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terça-feira, 18 de outubro de 2022

Da esmola esquecida à pobreza vivida







Crescemos num país onde pedir esmola fazia parte do quotidiano. 
A pobreza expunha-se e reservava  lugares próprios para mendigar. 
Espalhava-se nas ruas autodelimitando o  espaço de cada um, nas entradas dos mercados , dos cinemas, das igrejas e nos corredores do Metropolitano. 

Pedir e dar juntavam-se em reciprocidade convencionada e, por vezes, automatizada. 
Elevar a voz,  em compasso dorido, determinava  um baixar de olhar para a mão estendida, pronta para a recolha da dádiva. Parcas, reduzidas e insuficientes as moedas caíam descompassadamente. 
A miséria crescia, espalhava-se, multiplicava-se e o país aceitava.  

Nas escolas aprendia-se a bem tratar os pobres. 
Nas igrejas invocava-se o reino dos pobres como sendo o reino de Deus. 
As famílias  promoviam  a poupança  contrapondo a existência de fome no país. 
E a miséria era uma da nossas  fatalidades, bem  portuguesa, tal qual  o tamanho e a localização do país. 

Para alguns era  um dos traços do génio português. 
Por esse mundo, ainda distante e não globalizado, nem sequer Portugal era designado por país periférico, já que a Europa, manta de retalhos, partilhava  apenas a mesma ancestral cultura multifacetada. O eixo da pobreza que nos atravessava,  fixava-nos no extremo ocidental de um continente onde  ambos, qual hóspede e hospedeiro, coabitavam   em  escuso e recíproco desconhecimento.

Para Fernando Pessoa,
" recordar não é reviver, é apenas verificar com dor que fomos outra coisa cuja realidade essencial não nos é permitido recuperar. 
Vimos da sombra e vamos para a sombra. 
Só o presente é nosso, mas que é o presente senão a linha ideal que separa o passado do futuro? 
Assim toda a vida é fragmentária, a personalidade una é uma ilusão, não podemos apreender em nós uma constante que nos identifique."

A heteronímia pessoana produziu uma excelente obra literária que é portuguesa, mas o mesmo não aconteceu a  Portugal. Viemos da sombra, continuamos na sombra e vamos para a sombra? 
A pobreza continua em nós revestida de outras expressões em heteronímia actualizada. 

A visão condoída do pobre emergente de uma fatalidade lusitana não resistiu aos cravos de Abril. Contudo, o paradigma brutal da miséria apenas evoluiu  em direitos constitucionais previstos num estado social que nunca funcionou em plenitude. A incúria crescente dos governantes não estimulou a justiça social. A penúria tradicional  não foi extirpada, mas sim  reformulada porque passou a  atingir  diversas camadas sociais que, de crise em crise, foram engrossando a lista de novos pobres em tudo diferentes daqueles que piedosamente nos ensinaram  a respeitar. 

Portugal abriu-se ao mundo e  novos horizontes foram rasgados. 
A Europa recebeu-o, posicionando-o numa periferia subalterna que o agrilhoa. 
E ao colocar-se no mundo  a voracidade económica globalizou-o. 
E a escassez  foi massificada, a falta de recursos implantada, o acesso ao trabalho restringido. 
A  mundialização fez da pobreza  a reificação dos excluídos, a maior indignidade banalizada. 


Maria José Vieira de Sousa




segunda-feira, 1 de agosto de 2022

É impossível multiplicar riqueza dividindo-a









 "Um professor de economia da universidade Texas Tech disse que raramente reprovava um aluno, mas tinha reprovado, uma vez, uma turma inteira. 
Esta turma em particular tinha insistido que o socialismo realmente funcionava: ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e "justo". 

O professor então disse, 
"Ok, vamos fazer uma experiência socialista nesta turma. 
Ao invés de dinheiro, usaremos as vossas notas dos exames."
 
Todas as notas seriam concedidas com base na média da turma e, portanto seriam "justas". 
Isto quis dizer que todos receberiam as mesmas notas, o que significou que ninguém chumbaria. 
Isso também quis dizer, claro, que ninguém receberia 20 valores... 

Logo que a média dos primeiros exames foi calculada, todos receberam 12 valores. 
Quem estudou com dedicação ficou indignado, pois achou que merecia mais, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado!
 
Quando o segundo teste foi aplicado, os preguiçosos estudaram ainda menos - eles esperavam tirar notas boas de qualquer forma. 
Aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que também eles se deviam aproveitar da média das notas. 
Portanto, agindo contra os seus princípios, eles copiaram os hábitos dos preguiçosos. 
O resultado, a segunda média dos testes foi 10. 
Ninguém gostou. 

Depois do terceiro teste, a média geral foi um 5. 
As notas nunca mais voltaram a patamares mais altos, mas as desavenças entre os alunos, à procura de culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela turma. 
A busca por 'justiça' dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela turma. 
No fim de contas, ninguém queria mais estudar para beneficiar os outros. 
Portanto, todos os alunos chumbaram... 
Para sua total surpresa.
 
O professor explicou que a experiência socialista tinha falhado porque ela era baseada no menor esforço possível da parte de seus participantes. 
Preguiça e mágoas foi o seu resultado. 
Sempre haveria fracasso na situação a partir da qual a experiência tinha começado. 

"Quando a recompensa é grande", disse, o professor, "o esforço pelo sucesso é grande, pelo menos para alguns de nós."
Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros sem o seu consentimento para dar a outros que não lutaram por elas, então o fracasso é inevitável." 




O pensamento abaixo foi escrito em 1931. 
"É impossível levar o pobre à prosperidade através de leis que punem os ricos pela sua prosperidade. 
Por cada pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa tem de trabalhar recebendo menos. 
O governo só pode dar a alguém aquilo que tira de outro alguém. 
Quando metade da população descobre de que não precisa de trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação. É impossível multiplicar riqueza dividindo-a." 

Adrian Rogers





terça-feira, 24 de maio de 2022

...........................................questionar toda a sua vida







Aquele que coloca em cheque todas as suas crenças é, literalmente, um demônio na sua frente.
Ele representa o seu fim. Se você ouvir o que ele diz, você morre. 
Para que você continue vivendo, você precisa ignorá-lo. Não há outra opção. 

Uma pessoa vive a sua vida de acordo com suas crenças. 
Seus amigos, seu trabalho, sua conduta é toda definida pelo o que ela acredita ser. 
Questionar suas crenças é, lá no fundo, questionar toda a sua vida. Todo o motivo da sua existência na terra. Isso é duro demais.

No filme Matrix, o personagem Morfeu tem essa função. 
Ele te oferece duas pílulas. 
A azul te mantém "vivo" dormindo na matrix. 
A vermelha te mata. 
Neo morre quando toma a vermelha. Ele tem que renascer fora da matrix. Isso fica muito claro. Tudo aquilo que ele acreditava ser real era uma ilusão. Isso quer dizer que ele viveu sua vida inteira mergulhado nessa ilusão.
 
Requer muita coragem para escolher a pílula vermelha. 
Na azul, nada muda. Você continua seguindo sua vida monótona, sem sentido, indo dormir e acordando sem saber o que você realmente ta fazendo. É claro que você vai ficar doente. Você se tornou uma espécie de ratinho de laboratório num sistema um pouco mais complexo que simplesmente correr na rodinha e comer o queijo. Porém, os mecanismos são os mesmos. O rato não sabe porque tá ali. 

Você também não. Você não sabe porque vive a vida que vive. Porque acredita no que acredita. 
Você deseja muito a pílula vermelha... mas para isso você precisa enfrentar o seu maior medo: a morte.


