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sábado, 1 de agosto de 2026

Go to the Limits of Your Longing



Pranab Basak






God speaks to each of us as he makes us,
then walks with us silently out of the night.

These are the words we dimly hear:

You, sent out beyond your recall,
go to the limits of your longing.
Embody me.

Flare up like flame
and make big shadows I can move in.

Let everything happen to you: beauty and terror.
Just keep going. No feeling is final.
Don’t let yourself lose me.

Nearby is the country they call life.
You will know it by its seriousness.

Give me your hand.



Rainer Maria Rilke
in, Book of Hours: Love Poems to God  




terça-feira, 28 de julho de 2026

Let This Darkness Be a Bell Tower


Pranab Basak






Quiet friend who has come so far,

feel how your breathing makes more space around you.
Let this darkness be a bell tower
and you the bell. As you ring,

what batters you becomes your strength.
Move back and forth into the change.
What is it like, such intensity of pain?
If the drink is bitter, turn yourself to wine.

In this uncontainable night,
be the mystery at the crossroads of your senses,
the meaning discovered there.

And if the world has ceased to hear you,
say to the silent earth: I flow.
To the rushing water, speak: I am.

 

Rainer Maria Rilke




segunda-feira, 27 de julho de 2026

Ahead of all parting


Victor Hugo Casillas Romo





Be ahead of all parting, as if it had already happened.
like winter, which even now is passing.
For beneath the winter is a winter so endless
that to survive it at all is a triumph of the heart.

Be forever dead in Eurydice, and climb back singing.
Climb praying as you return to connection.
Here among the disappearing, in the realm of the transient,
be a ringing glass that shatters as it rings.

Be. And, at the same time, know what it is not to be.
The non-being inside you allows you to vibrate
in full resonance with your world. Use it for once.

To all that has run its course, and to the vast unsayable
numbers of beings abounding in Nature,
add yourself gladly, and cancel the cost.



Rainer Maria Rilke 
In, Praise of Mortality: Rilke's Duino Elegies & Sonnets to Orpheus




quinta-feira, 28 de setembro de 2023

O Humano Feminino

Lady-Photo




Por certo, as mulheres, em quem a vida se detém, permanece e mora de um modo mais imediato, mais fecundo, mais confiado, devem ter-se tornado seres mais maduros e mais humanos do que os homens. 

Este, além de leviano – por não o obrigar o peso de nenhum fruto das suas entranhas a descer sob a superfície da vida – é também vaidoso, presunçoso, confuso, e menospreza, na realidade, a quem crê amar…

Esta mais profunda humanidade da mulher, consumada entre sofrimentos e humilhações, sairá à luz e virá a resplandecer quando as mudanças e transformações da sua condição externa se houver desprendido e libertado dos convencionalismos alheios ao meramente feminino. 

Os homens, aqueles que não pressintam esse advento, sentir-se-ão surpreendidos e vencidos. 
Chegará um dia, que indubitáveis sinais percursores anunciam já de um modo eloquente e brilhante, sobretudo nos países nórdicos, em que aparecerá a mulher cujo nome já não significará apenas algo oposto ao homem, mas sim algo próprio, independente. 

Nada que faça pensar num complemento ou limite, senão somente em vida e em ser: 
o Humano feminino.


Rainer Maria Rilke 
in, "Cartas a um Jovem Poeta"



 




terça-feira, 6 de junho de 2023

Solidão, grande e íntima solidão

 


Christophe Dutour



Só existe uma solidão. 
É grande e difícil de suportar. 
E quase todos nós conhecemos horas em que de bom grado a cederíamos a troco de qualquer convivência, por muito trivial e mesquinha que fosse; até pela simples ilusão de uma pequena coincidência com qualquer outro ser, mesmo com o primeiro que aparecesse, ainda que assim resultasse talvez menos digno. 

Mas acaso sejam estas, precisamente, as horas em que a solidão cresce – pois o seu desenvolvimento é doloroso como o crescimento das crianças e triste como o início da Primavera – ela, sem embargo, não deve desconcertá-lo, pois o único que, por certo, nos faz falta é isto: Solidão, grande e íntima solidão.

Mergulhar em si mesmo e, durante horas e horas, não encontrar ninguém…
Isto é o que importa conseguir. 

Estarmos sós, como estivemos sós quando éramos crianças, enquanto á nossa volta andavam os grandes de um lado para o outro, enredados em coisas que pareciam importantes e grandes, só porque eles se mostravam muito atarefados, e porque nós não entendíamos nada dos seus afazeres. 

Ora bem, se um dia os adultos acabarem por descobrir quão pobres são as suas ocupações, e como as suas profissões são vazias e falhas de qualquer nexo com a vida, porque não seguir, então, olhando todas essas coisas com os olhos da infância, como se fosse algo exterior e estranho? 

Porque não olhar tudo de longe, da profundidade do nosso próprio mundo, desde os extensos domínios da nossa própria solidão, que é também trabalho e dignidade e ofício?

