quarta-feira, 30 de março de 2011

Um Adeus Português





Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada


Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor


Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver


Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual


Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal


Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser


Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal


Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Alexandre O'Neill

quinta-feira, 24 de março de 2011

A Força do Mundo




Sem força não se faz, mas só a força cria a força: (Sem amor nada se faz, mas só o amor cria o amor). A solução está neste prodígio: caçar a força com a força. Sabe o que é entrar para um círculo fechado, que não se pode abrir, quebrar, para segurar uma ponta?
Mas o possível só é possível no impossível.
E o mundo aparece como construído... por múltiplos anéis fechados, em que a primeira flor é a última flor; serpentes mordendo a cauda, anéis duríssimos que urge rebentar, círculos cruzando-se saíndo uns dos outros, multiplicando-se, oscilando no ar.
De súbito e caladamente veio ter comigo, aqui. Entrou dentro de mim, no meu corpo todo, em igual tamanho. O meu corpo, reduzido a uma camada fina, a uma parede, era uma custódia. Estava dentro de mim que a continha mas também fora de mim, eu continha-a e era contida por ela. Aquela força, aquela presença, viva, tão quente. Uns minutos, só. Mas o tempo com uma medida nova, não horizontal, mas vertical, em profundidade. Não passando de trás para a frente, mas de alto para baixo. Deixando-me viva, acesa. Com seu poder sereno e secreto.
No seu dia consagrado. Segunda vez.


in, A FORÇA DO MUNDO
Dalila L. Pereira da Costa

Personas Sexuais






Na cultura patriarcal, uma cultura de domínio...
"O corpo ondulante da mulher reflecte o amor agitado da natureza ctónica.
Ao concentrar-se na simetria formal, ao converter a mulher num objecto sexual, o homem tenta fixar e estabilizar o pavoroso fluxo da natureza.
A objectificação é uma conceptualização, a maior das faculdades humanas.
Transformar as pessoas em objectos sexuais, é uma das especialidades da nossa espécie.
Nunca há-de desaparecer, pois está ligada ao impulso artístico e pode coincidir com ele.
Um objecto sexual é uma forma ritual imposta à natureza.
É o totem da nossa imagnação perversa."

in,Personas Sexuais 
Camille Paglia


"Penso que sem a dimensão da deusa e do seu amor a mulher não conseguirá nunca deixar transparecer a beleza e uma verdadeira sensualidade, nem o fogo da alma tão próprio do feminino sagrado. (Aqui o sagrado é pagão, livre e pleno, é demónico...) Há mulheres que se pensam sensuais só por exibirem um corpo jovem ou por serem belas...mas sem essa devoção, não se pode compreender nem abranger a grandeza da Mulher na sua totalidade...falta sempre o amor pela sua essência primeira. Ser fiel à essa sua essência ctónica é o que poucas mulheres sabem fazer mesmo quando exibem dotes e qualidades extraordinárias, sempre demasiado exteriores...
Esta entrega sente-se, toca-se, cheira-se de tão intensa que é...e quando nos toma, sabemos claramente que não há qualquer outra forma de existência que não a rendição incondicional e permanente a esta entrega. Nada mais importa porque nada mais é Verdade ou Amor, nada mais brilha ou vive ou morre sem esta devoção.

O olhar da cultura ocidental é o olhar vagabundo. A sexualidade masculina consiste em caçar e sondar: (...) por todo o lado a mulher bonita é escrutinada e assediada. Ela é o simbolo por excelência do desejo humano. O feminino é aquilo-que-e-procurado; aquilo aquilo que escapa para lá do nosso alcance. Daí que haja sempre um elemento feminino no rapaz bonito da homossexualidade masculina O feminino é sempre esquivo, é uma luz prateada na linha do horizonte. Nós seguimos essa imagem com um olhar desejante: talvez seja esta, talvez agora. A busca do sexo pode esconder o sonho de se libertar do sexo. Sexo, conhecimento e poder estão profundamente ligados: não podemos ter um sem ter os outros."

in,Personas Sexuais
Camille Paglia


...«Ao masculino cabe a entrega pela posse, ao feminino a posse pela entrega.
Numa estratégia em que nos damos de comer um pouco para comermos um pouco mais, as relações entre as pessoas contêm um princípio canibalesco.»...

in,Caminho sem Percurso

"O Islão mostra sensatez ao embrulhar as mulheres em tecidos pretos, pois o olhar é a avenida do eros. As difíceis e bem definidas personalidades ocidentais sofrem uma inflamação visual; e são tão numerosas que nunca foram catologadas, excepto na nossa arte do retrato. As personas sexuais no Ocidente são nódulos de poder, mas transformam o erotismo num tormento. Desse tormento veio a nossa grande tradição literária e artística. Infelizmente o palerma que assobia do alto da sua viga e o visionário enlevado diante do seu cavalete não são separáveis. É possível para as mulheres, ao aceitaram os dons da cultura, sejam obrigadas a aceitar o verme com a maçã."

in,Personas Sexuais 
Camille Paglia


carta de seth-cidade dos anjos

quarta-feira, 23 de março de 2011

O Cálice e a Espada





"A moderna ascensão do nazismo e de outras ideologias direitistas é muito lamentada por aqueles que albergam ainda a esperança de podermos prosseguir a nossa evolução cultural.
Essas pessoas notam alarmadas que as ideologias de direita voltariam a impor o autoritarismo, fazendo-nos regressar a um tempo de ainda maior injustiça e desigualdade.
Sentem-se particularmente alarmadas pelo militarismo de direitistas e neo-direitistas, pela sua idealização da violência, derramamento de sangue e guerra, reconhecendo o perigo iminente que esta forma de pensamento constitui para a nossa segurança e sobrevivência. "(...)