Luener Corrêa





quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

As Guerras Mentem




 

Nenhuma guerra tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar.
As guerras sempre invocam motivos nobres, matam em nome da paz, em nome de Deus, em nome da civilização, em nome do progresso, em nome da democracia e se por via das dúvidas, se não bastassem tantas mentiras, há os grandes meios de comunicação de massa dispostos a inventar inimigos imaginários para justificar a conversão do mundo em um grande hospício e um enorme matadouro. 
Em Rei Lear, Shakespeare havia escrito que neste mundo os loucos guiam os cegos e quatro séculos depois, os donos do mundo são loucos apaixonados pela morte, que fizeram do mundo um lugar onde a cada minuto morrem de fome ou de doença curável dez crianças e são gastos três milhões de dólares por minuto na indústria militar, que é fábrica de morte.
Armas requerem guerras e guerras requerem armas e os cinco países que administram as Nações Unidas, aqueles que têm direito de veto nas Nações Unidas, são os cinco principais produtores de armas. 
Alguém se pergunta quanto tempo? Por quanto tempo a paz mundial estará nas mãos daqueles que se ocupam da guerra? 
Por quanto tempo continuaremos acreditando que nascemos para o extermínio mútuo e que o extermínio mútuo é nosso destino? 
Até quando?


Eduardo Galeano




A NATO, North Atlantic Treaty Organization, formada em 1947 com 12 Estados Membros, tem hoje 30 países membros e está em expansão na Europa Oriental e Balcãs, incluindo ex-membros do Pacto de Varsóvia. A Rússia continua a opor-se a uma maior expansão da organização junto das suas fronteiras, e exigiu recentemente que a NATO não fizesse mais admissões de Estados Membros novos, exigência essa que foi recusada pelos EUA e pelos países europeus. A Rússia vê essa expansão da NATO como uma continuação de uma Guerra Fria e uma tentativa de cercar e isolar a Rússia.

O Estado-Membro mais recente é o Montenegro e a NATO reconhece a Bósnia e Herzegovina, a Geórgia, a Macedónia e a Ucrânia como membros aspirantes.

A Rússia, como protesto, apoia inimigos dos Estados Unidos e da NATO, como a Síria, Irão e a Coreia do Norte.

Atualmente, a NATO atua com uma ação expansionista, com principal objectivo os interesses políticos e comerciais dos seus países membros.

Esses interesses envolvem, por exemplo, o acesso a recursos naturais e a importantes mercados consumidores. Dessa forma, nos últimos anos, a NATO tem organizado intervenções militares armadas em diversos países, tendo atuado na Bósnia e Herzegovina em 1992; no Kosovo em 1998; invasão do Afeganistão em 2001; na Guerra do Iraque, em 2003 e na Guerra Civil da Líbia, em 2011.


Os 5 Estados Membros Permanentes da United Nations Security Council com Poder de Veto são:
China, França, Rússia, Reino Unido, e os EUA.
OS 5 PRINCIPAIS FABRICANTES DE ARMAS.
O poder de veto do Conselho de Segurança das Nações Unidas refere-se ao poder de veto exercido exclusivamente pelos cinco membros permanentes, permitindo-lhes evitar a adoção de qualquer projeto "adicional" pela Resolução do Conselho, independentemente do apoio internacional para o projeto. Quase metade dos vetos na história do Conselho de Segurança foram lançados pela União Soviética, usando o seu primeiro veto em 1946, a Rússia é a nação que mais usou o veto.


Após 4 meses de negociações entre a Rússia, os EUA e a Europa, Putin decide invadir hoje, dia 24 de Fevereiro, militarmente a Ucrânia, como forma de “proteger a população de Donbass”. No local, ficam duas repúblicas separatistas pró-Rússia (Donetsk e Luhansk), que foram reconhecidas como independentes pelo chefe do Kremlin nesta semana, numa cerimónia de assinatura exibida pela televisão estatal.

Desde 2014, com a anexação da Crimeia pela Rússia, que as relações entre a Rússia e a Ucrânia se têm vindo a agravar, e a Rússia tem vindo a apoiar os movimentos separatistas na Ucrânia como forma de a enfraquecer, visto que a região de Donbass é uma das maiores produtoras de carvão.

Os anos passaram e a situação parecia controlada, até que os debates envolvendo a entrada da Ucrânia na NATO voltaram a ganhar força após a eleição de Zelenski, atual presidente ucraniano, também bastante próximo dos Estados Unidos e da Europa.

Com a economia fragilizada pela pandemia e a política em crise, o enfraquecimento do Reino Unido, acompanhada de um avanço sistemático da NATO sobre a Ucrânia, Putin viu incentivos internos e externos para tentar aumentar a popularidade de seu governo retomando uma área que ele entende que sempre foi bastante próxima da Rússia.
Putin disse, na última segunda-feira (21), que enviaria tropas “em missão de paz” para garantir a segurança das áreas separatistas. Na mídia local, os russos receberam a informação de que havia um “genocídio” contra a população russa nessas áreas realizado por tropas ucranianas.
  
A Rússia tem mais condições de suportar as medidas anunciadas, do que o Ocidente de ficar sem recursos.

A Europa é fortemente dependente do gás natural e do petróleo produzidos pela Rússia. 
Nesse sentido, a União Europeia deverá avaliar o risco que corre de ficar sem fornecimento – especialmente de gás natural, muito utilizado no aquecimento das casas. 


Religião. Política. Resquícios da Guerra Fria...e Gás Natural
Estas são as verdadeiras razões das tensões entre a Rússia e a Ucrânia.

A Gazprom é uma empresa estatal russa que produz petróleo e gás natural. 
Ela fornece 30% de todo o gás consumido na Europa. 
Aproximadamente 39 milhões de lares europeus dependem do gás russo para  alimentar os seus aquecedores – e não congelar durante o inverno. Acontece que a maior parte desse combustível tem de passar por gasodutos na Ucrânia. A Rússia é dona do gás, mas os ucranianos têm muito poder sobre ele. Quando a Rússia e a Ucrânia se desentendem, os gasodutos são fechados – e a Europa fica sem gás. E isso tem acontecido com certa frequência. 
A Europa construiu reservatórios de gás, investiu em energia renovável e criou os gasodutos Nord Stream e South Stream, que passam pelo Mar Báltico e pelo Mar Negro. Mas ainda não são suficientes. 

Em 2008, os EUA descobriram no seu território enormes reservas de gás de xisto. 
Os americanos passaram a ter a maior reserva mundial de gás, colocando a Rússia em segundo lugar. 
E isso mudou o jogo. Agora, os EUA querem exportar gás para a Europa. 
Mas, para fazer isso, eles têm de minar a Rússia. 
Como? Controlando o corredor que fornece gás à Europa. No caso, a Ucrânia. 

Desde 2008, Washington já investiu mais de US$ 5 bilhões na Ucrânia. 
Oficialmente, o objetivo é promover o livre mercado e manter o país “seguro, próspero e democrático”. Mas também é uma tentativa de exercer poder político. 
Se os EUA controlarem a Ucrânia, os russos estarão perdidos – pois os americanos farão de tudo para atrapalhar os gasodutos. 

Uma possível “Guerra do Gás” não tira o sono dos russos, visto que o continente europeu só trocará o gás natural pelo de xisto daqui a 50 anos, no mínimo,  porque para ser transportado, o gás de xisto – abundante em solo americano – precisa ser liquefeito, enviado de navio, e convertido em estado gasoso novamente para o consumo. Isso tudo exige uma infraestrutura que ainda não existe. 
E, mesmo quando existir, tornará o gás americano bem mais caro que o da Gazprom. 

A Rússia tem esta carta na manga porque a Europa, e especialmente a Alemanha, não tem substituto para o gás natural russo. Vira uma chantagem do ponto de vista económico, o acesso a recursos naturais é considerado estratégico, conforme diz a Organização Mundial do Comércio (OMC). 
Logo, se o fornecimento de gás natural for interrompido, isso não afetaria apenas a economia europeia, mas seria considerado uma questão de estratégia regional.

O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), de que a Rússia faz parte e tem direito de Veto, não deve conseguir aprovar nenhuma resolução que condene a atitude russa.

As próximas sanções devem seguir mais na linha de afetar dirigentes de empresas russas e depois algo em torno de restrições de exportação e de importação, especialmente de commodities, o que pode afetar bastante a economia da Rússia.
Com as relações entre a Rússia e o Ocidente postas em causa, os russos devem aproveitar o momento para intensificar a estratégia de se aproximar mais dos chineses.
A China é uma potência militar, do ponto de vista prático. Pode ser bem interessante para a Rússia.
  