Pouca coisa sabemos. 
Mas sempre sabemos que nos devemos ater ao que é difícil, e isso é uma certeza que nunca nos abandonará. 
É bom estar só, porque também a solidão resulta ser difícil. 
E algo que seja difícil deve ser para nós um motivo suplementar para o levar a cabo. 

Também é bom amar, pois o amor é coisa difícil. 
O amor de um ser humano por outro: isto é, talvez, o mais difícil que já nos foi incumbido. 
É a prova suprema e derradeira, a tarefa final, ante a qual todas as outras não foram senão um ensaio. Por isso, não sabem nem podem amar ainda os jovens, que em tudo são principiantes. 

Hão-de aprendê-lo. 
Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em torno do coração solitário e angustiado que palpita alvoraçadamente – devem aprender a amar. 
Mas toda a aprendizagem é sempre um longo período de retiro e clausura. 

Assim, o amor é por muito tempo e até muito longe dentro da vida, solidão, isolamento crescido e aprofundado por aquele que se ama. 
Amar não é, em princípio, nada que possa significar absorver-se em outro ser, nem entregar nem unir-se a ele. Pois, o que seria uma união entre dois seres inacabados, falhos de luz e liberdade? 


Amar é antes uma oportunidade, 
um motivo sublime, 
que se oferece a cada indivíduo 
para amadurecer 
e chegar a ser algo em si mesmo; 
para tornar-se um mundo, todo um mundo, 
por amor a outro.




Rainer Maria Rilke 
in, "Cartas a um Jovem Poeta"




quarta-feira, 6 de julho de 2022

Tumbas das Hetairas


“In Bed with the Ancient Greek”
Museu de Arte de Berlim






Em seus longos cabelos elas jazem,
rostos escuros, encerrados em si mesmos,
olhos cerrados como se distantes.
Esqueletos e bocas, flores. E nas bocas
dentes polidos, como num xadrez de bolso,
peças enfileiradas em marfim.
Flores, pérolas amarelas, ossos finos
e mãos e mantas, murchas vestimentas,
e lá no fundo, o coração cravado.
Mas sob anéis e talismãs e pedras
de olhos azuis (regalos preferidos),
ainda resta, em sua cripta, o sexo mudo,
cumulado de pétalas de flores.
Pérolas amarelas, ainda, esparsas,—
pratos de terracota, curvos, adornados
de suas imagens, cacos verdoengos
de jarras de óleo olentes como flores,
miniaturas de deuses e altares,
céus de hetairas, deuses desejantes.
Cintos soltos, escaravelhos-pedras,
vultos pequenos com enormes falos,
boca ridente, atletas, dançarinas,
fíbulas de ouro, como arcos de caça
para amuletos de animais e pássaros,
e agulhas finas, utensílios raros,
e sobre um vaso circular, vermelho,
como a negra inscrição de algum portal,
as pernas rígidas de uma quadriga.
De novo flores, perólas roladas,
as ancas lisas da pequena lira,
e dentre os véus que caem como névoa,
como se de crisálidas-sandálias:
a borboleta leve de um artelho.

Jazem assim, acúmulo de coisas,
coisas preciosas, pedras, jóias, jogos,
bagatelas (caidas sobre elas)
no escuro, como se o leito de um rio.

Pois elas foram rios,
e em ondas breves e velozes, nelas,
precipitaram-se os corpos de jovens
(que ansiavam só por uma vida nova)
e torrentes de homens irromperam.
E às vezes os meninos das colinas
da infância vinham em tímidas quedas,
brincavam com as coisas até quando
a cachoeira enchia os seus sentidos:

Então davam à água rasa e clara
toda a extensão dos cursos expansivos
e enfrentavam remoinhos e águas fundas,
refletindo, pela primeira vez, as margens
e a voz dos pássaros ao longe —, e as noites
estelares de um país ameno abriam
um céu que nunca mais se fecharia.



Rainer Maria Rilke
in, em “Novos poemas I”





As heteras ou hetairas (do grego ἑταίραι, transl. hetaírai: 'companheiras', 'amigas'), na sociedade da Grécia Antiga, eram prostitutas refinadas, que, além da prestação de serviços sexuais, ofereciam companhia e sabedoria, frequentemente tinham relacionamentos duradouros com seus clientes, diferenciavam-se das prostitutas comuns (pornoi) da época, pois além do prazer carnal, ofereciam prazer cultural para seus companheiros, tendo casos com os homens que as procuravam.

O nome Hetaira, significa companheira, e foi utilizado em alusão a Afrodite Hetera, um dos epítetos da deusa Afrodite.




Necessidades maiores do que o gozo

 






A satisfação própria do sexo 
é uma emoção sensual 
como o simples mirar.

 
Ou, como a mera sensação que cumula a língua enquanto se saboreia uma fruta deliciosa. 
É uma experiência maior, infinita, que nos é oferecida; um conhecer do mundo, a plenitude e o esplendor de todo o saber…
E o que é errado não é viver esta experiência, mas sim que quase todos abusem dela e a dissipem. 

Empregando-a como incentivo e dissipação nos momentos de maior lassidão, em vez de a viver em recolhimento para alcançar sublimes êxtases. 


