quarta-feira, 26 de junho de 2013

As bruxas não se queixam


Fomos reinventando-nos em cada etapa da vida.
Agora, nesta fase de mudança, acredito que chegou o momento de resgatar e redefinir o termo “anciã” entre as inúmeras palavras depreciativas que se utilizam para denominar as mulheres
maduras, e conseguir que a acção de a converter em “bruxa” seja uma suprema conquista interior característica da terceira fase da vida.

Converter-se numa anciã tem a ver com o desenvolvimento interior, e não com a aparência externa. Uma anciã é uma mulher que possui sabedoria, compaixão, humor, coragem e vitalidade.
É consciente de si mesma, sabe expressar o que sabe e o que sente, e empreender uma determinada acção quando é necessário.

As qualidades da anciã não se adquirem da noite para o dia. Uma pessoa não se converte numa anciã automaticamente depois da menopausa, da mesma forma que não se torna mais sábia só porque envelheceu. Sem dúvida que muito antes da menopausa começamos a crescer psicológica e espiritualmente.

Jean Shinoda Bolen, no seu livro "As Bruxas não se queixam" que estou a ler agora, fala dos 13 atributos de uma Bruxa, os atributos intangíveis que têm a ver com a Alma, que são característicos das mulheres experientes e sábias.

Ao cultivar estes atributos, o terceiro estágio da vida advém de uma época em que culminam a beleza interior e a sabedoria.
Em que os melhores anos da vida se converteram numa época especialmente fecunda para podermos disfrutar de quem somos, do que temos e do que fazemos.
É uma época em que a sabedoria nos incita a empregar bem o nosso tempo, a nossa energia e a nossa vitalidade.
É uma oportunidade para disfrutar de um maior número de possibilidades, para experimentar diferentes relacionamentos e para desenvolver talentos e interesses.
Pode ser uma época para jogar e expressar os sentimentos, ou uma época de criatividade e sensualidade, ou uma época para a meditação e terapia, ou uma época para a família ou, ao contrário, uma época para deixar a nossa marca no mundo.

As bruxas possuem a capacidade de alterar as coisas. 
Aquilo que dizemos e fazemos pode mudar um modelo familiar disfuncional.
Com o nosso conselho podemos incentivar ou proporcionar que outras pessoas cresçam e floresçam. Podemos ser uma influência curativa determinante.
Inclusive podemos criar um efeito de onda a longo prazo nas gerações vindouras, nas instituições e nas comunidades.
Com visão e intenção, e dada a sua presença numerosa e influente, as bruxas, todas juntas, podem mudar o mundo.

A vida inteira é o material com que todas temos de trabalhar. 
Até que este período não esteja concluído, todas seguimos estando “em processo”, envolvidas numa história inacabada. 
O que fazemos com a nossa vida é uma grande e magnifica obra de criatividade pessoal. 
Se adoptarmos o ponto de vista de uma anciã, vemos-nos a nós mesmas e veremos os outros através da alma em vez do ego. 
Envelhecer bem é um objectivo que vale a pena desejar.

Esta presença sábia da psique irá amadurecer quando confiarmos na existência de uma bruxa no nosso interior e começarmos a escutá-la.
É então, no silêncio da nossa própria mente, quando devemos prestar atenção às suas percepções e intuições e actuar nesse sentido.

Os atributos da bruxa são as características pelas quais a anciã se destaca (como mulher ou como arquétipo):

1 - As bruxas não se queixam. Aceitam que o que foi, foi e não pode ser mudado e o que interessa é daqui para frente. Não quer dizer que não expressem dor, mas não se lamentam, não se veem nem agem como vítimas.
2 - As bruxas são atrevidas, tem coragem de experimentar o novo, a buscar o não vivido, o não conhecido.
3 - As bruxas têm mão para as plantas, concreta e metaforicamente. “Plantam, regam e acompanham o crescimento” de plantas, pessoas, projetos...
4 - As bruxas confiam nos pressentimentos, em sua intuição, honram sua sabedoria interna.
5 - As bruxas meditam à sua maneira, cultivam um centro interno de silêncio e escuta, de prece e reconexão com o Sagrado.
6 - As bruxas defendem com firmeza o que mais lhes importa, descobrem sua voz e tendem a tornar-se mais rebeldes e radicais com tudo que consideram errado no mundo.
7 - As bruxas decidem o seu caminho com o coração, mesmo que esse caminho seja difícil.
8 - As bruxas dizem a verdade com compaixão, mas dizem sempre a verdade, porque sabem que só a verdade cura e liberta.
9 - As bruxas ouvem o seu corpo, não o veem como um objeto a ser aperfeiçoado, mas como um instrumento de prazer e auto conhecimento.
10 - As bruxas improvisam, agem com espontaneidade, fluem com a vida.
11 - As bruxas não imploram, não fazem NADA com a finalidade de serem aceitas.
12 - As bruxas riem juntas, riem de si e com isso nutrem um profundo senso de irmandade, porque é um riso que expressa o triunfo do espírito e da alma sobre aquilo que poderia tê-las destruído ou as convertido em mulheres amargas .
13 - As bruxas saboreiam o positivo da vida, sabem ter gratidão pela beleza da vida, mesmo que mesclada de sofrimentos.

Bolen, analista junguiana americana, fala que é a primeira vez na história, que as mulheres chegam na idade do início do envelhecimento, desfrutando oportunidades sociais, culturais e económicas como nenhuma outra geração de mulheres teve antes. Isso nos permite “redefinir”o que é uma mulher mais madura ou velha por nós mesmas. Uma definição diferente da feita pela cultura patriarcal que sempre menosprezou as mulheres mais velhas e que, no fundo também as temeu.

Tornar-se uma “bruja” – e aí o termo tem tudo a ver com o arquétipo da Mulher Sábia – tem a ver com :
“…o desenvolvimento interior e não com aparência externa. 
Uma “bruja ou velha sábia”é uma mulher que possui sabedoria, compaixão, humor, valentia e vitalidade. 
É consciente de ser verdadeiramente ela mesma, sabe expressar o que sabe e o que sente e empreender uma acção determinada quando é necessário. 
Não tira os olhos da realidade, nem permite que sua mente se tolde. 
Pode ver os defeitos e as imperfeições dela mesma e dos demais, porém a luz com que os vê não é severa nem julgadora. 
Aprendeu a confiar em si mesma e no que sabe”. 

Isto não de consegue da noite para o dia, é um processo activo e intencional de autodesenvolvimento e que deve ser começado hoje, por isso é um livro que recomendo para as mulheres de todas as idades.
Como diz, a Velha Sábia é um potencial que precisa ser reconhecido e levado a prática para desenvolver-se. Essa presença sábia na psique amadurecerá quando confiarmos na existência de uma “bruja” em nosso interior e passarmos a escutá-la.

2 comentários:

  1. Tenho este livro digitalizado em espanhol...
    Está a lê-lo em Português? Como e onde o adquiriu?
    Gostava imenso de o ter. Tenho quase todos os livros da Jean Shinoda Bolen.
    Obrigada
    M Helena

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  2. Helena,
    Peço desculpa pela demora na resposta, mas só agora vi o seu comentário.
    Da autora, em português, só tenho o livro "Deusas em cada mulher".
    Comprei na Bertrand há mais de 5 anos.
    Este livro, "As Bruxas não se queixam", não foi publicado em português, e já procurei no Brasil e também não foi publicado em português brasileiro.
    O meu, comprei em Barcelona, da Kairós Editorial.
    Deve ser o mesmo que tem em pdf...

    Continuação de boas leituras!
    Abraço de Luz
    Susana

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