Não é à toa, que a China tem evitado tomar lados e não fez qualquer tipo de movimentação mais intensa diante do conflito. Eles têm a questão da província de Taiwan, que também tem um caráter separatista. Será difícil a China posicionar-se neste caso... 
  
Esta Guerra vem, mais uma vez, mostrar a irrelevância da União Europeia. 
Subjugou-se com a imposição do sistema de unanimidade para as decisões estratégicas, e auto limitou-se, reduzindo-se a uma união que nem sequer é económica, mas apenas monetária. 
Dos princípios humanistas, solidários, que estiveram na sua origem, já pouco existe.

À Ucrania foi-lhe acenado com a entrada na União Europeia e na NATO. 
Foi apoiada para se opor ao despotismo russo. 
Agora é deixada só perante um gigante bélico e determinado.



Teu Deus é judeu, 
a tua música é negra, 
o teu carro é japonês, 
a tua pizza é italiana, 
o teu gás é argelino, 
o teu café é brasileiro, 
a tua democracia é grega, 
os teus números são árabes, 
as tuas letras são latinas.⁣
Eu sou teu vizinho. 
E ainda me chamas estrangeiro?⁣
⁣
Eduardo Galeano
in, "O Caçador de Histórias"⁣





quinta-feira, 8 de julho de 2021

Se ainda não for proibido perguntar






Os tempos estão mais para cumprir ordens do que para as questionar. Na verdade, não estou absolutamente seguro de que uma sociedade como a nossa – e a sociedade ocidental, em geral – tenha ainda capacidade para questionar seja o que for de forma racional e não sentimental. Não estou certo de que sejamos, enquanto colectivo, capazes de reagir para lá do sensacionalismo provocado por órgãos de comunicação social também eles viciados em sentimentos, em reacções instantâneas, em indignações fortes e breves, e por governos afundados, aqui e por todo o lado, em corrupção, em nepotismo, em decadência moral, e altamente ameaçados por movimentos políticos que prometem muito músculo, muita força bruta e muita pureza. Sociedades que vivem há décadas sem passar por uma grande contrariedade, um conflito, uma dificuldade social ou económica vivida colectivamente, conjugadas com este estado dos media e dos governos democráticos não podiam responder a uma pandemia provocada por um vírus tão comum como tantos outros da forma como tantos e tantos cientistas têm afirmado ao longo do último ano e meio: aprendendo a viver com ele.

Viciados no risco zero, no permanentemente belo e jovem, mais preocupados com icebergues do que com o vizinho do lado, parece que, por fim, aceitámos tudo aquilo que os governos democráticos, ou assim descritos, nos propuseram para defender a saúde pública, com base num único pressuposto: a ideia infantil de que é possível eliminar o risco. 

Imagine o leitor o mesmo cenário há 30 ou 40 anos: com a mancha sanitária e social que foi a SIDA, aquela sociedade sobreviveu com normalidade, e nunca ninguém foi proibido por qualquer Estado de manter relações sexuais com quem lhe apetecesse e da forma que melhor lhe soubesse. Mas os tempos são outros. 

E mesmo que sejam mais susceptíveis de criar cumpridores de ordens de governos que nos convenceram de que nos estão a salvar, ainda são tempos para fazer perguntas – pelo menos para já não estamos proibidos de as fazer, ficamos apenas com a pouco saudável sensação de que uma multidão de “crentes na ciência” (ao contrário dos “negacionistas”) fica com a breve mas furiosa necessidade de nos queimar ali para os lados da Praça do Comércio num domingo soalheiro, se garantida a distância social, como lhe chamam.

Morreram mais de 17 mil pessoas em ano e meio e continuamos sem saber qual o perfil da vítima da doença. Acima ou abaixo da esperança média de vida? Com mais de duas doenças graves e em estado terminal, ou não? Há um perfil de doente a proteger ou ainda estamos na narrativa dos telejornais, que alertam a cada hora para a possibilidade de morrermos todos para a semana?

Há um ano disseram-nos que nos íamos fechar em casa por duas semanas para o SNS ter tempo de se fortalecer. O Governo já teve tempo suficiente, ou ainda precisa de mais duas semanas? Os ventiladores que iam chegar naquelas duas semanas sempre chegaram? Quanto custaram? De onde vieram? Estão a funcionar? Quantas camas, quantos médicos, enfermeiros e auxiliares foram contratados a mais no último ano e meio? 

As vacinas com que se estão a vacinar milhões de pessoas foram aprovadas da mesma forma que todas as outras vacinas que (e bem) tomamos, ou não? Se as vacinas, porventura, foram aprovadas sem cumprir todos os protocolos por razões de “emergência sanitária”, conhecem-se todos os efeitos secundários que as mesmas podem provocar, ou não, a médio e longo prazo? Se sim, quais são? Se não, porque é que se está a obrigar o país inteiro a tomar a vacina? Porque é que a ausência de risco zero da vacina é aceitável e a ausência de risco zero da doença é intolerável? Porque é que se diz que a vacina não é obrigatória se quem não a toma fica impedido de exercer direitos e liberdades básicas, sabendo, por exemplo, que algumas partes do globo não o fizeram? Porque é que a vacina oferece aos seus beneficiários um certificado sanitário se depois continuam a ter de usar máscara, escafandro, álcool gel, distância física e de fazer testes para ir tomar a bica? Porque é que um vacinado tem de se isolar se está saudável e vacinado? Serve para quê, afinal? Porque é que o CDC americano veio dizer explicitamente que todos os vacinados podem fazer tudo em plena liberdade e nós não? Porque é que se fala em vacinar populações a 100%, incluindo crianças e jovens, sem que se conheçam os efeitos totais da vacinação? Alguém sabe ou perguntou qual é a percentagem de mortos abaixo dos 18 anos que faça justificar o recurso a estas vacinas numa camada da população que nem sequer pode escolher? E as 13 mil crianças que há um ano se sabia que tinham ficado sem vacina contra o sarampo por causa do lockdown? Já receberam a vacina respectiva ou essa deixou de ser importante?

Porque é que nós sabemos praticamente desde o primeiro dia que a doença era gravíssima em idosos, especialmente aqueles que tinham outras complicações de saúde associadas, e o que fizemos foi ficar a ver esses mesmos idosos a morrer nos lares e decidimos fechar populações saudáveis em casa? Porque é que deixámos morrer velhos nos lares, muitos deles ilegais, e ao mesmo tempo permitimos que uma geração de crianças perdesse praticamente dois anos do seu percurso escolar e do seu crescimento saudável? Já sabem quantos lares ilegais há em Portugal? O que fizeram no último ano e meio para resolver o problema dos cuidados oferecidos à velhice? Que planos sanitários foram criados para prevenir eventuais focos da doença nos lares? A Ministra da Saúde chegou a dizer que os lares tinham de criar os seus próprios planos de resposta. O que foi feito ao longo dos meses para evitar a desgraça que se viu?

Porque é que o vírus ia ver os jogos da primeira liga de futebol (daí não haver público nos estádios portugueses há ano e meio) e não ia aos concertos no Campo Pequeno? O vírus não gosta do Bruno Nogueira e adora bola? Porque é que a variante delta não passa de Vila Franca nem vai a Tróia de barco aos fins-de-semana, se afinal ela só gosta de andar na rua entre as 23h e as 5h, pela fresca? Porque é que os encontros na rua estiveram limitados a determinado número de pessoas se podíamos ir ao supermercado todos ao mesmo tempo? O vírus não vai às compras? Porque é que se exigem testes e medidas de distanciamento para ir a casamentos, baptizados ou eventos culturais, se acabamos todos ao molho nos autocarros, no metro e nos comboios? Já agora: a oferta de transportes públicos aumentou para evitar ajuntamentos ou manteve-se tudo na mesma ou pior, para andarmos todos mais aconchegados? E porque é que as pessoas que acham que este tipo de medidas faz sentido são tidas como cumpridoras e “crentes na ciência” e um tipo que as ache estapafúrdias é considerado meliante, chalupa, anti-vacinas e primo do bruxo de Fafe? Porque é que toda a gente aceita que as polícias acenem permanentemente com o bastão sem legitimidade legal que sustente condutas como aqueles espancamentos a miúdos que estavam na rua?

