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sábado, 26 de outubro de 2024

No Fundo Somos Bons Mas Abusam de Nós


Piranka



O comum das gentes (de Portugal) que eu não chamo povo porque o nome foi estragado, o seu fundo comum é bom. Mas é exactamente porque é bom, que abusam dele.
Os próprios vícios vêm da sua ingenuidade, que é onde a bondade também mergulha. 
Só que precisa sempre de lhe dizerem onde aplicá-la.

Nós somos por instinto, com intermitências de consciência, com uma generosidade e delicadeza incontroláveis até ao ridículo, astutos, comunicáveis até ao dislate, corajosos até à temeridade, orgulhosos até à petulância, humildes até à subserviência e ao complexo de inferioridade.
As nossas virtudes têm assim o seu lado negativo, ou seja, o seu vício.

É o que normalmente se explora para o pitoresco, o ruralismo edificante, o sorriso superior. 
Toda a nossa literatura popular é disso que vive.
  1. Mas, no fim de contas, que é que significa cultivarmos a nossa singularidade no limiar de uma «civilização planetária»?
  2. Que significa o regionalismo em face da rádio e da TV?

O rasoiro que nivela a província é o que igualiza as nações.
A anulação do indivíduo de facto é o nosso imediato horizonte.
Estruturalismo, linguística, freudismo, comunismo, tecnocracia são faces da mesma realidade.

Como no Egipto, na Grécia, na Idade Média, o indivíduo submerge-se no colectivo.
A diferença é que esse colectivo é hoje o puro vazio.


Vergílio Ferreira
in, Conta-Corrente 2


segunda-feira, 16 de setembro de 2024

De que é que Depende a Felicidade?


Darwis Alwan




Ser feliz.
De vez em quando, discretamente, pudicamente, ergue-se em ti ainda esta velha aspiração. 
Mas já não são horas de o seres, seriam só de o teres sido.

De que é que depende a felicidade?
O que falhou avulta quando enfrentamos a pergunta. 
Mas só se não tivéssemos falhado saberíamos se foi isso que falhou. 
Sei o que falhou mas não sei se o que falhou foi isso.

A felicidade ou infelicidade têm a sua escala de grandeza.
Tenho os meus motivos grandes mas os pequenos absorvem-nos.
Problemas do destino, da verdade, do absoluto que desse a pacificação interior. Mas eles apagam-se ou esquecem com uma simples dor de dentes. 
Assim eles me avultam apenas quando essa dor se apazigua.

Que dores menores me pontuaram a vida toda?
Do balanço geral há o que somos para os outros e o que somos para nós.

Ser feliz. 
Possivelmente o problema está num dente cariado. Sei o que falhou.
Não sei o que falharia ainda, se o mais não tivesse falhado.

Que falsificação de nós inventamos para os outros que no-la inventaram?
Ter grandeza no que se sofre para ao menos nos admirarem o sofrimento.

O que sofri entremeado ao público sofrimento não tem grandeza nenhuma. 
Precisava bem de saber se a minha verdade definitiva não está aí. 
Ou ao menos a condição de tudo o mais.

Para me negar radicalmente na obscuridade de mim.
Para saber definitivamente o que vou entregar à morte.
Porque pode ser só aquilo de que a morte tomará posse, sem restar nada de que tomem posse os outros.


Vergílio Ferreira
in, Conta-Corrente 4


domingo, 8 de maio de 2022

.......................quanto se sofre quando não se é amado








Nas relações amorosas o único sentimento que não funciona é o da piedade.
Quando é o caso de que se devesse manifestar, o que surge não é a piedade mas o asco ou a irritação.
Eis porque em relação alguma se é tão cruel.
Todos os sentimentos têm o seu contraponto. 
Excluída a piedade, a crueldade não o tem. 

Por experiência se pode saber quanto se sofre quando não se é amado. 
Mas isso de nada vale quando se não ama quem nos ama: é-se de pedra e implacável.