in "O CÁLICE E A ESPADA"
Riane Aisler


A voz do silêncio





Ó Mestre, que farei eu para atingir a sabedoria?
Ó sábio, que farei para conseguir a perfeição?
Procura os caminhos.
Mas, ó Lanu, sê puro de coração antes que comeces a jornada.
Antes que dês o primeiro passo, aprende a separar o real do falso, o transitório do eterno.
Aprende sobretudo a separar a ciência da cabeça da sabedoria da Alma, a doutrina dos "olhos" da doutrina do "coração".
Sim, a ignorância é como uma vasilha fechada e sem ar; a Alma uma ave dentro dela.
Não canta, nem pode mexer uma pena; mas jaz num torpor e morte de não poder respirar.
Mas mesmo a ignorância é melhor do que a ciência da cabeça sem a sabedoria da Alma para nos iluminar e guiar.(...)

in, "A VOZ DO SILÊNCIO" 
Helena Blavatsky
Tradução de Fernando Pessoa

ANNA KARENINA



“ Suponhamos que és casado, que amas a tua mulher, e que te deixaste arrastar por uma outra mulher. Trata-se de uma mulher encantadora, modesta, apaixonada, sem riqueza, e que sacrificou tudo: dever-se-á abandoná-la, agora que o mal está feito? Admitamos que seja necessário romper, para não perturbar a vida da família: não se deverá ter piedade dela, suavizar-lhe a separação, assegurar-lhe o futuro? – Pergunta Stiva a Levine.
Levine responde: Para mim, as mulheres dividem-se em duas classes…ou melhor dizendo, há as mulheres e as…Nunca vi nem nunca verei belas arrependidas; mas criaturas como essa de que falas, apenas me inspiram repugnância, como aliás, todas as mulheres que caíram. Tua mulher envelhece, ao passo que a vida ainda ferve dentro de ti. Sentes-te, de repente, incapaz de a amar com amor, por maior que seja o respeito que por ela tenhas. Nesta altura, o amor surge de imprevisto, e aí estás tu perdido!
Que fazer, então?
Vê se compreendes a situação, diz Stiva! Defrontam-se duas mulheres. Uma vale-se dos seus direitos, quer dizer, de um amor que tu não lhe podes dar; a outra sacrifica tudo e não te pede nada. O que fazer?
E levine diz-lhe que para ele não existe ali drama nenhum: No meu entender, o amor…os dois amores, tais como, deves recordar-te, Platão os caracteriza no Banquete, servem de pedra de toque dos homens, que só compreendem ou um ou outro. O amor platónico não conhece esse género de amor, porque nele tudo é claro e puro.
E Stiva diz-lhe: És um homem de uma só peça! É a tua grande qualidade, e também o teu grande defeito. Quererias que o amor e a vida conjugal fossem um só, o que não pode ser. O encanto, a variedade, a beleza da vida provém precisamente das oposições de luz e sombra.
Enquanto isto, Dolly fala com Ana: Minha querida, concebo bem a tua dor mas…só tu podes saber se o amas o Bastante para o poderes perdoar. Se sim, Perdoa! Sei como se portam em casos destes os homens como Stiva. Tu pensas que eles falaram de ti, juntos. Fica convencida de que assim não foi. Esses homens podem cometer infidelidades, mas nem por isso a sua mulher e o seu lar são menos sagrados. No fundo, desprezam essas criaturas e traçam entre elas e a sua família uma linha de demarcação que nunca é atravessada. Não concebo bem como isto pode ser, mas é assim.
Stiva diz a Levine: Tu não admites que se possa desejar qualquer suplemento à vida conjugal. Na tua opinião, trata-se de um crime, e eu não posso admitir que se possa viver sem amor. Sou feito desta maneira, não posso fazer nada. Acho que prejudicamos tão pouco os outros e damos tanto prazer a nós próprios!
A mulher é um tema inesgotável: por mais que a estudemos, encontramos sempre qualquer coisa de novo…e o prazer consiste em procurar a verdade e não em a encontrar.
Aquele que apenas conheceu a sua mulher e a amou, sabe mais sobre a mulher, do que aquele que conheceu mil. O casamento deve assentar no amor: quando se ama, é-se sempre feliz, pois a nossa felicidade está em nós próprios.
Levine corou, não por se sentir vencido, mas por ter cedido uma vez mais à necessidade de discutir. Estou a perder o meu tempo, pensou. Como posso vencer, estando nu, pessoas protegidas por uma armadura sem defeito?
Levine percorria a grandes passadas o seu Caminho, cedia a um estado de Alma novo.
Apesar da decepção que sentira ao verificar que a sua regeneração moral não produzia no seu carácter nenhuma modificação apreciável, nem por isso Levine deixou de sentir todo o dia, durante conversas em que não fazia questão de se meter, uma plenitude de coração que o encheu de alegria.

Leo Tolstoi

CASAMENTOS


Os casamentos são oito horas de magnífica comédia humana!
Começa logo com a batalha entre os dois lados: o lado dela e o lado dele. Geralmente, não se gramam. As pessoas exibem status, os homens exibem esposas troféus, testam piadas, há sempre três casais cuja relação está colada a cuspo. Depois há os engates, normalmente a noiva tem umas amigas que têm uns decotes do outro mundo. Há também aqueles que discutem política, há os literatos, os cépticos, pessoas a rir à desbragada, a cilindrada dos carros do parque automóvel passa a ser tema de conversa, os putos correm como chitas pelas mesas. Há sempre um abichanado e um trombudo. Um adolescente que olha para as raparigas e não consegue meter conversa(ao cair da noite o mais provável é consumir sozinho essa atracção), os amigos do noivo que cumprem tão bem o seu papel de Grunhos, as amigas da noiva normalmente anémicas e com falta de peso, as raparigas a queixarem-se dos saltos altos, há sempre uma miúda feia que pensa que não arranja noivo nunca, as trintonas que dançam como a Shakira, alguém torce um pé e o noivo acaba sempre na piscina…

Há coisas que não entendo nos Casamentos, como por exemplo:

- Casar num Cartório
Vão vestidos como se fossem receber algum prémio, com um ar muito solene, e mesmo ao lado está um calceteiro imigrante dos Países de Leste, vestido de fato-de-macaco, a autenticar a assinatura. LINDO….

