quais necessito e que me correspondem, aquelas que não aceitei de meus pais porque não souberam me dar de maneira justa e conveniente? Será este o ser que tem aquilo que mereço?” 
Quando respondeu novamente que sim, foi maravilhoso, formidável, e o indivíduo começou a sentir um vínculo especial com aquele filho, um vínculo assombroso, muito estreito, cheio de expectativas e anseios. De maneira inconsciente, a pessoa estava convencida de que o filho tinha as moedas de que necessitava e não tardaria em lhe dar. Mas passou o tempo, e o filho, como a maioria dos filhos, desejou ter vida própria e pôr em prática seus propósitos de vida independentes. Amava a seus pais e desejava fazer o melhor por eles, mas a pressão de ter uma vida própria lhe resultava exigente, imperiosa e avassaladora como a sexualidade. 
Assim, o indivíduo um dia compreendeu que tampouco o filho tinha as moedas de que necessitava, que merecia e lhe correspondiam. Sentindo-se mais vazio, órfão e desorientado que nunca, entrou em crise. Adoeceu. Estava na fase média da vida e se encontrava de uma forma que nenhum argumento já o sustentava, nenhuma razão o acalmava. 
Sentiu seu interior se quebrar e gritou: “SOCORRO!”
Havia tanta urgência em seu tom de voz! Seu rosto estava tão desfigurado!
Nada o acalmava, nada podia confortá-lo.

E o que ele fez? Foi a um terapeuta.
O terapeuta prontamente o recebeu. Olhou profunda e pausadamente para o indivíduo e disse:
“Eu não tenho as moedas.”
O terapeuta viu nos olhos de seu paciente que ele continuava buscando as moedas no lugar errado e que, no fundo, desejava se equivocar mais uma vez. Ele sabia que as pessoas desejam mudar, mas também que lhes custa dar o braço a torcer, não tanto por dignidade, mas por teimosia e costume. Mas o terapeuta, que sabia que não tinha as moedas em mãos, pensou:
Amo e respeito melhor meus pacientes quando também posso fazer o mesmo com seus pais e com sua realidade tal como é. Ajudo quando sou amigo das moedas que lhes cabem, quaisquer que sejam. 
Na realidade, aquele terapeuta já vira muitas pessoas em situações similares e sabia que:
O paciente, e o menino que segue vivendo em seu interior, continua amando profundamente seus pais e lhes guarda lealdade, ainda que o ardor das feridas e outras causas lhe impeçam de aceitar suas moedas. É que, nas profundezas da alma, ainda que o filho reprove seus pais, também se identifica com eles. E, quando não pode acolhê-los e amá-los, tampouco consegue amar a si mesmo. Por isso, seu enfoque é o amor a tudo e a todos. 

Naquela primeira visita, o terapeuta acrescentou:
“Eu não tenho as moedas, mas sei onde estão e podemos trabalhar juntos para que também você descubra onde estão e como pegá-las”. 

Então, o terapeuta trabalhou com esse indivíduo e lhe mostrou que durante muitos anos ele tivera um problema de visão, um problema óptico, um problema de perspectiva. Tivera dificuldades para ver claramente. Só isso. O terapeuta o ajudou a ajustar o foco e a regular seu olhar, a perceber a realidade de outra maneira, a partir de uma perspectiva mais clara, mais centrada e mais aberta aos propósitos da vida. Uma maneira menos dependente dos desejos pessoais do pequeno eu que sempre tenta nos governar. Um dia, enquanto esperava pelo paciente, o terapeuta pensou que havia chegado o momento de dizer, por fim e claramente, onde estavam as moedas.