Também do comer, decerto, fizeram os homens outra coisa. 
Por um lado a miséria e, por outra a opulência excessiva, deslustraram esta necessidade. 

De modo semelhante se turvaram também outras necessidades profundas e singelas, em função das quais a vida se renova. Mas cada indivíduo, para si mesmo, pode resgatar a sua pureza, vivendo-as com límpida singeleza. 

Se isto não está ao alcance de qualquer indivíduo – porque cada um depende demasiado dos outros – está ao alcance do homem solitário. Este pode recordar-se que tanto nas plantas como nos animais, toda a beleza é uma calada e persistente forma de amor e anseio. 
Pode também ver como os animais e as plantas se unem, multiplicam-se e crescem sem conhecer nenhum prazer ou sofrimento físico, mas sim curvando-se ante necessidades maiores do que o gozo e a dor, mais poderosas que toda a vontade e toda a resistência. 

Oh! Se o homem pudesse acolher com o espírito humilde e levar com maior seriedade este mistério do qual está prenhe a terra mesmo nas suas coisas mais pequenas. 
E o suportara, sentindo quão terrível e esmagador é o seu peso, em vez de o encarar de forma ligeira! 
E se inclinara com profunda veneração ante a sua própria fecundidade, que é apenas uma, quer pareça material ou espiritual. 

Pois também o criar do espírito ascende do mundo físico. 
É da sua mesma essência e como uma reprodução mais subtil, mais extasiante e mais perene do gozo carnal. 


Rainer Maria Rilke 
in, "Cartas a um Jovem Poeta"




quarta-feira, 29 de junho de 2022

Tão tristes e tão felizes

 




 

Se não existir nada de comum entre você e as outras pessoas, procure viver próximo das coisas. 
Elas não o abandonarão. 

Ainda há noites, e ventos que silvam entre as árvores e por cima de muitas terras. 
Ainda, em coisas e em animais, está tudo repleto de acontecimentos que você pode compartilhar. 
E também as crianças continuam a ser como você próprio foi em criança: tão tristes e tão felizes. 

Enquanto você pensa na sua infância, voltará a viver entre elas, as crianças solitárias. 
E então, as pessoas maiores já não significarão nada, nem terá qualquer valor a sua dignidade. 


Rainer Maria Rilke 
in, "Cartas a um Jovem Poeta"





quinta-feira, 28 de abril de 2022

Os Cadernos de Malte Laurids Brigge

 






“Há muitas pessoas, mas há ainda muitas mais caras, pois cada uma tem várias. Há pessoas que usam uma cara anos seguidos; gasta-se naturalmente, suja-se, quebra nas rugas, alarga como as luvas que se usaram em viagem. São as pessoas simples, poupadas; não mudam de cara, nem a mandam lavar. Serve muito bem, afirmam elas; e quem é que lhes pode provar o contrário? (…) Outras pessoas põem as suas caras com uma rapidez medonha, uma após outra, e gastam-nas. Parece-lhes a princípio que lhes chegam para sempre, mas, mal chegam a quarenta – eis a última. Isto tem naturalmente o seu trágico. Não estão habituadas a poupar caras; a última gastou-se ao cabo de oito dias, tem buracos, está em vários sítios delida e fina como papel, e, a pouco e pouco, vai aparecendo a pasta de baixo, a não-cara, e é com essa que andam”.

 
 “Antigamente sabia-se (ou talvez se pressentisse) que se trazia a morte dentro de si, como o fruto o caroço. As crianças tinham dentro uma pequena e os adultos uma grande. As mulheres tinham-na no seio e os homens no peito. Tinha-se, a morte, e isto dava às pessoas uma dignidade particular e um calmo orgulho”.



“Ah, mas que significam os versos, quando os escrevemos cedo! Devia-se esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e se possível durante uma longa vida, e então, só no fim, talvez se pudessem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo bastante), – são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, – em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós não a compreendemos (era uma alegria para outro -), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurando alto e voaram com todos os astros, - e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos que vinham por acessos. E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já não se distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas”.


 
“Há um ser que é totalmente inofensivo. Quando te vem à vista, mal o notas e esqueces-te logo dele. Mas quando, invisível, de qualquer modo te entra no ouvido, então desenvolve-se lá dentro, sai por assim dizer da casca, e já se viram casos em que penetrou até ao cérebro e medrou neste órgão de maneira devastadora, semelhante aos pneumococos do cão que penetram pelo nariz.
Este ser é o vizinho”.


 
“Quando se fala dos solitários, pressupõe-se sempre uma enorme porção de coisas. Julga-se que as pessoas sabem do que se trata. Não, não sabem. Nunca viram um solitário, apenas o odiaram sem o conhecer. Foram seus vizinhos, os vizinhos que o gastaram, e foram as vozes do quarto ao lado que o tentaram. Excitaram as coisas contra ele, que fizessem barulho e abafassem a sua voz. As crianças aliaram-se contra ele, por ele ser delicado e criança; e à medida que crescia, crescia contra os crescidos. Farejavam-no no seu esconderijo como um bicho que se pode caçar, e a sua longa juventude não teve época de defeso. E quando ele se não deixava esfalfar e se escapava, então, gritavam eles sobre o que dele provinha, e achavam-no feio e tornavam-no suspeito. E quando ele os não queria ouvir, eles tornavam-se mais explícitos e comiam-lhe a comida da boca e respiravam-lhe o seu ar e escarravam na sua pobreza para que ela se lhe fizesse odiosa”.