Decerto, tudo se pode pedir e obter. 
Excepto que nos amem, porque nenhum sentir depende da nossa vontade. 

Mas só no amor se é intolerante e cruel. 
Porque mostrar amor a quem nos não ama rebaixa-nos a um nível de degradação. 
E a degradação só nos dá lástima e repulsa.

A única possibilidade de se ser amado por quem nos não ama é parecer que se não ama. Então não se desce e assim o outro não sobe. 
E então, porque não sobe, ele tem menos apreço por si, ou seja, mais apreço pelo amante.

O jogo do amor é um jogo de forças. 
Quanto mais se ama mais fraco se é. 
E em todas as situações a compaixão tem um limite.

Abaixo de um certo grau a compaixão acaba e a repugnância começa.
Assim, quanto mais se ama mais se baixa na escala para quem ao amor não corresponde.



Vergílio Ferreira
in, Conta-Corrente 3



domingo, 7 de novembro de 2021

A Verdade é Amor







A verdade é amor — escrevi um dia.
Porque toda a relação com o mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na infância e não mais se pôde esquecer.
É esse equilíbrio interno que diz ao pintor que tal azul ou vermelho estão certos na composição de um quadro. É o mesmo equilíbrio indizível que ao filósofo impõe a verdade para a sua filosofia.

Porque a filosofia é um excesso da arte. Ela acrescenta em razões ou explicações o que lhe impôs esse equilíbrio, resolvido noutros num poema, num quadro ou noutra forma de se ser artista.

Assim o que exprime o nosso equilíbrio interior, gerado no impensável ou impensado de nós, é um sentimento estético, um modo de sermos em sensibilidade, antes de o sermos em razão ou mesmo em inteligência.
Porque só se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se está «feito um para o outro».

Só entra em harmonia connosco o que o nosso equilíbrio consente. 
E só o consente, se o amar. 
Porque mesmo a verdade dos outros — a política, por exemplo — se temos improvavelmente de a reconhecer, reconhecemo-la talvez no ódio, que é a outra face do amor e se organiza ainda na sensibilidade.


Vergílio Ferreira 
 in, "Pensar"


terça-feira, 8 de junho de 2021

A verdade é amor

 

 Benoit Courti 



A verdade é amor — escrevi um dia. 

Porque toda a relação com o mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na infância e não mais se pôde esquecer. É esse equilíbrio interno que diz ao pintor que tal azul ou vermelho estão certos na composição de um quadro. É o mesmo equilíbrio indizível que ao filósofo impõe a verdade para a sua filosofia. 
Porque a filosofia é um excesso da arte. Ela acrescenta em razões ou explicações o que lhe impôs esse equilíbrio, resolvido noutros num poema, num quadro ou noutra forma de se ser artista.
Assim, o que exprime o nosso equilíbrio interior, gerado no impensável ou impensado de nós, é um sentimento estético, um modo de sermos em sensibilidade, antes de o sermos em razão ou mesmo em inteligência. 

Porque só se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se está «feito um para o outro». Só entra em harmonia connosco o que o nosso equilíbrio consente. 
E só o consente, se o amar. 

Porque mesmo a verdade dos outros — a política, por exemplo — se temos improvavelmente de a reconhecer, reconhecemo-la talvez no ódio, que é a outra face do amor e se organiza ainda na sensibilidade. 


VERGÍLIO FERREIRA
in, PENSAR





quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

A Procura nos Outros







Só não se basta a si próprio o que não tem com que se bastar. 
Assim se explica que ele busque nos outros o que lhe falta em si mesmo. 
Isto deve estar certo. E todavia pode não estar. 

O que falta no que encontramos pode não ter que ver com o que lá está, mas com o que lá se procura. 
O erro está pois no que se não deve procurar. 

Posso procurar um sistema de ideias onde só encontro uma dose de senso comum. 
Posso encontrar uma côdea de pão onde procurei um bife com ovo a cavalo. 