E, nesse mesmo dia, como que por encanto, o paciente chegou com outra coloração de pele. As feições de seu rosto haviam se suavizado. E disse:
“Sei onde estão as moedas. Continuam com meus pais.” 
Primeiro soluçou, em seguida chorou abertamente. Depois veio o alívio, a paz e a sensação de calor no peito. Por fim! Então, dirigiu-se novamente, como anos atrás, à casa de seus pais. Quando ali chegou, olhou-lhes nos olhos e disse:
“Durante todos estes anos tive um problema de visão, uma perspectiva ilusória. Não via claramente. Sinto muito. Agora posso ver e venho dizer-lhes que aquelas moedas que recebi de vocês em sonhos são as melhores moedas possíveis para mim. São suficientes e me correspondem. São as moedas que mereço e são adequadas para que eu possa seguir adiante. Venho lhes agradecer. As aceito com gosto, porque vêm de vocês, e com elas posso seguir trilhando meu próprio caminho.” 
Então os pais, que como todos os pais se engrandecem pelo reconhecimento dos filhos, voltaram a florescer, e o amor e a generosidade fluíram novamente com facilidade. O filho voltava a ser filho plenamente porque era capaz de aceitá-los. Os pais, sorridentes, o olharam com ternura e responderam:
“É um bom filho. Pode ficar com todas as moedas, pois lhe pertencem. Pode gastá-las como quiser e não é preciso devolvê-las. São seu legado, único e pessoal, para você. Pode ter uma vida plena.”
Então, o filho também se sentiu grande e pleno. Percebeu-se completo e rico e pôde por fim deixar em paz a casa dos pais.

À medida que se afastava, sentiu os pés firmes pisando intensamente no solo, seu corpo também assentado na terra e os olhos voltados para um caminho claro e um horizonte promissor. Também sentiu algo estranho: perdera a força impetuosa que se alimentava do ressentimento, do vitimismo e do excesso de conformismo, mas agora tinha uma força simples e tranquila, uma força natural. 

Percorrendo o caminho que restava de sua vida, encontrou outras pessoas com as quais caminhou lado a lado, como acompanhante, durante um trecho, às vezes longo, às vezes curto, outras, para sempre. Sócios, amigos, casais, vizinhos, companheiros, colaboradores, inclusive adversários. Em geral, seu caminho foi sereno, prazeroso, em sintonia com seu espírito e com sua natureza pessoal. Tampouco esteve isento dos pesares naturais impostos pela vida, mas sentia que aquele sim era o caminho de sua vida.

Um dia se aproximou da pessoa pela qual havia se apaixonado crendo que ela tinha as moedas e disse: “Durante muito tempo tive um problema de visão, e agora que enxergo claramente lhe digo: Sinto muito, esperei demais dessa relação. Foram demasiadas as minhas expectativas, e sei que isso foi uma carga muito pesada para você e agora a assumo. Tomo consciência e a libero. Assim, o amor que tivemos pode seguir fluindo. Agradeço. Agora tenho minhas próprias moedas.” 

Em outro momento foi até seu filho e disse:
“Você pode aceitar todas as minhas moedas, porque eu sou uma pessoa rica e completa. Agora já peguei as minhas de meus pais.” Então o filho se tranquilizou, se fez pequeno em respeito a ele e se sentiu livre para seguir seu próprio caminho e aceitar suas próprias moedas. 

Ao fim de seu longo caminho, o indivíduo se deteve a repassar a vida vivida, o amado e o sofrido, o construído e o danificado. A tudo e a todos conseguiu dar um bom lugar em sua alma. Acolheu a todos com doçura e pensou: 
Tudo tem sua hora na vida: a hora de chegar, a hora de permanecer e de partir. Uma metade da vida é para subir a montanha e gritar aos quatro ventos “Eu existo!”
E a outra metade é para o declínio até o vazio, onde tudo é desprender-se, alegrar-se e celebrar.
A vida tem seus assuntos e seus ritmos sem deixar de ser o sonho que sonhamos.


Joan Garriga Bacardí 





domingo, 30 de junho de 2019

És Pedra Bruta Em Criação


Escultura Self Made Man
Bobbie Carlyle



És pedra bruta em criação
Metamorfose, sentido único
Do teu templo, és a própria matéria em construção
Viagem interior e de amor
Perdão, desapego, aceitação
Mergulho ao fundo de ti
Hoje choras o que amanhã contemplas com louvor
Tornas-te o homem de que tudo ri
O homem que também de tudo chora profundamente
Que das mudanças sente a dor
E ainda assim segue corajosamente
Das vivências, guardas as memórias
Para o futuro levas o essencial
Do passado ficam as histórias
E como lição que aprendeste a mal
Aprendeste a soltar tudo o que não seja teu
Como lição que aprendeste a bem
Aprendeste a confiar no silêncio que te fortaleceu



Ricardo Moutinho




quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A PALAVRA SEDA






A atmosfera que te envolve
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.