Porque é que, pela primeira vez desde que há sistemas de saúde, nós acreditámos que tínhamos vindo ao mundo para salvar o SNS, em vez de acharmos que era o SNS, pago com os nossos impostos e gerido por gente que nós elegemos, que tem o dever de fazer tudo o possível para nos salvar a nós? Porque é que nós toleramos canais públicos de denúncia de comportamentos alheios?

Porque é que o discurso de defesa da Constituição foi abandonado, agora que falamos em direitos e liberdades básicas e não em salários? Porque é que o Governo invoca, em Junho e Julho de 2021, um pretenso “estado de calamidade”, quando o SNS está muito abaixo dos níveis a que esteve em Janeiro, e quando em Janeiro até esteve abaixo do que esteve no mesmo período de 2019? Qual é a calamidade, quando desde Fevereiro a mortalidade global do país está dentro ou mesmo abaixo da média dos últimos dez anos? Se não está a morrer mais gente do que é normal, se os serviços de saúde não estão sequer perto dos seus períodos mais críticos, que calamidade estamos nós a viver? Porque é que os infectados, mesmo que sem sintomas, se tornaram mais importantes nas narrativas do governo e da comunicação social em vez dos mortos? Podem dizer-nos qual é a taxa de positividade de Junho de 2021 e do mesmo período do ano passado? Se estamos a fazer mais testes e se a percentagem de positivos é menor que a de Junho de 2020, o que é explica a “escalada da variante delta”? Alguém sabe o que aconteceu à variante delta na Índia? Subiu, teve um pico e desceu como todas as variantes ou já não há indianos?

Porque é que o Conselho Nacional de Saúde Pública nunca mais reuniu? Isto é ou não é um problema de saúde pública? E o CNSP não tinha de ser ouvido antes de ser decretado o estado de emergência? Porque é que nomes como os de Jorge Torgal ou Fernando Nobre passaram a ser tratados como ignorantes? Porque é que os médicos convertidos em pop-stars televisivas nos alertam mensalmente para o caos do SNS e para o fim do mundo que aí vem? Será porque o SNS é de facto um caos, é-o há muitos anos, e estão a aproveitar os tempos para reivindicar condições que até mereciam antes, ou porque o SNS só entrou em colapso com a pandemia? Porque é que milhões de consultas, milhares de cirurgias, de diagnósticos, tudo por fazer, não têm interesse nenhum? Porque é que a saúde pública foi substituída por uma política que trata uma só doença como a única de que é proibido morrer e ignora todas as outras?

Será que 400 mil novos pobres chegam para percebermos o buraco em que nos metemos ou temos de esperar mais uns tempos para que os governos, este e outros, vejam por uma vez a sua legitimidade reforçada, os seus poderes redobrados e a miséria a crescer por todos os lados? 

  • Porque é que já aceitámos dividir a sociedade, por causa de uma doença, entre bons e maus, entre puros e impuros? 
  • Porque é que aceitámos a pobreza provocada de tantos? 
  • Porque é que nos calámos enquanto víamos tantos velhos a morrer, muitos deles com falta de cuidados, até de água, para evitar possíveis contágios? 
  • Porque é que aceitámos com naturalidade que profissionais de saúde ou de lares fossem impedidos de entrar em casa pelas próprias famílias com medo do vírus? 
  • Porque é que o que não aparece nas televisões pura e simplesmente não existe? 
  • Que raio de mundo criámos nós em silêncio, em pânico, com medo da própria sombra?


Nuno Gonçalo Poças




segunda-feira, 28 de junho de 2021

SEGREGAÇÃO E CONTROLO TOTAL DO GADO


Trevor Cole




Eis o futuro: cidadãos vacinados podem ser infectados e podem transmitir a infecção (tal como os não vacinados), mas vai na mesma haver "certificados digitais covid". 
Sabem porquê? 
Porque é fundamental distinguir entre portadores do coronavirus vacinados de infectados não-vacinados. 


Nesta perigosa gestão política da covid, a discriminação joga um papel essencial - o de criar novas e profundas fracturas sociais, dividir para reinar, atirar o roto contra o nu. No final, alguém que morra contaminado por alguém vacinado não será tão grave nem tão condenável como alguém que adoeça depois de um não-inoculado lhe ter transmitido o virus. Vacinados espalharem a covid é aceitável. Não vacinados fazerem o mesmo?! Nem pensar. Esses são vistos como ameaça a abater.

Ou seja, o passaporte sanitário não resolve nada nem garante sequer o essencial- que o portador está saudável naquele instante. Portanto, o certificado que autoriza a circulação inclusive dentro do país (a versão europeia visa a passagem de fronteiras nacionais apenas), que pretende condicionar até a entrada em lugares públicos ou festas privadas visa criar guetos, enclaves digitais, apartheid. 

Serve para separar puros de impuros, cumpridores de irresponsáveis, bons cidadãos de má escória. Segregação. 

A stayaway covid não vingou, mas passou a eufemistica Carta dos direitos humanos na Era Digital, trilhando o caminho dos "selos de qualidade", "carimbos de garantia", o sibilar para as tiranias 2.0, armadas até aos dentes com as novas tecnologias, algoritmos, chips.

O Certificado Digital Covid é mais um pontapé na boca dos portugueses que, entre salários de miséria, falências em catadupa, ileteracia científica, overdoses de medo com lavagens cerebrais, apneias de sono e de vigília, já só querem livrarem-se da pressão de amigos e família, que o deixem passar à vontade, ir de férias, não interessa a que preço, se está certo ou errado, quanto das nossas liberdades públicas fica penhorado. 

Tem sido assim desde Março de 2020 e assim continuará. Os políticos a mostrarem músculo e punho, a mandar toda a gente para casa com orelhas de burro, a trancar portas, janelas e postigos, a tentar controlar a comunicação social, a regurgitar normas atrás de novas normas patéticas e contraditórias, a rasgar a Constituição e a cuspirem-lhe em cima. Paz à sua alma. Já nem se incomodam em declarar estado de emergência. O estado de direito, passou a ser visto como uma maçada, empecilho que importa arredar lesto como um calhau no caminho.

No fim, com esta novilíngua que vexaria Orwell, armam-se em magnânimos e ainda têm o topete de dizer que o certificado serve para conferir "mais liberdade". Mas é suposto agradecer?! Sublinhe-se que só devolve à liberdade quem a tirou. Em democracia à liberdade é natural, intrínseca, orgânica e consagrada nas leis fundamentais. É um direito humano inalienável. Falar de Liberdade certificada é como falar de alergia acalmante ou de gordura adelgaçante. Um paradoxo. É uma treta.

Eram só quinze dias para achatar a curva e não rebentar o SNS. Depois precisávamos de esperar pela vacina. Agora ela também não é suficiente e levamos ferretes como gado. Qual será o próximo golpe? Vá. Só mais umas semanas. Vai ficar tudo bem.


Joana Amaral Dias



Não fazemos ideia do que é ser verdadeiramente livre porque a liberdade foi definida para nós por um sistema que depende do nosso não ser livre. O nosso verdadeiro potencial como indivíduos - e como espécie - é desconhecido nesta fase da nossa evolução. Mas à medida que as nossas imaginações se abrem, sabemos que tem de ser significativamente mais amoroso e habitável do que a cruel insanidade dos tempos atuais. Por mais bruta que a vida seja no momento atual, a consciência está se expandindo, o certo está lentamente evoluindo do errado - e o mundo inteiro está no meio de uma MUDANÇA profunda e fundamental. 

