terça-feira, 15 de agosto de 2017

O Corpo Insurrecto





Sendo com o seu ouro, aurífero, 
o corpo é insurrecto. 
Consome-se, combustível, 
no sexo, boca e recto.

Ainda antes que pegue 
aos cinco sentidos a chama, 
por um aceso acesso 
da imaginação 
ateiam-se à cama 
ou a sítio algures, 
terra de ninguém, 
(quem desliza é o espaço 
para o corpo que vem),

labaredas tais 
que, lume, crepitam 
nos ciclos mais extremos, 
nas réstias mais íntimas, 
as glândulas, esponjas 
que os corpos apoiam, 
zonas aquáticas 
onde os órgãos boiam.

No amor, dizendo acto de o sagrar, 
apertado o corpo do recém-nascido 
no ovo solar, há ainda um outro 
corpo incluído, 
mas um corpo aquém 
de ser são ou podre, 
um repuxo, um magma, 
substância solta, 
com pulmões.

Neste amor equívoco 
(ou respiração), 
sendo um corpo humano, 
sendo outro mais alto, 
suspenso da morte, 
mortalmente intenso, 
mais alto e mais denso,

mais talhado é o golpe 
quando o põem em prática 
com desassossego na respiração 
e o sossego cru de quem, 
tendo o corpo nu, 
a carne ardida, 
lhe pede o ladrão 
a bolsa ou a vida.




Luiza Neto Jorge
in, 'Terra Imóvel'





Sem comentários:

Enviar um comentário