“O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A dificuldade dele reside no complicado. A vida mesma, porém, é difícil pela simplicidade. Tem apenas algumas coisas de um tamanho que nos não é adequado. O santo, rejeitando o destino, escolhe estas coisas, em face de Deus. Mas que a mulher, conforme à sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, é o que evoca a fatalidade de todas as relações de amor: resoluta e sem destino como uma eterna, ergue-se ela ao lado dele, dele que se transforma. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. O dom de si mesma quer ser desmedido: é esta a sua ventura. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: que se exija dela que limite este dom de si mesma”.




Rainer Maria Rilke
in, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”




sábado, 23 de abril de 2022

Melodia das Coisas


                                                                            DT Nation


 

Seja o que te rodeia, o canto de um candeeiro, a voz da tempestade, a respiração do entardecer ou o gemido do mar - atrás de ti está sempre vigilante uma vasta melodia, tecida de milhares de vozes, na qual o teu solo só tem lugar aqui e ali. 
Saber quando deves fazer a tua entrada, eis o segredo da tua solidão: tal como a arte do verdadeiro relacionamento é: do alto das palavras deixar-se cair na melodia una e comum. 
Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que a linguagem crítica, no qual tudo se reduz sempre a alguns equívocos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser tão compreensíveis ou exprimíveis como geralmente nos querem fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que palavra alguma pisou. Mais inexprimíveis do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres repletos de mistério, cuja vida perdura junto à nossa vida mortal e efémera. 
Desejo que a partir de agora e aqui mesmo fique formulada esta súplica: leia o menos possível os trabalhos de carácter estético-crítico: ou são ditames que, pela sua rigidez e falta de vida, acabaram por perder todo o sentido e petrificaram-se; ou, tão-somente, hábeis jogos de palavras em que prevalece hoje uma opinião e amanhã a opinião contrária. 
As obras de arte vivem imersas numa solidão infinita, e a nada são mais inacessíveis do que à crítica. Apenas o amor logra compreender e fazê-las suas, só o amor pode ser justo para com elas. 
Diante de todas as discussões, glosas e introduções, deixe sempre a sua razão entregue a si mesmo e ao seu próprio sentir. Se daí resultar que não está no caminho certo, o natural desenrolar da sua vida se encarregará de levá-lo paulatinamente e com tempo até outros critérios. 
Deixe que os seus conceitos tenham calmamente e sem qualquer estorvo, o seu próprio desenvolvimento. Como todo o progresso, este há-de surgir de dentro, do mais fundo de si, sem ser apressado nem acelerado por nada. 
Tudo consiste em levar algo no seu interior até à conclusão, e de seguida trazê-lo à luz; deixar que qualquer impressão, qualquer sentimento em gérmen, amadureça por inteiro no seu íntimo, na obscuridade, no indizível, inconsciente e inacessível ao próprio entendimento: até ficar perfeitamente acabado, esperando com paciência e profunda humildade a hora de ser iluminado por uma nova claridade. 
Este e não outro é o viver de um artista: o mesmo no entender como no criar. Aí, não se pode reger pelo tempo. Um ano não tem valor, e dez anos nada são. Ser artista é: não calcular nem contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva, mas permanece tranquila e confiada sob as tormentas da primavera, sem temer que depois dela nunca chegue outro Verão. Apesar de tudo, o Verão chega. Mas, apenas para os que sabem ter paciência e viver de ânimo tranquilo, sereno e vasto, como se diante dele se estendesse a eternidade. 
Isto, eu vou aprendendo em cada dia da minha vida. Aprendo-o entre sofrimentos, aos quais, por tal, fico agradecido. 
A paciência é tudo!


Rainer Maria Rilke
in, Notas Sobre a Melodia das Coisas




 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Celebre o Natal, Senhor Kappus








Meu caro Senhor Kappus,

Não ficará sem uma saudação minha, agora que o Natal se aproxima e que a sua solidão, em dias de festa, começará a pesar-lhe. Mas se notar que ela é grande, alegre-se, pois o que seria uma solidão (faça esta pergunta a si mesmo) sem grandeza? Há apenas uma solidão, que é grande e difícil de suportar, e quase todos conhecem a hora em que gostariam de a trocar por uma qualquer convivência, por mais vulgar e fácil, por uma aparência de harmonia mínima com o mais inferior, com o mais indigno... Mas é talvez nestas horas que a solidão cresce; porque este crescimento é doloroso como o crescimento da criança e triste como o princípio da Primavera. Mas não se deixe perder. Só a solidão é necessária, uma grande solidão interior. Entrar dentro de si e não estar com ninguém horas a fio - tem de ser capaz disso. Estar só, como em crianças estávamos sós, quando os adultos cirandavam por aqui e por ali, enredados em coisas que pareciam grandes e importantes porque os adultos pareciam tão ocupados e porque nada sabíamos dos seus afazeres.