 Christine DeLorey



 

segunda-feira, 3 de maio de 2021

O Efeito Flynn

 



O QI médio da população mundial, 
que sempre aumentou desde o pós-guerra
 até ao final dos anos 90, 
diminuiu nos últimos vinte anos. 
É a inversão do efeito Flynn.


Parece que o nível de inteligência, medido pelos testes, diminui nos países mais desenvolvidos. 
Pode haver muitas causas para este fenómeno. 
Um deles pode ser o empobrecimento da linguagem.
Na verdade, vários estudos mostram a diminuição do conhecimento lexical e o empobrecimento da linguagem: não é apenas a redução do vocabulário utilizado, mas também as subtilezas linguísticas que permitem elaborar e formular pensamentos complexos.

O desaparecimento gradual dos tempos (subjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre no presente, limitado ao momento: incapaz de projeções no tempo.
A simplificação com o tratamento por tu, o desaparecimento das letras maiúsculas e da pontuação são exemplos de "golpes mortais" na precisão e variedade de expressão.

Apenas um exemplo: eliminar a palavra "menina, senhorita/mademoiselle" (agora obsoleta) não significa apenas abrir mão da estética de uma palavra, mas também promover involuntariamente a ideia de que entre uma menina e uma mulher não existem fases intermediárias.
Menos palavras e menos verbos conjugados significam menos capacidade de expressar emoções e menos capacidade de processar um pensamento. Estudos têm mostrado que parte da violência nas esferas pública e privada decorre diretamente da incapacidade de descrever as emoções em palavras.
Sem palavras para construir um argumento, o pensamento complexo torna-se impossível.

Quanto mais pobre a linguagem, mais o pensamento desaparece.
A história está cheia de exemplos e muitos livros (George Orwell - "1984"; Ray Bradbury - "Fahrenheit 451") contam como todos os regimes totalitários sempre atrapalharam o pensamento, reduzindo o número e o significado das palavras.
Se não houver pensamentos, não há pensamentos críticos. 
E não há pensamento sem palavras. 

  • Como construir um pensamento hipotético-dedutivo sem o condicional? 
  • Como pensar o futuro sem uma conjugação com o futuro? 
  • Como é possível captar uma temporalidade, uma sucessão de elementos no tempo, passado ou futuro, e a sua duração relativa, sem uma linguagem que distinga entre o que poderia ter sido, o que foi, o que é, o que poderia ser, e o que será depois do que pode ter acontecido, realmente aconteceu?

Caros pais e professores: 
Façamos com que os nossos filhos, os nossos alunos falem, leiam e escrevam. 
Ensinemos e pratiquemos o idioma nas suas mais diversas formas. Mesmo que pareça complicado. Principalmente se for complicado. Porque nesse esforço existe liberdade.
Aqueles que afirmam a necessidade de simplificar a grafia, descartar a linguagem dos seus "defeitos", abolir géneros, tempos, nuances, tudo que cria complexidade, são os verdadeiros arquitetos do empobrecimento da mente humana. 
Não há liberdade sem necessidade. 
Não há beleza sem o pensamento da beleza.


Christophe Clavé




As línguas podem passar por períodos de decadência — mas na escrita… Quando o Império Romano desapareceu, os níveis de alfabetização desceram. No entanto, as línguas em si, na oralidade, não se transformaram em subprodutos linguísticos — acabaram por dar origem às nossas línguas, que simplificaram partes do latim, mas complexificaram outras (os artigos, por exemplo).

Ora, mesmo na escrita não vivemos hoje num período de decadência: a alfabetização é superior a qualquer época passada. Ainda não estamos bem? Pois claro que não. Preocupa-me a falta de leitura de muitos jovens, que não permite ganhar capacidades de escrita adequadas para um mundo em que vivemos pela escrita. Mas de uma preocupação que todos podemos partilhar até conclusões catastróficas sobre a evolução da língua, o estado da gramática, do vocabulário, da violência e de tudo o mais — vai, claro, uma grande distância…

Temos de ser muito exigentes. A língua exige uso e estudo, principalmente na escrita. É por isso que proponho que se leia mais sobre a língua, para lá de impressões de café.

Por exemplo, este artigo Different languages, similar encoding efficiency: Comparable information rates across the human communicative niche mostra como as línguas tendem a transmitir informação com a mesma eficiência, afinada ao longo dos milénios pelas capacidades cerebrais e auditivas dos seres humanos. É um artigo difícil? Com certeza que sim… Nada que assuste quem tanto grita a favor da exigência. É uma das pistas que apontam para uma certa constância das línguas humanas no que toca à complexidade e às capacidades cerebrais necessárias para as falar.

Proponho ainda um livro de que já falei anteriormente, mas que é um bom ponto de partida para percebermos como as línguas não se desfazem no tempo: The Unfolding of Language, de Guy Deutscher. É um livro exigente, como certamente Clavé e os seus leitores gostam. É também um livro muito interessante e muito informado sobre as línguas. Já agora, como estamos a falar de um texto francês, deixo também outra sugestão de leitura: Le Français dans tous les sens, de Henriette Walter. Sobre a nossa própria língua, temos o recente (e já muito recomendado por aqui) Assim Nasceu Uma Língua, de Fernando Venâncio. Talvez sirvam, todos eles, como antídoto para o vício do catastrofismo linguístico.

São exemplos de textos inteligentes e exigentes, que nos entusiasmam para saber mais sobre as línguas e sobre a linguagem humana.


Marco Neves







sábado, 20 de março de 2021

DA SERVIDÃO CONSENTIDA






DA SERVIDÃO CONSENTIDA 
E da desumanidade consequente à tirania de nós mesmos.


É certo que ser livre não é necessariamente ser mais feliz porque exige responsabilidade, traz inquietação e, tantas vezes, dor. 
Mas ser livre é uma escolha, e a Liberdade uma planta linda, apesar de frágil se descurada.
É a Liberdade que, aliada ao Amor, dá sentido ao Ser-se humano. 
Por isso não importa se dói e não importa quem julga, pois o Ser Humano só o É quando ama sem limite; quando é livre como o vento; quando ousa aprender; quando se dignifica pelo trabalho e quando é recordado pela excelência. 

Sempre foi pelo sonho, pela liberdade, pela ousadia e pela competência que o mundo pulou e a avançou.
Não importa a pequenez, o preconceito tampouco a perseguição, porque Ser, Sentir e saber Existir Livre é um privilégio e um acto de coragem que devia ser de todos mas que só alguns compreendem. 

Consentir na servidão em nada  enobrece a humanidade e deixa sequelas na posteridade.
Um cavalo selvagem, quando lhe põem o freio revolta-se e luta. 
Mas a tirania do domador vai moldando a sua vontade e a sua percepção até que a submissão à albarda o faça ostentar, com garbo, os arreios que o apertam. Assim se resigna, um nobre animal, gerando potros já acomodados, obedientes, servis e ilusoriamente felizes.

E eis que nos tornámos, qual cavalo amestrado, nesta sociedade subjugada e contente que, cruel e estupidamente, coarcta à descendência o instinto de ser livre, a sensação de imortalidade e a magia da descoberta enquanto amordaça o seu sorriso.

Somos a sociedade que vem desaprendendo o conquistado, comprometendo a aptidão relacional, os afectos, a saúde física e psíquica, o desenvolvimento, a segurança e o bem-estar das crianças. 
E, com a conivência da humanidade sociopata e receosa da incontornável finitude, se hipoteca a felicidade e a prosperidade daqueles que são a continuidade.

Os mais vulneráveis ​​permanecem os mais maltratados nesta crise sanitária, que de sanitária pouco tem. E, sob uma preocupação hipócrita, parecem condenados ao sofrimento silencioso.
  • O que andamos a fazer?
  • Aonde ficaram a argúcia, a curiosidade, o sentido crítico e o bom senso?
  • Aonde ficou a Beleza  de sabermos ser Livres? 
  • Aonde ficou o Amor?