- Já para não falar nos bolos…com aquela cobertura branca, que fica dura como pedra, com o casalinho no ultimo andar…

- E o leilão da Liga?
Mas para que raio, querem os homens que vão aos casamentos, ficar com a Liga da Noiva? Ainda por cima têm de a tirar com os dentes e a pagar! Se algum deles quisesse alguma coisa íntima da noiva, provavelmente seria ele que estaria a casar com ela…e ainda por cima sem pagar. Mas que palermice…

- O momento de atirar o Bouquet então…é hilariante!
O mulherio fica histérico, parecem saídas de um episódio da Vida Selvagem da BBC. Mas será que elas acreditam mesmo que, a que apanhar o bouquet primeiro, será a próxima a casar? Quase que se partem todas, algumas andam à pancada…mas o mais cómico é o olhar orgulhoso que elas mandam ao namorado, depois de apanhar o ramo. Tipo: “Toma! Agora todas as pessoas sabem que tens de te casar comigo”.
É uma espécie de fava do bolo-rei. Mas em versão Casamento…

- E para acabar…casamento sem bebedeiras, não é casamento!
Uns, começam a chorar e abraçam-se a todas as pessoas e dizem como os adoram. Outros, agarram no microfone da banda e gritam, cantam desafinado e contam anedotas. Depois há aqueles que ficam num estado vegetativo, feitos estátuas, e só se mexem para ir à casa de banho. Os piores, são os que ficam violentos e só lhes apetece é bater em toda a gente…os casamentos acabam sempre em beleza!


Pedro Mexia

O CASAMENTO COMO UM ACAMPAMENTO DE APOIO DE MONTANHISMO


Se se quer fazer montanhismo, tem que se ter um bom acampamento de apoio, um lugar onde haja abrigo e provisões, onde se recebem cuidados e se descansa antes de se aventurar a subir a outro pico. Os montanhistas de sucesso sabem que têm que passar tanto tempo, ou mais, a tratar do acampamento como a subir às montanhas, porque a sua sobrevivência depende do cuidado que têm em assegurar que o acampamento é bem montado e bem aprovisionado.
Um problema comum e tradicionalmente Masculino é o criado pelo marido que, depois de estar casado, dedica todo o tempo a subir às montanhas e nenhum a tratar do casamento, ou acampamento de apoio, esperando que ele esteja em perfeita ordem sempre que decidir voltar para ele, para o seu descanso e lazer, sem assumir nenhuma responsabilidade pela sua conservação. Mais cedo ou mais tarde, esta abordagem falha e ele regressa ao acampamento para o encontrar num caos, tendo a sua mulher, a quem deu tão pouca atenção, sido hospitalizada com um esgotamento nervoso, ou fugido com outro homem, ou renunciado de qualquer outra forma ao lugar de supervisora do acampamento.
Outro problema igualmente vulgar e tradicionalmente Feminino é criado pela mulher que, assim que se casa, acha que atingiu o seu objectivo de vida. Para ela, o acampamento de apoio é o pico. Não entende e não aceita a necessidade de o marido se realizar e ter outras experiências para além do casamento e reage com ciúme e exigências infindas para que ele dedique cada vez mais energia à casa. Esta abordagem cria uma relação sufocante e estagnadora em que o marido, sentindo-se preso e limitado, pode bem fugir numa altura de “crise de meia idade”.
O movimento de libertação da mulher tem sido útil em mostrar o Caminho que é obviamente a solução ideal: O Casamento como uma instituição realmente cooperante, que exige grandes contribuições e cuidados mútuos, tempo e energia, mas que existe principalmente com o objectivo de apoiar cada um dos participantes na sua jornada individual em direcção ao seu pico individual de desenvolvimento espiritual. Tanto o homem como a mulher têm que cuidar do lar e ambos têm de se aventurar. Essa jornada solitária até aos picos onde só se pode ir sozinho. E essas jornadas significativas não podem ser empreendidas sem o apoio de um bom casamento, com amor genuíno, em que os “sacrifícios” pelo desenvolvimento do outro resultam num desenvolvimento igual ou superior de si próprio. É o regresso do indivíduo ao casamento, vindo dos picos para onde viajou sozinho, que serve para elevar esse casamento a novas alturas. Mas o cume do desenvolvimento é sempre e inevitavelmente solitário.

in, O Caminho Menos Percorrido
M. Scott Peck

terça-feira, 22 de março de 2011

Cat Stevens - Father And Son (live)



It's not time to make a change
Just relax, take it easy
You're still young, that's your fault
There's so much you have to know
Find a girl, settle down
If you want, you can marry
Look at me, I am old
But I'm happy

I was once like you are now
And I know that it's not easy
To be calm when you've found
Something going on
But take your time, think a lot
I think of everything you've got
For you will still be here tomorrow
But your dreams may not

How can I try to explain
When I do he turns away again
And it's always been the same
Same old story
From the moment I could talk
I was ordered to listen
Now there's a way and I know
That I have to go away
I know I have to go

It's not time to make a change
Just sit down and take it slowly
You're still young that's your fault
There's so much you have to go through
Find a girl, settle down
If you want, you can marry
Look at me, I am old
But I'm happy

All the times that I've cried
Keeping all the things I knew inside
And it's hard, but it's harder
To ignore it
If they were right I'd agree
But it's them they know, not me
Now there's a way and I know
That i have to go away
I know I have to go


Cat Stevens

terça-feira, 15 de março de 2011

O Limiar da Loucura





Uma mente aprisionada
no mundo das ilusões.
Um pobre corpo que
delira e treme de pavor,
sob o comando de
uma mente insana, que
sem conseguir distinguir
o real do imaginário,
é povoada por monstros
horrendos, à lhe perseguir
na escuridão da noite
ou no clarear do dia.
Os pesadêlos, na mente
doente, tornam-se reais,
sufocando, atormentando
a mente desordenada,
que grita desesperadamente
por socorro,quando sente que
o monstro, está a engolí-la
por inteiro.
O pesadêlo é interminável,
e a pobre mente, indecifrável!
Um ser que, não vê além
da porta dos sonhos,
por que não consegue atravessá-la
pois, já ultrapassou o Limiar da Loucura!

