quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Cetim





ele não sabe que eu o amo dentro dos armários, nos
dias
mais esquisitos, que eu me enfeito, me serpenteio de
fantasias,
que eu uso pintas, plumas e anáguas, rendas escuras e
visto
cintas e certas meias... ele não sabe que eu me deslizo
dentro
das tramas, baixo da cama, eu me escorrego, nem
desconfia
como eu me apego a essas manias.
ele não sabe como eu me entrego.
como que preparo, com que firulas, uma avidez de
festas
impossíveis, uns gostos, cânhamo, sândalo, essências,
suor
e uma gota de absinto, na pele um cheiro forte de tudo.
E de
marisco.
ele não sabe que eu pinto a boca de vermelho, percorro
todos
os espelhos da casa na maior cumplicidade clandestina,
e
largo o corpo, lasseio as cordas, me estico,
espreguiço, muito frouxa, mansa, transpirada, um vapor
que embaça os vidros, um calor de porta fechada.
que eu vou me encostando nas paredes, tirando
pulseira,
sandálias, me deixando acontecer, improvisando formas,
cedendo às tentações, devagar, os pés, tapete, coxas, a
umidade, pêlos, copos de vinho, olheiras.
ele não sabe que eu o envolvo nessas imagens, o
escondo
nessas figuras, que eu o possuo o quanto quero, o
invento
e deito e rodo, malho, mordo, uivo, rio.
ele não sabe que eu habito com essas danças na cabeça,
com essas ervas na gaveta, essas folias.
ele nem sabe do que estou falando
entende nada dessas alegorias.



BRUNA LOMBARDI
in, Gaia






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