  1. Poderá a cegueira ser tal e o medo tão insano ao ponto de nos fazerem regredir séculos na civilidade e nos tornarem servos voluntários da tirania que, por segurança, decidimos nutrir?
  2. Será que nos acomodámos à ignorância e ainda não percebemos que as crianças constituem a barreira imunológica da comunidade e que, no que à doença vip concerne, praticamente não adoecem tampouco são o principal foco de transmissão?
  3. E quando iremos realizar que a testagem massiva de assintomáticos não traz mais valia ao controlo desta como doutras epidemias, dado o efeito de baixa prevalência, antes gera trauma, estigmatização para além das repercussões sociais do inevitável isolamento dos positivos, muito provavelmente falsos, comprometendo ciclicamente a aprendizagem dos miúdos e o direito ao trabalho dos progenitores? 
  4. Quem são e quais as credenciais dos especialistas que, negando toda a prova científica no que aos testes e à transmissão por assintomáticos concerne, continuam a recomendar medidas obsessivas, germofóbicas, incoerentes, ilógicas mas nada inconsequentes?
  5. Será que a perversidade e a crendice se tornaram tão hegemónicas que, leviana e infundadamente, reincidem no erro incutindo culpa e preocupação em crianças e adolescentes que deveriam estar a correr, a arriscar, a abraçar, a socializar, a namorar e a sorrir sem restrições e sem remorsos?



Desafortunadamente muitos adoeceram e, infelizmente, muitos sucumbiram à doença da moda. Mas continuam a ser muitos mais os que a superaram sem sequelas. 
E são ainda mais os que padecem doutras doenças e delas falecem para não falar dos que, em consequência da estratégia centralizada numa só afecção, vêem o seu prognóstico agravado por falta de assistência.

A nossa saúde  está doente, não por culpa do povo, muito menos dos infantes, tampouco dos adolescentes, mas consequência do desinvestimento do costume, da má gestão crónica, de complexos ideológicos sem sentido e ainda da corrupção e da incapacidade de planeamento endémicas.

Não existe nobreza, nem altruísmo tampouco solidariedade, em nada do que se preconiza e acata desde há mais de um ano. Antes existe desrespeito para com as nossas crianças ao privá-las da aprendizagem descontraída e do convívio livre e descomplexado.
E não existe nobreza nem altruísmo tampouco solidariedade, antes uma fobia obsessiva, egoísta e opressiva que deveria envergonhar-nos.

O que andamos a fazer? Ainda não vale tudo!
Estamos a tornar-nos abusivos em vez de proteger e cuidar.
O nosso Futuro demanda a nossa reflexão: encontramo-nos numa encruzilhada aonde nos é dado escolher se somos de Esparta ou de Atenas, se queremos ser servos ou construtores...
Atrevamo-nos a ser livres. 
Não consintamos na servidão voluntária a que nos queremos condenar.

“A primeira razão da servidão voluntária é o hábito (...) É o povo que se escraviza, que se decapita, que podendo escolher (...) prefere o jugo. Uma coisa é certa porém: os homens, enquanto neles houver algo de humano, só se deixam subjugar se forem forçados ou enganados” 
Etienne de La Boétie (1530-1563)


Margarida Gomes de Oliveira



 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

RATOS







Informação não é conhecimento. 
O primeiro termo descreve um conjunto contextualizado, e porventura filtrado, de dados, ao passo que o conhecimento é o desfecho de um processo sistemático de análise de informação, que tem por objectivo o entendimento de um determinado assunto. 
Os três conceitos – dados, informação e conhecimento – formam uma estrutura hierárquica, em cujo pináculo está a sabedoria (deixemos de fora a verdade, que só traz complicações desnecessárias).

A criação de conhecimento exige trabalho e acarreta um risco: quem o tenta fazer, dá por si, com regularidade, nas regiões fronteira das suas capacidades intelectuais e vê-se forçado a lidar com o desencanto provocado pela percepção dos próprios limites. Quiçá seja esta a origem do progressivo descrédito do conhecimento e da tentação de confundi-lo com acesso à informação. Quando se promove o facilitismo, nivela na mediocridade e esconde o sentimento de frustração das gerações em formação, a máxima latina per aspera ad astra, que é como quem diz, sem sofrimento não há glória, é inadmissível. Para a sobrevivência das doutrinas hostis ao rigor, é fundamental que a palavra conhecimento seja expurgada do seu significado tradicional. Caso contrário, descobrir-se-ia que os mais bem preparados de sempre são apenas indivíduos permanentemente ligados a uma central de dados.

O método mais eficaz de converter informação em conhecimento é a leitura. 
Ler, contudo, não deve ser reduzido à sua dimensão utilitária. 
Lemos, também, pelo prazer estético e para ampliar os nossos horizontes espirituais. 
No território da ficção, fazemo-lo para iluminar uma dúvida que, no mundo físico, é impossível de esclarecer em toda a sua enorme extensão: “e se”? Isto é, a ficção pode ser entendida como a exploração possível do espaço de possibilidades – ou, numa linguagem mais figurativa, como um laboratório onde se investigam os mundos paralelos que a ciência mais atrevida gosta de conjecturar. Tratando-se de alta literatura, o enredo não só resiste ao teste do tempo, como se aproveita do seu passo inexorável para oferecer, leitura após leitura, universos supletivos e, muitas vezes, intransmissíveis. 
A boa ficção, mesmo quando criada num contexto histórico específico, liberta-se do tempo e ajuda-nos a compreender o presente, dando-nos, em simultâneo, uma perspectiva da condição humana que supera qualquer tratado político.

Posto isto, resta alertar para o despropósito de encerrar a grande literatura num juízo ideológico ou de recusá-la por violar as normas politicamente correctas. 
Lê-se para reflectir e questionar, não para refutar ou demonstrar. 
Como escreveu Claudio Magris, 
“a verdadeira literatura não é a que lisonjeia quem lê, confirmando-o nos seus preconceitos e nas suas certezas, mas sim a literatura que o persegue e põe em dificuldade, que o obriga a refazer as suas contas com o mundo e com as certezas”. 
Se a prosa incorpora vestígios de ensaio moral ou alegoria sociopolítica, é inevitável interpretá-la nesse sentido. Porém, tal não deve levar à rejeição de leituras alternativas, quer estejam ou não de acordo com as intenções do autor – a partir do momento em que uma obra é apresentada ao público, as motivações do artista recuam para um plano secundário.

Este longo prólogo veio a propósito do interesse que A Peste, de Albert Camus, despertou aquando da descoberta do vírus da moda: em Março de 2020, as vendas do livro, em Portugal e no resto do mundo, tiveram uma expressão significativa. Especula-se que os leitores procuravam, no relato das angústias vividas pelos habitantes de Orão durante um surto de peste, um consolo e um guia para a reclusão que os aguardava.

A comparação da conjuntura actual com a peste é exagerada, mas os livros também servem para testar as subtilezas da realidade moderada e particular nas situações mais extremas ou universais. Além do mais, se se tiver em conta que a crise sanitária, na sua eclosão, foi equiparada a uma guerra – como se a geração floco de neve, que se ofende com o sarcasmo e os contos de fadas, tivesse estofo para pegar em armas –, o risco de amplificar o medo com analogias fortes não é assim tão sério. O equívoco na corrida ao texto de Camus para entender a pandemia não foi a hipérbole, foi a escassa atenção concedida a um aspecto central da narrativa: segundo uma das exegeses mais consensuais, A Peste é uma representação alegórica do totalitarismo.

Entretanto, passaram-se alguns meses e cresceu a suspeita de que, a pretexto de uma doença que se revelou muito menos letal do que as profecias asseguravam, está em curso a concretização de um programa autoritário e global. Quando as primeiras notícias e imagens sobre abusos de poder em várias regiões do mundo começaram a romper o cerco imposto pela comunicação social, alguns leitores viraram-se para outras obras literárias, como 1984 e Admirável Mundo Novo, e A Peste regressou ao seu exílio na sombra do cânone.

É pena, pois o livro de Camus, ao contrário dos de Orwell e Huxley, não estuda o facto consumado; prefere concentrar-se na alienação e submissão ao avanço do totalitarismo. 