Simone Borba Pinheiro

Renascence




Poema de Edna St. Vicent
Também ela com PMD...

All I could see from where I stood
Was three long mountains and a wood;
I turned and looked another way,
And saw three islands in a bay.
So with my eyes I traced the line
Of the horizon, thin and fine,
Straight around till I was come
Back to where I'd started from;
And all I saw from where I stood
Was three long mountains and a wood.
Over these things I could not see;
These were the things that bounded me;
And I could touch them with my hand,
Almost, I thought, from where I stand.
And all at once things seemed so small
My breath came short, and scarce at all.
But, sure, the sky is big, I said;
Miles and miles above my head;
So here upon my back I'll lie
And look my fill into the sky.
And so I looked, and, after all,
The sky was not so very tall.
The sky, I said, must somewhere stop,
And -- sure enough! -- I see the top!
The sky, I thought, is not so grand;
I 'most could touch it with my hand!
And reaching up my hand to try,
I screamed to feel it touch the sky.
I screamed, and -- lo! -- Infinity
Came down and settled over me;
Forced back my scream into my chest,
Bent back my arm upon my breast,
And, pressing of the Undefined
The definition on my mind,
Held up before my eyes a glass
Through which my shrinking sight did pass
Until it seemed I must behold
Immensity made manifold;
Whispered to me a word whose sound
Deafened the air for worlds around,
And brought unmuffled to my ears
The gossiping of friendly spheres,
The creaking of the tented sky,
The ticking of Eternity.
I saw and heard, and knew at last
The How and Why of all things, past,
And present, and forevermore.
The Universe, cleft to the core,
Lay open to my probing sense
That, sick'ning, I would fain pluck thence
But could not, -- nay! But needs must suck
At the great wound, and could not pluck
My lips away till I had drawn
All venom out. -- Ah, fearful pawn!
For my omniscience paid I toll
In infinite remorse of soul.
All sin was of my sinning, all
Atoning mine, and mine the gall
Of all regret. Mine was the weight
Of every brooded wrong, the hate
That stood behind each envious thrust,
Mine every greed, mine every lust.
And all the while for every grief,
Each suffering, I craved relief
With individual desire, --
Craved all in vain! And felt fierce fire
About a thousand people crawl;
Perished with each, -- then mourned for all!
A man was starving in Capri;
He moved his eyes and looked at me;
I felt his gaze, I heard his moan,
And knew his hunger as my own.
I saw at sea a great fog bank
Between two ships that struck and sank;
A thousand screams the heavens smote;
And every scream tore through my throat.
No hurt I did not feel, no death
That was not mine; mine each last breath
That, crying, met an answering cry
From the compassion that was I.
All suffering mine, and mine its rod;
Mine, pity like the pity of God.
Ah, awful weight! Infinity
Pressed down upon the finite Me!
My anguished spirit, like a bird,
Beating against my lips I heard;
Yet lay the weight so close about
There was no room for it without.
And so beneath the weight lay I
And suffered death, but could not die.

Long had I lain thus, craving death,
When quietly the earth beneath
Gave way, and inch by inch, so great
At last had grown the crushing weight,
Into the earth I sank till I
Full six feet under ground did lie,
And sank no more, -- there is no weight
Can follow here, however great.
From off my breast I felt it roll,
And as it went my tortured soul
Burst forth and fled in such a gust
That all about me swirled the dust.

Deep in the earth I rested now;
Cool is its hand upon the brow
And soft its breast beneath the head
Of one who is so gladly dead.
And all at once, and over all
The pitying rain began to fall;
I lay and heard each pattering hoof
Upon my lowly, thatched roof,
And seemed to love the sound far more
Than ever I had done before.
For rain it hath a friendly sound
To one who's six feet underground;
And scarce the friendly voice or face:
A grave is such a quiet place.

The rain, I said, is kind to come
And speak to me in my new home.
I would I were alive again
To kiss the fingers of the rain,
To drink into my eyes the shine
Of every slanting silver line,
To catch the freshened, fragrant breeze
From drenched and dripping apple-trees.
For soon the shower will be done,
And then the broad face of the sun
Will laugh above the rain-soaked earth
Until the world with answering mirth
Shakes joyously, and each round drop
Rolls, twinkling, from its grass-blade top.
How can I bear it; buried here,
While overhead the sky grows clear
And blue again after the storm?
O, multi-colored, multiform,
Beloved beauty over me,
That I shall never, never see
Again! Spring-silver, autumn-gold,
That I shall never more behold!
Sleeping your myriad magics through,
Close-sepulchred away from you!
O God, I cried, give me new birth,
And put me back upon the earth!
Upset each cloud's gigantic gourd
And let the heavy rain, down-poured
In one big torrent, set me free,
Washing my grave away from me!