Assim há que ir procurar no fornecimento alheio o que nos falta no próprio - em contentamento, em pacificação, em reconhecimento da glória de que duvido ou não tenho. 
E no entanto, a ambição puramente individual é à nossa medida que deveria talhar-se. 
Excepto talvez para o que sustenta essa ambição, ou seja para o que nos sustenta. 
Mas nesse caso a ambição chama-se justiça e já não é individual. 
E nesse caso fazem-se revoluções.



Vergílio Ferreira
in, Conta-Corrente IV






sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

O Mundo Real não Existe para o Homem Prático





 

Há duas maneiras de olhar as coisas, como há duas maneiras de as não olhar.
Ou se olham pondo-nos de fora delas ou pondo-nos dentro delas.
Só no segundo caso as vemos bem, porque só então nos vemos mal ou simplesmente nos perdemos a nós de vista.
O primeiro ver é o do homem prático, o segundo, o do artista.
Um e outro também divergem no modo de não ver as coisas.
O primeiro porque simplesmente as não vê; o segundo porque não repara nelas.
Ao contrário do que se supõe, o mundo real não existe para o homem prático: o que existe é a sua instrumentalização. Uma flor só lhe existe se a puser na lapela ou mesmo num jarro; como um pássaro só lhe é real se o tiver numa gaiola ou o comer frito.



Vergílio Ferreira
in, Conta-Corrente 2




 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

O Dom da Simpatia








Ter o dom da simpatia. 
É das coisas que mais se invejam. 
Tem, como tudo, a sua técnica, mas os efeitos são sempre problemáticos. 

Há o sujeito amável, como o distante, o inteligente como o mediano, o modesto ou o vaidoso, o convincente como o retraído, o irónico ou o sério e assim por diante, com todas as qualidades que se quiserem e o seu contrário. 

Num caso e noutro pode-se ser «simpático» ou «antipático», captarmos os favores dos outros ou a sua repulsa. Não é fácil determinar o que realmente decide uma adesão. 
E se fosse simplesmente o ter-se «personalidade»? 
O assumir-se verticalmente aquilo que se é? 
Isso ao menos imporia uma deferência ou «respeito». 

Lembra-me uma frase de um antigo tragediógrafo latino (Ácio) - que nos odeiem desde que nos temam. Não é evidentemente o caso aqui. 
Mas é qualquer coisa de parecido: que se seja o que se for, desde que se assuma isso com responsabilidade. 

O resto são apenas formas de «simpatia», ou seja, do «sentir-se com». 
E de todas elas, a base delas - ou seja, a admiração. 

Porque se não tem simpatia, se não houver seja o que for de admiração: tem-se apenas tolerância ou piedade.



Vergílio Ferreira
in, Conta-Corrente 3






quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Pensar Portugal







Nós somos um país de «elites», de indivíduos isolados que de repente se põem a ser gente.
Nós somos um país de «heróis» à Carlyle, de excepções, de singularidades, que têm tomado às costas o fardo da nossa história.
Nós não temos sequer núcleos de grandes homens. Temos só, de longe em longe, um original que se levanta sobre a canalhada e toma à sua conta os destinos do país.
A canalhada cobre-os de insultos e de escárnio, como é da sua condição de canalha. Mas depois de mortos, põe-os ao peito por jactância ou simplesmente ignora que tenham existido.

Nós não somos um país de vocações comuns, de consciência comum. A que fomos tendo foi-nos dada por empréstimo dos grandes homens para a ocasião.
Os nossos populistas é que dizem que não. Mas foi.

A independência foi Afonso Henriques, mas sem patriotismo que ainda não existia.
Aljubarrota foi Nuno Álvares.
Os descobrimentos foi o Infante, mas porque o negócio era bom.
O Iluminismo foi Verney e alguns outros, para ser deles todos só Pombal.
O liberalismo foi Mouzinho e a França.
A reacção foi Salazar.
O comunismo é o Cunhal.
Quanto à sarrabulhada é que é uma data deles.