E quando certo dia vemos que as ocupações deles são pobres, que as suas profissões empederniram e já não estão unidas à vida, porque não havemos de continuar a vê-las como uma criança que vê uma coisa estranha, com um olhar que nasce da profundeza do nosso mundo próprio, da largueza da nossa solidão, que é ela mesma trabalho e distinção e profissão? Porquê trocar o sábio não entendimento de uma criança pela aversão e pelo desprezo, se este não entendimento é já uma forma de estar só, ao passo que a aversão e o desprezo são atitudes que nos prendem ao que com elas pretendemos afastar?

Pense no mundo que traz em si, caro Senhor, e dê a este pensamento o nome que quiser; chame-lhe recordação da infância ou nostalgia do seu futuro, mas tenha atenção ao que nasce em si e conceda-lhe um lugar mais alto do que a tudo o que vê à sua volta. O que acontece dentro de si merece todo o seu amor, trabalhe nisso de algum modo e não perca muito tempo nem alento a tentar esclarecer a sua atitude perante os homens. Quem lhe diz a si que esta atitude sequer existe? 

Sei que a sua profissão é dura e contradiz a sua natureza. Previ este lamento e sabia que ele acabaria por chegar. Agora que chegou, não o posso tranquilizar, posso apenas aconselhá-lo a perguntar-se se não serão assim todas as profissões, cheias de imposições, cheias de hostilidade contra o indivíduo, embebidas do ódio, por assim dizer, daqueles que cumprem mudos e a contragosto os seus insípidos deveres. A condição em que agora tem de viver não está mais carregada com convenções, preconceitos e erros do que outras, e se algumas deixam entrever uma maior liberdade, não há nenhuma que seja larga e espaçosa o bastante, que esteja em relação com as coisas maiores que fazem a vida genuína. 

Só o indivíduo solitário obedece como uma coisa às leis profundas, e quando sai para a rua, para a manhã que se levanta, ou quando olha para fora, para a noite que é um evento pleno, e quando sente o que então acontece, liberta-se como um morto da sua condição, mesmo estando ele no centro da vida

O que agora tem de viver enquanto oficial, caro Senhor Kappus, teria também vivido em qualquer outra profissão; na verdade, mesmo que procurasse apenas um contacto ligeiro e independente com a sociedade, exterior àquela atitude perante os homens, mesmo assim não seria poupado a esta sensação de tolhimento. E assim em toda a parte, mas que isso não seja motivo de medo ou tristeza; se não há nada em comum entre si e os homens, tente ficar próximo das coisas que não o abandonarão; as noites ainda aí estão, e os ventos que cruzam as árvores e as muitas terras; entre as coisas e entre os animais encontrará ainda muitos eventos que poderá partilhar; e as crianças são ainda como v. era em criança, tão tristes e tão felizes; e quando pensar na sua infância, viverá de novo entre elas, por entre as crianças solitárias, e os adultos não serão nada, e a dignidade deles não terá valor.

E se for para si penoso e aflitivo pensar na infância, e na simplicidade e no silêncio que lhe são próprios, porque já não acredita em Deus, que nela está presente, pergunte-se então, caro Senhor Kappus, se o terá realmente perdido. Não será antes verdade que nunca o teve? Pois quando o poderia ter perdido? Julga que uma criança consegue mantê-lo quando os homens só a custo o carregam e quando os velhos se vergam ao seu peso? Julga que quem realmente tem Deus pode perdê-lo como quem perde uma pedrinha, ou acha antes, como eu, que quem o tem é que pode ser perdido por ele? Mas se reconhece que ele não estava nem na sua infância nem antes, se reconhece que Cristo foi trocado pela nostalgia que agora sente e que Maomé foi traído pelo orgulho com que vive, e se sente com pavor que mesmo agora ele não está presente, nesta hora em que falamos dele, com que direito sente a falta de Deus, como de um morto, se ele nunca esteve presente, e com que direito o procura como se ele estivesse perdido?

Porque não pensa antes que ele é o que está para vir, o que chegará da eternidade, o fruto final e futuro de uma árvore de que nós somos as folhas? O que o impede de lançar o nascimento dele para os tempos vindouros e de viver a sua própria vida como um dia belo e doloroso na história de uma imensa gestação? Não vê que tudo o que acontece é sempre mais um início, e que este poderia ser o início d'Ele, porque cada início é em si tão belo? Se ele é a perfeição maior, não tem a imperfeição de estar antes dele, para que ele possa escolher se por entre a plenitude e a abundância? Não tem ele que ser o último para conter tudo em si, e que sentido teríamos nós se aquele por quem ansiamos tivesse já vindo?
Assim como as abelhas fazem o mel, também nós retiramos o mais doce de tudo para edificar Deus. Com o mais pequeno, com o mais imperceptível (desde que aconteça por amor), começamos o nosso trabalho, e depois, com o sossego, com um silêncio ou com uma pequena alegria solitária, com tudo o que só nós fazemos, sem que ninguém nos ajude ou admire, damos início àquele que não viveremos, tal como os nossos antepassados não nos viveram. E, no entanto, os que há muito morreram estão em nós, como pendor, como lastro no nosso destino, como sangue que rumoreja e como gesto que sobe das profundezas do tempo.
Nada lhe poderá roubar a esperança de um dia estar nele, no mais longínquo, no mais extremo!