E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.

É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.

E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,

nada tem da superfície
luxuosa, falsa, académica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.

Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma,
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,

há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,

de animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza, que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda.



João Cabral de Melo Neto









terça-feira, 28 de agosto de 2018

Flor de Lótus





A natureza é tão apaixonante que nos dá as respostas mais inesperadas quando nem sequer pensávamos que poderia existir mais além da nossa própria mente, das nossas próprias esperanças e do nosso próprio desejo de seguir em frente. Longe de mostrar uma realidade monótona e previsível, cada canto no qual a natureza brota com liberdade nos deixa um novo ensinamento sobre o que significa habitar este mundo.

Não apenas é generosa para com a ciência, mas também com nossos próprios sentidos e com nossa própria espiritualidade. Tanto é verdade que, na grande diversidade de manifestações, espécies e fenómenos que provoca, nos deparamos com autênticas lições de como enfrentar a vida. Autênticas teorias psicológicas sem controle de variáveis nem análise de confiabilidade ou validade, mas que contêm uma mensagem cuja beleza e significado é indiscutível.

Dentre todos os fenómenos infinitos e curiosos da natureza está a flor de lótus. Um fenómeno que é uma metáfora apaixonante sobre a vida e as adversidades que enfrentamos todos os dias.


A flor de lótus
A flor de lótus é um tipo de lírio d’água cujas raízes têm a base na lama e no lodo de lagoas e lagos. A flor de lótus possui a semente com maior longevidade e resistência: pode aguentar até 30 séculos antes de florescer sem perder a sua fertilidade.

A flor de lótus é símbolo de pureza e beleza que pode surgir em um terreno alagadiço.

Esta bela flor emerge e se nutre de barro, em pântanos ou lugares alagadiços, e quando floresce se eleva sobre o lodo. De noite, as pétalas da flor se fecham e ela mergulha sob a água. Ela se fecha para mergulhar, mas ao amanhecer se levanta novamente sobre a água suja, intacta e sem restos de impureza por causa da disposição das suas pétalas em forma de espiral.

A flor de lótus tem a peculiaridade de ser a única flor que é fruto ao mesmo tempo: o fruto tem a forma de cone invertido e está no seu interior. Quando a flor está fechada ela não tem cheiro, mas quando se abre o seu aroma lembra o jacinto. Muitos consideram o seu aroma hipnotizante, capaz de alterar o estado da consciência.


Mitologia sobre a flor de lótus
O fascínio por esta flor fez com que ela se tornasse um símbolo fundamental para diversas civilizações ao longo da história. A flor de lótus é considerada sagrada e um dos símbolos mais antigos com diversos significados para os países do Oriente, embora também encontremos diversas referências a elas no mundo ocidental.

Na mitologia grega, os lotófagos eram um povo místico que os antigos identificavam como os habitantes de uma povoado ao nordeste da África. Diz a lenda que uma bela deusa se perdeu em um bosque até chegar a um lugar onde abundava o lodo, denominado lótus, onde ela afundou.

Este espaço havia sido criado pelos deuses para os seres cujos destinos haviam sido fracassar na vida. Contudo, a jovem lutou durante milhares de anos até que conseguiu sair dali transformada em um bela flor de lótus, simbolizando o triunfo da perseverança diante das situações adversas.

No contexto budista, o lótus serve como assento ou trono para Buda e indica um nascimento divino. No mundo cristão, a flor de lótus é o lírio branco que significa tanto fertilidade quanto pureza. Tradicionalmente, o Arcanjo Gabriel leva para a Virgem Maria o lírio da Anunciação.