Entre os originais e a colectividade há o vazio.
O segredo da nossa História está em que o povo não existe. Mas existindo os outros por ele, a História vai-se fazendo mais ou menos a horas.
Mas quando ele existe pelos outros, é o caos e o sarrabulho.
Não há por aí um original para servir?


 Vergílio Ferreira 
 in, Conta-Corrente 2




domingo, 19 de julho de 2020

Não Confundir Amizade (ou Amor) com Interesse






Não confundir amizade (ou amor) com «interesse».
É uma máxima canónica. Pois.
Mas que amizade (ou amor) não assenta no interesse dela?
Porque é o interesse que cria condições não apenas para o interesseirismo mas para a própria amizade. Só nos interessa a amizade de quem nos interessa...
Os meus hábitos de vida exigem para as relações o que entre de algum modo nesse hábitos.
Nem tem sentido gostar-se de alguém por si mesmo. O «si» mesmo é todo o espaço em que se manifesta.
O meu único espaço habitável para os outros é o que lhes invento em alguns livros.
No resto vivo só eu.

Vergílio Ferreira
in, Conta-Corrente I





quarta-feira, 17 de junho de 2020

O Que Somos Não É







Mas há momentos, nunca o pensaste?
Há momentos em que tudo se nos abisma até à fadiga. 
O desânimo sem fundo. 
A vertigem para lá de qualquer significação. 
Nós somos o artifício de nós. 
Mas é aí que construímos a legitimação de se existir. 
Somos duplos do que somos e por baixo da camada que nos torna plausíveis há uma outra realidade que revela o plausível em ficção. 
O que somos não é. 
O que somos é o que resta depois de tudo se dissipar. 
O falso de nós é que é verdadeiro. 
Ou ao contrário, não sei.


Vergílio Ferreira
in, Pensar




segunda-feira, 15 de abril de 2019

Aparição


Casa do Alto
Alto de S. Bento
Évora





Pela última vez, durmo na Casa do Alto.
É uma noite sem lua mas com um céu vivo de estrelas.
Mas a minha atenção prende-se à cidade, à planície. Para os lados da estrada de Viana descubro um espectáculo extraordinário que me alvoroça, que me fascina: numa vasta extensão de terreno, um incêndio lavra interminávelmente, iluminando a noite. É uma "queimada", suponho, o incêndio do restolho para a renovação da terra. Alinhadas pelos sulcos, as chamas avançam como um flagelo inexorável. E aos meus olhos saqueados é como se uma cidade ardesse, uma cidade fantástica, aberta de quarteirões, de praças, de sonhos.
Cidade, minha cidade... Que a terra tenha razão sobre ti, que essa força que mal sei te absorva, te revele em cinzas, tire delas outra fecundação e outro ignorado recomeço - que me importa?
A minha vida é "a" vida, só existe o que sou: não se imagina quem se não é..
Acendo um cigarro, fico-me a olhar o incêndio.
...
Lembra-me imagens da guerra, de cidades bombardeadas.
Alguém deve ir pegando o fogo por sectores, estabelecendo linhas de chamas que o vento vai impelindo. O campo arde vastamente, como uma destruição universal. Quase ouço o crepitar das chamas como o fervor final de uma inundação. Sinto-me só e nu, escapando ao desastre. Mas esta nudez que eu algum dia julguei possivelmente coberta pela compreensão dos outros, esta redução extrema às minhas raízes, esta solidão inicial de quem não pode esquecer a sua pobre condição é o sinal humilde e amigo de que à vida que me deram a não repudiei, de que cuidei dela, a não perdi, a levo comigo nesta viagem breve, a aceito ao meu olhar de fraternidade e perdão... A noite avança, a minha cidade arde sempre. Vou fundar outra noutro lado. Mas não sabia eu que ela devia arder? Acaso será possivel construir uma cidade como a imagino, a cidade do Homem? Acaso não dura ela em mim, no meu sonho, apenas porque a penso sem consequências, a imagino, a não vivo, lhe não exijo responsabilidades? Não o sei, não o sei...
...
Mas o que sei é que o homem deve construir o seu reino, achar o seu lugar na verdade da vida, da terra, dos astros, o que sei é que a morte não deve ter razão contra a vida nem os deuses voltar a tê-la contra os homens, o que sei é que esta evidência inicial nos espera no fim de todas as conquistas para que o ciclo se feche - o ciclo, a viagem mais perfeita.
...