I ceased; and through the breathless hush
That answered me, the far-off rush
Of herald wings came whispering
Like music down the vibrant string
Of my ascending prayer, and -- crash!
Before the wild wind's whistling lash
The startled storm-clouds reared on high
And plunged in terror down the sky,
And the big rain in one black wave
Fell from the sky and struck my grave.
I know not how such things can be;
I only know there came to me
A fragrance such as never clings
To aught save happy living things;
A sound as of some joyous elf
Singing sweet songs to please himself,
And, through and over everything,
A sense of glad awakening.
The grass, a-tiptoe at my ear,
Whispering to me I could hear;
I felt the rain's cool finger-tips
Brushed tenderly across my lips,
Laid gently on my sealed sight,
And all at once the heavy night
Fell from my eyes and I could see, --
A drenched and dripping apple-tree,
A last long line of silver rain,
A sky grown clear and blue again.
And as I looked a quickening gust
Of wind blew up to me and thrust
Into my face a miracle
Of orchard-breath, and with the smell, --
I know not how such things can be! --
I breathed my soul back into me.
Ah! Up then from the ground sprang I
And hailed the earth with such a cry
As is not heard save from a man
Who has been dead, and lives again.
About the trees my arms I wound;
Like one gone mad I hugged the ground;
I raised my quivering arms on high;
I laughed and laughed into the sky,
Till at my throat a strangling sob
Caught fiercely, and a great heart-throb
Sent instant tears into my eyes;
O God, I cried, no dark disguise
Can e'er hereafter hide from me
Thy radiant identity!
Thou canst not move across the grass
But my quick eyes will see Thee pass,
Nor speak, however silently,
But my hushed voice will answer Thee.
I know the path that tells Thy way
Through the cool eve of every day;
God, I can push the grass apart
And lay my finger on Thy heart!

The world stands out on either side
No wider than the heart is wide;
Above the world is stretched the sky, --
No higher than the soul is high.
The heart can push the sea and land
Farther away on either hand;
The soul can split the sky in two,
And let the face of God shine through.
But East and West will pinch the heart
That can not keep them pushed apart;
And he whose soul is flat -- the sky
Will cave in on him by and by.

Edna St. Vincent

Mr. Jones




Hoje ao ver o filme “Ana Keranine”, baseado na história de Leo Tolstoi, senti-me defraudada…
A história estava completamente alterada e bastante incompleta.
Valeu pela banda sonora, com Tschaikowsky!
Uma das mentes brilhantes russas, e tal como muitas dessas mentes brilhantes, sofria de PMD (Psicose Maníaco-Depressiva). Nove dias depois de dirigir o seu grande concerto, suicidou-se.
E tudo isto me fez lembrar do filme “Mr. Jones”, que retrata tão bem esta doença que tanto me FASCINA!

A PMD, também chamada de Transtorno Bipolar de Humor, apesar de dar a impressão de ser uma doença psicológica, é uma doença biológica, genética e hereditária.
Este relato de uma paciente descreve na perfeição o que se sente:
“ Há um tipo especial de dor, exultação, solidão e pavor envolvidos nessa classe de loucura. Quando se está para cima, é fantástico. As ideias e sentimentos são velozes e frequentes como estrelas cadentes, e você os segue até encontrar algum melhor e mais brilhante. A produtividade e capacidade de trabalho são estonteantes e viciantes. A timidez desaparece; as palavras e os gestos certos de repente aparecem; o poder de cativar os outros, uma certeza palpável. Descobrem-se interesses em pessoas desinteressantes. A sensualidade é difusa; e o desejo de seduzir e ser seduzida, irresistível. Impressões de desenvoltura, energia, poder, bem-estar, omnipotência financeira e euforia estão impregnadas na nossa medula. Mas, a certa altura, tudo muda. As ideias velozes são velozes demais; e surgem em quantidades excessivas. Uma confusão arrasadora toma o lugar da clareza. A memória desaparece. O humor e enlevo no rosto dos amigos são substituídos pelo medo e preocupação. Tudo o que antes corria bem, agora só contraria – fica-se irritadiça, zangada, assustada, incontrolável e totalmente emaranhada na caverna mais sinistra da mente. E isto nunca termina pois a loucura esculpe a sua própria realidade. A Mania tem o lado positivo, e a Depressão o lado negativo que, na maioria dos casos leva ao suicídio.”

segunda-feira, 14 de março de 2011

O Idiota





Há pessoas de quem é difícil dizer alguma coisa que as apresente definitivamente e na integra, no seu aspecto mais típico e característico; são as pessoas comummente chamadas de “normais”, ou a “maioria”, e que constituem, de facto, a enorme maioria de qualquer sociedade.
Elas existem de facto, azafamam-se e correm diante de nós todos os dias, só que numa forma diluída.
O que fazer com a gente vulgar, com as pessoas perfeitamente “normais”, e como apresentá-las aos outros de forma a que elas se tornem um pouquinho interessantes? Passar-lhes ao lado é impossível, porque as pessoas vulgares são, a cada momento e na maioria dos casos, um elo necessário na cadeia dos acontecimentos do quotidiano. Mas esta vulgaridade deseja, custe o que custar, tornar-se original e independente, sem, no entanto, possuir os meios mínimos necessários para a independência.
De facto, não há maior desgosto do que, ser rico, ser de boas famílias, ter uma boa aparência, um bom nível de ensino, não ser parvo, ser bondoso, e, ao mesmo tempo, não ter nenhum talento, nenhuma particularidade, nenhuma esquisitice, nenhuma ideia própria, ser, definitivamente, “como toda a gente”. A família é honesta, mas nunca se destacou por coisa nenhuma; a aparência é decente, mas muito pouco expressiva; o ensino é razoável, mas o indivíduo não sabe como utilizá-lo; há intelecto mas, sem ideias próprias; há coração mas, sem generosidade; e assim por diante. São numerosíssimas no mundo estas pessoas; dividem-se, como toda a gente, em duas categorias principais: as limitadas e as “bastante mais espertas”. As limitadas são mais felizes. Não há nada mais fácil para uma pessoa “vulgar” limitada do que, por exemplo, imaginar-se a si mesma como extraordinária e original e com isso se deleitar sem vacilações (pondo uns óculos diferentes, fazer um novo corte de cabelo, etc…).
Este descaramento da ingenuidade, esta falta de dúvidas da pessoa estúpida relativamente à sua pessoa e ao seu talento, encontra-se a cada passo.
Já os “bastante mais espertos”, são muito mais infelizes do que os limitados.
O problema consiste em que uma pessoa “normal” inteligente, mesmo imaginando-se a si própria em certos momentos (ou mesmo em toda a vida) um génio e um original, guarda sempre no fundo do coração um verme da dúvida que a leva, às vezes, até ao desespero total; e quando tal pessoa acaba, finalmente, por se resignar, já está irremediavelmente envenenada pela vaidade que ficou encafuada dentro dela. Para uma pessoa dessas, a ideia de ter cumprido muito bem as suas obrigações humanas não é minimamente tranquilizadora nem consoladora; pelo contrário, é isso que as irrita: “vejam como desperdicei a minha vida, com que me ataram as minhas mãos e me impediram de descobrir a pólvora! Se não fosse isso, conseguiria o que eu quisesse!”. O mais característico nestas pessoas é que eles realmente, durante toda a sua vida, não conseguem perceber até ao fim o que necessitam exactamente tanto de descobrir e o que estão prontos para descobrir durante toda a sua vida: será a pólvora? Será a América? O certo é que o sofrimento e a nostalgia que têm de descobertas, chegava para fazer um Colombo ou um Galileu. Tais pessoas, por ânsia de originalidade, antes de se resignarem e submeterem, fazem das suas e cometem actos ignóbeis.