A flor de lótus e o seu significado para a psicologia

A flor de lótus representa o poder da resistência psicológica como capacidade para transformar a adversidade em potencialidade. Suzanne C. Kobasa, psicóloga da Universidade de Chicago, conduziu várias pesquisas nas quais detectou que os indivíduos com personalidade resistente têm uma série de características em comum. Costumam ser pessoas de grande compromisso, controle e orientadas ao desafio.

“As pessoas mais belas com as quais tive a oportunidade de me encontrar são aquelas que conheceram a derrota, conheceram o sofrimento, conheceram a luta, conheceram a perda e encontraram o seu jeito de sair das profundezas.”
-Elisabeth Kübler-Ross-


Mais tarde esta explicação foi transformada no termo resiliência, a essência da personalidade resistente.

A resiliência é definida como a capacidade dos indivíduos de superar períodos de dor emocional e grandes adversidades.

A flor de lótus implica uma metáfora maravilhosa de como existem pessoas capazes de dobrar a dor e desdobrá-la posteriormente em forma de serenidade, autocontrole e persistência.




O LÓTUS  e o LÍRIO  – As flores da alma

O lótus é a flor sagrada dos hindus e dos egípcios; é o simbolo de Horus e Brahma.
Ele é encontrado em todos os Templos do Nepal e do Tibet e representa o poder de regeneração da vida e a produção da natureza pelo poder do fogo e da água.

Na mitologia do Budismo, Mahâ-Mâyâ  (ou Mahâ Devi) a mãe de Gautama Buda deu a luz seu filho anunciado pelo Bodhisattva que apareceu ao pé do seu leito com um lótus na mão.

No ocultismo o lírio tem o mesmo significado para o Ocidente.
Maria deu a luz seu filho Jesus depois da anunciação feita pelo Arcanjo Gabriel com um lírio na mão. Horus também é representado com lótus.Imagem relacionada

O lótus é o resultado do fogo e da água que nos remete ao simbolismo dual da matéria e o espírito.
O Eterno é o espírito do fogo que desperta e frutifica e cria uma forma concreta para tudo o que sai da terra ou da água.

É com o calor do fogo que se fundem e transformam os metais; a água esfria, mas não acaba com o fogo. O que elimina o fogo e o apaga é a falta de oxigênio. Ao aumentar a água o oxigênio diminui.

O lótus nasce da água, se ilumina, abre suas flores e brilha pela ação do fogo.
O lírio também traz sua brancura imaculada da terra pura. Ambos representam o espírito ou a alma que busca seu caminho.

‘No início tudo era escuridão’, dissem as escrituras sagradas, mas a Luz se fez e tudo se iluminou.
O ocidente tentou que o cristianismo ocupasse o lugar do lótus com o lírio, mas esqueceu de que a natureza se manifesta com perfeição e não através de crenças que, mesmo sendo idênticas, querem se mostrar diferentes.

Sempre que o lírio ou o lótus aparecem representam a transmutação da escuridão em Luz; é o invisível que passa do desconhecido conscientemente ao concreto como forma visível.
É o momento da ‘tomada de consciência’ em relação a situações da vida que parecem escuros, mas precisam se iluminar à Luz da sabedoria.

Este é o momento do insight em psicologia, é quando ‘acordamos’ e abrimos os olhos para poder ver melhor a realidade. A Luz e pureza do lírio e do lótus são magníficos e nos impressionam porque acionam o cérebro para a memória celular levando-nos imediatamente à boa lembrança da Luz e do Paraíso, do Éden em que tudo era Luz.

Por isso que se na meditação ou em sonhos quando aparecem lírios ou lótus sempre são bons presságios.


Rakel Possi





Venerada em muitos lugares, desde Índia, China, Japão e Egito, a flor de Lótus durante muito tempo simbolizou a criação, a fertilidade e, sobretudo, a pureza, uma vez que essa bela flor emerge das águas sujas, turvas e estagnadas. Além disso, representa a beleza e o distanciamento pois cresce sem se sujar nas águas que a envolvem (a raiz está na lama, o caule na água e a flor no sol).

Na crença hindu, simboliza a beleza interior: “viver no mundo, sem se ligar com aquilo que o rodeia”.