Fecho o álbum, acendo um cigarro.
Para lá da janela atinjo a linha azul do horizonte que se desvanece na tarde. Penso, penso. Não, não penso: procuro. Outra vez, outra vez. Não, não quero «saber», sei já há tanto tempo... Mas nenhum saber conserva a força que estala no que é aparição.
Porque o escrevo de novo?
A verdade é que nada mais me importa.

E, todavia, um estranho absurdo me ameaça: quero saber, ter, e uma aparição não se tem, porque não seria aparecer, seria estar, seria petrificar-se. Queria que a evidência me ficasse fulminante, aguda, com a sua sufocação, e aí, na angústia, eu criasse a minha vida, a reformasse. Mas uma reforma, uma regulamentação é já do lado de fora.
Quem é fiel a uma certeza e a pode «ver» quando lhe apetece?
A fidelidade é então só teimosia ou cedência à parte convencional da «nobreza de carácter», da «honradez». Não é isso, não é isso que eu quero.
Em que iluminação eu acredito quando falo em nome dela e a imponho a Ana, aos outros?
Falo de cor - a iluminação é então a minha noite de secura.

Por isso, quando ela volta, eu me abro à sua devassa, à acidez da sua presença.
Por isso eu recebo ainda agora e falo dela e me aqueço e queimo ao seu lume.
Não escrevo para ninguém, talvez, talvez: e escreverei sequer para mim?
O que me arrasta ao longo destas noites, que, tal como esse outrora de que falo, se aquietam já em deserto, o que me excita a escrever é o desejo de me esclarecer na posse disto que conto, o desejo de perseguir o alarme que me violentou e ver-me através dele e vê-lo de novo em mim, revelá-lo na própria posse, que é recuperá-lo pela evidência da arte.
Escrevo para ser, escrevo para segurar nas minhas mãos inábeis o que fulgurou e morreu.


VERGÍLIO FERREIRA
in, APARIÇÃO






quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A VERDADE É AMOR





A verdade é amor — escrevi um dia.
Porque toda a relação com o mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na infância e não mais se pôde esquecer. É esse equilíbrio interno que diz ao pintor que tal azul ou vermelho estão certos na composição de um quadro.
É o mesmo equilíbrio indizível que ao filósofo impõe a verdade para a sua filosofia. Porque a filosofia é um excesso da arte. Ela acrescenta em razões ou explicações o que lhe impôs esse equilíbrio, resolvido noutros num poema, num quadro ou noutra forma de se ser artista.
Assim o que exprime o nosso equilíbrio interior, gerado no impensável ou impensado de nós, é um sentimento estético, um modo de sermos em sensibilidade, antes de o sermos em razão ou mesmo em inteligência.

Porque só se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se está «feito um para o outro». Só entra em harmonia connosco o que o nosso equilíbrio consente. E só o consente, se o amar. Porque mesmo a verdade dos outros — a política, por exemplo — se temos improvavelmente de a reconhecer, reconhecemo-la talvez no ódio, que é a outra face do amor e se organiza ainda na sensibilidade.


VERGÍLIO FERREIRA
in, PENSAR




sábado, 28 de abril de 2018

Uma Significação para a Vida





Como é que o homem vai viver 
sem uma significação para a vida? 
Donde essa significação? 


