segunda-feira, 3 de março de 2014

Acordaram o urso e dizem que a culpa é do urso


Há 161 anos, a Rússia envolveu-se numa guerra contra a França, a Grã-Bretanha, o Império Otomano e a Sardenha. A Rússia perdeu. O conflito, entre 1853 e 1856, ficou conhecido como a Guerra da Crimeia.

Hoje, é outra vez e desgraçadamente a Crimeia. Mas, se as razões para a Rússia ser novamente protagonista não são talvez as melhores, são no entanto razões diferentes.

Como se sabe, o até há algum tempo presidente ucraniano foi derrubado e está agora refugiado na Rússia. Aqueles que o fizeram cair, esses, dizem-se "pró-europeus".

A verdade é que Ianukovitch, um patifório com quem ninguém de bom trato tomaria chá, tinha sido eleito em 2010, com um mapa dos resultados eleitorais revelador. Realmente, ganhou, e por grande margem, o leste e sul do país, e perdeu, e por grande margem, o ocidente para Timochenko, a sua rival (que também não é flor que se cheire). Feitas as contas, Ianukovitch ganhou um Estado partido a meio, não por motivos políticos mas por diferenças profundas de natureza étnica, linguística e cultural.

A Ucrânia é multinacional. Uns, identificam-se como etnicamente ucranianos; outros, com a mesma convicção, dizem-se russos ou russófonos. De permeio, judeus, tártaros e outros grupos de menor expressão. Para ajudar à festa, e como se viu nas últimas eleições, os dois grupos principais estão muito concentrados territorialmente. Na Crimeia, por exemplo, vivem 58% de russos, 12% de tártaros e "apenas" 24% de ucranianos em sentido estrito (embora esta qualificação seja absurda).

Como quem foi ocupando o poder nunca quis esbater este fosso, a Ucrânia nunca foi, não é e não sei quando poderá vir a ser uma democracia. De facto, quando a população vota em função da etnia, os resultados só cristalizam e agravam uma oposição entre grupos, não exprimem a vontade de um, e só um, povo. E, quando assim é, o grupo que "ganha" ou está "por cima" quer tudo; e quer, sobretudo, mostrar ao outro que é ele que manda.

Assim se explica que o urso russo tenha acordado, e é erro muito grave deixar de lado este fator e a força da História e do "sangue". Que mostre agora as garras na Crimeia e que Putin tenha pedido à Câmara alta do Parlamento que o autorize a enviar tropas para a Ucrânia.

Dirão alguns, agrilhoados numa visão fechada do "nós" contra o "outro" (o "mau"): a Rússia é imperialista, a Rússia é perigosa. A esses, respondo com um exercício.

Imaginem que os Estados Unidos tinham ficado sem uma parcela do seu território, entregue a um país vizinho e onde ficaram milhões de americanos. Imaginem que nesse território os EUA tinham conservado uma base naval fundamental para os seus interesses estratégicos. E imaginem, finalmente, que os EUA, com algum fundamento, sentiam que os "seus" norte-americanos e a base naquele tal território estavam em risco. Ficavam quietos? Brincamos, é?

Para quem a saiba, a História (aquela coisa inútil que não serve para nada) ajuda muito. Quando se quer evitar um conflito que pode vir a ser muito grave, a primeira tarefa é tentar saber onde está a corda e qual a sua resistência. Porque, quando a corda se parte, é tarde e logo se ouve o rufar dos tambores da guerra.


Azeredo Lopes 


A Crimeia, e também a Ucrânia (A Rússia nasceu em Kiev), são essenciais para a existência da própria Rússia.
Só gente muito inocente poderia alguma vez acreditar que os senhores do Kremlin permitiriam que Kiev mantivesse a soberania sobre a Crimeia, local onde a Rússia tem praticamente toda a sua frota naval do Mar Negro, sendo esse novo “governo” ucraniano perfeitamente hostil ao poder de Moscovo.
A maioria da população da Crimeia vê com bons olhos a entrada no território de tropas russas.

Se a Europa quer comprar uma guerra com uma potência nuclear, façam lá o favor...

Sem comentários:

Enviar um comentário