Celebre o Natal, caro Senhor Kappus, com este sentimento de devoção, pensando que Ele talvez precise desta angústia na sua vida para se iniciar; justamente estes seus dias de transição são talvez o tempo em que tudo em si trabalha nele, como em tempos já trabalhou nele, sem fôlego, em rapaz. 
Seja paciente, não desespere e pense que o menos que podemos fazer é não dificultar este início, como também a Terra acolhe a Primavera quando ela quer chegar.
E tenha alegria e consolo.


Rainer Maria Rilke
in, 'Cartas a um Jovem Poeta'





quarta-feira, 30 de junho de 2021

Rainer Maria Rilke


Rainer Maria Rilke  
1898 e 1910

 



"Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante horas, é a isso que é preciso chegar. Estar só, como a criança está só."

"O amor é a ocasião única de amadurecer, de tomar forma, de nos tornarmos um mundo para o ser amado. É uma alta exigência, uma ambição sem limites, que faz daquele que ama um eleito solicitado pelos mais vastos horizontes."

"Vivo a minha vida em círculos cada vez maiores
que se estendem sobre as coisas.
Talvez não possa acabar o último,
mas quero tentar."

"Ser amado é consumir-se na chama. Amar, é luzir com uma luz inesgotável. Ser amado é passar; amar é durar."

"O amor é a união de duas solidões que se respeitam."

"O destino não vem do exterior para o homem, ele emerge do próprio homem."

" Quanto é velocidade não será mais do que passado, porque só aquilo que demora nos inicia."

"As obras de arte são de uma solidão infinita: nada pior do que a crítica para as abordar. Apenas o amor pode captá-las, conservá-las, ser justo em relação a elas."

"Nunca te esqueças de formular o teu desejo. Creio que não se cumprem, mas há desejos a longo prazo que duram toda a vida, de modo que não se podia esperar o seu cumprimento."

"Basta... sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo."

"Na vida não há aulas para principiantes, exigem-nos logo o mais difícil."

"Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade."

"Quero lhe implorar Para que seja paciente Com tudo o que não está resolvido em seu coração e tente amar. As perguntas como quartos trancados e como livros escritos em língua estrangeira. Não procure respostas que não podem ser dadas porque não seria capaz de vivê-las. E a questão é viver tudo. Viva as perguntas agora. Talvez assim, gradualmente, você sem perceber, viverá a resposta num dia distante."

 "Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver as respostas. Desejo que encontre bastante paciência em si para suportar e bastante simplicidade para crer; que confie cada vez mais no que é difícil, entre outras coisas na sua solidão. No restante deixe a vida acontecer. Acredite-me : a vida tem razão em todos os casos. Toda dúvida pode se tornar uma qualidade se a educarmos..." 

 "Ser amado é consumir-se na chama. Amar é luzir com uma luz inesgotável. Ser amado é passar; amar é durar." "Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante horas, é a isso que é preciso chegar. Estar só, como a criança está só." 

 "Os homens, com o auxílio das convenções, têm resolvido tudo com facilidade e pelo lado mais fácil da facilidade; mas é claro que precisamos ater-nos ao difícil." 

" O tempo não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir. O verão há de vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade." 

 "Se o quotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas." 

 "O amor é a ocasião única de amadurecer, de tomar forma, de nos tornarmos um mundo para o ser amado. É uma alta exigência, uma ambição sem limites, que faz daquele que ama um eleito solicitado pelos mais vastos horizontes." 

 "Nada mais que possibilidades. Nada mais que desejos. E, de repente, ser realização, ser verão, ter sol." 

 "Talvez todos os dragões nas nossas vidas são princesas que estão apenas à espera de nos ver agir, apenas uma vez, com beleza e coragem. Talvez tudo aquilo que nos assusta é, na sua essência mais profunda, algo desamparado que quer o nosso amor." 

 "Como suportar, como salvar o visível, senão fazendo dele a linguagem da ausência, do invisível?" 

" Ser artista significa: não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante a tempestade da primavera, sem o temor de que o verão não possa vir depois. Ele vem apesar de tudo."

 "Sem paz, sem amor, sem teto, caminho pela vida afora. Tudo aquilo em que ponho afeto fica mais rico e me devora." 

 "Não é só a inércia a responsável pelo fato das relações humanas se repetirem caso após caso indescritivelmente monótonas e viciadas. É a inibição frente a qualquer experiência nova e imprevista com a qual não nos achamos capazes de lidar. Mas só alguém que esteja corajosamente disposto a qualquer coisa, que não exclua nada, nem mesmo o mais enigmático, viverá a relação com o outro como uma experiência viva." 

 "As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou." 

 "Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação. Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo, não sabem amar: tem que aprendê-lo. Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário, medroso e palpitante, devem aprender a amar. Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura. Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe. Creio que aquele amor persiste tão forte e poderoso em sua memória justamente por ter sido sua primeira solidão profunda e o primeiro trabalho interior com que moldou a sua vida."