O principal é o coração!
O resto é disparate!

O Idiota





“ Não aguentava aquela gente a correr, a azafamar-se, sempre preocupada, sombria e alarmada, que passava por mim nos passeios.
Para que serve a eterna tristeza dessa gente, a eterna inquietude e azáfama dessa gente, a sua eterna maldade tenebrosa( porque são maus?)
Quem tem culpa de que sejam infelizes e não saibam viver quando ainda têm pela frente uma vida?
E cada um mostra os seus farrapos, as suas mãos trabalhadoras, enraivece-se e grita:
Trabalhamos como cavalos, labutamos, sofremos e somos pobres!
Os outros não se esforçam, não trabalham, e são ricos!
Sempre a lamuriar-se, sempre a queixar-se!
Oh, não, eu não tinha pena nenhuma desses parvos, não tinha antes nem tenho agora – e digo-o com orgulho! Se vive, então está tudo ao seu alcance!
Quem tem a culpa de ele não perceber isso?
Como compreendem eles todos, até ao último, onde está a felicidade?
Oh, podem ter a certeza de que Colombo não era feliz na hora de descobrir a América, mas sim quando estava no processo de a descobrir. O que importa é a Vida, apenas a Vida – o processo da sua descoberta, ininterrupto e eterno, e não o facto de descobrir!
Quantos lances pode haver numa vida e quanta coisa dessa vida é para nós desconhecida?
Lançando-se uma semente, uma “esmola”, uma boa acção, assuma a forma que assumir, oferece-se uma parte da nossa personalidade própria e recebe-se uma parte da outra; há uma comunhão e, com um pouco mais de atenção, pode ser-se recompensado com a sabedoria, com as mais inesperadas descobertas.
Abarcar-se-á toda a nossa vida e poderá preencher-se toda a nossa vida.
Por outro lado, todas as nossas ideias, todas as sementes lançadas por nós, que provavelmente já teremos esquecido, germinarão e crescerão; quem de nós receber, transmitirá ao outro.
E como podemos saber que participação isso terá na futura solução dos destinos da humanidade?
E se o conhecimento e o trabalho de toda uma vida nos elevarem, finalmente, até sermos capazes de lançar uma semente enorme, de deixar ao mundo uma ideia gigantesca, então…e assim por diante…

O Idiota




Ao ler o Livro “Céu e Fogo” de Mário de Sá-Carneiro , o autor começa o livro com um excerto do livro “ O Idiota” de Fiódor Dostoievsky :
“Qu’importe que ce soit une maladie, une tension anormale, si le resultat même, tel que, revenu à la santé, je me rapelle et l’analyse, renferme au plus haut degré l’harmonie et la beauté...

O “Idiota” foi um dos livros que mais me marcou, e por isso, logo me transportei no tempo, entrei dentro da história, e recordei com saudade este Príncipe Míchkin, que sofre de Epilepsia, tal como o próprio Dostoiévski, e que possui uma Alma Pura e Nobre, o que faz com que aos olhos dos outros, se pareça com um perfeito Idiota.
Este excerto do livro, situa-se numa altura em que ele chega da Suíça a S. Petersburgo, e em frente à montra de uma loja, ele põe em dúvida se realmente essa loja existe, ou se é uma alucinação sua, muito normal de acontecer, segundos antes de um ataque de Epilepsia. Então, entra em reflexão sobre a altura que antecede um ataque de epilepsia .
Esta é a sua reflexão:

“ Entre outras coisas, pensava que no seu estado epiléptico havia uma fase, quase imediatamente antes do ataque, em que, de repente, no meio da tristeza, das trevas espirituais, da pressão, o seu cérebro como que se incendiava por instantes, e todas as suas forças vitais ficavam tensas, num ímpeto extraordinário. A sensação de vida e de auto consciência, parecia duplicar-se nesses instantes, que tinham a duração de um raio. A mente e o coração iluminavam-se com uma luz inacreditável; todas as hesitações e preocupações dele pareciam apaziguar-se de todo, resolvidas num sossego superior, pleno de uma alegria e de uma esperança claras e harmoniosas, como que preenchido da razão e da causa ultima. Mas estes momentos, estes clarões, eram apenas o pressentimento daquele instante, daquele segundo final com que se iniciava o ataque propriamente dito. Este segundo era, evidentemente, insuportável. Ao reflectir mais tarde sobre esse instante, já num estado saudável, dizia muitas vezes para si mesmo:
Todos esses raios, esses clarões de plena sensação e consciência superiores e, por conseguinte, de uma “experiência superior”, mais não são do que a doença, a desordem do estado normal, e, sendo assim, não se trata de nenhuma existência superior mas, pelo contrário, deve ser atribuído à mais inferior das consciências inferiores.
Entretanto, acabou por chegar a uma conclusão extremamente paradoxal:
Que importância tem que seja uma doença? – decidiu. – Que importa que seja um estado de tensão anormal, se o resultado em si, se o instante de sensação recordado e analisado já num estado saudável, se apresenta como o grau superior da harmonia e da beleza, é um sentimento, nunca visto nem esperado, de plenitude, de medida, de apaziguamento e fusão extasiada e religiosa com a síntese superior da vida?
Estas formulas nebulosas pareciam-lhe bastante compreensíveis, embora com uma força de expressão bastante fraca. Uma coisa é certa: não duvidava, nem era possível duvidar, de que se tratava realmente de “beleza e oração”, que aquilo era realmente a “síntese superior da Vida”. É que acontecia mesmo, acontecia de facto, conseguir dizer a si mesmo, naquele segundo, que aquele segundo, pela felicidade infinita que lhe dava, e que ele sentia plenamente, poderia valer toda uma Vida”