A Peste é uma fábula sobre a discreta e inapelável emergência de uma força oculta, que se instala no seio de uma comunidade desprevenida e a submete à sua vontade. 
Começa com um rato morto e acaba numa cidade sitiada, sem esperança, privada de todas as coisas que nos definem como humanos: a liberdade, a dignidade, o amor, a família, os rituais fúnebres. 
Ainda que em alguns momentos acuse a idade e a matriz existencialista, A Peste é muito superior aos romances distópicos de Orwell e Huxley. Sem negar a extraordinária importância que têm como sinalização política, há que dizer que Admirável Mundo Novo e 1984 dificilmente se podem classificar como clássicos: a eles não podemos regressar sem pôr em causa o impacto da primeira leitura.

Um dos aspectos psicológicos abordados por Camus, particularmente evidente se o romance for lido a par de outra obra do autor, O Mito de Sísifo, é o imperativo moral intrínseco à resistência, mesmo se esta, à partida, estiver condenada à derrota. 

É isso que Rieux, o médico de Orão, tenta explicar a Tarrou quando o amigo lhe diz que a luta é vã e que as vitórias serão sempre efémeras: 
“Sempre, bem sei. Não é uma razão para deixar de lutar.”

A Peste pode ainda ser interpretada como um exercício de introspecção do seu autor. 
Na juventude, Albert Camus foi membro do partido comunista francês. Contudo, de pronto se apercebeu da iniquidade da ideologia mais letal do século XX e dos crimes perpetrados pelo seu veículo mais poderoso, a União Soviética. Por essa afronta, foi banido pelos pares e abandonado pelos amigos: os agentes do meio literário francês, ao descobrirem a traição, consumada em 1951 com a publicação de O Homem Revoltado, lançaram-lhe um ataque implacável, dirigido pelo seu mentor Jean-Paul Sartre. No ano seguinte, a propósito de uma situação alheia a Camus, Sartre viria a proferir a famosa infâmia “um anticomunista é um cão”, uma frase que parece ecoar os tiros com que são mortos os cães vadios na Orão empestada.

A contenda, desigual, deixou cicatrizes, e apesar de consagrado pelo Prémio Nobel, Camus, quando morreu, era um homem destruído. Sarte, que elogiou Fidel Castro, Kim Il Sung e os terroristas de extrema-esquerda doa anos 1970, foi um herói dos movimentos estudantis de 68. É certo que a História redimiu o autor de A Queda e o tempo foi mais indulgente com a sua literatura do que com a de Sartre. Não obstante, trata-se de uma fraca consolação em face de uma das muitas injustiças e perseguições intelectuais movidas em defesa do comunismo.

O que é que a A Peste – e a biografia de Camus –, hoje, nos pode comunicar? 
Que inquietações nos consegue suscitar? 
Em primeiro lugar, sugere-nos que estejamos sempre atentos, que dar a sociedade aberta por garantida e julgar qualquer transtorno como passageiro e insignificante quando comparado com atrocidades do passado – ou, pior, apresentá-lo como justificável à luz de um conceito difuso como o bem comum – é um erro tremendo, e que confundir liberdade com democracia é um descuido infantil e cego a um século de História.

Na Orão onde se produziram “os curiosos acontecimentos que servem de assunto” ao romance de Camus, os ratos surgiram como uma excrescência das ruas e das casas, não como uma invasão vinda do exterior. O mal está entre nós. Mesmo quando parece ter sido definitivamente extinto, encontra-se apenas “adormecido nos móveis, e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços, na papelada”, preparado para, a qualquer momento, acordar os seus ratos e mandá-los “morrer numa cidade feliz”. Já no romance de Bram Stoker (e nas adaptações cinematográficas de Murnau e Herzog), os ratos antecipavam a revelação de Drácula. O mal faz-se sempre anunciar.

O alarme desencadeado pela nova doença despertou os ratos. 
Primeiro, foram as restrições à circulação e reunião: no início devidamente cumpridoras das leis fundamentais, são hoje impostas, em determinados países, sem qualquer respeito pelas respectivas constituições. Depois, como numa avalancha, vieram as quarentenas de pessoas saudáveis, os testes compulsivos a indivíduos sem sintomas da doença, as invasões de domicílio sem mandado, as restrições à liberdade de culto, a repressão de manifestantes, os processos disciplinares a médicos dissidentes, a perseguição a professores e investigadores cépticos, a vigilância pidesca de declarações públicas e privadas, a denúncia popular de comportamentos “desviantes”, as autuações a casais que se beijam na rua, a lei seca, a intimidação anónima dos críticos, a manipulação da opinião pública pelos jornais e televisões, os logros estatísticos, a censura científica. 
A sociedade viu-se privada de todos atributos que a distinguem de um formigueiro e ficou reduzida ao trabalho: as fábricas laboram, as livrarias fecham. O campo de concentração de Auschwitz tem, à entrada, um título adequado para este quadro.

Transversal a tudo isto, e silencioso como a peste de Orão, está o pior dos atentados à liberdade e dignidade humanas: a nacionalização da morte. 
Para salvar alguns – e os serviços de saúde –, condenam-se outros. Não é nenhuma surpresa. É apenas o Estado a cumprir o seu ideal: desviar recursos de um domínio para outro. No final, como sempre, ficam os dois na ruína.

Os negacionistas do processo de repressão em curso contrapõem com a diminuta dimensão de cada medida – um pequeno transtorno que salva vidas, dizem –, desprezando o volume acumulado e o efeito bola de neve. Esquecem também que, dando de barato que a suspensão da liberdade pode ser justificada pela necessidade de uma defesa do direito à saúde (seja lá o que isso for), nada justifica a censura, a intimidação e a manipulação: a liberdade de expressão não é um meio de contágio de doenças respiratórias, nem sequer no estranho mundo inventado pela “ciência” pandémica. Finalmente, o derradeiro argumento – é a lei – também não é convincente. Como nos ensinou Antígona quando, indiferente à sentença do rei Creonte, sepultou o seu irmão, a desobediência a leis injustas é um dever cívico.

Apesar de serem criaturas da natureza, os ratos são incompatíveis com a civilização salubre e devem ser exterminados. Lamentavelmente, para a saúde de muitos e para o orçamento de um sem-número de famílias, é tarde demais. Resta-nos esperar que a epidemia de demência e o consequente tsunami económico que nos deixará depauperados represente também o fim dos novos ratos e dos seus encantadores. 

Como diz o contramestre na cena de abertura de A Tempestade, de William Shakespeare, “what cares these roarers for the name of king?” Que importa ao rugido das ondas o nome de um rei? Talvez tanto como a sorte dos ratos do navio. E, na eventualidade de serem poupados pela grande vaga, há sempre outros perigos, em latência, a ameaçar a sobrevivência de reis e bichos pestilentos, ou não fosse roarers um termo arcaico para multidão em fúria. 
Shakespeare, que foi contemporâneo da peste bubónica, nunca escreveu sobre a praga que lhe condicionou a vida e a carreira. Preferiu esmiuçar o exercício discricionário do poder e a construção da tirania. O inventor da personalidade humana sabia de onde vinha o verdadeiro perigo.

Nota: Quem quiser interpretar este artigo como um apelo à desobediência civil, que o faça. Depois das sucessivas violações das leis fundamentais da República, o regime português perdeu qualquer vestígio da legitimidade que ainda poderia reter após décadas de prevaricação económica, social e política. O argumento de que a lei é para cumprir aplica-se, em primeiro lugar, àqueles a quem foi delegada a tarefa de legislar e que têm a obrigação de conhecer os postulados sobre os quais podem fazê-lo.



Carlos M. Fernandes

















sexta-feira, 6 de novembro de 2020

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

E SE, AFINAL, FOR TUDO AO CONTRÁRIO?








E se, afinal, o uso de máscaras não só não for benéfico, como for prejudicial?

E se, afinal, as máscaras mais não forem do que armazéns húmidos, a 37º C, de gotículas de bactérias e vírus circulantes que nelas se vão depositar, através das quais, nós e os nossos filhos somos obrigados a respirar, vezes sem conta, ao longo do dia?