 "Não creia que aquele que agora o consola vive despreocupado entre as palavras simples e brandas que às vezes lhe fazem bem. A vida dele tem muitas dificuldades e tristezas e é talvez pior que a sua. Fosse de outra maneira, ele nunca teria sido capaz de achar aquelas palavras."

 "Deixe tudo acontecer a você Beleza e terror Apenas continue Nenhum sentimento é final" 

 "É tão novo, tão inexperiente ainda perante as coisas, que desejaria pedir-lhe, o melhor que soubesse, uma grande paciência, para tudo que ainda não estiver resolvido no seu coração. Esforce-se para amar as suas próprias dúvidas como se cada uma delas fosse um quarto fechado, um livro escrito em língua estrangeira. Não procure, por enquanto, respostas que não lhe podem ser dadas, porque ainda não saberia pô-las em prática, vivê-las. E trata-se, precisamente de viver tudo. De momento, viva apenas as suas interrogações. Talvez que, simplesmente vivendo-as acabe um dia por penetrar insensivelmente nas respostas." 

 "Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa."

 "Por isso, caro senhor, ame a sua solidão e a carregue com queixas harmoniosas a dor que ela causa. Diz que os que sente próximos estão longe. Isso mostra que começa a fazer-se espaço ao redor de si. Se o próximo lhe parece longe, os seus longes alcançam as estrelas, são imensos. Alegre-se com esta imensidade, para a qual não pode carregar ninguém consigo. Seja bom para com os que ficarem atrás, mostre-se-lhes calmo e sereno sem os atormentar com suas dúvidas, nem os assustar com uma confiança ou uma alegria que eles não poderão compreender. Procure realizar com eles uma comunhão qualquer, fiel e simples, que não se deverá necessariamente transformar à medida de que o senhor mesmo se transforme. Ame neles a vida sob uma forma estrangeira e tenha indulgência com os homens que, envelhecidos, temem a solidão a que o senhor se confia. Evite dar alimento ao drama sempre pendente entre pais e filhos o qual gasta muita força destes e consome amor daqueles; amor que, embora incompreensivo, age e aquece. Não lhes peça conselho e não conte com a sua compreensão, mas acredite num amor que lhe é conservado como uma herança e fique certo de que há nesse amor uma força e uma bênção a que não se arrancará mesmo se for para muito longe."

 "Quem foi que assim nos fascinou para que tivesse um olhar de despedida em tudo o que fazemos." 

 "Torne o seu ego poroso. A vontade é de pouca importância, reclamar não é nada, a fama não é nada. Abertura, paciência, receptividade, solidão... é tudo." 

 "Estar sozinho é um verdadeiro elixir, é um estado que impele a doença totalmente à superfície. Primeiro ele deve se tornar ruim, pior, péssimo-não se vai além disso em língua alguma - mas depois fica tudo bem."




Morgue









Estão prontos, ali, como a esperar
que um gesto só, ainda que tardio,
possa reconciliar com tanto frio
os corpos e um ao outro harmonizar;

como se algo faltasse para o fim.
Que nome no seu bolso já vazio
há por achar? Alguém procura, enfim,
enxugar dos seus lábios o fastio:

em vão; eles só ficam mais polidos.
A barba está mais dura, todavia
ficou mais limpa ao toque do vigia,

para não repugnar o circunstante.
Os olhos, sob a pálpebra, invertidos,
olham só para dentro, doravante.


Rainer Maria Rilke





sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Excesso de Volúpia


J. Carlos



A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou à simples sensação com que um belo fruto enche a língua. É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de todo o saber.
O mal não é que nós a aceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experiência, malbaratando-a, fazendo dela um mero estímulo para os momentos cansados da sua existência.


Rainer Maria Rilke 
in,  'Cartas a um Jovem Poeta'




segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Infância


P.Y. Tang




Passa lento o tempo da escola e a sua angústia
com esperas, com infinitas e monótonas matérias.
Oh solidão, oh perda de tempo tão pesada...
E então, à saída, as ruas cintilam e ressoam
e nas praças as fontes jorram,
e nos jardins é tão vasto o mundo —.
E atravessar tudo isto em calções,
diferente de como os outros vão e foram —:
Oh tempo estranho, oh perda de tempo,
oh solidão.

E olhar tudo isto à distância:
homens e mulheres; homens, homens, mulheres
e crianças, tão diferentes e coloridas —;
e então uma casa, e de vez em quando um cão
e o medo surdo trocando-se pela confiança:
Oh tristeza sem sentido, oh sonho, oh medo,
Oh infindável abismo.

E então jogar: à bola e ao arco,
num jardim que manso se desvanece
e por vezes tropeçar nos crescidos,
cego e embrutecido na pressa de correr e agarrar,
mas ao entardecer, com pequenos passos tímidos,
voltar silencioso a casa, a mão agarrada com força —:
Oh compreensão cada vez mais fugaz,
Oh angústia, oh fardo!