quinta-feira, 10 de março de 2011

Pertencer é viver





Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer.
Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar a sentir que não pertencia a nada e a ninguém.
Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino.
A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exactamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente.
Não sei mais como se é.
E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de grupos, clubes ou de associações?
Porque não é isso que eu chamo de pertencer.

O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes.
E uma alegria solitária pode se tornar patética.
É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos – e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o!
Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte.
Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força – eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer.

Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto, fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito.
Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença.
Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança.

Só que não curei minha mãe.
E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei.
Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado.
Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.
Mas eu, eu não me perdôo.

Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe.
Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe.
Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertora, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo.
E então eu soube: pertencer é viver.
Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil.
E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!


Clarice Lispector

Rifa-se um coração




Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste
em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um
pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste
de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia
estava certo quando escreveu…
"…não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero…".
Um idealista…Um verdadeiro sonhador…
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a
esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional
que abre sorrisos tão largos que quase dá
pra engolir as orelhas, mas que
também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem
passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras
e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e,
se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate
tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente, por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta

Clarice Lispector

O Primeiro Beijo





Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
– Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:

– Sim, já beijei antes uma mulher.

– Quem era ela? perguntou com dor.

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.

O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir – era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.

E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.

A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.

E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava… o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.

Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida… Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele…

Ele se tornara homem.

In, "Felicidade Clandestina"

Saudades





Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades…

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei…

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser…

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro…

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser…

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências…

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que…
não sei onde…
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi…

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês…
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados…
para contar dinheiro… fazer amor…
declarar sentimentos fortes…
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência…

Clarice Lispector

Pa'Llhegar a tu lado



Je remercie ton corps de m’avoir attendue,
Il a fallu que je me perde pour arriver jusqu’à toi.
Je remercie tes bras d’avoir pu m’atteindre,
Il a fallu que je m’éloigne pour arriver jusqu’à toi.
Je remercie tes mains d’avoir pu me supporter,
Il a fallu que je brûle pour arriver jusqu’à toi.
Je remercie mon corps de t’avoir attendu,
Il a fallu que je me perde pour arriver jusqu’à toi.

Lhasa de Sela

sexta-feira, 4 de março de 2011

Sigo refinándome para ti

Discurso de Steve jobs en Stanford (subtitulado)

                                                     


Discurso de Steve Jobs aos alunos da Universidade de Stanford da classe de 2005.
Nesse discurso, Steve Jobs compartilha três óptimas histórias de vida.


 "Lembrar-me que inevitavelmente terei que morrer é a mais importante ferramenta que eu alguma vez encontrei para me ajudar a fazer as grandes escolhas na vida.
Porque praticamente tudo - todas as nossas expectativas externas, todo o nosso orgulho, todo o nosso medo do embaraço ou fracasso - todas estas coisas simplesmente caem em face da morte, deixando apenas aquilo que é realmente importante.
Lembrares-te que mais cedo ou mais tarde vais morrer é a melhor forma que eu conheço de evitar a armadilha de que temos alguma coisa a perder.
Nós já estamos nús.
Não existe nenhuma razão para não seguirmos o nosso coração."


"O teu tempo é limitado, por isso não o desperdices a viver a vida de outra pessoa.
Não te deixes armadilhar pelos dogmas - que é a mesma coisa que viver pelos resultados do que outras pessoas pensaram.
Não deixes que o ruído das opiniões dos outros saia da tua própria voz interior.
E, mais importante ainda, tem a coragem de seguir o teu coração e a tua intuição.
Estes já sabem, de alguma forma, aquilo em que tu verdadeiramente te vais tornar.
Tudo o resto é secundário."

Steve Jobs

quinta-feira, 3 de março de 2011

Platoon



Platoon
1986

Directed by Oliver Stone

Johnny Depp : Lerner

Chris (Charlie Sheen) é um jovem recruta recém-chegado a um batalhão americano, a meio da Guerra do Vietnam.
Idealista, Chris foi um voluntário para lutar na guerra pois acredita que deve defender seu país, assim como fez seu avô e seu pai em guerras anteriores.
Mas aos poucos, com a convivência dos demais recrutas e dos oficiais que o cercam, ele vai perdendo sua inocência e passa a experimentar de perto toda a violência e loucura de uma carnificina sem sentido.

Estrela da Tarde





Era a tarde mais longa de todas as tardes
que me acontecia
eu esperava por ti, tu não vinhas
tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
...tardando-lhe o beijo, mordia
quando à boca da noite surgiste
na tarde tal rosa tardia
quando nós nos olhamos tardamos no beijo
que a boca pedia
e na tarde ficámos unidos ardendo na luz
que morria
em nós dois nessa tarde em que tanto
tardaste o sol amanhecia
era tarde de mais para haver outra noite
para haver outro dia.

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
...Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.

Foi a mais bela de todas as noites
Que me aconteceram
Dos nocturnos silencios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa
De fogo fizeram.
Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.

Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
...Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto.