No Egito, essa flor atípica simboliza a “origem da manifestação”, ou seja, o nascimento e o renascimento visto que ela abre e fecha consoante o movimento solar e, ademais, está relacionada com os deuses Nefertem e Re. Vale lembrar que o lótus azul era venerado pelos faraós do Egito por possuir características sagradas e mágicas associadas ao renascimento.

O significado da flor de lótus começa em suas raízes – literalmente! A flor de lótus é um tipo de lírio d’água, cujas raízes estão fundamentadas em meio à lama e ao lodo de lagoas e lagos. O lótus vai subindo à superfície para florescer com notável beleza. O simbolismo está especialmente nesta capacidade de enfrentar a escuridão e florescer tão limpa, tão bonita e tão especial para tantas pessoas.

À noite as pétalas da flor se fecham e a flor mergulha debaixo d’água. Antes de amanhecer, ela levanta-se das profundezas novamente, até ressurgir novamente à superfície, onde abre suas pétalas novamente. Por causa desse ritualismo, os egípcios antigos associavam a flor de lótus com o deus do sol Ra, porque a flor se fecha durante a noite e se abre todas as manhãs com o ressurgimento do sol.

É também a única planta que regula o seu calor interno, mantendo-o por volta dos 35º, isto é, a mesma temperatura do corpo humano. Outra característica peculiar são suas sementes, que podem ficar mais de 5 mil anos sem água, somente esperando a condição ideal de umidade pra germinar.


Lenda da flor de Lótus no budismo

lotusNa lenda do Budismo relata-se que quando o Siddhartha, que mais tarde se tornaria Buda, deu os seus primeiros sete passos na terra, sete flores de lótus brotaram. Assim, cada passo dele representa um degrau no crescimento espiritual.

Os Budas em meditação são representados sentados sobre flores de lótus, e a expansão da visão espiritual na meditação (dhyana) está simbolizada pela abertura das pétalas das flores de lótus, que podem estar totalmente fechadas, semiabertas ou completamente abertas, dependendo do estágio da expansão espiritual.


Lenda da flor de lótus no hinduísmo

Na Índia, uma pequena lenda conta a historia de sua criação: Um dia, reuniram-se para  uma conversa, à beira de um lago tranquilo cercado por belas árvores e coloridas flores, quatro lendários irmãos. Eram eles o Fogo, a Terra, a Água e o Ar.

Como eram raras as oportunidades de estarem todos juntos, comentavam como haviam se tornado presos a seus ofícios, com pouco tempo livre para encontros familiares. Mas a Água lembrou aos irmãos que estavam cumprindo a lei divina, e este era um trabalho que deveria lhes trazer o maior dos prazeres.

Assim, aproveitaram o momento para confraternizar e contar, uns aos outros, o que haviam construído – e destruído – durante o tempo em que não se viam. Estavam todos muito contentes por servirem à criação e poderem dar sua contribuição à vida, trabalhando em belas e úteis formas.

Então se lembraram de como o homem estava sendo ingrato. Construído ele próprio pelo esforço destes irmãos, não dava o devido valor à vida. Os irmãos chegaram a pensar em castigar o homem severamente, deixando de ajudá-lo. Mas, por fim, preferiram pensar em coisas boas e alegres.

Antes de se despedir, decidiram deixar uma recordação ao planeta deste encontro. Queriam criar algo que trouxesse em sua essência a contribuição de cada um dos elementos, combinados com harmonia e beleza. Sentados à beira do lago, vendo suas próprias imagens refletidas, cada um deu sua sugestão e muitas ideias foram trocadas. Até que um deles sugeriu que usassem o próprio lago como origem.

Que tal um ser vivo que surgisse da água e se crescesse em direção ao céu? Uma vegetal, talvez? Decidiram-se, então, por uma planta que tivesse suas raízes rente à terra, crescesse pela água e chegasse à plenitude do ar. Ofereceram, cada um, o seu próprio dom. A Terra disse: “darei o melhor de mim para alimentar suas raízes”.