E longas horas, junto ao grande tanque cinzento,
ajoelhar-se com um barquinho à vela;
esquecê-lo, porque com iguais
e mais lindas velas outros ainda percorrem os círculos,
e ter de pensar no pequeno rosto
pálido que no tanque parecia afogar-se — :
oh infância, oh fugazes semelhanças.
Para onde? Para onde?



Rainer Maria Rilke
in,  "O Livro das Imagens"





segunda-feira, 23 de novembro de 2020

A Pantera







De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.


Rainer Maria Rilke





terça-feira, 27 de outubro de 2020

Caímos






Minha vida não é essa hora abrupta

Em que me vês precipitado.
Sou uma árvore ante meu cenário;
Não sou senão uma de minhas bocas:
Essa, dentre tantas, que será a primeira a fechar-se.

Sou o intervalo entre as duas notas
Que a muito custo se afinam,
Porque a da morte quer ser mais alta…

Mas ambas, vibrando na obscura pausa,
Reconciliaram-se.
E é lindo o cântico.

As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.

E a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.

Caimos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.

E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.



Rainer Maria Rilke



terça-feira, 18 de agosto de 2020

Sei Quem é Minha Rainha







Deslizo para fora da tua casa
Pelas ruas de chuva, e acredito
Que cada transeunte com que me cruzo
Vê brilhar nos meus olhos
A alma radiosa e redimida.

Quero ao caminhar, a todo o custo
Esconder da multidão, a minha alegria,
Levo-a à pressa para minha casa;
Fecho-a no mais fundo das noites
Como um cofre dourado.

Depois retiro da sombra,
Peça após peça, os seus tesouros
E já não sei para onde olhar;
Pois cada recanto do meu quarto
Está repleto, repleto de ouro.

É uma riqueza infinita
Como nunca a noite viu
Nem o orvalho humedeceu;
E que nunca uma noiva
Por amor, recebeu

São ricos diademas
Em que as pedras são estrelas.
Ninguém o sabe. Estou,
Entre os meus tesouros como um rei,
E sei quem é minha rainha.

Rainer Maria Rilke



E o sol, depois desta nova furiosa tempestade, entra em vagas tão ricas que se julgaria verdadeiramente ver uma felicidade em autêntico ouro em cada recanto do meu quarto.
Sou rico e livre e revejo em sonhos, a plenos pulmões, cada segundo da tarde. Já não tenho nenhum desejo de sair hoje.
Quero sonhar leves sonhos e enfeitar o meu quarto com o seu brilho como se fossem as grinaldas de um acolhimento.
Quero carregar na minha noite a bênção das tuas mãos nas minhas mãos e nos meus cabelos. Não desejo falar a ninguém para não desperdiçar o eco das tuas palavras que tremula como um esmalte sobre as minhas e as faz soar mais ternas; e, depois do sol-posto, não quero ver nenhuma lâmpada para poder iluminar com o fogo dos teus olhos mil fogueiras secretas...
Quero elevar-me em ti como a oração da criança no júbilo sonoro da manhã, ou a girândola entre os astros solitários.

Recuso os sonhos que te ignoram e os desejos que não possas despertar.
Não quero fazer um gesto que não te louve, nem cuidar uma flor que não te enfeite; não quero saudar as aves que ignorem o caminho da tua janela, nem beber em ribeiros que não tenham acolhido o teu reflexo. Não quero visitar países que os teus sonhos não tenham percorrido como taumaturgos vindos de fora, nem habitar cabanas, que não tenham abrigado o teu repouso.
Nada quero saber de quem te precedeu em meus dias, nem dos seres que aí permanecem. Para esses, se o merecerem, e porque sou demasiado feliz para ser ingrato, deporei no seu túmulo, ao passar, murcha recordação. Mas a linguagem com que eles me falam agora é a das pedras tumulares e, quando pronunciam uma palavra, só sinto nos dedos frias letras mortas.
Desejarei que esses mortos estejam felizes; porque eles me desiludiram, compreenderam-me mal e trataram-me mal — e, por esse longo caminho de dor, me conduziram a ti.

Agora, eu quero ser tu.
E o meu coração arde diante da graça, como a luz eterna diante de Maria.
Tu.


Rainer Maria Rilke
in,  'Carta a Lou Andreas-Salomé, 9 de Junho de 1897'





sábado, 8 de agosto de 2020

Vigílias do terceiro dia






Meu Deus, como compreendo a tua hora, 
quando tu, para que ela no espaço se arredondasse, 
a voz à tua frente colocaste outrora; 
para ti o nada era como uma ferida que não sarasse, 
e tu refrescaste-a com o mundo. 

Agora sara baixinho entre nós. 

Pois os passados bebiam 
as muitas febres que no doente apareciam, 
nós já sentíamos, em suaves oscilações que se abriam, 
o pulso calmo do fundo. 

Sobre o nada descansamos como abrigo 
e cobrimos todas as rupturas; 
mas tu cresces para o desconhecido 
à sombra do teu rosto sem fissuras.


Rainer Maria Rilke





domingo, 2 de agosto de 2020

Hora Grave






Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.


Rainer Maria Rilke