ARY DOS SANTOS



quarta-feira, 2 de março de 2011

Abolish Slavery - Human Trafficking Exposed

...........cavalo preto





…Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a cada dele, e é.
trata-se de um cavalo preto e lustoso que apesar de inteiramente selvagem – pois nunca morou antes em ninguém
nem jamais lhe puseram rédeas nem sela -
apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo:
come às vezes na minha mão.
Seu focinho é úmido e fresco.
eu beijo o seu focinho.
quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito.
a menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo salvagem e suave.
aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e se acerta com seu nome.
ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai.
se ele fareja e sente um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e ai.
aviso tambem que nao se deve temer seu relinchar:
a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera,
a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez.

Clarice Lispector

extracts from The Book of the Universe 072

Carla Bley & Steve Swallow Duets



Tanta Cumplicidade, Talento, Empatia e AMOR

terça-feira, 1 de março de 2011

A CIDADE DOS POÇOS




HISTÓRIA CONTADA PELO PADRE CRIOULO MAMERTO MENAPAC

Aquela cidade não era habitada por pessoas, como todas as outras cidades do planeta.
Aquela cidade era habitada por poços. Poços vivos…mas poços.
Os poços distinguiam-se entre si não somente pelo lugar onde estavam escavados, mas também pelo parapeito(a abertura que os ligava ao exterior).
Havia poços ricos e ostensivos com parapeitos de mármore e metais preciosos; poços humildes de tijolo e madeira e outros mais pobres, simples buracos rasos que se abriam na terra.
A comunicação entre os habitantes da cidade fazia-se de parapeito em parapeito, e as notícias corriam rapidamente de ponta a ponta do povoado.
Um dia, chegou à cidade uma “moda” que certamente tinha nascido nalgum pequeno povoado humano.
A nova ideia assinalava que qualquer ser vivo que se prezasse deveria cuidar muito mais do interior do que do exterior. O importante não era o superficial, mas o conteúdo.
E foi assim que os poços começaram a encher-se de coisas.
Alguns enchiam-se de jóias, moedas de ouro e pedras preciosas. Outros, mais práticos, encheram-se de electrodomésticos e aparelhos mecânicos. Outros ainda optaram por arte, e foram-se enchendo de pinturas, pianos de cauda e sofisticadas esculturas pós-modernas. Finalmente, os intelectuais encheram-se de livros, de manifestos ideológicos e de revistas especializadas.
O tempo passou.
A maioria dos poços encheu-se a tal ponto que já não podia conter mais nada.
Os poços não eram todos iguais, por isso, embora alguns se tenham conformado, outros pensaram no que teriam de fazer para continuar a meter coisas no seu interior…
Um deles foi o primeiro. Em vez de apertar o conteúdo, lembrou-se de aumentar a sua capacidade alargando-se.
Não passou muito tempo até que a ideia começasse a ser imitada. Todos os poços utilizavam grande parte das suas energias a alargarem-se para criarem mais espaço no seu interior. Um poço, pequeno e afastado do centro da cidade, começou a ver os seus colegas que se alargavam desmedidamente. Ele pensou que se continuassem a alargar-se daquela maneira, dentro em pouco confundir-se-iam os parapeitos dos vários poços e cada um perderia a sua identidade…

Talvez a partir dessa ideia, ocorreu-lhe que outra maneira de aumentar a sua capacidade seria crescer, mas não em largura, antes em profundidade. Fazer-se mais fundo em vez de mais largo. Depressa se deu conta de que tudo o que tinha dentro dele lhe impedia a tarefa de se aprofundar. Se quisesse ser mais profundo, seria necessário esvaziar-se de todo o conteúdo…
Ao princípio teve medo do vazio. Mas, quando viu que não havia outra possibilidade, depressa se meteu a fazê-lo.
Vazio de posses, o poço começou a tornar-se profundo, enquanto os outros se apoderavam das coisas das quais ele se tinha despojado…
Um dia, algo surpreendeu o poço que crescia para dentro. Dentro, muito no interior e muito no fundo…encontrou água!
Nunca antes nenhum outro poço tinha encontrado água.
O Poço venceu a sua surpresa e começou a brincar com a água do fundo, humedecendo as suas paredes, salpicando o seu parapeito e, por último, atirando a água para fora.
A cidade nunca tinha sido regada a não ser pela chuva, que na verdade era bastante escassa. Por isso, a terra que estava à volta do poço, revitalizada pela água, começou a despertar.
As sementes das suas entranhas brotaram em forma de erva, de trevos, de flores e de hastezinhas delicadas que depois se transformaram em árvores…
A vida explodiu em cores à volta do poço afastado ao qual começaram a chamar de “Vergel”.
Todos lhe perguntavam como tinha conseguido aquele milagre.
- Não é nenhum milagre – respondeu o Vergel. – Deve procurar-se no interior, até ao fundo.
Muitos quiseram seguir o exemplo do Vergel, mas aborreceram-se da ideia quando se deram conta de que para serem mais profundos se tinham de esvaziar. Continuaram a encher-se cada vez mais de coisas…
No outro extremo da cidade, outro poço decidiu correr também o risco de se esvaziar…
E também começou a escavar…
E também chegou à água…
E também salpicou até ao exterior criando um segundo oásis verde no povoado…
- Que vais fazer quando a água acabar? – perguntavam-lhe.
- Não sei o que se passará – respondia ele. – Mas, por agora, quanto mais água tiro, mais água há.
Passaram-se uns meses antes da grande descoberta.
Um dia, quase por acaso, os dois poços deram-se conta de que a água que tinham encontrado no fundo de si próprios era a mesma…
Que o mesmo rio subterrâneo que passava por um inundava a profundidade do outro.
Deram-se conta de que se abria para eles uma vida nova.
Não somente podiam comunicar um com o outro de parapeito em parapeito, superficialmente, como todos os outros, mas a busca também os tinha feito descobrir um novo e secreto ponto de contacto.

Tinham descoberto a comunicação profunda que somente conseguem aqueles que têm coragem de se esvaziar de conteúdos e procurar no fundo do seu ser o que têm para dar…