Os sucedâneos dos deuses atropelam-se tumultuosos, mas duram menos que os deuses, duram menos que um homem. Imaginei um dia que o homem viria a aceitar a sua condição em plenitude. Só não imagino esse homem. Porque imaginando-o como me é possível, penso que admitirá uma transcendência inominável, uma dimensão que supere o imediato da vida.
Só que o pensá-lo não me afecta o sentir.

Tenho o enigma mas não a chave que o desvende.
Sei a interrogação, mas não posso convertê-la na pergunta a que se dá uma resposta.
Da integração do homem no mistério do universo o que me fica é a vertigem.
Mas aguento-me aí sem me retirar do abismo nem cair nele.

O curioso é que são os «racionalistas» quem menos se perturba com a sem-razão de tudo isto.
Porque eles é que deviam saber, mais do que os outros, o porquê e o para quê. Não querem. O mundo existe-lhes assim mesmo, sem significação.

Para mim me existe também. Mas isso aturde-me.
A velhice que se anuncia, anuncia-me a aceitação e a serenidade.
Mas não me anuncia a liquidação do problema.
Respiro mais calmo diante do irritante mistério. Mas estar calmo não é anular o que me intriga, ou o seu terror: é só anular-lhe o efeito sobre nós. Os imbecis ou os inocentes é que os ignoram.

A expressão final do homem de hoje é o heroísmo.
Porque tudo tende a esmagá-lo de todo o lado.
Mas ser herói é ser consciente. E aguentar, com um mínimo de pulsações por minuto.
Referi-me um dia a um indivíduo condenado à guilhotina e a quem um amigo dizia:
«fatiga o teu medo».
Não fatiguei ainda a minha inquietação.
Mas fatigá-la é só o que tenho para a anular.


Vergílio Ferreira
in, Conta-Corrente 2






terça-feira, 31 de outubro de 2017

Porque temes então a morte, se já estás morto?





Quando estiveres cansado de olhar uma flor, uma criança, uma pedra,
quando estiveres cansado ou distraído de ouvir um pássaro a explicar o ser,
quando te não intrigar o existirem coisas e numa noite de céu limpo nenhuma estrela te dirigir a palavra,
quando estiveres farto de saberes que existes e não souberes que existes,
quando não reparares que nunca reparaste no azul do mar,
quando estiveres farto de querer saber o que nunca saberás,
Se nunca o amanhecer amanheceu em ti ou já não,
se nunca amaste a luz e só o que ela ilumina,
se nunca nasceste por ti e não apenas pelos que te fizeram nascer,
se nunca soubeste que existias mas apenas o que exististe com esse existir,
quando, se -, porque temes então a morte,
se já estás morto?


VERGÍLIO FERREIRA
in, PENSAR




domingo, 30 de julho de 2017

A Defesa da Liberdade Humana





O problema da liberdade foi o que sempre mais me preocupou.
Tento pôr ordem nas minhas ideias, mas não é fácil.

Fui da esquerda e mesmo da sua direita (porque a direita da esquerda é a mais esquerda, como a direita da direita, a mais direita). Fui-o porque ela era a favor da liberdade humana e se parecia que era contra a liberdade humana, era só por defender a liberdade humana.
Hoje sou contra a defesa da liberdade humana, porque sou a favor da liberdade humana.

Esquerdas e direitas dizem-me que se eu sou contra a defesa da liberdade humana, por ser a favor da liberdade humana, sou realmente contra a liberdade humana e estou por isso fazendo o jogo de uns ou de outros, consoante aqueles que me acusam.

Ah, por favor, não me peçam explicações - sou homem, não sou político.
Defendo a liberdade porque sou pela liberdade e por isso não devo defender a liberdade, porque para defender a liberdade teria de atacar a liberdade, o que me obrigaria então a defendê-la por ser a favor dela - merda!

Sou pela liberdade, sou contra a opressão, e isto é simples, é humano, é evidente - disse!
E não me chateiem mais.