Tal explicaria porque o número de infectados com SARS-CoV-2 não pare de aumentar, apesar do uso obrigatório de máscaras em espaços públicos fechados e do seu uso crescente, pela população, em espaços públicos ao ar livre.

Tal explicaria porque países como a Espanha, onde o uso generalizado de máscaras em espaços públicos, abertos e fechados, que se iniciou, de forma obrigatória, há já vários meses, tenha um dos maiores números de infectados na Europa, de infectados graves em UCI e de mortes.

Tal explicaria porque em Portugal, em que todos andámos sem máscara nas praias, mesmo estando estas cheias de gente, os números de infectados diários tivessem diminuído drasticamente e agora, no Outono, mesmo com temperaturas estivais, o número de infectados não pare de aumentar.

E se as máscaras funcionarem como reservatórios de tecido, húmidos e quentes, de vírus e outros agentes infecciosos que andam no ar, em circulação, bem como reservatórios dos micróbios que saem de dentro de nós e que a elas se fixam?

E se ao colocá-las à frente do nosso nariz e da nossa boca, horas a fio, por imposição legal e através das quais temos de respirar vezes sem conta, estivermos apenas a aumentar a probabilidade de nos infetarmos com maior número de vírus e bactérias?

Que lógica há, em mandar arejar salas de aula se, depois, se obriga a colocar à frente da boca e do nariz de alunos e professores obstáculos de tecido que impedem a normal ventilação do ar e agregam em si múltiplos micróbios?

Já repararam na humidade de uma máscara após várias horas de utilização e no seu cheiro? Já imaginaram a porcaria que é?

E porque é que nunca obrigaram a usar máscaras nos habituais surtos de gripe sazonais, que todos os anos ocorrem no Inverno? Porque dos múltiplos estudos efetuados ao longo de vários anos, o uso de máscara nunca conseguiu provar ser eficaz, ou ter qualquer influência na prevenção da transmissão da gripe.

E se, afinal, for ao contrário e a utilização sistemática de álcool gel nas mãos, mais não fizer do que diminuir a eficácia do nosso sistema imunitário, a única arma de valor de que atualmente dispomos para lutar contra a Covid-19?

E se a utilização de álcool gel, de forma obrigatória e repetida por nós e pelas nossas crianças, servir para a destruição  do contributo que as mãos fornecem ao nosso sistema imunitário, através do seu microbioma habitual, para que o mesmo reconheça agentes infecciosos e os destrua, sem que eles tenham que, obrigatoriamente, nos infetar?

E se ao destruirmos com álcool gel a camada lipídica da pele, que permite mantê-la impermeável a vários agentes infecciosos e tóxicos, mais não estamos a fazer do que permitir que passem através dela muito mais micróbios do que quando não usávamos álcool gel, aumentando a nossa suscetibilidade às infecções?

E se estivermos a contribuir para diminuir a capacidade que as nossas crianças têm para se defenderem das doenças infecciosas?

E se, afinal, o distanciamento social que determina que filhos e netos não possam abraçar e beijar os seus idosos criando, desde há sete meses, uma tristeza crescente em todos, mais não faça do que também diminuir a eficácia do nosso sistema imunitário, como, aliás,  já foi demonstrado em relação a doenças como a depressão, em que a tristeza se associa ao aumento de probabilidade de contrair doenças infecciosas?

E se, com este distanciamento obrigatório nos lares, estivermos apenas a aumentar a probabilidade dos nossos idosos, quando adoecerem, adoecerem logo com doença grave (seja esta, ou qualquer outra) por se encontrarem profundamente deprimidos?

A diminuição da eficácia do sistema imunitário não só facilita o aparecimento de infecções, como diminui a capacidade do mesmo para reconhecer células cancerígenas e eliminá-las, contribuindo assim para o aumento do surgimento de cancros e para o aumento da mortalidade associada aos mesmos.

E se o tão falado confinamento, mostrado como o nosso último recurso de salvação, mais não faça do que colocar no mesmo espaço fechado, sob o mesmo teto, confinados, uma série de seres humanos impedidos de andar ao ar livre, promovendo de forma exponencial a propagação e gravidade da doença entre os confinados, como, aliás, se verificou nos países que tiveram confinamentos mais obsessivos e mais prolongados, como Itália e Espanha, onde a doença foi mais grave do que nos outros países?

Que lógica encontraríamos nós, em confinarem-nos num espaço exíguo dias, meses a fio, com indivíduos infectados, por exemplo, com tuberculose? Estaríamos à espera que ela desaparecesse por artes mágicas, ou estaríamos à espera que, ao fim de pouco tempo, o número de infectados fosse cada vez maior?

Não verificámos, que durante o período de confinamento português, em que quase não podíamos respirar ar puro, foi a altura em que houve mais doença grave, com maior número de indivíduos em cuidados intensivos e maior número de mortes?

Já pensaram que a melhor maneira de nos vacinarmos contra esta doença seria fazê-lo da forma mais natural possível (uma vez que até agora não há outra forma), expondo-nos a quantidades mínimas de vírus, permitindo que o nosso sistema imunitário os reconhecesse e os aniquilasse?

Ao retirarem de circulação os assintomáticos infectados (obrigando-os a ficarem em casa isolados, dias ou semanas a fio) – assintomáticos esses, habitualmente, com baixos níveis de vírus circulantes e que são exatamente as pessoas com quem seria benéfico irmos todos contactando para criarmos a nossa própria imunidade – estão a permitir que o nosso contacto com o vírus seja, sobretudo, com pessoas com a doença, com níveis muito mais elevados desse mesmo vírus, aumentando a probabilidade de adoecermos também, quando poderíamos contactar com o vírus através de indivíduos assintomáticos, situação em que aumentaríamos a probabilidade de ficarmos imunes sem adoecermos.

Tantas medidas tão sem fundamento, tão sem validade científica, todas obrigatórias. Tantas medidas que só têm feito mal à restante saúde das populações e à economia. Tantas medidas que nada fazem à Covid-19, como se pode observar pelo número de casos positivos que não param de aumentar nos países que as adotaram (alguns, já com maior número de casos do que em Março e Abril).

E se, além de nada fazerem para nos protegerem da doença, as medidas contribuírem, ainda, para a sua maior propagação? 

E se, afinal, for ao contrário e tudo isto mais não faça do que nos prejudicar?

E se, afinal, tudo o que nos fizeram e continuam a mandar fazer, para nosso suposto bem, estiver errado?

E se, afinal, a vida que sempre levámos, mais felizes, mais fortes imunologicamente, seja o segredo para nos irmos imunizando contra a Covid-19, tal como o temos feito, ao longo dos anos, para as outras doenças virais respiratórias?

E se, afinal, for tudo ao contrário? 


Margarida Abreu 
Médica, especialista em Medicina Geral e Familiar




segunda-feira, 3 de agosto de 2020

............................removing the soul of humanity






In the future, we will eliminate the soul with medicine. Under the pretext of a 'healthy point of view', there will be a vaccine by which the human body will be treated as soon as possible directly at birth, so that the human being cannot develop the thought of the existence of soul and Spirit. To materialistic doctors, will be entrusted the task of removing the soul of humanity. As today, people are vaccinated against this disease or that disease, so in the future, children will be vaccinated with a substance that can be produced precisely in such a way that people, thanks to this vaccination, will be immune to being subjected to the "madness" of spiritual life. He would be extremely smart, but he would not develop a conscience, and that is the true goal of some materialistic circles. With such a vaccine, you can easily make the etheric body loose in the physical body. Once the etheric body is detached, the relationship between the universe and the etheric body would become extremely unstable, and man would become an automaton, for the physical body of man must be polished on this Earth by spiritual will. So, the vaccine becomes a kind of arymanique force; man can no longer get rid of a given materialistic feeling. He becomes materialistic of constitution and can no longer rise to the spiritual. 
Rudolf Steiner 
(1861-1925)