A Água foi a próxima: “Fornecerei a linfa que corre em meus seios, para trazer-lhe força para o crescimento de sua haste”. “E eu lhe cercarei com minhas melhores brisas, dando-lhe minha energia e atraindo sua flor”, disse o Ar. Então o Fogo, para finalizar o projeto, escolheu o que de melhor tinha a oferecer: “ofereço o meu calor, através do sol, trazendo-lhe a beleza das cores e o impulso do desabrochar”.

Juntos, puseram-se a trabalhar, detalhe a detalhe, na sua criação conjunta. Quando finalizaram sua obra, puderam se despedir em alegria, deixando sobre o lago a beleza da flor que se abria para o sol nascente. Assim, em vez de punir o ser humano, os quatro irmãos deixaram-lhe uma lembrança da pureza da criação e da perfeição que o homem pode um dia alcançar.


Lendas egípcias da flor de lótus

A flor de Lótus é uma planta sagrada no Egito Antigo, onde é retratada no interior das  lótus azulpirâmides e nos antigos palácios do Egito. Segundo uma lenda, a flor está relacionada à criação do mundo e o umbigo do Deus Vishnu, onde teria nascido uma brilhante flor de lótus e desta teria surgido outra divindade, o Brahma, o criador do cosmo e dos homens. Outra lenda egípcia diz que o deus do sol Horus, nasceu também de uma flor de Lótus.


in, Japão em Foco




quinta-feira, 26 de julho de 2018

A Favor do Vento





Se ninguém se posicionasse contra a violência, contra a corrupção e contra outras tantas indignidades, viver seria ainda mais difícil do que normalmente é. Ser combativo é uma atitude necessária e exige bravura, coragem, empenho, espírito de luta. Meus aplausos e respeito a quem tem disposição para o enfrentamento.

Eu deixei de ter faz tempo. Lutei pelo o que eu queria lutar quando era garota e o saldo foi bom, mas parei de dar murro em ponta de faca e troquei de estratégia. Hoje, em vez de me posicionar contra isso e aquilo, em vez de ataques virulentos e muitas vezes quixotescos, prefiro viver de acordo com o que acredito que é certo. Funciona também, e desgasta menos.

Na esfera privada, não tento mais fazer ninguém mudar de ideia. Desisti de trazer para perto quem prefere ficar afastado. Não crio ilusão de que o que já se provou ineficaz um dia funcionará por obra do Espírito Santo. Não me fixo mais nos defeitos dos outros. Não perco a cabeça quando ouço asneiras (antes tinha vontade de sacudir a pessoa pelos ombros, fazendo seus cabelos voarem para frente e para trás como se fosse um boneco de pano). Há muito que não espero que os outros ajam conforme eu gostaria. Não aguardo favores, elogios ou adesões. Não fico em estado de alerta para flagrar quando pisam na bola comigo – percebo quando pisam, mas procuro não stressar com isso. Nem sempre consigo ser tão magnânima, mas tento. E, por fim, perdoo. Não por ter parentesco em primeiro grau com Nossa Senhora, mas porque dá menos trabalho.

Lei do menor esforço, sim. Mas com resultados práticos muito favoráveis.

Agora escolho os caminhos menos tortuosos e as parcerias mais afetivas, sinceras e engraçadas. Se me fizer rir, está valendo. Digo não com a mesma facilidade com que digo sim: passei a ser 100% honesta em relação aos meus desejos, deixei de ser condescendente com o que não me satisfaz. Só tolero dificuldades que gerem algo positivo mais à frente. Cumpro tudo aquilo que eu exigiria dos outros se ainda tivesse disposição para fazer exigências. Agora só exijo de mim, e ainda assim, pouco.

A minha porção rigorosa e mesquinha existe, mas tenho educação suficiente para não exibi-la por aí. A minha parte canalha restrinjo aos meus pensamentos secretos. Sou do contra só quando contra mim. A briga é interna e não muito violenta: não me aplico golpes baixos. Meus demônios são inimigos adestrados.