Vergílio Ferreira
in, Estrela Polar




segunda-feira, 3 de julho de 2017

Nós Trazemos na Alma uma Bomba





A causa depois do efeito.
A minha tese é esta, minha querida – nós trazemos na alma uma bomba e o problema está em alguém fazer lume para a rebentar. Nós escolhemos ser santos ou heróis ou traidores ou cobardes e assim.
O problema está em vir a haver ou não uma oportunidade para isso se manifestar.

Nós fizemos uma escolha na eternidade.
Mas quantos sabem o que escolheram?

Alguns têm a sorte ou a desgraça de alguém fazer lume para rebentarem o que são, ver-se o que estava por baixo do que estava por cima.
Mas outros vão para a cova na ignorância.
Às vezes fazem ensaios porque a pressão interior é muito forte. Ou passam a vida à espera de um sinal, um indício elucidativo. Ou passam-na sem saberem que trazem a bomba na alma que às vezes ainda rebenta, mesmo já no cemitério.
Ou quem diz bomba diz por exemplo uma flor para pormos num sorriso.
Ou um penso para pormos num lanho.
Mas não sabem.

Agora pergunto – se escolheram a maldição e alguém faz lume, quem é culpado de ela rebentar? 
Como é que um tipo é culpado de trazer uma bomba na alma se foi outro que a fez explodir?
E como é que é culpado o tipo que fez o lume, se a bomba não era dele?


Vergílio Ferreira
in, Em Nome da Terra






domingo, 18 de junho de 2017

A Maravilha da Vida





Desvia a tua atenção para a maravilha da vida e a vida se te não esgotará.
Economiza os teus «porquês» e «para quê», porque como na embriaguez só já paras na morte.
Mas se insistes em chegar a Deus, submete-o ao teu questionar e verás como ele fica desnorteado.
Porque o teu questionar vai para lá dele e desvanece-se no vazio.
Aceita a vida, que ela é bastante para qualquer questionar.
E poderás então adormecer porque há aí verdade que chegue.
Dorme.


Vergílio Ferreira
in, Pensar



quinta-feira, 1 de junho de 2017

O Super-Detergente





Nós vivemos no tempo do record, do máximo, do prestígio do campeão.
Todo o vocabulário está cheio dos hiper ou dos super da propaganda comercial.
Dizer que tal livro é o melhor de há 30 anos equivale a dizer que este é que é de facto um superdetergente.
De resto, os agentes publicitários do material literário não pretenderão talvez enganar-nos. Eles sabem que sabemos que estamos no domínio do reclame.
É uma actividade inocente como proclamarmos a excelência de um sabão.
E é exactamente por isso que eles usam sempre números redondos. Nunca dizem, por exemplo, que este é o melhor livro de há 47 anos ou de há 23 anos e meio.
Na realidade, eles não têm um ponto de referência para marcarem as datas.
Falar em 30 ou 50 anos é como usar uma «numeração indeterminada», como se diz em retórica. Garção, ao dizer da Dido moribunda que «três vezes tenta erguer-se», não pretende convencer-nos de que estiveram lá a contá-las.
Em todo o caso e de qualquer modo, dizer que este é o melhor livro de há 50 anos afecta as pessoas impressionáveis. Mas por isso mesmo é que existem as agências de publicidade. E ninguém vai pedir-lhes satisfações por reclamar um produto contra a calvície que nos deixou talvez ainda mais depilados.


Vergílio Ferreira
in, Um Escritor Apresenta-se






quinta-feira, 18 de maio de 2017

...................onde menos te encontro é onde tu exististe





Porque curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe.
Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares.
Mas nem sempre.
Quantos dias se passam sem tu apareceres.
E às vezes penso é bom que assim seja para eu aprender a estar só.
Mas de outras vezes rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença.
Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora.
Por favor.
E eu sinto-me logo tão infeliz.
E digo-te não vás.
Fica.
Para sempre.
Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo.



Vergílio Ferreira 
in, "Cartas a Sandra"