No mais, sigo a favor do vento. Falo com clareza, faço escolhas condizentes com quem sou e facilito o que posso. Talvez, para alguns, uma vida sem tormentas diárias produza um vazio impossível de suportar. Cada um, cada qual. Eu joguei a toalha: o que não suporto mais nessa vida é peso.



Martha Medeiros




sexta-feira, 20 de abril de 2018

...................... não me senti amado enquanto criança





Tive durante muito tempo dificuldade em aceitar-me, porque não me senti amado enquanto criança.
Não culpo ninguém. Não preciso, nem quero.
Não posso ser amado por quem não se ama a si mesmo.

Fui cuidado e aprendi a criar um mundo onde me senti mais a salvo.
Cresci a parecer quem não me sentia por dentro. Acreditei que ninguém podia perceber que era inseguro e estava muito sozinho.

Um dia, fiz as pazes com tudo o que me fez sofrer e parti por minha conta e risco.
Virei as costas ao que não me fazia mais chorar nem sorrir e fui escrever a minha história.
Sujei muitas folhas. Parti muitas canetas. Rasguei capítulos e apaguei demasiadas linhas. Fiz muito sem saber bem o que fazia.

Fiz tudo na procura do que a vida me foi colocando no caminho.
Encontrei demónios e anjos. Luz e sombras. Paixões e ilusões. Memórias e esquecimentos.
Uma vida que fiz à minha medida e de mais ninguém.
Como o fundo dos meus bolsos. Cheios de tudo e sem medo de ficar sem nada.


José Micard Teixeira




terça-feira, 17 de abril de 2018

Forgiveness, affection, detachment and liberation





“I release my parents from the feeling that they have already failed me.
I release my children from the need to bring pride to me; that they may write their own ways according to their hearts, that whisper all the time in their ears.
I release my partner from the obligation to complete myself. I do not lack anything, I learn with all beings all the time.
I thank my grandparents and forefathers who have gathered so that I can breathe life today. I release them from past failures and unfulfilled desires, aware that they have done their best to resolve their situations within the consciousness they had at that moment. I honor you, I love you and I recognize you as innocent.
I am transparent before your eyes, so they know that I do not hide or owe anything other than being true to myself and to my very existence, that walking with the wisdom of the heart, I am aware that I fulfill my life project, free from invisible and visible family loyalties that might disturb my Peace and Happiness, which are my only responsibilities.
I renounce the role of savior, of being one who unites or fulfills the expectations of others.
Learning through, and only through, LOVE, I bless my essence, my way of expressing, even though somebody may not understand me.
I understand myself, because I alone have lived and experienced my history; because I know myself, I know who I am, what I feel, what I do and why I do it.
I respect and approve myself.
I honor the Divinity in me and in you.
We are free." 
(This ancient blessing was created in the Nahuatl language, spoken in Mexico. It deals with forgiveness, affection, detachment and liberation).




quarta-feira, 4 de abril de 2018

Aviso à Navegação





Alto lá! 
Aviso à navegação! 
Eu não morri: 
Estou aqui 
na ilha sem nome, 
sem latitude nem longitude, 
perdida nos mapas, 
perdida no mar Tenebroso!

Sim, eu, 
o perigo para a navegação! 
o dos saques e das abordagens, 
o capitão da fragata 
cem vezes torpedeada, 
cem vezes afundada, 
mas sempre ressuscitada!

Eu que aportei 
com os porões inundados, 
as torres desmoronadas, 
os mastros e os lemes quebrados 
- mas aportei!

Aviso à navegação: 
Não espereis de mim a paz!

Que quanto mais me afundo 
maior é a minha ânsia de salvar-me! 
Que quanto mais um golpe me decepa 
maior é a minha força de lutar!

Não espereis de mim a paz!

Que na guerra 
só conheço dois destinos: 
ou vencer – ai dos vencidos! – 
ou morrer sob os escombros 
da luta que alevantei!

- (Foi jeito que me ficou 
não me sei desinteressar 
do jogo que me jogar.)

Não espereis de mim a paz, 
aviso à navegação!

Não espereis de mim a paz 
que vos não sei perdoar!


Joaquim Namorado
in, 'Antologia Poética'